abril 07, 2009

O OBSERVATÓRIO ESCONDIDO

(publicado no diário Meia Hora de 7 de Abril)


 


Na semana passada li muitas notícias sobre as «100 Horas de Astronomia Remota», uma iniciativa que permitia, a qualquer pessoa com acesso à internet, ligar-se a um dos observatórios astronómicos que, em todo o Mundo, ofereciam a possibilidade de, via computador, ver as imagens que esses observatórios captavam do Universo. Esta bela ideia faz parte dos eventos programados para o Ano Internacional da Astronomia e inclui uma outra iniciativa que tem o aliciante nome de «Volta Ao Mundo em 80 telescópios».


É engraçado ver que cada vez mais pessoas se interessam pela astronomia e constatar que as vendas de telescópios para uso doméstico andam em bom ritmo. É um bom sinal, é sinal de curiosidade pelo Universo, de curiosidade por perceber onde estamos e quais os limites que podemos ver, é, sobretudo, um sinal de interesse pela Ciência – ainda por cima vivido como um passatempo.


Neste contexto de interesse e paixão pela Astronomia seria natural que em Portugal se estimulasse a curiosidade pelos equipamentos que temos – nomeadamente pelo belíssimo Observatório Astronómico de Lisboa, construído por iniciativa de D.Pedro V nos terrenos da Tapada da Ajuda entre 1981 e 1987. No século XIX e em boa parte do século XX o observatório ganhou reputação internacional e hoje em dia, desde 1995, está intergrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.


Para além dos equipamentos de observação, no edifício existe uma rica biblioteca, a melhor do país em temas de Astronomia e Astrofísica. Além disso o Observatório é quem mantém e fornece a hora legal de Portugal, desenvolve investigação científica, preserva e disponibiliza o acervo histórico, quer documental quer instrumental, e quer estimular e apoiar o ensino e a divulgação da Astronomia. Aliciante, portanto. E como se pode visitar?  - perguntarão. Eu gostava de lá poder ir, mas eis a realidade: visitas apenas aos dias úteis, com entrada não depois das 15h00; só são permitidas visitas em grupos, não com mais de 15 pessoas e apenas com marcação prévia junto do observatório; para entrar há que comprar a respectiva admissão – que apenas pode ser adquirida nas instalações da Faculdade de Ciências no Campo Grande, junto à Cidade Universitária, portanto na outra ponta da cidade. Se isto não é matar à nascença a vontade de conhecer a Astronomia, digam-me lá o que será… 

 

abril 06, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Abril)

 


SEXTA – Aqui há uns anos as sextas-feiras eram marcadas pelo «Independente» e as suas notícias. Agora são marcadas pelas investigações do «Jornal Nacional» da TVI, que tem vindo a colocar-se entre os dez programas de televisão mais vistos de cada semana, à frente da informação de outros canais. Deste sucesso de audiências e das investigações que revela resultou já a diabolização do Jornal e da sua apresentadora, quer pela ERC quer pelo núcleo duro do Governo e do PS.

 

TEMPOS - Em Portugal vive-se um clima semelhante ao dos últimos dias de Pompeia: lascívia do poder, promiscuidade entre política e negócios, despudorado assalto ao Estado, impunidade galopante, descrédito das instituições. A maneira como fôr resolvido o caso do Dr.Lopes da Mota, que dirige o Eurojust, será o fiel da balança. Dois procuradores dizem-se pressionados por ele; o Dr. Lopes da Mota tem desmentido ter efectuado pressões; é palavra contra palavra, uma situação onde o mais forte tem sempre vantagem; no lugar onde o Dr. Lopes da Mota está, no entanto, é certo que tinha formas de facilitar ou dificultar a troca de informações entre investigadores portugueses e britânicos sobre o caso Freeport; parece já ser consensual que, no mínimo, não as facilitou. Uma coisa é segura neste momento: a sua saída do lugar que ocupa seria um gesto, um sinal, de que se querem remover entraves à investigação. Este caso começa a tomar proporções que vão para além dos factos, já de si graves. Embora o assunto seja delicado, era bom ouvir o Presidente da República sobre este suspeito clima que se vive em Portugal neste momento.

 

COMEMORAÇÕES – Há uns meses o Ministério da Defesa recusou que uma força militar estivesse na evocação do regicídio; sabe-se agora que o Governo se dispõe a gastar dez milhões de Euros na celebração do centenário da República – ou seja, na celebração de 16 anos de balbúrdia, que levaram a 48 de ditadura e, finalmente, a estes 36 de tentativas democráticas. Não há provas – antes pelo contrário – de que o regime republicano seja mais justo, menos corrupto e mais democrático. Estes dez milhões pagos pelos contribuintes são um insulto nos tempos que correm. Mais: são um prepotente abuso.

 

VER – As mais recentes exposições de Inez Teixeira têm sido surpreendentes – uma observação das formas base da natureza, muito orgânicas. A sua forma de mostrar o mundo que a rodeia tem evoluído e, na nova mostra inaugurada na semana passada na VPF Cream Art, «De Dentro Para Fora», Inez Teixeira percorre caminhos inesperados, desta vez recorrendo a minuciosos desenhos em pequeno formato, imaginando casas envolvidas por bosques, num registo mais intimista e introspectivo. Ao mesmo tempo, nas novas pinturas que coexistem com os desenhos, adivinha-se o nascer de um novo ciclo que escapa a formas definidas.

Ainda no edifício Transboavista, onde a VPF Cream Art está instalada, pode ser vista, no espaço Plataforma Revólver, uma colectiva intitulada «A Escolha da Crítica», com curadoria de Lígia Afonso,. Destaque para a instalação de Paulo Mendes, para os desenhos a grafite de Pedro Barateiro, para os desenhos para animação de Susana Gaudêncio e para o trabalhos de João Fonte Santa. Edifício Transboavista, Rua da Boavista 84 ao Cais do Sodré, segunda a sábado das 14h00 às 19h30.

 

LER I – Na «Vanity Fair» (edição norte-americana) de Março, destaque para uma investigação detalhada sobre a forma como funcionava o esquema montado por Bernard Madoff – escrita de forma clara e simples para quem não é economista. A investigação, um exemplo de grande jornalismo, relata a forma como Madoff agia, os meios em que se movia e como neles entrou, num retrato cru do comportamento da sociedade americana nestas duas décadas mais recentes.

 

LER II – Um dos livros mais deliciosos que li nos últimos tempos é «Rhyming Life And Death», de Amos Oz, uma descrição arrebatadora de oito horas de uma noite na vida de um escritor, passadas entre a sedução e o desejo, entre a angústia e a memória, entre a realidade e o sonho. Para além de tudo o mais, esta é também uma reflexão de um homem de meia idade sobre o seu lugar no mundo.

 

OUVIR – Cristina Branco encontrou em «Kronos» um lugar próprio de que andava já à procura há tempo. Embora eu não goste da comparação, este é o fado-canção dos novos tempos - reconheça-se que melhor que o seu antecessor de há trinta e tal anos. Para este disco Cristina Branco socorreu-se de poetas como Hélia Correia, Álvaro de Campos ou Vasco da Graça Moura e de compositores e músicos como Sérgio Godinho, José Mário Branco, Carlos Bica ou Mário Laginha, entre outros. Quer nos arranjos, quer nos músicos escolhidos, quer, sobretudo, nas excelentes interpretações de Cristina Branco, este disco está destinado a constituir um marco na nova música popular portuguesa.

 

PETISCAR – O chef Michael Guerrieri tornou-.se conhecido em Lisboa graças ao restaurante Mezzaluna, mais tarde ao Bruschetta e depois aos City Sandwich. Há poucas semanas abriu um novo espaço, o Spazio Dual City Caffé, na Avenida da República 41, no mesmo local onde existe um stand da Alfa Romeo e da Lancia e onde estão instalados alguns ateliers de artistas plásticos. No piso inferior, além dos carros, estão expostas algumas obras desses artistas e, no piso superior, está o City Caffé – decoração clara, confortável, propostas simples, com muito boa matéria prima. Da lista constam cannelloni invulgares como os que levam morcela cozida a vapor ou bacalhau desfiado, um leque de boas saladas , paninis e tramezzinis numa escolha abundante de ingredientes, sempre acompanhados de saladas da época. Os preços são muito razoáveis e a proposta é ideal para escapar das tostas mistas, pastéis diversos, pregos, milanezas e outros artefactos, as mais das vezes confeccionados sem cuidado. Há vinho a copo, português e italiano, o ambiente geral é muito agradável.

 

BACK TO BASICS – O primeiro sinal de corrupção numa sociedade que aparentemente está bem é a percepção de que os poder acha que os fins podem justificar os meios – Georges Bernanos

abril 01, 2009

SFF: DEZ MILHÕES PARA QUÊ?

(Publicado no diário Meia Hora de 31 de Março)


Por muito que me esforce não consigo ver particulares vantagens no regime republicano. Não há provas de que seja mais justo, menos corrupto, mais democrático, tão pouco mais participativo. Do ponto de vista prático, a República, em Portugal, resume-se a isto:


16 anos de balbúrdia, 48 de ditadura e 36 de tentativas democráticas com os resultados que estão hoje à vista: uma maioria absoluta arrogante e autista.


Por isso mesmo fico com os cabelos em pé quando leio que, estando o País como está, se vão gastar dez milhões de euros a celebrar os 100 anos da República. Celebrar o quê? Que fase da República? O que há exactamente para celebrar em 2010 – os 36 anos do 25 de Abril de 1974? A ineficácia do Parlamento? O abuso das maiorias absolutas? A crise das maiorias relativas? A instabilidade das coligações? Os 16 anos de golpes e contra-golpes e de total ineficácia da I República?


Já imaginaram como seria simpático se estes dez milhões de euros fossem oferecidos pelos republicanos aos museus portugueses? Se fossem investido de forma reprodutiva nalgum sector? São dez milhões de euros dos contribuintes que vão ser deitados à rua em folclore de propaganda e ilusionismo histórico. E, para cúmulo, o responsável pelas comemorações, queixa-se que dez milhões de euros são um montante «austero».


O retrato do que se passa no país devia levar a que existisse o bom senso de haver contenção nestas celebrações de um regime que vive de sucessões de pequenos escândalos, de primeiros-ministros que ou se demitem ou emigram, de golpes palacianos para afastar governos nas alturas mais convenientes (como fez Jorge Sampaio) ou de fechar os olhos à inexistência de Justiça em Portugal.


O regime, hoje, vive na permanente hipocrisia, numa sucessão de escândalos ligados ao financiamento dos partidos, que depois se traduzem em obras públicas de favor ou em autorizações feitas à pressa. A situação é tal que nem aqueles que mais financiam os partidos querem ver regulamentado o financiamento partidário, de forma transparente e aberta: como poderiam depois cobrar favores se fosse público com quanto haviam contribuído para a campanha vencedora?


O regime está podre e ameaça levar o País atrás. Na celebração deste triste feito gastam-se dez milhões de euros dos contribuintes. Para quê? 

 

março 30, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 27 de Março)

CULTURA - Não sou dos que embandeira em arco com a gestão de Manuel Maria Carrilho no Ministério da Cultura. Acho que fala bem, escreve melhor, lê muito, pensa razoável, mas o balanço concreto do seu mandato, promessas e fogo de artifício à parte, é, de facto, escasso em obra feita. Mas também reconheço que o texto que colocou a debate no PS sobre política cultural, e que esta semana foi divulgado na imprensa, é uma análise lúcida da realidade e do triste estado a que o seu partido deixou chegar as coisas. Infelizmente bem sei que em matéria de política cultural o PSD é praticamente inexistente, o que somado à forma como o PS de Sócrates tem gerido a área, deixa as maiores reservas para o futuro. Quanto mais não seja o texto de Carrilho é bom, precisamente para que fora do PS se reflicta sobre o que se deve fazer nesta área. 

 


 


DESPORTO – Em Portugal deixou há muito de haver verdade desportiva no futebol e as histórias relatadas de corruptelas com árbitros sucedem-se - alguns a troco de dinheiro, outros de prendas, mais alguns a troco de favores sexuais. A única forma de devolver a moralidade ao jogo é punir os erros, porque se vamos à procura de processos judiciais e de provas acabamos naquilo a que a justiça portuguesa já nos habituou – o crime compensa. A Liga Portuguesa de Futebol tem a responsabilidade de criar um sistema que avalie o que se passa. E deve pensar, como noutras modalidades,  que o recurso ao vídeo-árbitro é melhor forma de evitar as tentações e os enganos e de identificar os erros. A partir daí a Liga só pode encarar a punição dos erros dos árbitros como a única solução para moralizar o espectáculo desportivo.  

 


 


MANIPULAÇÃO - O funcionamento da Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) levanta cada vez mais dúvidas – desde a forma como a maioria dos seus membros analisou e eliminou as propostas concorrentes ao quinto canal, passando pelo papel de putativo censor de serviço (como no caso da TVI), quase nada funciona em termos transparentes e isentos. Dotada de um orçamento generoso e excessivo, pago pelas audiências e pelos operadores do sector (excesso que se vê bem nas contas que apresenta), a ERC devia ser escrutinada com rigor e cuidado pelo Parlamento. Mal nascida de raiz, fruto de um acordo politiqueiro, a ERC é o exemplo acabado dos perigos da manipulação política e da ineficácia do Parlamento como órgão de controlo deste tipo de entidades. Na realidade o mais certo seria rever a utilidade da própria ERC tal como ela está. 

 


 


VER – No Museu Berardo, CCB, a exposição dos três finalistas da edição 2008 do BES PHOTO. O prémio tem gerado polémica ao longo dos anos, com um júri atreito mais a modas do que à abordagem da fotografia. Os três finalistas representam opções bem diversas: Luís Palma explora a contemplação, um naturalismo de inspiração pictórica algo óbvio mas muito em voga; Edgar Martins aborda a fotografia pelo lado da manipulação da imagem, com um resultado previsível, muito «arty» e politicamente correcto; e André Gomes surpreende pelo trabalho de concepção de narrativa e pela poética de «O Livro de Ângela», naquela que é, eventualmente, a mais conseguida utilização da fotografia como forma de expressão e criação patente nesta edição do BES Photo. 

 


 


VER II – De entre as exposições em galerias lisboetas destaco a individual de José Pedro Croft na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80, a Xabregas, terça a sábado entre as 10 e as 20 horas). Croft apresenta desenhos, esculturas de chão e esculturas de parece em ferro zincado, colorido.  As esculturas de parede, que são talvez a zona mais interessante da exposição, elas como que partem dos desenhos, formando um círculo de cumplicidades. É verdadeiramente uma mostra de equilíbrio e coerência. 

 


 


LER – Continuo fanático da revista mensal «Monocle», confesso que tenho pena de não ter ouvido a conferência do seu director, Tyler Brulé, quando esteve recentemente em Lisboa, numa visita pouco divulgada. Na edição de Abril da «Monocle», entre muitos outros temas, destaque para uma entrevista com Bernard-Henri Levy, um artigo sobre o maior jornal do mundo, o japonês «Yomiuri Shibun» e uma multidão de pequenas e preciosas notas sobre o que vai acontecendo por esse mundo fora – a «Monocle» nos tempos que correm é acima de tudo um remédio contra a crise: afinal há coisas boas e que funcionam. 

 


 


OUVIR – Molly Johnson é uma cantora canadiana, com uma voz de invulgar sentido rítmico. O seu novo disco, «Lucky» é uma selecção bem escolhida de standards de jazz em interpretações swingantes e cheias de energia. O quarteto que a acompanha está à altura e ajuda a fazer deste disco uma preciosidade. CD Verve/ Universal. 

 


 


PETISCAR – Há cerca de quarto anos o chefe Hardev Walia decidiu mudar-se de Londres para Lisboa e dar a conhecer aos alfacinhas prazeres desconhecidos da cozinha indiana. Mestre na arte de escolher as especiarias e fazer o tempero, chamou ao seu restaurante «Tamarind», um fruto tão exótico e delicioso como as receitas que Hardev Walia prepara. A sala é pequena, colorida e tranquilizante – à noite reservar é prudente. Existe um menu de almoço com quatro escolhas, a bom preço, e, à noite,  independentemente da carta, vale a pena perguntar ao chefe o que ele propõe. Os seus conselhos são de seguir – se acha que um caril de grão é uma coisa estranha, perca o receio e escolha chana masala; mesmo que não seja grande apreciador de borrego não hesite no rogan josh – nunca provou nada assim. O pão Nan de alho é extraordinário, os molhos de entrada são bem condimentados e para sobremesa peça o gelado de pistacchio com doce de cenoura quente ou a mousse de chocolate com queijo e natas, acompanhada de palitos de gengibre – arrebatador. Restaurante Tamarind, Rua da Glória 43-45, tel. 213 466 080. 


 


 


 


BACK TO BASICS – O desporto não serve para criar carácter, apenas para revelar o que existe  - Knute Rockne 

 

março 25, 2009

ERA UMA VEZ A BOLA

(Publicado no diário Meia Hora de 24 de Março)

 


Era uma vez um jogo tão delirante que apenas podia ser contado numa fábula. Puseram-lhe o nome de futebol. Havia quem pensasse que era um desporto – mas na realidade tornou-se  apenas num espectáculo, preparado e ensaiado como todos os espectáculos, com vários finais possíveis, com especialistas em efeitos especiais, com uma multidão de peritos no desenvolvimento do negócio, empenhados em eliminar o acaso.


Era uma vez um desafio de futebol entre duas equipas grandes. No final, quem ganhasse levava uma taça de cerveja bem recheada de notas – e sempre ficava com um prémio de consolação por outras vitórias não conseguidas.


Era uma vez um árbitro que entrou no relvado com a missão de dar a vitória a uma das equipas – a bem dizer esta era uma tradição antiga: volta e meia faziam-se umas combinações para ver como se dividiam os vários troféus entre as principais equipas daquele país. Este ano, uma delas estava necessitada. O árbitro sabia o que esperavam dele. Dias antes do jogo havia já quem dissesse o que ía suceder –  havia uma combinação e o assunto era tema de conversa


Era uma vez um especialista do equilíbrio do negócio da bola que explicou a um observador distraído como as coisas se passam: sabes, para o negócio ser rentável, para haver gente no estádio, para as televisões comprarem jogos, para se vender a publicidade dos principais desafios, é preciso manter as equipas do topo da tabela com bom astral – é bom para os adeptos, é bom para as contas dos clubes e é bom sobretudo para a máquina toda. E disse mais: sabes, isto é uma coisa que envolve muita gente, alimenta muitas famílias, não é uma brincadeira de crianças com uma bola de trapos. Aqui o que interessa – continuou o especialista – é que isto continue a ser um negócio. Como em outros negócios – finalizou peremptório – às vezes temos que perder para depois ganharmos mais.


Regresso à fábula: era uma vez um jogo que estava a dar a vitória a uma equipa, que não estava escolhida para ganhar aquela taça; era uma vez um árbitro que marcou um penalty que nunca existiu; esse penalty tirou a vitória à equipa que tinha marcado o golo limpo. A isto chama-se futebol à portuguesa. Há quem lhe chame também gamanço à antiga. 

 

março 20, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 20 de Março)

 


SILÊNCIO - O MPT, Movimento Partido da Terra, fez o seu VII Congresso no passado dia 14 de Março e escolheu a Madeira como local da reunião. Viram alguma notícia sobre o assunto? A imprensa local, no Arquipélago, cobriu a reunião – na imprensa nacional quase nada saiu. O MPT é um partido que tem dois deputados na Assembleia da República (eleitos nas listas do PSD) e que tem um programa centrado na defesa do equilíbrio ambiental, da defesa da cultura portuguesa e no desenvolvimento da participação cívica. Este silêncio da comunicação do Congresso deste partido é um exemplo dos problemas e deficiências da informação em Portugal, das insuficiências do pluralismo democrático, da indiferença a que órgãos de comunicação submetem a expressão da participação cívica.

 

CURIOSIDADE – A crítica de Mário Soares a José Sócrates, a propósito das posições tomadas pelo Primeiro Ministro sobre a manifestação da CGTP da semana passada é o mais curioso e relevante facto político dos últimos dias. Sócrates fez do PS um partido bipolar.

 

VERGONHA - A visita do Papa Bento XVI a África é um catálogo das razões que levam a igreja católica a caminhar no sentido de se tornar uma seita, da intolerância de que dá provas, da insensibilidade que manifesta em nome de dogmas hoje em dia dificilmente compreensíveis. Mais do que isso a posição do Papa é repulsiva se pensarmos na forma como o Vaticano se recusa sequer a considerar a possibilidades de limitar a proliferação de portadores de HIV , indo até ao ponto de inventar teorias pseudo-científicas sobre a eficácia dos preservativos nesta situação, em contradição com os estudos da Organização Mundial de Saúde.

 

JUSTIÇAS - A sentença de Josef Fritz será pronunciada sexta feira, ao fim de uma semana - esta rapidez de justiça parece mesmo o que se passa por cá...

 

VENEZUELA – Segundo o «El País» Hugo Chavez anunciou, como medida de combate à crise, a criação de uma rêde de restaurantes de baixo preço com o seu próprio nome – Chávez. Isto na mesma semana em que proibiu a exibição da exposição «O Corpo Humano» que esteve em Portugal há uns meses.

 

SINAL DOS TEMPOS – Os grandes placards de publicidade exterior no Times Square, de Nova Iorque, costumavam estar sempre ocupados e com fila de espera – agora há três livres há quase um mês, colocados em conjunto no mercado a 100.000 dolares por mês, e que não encontram anunciante disponível para o investimento.

 

OUVIR – Bugge Wesseltoft é um pianista e compositor norueguês que fundou a Jazzland Records, onde ele próprio edita. Ao longo da sua carreira colaborou com John Scoffield e com Jan Garbarek, entre outros. O seu novo disco, «Playing», distribuído entre nós pela Universal, é um trabalho a solo, em piano, muito envolvente, pessoalíssimo, que explora melodias e que cria uma atmosfera singular, às vezes com ritmos inesperados como em «Hands»

 

LER – Edgar Allen Poe costuma ser conhecido como um dos grandes autores da literatura fantástica, mas esta percepção tem prejudicado que ele seja reconhecido como um grande poeta. A «Tinta da China», que se tem distinguido pelo cuidado que coloca nas suas edições, lançou numa edição da obra poética de Põe, em capa dura, por ocasião do seu bicentenário do nascimento. A tradução (boa), as notas e a introdução são de Margarida Vale de Gato e as ilustrações, magníficas, algumas perturbantes, são de Filipe Abranches.

 

DESCOBRIR – A edição espanhola da revista «Vanity Fair» é o exemplo de um formato internacional bem adaptado à realidade local. Na capa do mês de Abril Penélope Cruz e Pedro Almodôvar falam deles próprios e da relação que desenvolveram ao longo dos anos.

 

COMPRAR - Duas sugestões para compras em Lisboa: produtos bem portugueses na Mercearia da Atalaia, na Rua da Atalaia. Desde as soberbas águas de colónia Lavanda, da Ach Brito, até doces regionais ou conservas, aqui pode encontrar um vasto leque de oferta. Se quer coisas mais exóticas rume à Rua da Palma 220, e no Supermercado Chen poderá encontrar muitos produtos chineses e orientais, desde chá verde até grãos de sésamo ou uns deliciosos e picantes rebuçados de gengibre.

 

PETISCAR – Hoje falo de um local que é mais que um restaurante, é um paraíso de petiscos. Fica perto de Palmela, na Quinta do Anjo, foi fundado no final dos anos 50 e responde pelo nome de «Alcanena». Pode funcionar como restaurante com lista ( e aí pode pedir a massada de peixe, genial) ou então num buffet de especialidades. Para além de uma mesa de enchidos com várias preciosidades, pode começar com várias saladas (com mexilhões ou gambas ou moelas) todas muito bem temperadas e ainda uns torresmos deliciosos. A seguir, destaque para pratos como sopa de cação, migas de bacalhau ou empadão de perdiz – um total de vinte petiscos diversos. A rematar uma tábua de queijos ( que inclui doce de abóbora e marmelada caseira), com destaque para o requeijão e ainda uma mesa de doces e de frutas onde existe uma fantástica torta de laranja. Aconselha-se a marcação ao fim de semana. Rua Venâncio Costa Lima 99, Quinta do Anjo, Palmela, 212870150.

 

BACK TO BASICS – Os jornais não deviam ter amigos – Joseph Pulitzer

março 17, 2009

O FUTURO DA RTP

(Publicado no Meia Hora de 17 de Março)


 


Num mundo ideal o serviço público de televisão não seria preciso para nada – mas como estamos longe de viver num mundo ideal, a razão de ser para que exista um serviço público de televisão tem a ver com a garantia de que os espectadores possam ter, gratuitamente, acesso a programações que dificilmente surgem num operador privado – por razões que têm a ver com interesses comerciais normais.

O serviço público ideal não deveria ter publicidade – como acontece na rádio – exactamente porque a existência de uma exploração comercial num canal de televisão pressupõe a valorização e a conquista de audiências para que o espaço publicitário vendido atinja valores de mercado relevantes. Parece óbvio que não é esta a missão de um serviço público.

O serviço público ideal deveria ser imparcial, promover uma informação de qualidade, estimular reportagens, documentários, produção de ficção, gravação de espectáculos. E devia fazer isso integrado numa estratégia de valorização audiovisual da nossa língua e da nossa cultura, apoiando o desenvolvimento e a sustentabilidade da produção independente.

O serviço público não deveria ter canais competitivos com canais comerciais privados, devia ser comedido no desenvolvimento da sua capacidade de produção instalada preferindo fomentar a indústria audiovisual em Portugal, devia ser pioneiro em tecnologias de distribuição gratuita, devia ter uma forte atenção a questões locais e regionais e devia ser um auxiliar da imagem externa do país.

Dito isto, não percebo porque é que existe um canal RTP N, não percebo porque existe a RTP Memória, não percebo porque é que existem dois canais internacionais, ambos fracos. E não percebo porque querem criar mais dois canais, um infantil e outro dedicado ao conhecimento. Uma programação coerente de serviço público organiza-se muito bem em dois canais abertos nacionais, nos dois regionais dos Açores e Madeira e em apenas mais um internacional, garantindo, de melhor forma, toda essa diversidade de conteúdos e evitando um desperdício de recursos inconsequente.

Não pensem que isto é delírio: há numerosos exemplos semelhantes por esse Mundo, de serviços públicos de televisão que seguem este modelo. Com sucesso, qualidade, respeito pelos públicos e um impacto positivo no desenvolvimento da indústria audiovisual local. Relegar informação, arquivos, documentários e programação infantil para canais sectoriais é abdicar de parte importante dos deveres de um serviço público de televisão universal e gratuito. Pode dar jeito à propaganda, mas é mau para todos nós.

 

 

março 16, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 13 de Março)

PARLAMENTO - Uma das mais evidentes provas do desprezo do regime pelos cidadãos é a forma como a Assembleia da República empata a nomeação do novo Provedor de Justiça. O Provedor cessante, Nascimento Rodrigues, interpelou a Assembleia sobre o assunto. Fazendo o favor ao Governo e aos partidos da oposição (que não acham isto prioritário), os deputados continuam a paralisar uma instituição fundamental para garantir os direitos dos cidadãos e prevenir os abusos do Estado. O respeito pelos eleitores, senhores deputados, não é coisa de que se devam lembrar só em vésperas de eleições. 

 


LISBOA I - A maior demonstração de que alguma coisa vai mal em Lisboa no que toca a segurança é a polémica entre o Presidente de Câmara António Costa, do PS, e o Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, também do PS. Já se percebeu que ambos atribuem culpas um ao outro, que a polícia atribui culpas aos dois e a realidade mostra que a cidade está mais insegura. Mais um dado a ter em conta nas próximas eleições. 

 


LISBOA II - Um estudo recente, sobre as razões para a desertificação de Lisboa, divulgado na imprensa, afirmava que a maioria dos inquiridos considera que Lisboa tem muitos espaços degradados, tem poucos espaços verdes e tem deficiente qualidade de vida. A coisa vai sempre dar ao mesmo: os habitantes de Lisboa-cidade têm custos maiores para terem menores vantagens e são sempre os mais sacrificados nos incómodos provocados pelas obras, pelos encerramentos ao trânsito, por mil e uma razões provocadas por quem usa a cidade sem se preocupar com os seus habitantes. 

 


OBRAS - Nos últimos dias surgiram duas polémicas interessantes sobre o plano de grandes obras públicas. Uma defende que obras de manutenção e recuperação absorvem mais mão de obra (e mais qualificada) que a construção de estradas, TGV’s ou grandes edifícios; a outra vai ainda mais longe e diz que num cenário em que cresce o desemprego qualificado, concentrar o investimento em áreas que não absorvem mão de obra qualificada é o mesmo que despromover a educação e desincentivar o aperfeiçoamento profissional. Sócrates, que tanto fala de qualificação, ainda não se pronunciou sobre isto – aliás evita pronunciar-se sobre qualquer coisa que tenha a ver com estratégia de futuro. 

 


PROVEDOR DO AMBIENTE - Cada vez que passo à noite no Marquês do Pombal e olho para o edifício da EDP todo iluminado recordo-me logo das campanhas ecologistas da empresa. É certo que a conta de electricidade lhes fica em conta, mas sempre podiam dar o exemplo no combate a consumos supérfluos. 

 


CITAÇÃO - «Alguém dá pela existência de um director do actual Instituto dos Museus e da Conservação? Alguém sabe quem é? As sucessivas tropelias da tutela são-lhe alheias ou desconhecidas? Mantem-se em silêncio como uma forma subtil (?) de manifestar discordância ou distância? Não seria imperioso que o responsável técnico e político (o lugar é de confiança) estivesse presente e também activo quando se discutem os Coches, a  Arqueologia, a Arte Popular, a Cordoaria (que é um monumento, mesmo sem ter a sua tutela directa), etc? Pode dispensar-se a competência quando estão em causa decisões de longo alcance, irreversíveis mesmo?» - Alexandre Pomar no seu blog. 

 


FILMES - Esta semana quis ir experimentar o reconstruído cinema Alvalade e apanhei uma desilusão. O espaço é tacanho, o edifício é feio, o cheiro a caramelo e a pipocas no ar entranha-se nos cabelos e tira qualquer prazer a estar na esplanada de entrada e a única coisa que correu bem foi a senhora da bilheteira avisar que a cópia do filme que queria ver - «Milk» - estava riscada. Poupou-me ao sacrifício e fui para outro cinema ver esta extraordinária realização de Gus Van Sant e a interpretação exemplar de Sean Penn, infelizmente em exibição já em poucas salas. 

 


LER – A mais recente edição da revista «Vanity Fair» é tanto para ser lida como para ser vista. Trata-se da célebre edição anual da revista dedicada a Hollywood e que é publicada por ocasião da atribuição dos Óscares. Este ano na capa um actor muito especial de uma outra fita – a política: na capa Barack Obama, lá dentro as estrelas do cinema, todas fotografadas por Annie Leibovitz. E – boa surpresa nos tempos que correm – a «Vanity Fair» de Março vem com muitas páginas de publicidade. Atractivo suplementar: retratos das novas caras do poder dentro da Casa Branca. 

 


OUVIR- Duas reedições do catálogo «Verve», na muito apreciada série «Originals». Dois discos de orquestras de jazz, ambos fascinantes, muito diferentes entre si. Um é de 1962, «On My Way & Shoutin’ Again!» da orquestra de Count Basie , interpretando música de Neal Hefti. O outro é o encontro de Óscar Peterson com a orquestra de Nelson Riddle, em 1963, interpretando clássicos como «Round Midnight» ou «Come Sunday».  

 


DESTAQUE – Mais uma edição da Moda Lisboa, sob a batuta de Eduarda Abbondanza. 

 


COMIDA – Receitas portuguesas, quase caseiras, boa qualidade de matéria prima, cuidado e atenção no serviço. Que se pode pedir mais de um restaurante. Eu comi umas finas postas de pregado bem fritas, acompanhadas de açorda e fiquei fã. Vinhos a preços razoáveis. Cave Real, bar-restaurante, Av. 5 de Outubro 13-15 ((ao pé da maternidade Alfredo da Costa), tel. 213 544 065. 

 


BACK TO BASICS (maior que o costume) – Quem é o «Governo»? – basicamente, sabem, somos nós todos: o Governo gasta o seu dinheiro a fornecer serviços ao público. Pedir que o Governo aperte o seu cinto é o mesmo que pedir-nos, a nós pagadores de impostos, que aceitemos receber menos serviços por aquilo que pagamos. Porque é que isto é uma boa medida ou uma boa causa, mesmo em tempos de crise como estes? – Paul Krugman em «A Consciência de Um Liberal» 

 

março 10, 2009

LISBOA E O RIO

 


(Publicado no diário Meia Hora de dia 10 de Março)

 

Poucas cidades têm a sorte de estarem num estuário como o do rio Tejo. Lisboa é uma cidade privilegiada pela localização, privilegiada pelo clima, privilegiada pela luz, privilegiada pelos sinais que a História foi deixando ao longo dos Séculos.

A zona ribeirinha de Lisboa merece especial cuidado, porque é o melhor que a cidade tem, é o seu bem mais precioso e é muito disputado. Qualquer espaço que surja é pretendido: a polémica sobre a ampliação do terminal de contentores de Alcântara é um exemplo disso. A discussão, que se adivinha começar sobre o futuro a dar ao espaço do antigo Museu de Arte Popular, em Belém, é outro sinal disso. Uma coisa é certa: não é normal que se tenha recuperado a zona ribeirinha da área oriental de Lisboa (na Expo) e que agora se comece a querer estragar a zona ocidental.

Por estes dias soube-se o crescimento que o tráfego de cruzeiros turísticos tem tido em Lisboa. Este aumento traduz-se em milhares de visitantes que vistam museus e equipamentos, que consomem nas lojas da cidade, que têm um efeito positivo na economia. A posição das cidades escolhidas como ponto de paragem de cruzeiros é sempre frágil – e a competição é enorme.

Antes de se avançar para a ampliação do terminal de contentores devia estudar-se se a vocação do Porto de Lisboa é ser um porto de carga ou um porto de turismo – as duas coisas não coexistem bem e a história das cidades portuárias tem muito exemplos disso mesmo. E qualquer nova construção deve ser bem avaliada.

Com todo o devido respeito esta decisão, estratégica, não pode pertencer nem à Administração do Porto de Lisboa (cuja história é uma sucessão de atentados à cidade…), nem à empresa concessionária que quer fazer vingar a sua pretensão à revelia inclusivamente de regras de concessão de zonas públicas. A cidade de Lisboa – a sua autarquia, os seus órgãos próprios, têm que ter uma posição e explicá-la publicamente: como querem que seja no futuro a zona ribeirinha de Lisboa? A sociedade criada há poucos anos para resolver esta questão reflectiu pouco, envolveu-se cedo em querelas que levaram à saída voluntária, ainda não cabalmente explicada, do seu responsável (José Miguel Júdice) e regra geral prima pela ausência de estudos ou actividade palpável para além da obediência cega às ordens da tutela. A maior riqueza de Lisboa não pode ser desbaratada ao sabor de favores de circunstância do Governo do momento.

 

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Março

 


UNANIMISMO - Pronto. José Sócrates fez o Congresso do PS como quis. Não teve oposição. No seu partido já conseguiu o que quer para Portugal - é muito educativo olhar para o que ele fez no PS para entender o que acha ser o seu modelo ideal de funcionamento para o país – unanimismo, oposição calada, rivais afastados. Quatro anos a polir a imagem e a manobrar a comunicação deram nisto: um partido, uma voz, uma imagem, um homem.

 

TENSÃO – A crispação entre o Governo e a Presidência vai ter tendência a subir e não me admiro se a máquina de contra-informação do Governo começar a fazer das suas depois de Cavaco Silva se recusar a fazer as eleições legislativas em conjunto com as europeias e, sobretudo, depois de vetar a lei de restrição da actividade da comunicação que o PS pretende impôr, conhecida por «Lei do Pluralismo e não concentração dos meios de comunicação social», fruto das ambições de Augusto Santos Silva.

 

DÚVIDA – Ao lado de Manuela Ferreira Leite não haverá ninguém que a impeça de dar sucessivos argumentos ao PS, como foi o caso da desastrada declaração sobre o Congresso do PS? É que foi essa declaração que deu a Sócrates o pretexto para a transformar no bombo da festa.

 

LER – A «Monocle» é cada vez mais a revista das cidades, com o mundo dividido pelas grandes urbes e não por países. Nesta nova edição de Março o destaque vai para o que há a descobrir em Berlim (com um belo guia de compras na cidade),o mercado de arte na Europa, locais para descobrir o que de melhor há para comer no Cairo e para a história do artista plástico Oscar Bronner que fundou o jornal «Der Standard» porque não encontrava nada decente para ler em Viena. Para reter fica a indicação de que a música nova que vale a pena ouvir está no programa «Morning Becomes Eclectic» de uma estação de Los Angeles que faz reganhar o gosto pela rádio – a boa novidade é que pode ser ouvida on line em www.kcrw.com (o arquivo de emissões recentes do programa indicado está disponível e indicado no site).

 

RECORDAR - Não resisto a referir a extraordinária conferência que Kjell Nordstrom proferiu na semana passada em Lisboa, por iniciativa da empresa de consultoria Strategos e deste «Jornal de Negócios». A sua intervenção foi focada nas tendências económicas e sociais e permito-me destacar o que ele apontou como uma tendência irreversível, a urbanização das sociedades, que levará as cidades a tornarem-se no principal pólo de actividade. Segundo Nordstrom, no mundo inteiro, em 2020, 75% da população viverá em cidades e em 2040 a percentagem atingirá os 90%. As consequências disto na forma de viver, de produzir e de consumir serão gigantescas – os países, defendeu o conferencista, terão tendência serem subalternizados em relação às cidades – por exemplo fará sentido falar de Lisboa, Porto, Madrid, Barcelona, Valência e Bilbao e não em Portugal ou Espanha. Dá que pensar…

 

OUVIR – A prova que Nina Simone era um caso raro de talento e de genialidade na interpretação vocal está num registo ao vivo, que a magnífica colecção «Verve Originals» agora disponibilizou. Gravado em 1987 no Vine Street Bar, em Hollywood, com Nina Simone ao piano e voz, Arthur Adams na guitarra e no baixo e Cornell McFadden na bateria, o disco inclui belíssimas versões de temas como «My Baby Just Cares For Me», «Just Like A Woman», «Stars», «Let It Be Me» ou «Sugar In My Bowl». CD Universal, disponível no mercado português.

 

COMER - Na Rua do Sacramento a Alcântara nº74 (perto do primitivo Hospital da CUF e do Ministério dos Negócios Estrangeiros) fica a Casa Toscano – Churrasqueira do Sacramento, um daqueles pequenos restaurantes, antigas casas de pasto ou mesmo tabernas, que com o andar dos anos se foram reconvertendo. Pois o local apresenta como especialidade o peixe muito bem grelhado na original brasa de carvão. A oferta diária de peixe fresco é vasta, a matéria prima é muito boa, e na sua época as sardinhas batem a concorrência de muitos outros locais. Para os apreciadores há uma raridade – cabeça de garoupa na brasa, em vez de cozida. As iscas da casa são famosas assim como a genuína «Dobrada à Porto» ou as caras de bacalhau. A casa vive de algum dialecto local – uma mesa para trinta é uma mesa para três pessoas, um viagra é um frasco de picante, meia perdiz é meio whisky, um mantorras é um peixe grelhado bem tostado no carvão e um alentejano é um queijinho de Évora. A casa está muitas vezes cheia mas a espera nunca é demorada. E a experiência vale a pena.

 

GOLPADA - Woody Allen está no meio de uma nova fase da sua carreira que se resume a isto: só faz filmes quando há Films Commissions a pagar. Depois de ter explorado o filão londrino, virou-se para Espanha com «Vicky, Cristina, Barcelona» e fez um postal ilustrado da capital catalã que é apenas salvo da vulgaridade pela presença fulgurante de Penélope Cruz, que faz Scarlett Johansson parecer uma anémica actriz amadora. Agora já se sabe que Allen vai filmar a Paris. Por este andar ainda cá chega… se entretanto alguém criar uma Film Commission que anda na calha pelo menos há quase 20 anos.

 

DEVORAR – Segunda-feira que vem é inaugurada no Museu Berardo (CCB) uma exposição fundamental para  todos os que se interessam por fotografia. Intitulada «Arquivo Universal – O documento e a utopia fotográfica» aborda a missão e a história da fotografia, a sua existência enquanto documento, testemunho e representação histórica, através de 1000 imagens de 250 autores diferentes. A exposição foi organizada pelo Museu de Arte Contemporânea de Barcelona.

 

BACK TO BASICS – Nada é mais difícil do que a arte de manobrar para alcançar uma posição de vantagem – Sun-Tzu.

março 06, 2009

TOTALITARISMO ABSOLUTO

(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Março)


 

Muito bem produzido, visualmente muito atraente, mas frustrante de conteúdo - o Congresso do PS deste fim de semana foi monótono, bastante vazio de discussão, sem oposição interna à vista, com o progressivo desaparecimento - presencial ou dos órgãos dirigentes - de figuras como Manuel Alegre, João Cravinho ou Jorge Coelho. O núcleo duro de José Sócrates reforçou-se, tudo foi pensado e cenografado para apenas Sócrates brilhar no seu papel duplo de Dr. Jekyll e Mr. Hyde: no Partido Socialista ele é a figura séria, assumidamente de esquerda e preocupada de Dr. Jekyll, no Governo é um tecnocrata implacável, que não olha a meios para atingir fins e deita a ideologia ás urtigas, tal Mr. Hyde. Se não fosse este estranho caso de dupla personalidade o congresso teria sido um enorme bocejo, ou, como ouvi dizer, se alguém transformasse a fórmula do congresso em medicamento o Xanax iria ter concorrência séria.

A única semelhança entre o filósofo Sócrates e o nosso político Sócrates reside na partilha, por ambos, da convicção de que teriam sido incumbidos pelos deuses de uma missão especial. Neste Congresso percebeu-se, de forma particularmente clara, que José Sócrates está convicto de que é um defensor do Bem contra o Mal. O Bem é obviamente personificado por ele, pelo PS e pelo seu Governo – tudo o que fazem está certo; o Mal está nos que os criticam, nos partidos da oposição, nos comentadores que não os compreendem, nos jornalistas que não vergam à propaganda e são acusados praticamente de traidores.

Este foi o Congresso da diabolização, um momento totalitário em que o resumo do conteúdo, de tudo o que se passou, é este: quem não está connosco é nosso inimigo, por isso temos que ter a maioria absoluta para derrotar todos os que não pensam como nós e impôr o que queremos fazer.

No discurso inicial do Congresso, José Sócrates invocou a defesa da decência democrática como a sua razão de lutar, recordou as célebres campanhas negras, as forças ocultas e nomeou órgãos de comunicação que não lhe agradam e que considera inimigos – qualquer outro político, em qualquer país democrático, teria que se explicar muito bem sobre estas palavras. Mas em vez de explicar o que pretende fazer, no discurso final, Sócrates apelou ao totalitarismo da maioria absoluta que tornou na sua causa de vida – não diz o que quer fazer, nem como quer fazer o que pretende, centrou tudo no poder absoluto que só uma maioria absoluta lhe pode conferir. Será para ter um argumento que lhe permita sair de cena se ela não fôr alcançada?

março 02, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 27 de Fevereiro)







ESTADO DA NAÇÃO - A situação política está a ficar parecida com a situação das instituições financeiras: muito volátil. A grande dúvida está em saber se o órgão de supervisão – que no caso da política é o Presidente da República – consegue fazer melhor o seu trabalho que o Banco de Portugal tem feito na sua área. De entre os rumores que circulam na política lusitana, eis alguns: Belém estuda um cenário de um governo de iniciativa presidencial para o caso de Sócrates se demitir querendo forçar alteração de calendário eleitoral; o PS procura levar António Vitorino a aceitar ser candidato a Primeiro Ministro, mantendo-se José Sócrates como Secretário-Geral; no PSD, com o temor de um péssimo resultado (abaixo dos 30%) de Manuela Ferreira Leite nas eleições para o Parlamento Europeu, há quem queira empurrar Rui Rio para liderar a campanha das legislativas. De qualquer forma o ano promete vir a ser fértil em situações inesperadas- os constitucionalistas vão ter muito que fazer este ano.


 


ABUSOS DE AUTORIDADE - Na semana passada dois incidentes, um com o poder judicial e outro com a polícia, envolveram tentativas de condicionamento da liberdade de expressão em nome de conceitos de um puritanismo fundamentalista, que rapidamente passaram para abusos de poder. Deixemos de lado o primeiro caso, ridículo, de uma ordem judicial de retirar fotos de corpos nus de um ecrã satirizando o computador «Magalhães» num corso carnavalesco.  O segundo, protagonizado pela PSP de Braga, sendo do mesmo género irracional, é mais grave. Neste caso de Braga é fundamental saber quem, na PSP local, deu a ordem de apreensão de um livro que reproduzia na capa um quadro clássico  de Gustave Courbet «A Origem do Mundo», que reproduz o corpo nu de uma mulher. O grave da intervenção policial em Braga é a sua arbitrariedade total, baseada apenas na vontade de quem deu a ordem e de quem a executou, sem nenhuma cobertura legal para a acção. Teria sido muito útil ouvir alguma posição do Ministro da Administração Interna sobre o assunto – é que na ausência de posição fico a pensar se ele não entenderá ser legítimo que a PSP assim actue. Neste caso o Ministro tem o dever cívico e político de inquirir, apresentar culpados e atribuir punições – sob pena de legitimar arbitrariedades futuras. Na realidade não se entende que anda este Ministro a fazer para defender os direitos e garantias dos cidadãos – o que é uma das suas funções.


 


PERGUNTA DA SEMANA - A PSP tem livro de reclamações? Onde é que ele está?


 


OUVIR – Eu gosto de discos gravados ao vivo e, nomeadamente, de jazz gravado ao vivo. Dito isto esclareço que gosto bastante de Stan Getz e que aprecio formações clássicas – e nada de mais clássico que um quarteto (enfim, um trio nalguns casos pode ser uma boa ideia…). Bom, o caso é que o saxofonista Stan Getz deu de caras com três músicos de excepção num clube parisiense no Verão de 1970 (Eddy Louise no órgão, René Thomas na guitarra e Bernard Lubat na bateria) e não descansou enquanto não conseguiu juntar todos. O registo desse encontro, gravado no histórico clube Ronni Scott’s em Londres, em Março de 1971, pode ser ouvido em «Dynasty», um disco marcante na carreira de Getz, agora reeditado remasterizado na colecção «Originals» da Verve. É um duplo CD absolutamente de excepção, que combina o lado melodioso de Getz com improvisações enérgicas apenas possíveis num registo ao vivo. Imperdível – a reedição de «Dynasty» está já disponível no mercado nacional.


 


LER - Há relativamente poucos anos dei comigo a descobrir o universo da banda desenhada japonesa, a Manga, e o seu equivalente em filmes de animação,  Anime. A Manga baseia-se na tradição do desenho oriental, assume pouco diálogo, bastante acção ilustrada graficamente. Como as melhores coisas da vida tem o seu culto, tem autores de referência, criou uma espécie de universo paralelo que o ocidente foi descobrindo aos poucos. A revista «Monocle», de que aqui falo com frequência, inclui desde o seu primeiro número um pequeno fascículo de Manga, que pode ter contribuído para este género ganhar algum reconhecimento acrescido. A Manga é o produto pop por excelência do Japão e é assim que merece ser entendido. Peter Carey, um escritor australiano que vive nos Estados Unidos e que ganhou duas vezes o prestigiado Booker Prize, fez uma espécie de reportagem sobre a descoberta da cultura japonesa contemporânea e chamou-lhe «O Japão É Um Lugar Estranho» (feliz tradução do original «Wrong About Japan»). A forma da escrita é notável, a descrição das experiências e vivências de um ocidental no Japão moderno é absolutamente empolgante. Resta dizer que o livro foi editado em Portugal pela «Tinta da China», uma editora cuidadosa com as obras que publica, e está numa belíssima colecção sobre viagens muito bem dirigida por Carlos Vaz Marques.


 


VISITAR – A Livraria Sá da Costa, em pleno Chiado, está aberta até tarde e merece muito mais uma visita que a incaracterística, desarrumada e caótica FNAC, cada vez menos interessante, cada vez mais supermercado. A Sá da Costa, pelo contrário,  respira história, tem belas reedições de clássicos, empregados que sabem de livros, que gostam de livros, é um local que se pode ir descobrindo, com prateleiras que dá gosto explorar, com bancadas onde está praticamente a História da Literatura. Fica no Cjiado, mesmo ao lado de «A Brasileira», mais precisamente no número 100 da Rua Garrett. Óptimo local para  fazer horas para um jantar e descobrir preciosidades.


 


VER – Fotos de Victor Palla, em impressões originais, na Galeria P4 Photography, Rua dos Navegantes 16, à Lapa, Lisboa.


 


BACK TO BASICS – Nenhum Governo se pode sentir seguro se não tiver uma oposição competente, Benjamin Disraeli.


 


fevereiro 25, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 20 de Fevereiro

 


REALIDADE – Costuma dizer-se que só percebemos que a situação está má quando ela nos começa a cercar. Nos últimos meses vários dos meus amigos, mais ligados a actividades criativas, tipicamente a trabalharem enquanto prestadores de serviços, a recibos verdes, começaram a dizer-me que sentiam uma diminuição de procura, de encomendas. Nas últimas semanas vários disseram-me que as avenças que tinham foram rescindidas. Pessoas com experiência, capacidade de execução e coordenação de projectos, de repente encontram-se sem trabalho e ouvem dizer que são qualificadas demais para o que existe para fazer. Não contam para as estatísticas do desemprego, mas existem. O mundo – este nosso mundo – está a ficar perigoso: a experiência é penalizada e a inexperiência explorada. O resultado não pode ser bom.

 

MATEMÁTICA – As primeiras notícias diziam que Sócrates havia sido reeleito secretário-geral do PS quase por unanimidade. As segundas notícias já diziam que afinal só 1/3 do universo eleitoral dos militantes socialistas havia participado nas eleições. A unanimidade de Sócrates é afinal de cerca de 30% - também depois das diatribes de Santos Silva contra a oposição interna outra coisa não era de esperar.

 

PROMESSAS - Em tempo eleitoral todas as promessas são permitidas. Mas já que Sócrates e seus amigos tantas promessas estão a fazer, e tanto se comprometem com a classe média, convém aqui recordar que depois do enorme rol de promessas de emprego, de não subida de impostos e de maravilhas diversas, a realidade é a que se vê: logo a seguir às eleições os impostos subiram e muito e os tais milhares de empregos nunca foram criados, mesmo antes de a crise se instalar. Ele há alturas em que vale a pena puxar pela memória e ver como correram as promessas…

 

MEMÓRIA – Gosto muito do You Tube – lá se podem encontrar curiosos fragmentos do passado. Se tiverem paciência digitem esta entrada: http://www.youtube.com/watch?v=ga4JFtrOx1Y.

Aqui poderão ver um líder de oposição aguerrido a dirigir-se ao Primeiro Ministro a queixar-se dos maus números da economia, a acusá-lo de não criar condições para aumentar as exportações, a criticar o excessivo optimismo, a apontar o que o Governo não faz, a prometer resistir e impedir o controlo da comunicação social. O curioso, como poderão ver, se inserirem o link acima publicado, é que quem fez estas afirmações foi o Deputado José Sócrates, contra o Governo PSD da altura. O vídeo é adequadamente intitulado «Falar Para O Espelho».

 

COMUNICAÇÃO – Para a semana nasce um novo canal de televisão, essencialmente informativo, o TVI 24, em preparação há vários anos – as razões dos atrasos que sofreu são um case study do que corre mal em Portugal neste sector, a variadíssimos níveis, desde o licenciamento à distribuição, sendo que a culpa não foi da TVI, que pacientemente esperou pelas autorizações. Estou convencido que o TVI 24 manterá a independência editorial que é a imagem de marca da informação da estação-mãe, e que felizmente se afirmou, mesmo apesar dos momentos mais governamentalizados da direcção da Prisa em Portugal. Que contraste existe entre esta informação e a do Rádio Clube Português, também da Prisa, sobretudo desde que João Adelino Faria bateu com a porta – infelizmente o RCP é hoje uma estação cujos noticiários parecem mais preocupados em não ser incómodos do que em relatar a realidade.

 

OUVIR – As coisas simples são invariavelmente as melhores. Em 1968, pouco depois do fim dos Buffalo Springfield, Neil Young, então com 22 anos, tocou, sozinho com a sua guitarra, na Canterbury House, intercalando pequenas introduções entre as canções, aqui em inesperadas, frescas e belíssimas interpretações. Trata-se da edição, em CD e DVD, de mais um fragmento dos arquivos pessoais de Young, este com 40 anos de idade: será que daqui a 40 anos descobriremos registos inéditos e tão surpreendentes como este dos artistas contemporâneos? CD e DVD «Sugar Mountain» , Reprise.

 

VER- Raúl Perez é um artista plástico português cujas influências vêm do surrealismo. Na sua obra predomina o desenho, a tinta da china ou carvão, com algumas passagens por desenhos aguarelados e por elaborados trabalhos a óleo. O Museu Colecção Berardo juntou desenhos e pinturas de Perez feitos entre 1963 e 2008, numa mostra surpreendente para quem tem um primeiro contacto com o artista. Todas as obras são de uma enorme minúcia e revelam uma disciplina de trabalho apertada. A exposição estará patente até 12 de Abril.

 

LER – No dia 6 de Junho de 1926 a «Revista de Comércio e Contabilidade» publicava um interessante e didáctico artigo intitulado «Os Preceitos Práticos Em Geral E Os De Henry Ford Em Particular». O autor do artigo era Fernando Pessoa e o texto é absolutamente notável. Ocupa 16 páginas de uma bela edição da colecção Centauro, criada pela renovada Guimarães Editores em finais do ano passado. Transcrevo um dos princípios enunciados: «O negócio não pertence ao patrão ou aos empregados, mas ao público».

 

PROVAR – Takashi Yoshitake fez mais pelo conhecimento dos usos e costumes do Japão em Portugal nos últimos anos que todas as iniciativas diplomáticas oficiais. Mestre Takashi Yoshitake, que morreu há poucas semanas em Portugal, foi o fundador do restaurante Aya, que ao longo dos anos se foi expandindo até ter criado, há pouco tempo, o AYA de Carnaxide, num edifício autónomo, com um espaço fantástico que conjuga um salão com compartimentos privados de uma sobriedade exemplar. A qualidade dos ingredientes e da preparação do peixe são notáveis e valem a deslocação. Rua Anibal Bettencourt nº71, tel. 214181684, Carnaxide.

 

BACK TO BASICS – Não é a espécie mais forte, nem a mais inteligente, aquela que consegue sobreviver – é a que tiver maior capacidade de adaptação, Charles Darwin.

 

fevereiro 18, 2009

QUEREMOS LISBOA TRANSFORMADA NUM ENORME BURACO?

(Publicado no diário «Meia Hora» de 17 de Fevereiro)


 


Quando Costa ganhou as eleições autárquicas intercalares em Lisboa – provocadas por uma gestão política suicidária de Marques Mendes – alguns inocentes pensaram que a cidade iria conhecer tempos de paz, progresso e respeito pelos seus habitantes.

A realidade é bem diferente. A cidade está pior, os seus melhores espaços tornaram-se palco de aventuras comerciais – desde patrocínios de marcas a alugueres para apresentações de produtos, passando por passeios de fórmula um na Avenida da Liberdade. O espaço público é desrespeitado, tirado aos cidadãos que cá vivem, que cá pagam impostos e taxas e a quem a Câmara retira a possibilidade de viverem bem na sua cidade, precisamente quando ela está mais vazia pelo êxodo das invasões suburbanas – ao fim de semana.

Um plano sem nexo nem conteúdo varreu há meses a Praça do Comércio dos itinerários possíveis durante o fim de semana; agora o mesmo espaço foi transformado num estaleiro de obras e, já se sabe, estes quatro meses de enormes buracos no coração da cidade, irão tentar ser utilizados para fazer permanecer o louco projecto de impedir o trânsito, gizado por Manuel Salgado – cuja actividade em termos de urbanismo tem sido invisível, mas em termo de desconforto para os residentes tem sido bem patente.

Lisboa, no Verão passado cheirava mal e tinha pequenos buracos no pavimento, no asfalto, que não foram reparados; os pequenos buracos, com o Inverno chuvoso que ocorreu, tornaram-se em crateras. Tudo indica que Lisboa, mal aumente a temperatura, vai continuar a cheirar mal, mas com buracos ainda maiores. A gestão da equipa de António Costa caracteriza-se por estes dois vectores – falta de limpeza, falta de manutenção dos pavimentos – desinteresse pela qualidade de vida e conforto dos cidadãos contribuintes. Bem pode o Presidente da Câmara dizer que procura melhor ambiente – na realidade persegue moinhos de vento em vez de resolver problemas concretos – que, já se sabe, são sempre mais trabalhosos. Lisboa, hoje, é um buraco.

As eleições, nunca é demais recordá-lo, servem não para votar em programas mas para avaliar experiências. António Costa pode aparecer com mil promessas, mas a experiência destes dois anos não é para repetir – nunca a cidade caiu tanto, nunca foi tão descurada, nunca os seus residentes foram tão descriminados e maltratados. Costa, na prática, é um buraco.

 

 

fevereiro 16, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 13 de Fevereiro)

INSPIRAÇÕES - O Primeiro Ministro abriu a época eleitoral com uma campanha alinhada à esquerda e virada para o interior do PS. Levanta esse velho desígnio da esquerda que é castigar a riqueza e penalizar o sucesso e fez passar a mensagem de que encarna o espírito de Robin Hood, mas como Fernando Sobral bem recordou neste jornal, Robin tinha por missão recuperar o dinheiro da excessiva cobrança de impostos que o xerife de Nottingham exercia contra o povo…Sócrates, se é parecido com alguém nesta história, é com o explorador de impostos e não com o justiceiro. Adiante: na realidade o Primeiro Ministro foi recuperar um curioso slogan datado de 1975 e que era a palavra de ordem programática da UDP nesse ano: «Os Ricos Que Paguem A Crise». A origem e modernidade ideológica da moção de Sócrates ao Congresso socialista está pois localizada. 

 


 


PRÉMIO «VAI CHATEAR OUTRO» – Atribuído por unanimidade a Mário Lino, o Ministro que mais perguntas de deputados deixa por responder. O homem continua a aplicar «jamais» - neste caso ás respostas. Talvez seja mais fácil aproveitar um dos seus descontraídos momentos de final de almoço no Solar dos Presuntos para lhe fazer umas perguntas… 

 


 


GERAÇÃO NULA - Estes meses têm mostrado uma coisa – muitos dos grandes bancos mundiais estão em péssima situação, cheios de activos tóxicos, muitas empresas financeiras que pareciam donas do Universo esboroaram-se que nem neve em dia de sol, grande número de consultores enganaram-se nas contas, nas previsões, nas estimativas e nos modelos de negócio. É caso para dizer que uma geração de gestores implacáveis, a repletos de MBA’s e de arrogância caiu à primeira dificuldade, depois de esbarrar nos acontecimentos e mostrou que não sabia aplicar conhecimentos nem trabalhar no mundo real.  

 


 


ABSURDO - Nunca hei-de conseguir perceber as circunstâncias muito particulares em que se movimentam as empresas de futebol, antigamente chamadas clubes. No mundo real quem trabalha mal e falha resultados é despedido com justa causa – no mundo do futebol é dispensado com grandes indemnizações, fruto de contratos feitos por gestores que acreditam em milagres, na sorte, no carisma e noutros subjectivismos diversos. Em qualquer outro ramo de actividade seriam crucificados, no futebol são levados em ombros. O caso de Scolari é paradigmático: o vendedor de ilusões pode continuar a rir-se: a equipa que era suposta treinar não tem bons resultados, ele confirmou ser fraco líder, mas mesmo assim fez um belo encaixe financeiro. 

 


 


DÉFICIT - A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, anunciou uma iniciativa aberta a independentes, intitulada «Fórum Portugal», e que abordará uma larga série de temáticas. Mais uma vez a Cultura fica de fora do leque de preocupações, o que é um aborrecido deficit recorrente na política portuguesa e pode vir a ser um grande disparate. Na semana passada já tive oportunidade de lembrar que foi nos anos entre 1929 e 1939, a seguir à Grande Depressão, e graças a programas massivos de apoios, que o talento criativo nos Estados Unidos floresceu como em nenhuma outra época do século passado e ajudou o país a ganhar outro impulso. Já agora recordo, a este propósito, um artigo que Guta Moura Guedes escreveu no «Público» do passado dia 7, intitulado «Da importância da cultura em tempos de crise». Faço minhas as palavras da autora e, sobretudo este pedaço: «enquanto as prioridades não se centrarem nos conteúdos e nos recursos humanos, deixando para segundo lugar as construções mais visíveis, estaremos longe de fazer o necessário nesta área». 

 


 


VER –A «Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea», fica em Almada e está situada no alto da parte velha da cidade, tem jardins magníficos e uma vista espantosa sobre Lisboa.  Até 17 de Maio apresenta uma bela exposição baseada na colecção de gravuras do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (com obras de Almada, Mário Botas, Lourdes Castro, Man Ray, Matisse e Moore entre muitos outros) e duas exposições de fotografia - «Wall», de Rita Barros, e «De Passagem», de Graça Sarsfield, esta, de ambas, a mais interessante. Todos os dias menos segundas até às 18h00. 

 


 


PROVAR - Na zona das Avenidas Novas lá vão abrindo alguns novos restaurantes como o  «La Finestra», uma casa de comida italiana localizado onde em tempos foi o «Café Creme». As pizzas são a especialidade da casa – massa fina, pouco tomate, queijo QB sem abundâncias desnecessárias e boas combinações de outros ingredientes. Preços acessíveis, decoração luminosa e colorida, mesas confortáveis. Em matéria de pizzas fica no top 5 lisboeta. La Finestra – Av Conde de Valbom 52-A, tel 217 613 580. 

 


 


LER – Num ano em que o país convidado da Arco de Madrid é a Índia vem a calhar ler o magnífico «Uma Ideia da Índia», um conjunto de crónicas de viagem de Alberto Morávia escritas no início da década de 60 para o «Corriere della Será». A descrição dos locais, do funcionamento da sociedade indiana e da filosofia oriental são muito bem feitas, muito bem observadas. O livro, agora reeditado entre nós, está incluído numa nova colecção da editora «Tinta da China», dedicada a viagens, bem organizada e seleccionada por Carlos Vaz Marques. Boas capas, bom papel, bom grafismo – um exemplo raro nos dias de hoje. 

 


 


OUVIR - Benny Golson é um dos mais importatntes saxofonistas da fase do bepop e tocou com alguns dos maiores músicos da sua época. «The Best of Benny Golson» agrupa gravações feitas entre 1957 e 2004 e é uma compilação verdadeiramente preciosa para descobrir o talento de Golson, aqui ao lado de nomes como Art Blakey, Paul Chambers ou Art Farmer e Tommy Flannagan, entre outros.  

 


 


BACK TO BASICS - A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes – Fernando Pessoa 

 

fevereiro 11, 2009

O DÉSPOTA ACIDENTAL

(Publicado no diário «Meia Hora» de 10 de Fevereiro)

 


O Ministro Santos Silva é um daqueles acidentes da democracia – um regime masoquista que frequentemente permite a existência nos governos de inimigos confessos do debate de ideias e do pluralismo. Uma análise das principais intervenções conhecidas de Santos Silva mostra – logo desde o período pré-eleitoral que levou José Sócrates ao poder – uma forte marca de controlo e combate às diferenças, de desejo de interferência política nos media e um permanente abuso de poder em relação à oposição.

Teoricamente Ministro dos Assuntos Parlamentares, Santos Silva vive o cargo no exercício de uma maioria absoluta – se estivesse perante uma maioria relativa no Parlamento rapidamente se perceberia a sua inabilidade e a sua falta de capacidade de concretização de obra. Ele só consegue fazer o que não tem oposição possível. Quando se debate com oposição mostra uma total incapacidade de concretizar o que quer que seja.

Isto não é novidade na sua actuação – o personagem Santos Silva fez o tirocínio governamental nos governos Guterres de má memória. Aí foi um apagadíssimo e inútil Secretário de Estado na Educação, mais tarde Ministro da Educação, num cinzento mandato sem obra feita. Logo a seguir transitou para Ministro da Cultura, com a missão de resolver o caos em que o seu antecessor, José Sasportes, tinha deixado o Ministério – tarefa que não cumpriu, tendo a sua fugaz passagem ficado marcada pela paralisia da instituição. E isto, note-se, na área de especialização académica de Augusto Santos Silva.

Na sua actual função desde cedo mostrou o espírito arruaceiro, que agora o PS descobriu quando se insurgiu contra as divergências de Edmundo Pedro e Manuel Alegre e prometeu malhar nas diversas oposições à esquerda e à direita.

O principal traço da sua personalidade é uma prosápia e violências verbais que contrastam o ar apagado e de olhos no chão num diálogo cara a cara, a forma arruaceira como gosta de argumentar e a maneira como sacrifica qualquer diferença ao dogma do poder.

Deste homem, de quem não se conhece obra construída na vida real, à parte a sua actividade académica há muito interrompida, depende boa parte do controlo de informação sobre a rádio e televisão pública e a agência noticiosa. Na realidade ele é efectivamente o Ministro da Propaganda, um homem que só vive em regime de poder absoluto e que encara quem dele discorda como alvos a abater. É gente assim que está ao lado de Sócrates nas eleições internas do PS.

 

fevereiro 09, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Fevereiro)

 


DO OUTRO MUNDO – Parece que a política de Comunicação do Ministro Mário Lino tem um refinamento que mais nenhum outro Ministério ainda conseguiu: os escolhidos em concurso público ficam a saber que do Caderno de Encargos cosnta uma festa encenada para a cerimónia de adjudicação, com presença garantida de José Sócrates e filmes, internet, publicidade e acompanhamento de imprensa, mais comes e bebes, tudo de formato fixo, fornecedores fixos e preço fixo: 500.000 euros. João Cravinho, que gostava - e bem - de se insurgir contra sinais de corrupção, e que foi Ministro das Obras Públicas, que dirá deste sofisticado método de financiamento de campanhas de propaganda? (Resta dizer que todos os preços vindos a lume são mais caros que os preços de mercado normalmente praticados….quem ganha com a diferença?)

 

MUNDO REAL - Imaginem um autarca do partido do Governo que pressiona um ministro do ambiente a encarar a alteração de uma decisão e o leva a sentar se, à mesma mesa, com um empresário disposto a tudo para avançar com o seu projecto. OK,  isto parece uma sinopse de um filme de cordel passado numa república das bananas, mas é apenas um resumo, real, do que até agora se sabe do caso Freeport – intrigas de família à parte.

 

OUTRO MUNDO – A política passou a ser feita não de ideologias mas de campanhas de informação e contra-informação. Uma análise da imprensa dos últimos oito meses em Portugal mostra um somatório de manobras que passam pela área dos negócios, pela Banca, pelos jornais e, obviamente pela justiça – que é o bem mais raro e escasso em Portugal.

 

VENTOS DE LESTE – O Governo chinês anunciou esta semana que 20 milhões de trabalhadores originários de zonas rurais, que estavam em zonas industriais de grandes cidades nos últimos anos, perderam o emprego nos meses mais recentes em virtude da crise internacional e da diminuição de encomendas para exportação. São 20 milhões que assim regressaram às suas terras de origem com muito pouco nas mãos. O «Financial Times», que tinha esta notícia, estimava que mais de 12 milhões de desempregados recentes permaneciam ainda nas cidades à procura de trabalho e , citando autoridades chinesas, alertava para a possibilidade de perturbações sociais graves no país.

 

LER – A edição de Fevereiro da «Vanity Fair» traz três artigos imperdíveis: uma descrição, detalhada e surpreendente, de como funcionava a Casa Branca no tempo de Bush, a história do romance entre a Princesa Margarida de Inglaterra e o fotógrafo Tony Armstrong Jones no início dos anos 60, e uma visita à faceta teatral de Cate Blanchett. A propósito dos tempos que vivemos, o editor da revista, Graydon Carter recorda que foi nos anos entre 1929 e 1939, a seguir à Grande Depressão, que o talento criativo nos Estados Unidos floresceu como em nenhuma outra época do século passado.

 

UM BOM CASO – Na quinta-feira da semana passada o nº 84 da Rua da Boavista, em Lisboa, registou uma enchente rara nos tempos que correm, quando se fala de inaugurações de exposições em Lisboa. É ali que fica o Art Edifício Transboavista, que agrupa a VPF Cream Art Gallery, a Rock Gallery e a Plataforma Revólver. Cada um destes espaços encerra propostas e objectivos diferentes e o resultado é uma junção de diversos públicos, mas com a característica comum de procurarem um espaço que é cada vez mais sinónimo de território de exploração de novos rumos, ao mesmo tempo que se assume como um palco para provocações estéticas e montra de experimentalismos. A animação, a vontade de ver e de estar era genuína, a alegria dos presentes contrastava com o discurso sobre a crise e tudo isto se passava numa noite de mau tempo. Victor Pinto da Fonseca conseguiu em pouco tempo tornar este espaço (que brevemente contará com mais uma galeria), num local incontornável no roteiro da arte contemporânea em Lisboa. Destaque, na nova série de exposições, para a instalação de Gustavo Sumpta que liga a entrada do edifício até ao topo, na Plataforma Revólver (onde está a colectiva Convite Cordial), e para o trabalho de Pascal Ferreira, «Vice-Versa», na VPF Creamarte, verdadeiramente a desafiar os limites físicos do espaço. Nas salas reservadas ao acervo da galeria uma inesperada novidade: um excelente trabalho a grafite de Nuno de Campos, um artista português que tem vivido em Nova York e que para o ano terá neste espaço uma exposição.

 

OUVIR – O novo disco de Bruce Springsteen, «Working On A Dream» é de longe o seu melhor trabalho dos últimos anos. Excelentes composições, textos adequados ao tempo, os músicos da E Street Band em grande forma e uma produção absolutamente irrepreensível de Brendan O’Brien fazem deste trabalho um marco na carreira do músico – que aqui abraça em interpretações pessoais diversos géneros da música popular norte-americana, com curiosas evocações da country nalguns momentos.

 

COMIDA – Não chega um arquitecto capaz e boa vontade para fazer um bom restaurante. O Sommer (Rua da Moeda, ao Cais do Sodré) é um espaço agradável, fruto daquele género de inspiração que leva umas pessoas, com jeito para a cozinha, a meterem-se numa aventura complicada. Eu sinceramente espero que a cozinha melhore, que o serviço melhore e que o ambiente geral melhore. É que, tal como está, o Sommer é apenas um espaço simpático, sem onda nem grande comida. (Rua da Moeda 1K, tel 213 905 558).

 

BACK TO BASICS - Quando chove, é certo e sabido que não há operações Stop - Vítor Raínho.

 

fevereiro 06, 2009

UMA NOVA AMBIçÃO

Muito bom o artigo de Pedro Passos Coelho publicado hoje no Jornal de Negócios - uma análise aberta e realista da crise, das medidas que têm sido tomadas e de alguns caminhos que deveriam ser seguidos. Espreitem http://tinyurl.com/b8z2hs

 

fevereiro 04, 2009

COSTA CONTRA OS ALFACINHAS

 


(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Fevereiro)

 

O PS e o Bloco de Esquerda pretendem fazer alterações significativas no trânsito na zona da Baixa e na zona ribeirinha de Lisboa. Os argumentos são os do costume: devolver a cidade aos peões, tentar criar faixas para bicicletas, demagogia barata para consumo eleiçoeiro – como se as cidade contemporâneas não convivessem com os automóveis.

Fernando Nunes da Silva, um Professor do Instituto Superior Técnico, já veio alertar para o facto de os desvios previstos irem provocar engarrafamentos consideráveis noutros locais – nomeadamente no Chiado – aumentando a circulação, a poluição e diminuindo a qualidade de vida nessas zonas que agora irão ser castigadas.

Os comerciantes que ainda sobrevivem na Baixa lisboeta alertam para o facto de as limitações propostas irem ameaçar ainda mais o já reduzido movimento comercial, alertando para a possibilidade de muitos estabelecimentos comerciais terem que encerrar, criando assim mais desemprego e desertificando ainda mais a Baixa.

Olhando com atenção para as soluções apresentadas salta logo à vista que o movimento entre a zona de Alcântara e a zona da Expo ficaria fortemente condicionado – paradoxal depois do investimento realizado na recuperação daquela área. A este nível este plano é quase uma segregação da Expo, relegada para arrabalde com penalizações de entrada no centro da cidade. Não deixa de ser curioso que um dos autores do estudo agora apresentado seja um dos responsáveis pela planificação (má, como hoje já se percebeu) da Expo – o vereador Manuel Salgado - «um poeta que vive numa auréola de esquerda, sendo um homem de direita», nas acertadas palavras do Presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Barbosa.

E é ainda Carlos Barbosa quem recorda, a propósito deste plano, apresentado por António Costa, que o actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi «o pior Ministro (da Administração Interna) no que diz respeito à mobilidade e a tudo o que tem a ver com a segurança rodoviária».

As medidas agora previstas, a serem tomadas, prejudicarão sobretudo os lisboetas que vivem e trabalham dentro da cidade, os mesmos que este ano serão chamados a eleições para uma Câmara Municipal que lhes suga dinheiro em taxas e impostos, que usa a EMEL como arma terrorista e os castiga por quererem continuar a viver nesta cidade. Eu gostava de continuar a viver numa cidade que me quer, em vez de uma que me persegue.

fevereiro 02, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Janeiro)

CURIOSIDADE – Gostava de ver um estudo que avaliasse, em termos económicos, o impacto negativo que Lisboa sofrerá se o alargamento do terminal de contentores fôr para a frente e se, em consequência disso, diminuírem brutalmente o número de cruzeiros que escolhem Lisboa como porto de passagem. É que as cidades que apostam num porto de carga invariavelmente deixam de ser porto de turismo e os muros de contentores fazem perder muitos cruzeiros – muitos milhares de turistas por ano que deixarão de entrar em Lisboa, fazer compras, visitar museus e dinamizar a economia da cidade. Será que tudo isto foi avaliado?  

 


 


PERGUNTAS QUE ME OCORREM - Como é que PS, PSD e PP se conseguem abster numa proposta do BE e do PCP que visa geminar Lisboa com a cidade de Gaza no meio de considerandos pró-palestinianos e de condenação a Israel? O que é que o Ministro das Finanças terá dito em Londres numa reunião com a Standard & Poor’s para esta instituição baixar o rating de Portugal dias depois? Como é que se encaixa a entrega de parte da colecção Berardo como garantia colateral da dívida do empresário aos Bancos com o contrato existente com o Estado sobre aquelas obras de Arte? 

 


 


QUINTO CANAL – O novo canal de televisão, o célebre quinto canal, se vier a existir, tem que contribuir para a diversidade da paisagem audiovisual e, necessariamente, terá que dinamizar a produção independente, encomendando produção no mercado português – cumprindo aliás directivas europeias e leis nacionais, o que quer dizer que não pode ser uma estrutura auto-suficiente que não dinamiza a economia do sector. Espero que quem decide tenha bem presente este lado da questão e analise a viabilidade das propostas com os pés assentes na terra. 

 


 


VER – Vale a pena ir a Elvas descobrir o Museu de Arte Contemporânea local (MACE), que alberga a colecção de António Cachola. Há dias o Museu abriu uma extensão destinada a exposição temporárias, no Paiol de Nossa Senhora da Conceição, inaugurado com a exposição «(Im)permanências» de Cristina Ataíde, e que ficará no local até ao Verão. É uma instalação que junta escultura com fotografia e o resultado surpreende. 

 


 


OUVIR – Jóias e raridades do arquivo da Tamla Motown numa edição disponível apenas com a revista britânica de música «Mojo». O CD que acompanha a edição de Fevereiro da revista inclui alguns singles históricos de nomes como Martha & The Vandellas, Supremes, Marvin Gaye, Four Tops, The Miracles, Temptations ou Gladys Knight & The Pips.  A mesma edição da revista traz um belo conjunto de artigos sobre a história da Motown e uma lista das cem melhores faixas que ela editou, escolhidas por vários músicos. A publicação com o CD incluído como oferta custa cerca de oito euros e está disponível nas boas lojas de revistas. 

 


 


LER – A mais recente edição da «Monocle», de Fevereiro,  é dedicada à crise actual e, depois, de forma mais particular, à forma como ela atingiu a Islândia e o que o país está a fazer para tentar salvar-se. Mas para além disto esta edição tem numerosos pontos de interesse na área do design, dos negócios, da cultura e da actualidade. Começa a ser repetitivo dizer isto, mas de facto a «Monocle» é mesmo uma revista a não perder. 

 


 


CRISE – Começa a notar-se que a crise afecta os restaurantes – embora também se veja que não afecta todos por igual. De qualquer forma os restaurantes com preços mais elevados começam a ter menos reservas e mais mesas disponíveis. No actual clima económico é compreensível que assim seja e a situação cria um desafio para que os bons restaurantes consigam sobreviver a um período de possível diminuição de receitas. A espiral de pânico que se instalou leva a que as pessoas pensem duas vezes antes de gastar dinheiro e faz com que, nas empresas, haja maior cuidado na escolha de locais para almoços ou jantares de negócios. Tudo isto vai obrigar os restauradores a terem muita imaginação e a refazerem bem as contas, para verem como podem ter uma oferta mais competitiva e que não afaste a clientela habitual. Duas refeições ao almoço por 70/80 euros pode ser aceitável, duas refeições por 120 euros pode começar a ser questionável. Basta ir a dois ou três locais de Lisboa à hora de almoço e sentir a deslocação de uns locais para outros, vendo os mais caros um pouco desertos e os de preços médios mais cheios e com novos clientes. Também neste sector as mudanças vão ser inevitáveis. 

 


 


PROVAR – Situado no alto do Parque Eduardo VII o restaurante Eleven partiu de uma aposta ousada: um edifício de restaurante construído de raiz, projecto do arquitecto João Correia, com a sala de refeições orientada para o parque, a Avenida da Liberdade e o Tejo, ladeado pelas colinas, Alfama e o Castelo de um lado, o Bairro Alto do outro. Esta é provavelmente a melhor vista disponível nos restaurantes lisboetas e como os olhos também comem fora do prato o trunfo é considerável. Mas o «Eleven», para ser justo, tem a sua principal vantagem na qualidade da cozinha, na criatividade dos seus pratos e no serviço, que é verdadeiramente exemplar. Dirigido pelo chefe Joachim Koerper, um alemão convertido aos sabores mediterrânicos, o «Eleven» propõe menus de almoço de negócios a preços mais reduzidos que o menu habitual, com a particularidade de incluir vinhos muito criteriosamente escolhidos para os pratos propostos e que vão variando. Telefone 213862211. 

 


 


BACK TO BASICS – Nunca pode existir total confiança num poder que parece excessivo – Cornelius Tacitus 

 

janeiro 29, 2009

A IMPORTÂNCIA DA CREDIBILIDADE

(Publicado no diário «Meia Hora» de 27 de Janeiro)


 

Um património fundamental dos politicos é a credibilidade. A demagogia eleitoral deixa sempre as suas mossas, a mania dos políticos em estabelecer metas e fazer promessas que depois deitam fora é uma das coisas que mais destrói a política e mais afasta as pessoas da participação cívica.

Eu devo dizer que tenho o Engenheiro Sócrates na conta de uma pessoa séria – não corrompível, não venal, que não quer tirar proveito próprio nem material da actividade política. Mas sei também como é determinado e como frequentemente não olha a meios para atingir objectivos. Aos poucos José Sócrates tem vindo a construir um património de incredibilidade, em termos políticos e em termos pessoais.

Em termos políticos na campanha eleitoral prometeu que não iria subir os impostos, e a primeira coisa que fez foi aumentá-los; prometeu milhares de empregos que nunca surgiram; prometeu reformas que ou não se fizeram ou ficaram a meio. Tudo indica que o final do seu mandato fique muito longe, em termos de resultados, do que ele anunciou – o recente relatório de uma agência de rating sobre a situação do país é o retrato de um falhanço, mesmo antes de a crise ser o que é.

Em termos pessoais, em três situações diferentes, começou por não admitir determinados actos, que depois se verificou terem ocorrido – a sua dificuldade em conviver com a verdade quando esta lhe pode ser desagradável é uma característica repetida: foi assim no caso do seu currículo profissional e no caso da sua licenciatura, foi assim no caso dos projectos de engenharia que assinou, foi assim neste caso do Freeport.

O seu comportamento tem sido sempre igual: ao princípio nega tudo, depois tem que recuar e aceitar parte do acontecido. O problema é que deixa no ar a dúvida sobre se ficará mais por desvendar. É isso que afecta a sua credibilidade e é isso que começa a preocupar tanta gente no PS, sobretudo em vésperas de Congresso partidário.

No caso Freeport, parece-me, a questão principal é saber se houve tratamento de excepção na rapidez do licenciamento, no facto de a decisão ter sido tomada já com o Governo de saída, no facto de objectivamente a decisão ter sido pressionada (como hoje já se sabe) por um correlegionário partidário do Engenheiro Sócrates – o Presidente da Câmara de Alcochete, à data do sucedido, era do PS. Esta é verdadeiramente a questão central de todo o problema: houve ou não favorecimento político – partidário? Todas as aparências indicam que sim.

janeiro 24, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Janeiro)

RESUMO DA SEMANA – Lá vamos cantando e revendo o orçamento ( o tal que estava óptimo há um mês atrás…); já se sabe que este ano a despesa do Estado cresce 10 por cento; Vitor Constâncio reconheceu ter-se enganado mais uma vez, o que o torna candidato a recordista de erros no campeonato dos Governadores de Bancos Centrais; já se percebeu que José Sócrates iniciou a sua viragem à esquerda para consumo interno do PS e não me espanto se um dia destes ele disser que o Governo veio em ajuda do Banco Privado Português para defender a classe média… 

 


 


ANDA NO AR – No cenário de uma maioria relativa do PS começam a correr pelo ar vários cenários: uma revisitação de um acordo PS-PP, desta vez uma coisa à séria e sem queijo Limiano; uma tentativa de cisão no PSD que desse consistência a um bloco central de partilha do poder; e um governo patrocinado pelo Presidente da República, que juntasse figuras do PS e PSD, sem Sócrates. Os cenários começaram a ser feitos – daqui até ao fim do ano cenógrafos e carpinteiros vão ter muito que fazer. 

 


 


RECORDISTA – A cerimónia de tomada de posse de Barack Obama foi recordista de audiências – bateu todos os recordes anteriores, pertencentes a manifestações desportivas – Jogos Olímpicos em audiências globais no mundo inteiro e o Super Bowl dentro das audiências internas do mercado dos Estados Unidos. As primeiras estimativas apontam para uma audiência televisiva total superior a 100 milhões de espectadores só nos Estados Unidos. Já se sabe que o vencedor da batalha de audiências foi a dupla CNN- Facebook, que possibilitou que os espectadores comentassem em tempo real e inter-agissem uns com os outros ao mesmo tempo que assistiam à cerimónia. Este acordo CNN-Facebook foi por si só um marco na comunicação e na maneira de ver as transmissões em directo – algo que fará História. 

 


 


VER – «Lá Fora» reúne obras de 67 artistas portugueses que desenvolveram grande parte da sua obra no estrangeiro, no caso em 21 cidades, e é uma iniciativa conjunta da Fundação EDP e do Museu da Presidência da República, originalmente criada por ocasião do 10 de Junho do ano passado e que agora chegou a Lisboa, ao Museu da Electricidade. Aqui estão, por exemplo, peças feitas por José Barrias em Milão, por Paula Rego em Londres, por Isabel Pavão em Nova Iorque ou por Alvess em Paris – acreditem que para muitos esta diversidade vai ser uma surpresa. Até 15 de Março. 

 


 


OUVIR – Eu pessoalmente gosto de trios – esclareço que estou a falar de jazz nesta instância: piano, baixo e bateria fazem a minha felicidade. Aqui há uns anos descobri a obra do trio do belga Jef Neve com o disco «Nobody Is Illegal». Agora redescobri-a com o novo disco, «Soul In A Picture», um dos melhores discos de jazz de músicos europeus que ouvi nos últimos anos. Vou corrigir: um dos melhores discos de jazz que ouvi nos últimos anos. 

 


 


LER – José Sarmento de Matos é um estudioso de Lisboa e da sua História e, reza a lenda, terá sido ele o primeiro a sugerir a Mega Ferreira a zona oriental de Lisboa como local ideal para a requalificação que a EXPO 98 queria fazer. Adiante: «A Invenção de Lisboa» é um trabalho extraordinário, cujo primeiro volume acaba agora de sair, editado pela «Temas e Debates». Esta História começa nos tempos dos fenícios e dos romanos e o primeiro volume centra-se na conquista de Lisboa aos Mouros e nas três décadas imediatamente a seguir que moldam a cidade como capital do país. É um livro delicioso em que a História se mistura com relatos de aventura, um registo da evolução de Lisboa em que se juntam contribuições de história política, económica, social e cultural. É um prazer começar o ano a ler um livro assim. 

 


 


COISAS DE QUE EU GOSTO – Gosto muito de passear nas Avenidas Novas. Anda-se bem a pé, há comércio, muita restauração, cafés, até a excelente livraria «Pó dos Livros» (Av. Marquês de Tomar 89ª). Ao longo dos tempos os restaurantes mudam, a bem dizer, de «alma». Por exemplo, o «City Café» (Av Miguel Bombarda 133), que aqui em tempos elogiei, transformou-se num templo de fumo ( e eu não sou anti-tabagista), com um género de serviço que gosta de ver os clientes a saírem, com mesas guardadas sem estarem reservadas, num estilo algo ganancioso de funcionamento que a mim me irrita bastante. Em contraste, o «Magnólia» (também Av. Miguel Bombarda nº 48) melhorou muito desde que abriu e agora a sua sala de restaurante é um local agradável, com, bom serviço e preços equilibrados, zona de fumadores e não fumadores, ambas confortáveis. Enquanto ao Magnólia volto agora com gosto, do City Café fujo sem desgosto. 

 


 


PERGUNTAS QUE ME OCORREM – Onde anda o «Compromisso Portugal»? Que actividades desenvolve depois de ter feito em Julho do ano passado uma avaliação do desempenho do Governo? Que análise faz da crise, do que aconteceu nestes últimos meses, do que se passa nalguma banca, como avalia o desempenho do sistema político face à situação? Lembrei-me de tudo isto quando, na semana passada, vi o Dr. António Carrapatoso e o Dr. António Costa numa conversa de almoço. Sei lá –ainda existe, o «Compromisso Portugal»? 

 


 


TESOURINHO DA SEMANA – « Da parte do meu Governo pode contar com uma firme vontade em trabalhar em conjunto com os Estados Unidos» - José Sócrates, felicitando Barack Obama no dia da sua posse. E que terá Obama pensado? - «Cool Man, I really was wainting for that – send me the rescue plans for that Banco Privado of yours)… 

 


 


BACK TO BASICS – «O Verão tem muito mais graça» - D.P.A. 

 

janeiro 22, 2009

CERVEJAS

Parece-me que a Super Bock anda a saber bastante melhor que a Sagres

CARTA ABERTA SOBRE O PATRIMÓNIO

 


(Publicado no Meia Hora de 20 de Janeiro)

 

Senhor Engenheiro José Sócrates,

Gostava de lhe roubar uns curtos minutos para lhe pedir que, no meio de todas as obras públicas que vão ser feitas, haja uma parcela do dinheiro que se destine a recuperar o nosso Património nacional edificado. Eu acho que o Senhor, como tantos outros portugueses, deve ter ficado preocupado com as informações que dão notícia da progressiva degradação de vários monumentos, alguns de forma grave.

Se calhar, para além dos monumentos em dificuldades de conservação que vieram a lume, ainda há mais, fora dos mais conhecidos e classificados, mas de muito valor a nível local, que precisam igualmente de intervenção – eu recordo-me de, ao longo do último ano, ver notícias de vários pontos do país dando conta de que existiam problemas de conservação em muitos edifícios que pertencem ao Património nacional, que têm valor histórico, artístico, cultural, turístico – quer dizer, que à sua medida podem ser peças de alguma dinamização da economia local.

Como em tudo na vida isto é uma questão de opção: serão mesmo necessárias todas as auto-estradas, todas as vias rápidas? Se calhar o valor investido em meia dúzia de quilómetros de auto-estrada daria para fazer uma revolução na conservação e dinamização do nosso Património.

Peço-lhe, Senhor Engenheiro, para considerar esta possibilidade – se fizer esta opção o investimento dinamizador mantém-se, o emprego de mão de obra na conservação destes edifícios não será dispiciendo, poderá dar-se trabalho aos que estudaram restauro e por vezes têm dificuldade em aplicar o seu conhecimento, e no fim de tudo isto poderá, até, haver alguma criação de emprego a nível local para manter abertos a visitantes estes Monumentos.

Se as coisas forem bem pensadas, bem coordenadas e bem comunicadas – e o Senhor é um mestre nesta área – o efeito positivo junto dos cidadãos, a nível local e também nacional, será enorme. Todos gostamos de ver que o país conserva a sua História e sabe salvaguardar a sua memória.

Eu acredito que ainda pode estar a tempo de criar um plano de emergência para o Património, que garanta aproveitamento do investimento, que garanta trabalho e que tenha um efeito prático muito positivo. Surpreenda aqueles que acham que opta sempre pelas soluções mais fáceis.