setembro 27, 2010

(publicado no Jornal de Negócios de 17 de Setembro)

LISBOA – Esta semana a EMEL decidiu lançar uma campanha para captar a simpatia dos lisboetas que, queixa-se a empresa, a olham com antipatia. Custa-me um pouco que uma empresa, que para todos os efeitos é de inspiração municipal, invista em campanhas desta natureza. Talvez fosse mais útil perceber as razões da antipatia –  se telefonarem para o call centre da EMEL depois de terem sido bloqueados perceberão um pouco as razões desse sentimento. Com automatismos a mais e respostas a menos, o call centre é desesperante quando se tem um carro bloqueado e não se consegue perceber quando será desbloqueado. Talvez fosse também mais interessante, para combater a antipatia, que a empresa estabelecesse um prazo máximo para o desbloqueamento, depois de solicitado. Talvez também contribuísse para diminuir a antipatia que os fiscais da EMEL tivessem critérios uniformes, e se em vez de multarem quem excedeu a validade do talão de estacionamento por pouco tempo perseguissem as duplas filas. A mim um funcionário da EMEL já me disse que tendo eu sido bloqueado não tinha que refilar pela demora, insinuando que fazia parte da punição. E já nem vou falar da forma como os próprios veículos da EMEL estacionam – por vezes até em passagens de peões.


Se a EMEL tem disponibilidade para fazer investimentos como os da campanha acima referida, mais valia que o fizesse na formação dos seus funcionários, num call centre útil, na melhoria de processos, num serviço capaz aos seus clientes e no estender da acção em defesa dos moradores da cidade.


Por razões que me escapam, a EMEL não actua numa série de zonas residenciais, transformadas em parques de estacionamento de stands de automóveis usados e de visitantes da cidade, que nela não vivem.


Não iludamos a questão: Lisboa tem um problema de despovoamento e os que ainda persistem em viver na cidade são de facto prejudicados pela acção da EMEL. Quem vive em Lisboa paga aqui os seus impostos, quem tem carro registado em Lisboa paga aqui o seu Imposto de Circulação. Uma lógica de serviço aos munícipes devia fazer criar um sistema que trate de forma preferencial quem vive na cidade. E por muito que queiramos, o serviço de transportes públicos em Lisboa funciona de forma deficiente – o Presidente da Câmara, António Costa, critica ele próprio com frequência  a Carris e o Metropolitano pelas opções que tomam e que não servem aos lisboetas.


A nível automóvel o grande problema é evitar a entrada de carros de não residentes – o que a EMEL e a autarquia não têm conseguido. Por isso defendo que os residentes em Lisboa devem ter liberdade de estacionamento em toda a área municipal, mediante um sistema de controlo eficaz, e que os não residentes devem ter taxas de estacionamento fortemente dissuasoras. Essa é a única forma de defender os residentes da cidade e de evitar que os bairros residenciais sejam invadidos por viaturas de fora. Por outro lado a autarquia devia regulamentar a questão dos estacionamentos em massa – nomeadamente os relativos a stands de automóveis e estacionamentos de longa duração em bairros residenciais. Um dístico de residente, um único por contribuinte e eleitor registado no município,  seria uma solução possível. Era curioso que a EMEL fizesse um estudo sobre as situações de incumprimento – provêem mais de lisboetas ou de pessoas que vivem fora da cidade?


O que se deseja é que menos carros entrem na cidade, é que os cidadãos de Lisboa tenham direitos que são uma extensão da forma como contribuem para a cidade – e que por isso mesmo não podem ser vistos em pé de igualdade com os outros. Viver em Lisboa não pode ser um castigo.


Por isso a EMEL, nos termos em que existe, não tem razão de ser. É feita para punir cegamente, e não para proteger a cidade – o que quer dizer proteger quem a habita de facto. E ou se modifica, ou as suas campanhas para granjear simpatia serão apenas um desperdício de dinheiro, que afinal é de todos os que vivem em Lisboa.


 


ESTADO – Uma ex-esperança do PS, Francisco Assis, insurgiu-se esta semana contra o que designou por ataques do PSD ao Estado Social. Deixemos de lado o facto de o processo de revisão constitucional lançado pela actual direcção do PSD ter sido um gigantesco tiro no pé que parece um trabalho de contra-espionagem do PS. Passemos à substância da argumentação do PS sobre o Estado Social, mas tenhamos em conta dois períodos: os Governos Guterres entre 1995 e 2002 (sete anos) e os Governos Sócrates entre 2005 e a actualidade (quase seis anos). Nos Governos Guterres foi alargado de forma significativa o conjunto de apoios sociais do Estado, muito para além do que era razoável. O resultado foi um brutal aumento da despesa, que não foi compensado por cortes noutros sectores ou por mais receitas. A má gestão de Guterres, feita de boas intenções, mas cheia de deficientes cálculos, já se sabe que foi culpada em grande parte pela situação actual de desequilíbrio das contas públicas. E nos dois – três primeiros anos de Sócrates a imprudência nesta matéria continuou. Em contrapartida, como se tem visto no último ano e meio, quem está a cortar no Estado Social, e de forma abundante, é o próprio PS e não o PSD. A questão é clara: o PS atabalhoadamente instituíu medidas que desequilibraram o sistema – e agora – Bruxelas dixit - é o primeiro a fazer cortes, às vezes cegos como na educação e saúde, mas sendo incapaz de noutras áreas controlar o aumento da despesa pública. Por isso o palavreado socialista sobre o Estado Social é de uma enorme demagogia. Na realidade, pelo que fez e pelo que não fez, o PS tem sido o seu principal coveiro.


 


ARCO DA VELHA – O Secretário de Estado Laurentino Dias é acusado de ter instigado o imbróglio Queiroz; O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, disse que o assunto prejudicava a imagem do país; O Ministro Pedro Silva Pereira, que tutela Laurentino Dias, acha que a polémica não prejudica nada Portugal. Ninguém se entende numa casa destas?


 


VER – Imagens fotográficas de André Gomes e de Duarte Amaral Netto estão, a partir desta semana ,na Galeria Baginski, mostrando duas formas bem diferentes de encarar a utilização deste meio. Duarte Amaral Netto percorre memórias pessoais e André Gomes explora a forma como os espelhos reflectem imagens à sua volta, questionando a simplicidade do olhar . É um contraste curioso. Rua Capitão Leitão 51 e 53, no Beato.


 


LER – «Instruções Para o Cozinheiro Zen» é um texto de um monge japonês, Tenzo Kyôkun, escrito na primavera de 1237. Não se iludam sobre o título – na realidade é uma lição de vida, de organização de trabalho, de forma de pensar e agir, e é também uma delicada introdução ao pensamento Zen. A edição, da Assírio e Alvim, colecção Gato Maltês, é completada por um interessantíssimo texto de Yves Shoshin Crettaz, um monge suíço que é responsável pelo Dojo Zen, de Lisboa e que nos ajuda a enquadrar a obra original.


 


OUVIR – Belíssimo o novo CD do pianista de jazz belga Jef Neve, acompanhado pelo cantor norte-americano José James. Juntos  percorrem clássicos como «Autumn in New York», «Embraceable You», «Body And Soul» ou «For All We Know», entre outros. Neve é um pianista sensível e James é um cantor felizmente atrevido, nascido no hip-hop e que evoluiu para os blues e o jazz.


 


PROVAR – No Guarda Mor há duas coisas imbatíveis: a simpatia de Sofia Carvalho, a comandar o restaurante, e a arte da cozinheira Matilde Campos em clássicos como peixinhos da horta ou pataniscas de bacalhau. Mas tudo o resto é bom – do patê de pato com chutney que está no couvert, aos filetes de peixe galo com arroz de grelos. Ao longo dos anos o Guarda Mor tem sabido manter a qualidade, o que nem sempre acontece nesta Lisboa.   Rua do Guarda Mor 8, em Santos O Velho,  telefone 213 978 663.


 


BACK TO BASICS – A maneira de se conseguir boa reputação reside no esforço em se ser aquilo que se deseja parecer – Sócrates (469-399 a.C.)


 

setembro 14, 2010

UM ANO EM INTERVALO

(Publicado no diário Metro de dia 14 de Setembro)


 


Há um ano, a 27 de Setembro, José Sócrates venceu pela segunda vez as eleições legislativas. Lembram-se das promessas que então fez? Lembram-se do programa do PS? Lembram-se dos discursos de campanha dos socialistas? Lembram-se do horizonte radioso prometido para o país?


Um ano depois a realidade é sombria – aumentou o desemprego, diminuem os apoios sociais,  aumentam os impostos e continua a crescer a despesa pública – apesar da série de cortes no estado social que o PS já foi fazendo.


Tudo indica que os próximos 12 meses vão ser um período de vazio, um intervalo onde se irá fazer muito pouco,  num governo ainda recente mas já desgastado e incapaz de promover as reformas necessárias, incapaz de definir uma estratégia, um Governo que irá continuar mero seguidor das imposições orçamentais da União Europeia.


O pretexto para este dramático interlúdio de inacção é a próxima eleição do Presidente da República, que acabou por servir de tampão para a crise. Graças às normas constitucionais entrou-se naquele período em que,  por pior que o Governo governe, nada se pode fazer. Na prática durante um ano Sócrates tem um seguro de vida garantido pelos prazos constitucionais. Na apresentação do Orçamento de Estado de 2012, que se fará daqui a um ano, veremos qual o estado do país.


Estes 12 meses que aí vêm não vão ser fáceis. Quase de certeza existirá um agravamento – directo ou indirecto – de impostos, a classe média será mais uma vez penalizada, a despesa pública continuará a aumentar, e o Estado terá cada vez maior dificuldade em se financiar.


Em Setembro de2011 estaremos pior. Viveremos pior. Teremos menos perspectivas. O Governo, a continuar assim, continuará cada vez mais autista, incapaz de perceber a necessidade de fazer um pacto de regime claro e transparente, com objectivos, que garanta uma efectiva estabilidade, em vez desta paz poder que consome os nossos recursos e a nossa paciência. Não ter utilizado os mecanismos possíveis para assegurar um pacto de regime e um governo de maioria alargada, é uma herança que este Presidente deixa e que sairá caríssima.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 10 de Setembro)

PRESIDENCIAIS- Cavaco Silva entreteve a última semana em que podia pôr o Governo na ordem com recados à oposição. Fez uma espécie de conselho político a Passos Coelho, em matéria de orçamento, e um conselho táctico ao relembrar que o desemprego é o tema que deve ser falado e combatido na acção política. Sugeriu, portanto, uma espécie de um manual de instruções ao PSD. Pelo caminho deixou cair a dúvida sobre a não redução dos valores salariais dos gabinetes do Primeiro Ministro e do Presidente da Assembleia da República, que não foram incluídos entre aqueles que iriam sofrer cortes; depressa os visados vieram aceder ao desejo Presidencial.


No entretanto vê-se de forma cada vez mais clara que a direita não tem candidato – e não me interessam nada os motivos de origem religiosa invocados por alguns. Cavaco, como os tempos, mesmo os mais recentes, têm mostrado, é o melhor Presidente da República para Sócrates, apesar das divergências pontuais e da alguma acrimónia pontual entre os dois . E Sócrates é o Primeiro Ministro que Cavaco estima, porque lhe dá oportunidade de tomar umas posições e o poupa a recomendações impopulares.


Cada vez mais se observa como Cavaco é, de facto, o candidato do regime. Por exemplo, se fosse Alegre a estar em Belém o Plano de Estabilidade e Crescimento seria mais difícil e Sócrates começaria rapidamente a arrancar cabelos. Na realidade, não havendo candidato de direita, Cavaco Silva parece ao senso comum da grande massa central do eleitorado como o menos mau – pelo menos tendo em conta o resto do folclore indígena. Manuel Alegre é um conservador com paleio social e um lunático em matéria prática, que na verdade é o candidato do Bloco de Esquerda levemente apoiado pelo PS. Fernando Nobre foi lançado às feras, não tem programa nem bases, apenas umas vagas promessas de notáveis que muito provavelmente não se cumprirão. Na realidade Fernando Nobre é o candidato soarista sem apoio do PS nem de nenhum partido e não se percebe porque não se retira enquanto é tempo. Neste cenário Cavaco Silva está perigosamente perto de ser o candidato  que Sócrates quererá suportar , mesmo que tenha o apoio do PSD e PP. Estas presidenciais vão ser um jogo de aparências e uma prova mais da falência do regime em matéria de clareza de opções. E, claro, com Cavaco eleito Sócrates espera que o eleitorado não vote nas próximas legislativas naqueles que o levaram a Belém.


 


FUTEBOL – O caso Queiroz é um mistério que dava para escrever um policial dos bons. A Selecção Nacional foi abatida na praça pública para servir os interesses e as guerrilhas de órgãos institucionais, apadrinhados pelo Governo, caso da Federação Portuguesa de Futebol. Em vez de tomarem decisões e serem frontais, escolheram o método da conspiração como forma de actuação. Quem manda no Futebol destruíu neste último mês o pouco que restava da Selecção. Tudo isto é um espectáculo triste de mentira, hipocrisia e cobardia – nada daquilo que se espera do desporto.


 


PUBLICIDADE – Neste momento existe uma elevada probabilidade de que, no final deste ano, os valores globais do investimento publicitário em meios digitais se aproximem muito dos valores do investimento na imprensa diária. As estimativas actuais apontam para que a publicidade em canais de cabo e na rádio já tenha ultrapassado o montante dos jornais diários e a internet está muito mais próxima do que na mesma altura do ano passado. O panorama geral dos estudos e estimativas actuais é este: as estações de televisão RTP, SIC e TVI captam ligeiramente acima de metade do total do investimento e não sofrem grande alteração, os canais de cabo sobem quase 30%, os meios digitais também andam num crescimento de 30% e a imprensa diária cai cerca de 15%, depois de já ter caído no ano passado cerca de 28% em relação a 2008. Vamos ver o que os números do último trimestre do ano trazem, mas tudo indica que a paisagem do investimento publicitário no final de 2010 será bastante diferente, na repartição de volume pelos vários media, que no ano passado.


 


ARCO DA VELHA – Invocando um grande apoio a boas práticas ecológicas, a EMEL colocou 12 bicicletas para alugar que, no entanto, só podem ser usadas pelos assinantes dos seus parques e mesmo assim mediante pagamento suplementar. Sá Fernandes já pode dizer que há 12 bicicletas de aluguer em Lisboa. O ridículo mata e a EMEL cada vez se assume mais como uma empresa de fretes ao executivo camarário, cuja missão é penalizar os lisboetas.


 


VER – A retrospectiva da obra do pintor  inglês Victor Willing inaugurou esta semana na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, em simultâneo com outra exposição da pintora, «Paula Rego Anos 70 – Contos Populares e outras histórias». Willing foi casado com Paula Rego e tem uma importante e curiosa obra. Morreu em 1988 e a sua pintura tem vindo a ganhar progressivo reconhecimento. Se ainda não conhecem a casa das Histórias não percam esta oportunidade – até porque ficarão surpreendidos pelo trabalho de Victor Willing – que ficará exposto até ao dia 2 de Janeiro.


 


LER – Fantástico o número de Setembro da edição americana da revista Wired (já disponível em Portugal e no site da revista). O título de capa é uma deliciosa provocação: «The Web Is Dead» - mas lá dentro explica-se em detalhe que isto quer dizer que a Internet está bem viva. Paradoxo? – nem por isso. Levanto uma ponta do véu – a vida da internet baseia-se na tendência para cada vez existirem mais aplicações e serem elas de facto que são utilizadas e geram movimento – a Web aberta está a ser trocada por serviços mais simples e direccionados que cumprem de forma eficaz o seu objectivo  e que aliciam milhões de utilizadores. Acessoriamente existe um excelente artigo sobre a evolução provável da televisão nos próximos anos – a questão não é tanto o que se pode ver, mas como os espectadores vão ver o que quiserem. E, aqui, a internet, aposta a Wired, vai ter um papel decisivo. São dois artigos imperdíveis.


 


OUVIR – Surpreendente e inesperado o novo disco de Lloyd Cole, «Broken Record», é cheio de influências norte-americanas já que é nos Estados Unidos que ele vive hoje em dia. Longe vão os tempos de «Rattlesnakes» o álbum que em 1984 colocou no mapa Lloyd Cole e os seus Commotions. Com forte inspiração da «country» americana, Broken Record assume de forma clara o lado pop que fez a fama e a fortuna de Cole. Boas canções, produção cuidada, uma voz inesperadamente fresca. Aqui está um bom momento discográfico.


 


PROVAR – No regresso à cidade um restaurante popular com uma qualidade inesperada e uma dimensão apreciável. Fica nas traseiras da Avenida de Roma, no Largo Machado de Assis, ao fundo da Conde de Sabugosa – o Dom Feijão localiza-se no pátio de uma série de prédios novos que ali foram construídos nos últimos anos. O destaque vai para a qualidade do peixe, que permite grelhados recomendáveis e algumas boas frituras. Nas carnes umas honestas iscas e um bom cabrito assado são opções recomendáveis. Ao sábado há cozido. O restaurante tem 100 lugares, o preço é comedido, a garrafeira é extensa. É bom local para juntar vários amigos numa mesa.


Dom Feijão, Largo Machado de Assis 7D, telefone 218464038, fecha aos domingos.


 


BACK TO BASICS – Aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo – Oscar Wilde

setembro 07, 2010

SENHOR COSTA EXTINGA A EMEL!

(Publicado hoje no diário Metro)


 


O semanário «Expresso» noticiava esta semana que Lisboa é a cidade europeia onde é mais caro estacionar um automóvel nos parquímetros de rua. Ou seja, é mais caro que Londres, Madrid, Milão ou Amesterdão. Os automobilistas lisboetas, que vivem na cidade, pagam os seus impostos na cidade e trabalham na cidade, são penalizados e perseguidos.


A EMEL, uma entidade que a Câmara Municipal de Lisboa devia ter a coragem de extinguir, gaba-se de ir ter lucros record, à custa dessas tarifas altas e de abusos de poder sistemáticos – que passam por ser rápida e muitas vezes abusiva a bloquear e a multar e muito lenta a desbloquear ou a responder a queixas e protestos dos utentes. A EMEL é uma empresa que maltrata os clientes, que despreza os  munícipes e que faz campanhas de publicidade absolutamente enganosas sobre os seus métodos e fins. Basta olhar para o recente devaneio de José Sá Fernandes, que queria à viva força introduzir bicicletas de aluguer em Lisboa, talvez na tentativa de ter alguém a circular nas ciclovias que construíu de forma absurda. Quem lhe satisfez o capricho? A EMEL, claro, que lançou com parangonas o existência de doze – reparem bem no astronómico número – DOZE bicicletas para os utentes dos parques de estacionamento. E que utentes são esses? Apenas os clientes dos parques com assinatura mensal. Se isto não fosse risível seria um dramático sinal de incompetência e saloice.


Na zona onde trabalho, nas Avenidas Novas, é frequente ver os esbirros da EMEL a bloquearem carros que não estão mal estacionados, apenas excederam o tempo, enquanto assobiam perante as duplas filas. E com alguma frequência os carros da EMEL estão mal estacionados em cima de passagens de peões. Uma vez enviei uma foto de uma situação destas para a própria EMEL, protestando, e explicaram-me que os infractores estavam apenas a trabalhar e tinha sido por pouco tempo. Senhor António Costa, e não se pode extinguir esta empresa parasita? Vá lá, faça alguma coisa por Lisboa, já que tão pouco tem feito.


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Setembro)

MUDAR – Uma das coisas que mais estraga a imagem de um político (e de um partido), é a sucessiva alteração de propostas, é a falta de uma linha clara. Modificações em relação ao que é inicialmente apresentado, confusão na explicação de ideias, atropelos e zigue-zagues na respectiva comunicação, são tudo factores que levam à desconfiança e, pior, ao descrédito. José Sócrates tem sido vítima disto mesmo – prometeu muito, fez pouco, todos os dias dá o dito por não dito e apregoa o contrário se necessário for. A simples análise do percurso do actual Primeiro Ministro devia levar futuros candidatos ao lugar a terem os maiores cuidados nestas questões. Como Confúcio dizia, «estudem o passado se querem saber definir o futuro» - eis um ensinamento que os aspirantes ao poder deviam ter sempre em conta.


Contrariamente às expectativas, a nova direcção do PSD tem tido, nesta matéria,  um percurso sinuoso e que tem prejudicado a sua imagem. Primeiro, na forma como acordou com o PS  o seu apoio ao plano de restrições económicas; depois, na questão da revisão constitucional – anunciando o que se pretendia fazer para depois ir recuando numa série de pontos; e agora no tema da viabilização do orçamento – entre o discurso do Pontal e os discursos da Universidade de Verão sobre esta matéria há diferenças sensíveis.


É sempre interessante fazer testes utilizando focus groups bem estruturados para avaliar a reacção a algumas propostas e, eventualmente, face aos resultados, afiná-las. Só que o jogo de utilizar a opinião pública e o eleitorado em geral para testes pode ser fatal. Ninguém gosta de indecisos e o PSD está perigosamente a repetir a indefinição, o ajuste,  a correcção.


O fundamental seria ter uma estratégia linear simples, feita de pontos fundamentais, claros e perceptíveis, com medidas claras e exequíveis, que não tivessem que ser demasiado explicadas nem alteradas conforme a situação. Assim dá ideia de que se está a disparar um bocado à toa em diversas direcções. Este não é certamente o caminho mais seguro para construir uma alternativa credível a um Governo que, desde o primeiro dia, fez da demagogia a sua forma de comunicar: O PS prometeu mais emprego e deu mais desemprego, prometeu menos impostos e aumentou a carga fiscal, prometeu reduzir a despesa pública e aumentou-a – tudo, sempre, com o argumento de se adequar à realidade e às circunstâncias. Quem quer ser Governo, como o PSD, não devia correr o risco de, em matéria de adequação às circunstâncias, se parecer com o PS na flutuação e variação de declarações e objectivos


 


REGIME – Armindo Monteiro, que tem trabalho feito no associativismo empresarial e que dirige a Compta, deu esta semana uma entrevista a este jornal onde disse uma das coisas mais importantes colocadas na praça pública desde há muitos meses: «Gostava que em Portugal não existissem empresas de regime». Por outras palavras Armindo Monteiro veio dizer que em Portugal há empresas que se vão encostando aos partidos, e depois aos Governos, para em troca de apoios e favores, terem facilidade nas adjudicações, nos contratos e nas encomendas. Todos sabemos as numerosas histórias que sobre esta matéria se têm passado em sucessivos Governos, mas com grande peso nestes últimos anos. Cada vez que o poder está em vias de mudar de mãos, como acontecerá a médio prazo, vê-se logo uma procissão de futuros apoiantes, que vão facilitando tudo na expectativa de que mais à frente possam fazer parte do círculo dos eleitos para os bons contratos. Estas são as empresa do regime de que fala Armindo Monteiro. São uma praga, favorecida pela forma como os partidos continuam a ser financiados, como as suas campanhas, estudos e actividades se desenrolam. Quando Armindo Monteiro diz que gostava que o Estado escolhesse em função da competitividade, e não dos apoios de regime, diz uma coisa mais importante que qualquer proposta de revisão constitucional. Estas são as mudanças que interessam.


 


INCÊNDIOS – Seguindo com alguma atenção o que se passou este ano em matéria de incêndios chega-se a uma conclusão quase cristalina: bombeiros, Protecção Civil e autarcas esforçaram-se em todas as circunstâncias, estiveram na primeira linha da acção e concentraram todos os meios que podiam. É justo reconhecer que o Ministro da Administração Interna se envolveu ele próprio nos casos mais complicados e desbloqueou meios e apoios. Mas também se nota como em todo este processo os Governos Civis são de uma total inutilidade, que culminou com a extraordinária reacção do Governador Civil de Vila Real aos protestos de autarcas sobre o que estava a acontecer no incêndio que esta semana consumiu a zona do Gardunho, Boticas e Ribeira da Pena. Alexandre Chaves, o Governador Civil de Vila Real, disse em declarações à rádio, que os autarcas não tinham razão porque haviam de compreender que à noite, não se conseguia fazer trabalho de coordenação – ou seja, que à noite era impossível trabalhar e cumprir a sua missão. Os Governadores Civis são hoje meros cargos honoríficos, que se limitam a cobrar umas taxas e a estar presentes em cerimónias oficiais. A sua utilidade é mais que discutível. Extingui-los, passar muitas das suas competências para as autarquias, era uma boa forma de contribuir para diminuir a despesa pública. E não me parece que seja preciso fazer uma revisão constitucional para isso – embora possa afectar a distribuição das benesses partidárias…


 


EXEMPLO – Num recente artigo Tyler Brulé, colunista do« Financial Times» e editor da revista «Monocle», disse mais ou menos isto: As empresas de energia e telecomunicações no Brasil podem ser o motor para a economia do país, mas são coisas como a música, a moda, a hotelaria e o design que fazem com que a marca Brasil seja cada vez mais apelativa e sexy, comparando com os outros países BRIC – China, Rússia e Índia. O resumo é simples: criatividade, criatividade, criatividade; ligação da indústria com os criadores; cultura contemporânea e popular – é  isto que faz a marca de um país. Brulé tem razão.  A imagem de um país hoje passa por estes pontos – a política cultural contemporânea é isto que deve estudar, é isto que deve procurar incentivar. Quem ficar nas rotinas e burocracias antigas acaba a morder o pó.


 


ARCO DA VELHA – O caso Queiroz é todo ele um bruxedo do princípio ao fim. Mas uma coisa é certa: Ricardo Araújo Pereira é quem melhor resumiu a situação, comentando que Carlos Queiroz só joga ao ataque em entrevistas e declarações a órgãos de comunicação.


 


LER – A edição de Setembro da «Monocle» tem como tema de capa o rebranding que a revista entende ser necessário fazer à Grã-Bretanha. Vale a pena ler porque muito do que lá está escrito se podia aplicar a outros locais, Portugal incluído. Só por curiosidade esta edição da revista tem artigos sobre o Brasil, Angola,  Moçambique e  Macau, mas a única referência a Portugal , meio lateral, vem do elogio ao novo disco dos Walkmen, intitulado «Lisbon».


 


OUVIR – A mais recente criação de Keith Jarrett com Charlie Haden é o CD «Jasmine», por acaso o primeiro disco de ambos que é exclusivamente para piano e baixo. O disco é também o primeiro registo de estúdio de Jarrett nos últimos 12 anos. O repertório para este duo piano/baixo é baseado em standards norte-americanos e baladas, de diferentes épocas. O entendimento entre os dois músicos, cuja ultima gravação em conjunto tinha sido há cerca de três décadas, é perfeito mas nada rotineiro – na realidade a improvisação joga um papel importante e há momentos em que se torna evidente o gôzo que os dois estavam a sentir com a música que estavam a tocar. (CD ECM, na FNAC).


 


BACK TO BASICS – O único encanto do passado é que já passou – Oscar Wilde


 

agosto 31, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Agosto)

IMPRENSA – Este jornal de papel que temos nas mãos é um bom modelo de segmentação. Não é por acaso que a imprensa económica conseguiu manter a sua circulação – é uma informação especializada, numa época em que a crise leva mais pessoas a quererem ter um conhecimento mais detalhado de todo o universos empresarial e económico. Portugal é um caso interessante deste ponto de vista, em termos de estudo dos comportamentos dos leitores. Olhamos à volta e vemos uma imprensa desportiva sólida, liderada pelo “Record”, porque trata em profundidade um tema específico que é o desporto; vemos uma imprensa económica que mantém e reforça audiências porque trata de uma area  bem segmentada; e na imprensa diária a liderança pertence a um jornal que publica informação sobre todas as áreas mas que é, curiosamente, o que mais atenção dedica a noticiário local de diversas regiões – para mim continua a ser essa a chave do sucesso do “Correio da Manhã” (nota – pertence ao mesmo grupo de media que, entre outros, edita este “Jornal de Negócios” e o “Record”). Ao mesmo tempo assistimos a um declínio dos jornais diários de referência, que não têm sido capazes de estudar e seguir o comportamento dos seus públicos-alvo, e à manutenção de um jornal semanal de referência (o “Expresso”), que tem até reforçado o seu papel institucional. Finalmente temos as duas principais revistas semanais de informação com números que há uns anos seriam considerados demasiado optimistas. Serve tudo isto para dizer que em Portugal o papel continua a ser um suporte de informação com peso e valor, mais acentuado quando a segmentação de cada produto está bem conseguida. Mas como será o futuro?


Um estudo publicado esta semana na Austrália considera que naquele país os jornais, na sua forma actual, estarão condenados na próxima década. Surgem cenários de e-readers, sucessores do actual ipad e dos tablet PC, à venda por dez euros daqui a uma dúzia de anos. Em todo o mundo, e não só na Austrália, em 2020 estarão a entrar na vida activa todos os que já nasceram num mundo digital – que sempre usaram computadores, que sempre procuraram programas de televisão for a das estações tradicionais, que procuram, usam e convivem desde sempre com a informação e os dispositivos digitais. A mudança geracional vai ter enormes consequências nos próximos dez anos e há especialistas que dizem que a partir de 2015 (quando os nascidos em 1990 tiverem 25 anos), a aceleração das alterações de padrões de consumo e comportamento sera brutal e com consequências ainda agora ignoradas. Seja como fôr é certo que a informação irá ser cada vez mais segmentada, procurando ir de encontro aos gostos individuais das pessoas, terá que ter cada vez mais um âmbito local para poder responder aos interesses práticos dos consumidores e será cada vez mais feita de forma interactiva com os leitores ou espectadores. Parece também seguro que a próprio modelo de negócio dos media reforçará nos próximos anos a importância dos conteúdos, da sua utilização em diversas plataformas e também a forma como utilizam as redes sociais. O futuro próximo na area dos media irá conhecer grandes transformações, mas a procura pela informação continuará. É uma questão de as empresas de media conseguirem alterar o seu modelo de negócio sabendo que no final da presente década o mundo terá mesmo mudado. E, por muito que isto custe, não é certo que o papel sobreviva nestes processos de mudança. A mudança de geração em idade activa e de consumo vai trazer esta mudança inevitável. Mais vale prepararmo-nos para ela.


 


PRESIDENCIAIS – Tudo indica que vamos ter uma presidenciais animadíssimas: entre quatro a seis candidatos à esquerda e um ou dois à direita. Se Cavaco fôr sózinho, à direita, pode bem acontecer que ganhe logo à primeira volta. Se houver outro candidato no seu terreno político é quase certo que teremos uma disputada segunda volta. Já aqui o escrevi uma vez – surgirem vários candidatos é natural, é positivo e é uma consequência da democracia. Da mesma forma que não gosto de um regime de partido único também não me apetece uma eleição de candidato único, seja de que lado fôr. O actual cenário politico desgasta quer Cavaco quer Alegre; Cavaco porque o seu imobilismo e a sua visão restritiva dos poderes presidenciais face à crise arrastada deixa dúvidas na sua base de apoio sobre a utilidade da sua reeleição; e Alegre porque terá pela frente uma governação do PS que em matéria orçamental e de reformas colide com as suas propostas políticas mais emblemáticas. Cavaco e Alegre estão prisioneiros da crise e dos compromissos do regime. Os outros candidatos não, e esse é um factor certo de perturbação na primeira volta  - que bem pode vir a ter efeitos na definição de quem fica apurado para a segunda volta das presidenciais.


 


ARCO DA VELHA – Primeiro surgiram as questões sobre o que devia ou não devia estar no Orçamento de Estado; depois retomou-se a polémica sobre a revisão constitucional. Pelo meio foram surgindo intrigas e, dos dois lados, o tom de voz foi subindo. A crise política existe e o único calmante que tem é o facto de o governo estar paralisado e inoperante o o PSD ainda não se sentir em condições para ir a votos. De modo que é uma crise sem resultado à vista. Ir-se-ão atacando até se acabar naquele final bem português: agarrem-me senão eu bato-lhe.


 


OUVIR – O mais recente disco do pianista Ahamad Jamal, “A Quiet Time”, é um exemplo de como a criatividade e a invenção se podem ir desenvolvendo ao longo da vida de um artista. Jamal tem agora 80 anos e a sua carreira de músico de jazz começou no início da década de 50 do século passado, há 60 anos. É impressionante ouvir este disco, maioritariamente de composições originais do próprio Ahmad Jamal, e observar a sua frescura e a intensidade com que continua a tocar piano, e sobretudo a integridade do seu estilo, sempre acompanhado por um trio. Os meus temas favoritos são “Paris After Dark”, “Poetry”, “My Inspiration”, “A Quiet Time” e a versao de “I Hear A Rapsody”, um tema popularizado por Jimmy Dorsey. CD Dreyfus Records, na FNAC


 


VER – O fotojornalista Alfredo Cunha apresenta no Arquivo Fotográfico de Lisboa uma exposição retrospectiva intitulada “Estamos no Mesmo Sítio 1970-2010”, que assinala os seus 40 anos de trabalho enquanto reporter fotográfico e a doação do seu espólio ao arquivo. Alfredo Cunha começou no Século, trabalhou em diversos jornais diários, passou pela agência noticiosa, e trabalhou para numerosos jornais e revistas, sempre acompanhando a actualidade com um olhar muito particular e próprio. As suas imagens são de um observador, não neutral, com capacidade de contar uma história numa imagem. A exposição está até 8 de Setembro e o Arquivo Fotográfico fica na Rua da Palma 246 com um horário pouco prático: de terça a sexta das 10 às 18h30 e dois sábados por mês até às 17h00


 


PETISCAR – O Xica Bia, em Setúbal, oferece petiscos de origem alentejana numa cidade onde o peixe costuma ser rei. Aqui também há peixe, mas o interesse está noutras coisas, como uma sopinha de beldruegas, uma açorda de bacalhau ou um muito simples e superiormente confeccionado cozido de grão. Ao comando das operações, há mais de uma década, está António Saião, natural de Serpa, que orienta a sala de forma atenta, procurando sempre ver se algum cliente precisa de mais alguma coisa. As entradas são muito boas, desde os enchidos fatiados até uma pasta de linguiça, passando por uma saladinha de orelha de porco. A garrafeira é sólida e a preços sensatos. A sala é confortável, espaçosa, bem recuperada para a função. Decididamente um sítio a manter em agenda. Avenida Luisa Todi 131 (junto ao Pingo Doce), telefone 265 522 559.


 


 


BACK TO BASICS – Estudem o passado se querem saber definir o futuro – Confúcio


 

agosto 23, 2010

(Publicado no Jornal de Negocios de 20 de Agosto)

O PONTAL – A política faz-se com emoção, faz-se com comunicação, faz-se com paixão e entusiasmo. Só lógica não chega. O discurso de Pedro Passos Coelho no Pontal foi um exemplo de lógica e um desastre de comunicação – à meia noite de um sábado a meio de Agosto esteve mais de dez minutos a falar do enquadramento geral das coisas e o resultado é que a parte mais importante do discurso já não foi transmitida em directo pelas televisões. Se o objectivo era colocar a posição sobre o orçamento de Estado nos jornais e nos telejornais posteriores, mais valia tê-lo feito logo no início. Falou, bem, da justiça, mas esqueceu a educação. Saltou demasiados temas.  Em termos televisivos a entrada do líder podia ser um bom momento, mas aqui, na sua ânsia de unificar o PSD e não perder apoios internos, Pedro Passos Coelho resolveu dividir a sua entrada com Mendes Bota, que para muito eleitorado próximo do PSD é um exemplo daquilo que não se deseja. Mas acima de tudo o comício esteve mal encenado e Passos Coelho tem pela frente o desafio de ser capaz dedar emoção a boas ideias. Se quer disputar eleições, o que acontecerá mais cedo ou mais tarde, mais vale começar já a pensar que precisa de sair das fronteiras do seu partido para ganhar, precisa de entusiasmar as pessoas. Não é fácil, mas sem essa capacidade de comunicação que a emoção proporciona, será muito difícil mobilizar eleitores para o seu projecto. Até agora Pedro Passos Coelho federou as facções internas, mas como adiante provavelmente se verá, é uma unidade fraca, que tem o ónus de tornar desconfiados os que não pertencem ao PSD. Há demasiada confusão dentro do caldeirão, e todos estes pequenos incidentes, desde o atabalhoamento da proposta de revisão Constitucional, à encenação escolhida para o Pontal, mostram isso mesmo. Os independentes nunca gostam do aparelho. Os líderes precisam dele. Gerir o equilíbrio de forma eficaz é o que tem faltado a este PSD e isso é preocupante e um mau sinal de como se encara a participação dos cidadãos que não querem estar nos partidos.


 


AUDIÊNCIAS TV – A TVI desencadeou uma tempestade sobre a medição de audiências. Convém recordar que a medição é feita da forma que actualmente existe porque os canais generalistas de sinal aberto assim diligenciaram há uns anos. Está em curso, desde há meses, um processo de revisão do sistema de audiometria, que tenha em conta a nova realidade do cabo, das caixas digitais que já estão num número significativo de casas, a eventualidade da proximidade e expansão da TV via internet e, claro, a atrasadíssima e já quase inútil televisão digital terrestre. A TVI veio a terreiro gritar que o rei vai nu porque ficou com o corpinho a descoberto – José Eduardo Moniz nem há um ano saíu e, nesta altura, em termos de share, a TVI já tem muitos dias em que não se pode gabar de ser líder. Mas tirando as dores de alma da TVI, o que verdadeiramente interessa é assegurar que o futuro sistema de medição de audiências tenha em conta o peso crescente dos canais por assinatura, que claramente são os mais prejudicados no sistema actual. Há quem diga que uma medição rigorosa daria aos canais comerciais em sinal aberto um share conjunto que andaria entre os 55 a 65% do número efectivo de telespectadores, contra os cerca de 75 a 80% actuais. O que se deseja é uma amostra maior, melhor, que permita segmentar e estudar de forma mais precisa quem vê TV. A televisão, em Portugal, entrou na era da segmentação de públicos e, se o próximo modelo de estudos de audiência não tomar isto em conta, toda a gente vai continuar a viver num grande engano.


 


ARRÁBIDA – Não percebo como se deixou chegar a Arrábida ao ponto em que está. Entre os fundamentalismos dos responsáveis do Parque Natural – que como este ano se tornou dolorosamente evidente têm um efeito contrário ao pretendido – e a total inoperância do Instituto de Conservação da Natureza , a Arrábida é actualmente o espelho não de uma protecção ambiental bem sucedida, mas de medidas administrativas que por acção, omissão e negligência provocaram uma situação de facto que é de abandono do património natural, histórico e cultural da região. A incompetência dos responsáveis, aliada a uma leitura messiânica da protecção baseada no afastamento de visitantes  levou à penalização e perseguição da utilização pública de espaços naturais. Na Arrábida as autoridades preocupam-se em perseguir as populações e as suas actividades tradicionais, enquanto implicitamente defendem as actividades agressoras do ambiente, como a cimenteira, dando-lhe o aval do Estado através dos contratos de co-incineração. Na Arrábida o Estado nem sequer assegura vigilância e limpeza eficazes – como este ano dolorosamente está à vista de todos. Para quando um inquérito aos responsáveis do Parque Natural da Arrábida?


 


REALIDADE - Um mês de floresta a arder, um mês de aflições, mortes, prejuízos, esforços. Um país virado para a floresta e de costas voltadas para o mar. O mar, que não arde, podia ser a nossa riqueza maior, gerava mais emprego e criava riqueza, numa zona económica exclusiva maritima extensa cuja exploração nunca mais é encarada como deve ser. Uma das más heranças para as próximas gerações é a forma como temos desprezado o mar. O nosso mar.


 


LER – Muito útil nesta encruzilhada em que estamos, “Portugal em Números”, o terceiro volume da colecção “Ensaios da Fundação” (Fundação Francisco Manuel dos Santos). Da responsabilidade de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, “Portugal em Números” faz uma compilação útil e actualizada dos principais indicadores, que nos permtem ter uma noção do que é a nossa verdadeira situação para além da demagogia dos politicos.


 


OUVIR – Decididamente o disco deste verão é “The Suburbs” dos canadianos Arcade Fire. Canções simples e eficazes, letras que são mini narrativas do quotidiano, arranjos simples e criativos, de que são bons exemplos os temas “Half Light” e “Spraw”, divididos em duas partes, cada um, numa invulgar e bem conseguida exploração de novas fornteiras formais da canção. Há canções excepcionais, desde logo “The Suburbs” ou “City With No Children”, mas na realidade este album dos Arcade Fire é uma colecção de temas que se podem ouvir, vezes a fio, sempre com um sentimento de descoberta. Claramente um dos melhores discos deste ano.


 


PETISCAR – As sardinhas, este ano, estão como os melões – andam incertas e parece que lhes falta qualquer coisa. Mas mesmo assim, esta semana comi as melhores sardinhas deste Verão num restaurante, simpático, à beira da estrada, entre Palmela e Azeitão. Chama-se “Retiro do Gama” e tem no comando das operações Carlos Gama. Eis um caso em que o dono está atento aos comensais, a ver o que pode faltar em cada mesa, a orientar o serviço dos empregados. Um exemplo para outros locais de restauração onde o serviço ao cliente é coisa ignorada. As sardinhas vinham perfeitas, pele estaladiça, a saltar, fresquíssimas, assadas no ponto. Grelhadores há muitos, bons mestres de grelha há poucos e o “Retiro do Gama” tem uma boa grelha. Ao longo do último ano tenho assistido à transformação do espaço. Carlos Gama nestes tempos de crise é um exemplo: aos poucos foi reinvestindo no espaço – melhorou e ampliou a esplanada, de tal maneira que agora quase se esquece estarmos à beira da estrada. Mas como nem só de grelha vive um restaurante ha opções como uma caldeirada à antiga, um ensopado de enguias e um arroz de lingueirão que também dá que falar. Aberto aos almoços de terça e domingo e aos jantares de quinta a domingo. Retiro do Gama , Avenida Visconde de Tojal, Cabanas,  Quinta do Anjo, telefone 937841997.


 


 


ARCO DA VELHA – Um país que fecha escolas primárias em vez de fazer uma reforma do ensino médio, técnico e superior está a brincar com o futuro à custa dos nossos impostos.


 


 


BACK TO BASICS –  A História da Humanidade é cada vez mais um confronto entre a educação e a catástrofe, H.G. Wells



 


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Agosto)

 


LISBOA -Este ano o trânsito nas entradas e saídas de Lisboa diminuíu menos do que é costume nos meses de Agosto. A cidade tem menos gente e está mais inactiva – apesar da quantidade de turistas que se vêem em todo o lado.  A programação  de actividades de entretenimento tem outra vez maior incidência em Junho e Julho – às vezes demais – e de menos em Agosto. A cidade – a sua Câmara e os organismos a ela ligados – preferem ir de ferias no mês quente e esquecem quem fica – ou visita – a cidade. O Terreiro do Paço é um deserto deplorável que nestes dias de calor parece um grelhador. Uma praça lindíssima apresenta-se como um vazio inóspito e insuportável, fruto de incompetências variadas e do eterno deixa andar desta autarquia. A programação das actividades na cidade podia ter em conta as modificaç\oes da sua população residente e visitante – mas não faz isso por puro desleixo ou, admito, por crassa incompetência. Mesmo aquilo que existe e vale a pena conhecer está mal divulgado – a actividade de comunicação e de publicidade das entidades públicas é um exemplo de como se estraga muitas vezes o bom trabalho de concepção e programação por falta de ousadia e aposta em mostrar de facto o que existe. Lisboa tem em numerosas instituições coisas a acontecer que ficam apenas para os iniciados – o desprezo pela captação de públicos é sistemático. Ninguém perceberá que assim o investimento de produção é deitado ao lixo? Que se investiu a pôr de pé iniciativas que depois não são publicitadas devidamente?


 


PARIS - Durante este ano cerca de 20 filmes estrangeiros estão a ser rodados em Paris e a isto devem ser acrescentadas algumas séries de televisão. O facto não se deve às belezas da cidade nem à elegância dos seus habitantes. A resposta é simples: incentivos fiscais. A FilmCommission local conseguiu um desconto de 20 por cento nos impostos aplicáveis – à semelhança do que existe em algumas outras cidades europeias. Paris conseguiu assim tornar-se tão competitiva que este ano decorrrerão filmagens em 330 dias, gerando uma facturação de 100 milhões de euros em técnicos e empresas especializadas locais. O objectivo dos responsáveis é conseguir atingir 200 milhões de facturação nas equipas e empresas locais por parte dos produtores estrangeiros. A isto devem acrescentar-se todas as facturações realizadas em hoteis e restaurantes, que nem sequer são contabilizadas para este efeito. Quando dentro de meses o realizador francês Luc Besson inaugurar o seu novo estúdio de grandes dimensões, Paris ficará, em termos de facilidades técnicas, em pé de igualdade com Londres ou Berlim. Para o registo é bom que fique ditto que em Portugal tem sido sempre impossível de montar uma Film Commission que tenha para oferecer incentivos fiscais porque nos últimos 25 anos todos os titulares dos Ministérios das Finanças recusaram sequer discutir esse assunto.  Já agora Portugal tem a melhor luz, o melhor clima e tinha (porque entretanto algumas se desfizeram) grandes equipas técnicas. Portugal – e Lisboa em particular – tinha tudo para poder ser um polo de atracção para produções internacionais. Só não tem visao – na Câmara e no Governo.


 


 


ESTRANHO – De tudo o que se vai lendo e sabendo a actuação de Cândida Almeida no processo Freeport merecia ser investigada. Com os dados que existem é lícito questionar se ela manipulou e condicionou as investigações, se o fez por razões políticas, se escolheu esse caminho por instruções governamentais ou por simpatias pessoais. Cândida Almeida colocou-se a ela, e pior ainda, à justiça, na posição de não ser credível e de ser suspeita de parcialidade no seu juízo.


PETISCAR – Nestes dias quentes, se estiver em Lisboa, aventire-se ao Lumiar, perto da Alameda das Linhas de Torrres, e vá experimentar o restaurante Quinta dos Frades. A sala é acolhedora e bem fresca, o serviço é absolutamente impecável e a orientação culinária é do chefe Chakall. Destaque positivo para a qualidade do serviço dos vinhos, com os tintos à temperatura perfeita para esta altura do ano.


Num destes dias ao almoço resolvi experimentar o Bife Amália, um belo pedaço de lombo, competentemente temperado e confeccionado, serviço com um ovo de codorniz a cavalo, um pouco de presunto de boa qualidade, esparregado belíssimo e umas batatas épicas. Durante o mês de Agosto há uma oferta de degustação de champagne Gosset, acompanhado por umas tapas soberbas.  No fim a conta não é pequena, mas tendo em conta a qualidade geral, é ajustada. O Quinta dos Frades fica na Rua Luis de Freitas Branco 5D, telefone 21 759 89m80, tem área para fumadores e informações complementares em www.quintadosfrades.com


 


DESCOBRIR – A edição de verão da Monocle deixou o seu formato habitual e é um belo jornal, de 64 páginas, em bom papel, dedicado ao Mediterrâneo. Tyler Brulé, o fundador e editor da Monocle, explica que tomou a decisão de fazer ium jornal para as pessoas o poderem levar para a praia ou a piscineasem medo de lhe cair água em cima. É convenientemente agrafado, tem numerosos artigos de interesse, de sugestões de visita até gastronomia (receitas incluídas) ou até memorias históricas dos vícios das civilizações mediterrânicas. Tyler Brulé diz que com esta edição se consegue fazer o que é imposssível com um iPad – lê-lo em qualquer local ao sol, dentro de água, sem medo de estragar nada. Pelo menos ele merece um elogio pela forma como nesta época digital se agarra ao papel de jornal.


 


LER – Kjell Askildsen é um escritor norueguês que se tornou conhecido pelos seus contos, curtos, minimalistas, cheios de humor e ironia. “Um Repentino Pensamento Libertador”, é uma recolha de contos de diversas épocas da sua carreira literária e é um livro absolutamente delicioso para ler nestes dias quentes. Uma dúzia de contos, cada um deles com dez a 15 páginas, todas as histórias deliciosas. Lê-se um conto entre dois mergulhos, e vai-se para o mar sorridente.


 


OUVIR – Wynton Marsalis convidou Paco de Lucia para embarcar com ele numa experiência, partilhada com a Orquestra Jazz At The Lincoln Center , baseada na exploração das possibilidades de cruzamento do jazz com música tradicional espanhola , do flamenco ao folklore basco. Claro que podemos pensar que “Sketeches of Spain”de Miles Davis teve alguma influência nesta experiência, mas a verdade é que este “Vitoria Suite” é um disco arrebatador e um exempçlo de que o jazz continua a estar aberto a fazer experio~encias. Duplo CD com um DVD suplementar – 2Vitoria Suite”, Jazz At Lincoln Center, with Wynton Marsalis, featuring Paco de Lucia” Edição Universal/ Emarcy, na FNAC.


 


ARCO DA VELHA –nPinto da Costa defende Carlos Queiroz; O PS vai expulsar uma centena de militantes por actos praticados nas ultimas eleições; Documentos sobre o Freeeport em que aparece o nome de José Sócrates não estão no processo e encontram-se no cofre da PJ de Setubal.


 


BACK TO BASICS –  A Europa foi criada pela História; a América pela filosofia – Margaret Thatcher


 


 

agosto 06, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 6 de Agosto)

BANANAS - Em pleno ano das comemorações do centenário da regime republicano devo aqui agradecer ao Procurador-Geral Pinto Monteiro o facto de ter demonstrado cabalmente que, afinal, somos uma República das Bananas. Agora, apropriadamente, pode dizer-se que vivemos sem rei nem roque. A entrevista que o Procurador-Geral deu esta semana é elucidativa da degeneração do sistema judicial – na realidade depois desta entrevista, e sem exagerar, percebe-se que estamos perigosamente em vias de deixar de ser um Estado de Direito.


Os problemas na Procuradoria vêm de longe e são anteriores a Pinto Monteiro. Tudo o que ele descreve na referida entrevista pode ser repescado ao longo dos anos – as guerras internas de poder e de protagonismo, as fugas selectivas de informação, os conflitos com a Polícia Judiciária, a politização da justiça e a judicialização da política. Na realidade a Procuradoria tem servido para tudo isto, tem sido uma espécie de viveiro de atentados ao Estado de Direito, de desrespeito pelos cidadãos. Como se pode resumir o que tem acontecido ao longo dos anos? -  investigações longuíssimas, muitas vezes espalhafatosas demais, que numa percentagem acima do que é aceitável resultam em quase nada. O efeito disto é simples: descredibiliza a justiça, faz os cidadãos ficarem mais desconfiados e torna evidente que por detrás de tudo isto há jogos de poder e manobras políticas. Arrisco-me a dizer que este caso ainda pode vir a abrir uma crise política de contornos e consequências imprevisíveis. Num momento em que todos os actores do regime tinham decidido entrar em pausa na sucessão de crisezinhas que desde as últimas eleições marcam a política portuguesa, esta caso traz para primeiro plano a absoluta falência do sistema judicial e as interferências da política na magistratura e vice-versa. O Primeiro Ministro veio-se gabar do fim do processo Freeport. Falou cedo demais, como agora se comprova.


 


CLIENTE – Ser cliente em Portugal, de empresas em regime prático de monopólio, é uma grande maçada. Nesta semana tive ocasião de sentir a atenção que a EDP dedica aos seus estimados clientes. Por volta das cinco e meia da tarde fiquei sem energia eléctrica em casa. Do número de atendimento das avarias disseram-me que existia um corte de energia naquela zona, devido a um problema num posto de transformação, onde já estava um piquete. Afirmaram que cerca das 19h00 contavam ter a avaria resolvida. Na realidade nada disso aconteceu e, a partir de cerca das 21h30, já noite portanto, tornou-se impossível contactar o número de informações sobre avarias – um número que é anunciado estar disponível 24 horas por dia. Fiz numerosas tentativas que esbarraram sempre numa gravação  do género «este número não pode de momento ser contactado». Já passava das 23h30 quando a energia eléctrica finalmente voltou. A avaria durou sensivelmente seis horas, um terço das quais sem possibilidade de obter informação, três vezes mais que o tempo inicial estimado de reparação. Tweettei diversas vezes sobre o assunto e, um dos comentários de resposta dizia isto: o grande problema é que uma boa parte dos postos de transformação já devia ter sido substituído face aos aumentos de consumo, só que o plano de renovação é tímido para não influenciar negativamente os resultados da empresa. Pois, assim a opção é prejudicar os consumidores… Cá para mim o regulador do sector também devia analisar estas questões – forma de atender os clientes, estado de conservação dos equipamentos, exigências de cumprimento de horários e dos deveres de fornecedor.


 


CONTEÚDOS – Todas as empresas de media que se queixam de quebras em publicidade deviam olhar com cuidado para os conteúdos que estão a produzir. Todas as empresas que editam imprensa deviam pensar que os seus clientes são de facto, em primeiro lugar, os leitores e assinantes e não os anunciantes. A frase não é minha, é de Charles Townsend, CEO da Condé Nast, um dos maiores editores americanos de revistas que explicava como a missão do novo presidente da empresa, Robert Sauerberg, é fazer com que a empresa dependa menos das receitas de publicidade e mais das vendas de banca, das assinaturas digitais e, em geral, da venda de conteúdos. Os leitores são a razão de ser das publicações. Parece óbvio mas às vezes não se liga muito ao assunto.


EVITAR – O restaurante do Clube de Jornalistas dispõe de um agradável jardim , protegido do vento, que é o ideal para jantares nestas noites quentes de Lisboa. Animado e bem disposto avancei rumo ao local, de que me diziam dispor agora de uma cozinha interessante. De facto a cozinha é interessante, embora não esplendorosa. Se o balanço da noite se medisse penas pelo local e pela confecção culinária o resultado seria nota 3 num máximo de 5 e a coisa teria sido simpática. O problema é que o serviço de mesa é cada vez mais parte importante de uma refeição e esse, ali deixa muito a desejar. Comecei a suspeitar que as coisas não iriam correr bem quando percebi que o vinho não era deixado na mesa, mas sim colocado a uma considerável distância – esta finura só é possível quando existem empregados muito atentos e experientes, senão mais vale deixar o vinho convenientemente colocado junto aos comensais. A culpa não será dos jovens, certamente estagiários – os copos não eram adequados ao vinho em causa, uma nova garrafa entretanto pedida era diferente da original e encontrava-se a uma temperatura impossível. Tudo isto poderia evitar-se se os responsáveis do restaurante estivessem atentos à sala e às operações e instruíssem os estagiários. De forma que aquilo que prometia ser uma agradável noite de conversa com amigos ficou estragada pelo mau serviço. Como agora tweeto quando me aborreço, logo recebi várias mensagens a confirmar que naquele local o serviço, de facto, é para esquecer. É uma pena – o cozinheiro merecia melhor sorte. Clube de Jornalistas, Ruya das Trinas 129, telef 213977138.

LER  – Por perfeito acaso descobri uma revista sobre música que é um verdadeiro achado. Chama-se «The Believer», uma publicação originária de São Francisco. Na edição de Julho/Agosto estava incluindo um CD com uma compilação de novas bandas, desde os sul africanos BLK JKS, até rappers como Spree Wilson ou exercícios em torno da soul, dos Tendaberry e até M.I.A, por estes dias no Sudoeste. O disco vale mesmo a pena e só por si justifica a compra da revista – que por cá está á venda a 17,50€. Além do disco, outros motivos de interesse: um belo artigo sobre os diários de Nina Simone com algumas revelações curiosas, uma entrevista com Robert Forster, ex-Go-Betweens, vários artigos sobre cultura urbana e uma coluna de Nick Hornby com sugestões de leitura. Podem ter uma ideia digital da coisa em www.believermag.com e entretanto já reparei que a revista apareceu à venda noutros pontos seleccionados especializados em revistas estrangeiras.

VER – Vale a pena descobrir os cruzamentos de Andy Warhol com a imagem fotoigrafada e filmada e, em particular, com a televisão – desde filmes que ele produziu e realizou, até um episódio da série «Love Boat» em que foi actor, passando por um videclip dos Cars ou a sua passagem pelo histórico programa «Saturday Night Live». A exposição está bem montada, é ao mesmo tempo divertida e informativa e, no fundo mostra como ele era um artista do seu tempo. Um grande e descomplexado artista pop. «Warhol TV», até 14 de Novembro, no Museu Berardo, CCB.


 


ARCO DA VELHA – O PSD caiu cerca de dez por cento em duas recentes sondagens. Será que os líderes do partido vão começar a fazer propostas em função dos resultados de estudos de opinião?


 


BACK TO BASICS – As sondagens são uma colecção de estatísticas que mostram como as pessoas realmente pensam – Stephen Colbert

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de Julho)

INCERTEZAS – Neste país tudo parece incerto. Nada é dado por adquirido. Os políticos dizem uma coisa num dia e negam tudo no dia seguinte. A incoerência e a incerteza andam de mãos dadas na cartilha que os políticos aprenderam e que usam no dia a dia. A mentira tornou-se parte da relação entre políticos e cidadãos – o rol é imenso desde promessas eleitorais não cumpridas a anúncios de medidas que nunca se cumprem, passando por zigue zagues permanentes. A realidade portuguesa dos últimos anos podia sintetizar-se assim: tudo é incerto, a única coisa certa é que Sócrates, para mal dos nossos pecados, lá continua a piorar as nossas incertezas.


A nossa justiça é incerta – é tão demorada que quando termina qualquer coisa fica sempre uma desconfortável sensação de incerteza, de desconfiança. O Freeport demorou cinco anos a instruir porque teve pressões e foi manobrado, ou só porque a máquina judicial é uma porcaria? O julgamento da Casa Pia tinha mesmo que demorar cinco anos, ou foi assim para diluir as coisas no tempo?


Os nossos impostos são incertos – se a inflação fosse medida com base no aumento da carga fiscal estávamos a rebentar a escala.


A nossa produção de bens essenciais é incerta e estranha – vejam os dados estatísticos do que importamos e espantem-se em como de repente importamos tudo e mais alguma coisa em termos agrícolas – até alhos.


Aos poucos estamos a deixar de ser um país e estabelecemo-nos como mero entreposto. A incerteza não podia ser maior.


 


ESPANTO – Foi com total perplexidade que assisti ao empenho do Ministro Jorge Lacão no anúncio da criação de um canal de televisão lusófono, feito em parceria com o Brasil e com outros países, envolvendo os respectivos serviços públicos. O homem saberá do que está a falar? Imaginará a camisa de onze varas em que se coloca? Terá alguma noção do caldeirão esquizofrénico que esse hipotético canal será? No primeiro semestre deste ano a RTP recebeu a títulos diversos do Estado 142 milhões de euros, já para não falar do que cobrou nas contas da EDP aos cidadãos. O Ministro acha que isto é pouco e quer colocar ainda mais dinheiro neste sorvedouro? O Ministro achará normal colocar mais comunicação na dependência do Estado? Alguém pode explicar ao Ministro que, para defender a lusofonia, em matéria audiovisual, é mais importante promover e estimular conteúdos audiovisuais interessantes, na área do documentário e da ficção, do que financiar plataformas de distribuição de duvidosa eficácia e discutível oportunidade?


 


 


VER – A exposição retrospectiva de Ana Vidigal, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, é absolutamente imperdível. Com uma montagem muito conseguida, que permite seguir a evolução do trabalho da artista ao longo do tempo, «menina Limpa, Menina Suja», assim se chama a exposição, é um bom exemplo daquilo que se deve fazer com os artistas portugueses, por forma a divulgar a sua obra. Isabel Carlos, que agora dirige o CAM, entrou com o pé direito e com um resultado de uma força invulgar. Cheia de referências pessoais, relacionadas com o contexto da história recente portuguesa, a obra de Ana Vidigal, percebe-se bem aqui, é um belo retrato das últimas quatro décadas portuguesas. NO CAM até 26 de Setembro


 


PERCORRER – Fazer uma exposição de veículos antigos pode não ter grande graça – ou pode ser um pretexto para um exercício criativo. Foi isto que a equipa do MUDE conseguiu de forma exemplar. A partir da colecção de scooters de um particular, João Seixas, que para o efeito a cedeu ao Museu, foi feita uma montagem exemplar. No primeiro andar do MUDE a exposição foi montada com base numa cenografia que evoca as estradas e o movimento. A colecção, mostra a evolução das scooters, por marca e nacionalidade, entre o fim da Segunda Guerra e os anos 70. Não pensem que isto é só Vespas: há de tudo, desde as históricas e potentes NSU e Heinkel, passando pelas Lambrettas ou pela muito portuguesa Carina. São dezenas de scooters, impecavelmente restauradas e todas em ordem de marcha. O MUDE teve o cuidado de fazer acompanhar a evolução das máquinas ao longo do tempo por uma série de manequins com roupa desses anos, proveniente da colecção de Moda do Museu. O comissariado é do coleccionador João Seixas e de Pedro Teotónio Pereira, da equipa do MUDE, e o título da exposição, que estará patente até 24 de Outubro, é, «Lá Vai Ela, Formosa e Segura». Termino com uma citação de um poema de António Gedeão, de 1961, evocado no catálogo da exposição:  «voando para a praia, na estrada preta/ vai na brasa, de lambreta».


 


LER – Neste momento em que se fala da necessidade de reformar o Estado Social é particularmente útil ler o ensaio da autoria do historiador Luciano Amaral, «Economia Portuguesa – As Últimas Décadas», publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. São cerca de cem páginas onde se faz o retrato da evolução da economia portuguesa dos anos 50 até agora e se analisa com algum detalhe o estado providência e os reflexos no mercado de trabalho e na educação da situação geral económica do país. «Nos últimos dez anos, em comparação com os países mais ricos, perdemos um terço do caminho que havíamos recuperado até ao ano 2000». O livro está escrito de forma acessível e a experiência de Luciano Amaral na investigação da história da economia proporciona enquadramentos fundamentais. Uma leitura absolutamente indispensável no contexto em que estamos.


 


OUVIR –Um dos melhores discos da carreira do saxofonista Art Pepper foi gravado numa sessão de estúdio inesperada, pouco depois de ter saído da prisão por consumo de droga, e num período muito conturbado da sua vida. A gravação decorreu em 19 de Janeiro de 1957 e Pepper foi acompanhado por Red Garland no piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria, três músicos que na época tocavam regularmente com Miles Davis e que eram uma das melhores secções rítmicas da época – daí o nome do disco: «Art Pepper meets The Rhythm Section». Destaque para uma versão arrebatadora de um tema de Cole Porter, «You’d Be So Nice To Come Home To» e para os temas «Jazz Me Blues» e «Tin Tin Deo», onde se sente a extraordinária sintonia dos músicos. A reedição do disco está incluída na série «Original Jazz Classics Remasters» da Concord- Universal Music e aqui surge uma registo até agora inédito, feito na mesma sessão, do tema «The Man I Love». CD disponível na FNAC.


 


PETISCAR – É sempre um prazer regressar ao La Moneda, um restaurante que combina um ar «trendy», com uma cozinha e ambiente despretensioso e preços acessíveis. Desta vez optei pelo prato do dia, que eram filetes com molho de amêndoa, e que estavam  fantásticos de estaladiço e de sabor. A sobremesa foi um inusitado mas muito agradável gelado de manjericão e a acompanhar o vinho branco da casa, um belo arinto Casal D’Além. Tudo junto somou 12,75€. Rua da Moeda 1C, telefone 213 908 012.


 


ARCO DA VELHA – Apesar da contenção o troço Poceirão-Caia do TGV arranca afinal em Setembro, anunciou esta semana o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça.


 


BACK TO BASICS – O mais importante é nunca deixarmos de nos interrogarmos – Albert Einstein


 

julho 29, 2010

VELHA ARMADILHA


 




Com a devida vénia transcrevo o excelente artigo de Luciano Amaral no diário «Metro de Hoje» - onde explica como, no caso da Constituição, a direita portuguesa caíu numa velha armadilha:



«Uma semana bastou para acalmar o
fur
or causado pela proposta de revisão


constitucional do PSD. Mas talvez valha
a pena voltar a ela mais um bocadinho.
O PSD caiu, ou quis-nos fazer cair, na
velha armadilha da direita portuguesa:
atirar-se à Constituição. Cães de Pavlov há-os para
todos os gostos: assim como a esquerda ladra logo
a quem se propõe tocar na Constituição, a direita
não deixa de babar quando alguém diz que vai
mudar a Constituição. Mas atirar-se à Constituição
é a melhor maneira de mostrar atitude reformista
sem fazer grande coisa. As constituições têm muito
de valor histórico, cristalizando o momento da
redacção. A Constituição da Irlanda, por exemplo,
o país de sucesso com quem gostávamos de nos
comparar há uns anos, foi escrita “em Nome da
Santíssima Trindade, de Quem toda a autoridade
deriva”. E está cheia de “directivas sociais”, contra
a “exploração injusta” resultante da “livre competição”.
Isto para além de belos preceitos antiquados,
como o de que “a permanência da mulher no lar
contribui para o Bem Comum”. As constituições
ocidentais estão cheias de bizarrias históricas.
A Constituição da Noruega consagra a religião
Evangélica-Luterana como religião de Estado.
A da Dinamarca consagra a Igreja Luterana
Dinamarquesa como a igreja oficial. Embora ambos
os países sejam famosos pelos “Estados Sociais”,
as respectivas constituições são omissas a esse
respeito. A 21ª emenda à Constituição dos EUA proíbe
“o transporte e a importação de bebidas alcoólicas”.
Apesar de a nossa Constituição estabelecer que
estamos a “abrir caminho para uma sociedade socialista”,
somos dos países com menor proporção de
propriedade pública. E embora a Constituição seja
muito estrita na legislação laboral, temos um mercado
de trabalho bastante flexível (embora dual:
uns protegidos de tudo, outros pelo contrário). Atirar-
se à Constituição é fácil, porque nunca resulta
em nada. Difícil é mudar certos hábitos de governação
que conduziram ao ponto em que estamos.»


Luciano Amaral

julho 27, 2010

AS LEIS E A JUSTIÇA

(Publicado no jornal Metro de 27 de Julho)


 


A agenda política dos últimos dias tem sido dominada pela questão da eventual revisão da Constituição. A questão em si é um pouco bizantina porque, em bom rigor, não é necessário de facto mexer no texto constitucional para fazer uma série de coisas que se têm anunciado - as taxas moderadoras foram introduzidas no sector da saúde sem que a questão Constitucional se colocasse. Os exemplos são numerosos. As grandes reformas que são necessárias podem ser introduzidas amanhã – se existir vontade política para tal.


O que falta em Portugal não são Leis – o que falta é cumpri-las e fazê-las cumprir. A nossa legislação é numerosa, abundante e faz as delícias dos legisladores. Mas depois muita dela fica pelo caminho – ou porque não é regulamentada, ou porque fica esquecida, ou porque pura e simplesmente ignorar as leis é uma actividade tão frequente como elaborá-las.


Isto, é claro, revela o estado do país: a prioridade devia ser pôr o sistema a funcionar, o que quer dizer, de forma muito prosaica, pôr a justiça a funcionar. O nosso maior problema é que a justiça funciona muito mal e isso condiciona tudo. Os custos sociais e económicos do mau funcionamento da justiça são a factura mais pesada que temos pela frente.


Em vez de gastar energias a fazer novas leis, sugiro aos políticos que se concentrem em fazer funcionar o que existe - até porque seria um desafio curioso para eles: por uma vez mostrariam se são capazes de conseguirem fazer alguma coisa de concreto, por alguma vez teriam a oportunidade de fazer uma reforma visível, por uma vez nós, os eleitores, poderíamos ver se eles sabem de facto trabalhar e fazer ou se se limitam a falar. É que a situação do país deve-se muito ao facto de os políticos falarem muito mas concretizarem e fazerem muito pouco. Melhorem a justiça – ela está tão mal que não há-de ser muito difícil obter alguns resultados.


Falar da revisão Constitucional é um acto meramente simbólico. Tratar da reforma da justiça seria uma acção prática de enormes e rápidos efeitos.


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Julho)

CONSTITUIÇÃO – O principal mérito do projecto de revisão constitucional que anda a ser preparado pelo PSD é o de ter colocado à discussão uma série de questões, algumas delicadas, não tendo medo de ser politicamente incorrecto e não fazendo o péssimo truque, habitual na política portuguesa, de só tomar as medidas polémicas ou falar da necessidade de fazer cortes ou reduções depois de eleições. Este é claramente um ponto a favor, como é também um ponto a favor a abertura da discussão sobre o que todos podemos esperar do Estado Social. Depois há questões, do ponto de vista da reforma do sistema político, em que não se entende bem a prioridade estabelecida, relativa às competências do Presidente da República. Fazia mais sentido, acho eu, debater questões como o funcionamento do sistema partidário, a reforma das eleições para tentar maior participação (por exemplo facilitando candidaturas independentes),  e uma abordagem séria das actualizações impostas pela evolução enorme de comunicação e das novas  possibilidades de participação desenvolvidas tecnologicamente nos últimos dez anos. Faz-me impressão que se encare como imutável o papel dos partidos e dos seus aparelhos e que se trave a abertura da política e da participação cívica a independentes – de que os partidos apenas têm uma visão utilitária em véspera de eleições. E, claro, não se entende como se fala da educação e da saúde e não se aborda de frente a questão da degradação cada vez maior do funcionamento da justiça. Mas regressemos à questão das obrigações do Estado em matéria social – o sistema inevitavelmente tem de ser revisto: não é suportável pagar ainda mais impostos em nome de um modelo que penaliza as gerações futuras e que no fundo se está a deteriorar. E não se pode falar de diminuir o Estado Social sem mostrar que ao mesmo tempo descerão os impostos – se não for assim, ninguém percebe. Não é por acaso que são os arautos da brigada do reumático, que nunca fizeram contas e que são muito responsáveis pelo estado das finanças públicas, que aparecem a gritar contra as mudanças nestas áreas. Mas é também certo que a forma como foram comunicadas as propostas do PSD – a conta-gotas, de forma desconexa, parcelar, e muitas vezes incompleta, deram azo a que a gritaria dos que nunca querem mudar nada se amplificasse. A última coisa que a reforma do Estado social precisa é que se alimente uma frente unida da velha esquerda e que se comprometa o apoio da zona central do eleitorado ás mudanças necessárias. E este ressuscitar da frente unida de esquerda poderia ser evitado se o assunto fosse bem comunicado e de forma dirigida ao alvo mais interessado na mudança – todos os que começam agora a sua actividade profissional. Espero sinceramente que a má comunicação não comprometa as boas propostas e que haja ainda o bom senso de repensar o que é mesmo importante na reforma do sistema político-partidário.


 


CRISE – O episódio da Ministra do Emprego a anunciar o que não lhe competia é apenas o sinal mais recente do desnorte e descoordenação do executivo. A realidade é esta: o Governo não está a gerir a crise, está apenas a aumentá-la e, assim sendo, mais valia pensar se em matéria de instabilidade não será mais grave manter as coisas como estão ou procurar soluções alternativas. O pretexto da estabilidade, como os números e os factos mais recentes mostram, serve apenas para deteriorar ainda mais a situação. O Governo ziguezagueia – uma coisa é o que Teixeira dos Santos diz em Bruxelas, outra é o que Ministros avulsos vão prometendo pelo país às diversas corporações de interesses. E a nova batalha pelo “Estado Social” ainda vai fazer degradar mais as coisas.


 


VER – Se por estes dias passarem por Coimbra entrem no centro da cidade, no Pátio da Inquisição, e vão descobrir o Centro de Artes Visuais, uma das consequências dos Encontros de Fotografia de Coimbra, criados e dinamizados por Albano da Silva Pereira desde os anos 80. Durante o verão podem lá descobrir a exposição «Imaginário da Paisagem», montada a partir de fotografias da colecção do BES, de nomes como Gérard Castello Lopes, Andreas Gursky, John Baldessari, Josef Koudelka ou Nuno Cera, entre outros.


 


LER – Cada crise, para além das dificuldades que provoca, é também uma fonte de oportunidades, desde novos padrões de consumo, até à criação de novas formas de trabalho frequentemente inovadoras, passando por novas infraestruturas e uma reorganização do território em função do desenvolvimento de novas actividades – este é o ponto de partida para o novo livro do norte-americano Richard Florida, «The Great Reset – How New Ways Of Living And Working Drive Post-Crash Prosperity». Editado há poucos meses este livro bem que podia ser lido por vários políticos da praça. Como Richard Florida diz, « paremos de tratar os sintomas, deixemos de confundir nostalgia com solução». Edição Harper, na Amazon.


 


OUVIR – Ao longo da sua carreira Laurie Anderson tem sido cáustica com a América, e este é assumidamente um disco político, um disco motivado pela crise do subprime e pelo colapso financeiro que se seguiu. Anderson continua com um sentido de humor apurado, que se vê logo na capa do CD, com ela mascarada, a evocar o Chaplin de «Tempos Modernos». Mas, ao mesmo tempo, Laurie Anderson continua também musicalmente a arriscar e a experimentar, sempre com o seu violino como base, recorrendo à manipulação de sons electrónicos mas também aos instrumentos primitivos de um grupo de músicos étnicos e ao talento de produtor de Lou Reed, que é casado com Anderson. Das 12 faixas há, na minha opinião, duas que se distinguem: «Only An Expert», uma composição que agarra o ouvinte do princípio ao fim, e o épico «Another Day In America», envolvente, em crescendo. «Homeland» inclui ainda o DVD «The Story Of The Lark», que aborda o processo criativo da artista e deste disco em particular. CD e DVD Nonesuch, via Amazon.


 


PETISCAR – A nova Frutalmeidas nas Avenidas Novas, em Lisboa, tem espaço amplo mas a mesma qualidade nas grandes tradições da casa que há umas quatro dezenas de anos nasceu na Avenida de Roma: os pastéis de massa tenra, as empadas de galinha, as tartes de maçã e os sumos naturais. Redescobri o prazer daqueles pastéis de massa tenra há poucos dias quando fui experimentar esta nova loja, que fica na Rua Pedro Nunes 25, esquina com a Latino Coelho.


 


ARCO DA VELHA – Apesar dos PEC’s, promessas e juras de contenção, a despesa do Estado nos primeiros seis meses do ano cresceu 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado – em números redondos mais mil milhões de euros. Em política, o que parece é: aumentam os impostos e aumenta a receita, mas a despesa não diminui, em vez disso cresce. Chama-se a isto cavar ainda mais a crise.


 


BACK TO BASICS – Ganho algum dinheiro a criticar as políticas do Governo, e depois dou-lhe boa parte do que ganho em impostos para ele continuar a fazer o mesmo – George Bernard Shaw


 

julho 20, 2010

QUAL CRISE? - UM GOVERNO EM CRISE

(Publicado no diário Metro de 20 de Julho)


 


José Sócrates gosta de se iludir a si próprio e de iludir os outros: não se cansa de dizer alto e bom som que «o país precisa de tudo menos de uma crise política», mesmo quando ela está à sua frente. O grande problema é que os seus Ministros não acreditam no seu conselho e fazem tudo, mas mesmo tudo, para tornar a crise evidente.


Querem ver o que é sinal de crise? Enquanto o Ministro das Finanças se esforça para ver onde reduz a despesa, a Ministra da Cultura vem dizer que José Sócrates a deixa gastar sem fazer cortes; Mariano Gago, Ministro do Ensino Superior, garante que o Primeiro Ministro lhe prometeu não fazer passar as Universidades por apertos orçamentais; a Ministra do Trabalho anunciou por sua conta e risco que a Função Pública teria aumentos iguais à inflação; e o Ministro das Obras Públicas tornou-se o maior trapalhão do executivo, desdizendo-se a toda a hora sobre o romance das portagens e os grandes investimentos. Quando a coisa aperta todos eles se viram para o mesmo sítio – o Ministro das Finanças que se arranje para resolver o problema.


Nas últimas semanas tornou-se evidente que há duas políticas financeiras no Governo – a que o Ministro das Finanças explica a Bruxelas e aos mercados internacionais; e a que o Primeiro Ministro atribui aos seus Ministros, rateando promessas e mais promessas sem cuidar como as cumprir.


A realidade é que vivemos numa crise política que passa pelo facto de o Governo actual ter sido eleito com um programa que é o oposto daquele que está a colocar em prática. Os eleitores não votaram nestas políticas, votaram em promessas que foram já abandonada. José Sócrates foi eleito porque mentiu prometendo o que não podia cumprir, e fez isso porque está agarrado ao poder, que quer manter a todo o custo, mesmo chefiando um Governo cujos Ministros estão em roda livre e completamente desorientados. Na realidade este Governo deixou de ter legitimidade eleitoral. Ao PS resta convencer José Sócrates que o melhor será sair, precisamente em nome de resolver a crise política que se instalou.

julho 16, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 16 de Julho)

A BILHETEIRA – O novo Director Geral das Artes, soube-se por estes dias, vai também coordenar a rede dos cineteatros sem que se saiba exactamente o que isto quer dizer, já que estas salas estão na dependência das autarquias onde estão situadas. Mas neste sector existe, em geral, uma  questão que se prende com a forma como a bilheteira destas salas é maioritariamente encarada. Um dos grandes problemas que existe vem da grande percentagem de bilhetes oferecidos, que as salas do Ministério da Cultura e  das autarquias, disponibilizam em muitas das suas actividades. A medida, que em si pode parecer bondosa, acaba por ser perversa – contratam-se espectáculos sem ter em conta o seu potencial de cativar públicos e sem os fazer passar pelo teste da bilheteira de forma real e efectiva. Na realidade a oferta de bilhetes não incentiva a formação de públicos – arranjar um bilhete à borla, para tudo e mais alguma coisa, é um desporto nacional. A consequência deste vício na borla é que, muitas vezes, é insuficientemente valorizado o acto de ir a um espectáculo e pagar por isso, percebendo que assim se está a contribuir para os custos da produção e do trabalho de todos os envolvidos, de actores e criativos a técnicos. Era curioso fazer um estudo sério, nas salas geridas pelo Estado ou pelas autarquias, que comparasse a percentagem dos bilhetes vendidos com a percentagem dos bilhetes oferecidos. Em Lisboa o caso é particularmente grave – valia a pena que no Maria Matos, no S. Luis e, de uma forma geral, nos espaços geridos pela Câmara ou a sua empresa EGEAC, se fizesse um estudo sério sobre esta matéria. Uma coisa é subsidiar os bilhetes, tentar atrair novos públicos, promover o trabalho de artistas e grupos, outra coisa é programar sem olhar à capacidade de atracção e criação de públicos. Por detrás de tudo isto ainda existe uma outra questão: o investimento e o esforço de divulgação, promoção e publicidade dos espectáculos é muitas vezes insuficiente, precisamente porque o critério billheteira é subvalorizado – a sala acaba por se encher, muitas vezes, à pressa, com recurso a bilhetes oferecidos, e o marketing cultural, na generalidade dos casos, é incipiente e frequentemente mal feito. Na realidade, é bom recordá-lo, não há bilhetes gratuitos – somos todos nós, contribuintes, que os pagamos. E a programação de todas estas salas, que deve viver do equilíbrio entre novos artistas e a manutenção de companhias e grupos existentes, e que deve ser uma das componentes de uma política de financiamento do Estado – mais que os subsídios sem contrapartidas – acaba por ser desvalorizada e secundarizada. Avançar sem conhecer a realidade da bilheteira é sempre de eficácia duvidosa. Em todas as áreas.


 


TV – Só para fazer notar que este foi o primeiro campeonato do Mundo de futebol cujas imagens puderam ser seguidas no telemóvel e em sites pelo computador e cujos resultados, protestos pelos erros de arbitragem e comentários puderam ser vistos no twitter e no facebook. Também foi o primeiro que teve transmissões mais ou menos generalizadas em alta definição e algumas em 3D e foi, ainda, aquele com maiores provas técnicas dos erros da arbitragem, com maior número de estatísticas do jogo (posse de bola, remates, etc) em tempo real. Há quatro anos quase nenhuma destas opções existia, mas agora elas tornaram-se vulgares. Muito provavelmente daqui a quatro anos, em 2014, olharemos para o que experimentámos em 2010 como agora olhamos para as nossas recordações de 2006. A televisão está a mudar e o desporto é o prato forte da mudança na lista dos conteúdos, como aqui se escrevia há umas semanas.


 


LER – É engraçado como um livro sobre o medo de voar se tornou numa atracção mediática nos últimos dias – é sinal que o problema afecta muita gente e que causa angústias variadas nos mais diversos meios. O engraçado de «Voar Sem Medo» é que está escrito quase como se fosse as instruções de um jogo, nas suas várias etapas. Às vezes um pouco técnico demais, aqui e ali a dirigir-se em simultâneo ao público em geral e a especialistas (o que não é uma boa ideia), é justo reconhecer que as indicações, sugestões, dicas e truques diversos apontados neste livro serão certamente da maior utilidade para aqueles que se sentem desconfortáveis quando entram num avião – e existe até um teste, fácil e rápido, para avaliar o grau de à vontade e desconforto de cada um face à perspectiva de um voo. Cristina Albuquerque, psicóloga de formação, tem-se especializado na área do tratamento de aerofóbicos e há duas décadas que se interessa por este problema. Quer-me parecer que este bem pode ser um inesperado best-seller. «Voar Sem Medo», de Cristina Albuquerque, edição Gradiva.


 


OUVIR -  Pensei um bom bocado antes de escrever sobre este disco – à partida tem tudo o que me desagrada (uma junção de estrelas, uma colectânea de canções óbvias, um ar de campanha «num esforço para mostrar o poder e a beleza da colaboração a nível global como um caminho radioso para a paz», citação das notas de capa). Mas no fim decidi dizer-vos que vale a pena conhecer a mais recente aventura de Herbie Hancock, que já vai nos seus 70 anos. O disco chama-se «Imagine Project» e conta com numerosas colaborações, de Seal a Jeff Beck, passando por Pink, Los Lobos, The Chieftains e Dave Matthews, entre outros. A minha escolha vai para algumas versões brilhantes, de que destaco «Space Captain», uma canção popularizada por de Joe Cocker, «Don’t Give Up», de Peter Gabriel, «Tempo de Amor», de Baden Powell e Vinicius, «The Times They Are A Changin» de Bob Dylan e «Exodus» de Bob Marley.  «Imagine Project», de Herbie Hancock, CD Sony Music, na FNAC.


 


VER – Já aqui falei uma vez da revista portuguesa «The Scope», um dos mais interessantes e arriscados projectos editoriais surgidos nos últimos tempos. É certo que é uma revista de segmento, que é um objecto quase de luxo, muito bem impresso e editado. Tem distribuição internacional, publicidade internacional e direcção de Tiago Machado. A revista sai quatro vezes por ano, a par com as estações, e este número de Verão oferece motivos de interesse que vão de textos de Brad Mehldau sobre os seus heróis na música até uma entrevista com o arquitecto Rem Koolhaas ou uma viagem pelo mundo do vinho tinto da região de Burgundy, pelo autor do filme «Mondovino», Jonathan Nossiter E, depois, claro, como pano de fundo há a paixão pela fotografia e pela imagem que é o DNA desta revista.


 


PROVAR – Esplanada da semana: em dias quentes provar uma Conchanata, na geladaria do mesmo nome, na Avenida da Igreja 28 A. Fecha às segundas.


 


ARCO DA VELHA – A senhora Ministra da Cultura emitiu um comunicado onde manifestou a sua grande satisfação pela demissão de um director geral. Depois disse que a satisfação era devida a não ter que lhe pagar indemnização. A seguir anunciou que o buraco orçamental que abriu na Cultura será resolvido pelo Ministro das Finanças como ele achar melhor.


 


BACK TO BASICS – As circunstâncias nunca devem alterar os princípios – Oscar Wilde


 

julho 14, 2010

UMA MINISTRA INCAPAZ

(Publicado no diário Metro de dia 13 de Julho)


 


A senhora Ministra da Cultura anunciou no final da semana passada que é incompetente para afastar dirigentes do seu Ministério, preferindo que eles se demitam. Isto parece-vos estranho? Eu também acho que é um pouco bizarro, mas a realidade é que a Ministra fez um comunicado onde está escrito, preto no branco: « A Ministra da Cultura confirma o pedido de demissão do Director-Geral das Artes. O Ministério da Cultura manifesta a sua grande satisfação por esta decisão, que vem permitir finalmente que a DGArtes se liberte de constrangimentos vários que têm vindo a dificultar a sua acção.»


 


Este comunicado mostra bem o estado a que se chegou na área da Cultura: uma Ministra incapaz de governar o seu próprio Ministério, que prefere deixar apodrecer uma situação a intervir, e que ao longo de meses vai deliberadamente agravando o funcionamento de um sector na esperança de que alguém se farte e resolva sair daquela casa – que foi exactamente o que acabou por acontecer.


 


Independentemente do fraco retrato que dá de si própria e da sua capacidade de decisão e de acção, o comunicado é mais grave – porque lança suspeitas, graves, sobre uma pessoa séria – Jorge Barreto Xavier, o citado Director Geral das Artes que se fartou e foi embora. E é exactamente o carácter rasca de todo o comunicado, que pode ser lido no site do Ministério da Cultura, que traça o melhor retrato do que é a actuação do Ministério da Cultura sob a gestão Gabriela Canavilhas – uma casa onde se diz hoje uma coisa e amanhã outra, apenas capaz de funcionar por impulsos externos, sem linha estratégica nem programa de acção.


 


O balanço do consulado Sócrates em matéria de Cultura é verdadeiramente desastroso – decisões de impulso, mal pensadas, falta do mínimo de coerência, inexistência de qualquer linha programática, cedência a gostos e modas, instabilidade no sector, negócios pouco claros na relação entre o Estado e grandes coleccionadores, obras faraónicas e polémicas, como o novo Museu dos Coches, desperdiçando o parco dinheiro que cronicamente existe na área da Cultura.