abril 26, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 24 de Abril)

 


*PORTUGAL* - Quando António Guterres chegou ao Governo o peso da nossa
dívida pouco passava dos 10% do PIB. Agora anda nos 120%. 15 anos de
estímulo do consumo, de projectos megalómanos do Estado, de negócios de
interesse duvidoso para os contribuintes, ajudaram a chegar onde estamos.
Cavaco Silva deve saber bem estes números - era Primeiro Ministro até pouco
tempo antes de Guterres se sentar em S. Bento e, com a sua formação e
atenção, certamente não deixou de olhar para os números da nação. O seu
silêncio sobre o que se passa, a forma como se esquiva a tomar atitudes
neste contexto tão difícil, dão muito que pensar. Está ele mais interessado
em ser reeleito sem grandes ondas do que em encontrar uma solução para o
desgoverno, que agora é já bem visível? Era bom que em relação à situação do
país Cavaco exibisse a mesma determinação e energia de que deu mostras
quando resolveu atravessar a Europa de carro para contornar a paragem
forçada dos aviões por causa das cinzas vulcânicas. Nunca lhe terá passado
pela cabeça a necessidade de um Governo de Salvação Nacional?


*EUROPA* - A minha geração arrisca-se a sair de cena confrontada pela
falência política da ideia da União Europeia, que foi em boa parte a sua
causa central e que condicionou toda a acção política nos últimos 30 anos. O
Euro, como nos últimos dias se tornou patente, está a ser ameaçado e
Portugal tornou-se no elo mais fraco da cadeia que especuladores e o sistema
financeiro norte-americano, com a implícita concordância de Obama, estão a
querer romper para projectar de novo o dólar e voltar a posicionar os
Estados Unidos como a plataforma que permitirá servir e favorecer a nova
ordem que se desenha, entre a Índia, a China, o Brasil e, talvez, ainda, a
Rússia. Esta guerra dólar-euro pode liquidar a ideia política da Europa e
fazer entrar o nosso continente numa fase de decadência que, a acontecer, se
adivinha prolongada. O mundo da prosperidade europeia não vai voltar tão
cedo e os senhores da Europa bem podem meter no saco ideias peregrinas como
o subsídio às viagens de jovens e idosos, inacreditavelmente anunciado esta
semana. O que está para vir não vai ser bonito de se ver.


*MENTIRA* - É espantoso que nesta situação a mentira na política continue a
ser usada com desfaçatez total. Infelizmente a sucessão de casos surgidos
nos últimos tempos confirma que  cada vez mais corre-se o risco de a
política ser sinónimo de mentira; para pegar apenas em temas recentes isto é
válido no caso da TVI, é válido no caso do contrato de Figo com o Tagus
Park, é válido nas variações das contas de Lisboa apresentadas por António
Costa, nos números do deficit apresentados pelo Governo, nas negociatas de
financiamento de partidos. A mentira tornou-se habitual no dia-a-dia de um
sem número de gestos e declarações. Agentes políticos dos mais diversos
quadrantes mentem sem pudor como se mentir fosse o normal. A mentira
instalou-se na vida política, tornou-se banal. O problema é que quase já nem
gera indignação. E quando isto acontece a política apodrece e os cidadãos
afastam-se cada vez mais dela - abstêm-se deste jogo de mentiras e
conveniências. Será impossível fazer política sem fazer da mentira um
hábito?



*TELEVISÃO* - Anunciada ainda há dois anos como o remédio milagreiro para as
estações, a Televisão Digital Terrestre corre o risco de ser um grande e
caríssimo embuste. O progresso tecnológico não esteve à espera das demoradas
decisões de reguladores, das guerrinhas entre grupos de media nem de
concursos públicos várias vezes repetidos. A Anacom acaba por reconhecer
isto mesmo ao dizer, esta semana, que com 2,4 milhões de lares que já são
assinantes da tv paga (e o número vai ainda crescer um bom bocado...) apenas
1,5 milhões de lares deverão ser afectados pelo desligar do actual sistema
analógico dos canais abertos e pela passagem à TDT. Quando em meados de 2012
a TDT estiver pronta a ser instalada vai ser curioso ver quantos restam para
a utilizar. Eu aposto que menos de um milhão.


*ALQUEVA *- Esta Primavera o Alentejo promete ser uma deliciosa surpresa. As
terras estão cobertas de um tapete verde, as flores silvestres começam a
saltar e as primeiras papoilas já se vêem. A barragem do Alqueva transformou
toda a paisagem e agora do alto de Monsaraz vê-se como a planície alentejana
acolheu extensas manchas de água, numa paisagem completamente inesperada. O
meu último fim de semana foi passado ali perto, próximo de Portel,  na
Herdade do Sobroso, uma Casa de Campo instalada numa herdade perto do
Guadiana e no meio de uma vinha de 50 hectares que produz belos vinhos -
servidos nas refeições da casa - por mim destaco o rosé e o tinto de 2006. A
cozinheira, D. Josefa, tem mão sábia nos temperos e na confecção, e oferece
aos hóspedes uma sucessão de iguarias que tornam um fim de semana no Sobroso
uma experiência dos melhores petiscos da cozinha tradicional alentejana. A
Casa de Campo oferece dez quartos, fica perto da marina de Amieira, no
Alqueva, e tem à sua frente a Sofia e o Filipe, ela a comandar o acolhimento
e ele, enólogo, a organizar as vinhas. Todas as informações em
www.herdadedosobroso.pt .


 


*AGENDA* - Se puderem não percam Miguel Guilherme a ler textos de humor, de
autores portugueses, todas as terças e quartas, no Maxim, Praça da Alegria,
pelas 22h00. Fica até Junho. *Este fim de semana inauguram em Coimbra, no
âmbito do 30º aniversário dos Encontros de Fotografia, uma exposição de Jean
François Pisson, intitulada "Dessine Moi Une Voyage" e outra de Joana
Bastos, "A$T"; *Na Galeria Ratton, novas obras de Joana Rosa, sob o título
"A Bela Acordada";* No Algarve, em Estói, na casa rural da Villa Romana de
Milreu, a exposição "Pássaro Em Terra" de René Bertholo; *E finalmente em
Lisboa a  próxima semana é tempo do festival de cinema documental Indie ,
sigam a programação em www.indielisboa.com*.*


 


*OUVIR* - Este artigo foi feito ao som de "Orchestrion", a mais recente
experiência de Pat Metheny, que utilizou máquinas cuja origem remonta ao
século XVIII para criar a sua música, obviamente actualizadas e
complementadas com tecnologia digital contemporânea. Podem considerar que
Metheny toca a solo com uma orquestra de robôs, mas isto é simplificar a
coisa. O resultado é surpreendente, misturando a música popular com arranjos
sofisticados e desenhos rítmicos inesperados. Metheny no seu melhor. CD
Nonesuch, via Amazon UK.


 


*BACK TO BASICS -  A política tem a sua fonte na perversidade e não na
grandeza do espírito humano, Voltaire*

abril 20, 2010

A FORÇA DAS HABILIDADES

(Publicado no Metro de 20 de Abril)


 


Todos nós gostamos de ver outros a fazerem habilidades e todos nós temos o escondido desejo de ver alguém a espalhar-se a fazer essas habilidades. Esta realidade está na chave do grande êxito de dois concursos surgidos recentemente, «O Cubo» nas noites de sábado na RTP e «Achas Que Sabes Dançar» nas noites de Domingo na SIC.


Graças a estes dois programas, e com uma ajudinha do futebol, RTP e SIC, venceram este fim de semana a TVI, que ficou relegada para a terceira posição, apesar do bom resultado das suas novelas. Só que de facto os dois concursos são apelativos, cativam audiências e conseguem igualmente fidelizar espectadores.


Em «O Cubo» os concorrentes têm que demonstrar destreza, memória, conhecimento e até alguma estratégia. O concurso é tecnologicamente sofisticado em termos de captação de imagem – cada concorrente executa a prova dentro de um cubo transparente «vigiado» por quase seis dezenas de diversos tipos de câmaras digitais. O apresentador é Jorge Gabriel que, mais uma vez, desempenha bem o seu papel.


No lado da SIC João Manzarra prova que a solo ainda se sai melhor e conduz os espectadores ao longo do «Achas Que Sabes Dançar» - que inevitavelmente joga no ridículo de alguns concorrentes e no talento de outros.


E porque é que estes concursos alcançam tão bons resultados de audiências?  – de certa forma porque jogam na possibilidade de identificação/rejeição dos espectadores com os concorrentes, proporcionam uma interactividade emocional mais forte nos públicos mais novos – habituados a um universo visual de jogos digitais como é sugerido no «Cubo», ou habituados a concursos domésticos de disputa de talentos nas diversas consolas de jogos que o possibilitam fazer em casa.


A acção dramática das telenovelas, consegue captar outros públicos e garantir um outro tipo de fidelização – mas o que os recentes resultados demonstram é que cada vez mais é importante ter em antena vários produtos, que consigam atingir diferentes públicos. É fascinante o mundo da televisão – uma permanente caixinha de surpresas.

(Publicado no Jornal de Negócios de 16 de Abril)

 


PRIVATIZAR A RTP - Mais uma vez o PSD coloca a privatização da RTP na sua agenda – já o fez antes e acabou por recuar quando percebeu a realidade do sector. Na maioria dos países ocidentais existem diversas formas de serviço público de televisão- os modelos são variáveis, mas existem, dos Estados Unidos à Suécia, passando pelo Canadá ou a Holanda. Continuo a pensar que mesmo nas economias mais liberais se justifica um serviço público de rádio e de televisão, com obrigações bem definidas, sem recurso ao mercado publicitário e que esteja inserido numa estratégia de desenvolvimento do tecido industrial privado na produção audiovisual. A existência de uma produção audiovisual minimamente dinâmica (para além de criadora de emprego e interessante do ponto de vista da actividade económica) é condição fundamental para a preservação do português enquanto língua viva - se o nosso idioma não existir sob a forma audiovisual no universo digital está condenada a ser uma espécie em vias de extinção. Parte do  desenvolvimento desta indústria, ainda nesta altura – nomeadamente na área dos documentários e nalgumas áreas da ficção – passa precisamente pelo serviço público. O problema, há muito levantado, está no incumprimento das obrigações do serviço público, incumprimento justificado em boa parte porque a RTP concorre na disputa de audiências e do mercado publicitário. É possível que partes da actual RTP possam e devam ser privatizadas – inclusive frequências (e tendo em conta o que serão as alterações produzidas pelas licenças de Televisão Digital Terrestre e pela distribuição de conteúdos de TV via internet). Mas no contexto actual é muito duvidoso que existam interessados numa privatização da RTP, com o que ela é hoje em dia, com o passivo e estrutura que tem. E nem seria seguro que essa seria a melhor solução para a consolidação dos canais privados que existem…Resumo: a questão não é privatizar a RTP, é alterar o seu modelo de funcionamento no mercado publicitário.


 


TV – Um recente estudo norte-americano indica que, em 2013, cerca de  55% de todos os modelos de receptores de televisão fabricados terão capacidade de ligação à internet, contra os 18% actuais. O mesmo estudo sublinha que num futuro próximo todos os conteúdos audiovisuais estarão disponíveis via internet, que será a principal plataforma de distribuição, sendo de prever uma competição directa com os modelos de distribuição em sinal aberto e por cabo.


 


FOLHEAR 1 – Na «Wired» americana de Abril um belo artigo - «Rise Of the Machines – How tablets will change the world» - mais do que uma maquineta, os tablets – da Apple ou de outras marcas -  serão a plataforma individual de consumo de conteúdos.


 


FOLHEAR 2 – Na «Monocle» de Abril uma ediçãoo dedicada às melhores lojas, à arte da venda, de livros á comida, passando pela moda. Dossiers sobre o novo design brasileiro, em São Paulo, e sobre a cidade convidada desta edição – Seul.


 


LER – A editora «Tinta da China» vem publicando uma deliciosa colecção de livros de viagem, com direcção editorial de Carlos Vaz Marques. A mais recente edição da colecção é «Nova Iorque», um «excepcional e engenhoso monólogo….tão emotivo quanto humorístico sobre a cidade de Nova Iorque que o autor considera o lugar mais fascinante do mundo» - nas palavras do prefácio de Enrique Vila-Mata ao livro do irlandês Brendan Behan, um autor até aqui inédito em Portugal. A lenda reza que este livro foi escrito num corredor do Chelsea Hotel, no andar onde vivera Dylan Thomas. «Depois de ter estado em Nova Iorque, qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-à conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro». Apesar de a tradução ser menos feliz que a de outros volumes desta colecção, «Nova Iorque» é um belíssimo exemplo de um livro sobre uma cidade – melhor dizendo, sobre a experiência de descoberta e de vida numa cidade que nunca pára.


 


 


VER – Cada vez mais a «Egoísta» é um prazer para a vista – na realidade é muito mais feita para ser vista do que para ser lida. Claro que a paginação e o trabalho gráfico ajudam a que os textos também desempenhem um papel visual, que às vezes até se sobrepõe à sua leitura. Destaque nesta edição (que tem capa em 3D e inclui os necessários óculos bicolores) e que é integralmente dedicada ao Oriente, para as fotografias de José Maçãs de Carvalho, de Cláudia Cristóvão, de Filipe Casaca, de António Júlio Duarte e de Paula Oudman; destaque ainda para as ilustrações de Pedro Proença e a pintura de Anna Muzi Falconi; finalmente para os textos de Carlos Vaz Marques, João Tordo, Gonçalo M. Tavares e  Ricardo Adolfo. Patrícia Reis, a directora da «Egoísta», continua a surpreender mesmo ao fim de dez anos.


 


OUVIR - «Valleys Of Neptune» é uma colecção de gravações até aqui inéditas de Jimi Hendrix, feitas ao longo de 1969, depois do êxito obtido com o álbum «Electric Ladyland». 1969 foi um ano decisivo para o desenvolvimento do conceito musical que Hendrix queria aprofundar e o trabalho em estúdio, primeiro em Londres e depois em Nova York mostra as linhas experimentais que ele queria seguir. O folheto que acompanha esta edição conta detalhadamente toda a historia destes registos, 12 canções – das quais 10 da autoria do próprio Hendrix, uma fantástica versão de «Sunshine Of Your Love» (dos Cream)  e outra de «Bleeding Heart», de Elmore James. Destaque para «Hear My Train A Comin’», para o injustamente esquecido «Stoine Free», que era o lado B de «Hey Joe», aqui numa nova versão e «Crying Blue Rain». Mas toda esta colecção é magnífica, com soberbas interpretações de Hendrix, mostrando a sua superioridade e o seu lugar como um dos grandes guitarristas da história do rock. Uma sonoridade única.


 


PETISCAR – Há muitos anos que não ía ao restaurante Frascati, um pioneiro na comida italiana, pizzas incluídas, em Lisboa. Por estes dias lá regressei e fiquei cliente. Belíssimos raviolis de trufas e cogumelos e uns impecáveis escalopes à milanesa. Vinho a copo honestíssimo ( Cerejeiras), conta simpática, mesas amplas, serviço impecável. Rua Padre António Vieira 12, junto ao liceu Maria Amália, telefone 213882282.


 


BACK TO BASICS –  Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir – Winston Churchill


 


 

abril 14, 2010

VIVA A DANÇA

(Publicado no diário Metro de 13 de Abril)


Nuno Santos, o Director de Programas da SIC tem boas razões para ficar satisfeito: a SIC liderou destacada as audiências no Domingo passado, dia da estreia do programa «Achas Que Sabes dançar?» - um concurso de revelação de talentos, só que agora, e pela primeira vez, na área da dança. A brincar, a dançar, o concurso bateu a novela «Meu Amor», da TVI, e João Manzarra, o apresentador, saíu-se muito bem sobretudo nas partes dos bastidores.


O formato do concurso é simples e replica a generalidade dos concursos semelhantes, como o «Ídolos». Como o aumento das escolas de dança por todo o lado e com o elevado número de pessoas que fazem da dança um passatempo e uma forma de expressão, o êxito estava garantido à partida: hoje em dia multiplica-se aulas de hip-hop, mas também de sevilhanas, de tango e até mesmo de dança do ventre. Se em cada um de nós há um bailarino escondido, porque não aproveitar o tema para um concurso? O racional é perfeito e funciona.


Na realidade mais de três milhões de pessoas assistiram à estreia do concurso e o clima criado nesta primeira emissão do programa é garantia de que ele pode ser uma excelente arma de fidelização de audiências: a cena de choro de dois membros do júri quando se viram forçados a afastar uma concorrente vai entrar na história destes concursos: subverteu-se a lógica habitual de serem os concorrentes a chorar e o júri mostrou as suas emoções – uma cena que, se se repetir, vai de certeza ser um factor adicional de empatia entre o programa e as audiências televisivas.


É engraçado como este júri surge logo de início com uma imagem mais humana e menos agressiva – desde Miguel Quintão, um homem da rádio e da música com perfeito domínio das novas tendências e capaz de contextualizar as escolhas dos concorrentes na cultura urbana contemporânea, com as apreciações técnicas de Marina Grangioia (que tem uma excelente expressividade facial e gestual enquanto os concorrentes actuam) e de César Augusto Moniz, estes dois últimos profissionalmente ligados á dança há muito tempo. Bela estreia, palpita-me que temos programa de sucesso e um arrasador de audiências.


 

abril 12, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Abril)

ROSSIO – António Costa decidiu fazer uma experiência piloto na Praça do Rossio, para combater o mau hábito de atirar pastilhas elásticas já mastigadas para o chão. A ideia é boa mas vê-se logo que Costa anda mais tempo com os olhos no chão do que com a atenção no ar: se no Rossio, sobretudo ao fim da tarde, olhasse não para o chão, mas para o que está à sua volta veria que tem muito com que se preocupar antes de chegar às pastilhas elásticas. Bastaria pensar no estado em que na maior parte dos dias se encontram as escadarias do Teatro Nacional, a sujidade dos passeios e da Praça, bastaria ver as actividades pouco recomendáveis que se processam em todos os cantos. Uma Praça que é o centro de uma cidade não pode ser um território no estado a que o Rossio chegou.
 
 
SUBMARINOS – Isto é um ping-pong: sai notícia incómoda para Sócrates, sai notícia incómoda para a oposição. Vivemos no reino dos criadores de suspeitas, um reino onde nada se esclarece, nada se apura, nenhuma responsabilidade é avaliada. Portugal é o país dos escândalos interrompidos, da culpa sem julgamento, do crime sem castigo. Até a Comissão de Ética da Assembleia da República dá triste imagem de si própria pela novela que tem alimentado. Já há personagens demais nesta história para o enredo ser credível. A Comissão está a desacreditar-se a si própria.
 
CONGRESSO – O convite de  Pedro Passos Coelho a Paulo Rangel para encabeçar a sua lista ao Conselho Nacional, e a Aguiar Branco para dirigir a revisão do programa do partido, propostas que serão votadas no Congresso do PSD no próximo fim de semana, é um sinal de que alguma coisa está a mudar. O facto de Paulo Rangel e Aguiar Branco terem aceite o convite é outro sinal, muito importante, de que assumir as diferenças é a melhor forma de construir uma unidade duradoura. Tudo indica agora que a próxima segunda-feira, depois do Congresso, marcará o regresso do PSD à luta política. Isto é bem mais interessante que outras distracções que têm ocupado o tempo dos analistas políticos. 
INVEJA – O pior que existe nos portugueses – o espreitar os outros,  a inveja, fazer a denúnciazita - voltou esta semana em grande força. No sempre indispensável blogue Albergue Espanhol, António Nogueira Leite resumiu a situação das críticas às remunerações dos gestores de diversas áreas numa frase lapidar:« If you pay peanuts, you get monkeys». No universos dos tweets nacionais cito aqui um, de João Villalobos, que me ficou na memória: « Vejo gente criticada por darem ganhos a ganhar; gostava de ver críticas aos que ganham, mesmo contribuindo para percas consecutivas». Por esta boa lógica devíamos começar a fazer um levantamento dos responsáveis a quem devemos pedir indemnização por perdas e danos ao país, não só nos resultados práticos dos números, como nos gastos devidos ás orientações que deram a gestores de empresas onde o Estado ainda está presente.
 
VER – Carlos Medeiros é um fotógrafo e actor dos Açores, com um percurso já longo. A sua exposição, que esta semana inaugurou na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa (na Rua Barata Salgueiro, à Avenida da Liberdade), foi feita em colaboração com o Cineteatro Micaelense e mostra imagens a preto e branco, com base em película e numa impressão exemplar, fabricadas pelo autor como se fossem instantes ocasionais de uma narrativa. Fazendo nalguns momentos evocar fragmentos da obra de Duane Michals (uma boa influência), esta exposição, «insomnia», joga com sequências de imagens e com um olhar por vezes quase surrealista - 32 imagens. realizadas durante uma noite num mesmo quarto. «insomnia» é uma ideia bem concretizada, estará na Cinemateca até 31 de Julho e merece uma visita.
 
LER – No final dos anos 60 Patti Smith chega a Nova Iorque para descobrir a grande cidade. Casualmente encontra Robert Mapplethorpe e os dois estabelecem uma ligação, cuja cumplicidade se manterá até à morte dele. Na altura eram ambos ilustres desconhecidos que queriam desesperadamente mostrar o talento que sentiam ter e afirmarem-se como artistas. «Just Kids», escrito por Patti Smith, é a história do amor entre ambos, da amizade que depois os uniria, das descobertas que foram fazendo, mas também do apoio que sempre deram um ao outro, a nível pessoal e criativo. É um livro tocante, pela ingenuidade da narrativa, mas também pela naturalidade como as coisas se passaram. É, também, um livro de história, porque nos ajuda a perceber a Nova Iorque de final dos anos 60 e início dos anos 70, porque nos faz descobrir o papel de locais como o Chelsea Hotel, onde a certa altura quase tudo se passave e onde Jimi Hendrix se podia cruzar com Janis Joplin, ou, ainda, o papel que diversas outras figuras tiveram na criação artística contemporânea. «Just Kids» é um livro apaixonante, uma das obras que maior prazer me deu ler nos últimos meses. Edição Bloomsbury, via Amazon UK.
 
OUVIR – O disco que me tem deliciado nos últimos dias é de um novo grupo português, Orelha Negra, que vive agarrado à ideia de divulgar o funk, criar ritmos, fazer agitar as águas e mostrar o trabalho de grandes músicos como Sam the Kid, Dj Cruzfader, Francisco Rebelo, Frederico Ferreira e João Gomes – que são os participantes no projecto. Ao longo dos 12 temas do álbum desenvolve-se um trabalho musical notável com canções verdadeiramente surpreendentes. Destaque ainda para todo o conceito gráfico de Pedro Cláudio que torna este CD num objecto visualmente invulgar e único.
 
PETISCAR – Um cozido à portuguesa é um somatório de petiscos – as couves, cada um dos enchidos, o caldinho. Não sei bem por qual razão instaurou-se a ideia de que o cozido tem dia obrigatório – a quarta-feira (deve ser para retemperar forças a meio da semana). Confesso o meu descuido por não ter ainda experimentado o cozido à moda do «Salsa & Coentros», feito com enchidos de porco preto e com as carnes mais magras, abundante nas couves e com caldo saboroso. Ainda para mais vem acompanhado de uma deliciosa sopinha quente do cozido, feita com pão, hortelã e caldinho. É claro que depois a tarde é algo penosa e o espírito tende a vaguear pelos campos primaveris. Mas um dia não são dias e vale mesmo a pena experimentar este cozido das quartas no «salsa & Coentros» - Rua Coronel Marques Leitão 12, junto aos Bombeiros e ao mercado de Alvalade, reserva recomendada pelo telefone 218410990.
 
BACK TO BASICS – Nada é permanente, salvo a mudança - Heráclito

abril 09, 2010

INDÚSTRIAS CULTURAIS

(Publicado no Jornal Metro)


 


Durante dois dias, por iniciativa da Presidência Espanhola da União Europeia, representantes dos Estados Membros debateram em Barcelona os novos desafios que se colocam a todos os que estão ligados às actividades do sector da Cultura. Infelizmente em Portugal teve muito pouco eco este Forum Europeu das Indústrias Culturais, praticamente limitado á notícia da presença da Ministra da Cultura no encerramento da reunião. O tema principal do Forum cujo tema principal do Forum foi a legislação da propriedade intelectual no novo mundo digital, como base para que as industrias culturais e criativas se possam desenvolver em todo o seu potencial. Para situarmos as coisas, estamos a falar de um sector – as industrias criativas e culturais – que representa já 3,1% de todos os postos de trabalho dos 25 Estados da União Europeia, tendo uma contribuição para o PIB europeu que atinge 2,6%, mais que o sector químico ou têxtil, por exemplo. A Comissão Europeia está a preparar um Livro Verde sobre este sector, que será divulgado no final do corrente mês. Vamos ver o que, agora, cada Estado membro fará para garantir o fomento das indústrias culturais e a competitividade no mundo dos conteúdos digitais, com um conjunto de legislação que proteja os direitos de produtores e autores. O Forum pediu ainda a atenção de cada Estado para o desenvolvimento de programas educativos específicos que tenham em conta as especificidades desta área. Deste ponto de vista é sintomático o balanço de uma pós graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural, do ISCTE/INDEG, cuja primeira edição terminou recentemente. O problema é que no curso, que contou com a recomendação de organismos do Ministério da Cultura, questões tão cruciais e decisivas, como a gestão dos direitos, a exploração de royalties, ou as técnicas de fund raising estiveram praticamente ausentes. Da mesma forma a importância – sistematicamente descurada - do marketing, da estratégia publicitária e da utilização, neste contexto, das redes sociais foram também pontos quase ignorados. Uma nova política cultural também passa por questões como estas.

abril 05, 2010

(Publicado dia 1 de Abril no Jornal de Negócios)

CULTURA – «A principal matéria prima é a capacidade de criar e inovar», sublinhou Odile Quintin, Directora Geral de Educação e Cultura da Comissão Europeia, na abertura do Forum Europeu das Indústrias Culturais, que decorreu em Barcelona no início da semana, com representação oficial do governo português. Não deixa de ser curioso que numa recente entrevista Gabriela Canavilhas se tenha discretamente demarcado do conceito de indústrias culturais, colocando de novo a tónica nos subsídios concedidos pelo Estado e fugindo a traçar planos de incentivo a iniciativas sustentáveis no sector. Mais preocupante é o facto de a Ministra da Cultura retomar o discurso de colocar o Estado como árbitro da qualidade no momento da atribuição dos financiamentos. Questões fulcrais para possibilitar uma dinamização do investimento no sector, como incentivos fiscais especiais (das artes plásticas ao audiovisual) ou uma Lei do Mecenato mais ambiciosa e eficaz são deixados completamente de parte. E na mesma entrevista a Ministra afirma, preto no branco, que o caminho que pretende seguir não é o de garantir um grande orçamento para o Ministério que dirige. 


 


ENSINO – Precisamente sobre o ensino relacionado com as indústrias culturais, aqui há um ano atrás formulei muitas reservas sobre uma pós graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural, do ISCTE/INDEG. Agora que terminou essa primeira pós graduação cabe dizer que as reservas tinham fundamento: questões tão cruciais e decisivas do ponto de vista do desenvolvimento desta indústria, como a gestão dos direitos, exploração de royalties, marketing, publicidade, redes sociais e fund raising foram praticamente ausentes. Mesmo dando de barato que a gestão do curso foi (por facilitismo?) orientada para museus e função pública, a verdade é que o conteúdo privilegia a noção estatal da cultura em detrimento da visão de desenvolvimento de uma economia assente no desenvolvimento das industrias criativas e culturais.  


 


PSD – Pedro Passos Coelho venceu folgado, trabalhou para isso e juntou um vastíssimo leque de apoios. O mais difícil começa agora, com o arrumar da casa, com a forma de relacionamento das clientelas internas sequiosas de poder, com a concretização das verdades gerais em propostas políticas concretas e, sobretudo, com a forma de fazer oposição e disputar a sua liderança. Com um PP parlamentarmente muito activo, com Paulo Portas a ser, para um número crescente de eleitores, a cara da oposição a Sócrates, e com a capacidade de marcação da agenda política que os Populares têm sabido gerir, como recentemente na educação e na segurança, o grande desafio imediato de Passos Coelho é disputar a liderança da oposição sem descurar a possibilidade de alianças futuras que permitam uma nova solução governativa. 


 


NÚMEROS - Um estudo recente mostra um dado aflitivo: nos últimos três anos a taxa de execução do QREN foi de 23,5 por cento e dos 8,3 mil milhões de euros que a Comunidade Europeia disponibilizou para Portugal, ficaram por utilizar 6,3 mil milhões. Contra números destes não há grandes argumentos, mas deviam ser procurados responsáveis – a começar pelo Governo – e deveria ser analisado o que falhou. Na situação em que estamos este funcionamento perdulário é mais que irresponsável – é criminoso. Sócrates chegou ao poder a bramar contra a má gestão da coisa pública. Os números do deficit, os números do endividamento externo e os números da execução destes programas comunitários não deixam dúvidas sobre o que de facto é uma péssima gestão do PS. 


 


LISBOA – O vereador Gonçalo Reis publicou um belo artigo sobre a verdade dos números do orçamento proposto para a Câmara Municipal de Lisboa, com três meses de atraso, por outra paladino da gestão eficaz, António Costa: crescimento da despesa corrente em 6,2% para 492,4 milhões de euros, fornecimentos e serviços externos a aumentarem 26,4% para 30,9 milhões de euros, deficit previsto no exercício de 2010 de 115,4 milhões de euros, investimentos previstos a três anos no valor de 669,6 milhões de euros sem indicação de como serão financiados. As contas de Lisboa apresentadas pela equipa de António Costa são uma trapalhada. Claro que agora há-de dizer que a ausência de orçamento aprovado se deve à oposição e não à sua incapacidade. 


 


LER – A palavra «Money» em destaque é o elemento comum nas mais recentes edições das revistas Vanity Fair e Wired, por acaso ambas do grupo editorial Condé-Nast e por acaso ambas com edições preparadas para o iPad, cujo lançamento está por dias. Digital à parte, são duas boas edições em papel. A Wired dedica-se ao futuro do dinheiro virtual, em novas formas digitais. E a Vanity Fair centra a edição na continuação de Wall Street com Michael Douglas no papel de Gordon Gekko, nas sequelas do crash de há um ano e nas novas fortunas nascidas na crise. Revistas assim há poucas. 


 


OUVIR – É uma delícia ouvir um disco feito por bons músicos pelo prazer de tocar boa música – a descrição aplica-se que nem uma luva a Hats And Chairs, dos Soaked Lamb, uma banda portuguesa que revisita os sons do vaudeville norte-americano, com referências claras ao blues e a New Orleans. Destaque para Mariana Lima, a vocalista e saxofonista que contribui para que este seja um dos discos portugueses dos últimos tempos que mais gozo me deu. 


 


VER – Medina Carreira e Nuno Crato, moderados por Mário Crespo e com a presença de mais um convidado em cada semana, fazem de «Plano Inclinado» um dos melhores programas de debate da televisão portuguesa. Passa na SIC Notícias ao sábado às 22h00, com repetições noutros horários e sempre disponível na internet. 


 


DESILUSÃO – Vítima de algumas descrições entusiásticas, resolvi um dia destes experimentar um estabelecimento intitulado OPAQ, que se apresenta como um restaurante e bar muito ligado à moda e ao mundo da moda, muito glamour e coisa e tal.


A decoração adequa-se à descrição, mas a coisa fica por aí. A comida era apenas mediana, o serviço bem intencionado mas frouxo, a lista de vinhos curta e mesmo assim com algumas faltas. A terminar não havia outro vodka sem ser Eristoff – o que é uma má ideia – e nada de Visa, apenas Multibanco. Fraco, fracote. Boqueirão do Douro 50 (ao Conde Barão), telef 213 940 602. 


 


BACK TO BASICS – As ideias são o motor do progresso – Dalai Lama 

março 30, 2010

CULTURA: SUBSÍDIO OU INCENTIVO?

(Publicado no diário Metro de 30 de Março)


Com o Forum Europeu de Industrias Culturais a decorrer em Barcelona ainda é mais actual pensar nestes temas...


 


Quando se começa a falar dos dinheiros da Cultura existe uma tendência para a conversa se entornar rapidamente. Extremam-se posições entre os que reivindicam maior orçamento, maiores subsídios e os que propõem sobretudo medidas de estímulo ao desenvolvimento de várias actividades.


Temos à mão um bom exemplo com a produção de telenovelas e séries portuguesas. Os mais cépticos perguntarão  logo – o que é que isso tem a ver com cultura? Tem muito mais do que aquilo que se pensa.


Há uns anos atrás, antes de existir em Portugal a produção regular e constante de novelas e séries para televisão que hoje existe, o trabalho dos actores era bem mais precário e as oportunidades bem mais reduzidas. Desde que esta produção se desenvolveu a maior parte dos grandes nomes do nosso teatro passou a encarar a televisão como um boa forma de encontrar uma estabilidade que o Teatro e os subsídios não podem proporcionar.


Por outro lado uma nova geração de actores estreou-se na televisão e alguns já deram depois o salto para o cinema e, nalguns casos, para o Teatro. De uma forma geral nos últimos dez anos desenvolveu-se o guionismo (a escrita de argumentos), uma série de profissões técnicas fundamentais para a produção artística (iluminação, sonorização, realização) e tudo isto foi feito sem subsídios.


Recentes declarações da Ministra da Cultura parecem querer desvalorizar as actividades que movimentam mais dinheiro, mas que criam mais emprego e desenvolvem mais competências, como é o caso da televisão e da produção audiovisual no geral. Esta atitude perante o sector industrial das actividades da cultura e do entretenimento é a responsável  pelo miserabilismo de grande parte da política cultural do Estado ao longo dos últimos 20 anos.


Em vez de se pensar em fomentar a actividade e em criar mercado, centraram-se os esforços apenas nas formas de distribuição de subsídios e no aumento da participação do estado em várias actividades. Assim, já se sabe, não há dinheiro que chegue. E no fim não há quase nenhum efeito multiplicador. Melhor do que querer mais subsídios é por exemplo fomentar incentivos fiscais, a começar por uma nova Lei do mecenato. 

março 23, 2010

E O PAVILHÃO DE PORTUGAL?

(Publicado no diário Metro de dia 23 de Março)


Enquanto se lançam primeiras pedras de mais obras, como o novo Museu dos Coches, o  Pavilhão de Portugal, na Expo, lá continua vazio – é pena que um edifício feito para albergar exposições permaneça quase votado ao abandono, tornado um espaço de aluguer para eventos. O Museu Colecção Berardo, que podia ter ido para lá, acabou por ficar no CCB, onde aliás está a fazer bom trabalho. A colecção de Moda e design também podia ter ido para lá, mas acabou por ficar na Baixa, nas antigas instalações de um Banco. Quase todos os anos surgem em Lisboa notícias de ampliações ou obras de novos museus – desde o de Arte Contemporânea até um eventual museu da cidade no Terreiro do Paço. Estas obras de recuperação são caríssimas na generalidade dos casos e no entretanto ninguém se lembra de dar uma utilização condigna ao Pavilhão de Portugal. Com uma área de 2000 m2, com infra- estruturas raras em edifícios deste género, com uma pala enorme e impressionante  que  se tornou entretanto um emblema  de Lisboa, o Pavilhão de Portugal projectado por Siza Vieira, é um enorme elefante branco em que ninguém quer tocar.


A razão desta situação de abandono é meramente contabilística – quem ficar com o Pavilhão vai ter que arcar com o valor a que ele está considerado nas contas da Expo, e que não é pequeno – mas a verdade é  que há mais de dez anos vários governos e várias presidências da Câmara ainda não foram capazes de encontrar uma solução racional que permita a utilização deste belíssimo edifício para a finalidade – mostrar exposições – para o qual foi pensado e construído. A mim faz-me muita impressão que se projectem tantas obras e que ninguém se lembre de resolver esta questão – em Dezembro a Ministra da Cultura disse que o Pavilhão tinha um destino mas não disse qual e deixou entender que – estranhamente – não seria na área do seu Ministério. E entretanto lá continua desesperantemente vazio, a ser alugado ao dia como um salão de hotel. Este país não se percebe. 

março 22, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 19)

CORTES – Várias análises publicadas esta semana mostram que os principais cortes que o PEC realizou foram obtidos à custa das despesas sociais, muito mais do que à custa da diminuição do peso do aparelho de Estado. Traduzido por miúdos o Governo corta naquilo que se esperaria que os impostos e taxas que cada um paga garantissem, e não se aplica a racionalizar e a melhorar efectivamente o serviço que o Estado presta aos cidadãos. 

 


 


JUSTIÇA – Precisamente a este respeito o funcionamento da Justiça é um dos maiores problemas que temos. Infelizmente ainda esta semana se voltou a confirmar que o funcionamento da polícia é parte dos problemas no funcionamento da Justiça – sobretudo quando se percebe que em 2009 a polícia efectuou nove execuções e em 2010 já vai em mais quatro. Para um país que se gaba de ter sido dos primeiros a abolir a pena de morte, não está mal.  

 


 


CONGRESSO – De todo do Congresso do PSD retive a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, a tentar colocar os pés dos congressistas bem na terra – para o PSD conseguir um Governo estável tem que desenvolver uma estratégia de alianças, o que quer dizer ter as ideias bem assentes sobre o que quer fazer no Governo e com quem. É básico, mas não estava dito e fez bem ouvir alguém falar do assunto naquela ocasião. Quanto ao resto apenas me ocorre dizer, como um bom amigo me disse no dia seguinte, que o Congresso correu bem…ao PS. 

 


 


TELEVISÃO – Em vésperas da data prevista para a transição do sistema analógico actual para a televisão digital terrestre seria bom voltar a discutir qual o papel do Serviço Público na nova paisagem audiovisual, como se devem encarar nesse contexto as novas oportunidades abertas pelas tecnologias mais recentes, como criar condições para desenvolver a oferta e os modelos de negócio dos operadores privados de televisão, e como criar as bases para o desenvolvimento da indústria de produção audiovisual em língua portuguesa e em Portugal. O resto, nesta matéria, na nossa situação actual, é pura perca de tempo e de energias.


 

 


VER – Na Galeria Baginski inaugurou nesta quarta feira uma dupla exposição muito curiosa: novas pinturas de Carlos Correia e manipulações de fotografias por Délio Jasse. «Ensaio» é o título da exposição de Carlos Correia, um dos mais originais pintores portugueses contemporâneos, com obra pública iniciada há pouco mais de uma década e com presença já assinalável numa série de colecções importantes. As novas obras exploram nomeadamente as memórias de imagens que marcam a vida quotidiana. Na sala ao lado o angolano Délio Jasse apresenta «Schengen», uma evocação da sua condição de imigrante e da vigilância que as sociedades europeias exercem sobre os imigrantes. Jasse reflecte sobre a sua condição através da manipulação e intervenção sobre a imagem fotográfica.  Até 15 de Maio, Rua Capitão Leitão 51/53, a Marvila. 

 


 


LER – Joaquim Manuel Magalhães é dos poetas portugueses que mais gosto. A sua produção é escassa e o autor submete-a a periódicas revisões. Este ano foi publicado pela Relógio d’Água «Um Toldo Vermelho», uma antologia que o próprio autor descreve desta forma numa discreta nota final: «Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior». O autor quer assim como que rever a forma como expõe a sua obra, preferindo não incluir aqueles textos que por alguma razão deixou de considerar poemas publicáveis. O que gosto mais em Joaquim Manuel Magalhães é a forma como escreve, o ritmo que imprime, o modo como escolhe palavras e a narrativa que desenha, Tem uma forma de escrita quase gráfica, permanentemente sugerindo imagens. E, como explora os limites do português e tem um olhar totalmente contemporâneo, consegue escrever poesia sobre um tema tão improvável como as máquinas de um ginásio. 


 

 


OUVIR – Neste tempo em que muito se fala da necessidade de cada pessoa ou empresa se reinventar permanentemente é muito curioso observar como os Tindersticks passaram eles próprios por esse processo. Este «Falling Down A Moutain», o oitavo disco do grupo, que há cinco anos não publicava originais, mostra uma banda num momento alto de criatividade, a revisitar ambientes de jazz, influências dos rhythm’n’blues, de Tom Waits e até de Johhny Cash, para além das baladas que são a imagem de marca de Stuart Staples. Vale a pena destacar um dueto de Mary Margaret O’Hara com Staples, «Peanuts», um diálogo bem humorado e irresistível. Destaque ainda para «Piano Music», a faixa instrumental que encerra o disco, num ambiente que faz o contraponto perfeito à faixa de abertura, que é a muito jazzy e quase hipnótica «Falling Down A Moutain», que dá o nome ao álbum. CD 4AD. 

 


 


PETISCAR – Muitos dos estabelecimentos comerciais que hoje em dia se intitulam gourmet shops são na realidade pouco mais do que as antigas mercearias e charcutarias finas – como as mercearias antigas da Baixa (como a Jerónimo Martins) ou as charcutarias Diplomata. Confesso que muitas vezes gosto de acabar as minhas tardes com um pequeno passeio num destes estabelecimentos, a procurar inspiração para o jantar ou à procura de alguma novidade para o paladar – salvaguardadas as devidas distâncias não é, do ponto de vista sensorial,  um exercício muito diferente de percorrer as estantes de uma livraria ou os escaparates de uma discoteca. Bem perto do Chiado, junto ao Largo Barão de Quintela, a meio da Rua das Flores, fica a Mercearia Doubles  - um local despretencioso, mas com um razoável garrafeira, uma boa secção de frutas e legumes frescos, óptimas compotas, queijos e enchidos. Mesmo ali ao pé fica a nova padaria Quinoa, na Rua do Alecrim 54 – onde pode comprar desde bagels até diversos pães pouco usuais e de boa qualidade. O local também serve refeições leves e oferece uma boa selecção de chás, cafés e chocolates. Entre as duas pode encontrar forma de levar para casa o suficiente para petiscar como deve ser. 

 


 


BACK TO BASICS – É o Governo que deve trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos que devem trabalhar para alimentar os governantes – Gordon Beck 

 

 

março 16, 2010

VALE A PENA TER SERVIÇO PÚBLICO DE TV?

(Publicado no diario Metro de 16 de Março)


 


Nos últimos dias a questão do financiamento da RTP veio de novo à baila, no meio do Congresso do PSD . Esta é uma conversa recorrente e muitas vezes aparece associada à ideia de que valeria a pena privatizar a RTP – assim acabava-se com a despesa do financiamento e ao mesmo tempo fazia-se um encaixe. Quando estas ideias aparecem em cima da mesa geralmente evita-se discutir o que é, ou o que deve ser, o Serviço Público de Rádio e de Televisão e se faz sentido existir. Em que termos se justifica o Serviço Público de TV? No universo das transformações tecnológicas, como deve ele evoluir? Há oito anos, em 2002, foi constituído um Grupo de Trabalho, alargado, a que pertenci, que estudou estas questões e que no final elaborou um relatório que, no essencial, se mantém actual.

A iniciativa da constituição deste Grupo de Trabalho foi dos então Ministros Nuno Morais Sarmento e Manuela Ferreira Leite e, em termos gerais, o relatório elaborado foi tido em conta em várias áreas no processo que levou à reestruturação da RTP. Infelizmente de então para cá regrediu-se e muitas das recomendações, na área da programação, foram sendo progressivamente deixadas no esquecimento.

A existência de um Serviço Público de televisão é essencial para a defesa da língua e cultura de um país, nomeadamente no domínio do audiovisual e do multimédia e sobretudo no contexto europeu. Mas a verdade é que o Serviço Público não deveria concorrer com os privados, nem em programação nem na venda de espaço publicitário, e faz sentido limitar a sua oferta de conteúdos para não interferir com o mercado. Idealmente o Serviço Público deveria desempenhar um papel regulador e dinamizador, fomentando a produção nacional.

Bem sei que não é isto que se passa e que a RTP frequentemente excede as noções mais amplas do que deveria ser a sua missão – mas a resolução deste problemas não passa por extinguir o Serviço Público de Rádio e Televisão. Passa por o adequar aos tempos actuais, por evitar que ele enfraqueça os operadores privados e por conseguir maior racionalidade no seu funcionamento.

A DEMAGOGIA REINANTE

(Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Março)


 


FUTURO – Esta semana ficámos a saber que a governação recente hipotecou o país por mais uma década. Feitas as contas haverá mais uma geração desprezada em Portugal, que irá certamente engrossar o rol dos novos emigrantes. Em qualquer caso existe um pano de fundo que ainda é pouco assumido, porque em geral não interessa a uma classe política desfasada da realidade e que vive de fazer promessas: o mundo mudou e não vai voltar a ser como era antes. Acabaram os tempos de facilidades e as projecções super optimistas.


 

 TRUQUE – Não sei se já repararam mas é a segunda vez que Sócrates usa o mesmo truque: ganha eleições com um programa de promessas e depois subverte tudo o que anunciou e faz ao contrário. Em Setembro passado prometeu obras, manifestou-se optimista, subestimou os anúncios da gravidade da situação. Agora, faz tudo ao contrário, aumenta a despesa fiscal dos contribuintes, reconhece que tem que cortar investimento e concede que a situação é difícil. Ou seja, diz agora o que a oposição dizia em Setembro. Ganhar eleições a fugir à realidade é a nova forma de demagogia e está a matar a democracia – em políticos destes não se pode acreditar.

 

PEC - O caminho mais fácil é sempre aumentar a receita – vender anéis, cortar dedos, esfolar o parceiro, cortar investimentos. O que é curioso é que um Estado tão bom a captar mais receitas à custa da máquina fiscal não consegue um plano coerente de diminuição efectiva da despesa pública, nem consegue um plano eficaz que fomente o crescimento da economia. Assim Portugal continuará adiado, com os contribuintes efectivos a pagarem cada vez mais ao Estado e com as empresas e o país a perderem competitividade.

 

CONGRESSO – Neste fim de semana o PSD reúne-se num Congresso cujo desfecho, nesta altura, é imprevisível, tão imprevisível como uma situação política onde todos falam de mudanças, onde ninguém quer ouvir falar em novas eleições e onde a produção de tabus variados se tornou na indústria em maior expansão em todo o país. O PSD precisa de ter um candidato a Primeiro Ministro, precisa de apresentar medidas exequíveis e concretas e precisa de clarificar o seu posicionamento. Sem estas três coisas não conseguirá assumir-se como alternativa. A ver vamos como corre este primeiro round antes das directas. Neste momento a dúvida maior é saber o que poderá acontecer de inesperado – porque o guião inicial de certeza já não vai ser seguido à letra.

 

CULTURA – Na edição de Março da revista «L+Arte» a Professora Raquel Henriques da Silva escreve um exemplar artigo intitulado «Contra o Novo Museu dos Coches», onde explica como também na área da política cultural há obras públicas desnecessárias e perdulárias. Recomendo o artigo,  e aqui deixo um excerto: «O orçamento previsto para o novo Museu dos Coches é de 36 milhões de euros (…) É uma verba considerável, cuja utilização na edificação de um museu, que não é nem uma necessidade nem uma prioridade, é uma dolorosa provocação às imensas carências do sector (…) Em vez de obra nova (muito novo-rica e solidamente defendida pelo poderoso lobby dos arquitectos), os recursos deviam ser canalizados para a requalificação, para o cumprimento de necessidades urgentes que há muito estão inventariadas e para se pensar os museus do País…»

 

FICA – Há duas semanas questionava aqui em que situação estaria o Fundo de Investimento no Cinema e Audiovisual (FICA). Hoje sabemos que está efectivamente parado, sem entidade gestora, com dívidas acumuladas e a provocar já situações preocupantes numa série de produtoras. A muito anunciada política do investimento no audiovisual resumiu-se afinal a mais uma trapalhada criada pelo Ministério da Cultura.

 

LER – O escritor e arquitecto paisagista Júlio Moreira lançou mãos à obra e fez uma nova edição da sua «Grande Viagem dos Homens através do tempo e do espaço», desta vez com ilustrações de Andreas Stocklein e chancela da Guimarães. Usualmente apresentado como um livro para adolescentes, esta história breve da evolução da raça humana é na verdade um livro bem útil nestes tempos conturbados – obriga-nos a revisitar conceitos, princípios e factos que muitas vezes esquecemos no dia-a-dia, desde as origens do universo até às origens das lutas pelo poder. É um daqueles livros que apetece ter à mão para, de vez em quando, relembrar como as coisas são de facto.

 

OUVIR – O pianista Bernardo Sassetti recriou o trio que tinha feito há uma dúzia de anos com o baterista Alexandre Frazão e o contrabaixista Carlos Costa e o resultado, o CD «Motion», agora editado, é surpreendente. Destaco em primeiro lugar a contenção dos músicos, o seu sentido de improvisação e a forma como conseguem criar um clima de tensão sonora, arrebatador do princípio ao fim. O disco passa por originais feitos por Sassetti para bandas sonoras e revisita temas pop e clássicos, mas no fundo assume-se como um objecto sonoro concebido para estimular o pensamento e a imaginação. CD Clean Feed

 

NAVEGAR – Interessa-se  por «branding», pela discussão em torno do valor das marcas? Por tendências? Então experimente visitar www.branding.blogs.sapo.pt e descubra sugestões de leituras, resumos de análises e conferências e ainda comentários sobre tendências.

 

PROVAR –  As flames são um petisco originário da Alsácia que podem ser brevemente descritas como uma espécie de pizza, só que mais finas, com menos gordura, e rectangulares em vez de redondas. A massa é diferente, mais leve, e os ingredientes são variados. Há pouco tempo abriu na Rua do Alecrim o restaurante Storik, que introduz as flames em Lisboa. O ambiente é simpático, as salas são agradáveis e as flames são engraçadas – no caso provei uma de salmão, anchovas e alcaparras que estava bastante boa e uma de maçã e morcela que era apenas curiosa. Embora diligente o serviço é lento e um bocadinho descoordenado – demorado até se a escolha recair fora do mais trivial. A lista das cervejas disponíveis é boa e inclui a grande Grolsch – não estamos felizmente   no mundo da ditadura da monomarca que as cervejeiras nacionais impuseram a alguma restauração. O Storik desdobra-se em bar fora das horas de almoço e jantar ( e há noites temáticas com poesia, humor e música) e ainda um bom local para lanchar scones ou bolas de Berlim. Rua do Alecrim nº30, telf 216 040 375, www.storik.pt .

 

BACK TO BASICS – O verdadeiro poder não se revela por atitudes duras e frequentes mas sim por falar verdade e agir em função disso – Honoré de Balzac

março 10, 2010

A ECONOMIA DA CULTURA

(PUBLICADO NO DIÁRIO METRO DE DIA 9)



Um recente estudo, de Augusto Mateus, sobre a área da cultura e entretenimento mostra que hoje em dia o peso económico das indústrias criativas já é maior, por exemplo, que o dos têxteis.


A Ministra da Cultura, numas declarações a propósito do estudo, meteu os pés pelas mãos e embrulhou-se toda para explicar, meio engasgada, que o estudo abrangia um universo muito lato que ía até ao que designou por música pimba, que não é mais que a música popular.


Na realidade a vantagem deste estudo é que partiu para a análise do sector sem ideias feitas e com espírito aberto, adoptando aliás o enquadramento do sector que é  utilizado em todo o mundo e que abrange, além das áreas habituais, a industria discográfica, os espectáculos, o audiovisual (cinema e televisão), os jogos de computador ou a publicidade, por exemplo.


Analisando as coisas nesta perspectiva, que é a que corresponde à realidade, cedo se torna evidente que o que interessa para desenvolver este sector é canalizar para lá mais investimentos em vez de a preocupação estar centrada apenas em subsídios pontuais. Ou seja, do ponto de vista de criação de postos de trabalho é importante fomentar a actividade nestas áreas, nomeadamente no audiovisual e no digital, assim como criar esquemas financeiros que fomentem, à semelhança de outros países, a compra de obras a jovens artistas plásticos.


Desculpem por puxar a brasa ao audiovisual – uma língua e uma cultura que não estejam  presentes de forma consistente na produção para digital, televisão e cinema estão condenadas ao progressivo desaparecimento no mundo actual. Por isso, o Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual, lançado há uns anos, era uma ideia importante. Infelizmente, soube-se esta semana, o Governo e o Ministério da Cultura não cumpriram os seus compromissos e estão a provocar a paralisia de empresas de produção, o despedimento de técnicos e a asfixia do sector. Ou seja, na prática o Governo faz o contrário daquilo que o estudo que encomendou aconselha. 


março 08, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Março)

PSD – Olho para a discussão entre os candidatos a líderes do PSD e fico um pouco perplexo. Eu, como muitos outros cidadãos sem partido, gostaria que houvesse um debate mais político e menos aparelhístico. Citando Marcelo Rebelo de Sousa, a última coisa que desejo é que a discussão entre os candidatos à liderança do PSD se transforme num concurso de tempos de aplausos no próximo congresso social-democrata.  Nestes dias, nestes debates, vejo surgirem muitas propostas, a maior parte delas sem serem acompanhadas de uma estratégia que permita concretizá-las, para além da vontade pessoal de cada um dos candidatos. Sinceramente gostaria que tivéssemos um governo reformista, liberal, capaz de começar a apagar o peso do Estado, capaz de defender as pessoas, capaz de combater o despesismo e capaz de fazer investimentos produtivos. Já percebemos que o caminho do Governo do PS não é este. Eu espero que possa ser encontrado um rumo para que num futuro próximo surjam condições políticas para criar uma nova forma de governar – com mais respeito pelas opiniões dos outros, com respeito pelas vozes críticas, com menos escândalos e trapalhadas.  

 


PS - Nas últimas semanas uma série de figuras do PS têm-se desdobrado em defesa de José Sócrates e o próprio tem vindo a terreiro defender-se do que entende serem ataques pessoais. Estas atitudes subvertem completamente o que está em jogo – o que se tem passado, numa série de casos recentes, não é uma perseguição pessoal a José Sócrates, é um ataque político a atitudes ligadas ao exercício do cargo de Primeiro Ministro. Na realidade, o carácter do Primeiro-Ministro é porto em causa não por outros, mas por ele próprio. 

 


ÉTICA – O teatro pode ser um bom palco para reflectir sobre a ética– foi o que pensei quando estava a assistir a «Édipo», no Teatro Nacional D. Maria II. Achou louvável que o Teatro Nacional leve à cena grandes textos clássicos e acho ainda mais louvável que escolha um encenador como Jorge Silva Melo, que fez um belo trabalho. Mas acho muito descabido que o Director de um Teatro Nacional aceite colocar-se no papel principal das peças que produz. Esta confusão de papéis – entre director artístico e actor - gera situações equívocas. Independentemente do fraco  resultado artístico da actuação de Diogo Infante como Édipo, a questão está na mistura de funções. Infelizmente estas coisas discutem-se pouco e existe uma espécie de pudor em dizer - «o Rei vai nu». Mas, neste caso, vai mesmo. Fica se na duvida se isto é programação em causa própria e, se o for, talvez lhe ficasse melhor fazer o papel de Narciso


Salva-se a encenação, a banda sonora e os pastores, sobretudo Cândido Ferreira. 

 


LER – A edição nº 31 da revista «Monocle», publicada em Março, tem dois especiais que são dignos de nota. O primeiro é sobre a cidade do Rio de Janeiro, considerada como uma cidade em alta depois do anúncio dos Jogos Olímpicos. O artigo é completo, tem dicas de locais, de hotéis e restaurantes a bares e lojas. Fala do renascimento urbano do Rio e cita o exemplo de uma instituição chamada Rio Filmes, que financia filmes que têm a cidade como palco – e que trabalha em estreita relação com a Film Commission local – um bom exemplo de trabalho nesta área de produção de cinema. O segundo especial é um suplemento de 36 páginas inteiramente dedicado a Espanha. Está editado com enorme cuidado, é objectivamente feito em parceria com as autoridades espanholas do turismo e quem o vir nem acredita que existe uma grave crise aqui no país vizinho. Editorialmente está focado em temas com a indústria, a energia, a cultura, turismo, moda e design, entre outros, sempre numa perspectiva de mostrar o que é novo e não apenas o que já é conhecido. Em termos das pessoas focadas nota-se o cuidado em mostrar talentos emergentes na área do cinema e da moda e não os nomes já consagrados. A imagem que resulta é a de uma sociedade criativa, viva e dinâmica, a responder às dificuldades. É um suplemento exemplar daquilo que pode ser a divulgação da imagem contemporânea de um país. Outro interessante artigo relata a guerra política que vai em torno dos grandes grupos de media turcos – muito interessante se tivermos em conta a nossa história recente por estas bandas. 

 


VER - «Sem Rede», a exposição retrospectiva de Joana Vasconcelos que esta semana inaugurou no Museu Berardo é verdadeiramente irresistível. A artista é polémica e eu descrevo assim o seu trabalho: excessivo, intensamente físico, delirante e fantástico. A montagem aproveita os grandes espaço do CCB e obras de referência da artista como «A Noiva» (o lustre feito de tampaxes), «Burka», «Contaminação» ou «Cinderela» são aqui novos motivos de surpresa. A exposição vai estar até 18 de Maio e garantidamente constituirá um êxito de público – o que é muito bom.


 

OUVIR – As coisas simples são frequentemente as melhores. «Home», um disco do norte-americano Peter Broderick datado de 2008, é o exemplo de como se podem fazer excelentes canções com parcos recursos – guitarras, alguma percussão, alguns instrumentos electrónicos, uma harmónica e um vibrafone aqui e ali. Arranjos elegantes, letras intimistas e inteligentes, uma voz quente. E aqui está um grande disco.
 

 


PETISCAR – Durante anos habituei-me a encontrar no restaurante «O Manel» do Parque Mayer um refúgio seguro a preço razoável. Por lá tive encontros de trabalho, almoços e jantares com amigos, sempre com serviço cuidado e boa qualidade. Quando o Parque Mayer fechou, no final do ano passado fiquei sem saber o que tinha acontecido a Júlio Calçada, o filho e herdeiro do fundador,  e à sua equipa.  Mudaram-se para o restaurante do Clube Municipal de Ténis de Monsanto, a Grelha Real. A lista do velho «O Manel» mantém-se e esta semana lá fui experimentar a primeira lampreia da época – arroz saborosíssimo, no ponto, belos bocados do bicho perfeitamente cozinhados. Enquanto a lampreia durar por lá estará às quartas; o cozido mantém-se às quintas e todos os dias há bom peixe fresco. E Júlio Calçada continua a saber o que é tratar bem os seus clientes. Está encerrado ao Domingo à noite e toda a Segunda-feira e nos outros dias serve almoços e jantares. Tem parque privativo, fica a dez minutos de carro das Amoreiras e o telefone é 213 646 302. 

 


 


BACK TO BASICS – Os partidos têm de ter vergonha e ter cuidado com quem colocam nos postos cimeiros - José Luis Saldanha Sanches  


             

 


 

fevereiro 27, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 26 de Fevereiro)

 ONG – Admiro as pessoas que se entregam a causas e que têm a capacidade de fazer, em Organizações Não Governamentais, aquilo que os Governos se mostram incapazes, insensíveis ou desinteressados em fazer. Mostram uma capacidade de mobilização , uma capacidade de atingir objectivos e de alcançar resultados que fazem inveja a muitos gestores. É uma forma de intervenção cívica que vive do princípio de juntar vontades, juntar esforços e evitar a tradicional armadilha da política e políticos tradicionais – dividir para reinar. Espanto-me por isso que Fernando Nobre surja agora no papel de político, forçosamente a provocar divisões entre quem o tem apoiado na AMI, e a meter-se numa luta de facções no mínimo exótica. Resta esperar que no fim desta aventura não seja a AMI a prejudicada – o que é um risco considerável. Ganhar notoriedade no bem comum para depois a gastar no poder pessoal é no mínimo uma coisa desagradável. 



EXEMPLO – Onde é que a arrogância do Governo e a inoperância da Câmara Municipal de Lisboa se cruzam? - Na devastação criada frente à Torre de Belém, que viu a sua área envolvente destruída pelas festividades da assinatura do Tratado de Lisboa. Uma operação de imagem de Sócrates devastou um dos emblemas da cidade e do país e a Câmara lá tem ficado parada a ver o lamaçal adensar-se, nada fazendo em quase três meses para resolver a situação. É mais ou menos desde essa altura que anda a destruir o Jardim do Princípe Real. 


ESTUDO – Na semana passada o semanário «Expresso» publicou um bom estudo elaborado pela empresa de consultoria de Augusto Mateus sobre o peso económico das indústrias culturais e criativas na economia portuguesa. Muito resumidamente conclui-se que este sector já vale mais que os têxteis e quase tanto como o sector automóvel. O bom senso mandaria que os amáveis políticos, que nos governam ou querem governar, se dedicassem a estudar o tema e a apresentar políticas. Mas quase nada surge, muitas vezes o que aparece é meramente rotineiro e bastante ultrapassado, pouco passando de vagas declarações de princípio. Há pouco estudo de bons exemplos internacionais, há pouco conhecimento de tendências, há ignorância na aplicação de vantagens fiscais, continua a preferir-se subsidiar a incentivar. E, na realidade, as indústrias culturais e criativas fortes, para além das vantagens económicas, são um factor de atractividade, de competitividade e de imagem – e menos sujeitas a deslocalizações que as quimondas desta vida. 


FICA – O Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual foi uma das grandes bandeiras do primeiro Governo de Sócrates na área da Cultura. A ideia em si era boa – mas precisava de dinheiro. Ora nos últimos tempos o FICA tem-se deparado com falta de fundos – o Estado não pagou durante muito tempo (quase dois anos), depois utilizou verbas do CREN para pagar o que devia – solução que levanta dúvidas – e na sequência dos atrasos do Estado claro que as televisões também não entregaram a fatia que lhes competia. Em resumo, o FICA está numa crise de financiamento e de gestão, algumas produtoras já estão a sofrer com o assunto e nalguns casos já se verificam despedimentos. Sobre este assunto – precisamente na área das indústrias criativas e da inovação, que tem o Governo a dizer? 

 


LER – A revista norte-americana «Wired» foi considerada a «revista da década» pela «Adweek», uma publicação especializada na análise de media. A edição de Fevereiro inclui um artigo muito interessante, que podem também ser consultados na edição on line. O artigo mais interessante diz respeito ao novo conceito de revolução industrial no século XXI – uma revolução que muda os paradigmas das grandes instalações industriais para a criatividade individual, desenvolvida em poucos espaços e muitas vezes apenas com recursos próprios. Dá que pensar e vale a pena ler.- «The New Industrial Revolution», por Chris Anderson. 

 


VER – A programação do Museu Berardo, em Lisboa, no CCB, continua verdadeiramente exemplar. Desde o início do mês já inauguraram três exposições dignas de nota e, para a semana, na segunda-feira, arranca uma retrospectiva da obra de Joana Vasconcelos – mas isso ficará para outra ocasião. Das exposições que já estão a funcionar destaco «Body Without Limits» de Judith Barry, surpreendente de criatividade e originalidade na forma de utilizar o vídeo e com uma montagem excepcional – um projecto que teve curadoria de Luis Serpa. Quase tão entusiasmante como a exposição de Judith Barry é a retrospectiva de Robert Longo, um artista norte-americano muito influenciado pela pop (fez vários videoclips para os New Order e REM por exemplo), e que mais tarde se dedicou à escultura e ao desenho. Finalmente, num registo diferente, as fotografias de viagem de Annemarie Schwarzenbach mostram um olhar de época sobre destinos exóticos para uma suíça – entre os quais Portugal. Mas o que interessa reter é a dinâmica da programação, a agitação do local com públicos de várias idades, a variedade de propostas e o empenho em divulgar artistas e as suas obras.  


OUVIR – Depois de um interregno de oito anos Peter Gabriel regressa com um surpreendente disco, onde  reinventa o conceito de versões – reconstrói os originais e com a ajuda de John Metcalfe cria novos arranjos, recorre a instrumentações pouco usuais, alterações de ritmos e harmonias e, finalmente, arrisca interpretações vocais que propositadamente se afastam do que podia ser esperado. Aqui estão canções, de David Bowie, Arcade Five, Magnetic Fields, Regina Spektor, Neil Young mas também de Paul Simon, Talking Heads e Lou Reed, entre outros, numa curiosa recolha de preferências do próprio Gabriel – que nas interessantes notas de capa do disco confessa que o processo de escrita de uma canção foi o que o atraiu para a música. Sublinha que escolheu algumas das suas canções favoritas e focou-se no lado da interpretação e não na criação original. O resultado é um exemplo de criatividade aplicada à reinvenção, muitas vezes mais complexa do que o processo criativo original. «Scratch My Back» é o título do projecto, a que se seguirá um outro disco, com os autores das canções aqui utilizadas a recriarem canções de Gabriel que eles escolherão – e o novo trabalho continua o título deste - «And I’ll Scratch Yours». (CD Real World). 


BACK TO BASICS – Quanto maior o poder, maiores as responsabilidades e maiores as consequências - juiz americano, ao condenar a prisão um alto funcionário por mentir em inquéritos oficiais.


 


fevereiro 22, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Fevereiro)

 


PSD – Os primeiros momentos do processo de eleição do novo líder do PSD não são muito entusiasmantes. A começar pelas trocas de acusações entre as equipas de alguns candidatos e a terminar nos nomes que integram algumas dessas equipas e apoios, nota-se que na realidade a mudança não está muito presente. Na realidade se a coisa se resumir a estilo pessoal teme-se que a discussão afinal acabe por se fulanizar.

 

PS – Há poucos dias vi anunciada uma manifestação de apoio a Sócrates para sábado, na Alameda, em Lisboa. Depois deixei de ouvir falar no assunto e percebi que nesse dia ele tem um encontro com militantes do PS no norte. Fico na dúvida se a anunciada manifestação era partida de Carnaval ou se foi mesmo o PS que se transformou numa paródia.

 

BANCA- Razão tinha Vitor Constâncio quando disse que as nomeações para o BCE são mais fruto de habilidade diplomática do que de competência. Não deixa de ser irónico que, depois de tudo o que se passou em Portugal com a supervisão da Banca, na directa dependência de Constâncio, nomeadamente no BPN e no BPP, ele acabe agora por ficar exactamente com a responsabilidade da supervisão bancária no Banco Central Europeu.

 

LIVROS – Olho para o top dos dez livros mais vendidos nas lojas Bertrand na última semana e tenho uma surpresa: «Mudar», de Pedro Passos Coelho, está em terceiro lugar de vendas, logo atrás de «As Regras de Moscovo» de Daniel Silva e «Amor» do inenarrável Paulo Coelho. Atrás do livro do candidato à liderança do PSD estão obras de José Rodrigues dos Santos, Isabel Allende, Dan Brown e Margarida Rebelo Pinto. Que me recorde é a primeira vez que um livro programático de um político português regista este nível de vendas – cerca de 7500 exemplares até agora, com a terceira edição a chegar às livrarias. É curioso aliás folhear «Mudar» - nota-se um cuidado formal, de escrita, de ritmo de escrita, de ligação entre temas, que é invulgar em edições deste género. Na apresentação do livro, Pedro Passos Coelho contou que tinha frequentes conversas com o responsável pela editora, a Quetzal, Francisco José Viegas. Estou em crer que Francisco José Viegas desempenhou de facto o papel de editor, no sentido anglo-saxónico do termo, e assim o resultado final reflectirá as suas sugestões do ponto de vista da forma – pelos vistos com bom resultado.

 

FILMES – Fim de semana de Carnaval: o filme mais visto foi «Dia dos Namorados», que entre 11 e 14 de Fevereiro totalizou 44.285 espectadores. Em segundo lugar está «Avatar» com 43.717 espectadores e, claro, «A Princesa e o Sapo» com 39.366. O primeiro filme português a aparecer foi «A Bela e o Paparazzo» que teve neste período 10.787 espectadores, mas que já acumulou 72.829 espectadores, desde que estreou a 28 de Janeiro – bom resultado até quando comprado com os 115.420 espectadores de «Invictus», que estreou na mesma altura. Outros números – Avatar já ultrapassou o milhão de espectadores em Portugal desde que foi estreado dia 17 de Dezembro, nas nuvens vai com 168.979. De entre os filmes em exibição o segundo mais visto em termos globais é «Sherlock Holmes» que totaliza 394.465 entradas desde 24 de Dezembro.

 

OUVIR – Tom Waits acabou de fazer 60 anos e este seu disco gravado ao vivo em vários concertos na Europa e Estados Unidos, percorre as várias fases dos seus quase 40 anos de carreira – desde os blues ao folk e ao rock, passando pelo experimentalismo, sempre com a sua voz única a servir de catalisador. O grande teste de um disco gravado ao vivo é saber se, depois de o ouvir, nos lamentamos de não ter assistido ao concerto. Pois foi isso mesmo que me aconteceu: fiquei roído de inveja de não ter estado em nenhum dos concertos de Waits. O álbum é duplo, o segundo CD tem 35 minutos de belas histórias contadas despretenciosamente pelo próprio Waits – Tom’s Tales. Também isto é surpreendente. «Glitter And Doom Live», Tom Waits, 

 

VER – «Suspender o Ar» é a nova exposição de Cristina Ataíde, que estará na Casa da Cerca, em Almada, até 16 de Maio. Reinterpretando vários marcos da sua obra, Cristina Ataíde explora ao mesmo tempo algumas curiosas direcções nos seus novos desenhos (que são talvez a parte mais interessante da mostra), muito sensoriais, com uma carga física intensa, mesmo que sendo aparentemente despojados de corpos e da presença humana.

 

PETISCAR – Mesmo ao lado do velho e conservador Belcanto, perto do S.Carlos, fica agora O Largo, um conceito que ultrapassa o mero restaurante e aposta em ser um local para convívio, para ver e ser visto e para poder proporcionar um bom entretenimento, no sentido lúdico e também gastronómico. Há alguns anos que em Lisboa não abria um local assim, com este objectivo assumido de ser o local onde vale mesmo a pena ir. Na cozinha de O Largo está Miguel Castro e Silva (do Bull & Bear no Porto e, mais recentemente, do De Castro em Lisboa). O projecto de arquitectura é de Miguel Câncio Martins, um português com actividade em toda a Europa – o seu desafio era grande já que o restaurante fica nos antigos claustros do Convento da Igreja dos Mártires. O resultado é excelente em estilo, sobriedade e conforto. Por detrás de tudo está Frederico Collares Pereira que investiu no projecto e o dirige. O Largo consegue ser um daqueles locais onde a boa cozinha se conjuga com um serviço exemplar e com um ambiente «trendy». Miguel Castro e Silva fugiu um pouco aos pratos que foram o seu ex-libris e tem propostas como robalo marinado com ervas frescas, as vieiras em cama de endívias e ovos Averuga e as lulas salteadas com camarão beurre blanc. Nas entradas e sobremesas há muitas escolhas – que incluem, nas primeiras, uma honesta terrina de foie gras e , nas segundas, gelados Santini e uma criação do chef, mousse de chocolate a zero graus com creme de avelã. Resta dizer que há uma zona de fumadores e que ao almoço existe um menu executivo que começa nos 18 euros. Mas é à noite que as coisas se animam mesmo - e aí conte com uns 50 euros por pessoa sem demasiadas extravagâncias. Rua Serpa Pinto 10A, Lisboa. 213 477 225.

 

BACK TO BASICS – Diz-se que o poder corrompe, mas é talvez mais adequado dizer que o poder atrai os corruptíveis – David Brin

fevereiro 18, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Fevereiro)

UMA LINHA POLÍTICA – O caso das tentativas de ingerência do Governo, do PS e, em especial, de José Sócrates na comunicação não são um caso de violação de segredo de justiça – desde que Sócrates, em pleno Congresso do PS, apontou a dedo os alvos a abater em matéria de informação criou uma linha política. A actuação do PS e do seu Governo nesta matéria tem-se limitado a seguir essa linha com o objectivo de, sempre que possível, combater a divergência, castigar quem critica, querer assegurar a manipulação e uniformizar a informação. Os relatos sobre estas malfeitorias são numerosos e oriundos de várias procedências. 

 


 


O PS E A IMPRENSA – O Partido Socialista gosta de ostentar galardões em prol da liberdade de imprensa e Mário Soares veio em defesa de Sócrates agitar os seus pergaminhos. Como a luta pela liberdade de expressão e de imprensa não era um monopólio do PS antes de 1974, proponho que se analisem as coisas ocorridas depois do 25 de Abril. Ao ataque de que a «República», próxima do PS, foi alvo em 1975, por forças à sua esquerda, respondeu o PS, anos depois, com o encerramento de todo o grupo «Século», pela mão de Manuel Alegre, então com funções governativas nessa área – foi o primeiro caso em que o PS resolveu acabar com um voz que lhe era incómoda, não se preocupando nem com o desemprego causado, nem com o facto de estar a encerrar um dos grupos de imprensa com maior História em Portugal. A geração de dirigentes do PS dessa época passou, depois, a querer criar jornais que seguissem a cartilha do partido, sempre com assinalável dose de insucesso comercial – desde o extinto «Portugal Hoje» que se esboroou a combater Eanes, até à aventura com Robert Maxwell, que acabou no meio da trapalhada do caso Emaudio. Ao longo destes vários casos o PS sacrificou jornalistas, fez e desfez empresas e postos de trabalho. A geração pós-Soares, esta que agora está no poder, é muito mais profissional e eficaz nesta matéria: usa-se o aparelho de Estado, a pressão, a influência e se necessário for o dinheiro para alcançar os objectivos.  

 


 


O CASO TVI – Um dia ainda alguém há-de fazer a história da entrada da Prisa em Portugal, da forma como a vida lhe foi facilitada, das primeiras nomeações que fizeram (na Administração e na rádio, por exemplo) e dos apoios, dentro do actual PS, que tiveram em relação aos seus primeiros anos em Portugal, no início do primeiro Governo Sócrates e com um empurrão de Zapatero. Quem seguir a linha dos acontecimentos no sector dos media perceberá que o que se está a passar no país não pode ser discutido apenas à luz da justiça, mas sobretudo à luz da política. Na realidade a única coisa que todo o processo Face Oculta mostra é que uma investigação sobre corrupção se cruzou com uma conspiração política, que acabou por tocar o núcleo central do regime. 

 


 


ELEIÇÕES – Hoje em dia fica claro que o objectivo de uma sucessão de movimentações desencadeadas por figuras próximas de Sócrates no sector dos Media era condicionar a opinião pública num ciclo de sucessivos períodos eleitorais. Na realidade o que é politicamente relevante é que o núcleo duro de José Sócrates agiu em nome de um conceito absolutista de poder, através do qual se habituou a mandar no país, e criou um plano que apenas abortou porque foi conhecido antes de finalizado. Mas, mesmo assim, acabou por atingir a maior parte dos seus objectivos, tal enunciados por Sócrates no Congresso do PS – mudou direcções no «Público» e na TVI. 

 


 


 


PERGUNTINHA – As figuras do PS que se insurgiram contra a inger~encia nos media, que vão fazer agora? 

 


 


 


LISBOA – António Costa, neste seu segundo mandato, está a ter a característica de andar razoavelmente ausente dos grandes problemas da cidade. Não se lhe vê nem a energia nem a vontade de tomar conta dos grandes dossiers que podem fazer Lisboa mudar, nem tão pouco a capacidade de evitar situações como a do Principe Real. Quem assiste às reuniões da Câmara dá conta do seu ar frequentemente enfadado. Na Assembleia Municipal tornou-se maioritariamente ausente – desde que foi reeleito já são em maior número as reuniões em que não esteve do que aquelas a que se dignou comparecer. E entretanto, vai sendo cada vez mais habitual o PS não conseguir ganhar votações na Assembleia Municipal, que esta semana recomendou à Câmara que não se envolvesse na Red Bull Air Race. 

 


 


LER – A edição de Fevereiro da «Monocle» é um número perfeito para viajantes. O tema de capa é a importância da hospitalidade na capacidade de atracção turística de países, cidades, linhas aéreas e hotéis – muito didáctico para a realidade nacional. Outros bons artigos – uma perspectiva diferente sobre o balanço do primeiro ano de Obama como Presidente, uma bela reportagem sobre a realidade do Nepal, um artigo sobre a aposta dos correios suíços na produção e distribuição de conteúdos como nova área de negócio, uma avaliação de alguns dos hotéis que vale a pena conhecer e, a terminar, um guia de Banguecoque e um portfolio sobre uma das fronteiras de Israel. 

 


 


OUVIR – Electro-folk-pop: sabem o que é? Se não sabem descubram o novo disco de Charlotte Gainsbourg, «IRM», que deve muito da sua eficácia à produção certeira e elegante de Beck. Mas a produção não faria nada sem as canções simples, intimistas e muitas vezes surpreendentes que são todas assinadas ou co-assinadas pelo próprio Beck Hansen. A minha dúvida é se hei-de considerar este o melhor disco de Beck dos últimos anos ou se, como me parece neste momento, se trata de um trabalho a quatro mãos em que Charlotte Gainsbourg serviu de inspiradora e veículo para nos trazer uma outra faceta desse génio às vezes meio desaparecido que é Beck. De qualquer das formas «IRM» é um disco absolutamente arrebatador, por vezes erótico, por vezes dramático, sempre com a sobrevivência e a busca da vida como pano de fundo. CD 

 


 


DESCOBRIR – Todos os espectadores de teatro têm agora à disposição uma eficaz agenda com indicações úteis sobre estreias, peças em cena, horários e preços. Vale a pena conferir em www.agendadeteatro.com . 

 

 


BACK TO BASICS – Se alguém diz a verdade, é certo que, mais cedo ou mais tarde, será descoberta – Oscar Wilde

fevereiro 10, 2010

Aquela Máquina

 (Publicado no jornal "Metro" de 9 de Fevereiro)



O novo tablet da Apple, o iPad, é mais do que uma novidade tecnológica para maluquinhos da internet – é um novo tipo de aparelho que abre uma nova área de desenvolvimento na indústria de conteúdos. Na realidade o iPad não é um computador  - é um centro de entretenimento móvel. Se quiserem uma comparação, o iPad está para o mundo actual como os rádios portáteis a transístores estiveram para o mundo do início dos anos 60.


Com o iPad pode transportar-se tudo para todo o lado, desde música e jogos a filmes, passando por livros, jornais e revistas, ou  pelo acesso ao email e a visualização de programas de televisão – para já não falar das estações de rádio que habitam a internet. O iPad – e outras máquinas semelhantes que inevitavelmente se lhe seguirão – vai de facto mudar a nossa forma de viver, de nos relacionarmos e de consumir conteúdos.


Quando o iPad estiver na sua idade madura, digamos daqui a uns dois anos, meados de 2012, a primeira geração que já cresceu num ambiente digital estará a sair das faculdades e a começar a trabalhar. Pare eles,  máquinas como o iPad serão tão familiares como as consolas portáteis de jogos e serão um acessório incontornável no dia-a-dia.


Isto coloca um enorme desafio ao nosso país: Portugal é subdesenvolvido em matéria de produção audiovisual e de conteúdos digitais. Isto quer dizer que, a menos que exista uma esforço sério de criar conteúdos audiovisuais de nova geração – jogos, aplicações, micro séries, revistas virtuais – os utilizadores portugueses destas máquinas terão pouca escolha de conteúdos nacionais. Ou seja, o português corre o risco de se extinguir no novo mundo digital.


Numa altura em que se discute muito a sobrevivência da nossa língua e a reforma ortográfica vale a pena dizer que tudo isso não servirá para nada se a língua não existir nas plataformas de conteúdos audiovisuais e digitais. Um país que não exista neste domínio será um país esquecido, uma cultura inexistente e uma língua morta.


 


fevereiro 08, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Fevereiro)

 


CEM DIAS – Desde há cem dias que o PS governa sem maioria absoluta e a convivência com o diálogo, o acordo e a busca de consenso não lhe está a ser nada fácil. Os relatos saídos das reuniões entre o Primeiro Ministro e os partidos descrevem a dificuldade em aceitar propostas diferentes, em reconhecer erros, em admitir críticas. O maior problema da situação política está nisto: o Governo quer impôr em vez de negociar, encara cada alteração como uma derrota ou recuo, e não consegue ver o País sem ser do alto do poder. Os malabarismos em torno dessa nova invenção que é o défice flutuante, que se inflaciona ao sabor do momento, para depois se dizer que desceu, é um dos exemplos maiores desse facto.

 

DENÚNCIA – Três dirigentes da bancada socialista da Assembleia da República anunciaram como principal proposta para combater a corrupção um projecto que pretende tornar públicos os rendimentos de todos os cidadãos. Um deles explicou numa rádio que a ideia era permitir que um vizinho achasse estranho que na casa ao lado existisse um Ferrari quando o seu dono tinha poucos rendimentos declarados – e que assim cada cidadão fosse um fiscal. Ou seja esse dirigente do PS acha salutar que cada um vigie o próximo e denuncie o que achar que foge à regra que o Estado impõe. A notícia foi manchete de um diário e a generalidade dos outros partidos parlamentares, da esquerda à direita, teve o bom senso de repudiar a ideia. A meio da tarde o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, veio dizer que enquanto ele dirigisse a bancada, esse projecto não veria a luz do dia. No fim, o episódio serviu apenas para mostrar o estado interno do PS, quer em ideias, quer em organização.

 

CONVERSAS - A pior coisa que pode acontecer a um Primeiro-Ministro é ter falta de bom senso e, seja qual fôr a versão apresentada, uma coisa é certa: existiram, em local público, alto e bom som, declarações de José Sócrates sobre um jornalista, declarações que confirmam a tendência, já verificada em ocasiões anteriores, de um desejo de ingerência na forma como meios de comunicação se referem ao Governo. Ora, quem tem cargos públicos e ainda por cima exerce o Poder deve ser um exemplo de boas práticas. Pior ainda é que dois outros membros do Governo achem que classificar a actuação de um jornalista como um problema se resume a uma «calhandrice». Já agora, no início de tanta celebração republicana estimulada por este Governo era bom que o exemplo de tolerância e liberdade viesse de cima.

 

LISBOA - Em torno das obras no jardim do Princípe Real tem existido uma significativa e exemplar mobilização, com especialistas a pronunciarem-se sobre questões técnicas relevantes e a conseguirem desarmar os considerandos do vereador José Sá Fernandes sobre o assunto. Em torno de um outro caso, que está a deixar muita gente em Lisboa preocupada, o encerramento do Hospital de D. Estefânia, também se está a verificar considerável mobilização. Em ambos os casos o «Facebook» tem servido de plataforma de troca de opiniões e de organização. É óptimo que a sociedade civil se manifeste desta forma e se esteja a insurgir contra os abusos e dislates da Câmara Municipal. Mas não posso deixar de pensar que muito provavelmente muitos dos que hoje protestam votaram em António Costa em nome de uma unidade de esquerda cujos efeitos práticos agora estão à vista.




PERGUNTINHA – O que se passa com a reinstalação do Hot Clube, assunto de que já ninguém fala?

 

VER - O prémio BES Photo tem vivido entre a polémica e o equívoco, ao privilegiar o critério da fotografia como suporte técnico e não a linguagem fotográfica como expressão. O resultado é que ao longo dos anos se tem estabelecido a confusão. No seu blog, o crítico Alexandre Pomar afirma, e bem, que «os nomeados foram melhor antes, nas exposições por que foram escolhidos, do que na exposição/concurso. Em parte (outras razões são de produção e "comissariado"), porque lhes falta experiência para enfrentar a provação, o "efeito prémio", o tipo de "projecto" que o "meio curatorial" aprecia.». Mesmo assim quem melhor escapou ao duvidoso crivo do júri e apresenta o trabalho mais coerente é Patrícia Almeida, que mostra o seu olhar sobre o outro lado dos festivais de música. Na realidade é a única que consegue mostrar um olhar em vez de obedecer a um conceito.

  

OUVIR – A guitarra portuguesa é um instrumento traiçoeiro; tecnicamente difícil, a guitarra pode ser tocada de duas formas – conformista, a imitar os grandes nomes; ou arriscada, a procurar as sonoridades estranhas e envolventes que a caracterizam. No segundo caso (às vezes também no primeiro) , o risco é evitar que o resultado não seja uma sonoridade semelhante à que se obtém se se deixar cair o instrumento por umas escadas abaixo. Ricardo Rocha é dos poucos que consegue passar bem na prova mais arriscada. O seu novo disco, «Luminismo», mostra isso mesmo com as interpretações que faz de temas de Carlos Paredes, Artur Paredes e Pedro Caldeira Cabral, em contraponto às suas próprias composições, intricadas e misteriosas, tecnicamente exigentes. O resultado é o melhor disco de guitarra portuguesa dos últimos anos. «Luminismo», Ricardo Rocha, Duplo CD editado por MBari.

 

LER – A edição de Fevereiro da revista «Vanity Fair» tem um extraordinário portfolio de Tiger Woods fotografado por Annie Leibowitz, acompanhado por um artigo sobre os mistérios do golfista que mais se aproximou do estatuto de uma estrela pop. Na mesma edição vale a pena seguir a aposta em seis novas actrizes de Hollywood, um belo artigo sobre Patti Smith e outro sobre a história do disco-sound. A não perder.

 

DEVORAR – Se querem manter-se actualizados sobre novidades gastronómicas, desde restaurantes a produtos, passando por vinhos, não percam o blog Mesa Marcada ( http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/ ). Os críticos gastronómicos Duarte Calvão e Miguel Pires e o crítico de vinhos Rui Falcão (não é da minha família) fazem uma bela abordagem do assunto e pelo meio revelam algumas boas curiosidades.

 

BACK TO BASICS –  Quem não quer dar nas vistas não fala alto em restaurantes – anónimo.

fevereiro 02, 2010

COMEMORAR FALHANÇOS

(Publicado no diário Metro de 2 de Fevereiro)


 


Por muito que me esforce não consigo compreender a azáfama das comemorações do centenário da República nem as largas somas de dinheiro colocadas à disposição da respectiva comissão. A República não é propriamente um regime de sucesso – a balbúrdia da Primeira República conduziu à ditadura e os 36 anos posteriores ao 25 de Abril falharam em grande escala dois dos três ideais republicanos – a justiça e a educação; apenas a saúde apresenta indicadores razoáveis.

O não funcionamento da Justiça em Portugal – desde a investigação até aos Tribunais – mostra como o Estado não se preocupa de facto com os cidadãos. Esta República criou um país onde os crimes ficam sem castigo, onde os boatos se perpetuam, onde os julgamentos se arrastam para além do admissível. Por estas e por outras é que não é de admirar que apareçam no YouTube gravações de escutas – basta ouvi-las para se ficar um pouco surpreendido com o desfecho de alguns processos e as conclusões de alguns tribunais. Torná-las públicas tem a vantagem de ajudar a perceber melhor aquilo que se quer tapar.

Na educação o falhanço do sistema é total – desarticulado o ensino técnico, transformadas as universidades em fábricas de diplomas para desempregados, o ensino não estimula a ligação da teoria à prática e pouco incentiva a ligação das escolas às empresas. O abandono escolar, o desajustamento do conteúdo de muitos cursos, a caótica situação do financiamento do Ensino Superior, as permanentes confusões em torno do Ensino Secundário, fazem da República portuguesa um triste exemplo de criadora de gerações pouco qualificadas.

Os republicanos de há cem anos diziam querer promover a igualdade em torno do acesso dos cidadãos à saúde, à educação e à justiça. Não é preciso ser visionário para perceber como estamos longe dos objectivos, não é preciso ser muito exigente para perceber que meio país anda enrolado em comemorações de um regime consideravelmente falhado – e nem digo nada da pouca vergonha da política que por aí se faz…