junho 01, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 25 de Maio)

CONFUSÃO – Numa só semana várias entidades de três ministérios desdisseram-se e contradisseram-se umas às outras. No Ministério da Economia a confusão foi causada pelo esgotamento do crédito às PME’s, que provocou posições e informações desencontradas; nas Finanças a introdução das taxas agravadas de impostos provocou uma autêntica sucessão de comunicados e despachos que criaram a maior das confusões; nas Obras Públicas as declarações sobre aumentos de preços de transportes, suspensões de planos e manutenção de planos tornaram-se a regra. Economia, Finanças  e Obras Públicas não são ministérios menores – a confusão que lá reina é sinal do caos instalado no Governo.


 


FITAS - Já se percebeu que neste Governo há dois novos Ministros que são exemplos perfeitos de erros de casting: António Mendonça nas Obras Públicas e Helena André no Trabalho e Solidariedade Social. Isto, claro, para não falar de um outro erro de casting antigo que se tem vindo a acentuar – o próprio Sócrates cujo comportamento ao longo da crise foi revelador da sua instabilidade psicológica e dos seus piores defeitos – a teimosia e a dificuldade em perceber a realidade que o cerca.


 


NEXT - A corrida pela sucessão de Sócrates no PS já começou. A dúvida está em saber se vai ser uma prova de 3000 metros obstáculos ou uma meia maratona – seja como for os treinos já começaram. A agravar a instabilidade do partido do Governo está também o caso das presidenciais, com uma assinalável falta de entusiasmo no apoio à candidatura de Manuel Alegre, um osso difícil de engolir – em qualquer caso é daqueles assuntos que vai gerar crise interna pela certa.  Vamos ver o que se passa no regresso de Sócrates da Venezuela e dos conselhos que deve ter recebido do seu amigo Hugo Chávez.


 


EURO - Uma das melhores contribuições para a compreensão daquilo que se passa foi dada pela entrevista do economista João Ferreira do Amaral ao «Jornal de Negócios» na qual explicou porque é que q nossa economia tem sido destruída pelo Euro. João Ferreira do Amaral, recorde-se, ex-conselheiro para assuntos económicos do Presidente da República Jorge Sampaio, foi das poucas vozes que em tempo devido se manifestou a chamar a atenção precisamente para os perigos para a economia portuguesa que poderiam advir da adesão á moeda única. No meio do entusiasmo europeísta não foi ouvido – e muito do que dizia acabou por se confirmar.


 


 LER – O Brasil está a fazer uma gigantesca operação de comunicação que utiliza os mais diversos recursos, não descurando nem um pouco a qualidade dos meios escolhidos e a forma como se pretende mostrar a imagem de um país criativo, moderno, divertido e evoluído. Depois de ter tido um especial numa edição recente da prestigiada revista «Monocle», eis que o Brasil patrocina a edição de Junho da «Wallpaper», uma das publicações de referência em matéria de lifestyle. Para o efeito a redacção da «Wallpaper» deslocou-se por umas semanas para São Paulo e o resultado é um número em que o Brasil expõe o que tem de melhor nos negócios, na arte, no design, na arquitectura, na moda, na comida e, claro, nas praias e na paisagem. O título de capa diz tudo: «Born In Brazil – A Warm Welcome from the most exciting country on earth». A isto chama-se uma operação especial de comunicação bem conseguida.


 


OUVIR – Joe Pass foi um dos grandes guitarristas da história do Jazz e fez fama tocando ao lado de nomes como Ella Fitzgerald, Count Basie, Duke Ellington e Dizzy Gillespie, entre outros. Mas foi com o seu segundo álbum a solo, «Virtuoso», editado originalmente em 1974, que ele ganhou verdadeiramente estatuto e reconhecimento. É uma gravação extraordinária, com versões para guitarra eléctrica do próprio Joe Pass para onze temas clássicos do jazz , desde «Night And Day» de Cole Porter até «The Song Is You» de Jerome Kern, passando por outros como «Stella By Starlight», «How High The Moon» e «Round Midnight». O disco inclui ainda uma composição de Pass, «Blues For Alican». Joe Pass foi um dos reinventores da forma de tocar guitarra eléctrica no jazz, ao mesmo tempo explorando a melodia e o ritmo, usando com imaginação as possibilidades da guitarra eléctrica e com uma técnica extraordinária – daí «Virtuoso» ser mesmo um título ideal para o disco. Através da etiqueta Concord, a Universal Music promoveu a reedição do álbum, num CD remasterizado a 24 bits na magnífica série Original Jazz Classics. Em poucas ocasiões terão oportunidade de sentir a emoção única que uma guitarra é capaz de proporcionar como neste disco.


 


PROVAR – Quando li que o Chefe Vitor Sobral tinha a supervisão da cafetaria da nova livraria Babel, perto da Praça de Espanha, fiquei com curiosidade. A livraria fica no nº 148 da Avenida António Augusto de Aguiar, mesmo em frente ao Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian cujos jardins são a vista principal da zona da cafetaria. A carta felizmente é baseada em refeições leves – saladas, sanduíches, e alguns petiscos variados. Experimentei uma bela sanduíche aberta de maçã, queijo da ilha gratinado, presunto, rúcula e hortelã e dei-me por muito satisfeito. Poderia ter escolhido uma salada de bacalhau fumado, mas fica para a próxima. E, nos petiscos, houve uma empada que também me chamou a atenção. Há sumos, vinho a copo e cerveja. É na realidade uma cafetaria, com a vantagem de ter mobiliário simpático e confortável, bom serviço e uma ementa bem construída e despretensiosa. Ainda por cima a preços decentes.


 


DESCOBRIR – Uma boa maneira de nos mantermos a par do que vai surgindo de novo no mundo da música é seguir o site MyWay em www.myway.clix.pt . Aqui pode escolher entre os géneros que preferir ou pode simplesmente deixar-se levar pelas várias pré-selecções existentes – desde as novidades até às várias estações webradio dedicadas a géneros musicais específicos e até artistas. Além disso há uma área de notícias e outras dedicadas aos próximos concertos que se realizam em Portugal. É de navegação fácil e tem um catálogo de música muito alargado.


 


CITAÇÃO - «Ricardo Rodrigues foi um ladrão. Roubou objectos que não lhe pertenciam. O resto é conversa» - Miguel Esteves Cardoso, no «Público»


 


BACK TO BASICS –   «Enforcamos os criminosos vulgares e nomeamos os maiores para cargos públicos» - Ésopo

maio 28, 2010

MUNDO TV

(Publicado no diário Metro do dia 25)


 


A SEMANA DA SIC


Vai uma guerra aberta nos canais de televisão: a SIC conseguiu o seu melhor resultado semanal do ano, com um share de 25% nestes últimos oito dias, colada à TVI que teve 26,6% e a com uma confortável vantagem sobre a RTP, que teve 22,7%, apesar dos resultados conseguidos com a final da Liga dos Campeões, no sábado. O cabo, no mesmo período, atingiu 20,7% - um quinto das audiências.


A SIC, em época de fim do enredo das novelas, teve bons resultados ao longo de toda a semana e bons números na sua programação de Domingo, graças à Gala dos Globos de Ouro. O resultado é que a SIC venceu destacada a guerra deste Domingo com 30,6%.  Nem o regresso de Marcelo Rebelo de Sousa à TVI,  embora tenha tido um excelente resultado para as circunstâncias, foi suficiente para segurar a liderança nesse dia.


Se olharmos para o top tem dos programas mais vistos da semana, quatro são da TVI (um deles o Jornal da Noite de Domingo com a análise de Marcelo Rebelo de Sousa), quatro são das SIC e apenas dois da RTP – a final da Liga dos Campeões e um Especial Informação com uma entrevista a José Sócrates em pleno período de anúncio de medidas de austeridade – nada de ficção produzida em Portugal entre os êxitos do Serviço Público – a menos, é claro, que consideremos José Sócrates um caso de ficção (mas isso é outra conversa).


No cabo também há mudanças – e esta semana a Fox ultrapassou mesmo o canal infantil Panda, e conquistou pela primeira vez  a segunda posição dos canais mais vistos em sistemas de cabo e satélite, atrás da SIC Notícias.


O mais interessante é analisar o que se passa nos lares que acedem à televisão via um dos operadores de cabo, e que são a maioria nas grandes cidades, na zona litoral e no Algarve :  já só cerca de 2/3 vêem os canais abertos – RTP 1 e 2, SIC e TVI e, quase sempre, a ordem de preferências é TVI, seguida da SIC, da RTP 1, da SIC Notícias e só depois da RTP 2.


A televisão continua a ser um bem muito consumido: a média de tempo de consumo de televisão dos telespectadores portugueses esta semana foi de 3 horas, 59 minutos e 41 segundos.


 


 

maio 21, 2010

PARÁBOLA DO BALÃO E DA DÚVIDA SOCRÁTICA

José Sócrates, voando de balão, dá conta de que está perdido. Avista um GNR, aproxima-se dele e pergunta-lhe: 
 - Pode ajudar-me? Fiquei de me encontrar às duas da tarde com um amigo, já estou meia hora atrasado e não sei onde estou...
 - Claro que sim! - responde-lhe o guarda - O senhor está num balão, a 20 metros de altura, algures entre as latitudes de 40 e 43 graus norte e as longitudes 7 e 9 graus oeste.
 - Você é da GNR, não é? - interroga Sócrates
 - Sou sim senhor! Como foi que adivinhou?
 - Muito fácil: porque o que me disse está tecnicamente correcto mas é inútil na prática. Continuo perdido e vou chegar tarde ao encontro porque não sei o que fazer com a sua informação...
 - Ah! O senhor é socialista, não é? 
 - Sou! Como descobriu? 
 - Muito fácil: porque o senhor não sabe onde está nem para onde vai, assumiu um compromisso que não vai poder cumprir e está à espera de que alguém lhe resolva o problema. Com efeito, está exactamente na mesma situação em que estava antes de me encontrar só que agora, por uma estranha razão, a culpa é minha!...

(Publicado no Jornal de Negócios de 21 de Maio)

MÚSICA - No início dos anos 80 existia uma banda pop britânica chamada Fun Boy Three, que teve algum relevo na época. Um dos seus êxitos intitulava-se «The Lunatics Have Taken Over The Asylum». Na passada terça-feira, enquanto assistia à exibição de José Sócrates na RTP, esse foi o refrão que me veio à cabeça e comecei a trautear o que lembrava dessa bela canção. Por acaso ao mesmo tempo dei comigo a pensar que aquele cartaz em que o nariz de Sócrates crescia como o de Pinóquio estava cada vez mais actual.


 


DANÇA - Talvez inspirado pelo êxito do concurso da SIC «Achas Que Sabes Dançar?», Sócrates foi para Madrid dizer que gostava bastante de Passos Coelho como parceiro para o tango – citando a velha máxima de «it takes two to tango» e sublinhando a importância do entendimento entre ele e o líder da oposição. Mas os últimos dias têm mostrado uma táctica curiosa: Passos Coelho faz um acordo com Sócrates e no momento seguinte algum Ministro vem dizer o contrário do acordado ou vem tentar esticar a corda, ou alterar os termos, prazos ou conteúdo do acordo; o passo seguinte é Sócrates arredondar o combinado, deixando espaço de manobra. Fico sempre com a impressão que isto não é descoordenação inter-governamental, é expediente para ver até onde se consegue ir sem se ser topado.


 


DIFERENÇAS - Tenho estranhado muito o silêncio à volta do furto de dois gravadores no Parlamento. Os gravadores foram furtados a dois jornalistas da revista «Sábado» por um deputado do PS, Ricardo Rodrigues, há mais de duas semanas. O PS, em bloco, veio defender a atitude do seu deputado. Ora eu acho que alguém que furta, que rouba, não é uma pessoa de bem e acho que quem defende a atitude do furto não pode ser considerado pessoa de bem. Que diria Francisco Assis se o autor do furto fosse um deputado de outro partido? E, porque se calaram, em geral, os vários partidos parlamentares sobre este caso, um furto, filmado, nas instalações da própria Assembleia? Às vezes ponho-me a imaginar o que teria sido se este caso acontecesse, por exemplo, no Governo Santana Lopes, com um deputado do PSD – e fico com a sensação de que a democracia portuguesa, os políticos, os partidos, a imprensa e a opinião pública têm pesos e medidas bem diferentes conforme a cor política dos intervenientes. Ricardo Rodrigues tem fama de ser amigo de Carlos César, o líder do Governo dos Açores, que não nega a amizade. E dizem que o homem dos gravadores mantém muita influência nalgumas decisões de organismos públicos dos Açores. Toda esta situação é muito estranha – até o silêncio do também açoreano Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.


 


BANCA - No dicionário Webster há duas definições para a palavra Bank. Uma diz que é uma entidade que «se dedica a guardar, emprestar, trocar ou emitir dinheiro, podendo conceder crédito e facilitar a movimentação de quantias»; a outra é «alguém que se dedica a gerir uma casa de apostas ou de jogo». Que recorda estas definições é o editor da «Vanity Fair», Graydon Carter, sublinhando que a primeira citação corresponde à ideia geral do que as pessoas de bom senso entendem ser um banco e a segunda é a descrição da verdadeira actividade de grande parte da banca nos dias de hoje, especulativa e arriscada. Isto é mais que um jogo de palavras – é parte da explicação dos problemas que estamos a viver.


 


LER - As estrelas do mundo contemporâneo são desportistas, músicos pop e rock e actores. A mobilidade social mais evidente e mais brusca agora é feita através de carreiras nestas áreas, fortemente mediatizadas. A capa da revista «Vanity Fair» de Junho – mês do Mundial - é uma fotografia feita por Annie Leibowitz a dois futebolistas, Didier Drogba da Costa do Marfim (joga no Chelsea) e Cristiano Ronaldo de Portugal (a jogar no Real Madrid). Ambos têm apenas vestido um slip criado especialmente pela marca que patrocina cada um, estampado com a respectiva bandeira nacional. Não deixa de ser curioso que no meio de toda a crise Portugal chegue pela primeira vez à capa de uma das mais prestigiadas revistas norte-americanas com um homem em cuecas Armani verde-rubro e com uma visível boa forma física. Curiosidades à parte, o portfolio de Annie Leibowitz é excepcional e mostra uma dezena dos melhores futebolistas que vão estar no Mundial.


 


VER – Duas curiosas exposições, radicalmente diferentes: na Lx Factory, na galeria Netcast, Inês Norton evoca em «Zoom In Zoom Out» a arte africana a partir de fotografias de Pedro Norton de Matos, usando cores fortes, colagens, motivos étnicos; na Fundação das Comunicações (R D. Luis), Daniela Ribeiro faz interpretações da visão através da utilização de peças electronicas de telemóveis numa instalação intitulada «Olho Biónico» e que é a mais conseguida mostra da artista até à data.


 


OUVIR – O mais recente disco do contrabaixista Carlos Bica foi gravado ao vivo em três concertos, na Culturgest, na Casa da Música e no Museu do Oriente, todos em 2008, e é um bom exemplo dos novos caminhos que Carlos Bica procura na sua música. Acompanhado por Matthias Schriefl no trompete, por João Paulo no piano, por Mário Delgado na guitarra eléctrica e João Lobo, na bateria, Bica mostra o seu talento de solista e de arranjador percorrendo temas da sua própria autoria (destaque para o enérgico «D.C.» e também para «Canção Número Dois» e «Roses For You»), uma composição de João Paulo, outra de Marc Ribot e uma bela versão de «Paris, Texas», de Ry Cooder. É um grupo de músicos de eleição e o resultado destas três sessões de gravações ao vivo é absolutamente fora de série. CD Cleanfeed.


 


PROVAR – Se estiver perto do Conde Redondo e lhe apetecer um sabor do Líbano vá direito ao restaurante Fenícios. Rezam os livros que a cozinha libanesa tem influências árabes, turcas e francesas, um tempero delicado de grande variedade de especiarias e ervas aromáticas. Peça um sortido de entradas para começar e sentirá a diversidade dos paladares. Depois talvez um dos típicos pratos de borrego ou carneiro – peça conselho ao proprietário que ele gosta de ajudar na escolha. Para rematar prove um doce de pistáchios. A conta é razoável, o ambiente é simpático e a experiência é muito boa. Rua do Conde Redondo 141 A, telef 212448703.


 


BACK TO BASICS – Aqueles que não economizam irão ter um futuro de agonia - Confúcio

QUEM QUER CAÇAR ANGELINA JOLIE?

(Publicado no diário Metro de 18 de Maio)


 


O próximo filme com Angelina Jolie como protagonista chama-se «Salt» e é um thriller que vai ter uma campanha de publicidade muito pouco tradicional – e que abre todo um novo campo de possibilidades. Em vez de apostarem em anúncios de página inteira nos jornais, ou excertos de trailers para publicidade em televisão, os responsáveis da Sony Pictures decidiram produzir um jogo on line com abundante recurso a redes sociais, nomeadamente ao Facebook.  A campanha teve um orçamento de produção à parte, que incluiu filmagens específicas com sofisticados efeitos especiais. Intitulado «The Day X Exists», o jogo terá nove episódios diferentes, divulgados em semanas sucessivas, com cada novo episódio sempre revelado em dayxexists.com . Quando se vai a esta página salta logo um convite: torne-se num agente secreto que participa na caça à hábil fugitiva Evelyn Salt, ou seja, Angelina Jolie.


O objectivo da Sony com esta operação, que combina um jogo on line com as redes sociais, é conseguir replicar o êxito de jogos como «Mafia Wars», que arrebanhou dezenas de milhões de utilizadores do Facebook. Desta forma o filme e a sua narrativa poderão ser conhecidos em todo o mundo por muitos milhões de potenciais espectadores, numa acção de contacto pessoalizada, que faz de cada jogador um interveniente na própria história, e espera-se alguém ansioso por ir ver o filme sobre cujo argumento esteve a jogar durante nove semanas.


A empresa que produziu o jogo, a Fourth Wall Studios, diz que o objectivo é fazer com que as pessoas falem acerca do jogo e do filme, partilhem a história e se tornem divulgadores do produto. Esta nova tendência não tem a ver com as extensões de alguns filmes em jogos para consolas – estes jogos são gratuitos e após o lançamento do filme, desaparecem. Mas o mais engraçado é que o jogo foi feito por forma a poder captar a atenção das mulheres – é que os produtores de «Salt» confiam que Angelina Jolie é capaz de atrair o público masculino, mas para captar o público feminino a aposta é «The Day X Exists» - irá uma mulher derrotar a espia Angelina Jolie on line?

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 7 de Maio)

MEMÓRIA - Há sete anos, e noutro contexto, escrevi este texto: «Das duas uma: ou isto das escutas se resolve e esclarece ou vai acabar por destruir o próprio processo onde nasceram. Das duas uma: ou o segredo de justiça começa a ser levado a sério, ou da maneira como as coisas estão hoje em dia vai deixar de haver justiça de vez.


Das duas uma: Ou este processo provoca resultados, ou o povo em geral deixa mesmo de acreditar nisto tudo.» -  Como me recordaram esta semana tudo isto se mantém terrivelmente actual.


 


POLÍTICA - A absolvição no chamado processo Parque Mayer de Carmona Rodrigues e de dois dos seus vereadores, Fontão de Carvalho e Eduarda Napoleão, volta a colocar uma questão que merece resposta: pode o sistema judicial ser manobrado para atingir objectivos políticos? Tudo indica que sim e que a queixa então feita por Sá Fernandes ao Ministério Público teve apenas intuitos políticos. A sentença de absolvição afirma ser «impossível de retirar, do comportamento dos arguidos, qualquer responsabilidade criminal». É bom recordar que  a suspeição, a acusação pública e depois o processo do Ministério Público foram a causa directa da queda prematura do então Presidente da Câmara e da eleição de António Costa em sua substituição. E já agora é bom recordar que José Sá Fernandes vai somando derrotas nos Tribunais e prejuízos à Cidade – patrimoniais no caso do Túnel do Marquês e políticos neste lamentável incidente de manipulação do sistema judicial.


 


REALIDADE - A sentença agora proferida tem, ainda, outro aspecto: os juízes chamaram - e bem - a atenção para o facto de ter sido a Assembleia Municipal de Lisboa a aprovar o negócio que levantou suspeição, considerando, preto no branco, que os deputados municipais tinham tido um comportamento pouco responsável. O funcionamento das Assembleias Municipais e a sua constituição são dos aspectos que precisam de ser revistos urgentemente. Tal como estão – e falo do caso de Lisboa, que conheço-  as Assembleias Municipais são mini-parlamentos que servem apenas para fazer desfilar mini-vaidades. Os períodos de antes da ordem do dia são ridículos e penosos, o afastamento em relação ao dia a dia da autarquia e da cidade é total e os líderes partidários limitam-se a transformar a Assembleia num palco para a afirmação das posições das respectivas agremiações sem ligação alguma com a realidade. Um estudo sobre a utilidade do tempo dispendido nas assembleias Municipais havia de dar resultados interessantes – nomeadamente na de Lisboa.


 


SEMANADA –Como bem titulou o diário «Metro», o TGV segue pela via da esquerda, graças ao apoio conjunto do PCP, do BE e do PS a esta obra; O caso do patrocínio do Taguspark a Figo, que coincidiu com o apoio de Figo a Sócrates, e que há um mês todos os envolvidos juravam ser uma coisa trivial, já provocou a queda da maioria dos membros executivos do respectivo Conselho de Administração; No mesmo dia em que se soube que Portugal é considerado dos países mais eficazes a cobrar impostos, foi também noticiado que os conflitos fiscais em tribunal subiram 14% em 2009; A primeira reacção à candidatura de Manuel Alegre veio de Fernando Nobre, que sublinhou o facto de ela ser uma candidatura partidária, com o apoio do Bloco de Esquerda – acusando ainda Alegre de andar a piscar o olho ao PS;


 


A CITAÇÃO - «Trata-se de ex-Ministros que tiveram o seu tempo» - António Mendonça, Ministro das Obras Públicas, sobre os nove ex-Ministros que vão ao Presidente da República manifestar posição contra os grandes investimentos previstos pelo Governo.


 


LER – A edição de Maio da «Monocle» é um exemplo do peso crescente do Brasil. Otema de capa é a política externa de Brasília e lá dentro está uma curiosa reportagem sobre o funcionamento do Itamarati e também uma página sobre a influência de Lula . O subtítulo diz tudo – « como o amarelo e verde estão a substituir o vermelho, branco e azul na diplomacia internacional». Outro tema imperdível nesta edição: o que faz o sucesso de um museu? – um belo dossier com uma cuidada análise de algumas das melhores coisas que se fazem por esse mundo fora nesta área e a lista dos museus incontornáveis – onde não consta nenhum português.  A directora do Museu de Design da paróquia faria bem em ler todo o dossier e em especial a parte sobre o Museu de Design de Israel. Conhecer o que se passa à nossa volta, nem que seja no Mundo, ajuda-nos a ter perspectiva – a frase também se aplica ao regedor da paróquia lisboeta, António Costa – sobretudo porque lhe fazia bem seguir a série, iniciada nesta edição, sobre os desafios que se colocam às cidades e o futuro do ambiente urbano.


 


OUVIR – Aqui há semanas um disco intitulado «Muxima», feito a partir de canções do Duo Ouro Negro, despertou-me a curiosidade e fui comprá-lo. Fiquei bastante frustrado quando o ouvi – aquelas canções que eu recordava tinham perdido alma, ritmo e entusiasmo. No entanto reganhei o sorriso quando apareceu uma colectânea, «Perfil», que agrupa as versões originais, pelo Duo Ouro Negro, de 22 dos seus êxitos, como «Eliza», «Maria Rita», «Vou Levar-te Comigo», «Mucxima» ou «Kurikutela». É nas versões originais do Duo Ouro Negro que se percebe o seu talento e a genialidade dos músicos que tocavam com eles quando estas gravações foram feitas, a meio da década de 60.


 


VER – Eu não gosto particularmente da maneira como foi instalado e vive o Museu de Design – no meio de escombros, com dificuldades de circulação, de acolhimento e de iluminação. Mas a exposição que lá foi inaugurada há dias, sobre a obra do designer português António Garcia, merece ser descoberta. Desde capas para livros a mobiliário, passando por projectos de stands em feiras e logótipos de marcas, António Garcia teve uma actividade riquíssimna e polifacetada que bem merece ser descoberta. Até 4 de Julho, na Rua Augusta 24


 


VISITAR – É uma pequena exposição – meia dúzia de desenhos cuidados e misteriosos, intrigantes, atraentes. São obras de Teresa Gonçalves Lobo, expostas sob o título «Silêncios» na livraria Babel, Rua da Misericórdia 68 – até 31 de Maio.


 


 


 


ESPLANADA – Nestes dias de sol sabe bem a esplanada «Mensagem», no Altis Belém, perto da  Doca do Bom Sucesso Experimentem as várias saladas, aventurem-se no Bife Belém e deixem-se tentar pelo rosé Touriga Franca Vale das Areias. Na sobremesa não se arrependerão se escolherem o milfolhas de framboesa. Reservas pelo telefone 210400208.


 


BACK TO BASICS –   «Cada um é tratado segundo as suas obras» , da Bíblia.


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 14 de Maio)

PUBLICIDADE   – Na minha actividade, a comunicação e a publicidade, o ano de 2009 foi difícil de passar e depositavam-se algumas esperanças de normalização em 2010. Com quase meio ano percorrido já se percebeu que o grande desejo é conseguir que não existam mais quebras de investimento. Depois de um arranque de ano promissor, a instabilidade geral tem levado os anunciantes a hesitarem, compreensivelmente, no timing das suas campanhas. Adiamentos, replaneamentos, cancelamentos são actividades que hoje em dia já quase ocupam mais tempo que o desenho normal de uma acção. O resultado de toda esta instabilidade não é bom para os anunciantes:  perca de notoriedade, diminuição de eficácia, apagamento de marcas. Recuperar o que se perdeu vai ter sempre um custo – e nem sempre vai ser totalmente conseguido.


 


DESCONTOS – O mercado do espaço publicitário em Portugal vive de tabelas que não são cumpridas e de consideráveis descontos, que responsáveis de marketing de grandes contas pensam que podem sempre continuar a aumentar. Imagino que o que vou dizer não seja muito popular junto dos anunciantes, mas aqui vai: continuar a forçar descontos tem a prazo um efeito inevitável, que aliás já se está a sentir: diminuição da qualidade de conteúdos, seja na imprensa, na rádio ou na televisão. O aumento dos descontos traduz-se na diminuição da receita dos media e isto provoca inevitavelmente uma redução dos custos. Esta redução nos custos chegou ao ponto em que, a continuar a existir, compromete a qualidade dos conteúdos - e assim irá prejudicar as audiências obtidas e, finalmente, a eficácia das campanhas compradas com o desejado desconto reforçado. Quando se compra um espaço publicitário espera comprar-se contacto com audiências. Se os descontos que alguns anunciantes insistem em reivindicar aumentarem, eles poderão comprar o mesmo espaço – mas é garantido que estarão a destruir a qualidade e a quantidade da audiência. Aconselho os adeptos dos hiper-descontos a estudarem com atenção o que tem sido o êxodo de audiências – que é real e não uma previsão. A continuarem assim arriscam-se a conseguir grandes descontos e fracos resultados – ou sejam, exagerando, arriscam-se a anunciar no deserto – um deserto de que foram também responsáveis.


 


PRESSÕES – Numa altura em que quase toda a gente cede a pressões em nome da sobrevivência, é de saudar a coragem da PT em não ceder à pressão da Telefonica, de Espanha, no caso da proposta de compra da participação portuguesa no operador móvel brasileiro Viva. Mais do que pensar nos resultados imediatos, a PT está a pensar no longo prazo, a ter consciência dos limites criados pela dimensão do nosso mercado local e da necessidade de contornar esse limites,  crescendo no exterior. Se o resto do país agisse como a PT nesta matéria talvez estivéssemos em melhor posição. O curto prazo tem sido o pecado mortal de Portugal nos últimos anos.


 


REALIDADE - Das promessas eleitorais, dos fantásticos planos feitos à pressa, passámos para um governo sem ideias, ziguezagueante, incapaz de mostrar uma estratégia. Leio nos jornais que o Governo, finalmente e de semblante contrariado, se prepara para fazer um esforço maior de reduzir o défice. Mas é com surpresa que vejo que esse esforço não é feito sobretudo de poupanças, de cortes nos custos e na despesa, mas fundamentalmente através das receitas de novos impostos. Da próxima vez que cada um de nós for votar vale a pena ver quanto se cortou na despesa e quanto se foi buscar ao aumento da receita, que é como quem diz, aos nossos bolsos. A política faz-se com resultados , com símbolos e com sinais. Um Governo que não dá sinais de querer aumentar a produtividade nem reduzir custos necessariamente está a dar um péssimo sinal para toda a sociedade.


 


FACTO  - Os consumidores domésticos de electricidade em Portugal pagam hoje mais em subsídios do que em energia eléctrica propriamente dita, mostram os dados da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), nos documentos oficiais que suportam as tarifas fixadas para 2010.


 


PREVISÃO - Na situação em que estamos faz todo o sentido ler «The Next 100 Years», o livro publicado no ano passado por George Friedman, o mentor da Startfor, uma agência privada que se dedica a recolher e a estudar informação sobre as principais tendências mundiais. Do papel dos Estados Unidos na cena mundial à probabilidade de fragmentação da China, passando pelo conflito com a Al-Qaida, até ao apagamento da Europa Ocidental face a um novo bloco centrado na Polónia, o livro, escrito de forma cativante, leva-nos até ao cenário de uma terceira guerra mundial, no início da segunda metade deste século. Com base em abundantes informações e num grande conhecimento da geopolítica, Friedman descreve as próximas décadas como se estivesse a ler uma bola de cristal – mas tendo em conta o número de vezes em que ele acertou nas suas análises ao longo dos últimos anos, mais vale tomar alguma atenção ao que ele diz.  «The Next 100 Years» - George Friedman,  na Amazon.


 


OUVIR - Gil  Scott Heron, 61 anos, não gravava há década e meia mas este novo «I’m New Here» é um belíssimo regresso, mostrando uma faceta mais intimista e melancólica de um dos precursores do hip-hop, um dos autores que melhor soube conjugar música com poesia. O título, curioso porque Gil Scott Heron faz neste disco um inesperado balanço da sua vida, serve de cartão de visita para a actual digressão que aliás passa por cá nestes dias: dia 15, sábado, na Casa da Música no Porto e dia 17, segunda-feira, na Aula Magna em Lisboa. O disco é verdadeiramente fora de série e os espectáculos têm tradição de serem memoráveis.


 


PETISCAR – O Funil está a funcionar há quase 40 anos nas Avenidas Novas com uma linha clara: comida tradicional portuguesa em ambiente confortável e recatado. Nas proximidades é do melhor que se pode encontrar, na relação qualidade-preço. Das lulas recheadas a favas guisadas com entrecosto, passando por cataplanas de borrego ou garoupa, as propostas são variadas. O serviço é atencioso e a garrafeira é razoável. Bom para uma conversa sossegada ao almoço. Avenida Elias Garcia 82 A, telef 217 966 007.


 


BACK TO BASICS –   Ter dúvidas não é uma condição agradável, mas ter certeza é um absurdo - Voltaire

(Publicado no Jornal de Negócios a 30 de Abril)

XADREZ – A notação da Standard & Poor’s foi a chicotada psicológica que fez PS e PSD entrarem de repente num cenário de total pragmatismo, à moda da «realpolitik», procurando entendimentos práticos em detrimento de bases políticas. No cenário actual esta actuação, orientada a resultados, vai proclamar a sua bondade e necessidade  para assegurar interesses nacionais, requerendo que se comprometam princípios ideológicos. Até aqui tudo bem. Mas a «realpolitik» é um jogo de xadrez feroz e tenho alguma curiosidade em ver como Sócrates e Passos Coelho vão movimentar as peças. E quem no fim termina com a desejada expressão «xeque-mate».


 


PRODUZIR – Qualquer que seja o jogo de xadrez que os políticos decidam fazer, há uma curta nota na avaliação da Standard & Poor’s sobre Portugal que, sendo cínica, põe no entanto o dedo na ferida: as medidas de contenção são boas, mas correm o risco de não favorecer o desenvolvimento da economia. No fundo há um horizonte que não pode ser perdido: quando se tem dívidas tem que se produzir mais para garantir o pagamento do que se deve; o nosso problema é que o nosso crescimento económico é baixo. Temos que produzir mais, vender mais. Isto quer dizer, como sempre e em qualquer caso, estudar e definir uma estratégia, desenvolvê-la e não andar sempre aos zigue-zagues. Parece básico mas a realidade é que isto não tem sido feito.


 


CRISE –A posição da Alemanha em toda a crise europeia é muito ditada pela proximidade das eleições regionais do próximo dia 9 de Maio, em que existe o risco de se esvaziar a coligação que sustenta o Governo de Angela Merkel. A oposição acusa a chanceler de esmagar a classe média com impostos, que no fim são canalizados para outros países. O cenário de instabilidade no Reino Unido, com os Liberais Democratas a arriscarem uma votação histórica no próximo dia 6, também condiciona o desenvolvimento próximo de uma posição europeia sobre a situação grega  - que é o mesmo que dizer sobre a crise que ameaça o euro.


 


SEMANADA –  Quem não quer saber do que se passa na Grécia nem na Europa é Manuel Alegre que apresenta a sua candidatura presidencial formalmente dia 4; a Assembleia da República foi paralisada por uma greve dos funcionários de apoio; o melhor discurso das cerimónias do 25 de Abril coube a Aguiar Branco com as suas citações de Lenine a Sérgio Godinho, mas sobretudo com a forma como gozou com o preconceito e como mostrou que a liberdade deve estar acima das ideologias; a melhor citação da semana vai para Domingos Amaral, que no «Correio da Manhã», e citando o discurso de Cavaco sobre a necessidade de Portugal se virar para o mar, escreveu: «Se formos cínicos podemos sempre lembrar que já investimos no mar muito dinheiro com a compra de dois submarinos. Se calhar é esse o nosso maravilhoso destino marítimo: usar os dois novos e caríssimos periscópios à procura de um novo milagre económico…»


 


CURIOSIDADE – As Comissões de Inquérito na Assembleia da República têm servido para evidenciar uma coisa muito curiosa: pelos vistos há imensos gestores de grandes empresas que não fazem a mínima ideia do que se passa dentro das casas que são supostos administrar.


 


 


 


VER –A partir desta semana há uma nova razão para se ir ao Lux: ver as instalações que um grupo de dez artistas plásticos lá colocou e que nos próximos dez meses transformam todo o espaço. Com o título «O dia pela noite» este conjunto de dez instalações é a forma de o Lux assinalar o começo desta nova década. De entre os artistas escolhidos estão alguns dos mais promissores da nova geração. Sem querer fazer destaques deu-me especial gôzo ver a forma como Vasco Araújo trabalhou o espaço da discoteca, como Rodrigo Oliveira interveio sobre a parede do bar principal e a cabina do DJ e como João Pedro Vale cenografou  a entrada do Lux. Mas todas as dez intervenções merecem ser vistas e vividas, do fundo da discoteca, passando por todas as escadas até ao topo do terraço. O conceito foi desenvolvido pelo Lux em parceria com a Fundação EDP - e Manuel Reis está de parabéns por mais uma grande ideia bem concretizada.


 


LER – Não é absolutamente nada inútil folhear e ler a revista «Inútil». É certo que é um raio de um nome para uma publicação, mas também é certo que o título chama a atenção e dá logo vontade de pegar no objecto para descobrir o que lá está. A «Inútil» é uma daquelas revistas movidas pela paixão de fazer e editar. A sua directora, Maria Quintans, usa a revista que criou como se fosse uma galeria onde mostra palavras, desenhos, fotografias, grafismos, textos. É como se cada novo número da «Inútil» (este, dedicado ao TEMPO, é o segundo)  fosse uma exposição colectiva onde  se exploram e mostram várias ideias e vários caminhos.


 


OUVIR – Doris Day nasceu em 1922, começou como cantora numa banda de jazz e tornou-se depois uma estrela de Hollywood. Nellie McKay é bem mais nova, nasceu em 1982, e tem desenvolvido a sua carreira como cantora e como actriz, nomeadamente em stand up comedy. «Normal As Blueberry Pie» é o título do CD que agrupa 13 temas que em tempos foram interpretados por Doris Day, desde «The Very Thought Of You» a «Crazy Rhythm» passando por »Send Me No Flowers»? ou «Do Do Do». Neste disco Nelli McKay fez curiosos arranjos e orquestrações , canta, toca piano e umas percussões ocasionais. É um disco inesperado e divertido, uma bela homenagem a Doris Day..


 


PETISCAR – Volta e meia gosto de voltar aos restaurantes que só frequento ocasionalmente, como acontece com o Casanostra. Nunca fui assíduo do local, mas das vezes que lá me sentei saí sempre bem servido. Com 24 aninhos de vida completados no início de Abril, o Casanostra está na esquina da Rua da Rosa com a Travessa do Poço da Cidade, e surgiu como um restaurante que se propunha mostrar que a comida italiana não se resume às massas e à pizza. A aposta foi bem conseguida e volta e meia ainda me consigo surpreender com pratos que não tinha provado – como uns fígados de pato acompanhados de polenta que estavam absolutamente magníficos. Feitos na frigideira, com um molho consistente e saboroso, tinham um tempero irrepreensível. Casanostra, Travessa do Poço da Cidade 60, telefone 21 342 59 31.


 


 


 


BACK TO BASICS –  Numa crise tenham em conta os perigos mas estejam atentos ás oportunidades -  John F. Kennedy

maio 14, 2010

AS TRÊS DIMENSÕES

(Publicado no diário Metro de dia 11)


 


Tudo indica que este vai ser o ano em que filmes em três dimensões se tornam verdadeiramente um hábito que cativa espectadores. As grandes estreias mais recentes têm mostrado  que o público valoriza a experiência em 3D, está disposto a pagar mais por isso e, melhor ainda, a tecnologia está a ser responsável por fazer aumentar as vendas de bilhetes um pouco por todo o mundo – Hollywood espera este ano um novo recorde de receitas apesar da crise. O sucesso obtido pela projecção em três dimensões parece radicar no facto de, graças à tecnologia, se ter descoberto um novo encanto e uma nova magia no acto de ir ver um filme a um cinema.


Na realidade o cinema não mudava muito, do ponto de vista tecnológico, desde há cerca de setenta anos, quando se passou do preto e branco para a cor; o anterior salto tecnológico tinha sido a passagem dos filmes mudos para sonoros no início do século XX; agora, com a massificação da exibição 3D, verifica-se a terceira grande evolução na história do cinema.


Claro que existe ainda o lado desconfortável e pouco estético dos óculos maleáveis em gelatina – mas isso está em vias de ser ultrapassado já que a Ray Ban anunciou que irá lançar a curto prazo óculos para visionamento 3D baseados no modelo Wayfarer e que poderão receber lentes adaptadas às necessidades visuais de cada espectador.


Jerry Katzenberg, um dos sócios da Dreamworks, ao lado de David Geffen e Steven Spielberg, considera que um dos próximos grandes negócios vai ser vender óculos 3D de qualidade a cada um de nós. Dentro de pouco tempo,  diz, cada pessoa terá o seu par de óculos, personalizado e devidamente adaptado, que levará ao cinema ou usará em casa para ver cinema ou televisão em três dimensões. Nos Estados Unidos prevê-se que até final do ano sejam investidos 1,5 mil milhões de dólares na reconversão de ecrãs de cinema para 3D e os grandes fabricantes de televisões dizem que 2011 vai ser o ano da massificação dos aparelhos de televisão em três dimensões. O melhor é começar a procurar uns óculos confortáveis…


 

abril 27, 2010

TV À MEDIDA

(Publicado no diário Metro de dia 27 de Abril)


Até me faz impressão pensar nisto – o YouTube tem apenas cinco anos de existência – o aniversário foi a 23 de Abril -  e neste espaço de tempo o site fundado por três jovens em  2005 mudou substancialmente o mundo na forma como procuramos imagens. O YouTube rapidamente se tornou numa ferramenta indispensável para revelar novos talentos na música, mas também actores, realizadores, humoristas e, claro, políticos. A campanha de Obama não teria sido a mesma sem o YouTube.


Do ensino à  política, passando por programas de televisão, spots de publicidade, imagens da actualidade, o YouTube tem tudo – ainda recentemente foi o primeiro local onde apareceram imagens de catástrofes naturais e grandes acidentes, batendo as estações de televisão.


O crescimento tem sido espantoso –  no final de 2005 o YouTube já recebia 25 milhões de filmes por dia, hoje anda perto dos mil milhões de uploads diários. Um ano e poucos meses depois de ter sido fundado, a Google comprou o site por 1,6 mil milhões de dólares – e o YouTube é hoje o terceiro site mais visto na internet, logo atrás do Google e do Facebook.


Na música podemos lá encontrar quase tudo. E na política também – desde que o YouTube se popularizou ele é utilizado para fazer declarações, deixar mensagens solenes ou apenas recolher imagens divertidas da actividade dos políticos. Uma pesquisa rápida dá a situação portuguesa: a palavra «Portugal» parece em 14 700 videos; Sócrates em 5040, Paulo Portas em 1020, Francisco Louçã em 601, Jerónimo de Sousa em 440, Pedro Passos Coelho em 154. Em compensação Herman José aparece 4310 vezes e os Xutos e Pontapés 3210. Mas na política não há quem bata Obama que aparece referenciado 101.000 vezes.


Há quem diga que o YouTube caminha para ser uma estação de televisão que cada um de nós pode programar, uma televisão á medida de cada um. Hoje em dia até filmes em alta definição já se podem lá encontrar.


O YouTube, que agora nos parece um coisa corriqueira, mudou de facto a forma como podemos comunicar uns com os outros em apenas cinco anos. E ou muito me engano ou vai estar ligado a novas formas de distribuição de imagem num futuro próximo. 

abril 26, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 24 de Abril)

 


*PORTUGAL* - Quando António Guterres chegou ao Governo o peso da nossa
dívida pouco passava dos 10% do PIB. Agora anda nos 120%. 15 anos de
estímulo do consumo, de projectos megalómanos do Estado, de negócios de
interesse duvidoso para os contribuintes, ajudaram a chegar onde estamos.
Cavaco Silva deve saber bem estes números - era Primeiro Ministro até pouco
tempo antes de Guterres se sentar em S. Bento e, com a sua formação e
atenção, certamente não deixou de olhar para os números da nação. O seu
silêncio sobre o que se passa, a forma como se esquiva a tomar atitudes
neste contexto tão difícil, dão muito que pensar. Está ele mais interessado
em ser reeleito sem grandes ondas do que em encontrar uma solução para o
desgoverno, que agora é já bem visível? Era bom que em relação à situação do
país Cavaco exibisse a mesma determinação e energia de que deu mostras
quando resolveu atravessar a Europa de carro para contornar a paragem
forçada dos aviões por causa das cinzas vulcânicas. Nunca lhe terá passado
pela cabeça a necessidade de um Governo de Salvação Nacional?


*EUROPA* - A minha geração arrisca-se a sair de cena confrontada pela
falência política da ideia da União Europeia, que foi em boa parte a sua
causa central e que condicionou toda a acção política nos últimos 30 anos. O
Euro, como nos últimos dias se tornou patente, está a ser ameaçado e
Portugal tornou-se no elo mais fraco da cadeia que especuladores e o sistema
financeiro norte-americano, com a implícita concordância de Obama, estão a
querer romper para projectar de novo o dólar e voltar a posicionar os
Estados Unidos como a plataforma que permitirá servir e favorecer a nova
ordem que se desenha, entre a Índia, a China, o Brasil e, talvez, ainda, a
Rússia. Esta guerra dólar-euro pode liquidar a ideia política da Europa e
fazer entrar o nosso continente numa fase de decadência que, a acontecer, se
adivinha prolongada. O mundo da prosperidade europeia não vai voltar tão
cedo e os senhores da Europa bem podem meter no saco ideias peregrinas como
o subsídio às viagens de jovens e idosos, inacreditavelmente anunciado esta
semana. O que está para vir não vai ser bonito de se ver.


*MENTIRA* - É espantoso que nesta situação a mentira na política continue a
ser usada com desfaçatez total. Infelizmente a sucessão de casos surgidos
nos últimos tempos confirma que  cada vez mais corre-se o risco de a
política ser sinónimo de mentira; para pegar apenas em temas recentes isto é
válido no caso da TVI, é válido no caso do contrato de Figo com o Tagus
Park, é válido nas variações das contas de Lisboa apresentadas por António
Costa, nos números do deficit apresentados pelo Governo, nas negociatas de
financiamento de partidos. A mentira tornou-se habitual no dia-a-dia de um
sem número de gestos e declarações. Agentes políticos dos mais diversos
quadrantes mentem sem pudor como se mentir fosse o normal. A mentira
instalou-se na vida política, tornou-se banal. O problema é que quase já nem
gera indignação. E quando isto acontece a política apodrece e os cidadãos
afastam-se cada vez mais dela - abstêm-se deste jogo de mentiras e
conveniências. Será impossível fazer política sem fazer da mentira um
hábito?



*TELEVISÃO* - Anunciada ainda há dois anos como o remédio milagreiro para as
estações, a Televisão Digital Terrestre corre o risco de ser um grande e
caríssimo embuste. O progresso tecnológico não esteve à espera das demoradas
decisões de reguladores, das guerrinhas entre grupos de media nem de
concursos públicos várias vezes repetidos. A Anacom acaba por reconhecer
isto mesmo ao dizer, esta semana, que com 2,4 milhões de lares que já são
assinantes da tv paga (e o número vai ainda crescer um bom bocado...) apenas
1,5 milhões de lares deverão ser afectados pelo desligar do actual sistema
analógico dos canais abertos e pela passagem à TDT. Quando em meados de 2012
a TDT estiver pronta a ser instalada vai ser curioso ver quantos restam para
a utilizar. Eu aposto que menos de um milhão.


*ALQUEVA *- Esta Primavera o Alentejo promete ser uma deliciosa surpresa. As
terras estão cobertas de um tapete verde, as flores silvestres começam a
saltar e as primeiras papoilas já se vêem. A barragem do Alqueva transformou
toda a paisagem e agora do alto de Monsaraz vê-se como a planície alentejana
acolheu extensas manchas de água, numa paisagem completamente inesperada. O
meu último fim de semana foi passado ali perto, próximo de Portel,  na
Herdade do Sobroso, uma Casa de Campo instalada numa herdade perto do
Guadiana e no meio de uma vinha de 50 hectares que produz belos vinhos -
servidos nas refeições da casa - por mim destaco o rosé e o tinto de 2006. A
cozinheira, D. Josefa, tem mão sábia nos temperos e na confecção, e oferece
aos hóspedes uma sucessão de iguarias que tornam um fim de semana no Sobroso
uma experiência dos melhores petiscos da cozinha tradicional alentejana. A
Casa de Campo oferece dez quartos, fica perto da marina de Amieira, no
Alqueva, e tem à sua frente a Sofia e o Filipe, ela a comandar o acolhimento
e ele, enólogo, a organizar as vinhas. Todas as informações em
www.herdadedosobroso.pt .


 


*AGENDA* - Se puderem não percam Miguel Guilherme a ler textos de humor, de
autores portugueses, todas as terças e quartas, no Maxim, Praça da Alegria,
pelas 22h00. Fica até Junho. *Este fim de semana inauguram em Coimbra, no
âmbito do 30º aniversário dos Encontros de Fotografia, uma exposição de Jean
François Pisson, intitulada "Dessine Moi Une Voyage" e outra de Joana
Bastos, "A$T"; *Na Galeria Ratton, novas obras de Joana Rosa, sob o título
"A Bela Acordada";* No Algarve, em Estói, na casa rural da Villa Romana de
Milreu, a exposição "Pássaro Em Terra" de René Bertholo; *E finalmente em
Lisboa a  próxima semana é tempo do festival de cinema documental Indie ,
sigam a programação em www.indielisboa.com*.*


 


*OUVIR* - Este artigo foi feito ao som de "Orchestrion", a mais recente
experiência de Pat Metheny, que utilizou máquinas cuja origem remonta ao
século XVIII para criar a sua música, obviamente actualizadas e
complementadas com tecnologia digital contemporânea. Podem considerar que
Metheny toca a solo com uma orquestra de robôs, mas isto é simplificar a
coisa. O resultado é surpreendente, misturando a música popular com arranjos
sofisticados e desenhos rítmicos inesperados. Metheny no seu melhor. CD
Nonesuch, via Amazon UK.


 


*BACK TO BASICS -  A política tem a sua fonte na perversidade e não na
grandeza do espírito humano, Voltaire*

abril 20, 2010

A FORÇA DAS HABILIDADES

(Publicado no Metro de 20 de Abril)


 


Todos nós gostamos de ver outros a fazerem habilidades e todos nós temos o escondido desejo de ver alguém a espalhar-se a fazer essas habilidades. Esta realidade está na chave do grande êxito de dois concursos surgidos recentemente, «O Cubo» nas noites de sábado na RTP e «Achas Que Sabes Dançar» nas noites de Domingo na SIC.


Graças a estes dois programas, e com uma ajudinha do futebol, RTP e SIC, venceram este fim de semana a TVI, que ficou relegada para a terceira posição, apesar do bom resultado das suas novelas. Só que de facto os dois concursos são apelativos, cativam audiências e conseguem igualmente fidelizar espectadores.


Em «O Cubo» os concorrentes têm que demonstrar destreza, memória, conhecimento e até alguma estratégia. O concurso é tecnologicamente sofisticado em termos de captação de imagem – cada concorrente executa a prova dentro de um cubo transparente «vigiado» por quase seis dezenas de diversos tipos de câmaras digitais. O apresentador é Jorge Gabriel que, mais uma vez, desempenha bem o seu papel.


No lado da SIC João Manzarra prova que a solo ainda se sai melhor e conduz os espectadores ao longo do «Achas Que Sabes Dançar» - que inevitavelmente joga no ridículo de alguns concorrentes e no talento de outros.


E porque é que estes concursos alcançam tão bons resultados de audiências?  – de certa forma porque jogam na possibilidade de identificação/rejeição dos espectadores com os concorrentes, proporcionam uma interactividade emocional mais forte nos públicos mais novos – habituados a um universo visual de jogos digitais como é sugerido no «Cubo», ou habituados a concursos domésticos de disputa de talentos nas diversas consolas de jogos que o possibilitam fazer em casa.


A acção dramática das telenovelas, consegue captar outros públicos e garantir um outro tipo de fidelização – mas o que os recentes resultados demonstram é que cada vez mais é importante ter em antena vários produtos, que consigam atingir diferentes públicos. É fascinante o mundo da televisão – uma permanente caixinha de surpresas.

(Publicado no Jornal de Negócios de 16 de Abril)

 


PRIVATIZAR A RTP - Mais uma vez o PSD coloca a privatização da RTP na sua agenda – já o fez antes e acabou por recuar quando percebeu a realidade do sector. Na maioria dos países ocidentais existem diversas formas de serviço público de televisão- os modelos são variáveis, mas existem, dos Estados Unidos à Suécia, passando pelo Canadá ou a Holanda. Continuo a pensar que mesmo nas economias mais liberais se justifica um serviço público de rádio e de televisão, com obrigações bem definidas, sem recurso ao mercado publicitário e que esteja inserido numa estratégia de desenvolvimento do tecido industrial privado na produção audiovisual. A existência de uma produção audiovisual minimamente dinâmica (para além de criadora de emprego e interessante do ponto de vista da actividade económica) é condição fundamental para a preservação do português enquanto língua viva - se o nosso idioma não existir sob a forma audiovisual no universo digital está condenada a ser uma espécie em vias de extinção. Parte do  desenvolvimento desta indústria, ainda nesta altura – nomeadamente na área dos documentários e nalgumas áreas da ficção – passa precisamente pelo serviço público. O problema, há muito levantado, está no incumprimento das obrigações do serviço público, incumprimento justificado em boa parte porque a RTP concorre na disputa de audiências e do mercado publicitário. É possível que partes da actual RTP possam e devam ser privatizadas – inclusive frequências (e tendo em conta o que serão as alterações produzidas pelas licenças de Televisão Digital Terrestre e pela distribuição de conteúdos de TV via internet). Mas no contexto actual é muito duvidoso que existam interessados numa privatização da RTP, com o que ela é hoje em dia, com o passivo e estrutura que tem. E nem seria seguro que essa seria a melhor solução para a consolidação dos canais privados que existem…Resumo: a questão não é privatizar a RTP, é alterar o seu modelo de funcionamento no mercado publicitário.


 


TV – Um recente estudo norte-americano indica que, em 2013, cerca de  55% de todos os modelos de receptores de televisão fabricados terão capacidade de ligação à internet, contra os 18% actuais. O mesmo estudo sublinha que num futuro próximo todos os conteúdos audiovisuais estarão disponíveis via internet, que será a principal plataforma de distribuição, sendo de prever uma competição directa com os modelos de distribuição em sinal aberto e por cabo.


 


FOLHEAR 1 – Na «Wired» americana de Abril um belo artigo - «Rise Of the Machines – How tablets will change the world» - mais do que uma maquineta, os tablets – da Apple ou de outras marcas -  serão a plataforma individual de consumo de conteúdos.


 


FOLHEAR 2 – Na «Monocle» de Abril uma ediçãoo dedicada às melhores lojas, à arte da venda, de livros á comida, passando pela moda. Dossiers sobre o novo design brasileiro, em São Paulo, e sobre a cidade convidada desta edição – Seul.


 


LER – A editora «Tinta da China» vem publicando uma deliciosa colecção de livros de viagem, com direcção editorial de Carlos Vaz Marques. A mais recente edição da colecção é «Nova Iorque», um «excepcional e engenhoso monólogo….tão emotivo quanto humorístico sobre a cidade de Nova Iorque que o autor considera o lugar mais fascinante do mundo» - nas palavras do prefácio de Enrique Vila-Mata ao livro do irlandês Brendan Behan, um autor até aqui inédito em Portugal. A lenda reza que este livro foi escrito num corredor do Chelsea Hotel, no andar onde vivera Dylan Thomas. «Depois de ter estado em Nova Iorque, qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-à conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro». Apesar de a tradução ser menos feliz que a de outros volumes desta colecção, «Nova Iorque» é um belíssimo exemplo de um livro sobre uma cidade – melhor dizendo, sobre a experiência de descoberta e de vida numa cidade que nunca pára.


 


 


VER – Cada vez mais a «Egoísta» é um prazer para a vista – na realidade é muito mais feita para ser vista do que para ser lida. Claro que a paginação e o trabalho gráfico ajudam a que os textos também desempenhem um papel visual, que às vezes até se sobrepõe à sua leitura. Destaque nesta edição (que tem capa em 3D e inclui os necessários óculos bicolores) e que é integralmente dedicada ao Oriente, para as fotografias de José Maçãs de Carvalho, de Cláudia Cristóvão, de Filipe Casaca, de António Júlio Duarte e de Paula Oudman; destaque ainda para as ilustrações de Pedro Proença e a pintura de Anna Muzi Falconi; finalmente para os textos de Carlos Vaz Marques, João Tordo, Gonçalo M. Tavares e  Ricardo Adolfo. Patrícia Reis, a directora da «Egoísta», continua a surpreender mesmo ao fim de dez anos.


 


OUVIR - «Valleys Of Neptune» é uma colecção de gravações até aqui inéditas de Jimi Hendrix, feitas ao longo de 1969, depois do êxito obtido com o álbum «Electric Ladyland». 1969 foi um ano decisivo para o desenvolvimento do conceito musical que Hendrix queria aprofundar e o trabalho em estúdio, primeiro em Londres e depois em Nova York mostra as linhas experimentais que ele queria seguir. O folheto que acompanha esta edição conta detalhadamente toda a historia destes registos, 12 canções – das quais 10 da autoria do próprio Hendrix, uma fantástica versão de «Sunshine Of Your Love» (dos Cream)  e outra de «Bleeding Heart», de Elmore James. Destaque para «Hear My Train A Comin’», para o injustamente esquecido «Stoine Free», que era o lado B de «Hey Joe», aqui numa nova versão e «Crying Blue Rain». Mas toda esta colecção é magnífica, com soberbas interpretações de Hendrix, mostrando a sua superioridade e o seu lugar como um dos grandes guitarristas da história do rock. Uma sonoridade única.


 


PETISCAR – Há muitos anos que não ía ao restaurante Frascati, um pioneiro na comida italiana, pizzas incluídas, em Lisboa. Por estes dias lá regressei e fiquei cliente. Belíssimos raviolis de trufas e cogumelos e uns impecáveis escalopes à milanesa. Vinho a copo honestíssimo ( Cerejeiras), conta simpática, mesas amplas, serviço impecável. Rua Padre António Vieira 12, junto ao liceu Maria Amália, telefone 213882282.


 


BACK TO BASICS –  Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir – Winston Churchill


 


 

abril 14, 2010

VIVA A DANÇA

(Publicado no diário Metro de 13 de Abril)


Nuno Santos, o Director de Programas da SIC tem boas razões para ficar satisfeito: a SIC liderou destacada as audiências no Domingo passado, dia da estreia do programa «Achas Que Sabes dançar?» - um concurso de revelação de talentos, só que agora, e pela primeira vez, na área da dança. A brincar, a dançar, o concurso bateu a novela «Meu Amor», da TVI, e João Manzarra, o apresentador, saíu-se muito bem sobretudo nas partes dos bastidores.


O formato do concurso é simples e replica a generalidade dos concursos semelhantes, como o «Ídolos». Como o aumento das escolas de dança por todo o lado e com o elevado número de pessoas que fazem da dança um passatempo e uma forma de expressão, o êxito estava garantido à partida: hoje em dia multiplica-se aulas de hip-hop, mas também de sevilhanas, de tango e até mesmo de dança do ventre. Se em cada um de nós há um bailarino escondido, porque não aproveitar o tema para um concurso? O racional é perfeito e funciona.


Na realidade mais de três milhões de pessoas assistiram à estreia do concurso e o clima criado nesta primeira emissão do programa é garantia de que ele pode ser uma excelente arma de fidelização de audiências: a cena de choro de dois membros do júri quando se viram forçados a afastar uma concorrente vai entrar na história destes concursos: subverteu-se a lógica habitual de serem os concorrentes a chorar e o júri mostrou as suas emoções – uma cena que, se se repetir, vai de certeza ser um factor adicional de empatia entre o programa e as audiências televisivas.


É engraçado como este júri surge logo de início com uma imagem mais humana e menos agressiva – desde Miguel Quintão, um homem da rádio e da música com perfeito domínio das novas tendências e capaz de contextualizar as escolhas dos concorrentes na cultura urbana contemporânea, com as apreciações técnicas de Marina Grangioia (que tem uma excelente expressividade facial e gestual enquanto os concorrentes actuam) e de César Augusto Moniz, estes dois últimos profissionalmente ligados á dança há muito tempo. Bela estreia, palpita-me que temos programa de sucesso e um arrasador de audiências.


 

abril 12, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Abril)

ROSSIO – António Costa decidiu fazer uma experiência piloto na Praça do Rossio, para combater o mau hábito de atirar pastilhas elásticas já mastigadas para o chão. A ideia é boa mas vê-se logo que Costa anda mais tempo com os olhos no chão do que com a atenção no ar: se no Rossio, sobretudo ao fim da tarde, olhasse não para o chão, mas para o que está à sua volta veria que tem muito com que se preocupar antes de chegar às pastilhas elásticas. Bastaria pensar no estado em que na maior parte dos dias se encontram as escadarias do Teatro Nacional, a sujidade dos passeios e da Praça, bastaria ver as actividades pouco recomendáveis que se processam em todos os cantos. Uma Praça que é o centro de uma cidade não pode ser um território no estado a que o Rossio chegou.
 
 
SUBMARINOS – Isto é um ping-pong: sai notícia incómoda para Sócrates, sai notícia incómoda para a oposição. Vivemos no reino dos criadores de suspeitas, um reino onde nada se esclarece, nada se apura, nenhuma responsabilidade é avaliada. Portugal é o país dos escândalos interrompidos, da culpa sem julgamento, do crime sem castigo. Até a Comissão de Ética da Assembleia da República dá triste imagem de si própria pela novela que tem alimentado. Já há personagens demais nesta história para o enredo ser credível. A Comissão está a desacreditar-se a si própria.
 
CONGRESSO – O convite de  Pedro Passos Coelho a Paulo Rangel para encabeçar a sua lista ao Conselho Nacional, e a Aguiar Branco para dirigir a revisão do programa do partido, propostas que serão votadas no Congresso do PSD no próximo fim de semana, é um sinal de que alguma coisa está a mudar. O facto de Paulo Rangel e Aguiar Branco terem aceite o convite é outro sinal, muito importante, de que assumir as diferenças é a melhor forma de construir uma unidade duradoura. Tudo indica agora que a próxima segunda-feira, depois do Congresso, marcará o regresso do PSD à luta política. Isto é bem mais interessante que outras distracções que têm ocupado o tempo dos analistas políticos. 
INVEJA – O pior que existe nos portugueses – o espreitar os outros,  a inveja, fazer a denúnciazita - voltou esta semana em grande força. No sempre indispensável blogue Albergue Espanhol, António Nogueira Leite resumiu a situação das críticas às remunerações dos gestores de diversas áreas numa frase lapidar:« If you pay peanuts, you get monkeys». No universos dos tweets nacionais cito aqui um, de João Villalobos, que me ficou na memória: « Vejo gente criticada por darem ganhos a ganhar; gostava de ver críticas aos que ganham, mesmo contribuindo para percas consecutivas». Por esta boa lógica devíamos começar a fazer um levantamento dos responsáveis a quem devemos pedir indemnização por perdas e danos ao país, não só nos resultados práticos dos números, como nos gastos devidos ás orientações que deram a gestores de empresas onde o Estado ainda está presente.
 
VER – Carlos Medeiros é um fotógrafo e actor dos Açores, com um percurso já longo. A sua exposição, que esta semana inaugurou na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa (na Rua Barata Salgueiro, à Avenida da Liberdade), foi feita em colaboração com o Cineteatro Micaelense e mostra imagens a preto e branco, com base em película e numa impressão exemplar, fabricadas pelo autor como se fossem instantes ocasionais de uma narrativa. Fazendo nalguns momentos evocar fragmentos da obra de Duane Michals (uma boa influência), esta exposição, «insomnia», joga com sequências de imagens e com um olhar por vezes quase surrealista - 32 imagens. realizadas durante uma noite num mesmo quarto. «insomnia» é uma ideia bem concretizada, estará na Cinemateca até 31 de Julho e merece uma visita.
 
LER – No final dos anos 60 Patti Smith chega a Nova Iorque para descobrir a grande cidade. Casualmente encontra Robert Mapplethorpe e os dois estabelecem uma ligação, cuja cumplicidade se manterá até à morte dele. Na altura eram ambos ilustres desconhecidos que queriam desesperadamente mostrar o talento que sentiam ter e afirmarem-se como artistas. «Just Kids», escrito por Patti Smith, é a história do amor entre ambos, da amizade que depois os uniria, das descobertas que foram fazendo, mas também do apoio que sempre deram um ao outro, a nível pessoal e criativo. É um livro tocante, pela ingenuidade da narrativa, mas também pela naturalidade como as coisas se passaram. É, também, um livro de história, porque nos ajuda a perceber a Nova Iorque de final dos anos 60 e início dos anos 70, porque nos faz descobrir o papel de locais como o Chelsea Hotel, onde a certa altura quase tudo se passave e onde Jimi Hendrix se podia cruzar com Janis Joplin, ou, ainda, o papel que diversas outras figuras tiveram na criação artística contemporânea. «Just Kids» é um livro apaixonante, uma das obras que maior prazer me deu ler nos últimos meses. Edição Bloomsbury, via Amazon UK.
 
OUVIR – O disco que me tem deliciado nos últimos dias é de um novo grupo português, Orelha Negra, que vive agarrado à ideia de divulgar o funk, criar ritmos, fazer agitar as águas e mostrar o trabalho de grandes músicos como Sam the Kid, Dj Cruzfader, Francisco Rebelo, Frederico Ferreira e João Gomes – que são os participantes no projecto. Ao longo dos 12 temas do álbum desenvolve-se um trabalho musical notável com canções verdadeiramente surpreendentes. Destaque ainda para todo o conceito gráfico de Pedro Cláudio que torna este CD num objecto visualmente invulgar e único.
 
PETISCAR – Um cozido à portuguesa é um somatório de petiscos – as couves, cada um dos enchidos, o caldinho. Não sei bem por qual razão instaurou-se a ideia de que o cozido tem dia obrigatório – a quarta-feira (deve ser para retemperar forças a meio da semana). Confesso o meu descuido por não ter ainda experimentado o cozido à moda do «Salsa & Coentros», feito com enchidos de porco preto e com as carnes mais magras, abundante nas couves e com caldo saboroso. Ainda para mais vem acompanhado de uma deliciosa sopinha quente do cozido, feita com pão, hortelã e caldinho. É claro que depois a tarde é algo penosa e o espírito tende a vaguear pelos campos primaveris. Mas um dia não são dias e vale mesmo a pena experimentar este cozido das quartas no «salsa & Coentros» - Rua Coronel Marques Leitão 12, junto aos Bombeiros e ao mercado de Alvalade, reserva recomendada pelo telefone 218410990.
 
BACK TO BASICS – Nada é permanente, salvo a mudança - Heráclito

abril 09, 2010

INDÚSTRIAS CULTURAIS

(Publicado no Jornal Metro)


 


Durante dois dias, por iniciativa da Presidência Espanhola da União Europeia, representantes dos Estados Membros debateram em Barcelona os novos desafios que se colocam a todos os que estão ligados às actividades do sector da Cultura. Infelizmente em Portugal teve muito pouco eco este Forum Europeu das Indústrias Culturais, praticamente limitado á notícia da presença da Ministra da Cultura no encerramento da reunião. O tema principal do Forum cujo tema principal do Forum foi a legislação da propriedade intelectual no novo mundo digital, como base para que as industrias culturais e criativas se possam desenvolver em todo o seu potencial. Para situarmos as coisas, estamos a falar de um sector – as industrias criativas e culturais – que representa já 3,1% de todos os postos de trabalho dos 25 Estados da União Europeia, tendo uma contribuição para o PIB europeu que atinge 2,6%, mais que o sector químico ou têxtil, por exemplo. A Comissão Europeia está a preparar um Livro Verde sobre este sector, que será divulgado no final do corrente mês. Vamos ver o que, agora, cada Estado membro fará para garantir o fomento das indústrias culturais e a competitividade no mundo dos conteúdos digitais, com um conjunto de legislação que proteja os direitos de produtores e autores. O Forum pediu ainda a atenção de cada Estado para o desenvolvimento de programas educativos específicos que tenham em conta as especificidades desta área. Deste ponto de vista é sintomático o balanço de uma pós graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural, do ISCTE/INDEG, cuja primeira edição terminou recentemente. O problema é que no curso, que contou com a recomendação de organismos do Ministério da Cultura, questões tão cruciais e decisivas, como a gestão dos direitos, a exploração de royalties, ou as técnicas de fund raising estiveram praticamente ausentes. Da mesma forma a importância – sistematicamente descurada - do marketing, da estratégia publicitária e da utilização, neste contexto, das redes sociais foram também pontos quase ignorados. Uma nova política cultural também passa por questões como estas.

abril 05, 2010

(Publicado dia 1 de Abril no Jornal de Negócios)

CULTURA – «A principal matéria prima é a capacidade de criar e inovar», sublinhou Odile Quintin, Directora Geral de Educação e Cultura da Comissão Europeia, na abertura do Forum Europeu das Indústrias Culturais, que decorreu em Barcelona no início da semana, com representação oficial do governo português. Não deixa de ser curioso que numa recente entrevista Gabriela Canavilhas se tenha discretamente demarcado do conceito de indústrias culturais, colocando de novo a tónica nos subsídios concedidos pelo Estado e fugindo a traçar planos de incentivo a iniciativas sustentáveis no sector. Mais preocupante é o facto de a Ministra da Cultura retomar o discurso de colocar o Estado como árbitro da qualidade no momento da atribuição dos financiamentos. Questões fulcrais para possibilitar uma dinamização do investimento no sector, como incentivos fiscais especiais (das artes plásticas ao audiovisual) ou uma Lei do Mecenato mais ambiciosa e eficaz são deixados completamente de parte. E na mesma entrevista a Ministra afirma, preto no branco, que o caminho que pretende seguir não é o de garantir um grande orçamento para o Ministério que dirige. 


 


ENSINO – Precisamente sobre o ensino relacionado com as indústrias culturais, aqui há um ano atrás formulei muitas reservas sobre uma pós graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural, do ISCTE/INDEG. Agora que terminou essa primeira pós graduação cabe dizer que as reservas tinham fundamento: questões tão cruciais e decisivas do ponto de vista do desenvolvimento desta indústria, como a gestão dos direitos, exploração de royalties, marketing, publicidade, redes sociais e fund raising foram praticamente ausentes. Mesmo dando de barato que a gestão do curso foi (por facilitismo?) orientada para museus e função pública, a verdade é que o conteúdo privilegia a noção estatal da cultura em detrimento da visão de desenvolvimento de uma economia assente no desenvolvimento das industrias criativas e culturais.  


 


PSD – Pedro Passos Coelho venceu folgado, trabalhou para isso e juntou um vastíssimo leque de apoios. O mais difícil começa agora, com o arrumar da casa, com a forma de relacionamento das clientelas internas sequiosas de poder, com a concretização das verdades gerais em propostas políticas concretas e, sobretudo, com a forma de fazer oposição e disputar a sua liderança. Com um PP parlamentarmente muito activo, com Paulo Portas a ser, para um número crescente de eleitores, a cara da oposição a Sócrates, e com a capacidade de marcação da agenda política que os Populares têm sabido gerir, como recentemente na educação e na segurança, o grande desafio imediato de Passos Coelho é disputar a liderança da oposição sem descurar a possibilidade de alianças futuras que permitam uma nova solução governativa. 


 


NÚMEROS - Um estudo recente mostra um dado aflitivo: nos últimos três anos a taxa de execução do QREN foi de 23,5 por cento e dos 8,3 mil milhões de euros que a Comunidade Europeia disponibilizou para Portugal, ficaram por utilizar 6,3 mil milhões. Contra números destes não há grandes argumentos, mas deviam ser procurados responsáveis – a começar pelo Governo – e deveria ser analisado o que falhou. Na situação em que estamos este funcionamento perdulário é mais que irresponsável – é criminoso. Sócrates chegou ao poder a bramar contra a má gestão da coisa pública. Os números do deficit, os números do endividamento externo e os números da execução destes programas comunitários não deixam dúvidas sobre o que de facto é uma péssima gestão do PS. 


 


LISBOA – O vereador Gonçalo Reis publicou um belo artigo sobre a verdade dos números do orçamento proposto para a Câmara Municipal de Lisboa, com três meses de atraso, por outra paladino da gestão eficaz, António Costa: crescimento da despesa corrente em 6,2% para 492,4 milhões de euros, fornecimentos e serviços externos a aumentarem 26,4% para 30,9 milhões de euros, deficit previsto no exercício de 2010 de 115,4 milhões de euros, investimentos previstos a três anos no valor de 669,6 milhões de euros sem indicação de como serão financiados. As contas de Lisboa apresentadas pela equipa de António Costa são uma trapalhada. Claro que agora há-de dizer que a ausência de orçamento aprovado se deve à oposição e não à sua incapacidade. 


 


LER – A palavra «Money» em destaque é o elemento comum nas mais recentes edições das revistas Vanity Fair e Wired, por acaso ambas do grupo editorial Condé-Nast e por acaso ambas com edições preparadas para o iPad, cujo lançamento está por dias. Digital à parte, são duas boas edições em papel. A Wired dedica-se ao futuro do dinheiro virtual, em novas formas digitais. E a Vanity Fair centra a edição na continuação de Wall Street com Michael Douglas no papel de Gordon Gekko, nas sequelas do crash de há um ano e nas novas fortunas nascidas na crise. Revistas assim há poucas. 


 


OUVIR – É uma delícia ouvir um disco feito por bons músicos pelo prazer de tocar boa música – a descrição aplica-se que nem uma luva a Hats And Chairs, dos Soaked Lamb, uma banda portuguesa que revisita os sons do vaudeville norte-americano, com referências claras ao blues e a New Orleans. Destaque para Mariana Lima, a vocalista e saxofonista que contribui para que este seja um dos discos portugueses dos últimos tempos que mais gozo me deu. 


 


VER – Medina Carreira e Nuno Crato, moderados por Mário Crespo e com a presença de mais um convidado em cada semana, fazem de «Plano Inclinado» um dos melhores programas de debate da televisão portuguesa. Passa na SIC Notícias ao sábado às 22h00, com repetições noutros horários e sempre disponível na internet. 


 


DESILUSÃO – Vítima de algumas descrições entusiásticas, resolvi um dia destes experimentar um estabelecimento intitulado OPAQ, que se apresenta como um restaurante e bar muito ligado à moda e ao mundo da moda, muito glamour e coisa e tal.


A decoração adequa-se à descrição, mas a coisa fica por aí. A comida era apenas mediana, o serviço bem intencionado mas frouxo, a lista de vinhos curta e mesmo assim com algumas faltas. A terminar não havia outro vodka sem ser Eristoff – o que é uma má ideia – e nada de Visa, apenas Multibanco. Fraco, fracote. Boqueirão do Douro 50 (ao Conde Barão), telef 213 940 602. 


 


BACK TO BASICS – As ideias são o motor do progresso – Dalai Lama 

março 30, 2010

CULTURA: SUBSÍDIO OU INCENTIVO?

(Publicado no diário Metro de 30 de Março)


Com o Forum Europeu de Industrias Culturais a decorrer em Barcelona ainda é mais actual pensar nestes temas...


 


Quando se começa a falar dos dinheiros da Cultura existe uma tendência para a conversa se entornar rapidamente. Extremam-se posições entre os que reivindicam maior orçamento, maiores subsídios e os que propõem sobretudo medidas de estímulo ao desenvolvimento de várias actividades.


Temos à mão um bom exemplo com a produção de telenovelas e séries portuguesas. Os mais cépticos perguntarão  logo – o que é que isso tem a ver com cultura? Tem muito mais do que aquilo que se pensa.


Há uns anos atrás, antes de existir em Portugal a produção regular e constante de novelas e séries para televisão que hoje existe, o trabalho dos actores era bem mais precário e as oportunidades bem mais reduzidas. Desde que esta produção se desenvolveu a maior parte dos grandes nomes do nosso teatro passou a encarar a televisão como um boa forma de encontrar uma estabilidade que o Teatro e os subsídios não podem proporcionar.


Por outro lado uma nova geração de actores estreou-se na televisão e alguns já deram depois o salto para o cinema e, nalguns casos, para o Teatro. De uma forma geral nos últimos dez anos desenvolveu-se o guionismo (a escrita de argumentos), uma série de profissões técnicas fundamentais para a produção artística (iluminação, sonorização, realização) e tudo isto foi feito sem subsídios.


Recentes declarações da Ministra da Cultura parecem querer desvalorizar as actividades que movimentam mais dinheiro, mas que criam mais emprego e desenvolvem mais competências, como é o caso da televisão e da produção audiovisual no geral. Esta atitude perante o sector industrial das actividades da cultura e do entretenimento é a responsável  pelo miserabilismo de grande parte da política cultural do Estado ao longo dos últimos 20 anos.


Em vez de se pensar em fomentar a actividade e em criar mercado, centraram-se os esforços apenas nas formas de distribuição de subsídios e no aumento da participação do estado em várias actividades. Assim, já se sabe, não há dinheiro que chegue. E no fim não há quase nenhum efeito multiplicador. Melhor do que querer mais subsídios é por exemplo fomentar incentivos fiscais, a começar por uma nova Lei do mecenato. 

março 23, 2010

E O PAVILHÃO DE PORTUGAL?

(Publicado no diário Metro de dia 23 de Março)


Enquanto se lançam primeiras pedras de mais obras, como o novo Museu dos Coches, o  Pavilhão de Portugal, na Expo, lá continua vazio – é pena que um edifício feito para albergar exposições permaneça quase votado ao abandono, tornado um espaço de aluguer para eventos. O Museu Colecção Berardo, que podia ter ido para lá, acabou por ficar no CCB, onde aliás está a fazer bom trabalho. A colecção de Moda e design também podia ter ido para lá, mas acabou por ficar na Baixa, nas antigas instalações de um Banco. Quase todos os anos surgem em Lisboa notícias de ampliações ou obras de novos museus – desde o de Arte Contemporânea até um eventual museu da cidade no Terreiro do Paço. Estas obras de recuperação são caríssimas na generalidade dos casos e no entretanto ninguém se lembra de dar uma utilização condigna ao Pavilhão de Portugal. Com uma área de 2000 m2, com infra- estruturas raras em edifícios deste género, com uma pala enorme e impressionante  que  se tornou entretanto um emblema  de Lisboa, o Pavilhão de Portugal projectado por Siza Vieira, é um enorme elefante branco em que ninguém quer tocar.


A razão desta situação de abandono é meramente contabilística – quem ficar com o Pavilhão vai ter que arcar com o valor a que ele está considerado nas contas da Expo, e que não é pequeno – mas a verdade é  que há mais de dez anos vários governos e várias presidências da Câmara ainda não foram capazes de encontrar uma solução racional que permita a utilização deste belíssimo edifício para a finalidade – mostrar exposições – para o qual foi pensado e construído. A mim faz-me muita impressão que se projectem tantas obras e que ninguém se lembre de resolver esta questão – em Dezembro a Ministra da Cultura disse que o Pavilhão tinha um destino mas não disse qual e deixou entender que – estranhamente – não seria na área do seu Ministério. E entretanto lá continua desesperantemente vazio, a ser alugado ao dia como um salão de hotel. Este país não se percebe. 

março 22, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 19)

CORTES – Várias análises publicadas esta semana mostram que os principais cortes que o PEC realizou foram obtidos à custa das despesas sociais, muito mais do que à custa da diminuição do peso do aparelho de Estado. Traduzido por miúdos o Governo corta naquilo que se esperaria que os impostos e taxas que cada um paga garantissem, e não se aplica a racionalizar e a melhorar efectivamente o serviço que o Estado presta aos cidadãos. 

 


 


JUSTIÇA – Precisamente a este respeito o funcionamento da Justiça é um dos maiores problemas que temos. Infelizmente ainda esta semana se voltou a confirmar que o funcionamento da polícia é parte dos problemas no funcionamento da Justiça – sobretudo quando se percebe que em 2009 a polícia efectuou nove execuções e em 2010 já vai em mais quatro. Para um país que se gaba de ter sido dos primeiros a abolir a pena de morte, não está mal.  

 


 


CONGRESSO – De todo do Congresso do PSD retive a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, a tentar colocar os pés dos congressistas bem na terra – para o PSD conseguir um Governo estável tem que desenvolver uma estratégia de alianças, o que quer dizer ter as ideias bem assentes sobre o que quer fazer no Governo e com quem. É básico, mas não estava dito e fez bem ouvir alguém falar do assunto naquela ocasião. Quanto ao resto apenas me ocorre dizer, como um bom amigo me disse no dia seguinte, que o Congresso correu bem…ao PS. 

 


 


TELEVISÃO – Em vésperas da data prevista para a transição do sistema analógico actual para a televisão digital terrestre seria bom voltar a discutir qual o papel do Serviço Público na nova paisagem audiovisual, como se devem encarar nesse contexto as novas oportunidades abertas pelas tecnologias mais recentes, como criar condições para desenvolver a oferta e os modelos de negócio dos operadores privados de televisão, e como criar as bases para o desenvolvimento da indústria de produção audiovisual em língua portuguesa e em Portugal. O resto, nesta matéria, na nossa situação actual, é pura perca de tempo e de energias.


 

 


VER – Na Galeria Baginski inaugurou nesta quarta feira uma dupla exposição muito curiosa: novas pinturas de Carlos Correia e manipulações de fotografias por Délio Jasse. «Ensaio» é o título da exposição de Carlos Correia, um dos mais originais pintores portugueses contemporâneos, com obra pública iniciada há pouco mais de uma década e com presença já assinalável numa série de colecções importantes. As novas obras exploram nomeadamente as memórias de imagens que marcam a vida quotidiana. Na sala ao lado o angolano Délio Jasse apresenta «Schengen», uma evocação da sua condição de imigrante e da vigilância que as sociedades europeias exercem sobre os imigrantes. Jasse reflecte sobre a sua condição através da manipulação e intervenção sobre a imagem fotográfica.  Até 15 de Maio, Rua Capitão Leitão 51/53, a Marvila. 

 


 


LER – Joaquim Manuel Magalhães é dos poetas portugueses que mais gosto. A sua produção é escassa e o autor submete-a a periódicas revisões. Este ano foi publicado pela Relógio d’Água «Um Toldo Vermelho», uma antologia que o próprio autor descreve desta forma numa discreta nota final: «Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior». O autor quer assim como que rever a forma como expõe a sua obra, preferindo não incluir aqueles textos que por alguma razão deixou de considerar poemas publicáveis. O que gosto mais em Joaquim Manuel Magalhães é a forma como escreve, o ritmo que imprime, o modo como escolhe palavras e a narrativa que desenha, Tem uma forma de escrita quase gráfica, permanentemente sugerindo imagens. E, como explora os limites do português e tem um olhar totalmente contemporâneo, consegue escrever poesia sobre um tema tão improvável como as máquinas de um ginásio. 


 

 


OUVIR – Neste tempo em que muito se fala da necessidade de cada pessoa ou empresa se reinventar permanentemente é muito curioso observar como os Tindersticks passaram eles próprios por esse processo. Este «Falling Down A Moutain», o oitavo disco do grupo, que há cinco anos não publicava originais, mostra uma banda num momento alto de criatividade, a revisitar ambientes de jazz, influências dos rhythm’n’blues, de Tom Waits e até de Johhny Cash, para além das baladas que são a imagem de marca de Stuart Staples. Vale a pena destacar um dueto de Mary Margaret O’Hara com Staples, «Peanuts», um diálogo bem humorado e irresistível. Destaque ainda para «Piano Music», a faixa instrumental que encerra o disco, num ambiente que faz o contraponto perfeito à faixa de abertura, que é a muito jazzy e quase hipnótica «Falling Down A Moutain», que dá o nome ao álbum. CD 4AD. 

 


 


PETISCAR – Muitos dos estabelecimentos comerciais que hoje em dia se intitulam gourmet shops são na realidade pouco mais do que as antigas mercearias e charcutarias finas – como as mercearias antigas da Baixa (como a Jerónimo Martins) ou as charcutarias Diplomata. Confesso que muitas vezes gosto de acabar as minhas tardes com um pequeno passeio num destes estabelecimentos, a procurar inspiração para o jantar ou à procura de alguma novidade para o paladar – salvaguardadas as devidas distâncias não é, do ponto de vista sensorial,  um exercício muito diferente de percorrer as estantes de uma livraria ou os escaparates de uma discoteca. Bem perto do Chiado, junto ao Largo Barão de Quintela, a meio da Rua das Flores, fica a Mercearia Doubles  - um local despretencioso, mas com um razoável garrafeira, uma boa secção de frutas e legumes frescos, óptimas compotas, queijos e enchidos. Mesmo ali ao pé fica a nova padaria Quinoa, na Rua do Alecrim 54 – onde pode comprar desde bagels até diversos pães pouco usuais e de boa qualidade. O local também serve refeições leves e oferece uma boa selecção de chás, cafés e chocolates. Entre as duas pode encontrar forma de levar para casa o suficiente para petiscar como deve ser. 

 


 


BACK TO BASICS – É o Governo que deve trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos que devem trabalhar para alimentar os governantes – Gordon Beck 

 

 

março 16, 2010

VALE A PENA TER SERVIÇO PÚBLICO DE TV?

(Publicado no diario Metro de 16 de Março)


 


Nos últimos dias a questão do financiamento da RTP veio de novo à baila, no meio do Congresso do PSD . Esta é uma conversa recorrente e muitas vezes aparece associada à ideia de que valeria a pena privatizar a RTP – assim acabava-se com a despesa do financiamento e ao mesmo tempo fazia-se um encaixe. Quando estas ideias aparecem em cima da mesa geralmente evita-se discutir o que é, ou o que deve ser, o Serviço Público de Rádio e de Televisão e se faz sentido existir. Em que termos se justifica o Serviço Público de TV? No universo das transformações tecnológicas, como deve ele evoluir? Há oito anos, em 2002, foi constituído um Grupo de Trabalho, alargado, a que pertenci, que estudou estas questões e que no final elaborou um relatório que, no essencial, se mantém actual.

A iniciativa da constituição deste Grupo de Trabalho foi dos então Ministros Nuno Morais Sarmento e Manuela Ferreira Leite e, em termos gerais, o relatório elaborado foi tido em conta em várias áreas no processo que levou à reestruturação da RTP. Infelizmente de então para cá regrediu-se e muitas das recomendações, na área da programação, foram sendo progressivamente deixadas no esquecimento.

A existência de um Serviço Público de televisão é essencial para a defesa da língua e cultura de um país, nomeadamente no domínio do audiovisual e do multimédia e sobretudo no contexto europeu. Mas a verdade é que o Serviço Público não deveria concorrer com os privados, nem em programação nem na venda de espaço publicitário, e faz sentido limitar a sua oferta de conteúdos para não interferir com o mercado. Idealmente o Serviço Público deveria desempenhar um papel regulador e dinamizador, fomentando a produção nacional.

Bem sei que não é isto que se passa e que a RTP frequentemente excede as noções mais amplas do que deveria ser a sua missão – mas a resolução deste problemas não passa por extinguir o Serviço Público de Rádio e Televisão. Passa por o adequar aos tempos actuais, por evitar que ele enfraqueça os operadores privados e por conseguir maior racionalidade no seu funcionamento.

A DEMAGOGIA REINANTE

(Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Março)


 


FUTURO – Esta semana ficámos a saber que a governação recente hipotecou o país por mais uma década. Feitas as contas haverá mais uma geração desprezada em Portugal, que irá certamente engrossar o rol dos novos emigrantes. Em qualquer caso existe um pano de fundo que ainda é pouco assumido, porque em geral não interessa a uma classe política desfasada da realidade e que vive de fazer promessas: o mundo mudou e não vai voltar a ser como era antes. Acabaram os tempos de facilidades e as projecções super optimistas.


 

 TRUQUE – Não sei se já repararam mas é a segunda vez que Sócrates usa o mesmo truque: ganha eleições com um programa de promessas e depois subverte tudo o que anunciou e faz ao contrário. Em Setembro passado prometeu obras, manifestou-se optimista, subestimou os anúncios da gravidade da situação. Agora, faz tudo ao contrário, aumenta a despesa fiscal dos contribuintes, reconhece que tem que cortar investimento e concede que a situação é difícil. Ou seja, diz agora o que a oposição dizia em Setembro. Ganhar eleições a fugir à realidade é a nova forma de demagogia e está a matar a democracia – em políticos destes não se pode acreditar.

 

PEC - O caminho mais fácil é sempre aumentar a receita – vender anéis, cortar dedos, esfolar o parceiro, cortar investimentos. O que é curioso é que um Estado tão bom a captar mais receitas à custa da máquina fiscal não consegue um plano coerente de diminuição efectiva da despesa pública, nem consegue um plano eficaz que fomente o crescimento da economia. Assim Portugal continuará adiado, com os contribuintes efectivos a pagarem cada vez mais ao Estado e com as empresas e o país a perderem competitividade.

 

CONGRESSO – Neste fim de semana o PSD reúne-se num Congresso cujo desfecho, nesta altura, é imprevisível, tão imprevisível como uma situação política onde todos falam de mudanças, onde ninguém quer ouvir falar em novas eleições e onde a produção de tabus variados se tornou na indústria em maior expansão em todo o país. O PSD precisa de ter um candidato a Primeiro Ministro, precisa de apresentar medidas exequíveis e concretas e precisa de clarificar o seu posicionamento. Sem estas três coisas não conseguirá assumir-se como alternativa. A ver vamos como corre este primeiro round antes das directas. Neste momento a dúvida maior é saber o que poderá acontecer de inesperado – porque o guião inicial de certeza já não vai ser seguido à letra.

 

CULTURA – Na edição de Março da revista «L+Arte» a Professora Raquel Henriques da Silva escreve um exemplar artigo intitulado «Contra o Novo Museu dos Coches», onde explica como também na área da política cultural há obras públicas desnecessárias e perdulárias. Recomendo o artigo,  e aqui deixo um excerto: «O orçamento previsto para o novo Museu dos Coches é de 36 milhões de euros (…) É uma verba considerável, cuja utilização na edificação de um museu, que não é nem uma necessidade nem uma prioridade, é uma dolorosa provocação às imensas carências do sector (…) Em vez de obra nova (muito novo-rica e solidamente defendida pelo poderoso lobby dos arquitectos), os recursos deviam ser canalizados para a requalificação, para o cumprimento de necessidades urgentes que há muito estão inventariadas e para se pensar os museus do País…»

 

FICA – Há duas semanas questionava aqui em que situação estaria o Fundo de Investimento no Cinema e Audiovisual (FICA). Hoje sabemos que está efectivamente parado, sem entidade gestora, com dívidas acumuladas e a provocar já situações preocupantes numa série de produtoras. A muito anunciada política do investimento no audiovisual resumiu-se afinal a mais uma trapalhada criada pelo Ministério da Cultura.

 

LER – O escritor e arquitecto paisagista Júlio Moreira lançou mãos à obra e fez uma nova edição da sua «Grande Viagem dos Homens através do tempo e do espaço», desta vez com ilustrações de Andreas Stocklein e chancela da Guimarães. Usualmente apresentado como um livro para adolescentes, esta história breve da evolução da raça humana é na verdade um livro bem útil nestes tempos conturbados – obriga-nos a revisitar conceitos, princípios e factos que muitas vezes esquecemos no dia-a-dia, desde as origens do universo até às origens das lutas pelo poder. É um daqueles livros que apetece ter à mão para, de vez em quando, relembrar como as coisas são de facto.

 

OUVIR – O pianista Bernardo Sassetti recriou o trio que tinha feito há uma dúzia de anos com o baterista Alexandre Frazão e o contrabaixista Carlos Costa e o resultado, o CD «Motion», agora editado, é surpreendente. Destaco em primeiro lugar a contenção dos músicos, o seu sentido de improvisação e a forma como conseguem criar um clima de tensão sonora, arrebatador do princípio ao fim. O disco passa por originais feitos por Sassetti para bandas sonoras e revisita temas pop e clássicos, mas no fundo assume-se como um objecto sonoro concebido para estimular o pensamento e a imaginação. CD Clean Feed

 

NAVEGAR – Interessa-se  por «branding», pela discussão em torno do valor das marcas? Por tendências? Então experimente visitar www.branding.blogs.sapo.pt e descubra sugestões de leituras, resumos de análises e conferências e ainda comentários sobre tendências.

 

PROVAR –  As flames são um petisco originário da Alsácia que podem ser brevemente descritas como uma espécie de pizza, só que mais finas, com menos gordura, e rectangulares em vez de redondas. A massa é diferente, mais leve, e os ingredientes são variados. Há pouco tempo abriu na Rua do Alecrim o restaurante Storik, que introduz as flames em Lisboa. O ambiente é simpático, as salas são agradáveis e as flames são engraçadas – no caso provei uma de salmão, anchovas e alcaparras que estava bastante boa e uma de maçã e morcela que era apenas curiosa. Embora diligente o serviço é lento e um bocadinho descoordenado – demorado até se a escolha recair fora do mais trivial. A lista das cervejas disponíveis é boa e inclui a grande Grolsch – não estamos felizmente   no mundo da ditadura da monomarca que as cervejeiras nacionais impuseram a alguma restauração. O Storik desdobra-se em bar fora das horas de almoço e jantar ( e há noites temáticas com poesia, humor e música) e ainda um bom local para lanchar scones ou bolas de Berlim. Rua do Alecrim nº30, telf 216 040 375, www.storik.pt .

 

BACK TO BASICS – O verdadeiro poder não se revela por atitudes duras e frequentes mas sim por falar verdade e agir em função disso – Honoré de Balzac