O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
novembro 10, 2008
(Publicado no Jornal de Negócios de 7 de Novembro)
LISBOA DESPREZADA
novembro 03, 2008
Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Outubro de 2008
FAZER - Um país que não produz vale pouco por mais auto-estradas, aeroportos e linhas de TGV que se construam. Numa apresentação realizada na semana passada pela Associação Empresarial Portuguesa em Lisboa, o seu dinâmico Vice-Presidente, Paulo Nunes de Almeida, chamou a atenção para um dado pouco falado: nos primeiros seis meses do ano o déficit externo português subiu 36% em relação a período homólogo do ano passado - quer dizer, produz-se menos, importa-se mais. E fiquei a pensar: quilómetros de alcatrão não são exportáveis - a qualidade da manufactura é. Num período em que muitas empresas começam a desconfiar da qualidade chinesa, há uma oportunidade para os produtos de qualidade feitos em Portugal. O futuro passa por aí, mais do que por gigantescas obras públicas que podem ter efeitos no curto prazo mas não são feitas a pensar no futuro.
CRIAR - Fiquei fã de Aníbal Campos, Presidente da Silampos, que numa entrevista recente não poupou nas palavras - e com razão: «Bruxelas tornou-se um Kremlin, uma instituição de burocratas que venderam a ideia de que era possível viver sem produzir». E mais adiante: «Sou a favor da globalização, mas com regras. (...) Os produtos que vêm da China não têm de cumprir regras e ninguém fiscaliza. A questão da marca CE é uma questão muito interessante - é divulgada como sendo China Export». E, ainda: Se um europeu exporta para a América do Sul «pagam-se taxas absurdas de 60 a 70%, o caso do Brasil é um escândalo porque os produtos brasileiros entram na Europa com taxas de 4%».
MUDAR - Cá para mim quem tem razão é José Miguel Júdice na análise que faz do Estado da Nação: segundo ele Portugal está como os Estados Unidos - precisa de reforçar a classe média, de garantir maior justiça fiscal e de conseguir renovar o sonho de uma vida melhor. Só que eu não vejo maneira de isso acontecer. Estamos na recta final de um mandato de quatro anos de maioria absoluta onde as promessas cumpridas foram poucas e as reformas cheias de zigue-zagues. Quando o Primeiro Ministro pede uma nova maioria absoluta para poder governar tenho as minhas dúvidas de que o cheque em branco seja merecido. Mas também percebo que, com a oposição que existe, dificilmente se conseguirá fazer melhor.
VER – Gostei do documentário de Bruno de Almeida que ganhou uma menção honrosa no Doc Lisboa deste ano, «Homeostéticos b=0». Partindo de um belíssimo trabalho de recolha de arquivos e de depoimentos, de um guião muito bem construído e de uma montagem sóbria e eficaz, o documentário, de uma hora, ajuda a perceber o percurso de artistas que deixaram um marca para além do período em que se tornaram conhecidos: Pedro Portugal, Ivo, Manuel João Vieira, Xana, Pedro Proença e Fernando Brito. Parabéns à voz que faz a narração, de forma exemplar e à produção da Midas Filmes. Deixo uma frase tirada do filme: «Estamos sem porcos a quem darmos as pérolas».
LER - Bem sei que isto se está a tornar repetitivo, mas cada nova edição da revista «Monocle» é um motivo de recomendação. Neste número de Novembro o tema de capa é a forma como o design pode ajudar a diplomacia – e faz-se um levantamento de embaixadas por esse mundo fora que são amostras das culturas e talentos dos países que representam. Também nesta edição é muito interessante ver como o organismo britânico de comércio externo, «UK Trade & Investment» chama a atenção em duas páginas editoriais para o sector criativo no Reino Unido. A terminar uma belo ensaio fotográfico acompanhado por um informativo artigo sobre a arte milenar do Sumo japonês, essa antiga forma de luta que privilegia a táctica e a sabedoria sobre a força.
DESCOBRIR – Os desenhos e esboços de Cruzeiro Seixas, feitos em pedaços de papel, expostos até dia 8 de Novembro na Galeria Arque, Avenida Miguel Bombarda 120 A. É uma colecção invulgar, de rabiscos ocasionais, mas que no entanto ganham sentidos quando expostos desta forma.
PETISCAR - O Nobre voltou a Lisboa e está no Campo Pequeno. Mesmo coisas simples podem ser surpreendentes, como a salada de polvo, servida de entrada. Bom pão, bom azeite para acompanhar, vinho a copo honesto e de preço aceitável. Nos pratos do dia havia uma miscelânea de peixe fino com gambas, em molho de côco com puré de coentros e um bacalhau à Spazio, com espinafres, amêndoas torradas, lascas de bom bacalhau e umas batatas ao redor. Serviço exemplar. Avc. Sacadura Cabral 53 B, tel 217 970 760.
OUVIR – Inesperado, arrebatador, surpreendente – bastam três palavras para descrever o novo disco de Charlie Haden, um divertido projecto nascido de explorações de sonoridades tradicionais, dos blues ao country, em que participam nomes como Rosanne Cash, Elvis Costello, Pat Metheny, Bruce Hornsby e Vince Gill, entre outros. Também alguns familiares de Haden dão uma ajuda num disco apropriadamente intitulado «Family & Friends». É um disco despretencioso e divertido, cheio de pequenas descobertas, como o próprio Haden a cantar.
BACK TO BASICS – Penso sobre os aviões a mesma coisa que sobre as dietas – são óptimos para outras pessoas experimentarem – Jean Kerr
O MAU CHEIRO DA GASOLINA NA AVENIDA
Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Outubro de 2008
outubro 22, 2008
POBRE CULTURA
(Publicado no diário MeiaHora de 21 de Outubro)
A estimativa de execução orçamental do Ministério da Cultura para 2008 é de 217,7 milhões de euros. Na proposta de Orçamento de Estado para 2009 a despesa prevista no Ministério da Cultura é de 212,6 milhões de euros, cerca de cinco milhões de euros a menos, um decréscimo, de facto, de 2,3 por cento. No programa do actual executivo, aprovado na Assembleia da República, dizia-se: «O compromisso do Governo, em matéria de financiamento público da cultura, é claro: reafirmar o sector como prioridade na afectação dos recursos disponíveis. Neste sentido, a meta de 1% do Orçamento de Estado dedicada à despesa cultural continua a servir-nos de referência de médio prazo». Na realidade, como apontava em Setembro a Deputada Ana Drago na Assembleia da República, a percentagem do investimento na Cultura no Orçamento de Estado tem sempre vindo a diminuir e não a aumentar – em 2001 era de 0,7% e em 2008 já tinha caído para 0,2%. Este ano, pelos vistos, mantém-se o pobre panorama. O mesmo Programa de Governo afirmava que uma das prioridades do executivo PS seria «retirar o sector da cultura da asfixia financeira». Não é isso que se tem passado – o sector hoje está mais débil, as estruturas independentes existentes vivem com maiores dificuldades, continua a não se fazerem investimentos necessários na internacionalização de criadores portugueses e a conservação do Património foi várias vezes notícia ao longo deste ano pelas piores razões – falta de verbas. No meio deste panorama o Ministro da Cultura faz uma habilidade para defender politicamente o Governo: em vez de comparar a estimativa de execução orçamental com o orçamento proposto para o próximo ano, pega no valor que estava indicado na primeira versão do Orçamento para 2008 para encontrar forma de dizer que o sector cresce – feitas as contas dessa estranha maneira (ai que mal vai o ensino da matemática…) o Ministro encontrou um crescimento de 0,4 por cento. Já agora vale a pena comparar esta afirmação do Ministro Pinto Ribeiro, com a da sua antecessora, Isabel Pires de Lima, há um ano: nessa altura reivindicava ela um aumento de 9,2 por cento no Orçamento da Cultura. A ser assim só se pode concluir que, seja qual fôr a forma de fazer as contas, o peso político e a importância dada pelo Governo á Cultura está em queda livre.
Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Outubro
ELEIÇÕES – A notícia do arranque formal da campanha eleitoral do Governo foi dada com a proposta de Orçamento de Estado para 2009, que contempla o catálogo de medidas eleitoralistas a aplicar no decurso da campanha. Na mesma semana o Primeiro Ministro sublinhou a importância da manutenção do calendário das grandes obras públicas previstas e mereceu logo um significativo coro de aplausos daqueles empresários portugueses que gostam mais de trabalhar para o Estado do que de procurar clientes no mercado. É engraçado comparar o esforço do Estado nessas obras com incentivos à exportação ou estímulos à criação de novas empresas. Recordo aqui que ainda há pouco tempo o Presidente da República chamou a atenção para o facto de os empresários deverem ter em conta o mercado real dos consumidores e não o mercado manipulado das encomendas do Estado e das obras públicas. O desenvolvimento de um país é o resultado não da capacidade de lobby no aparelho de Estado, mas sim do êxito no mercado. Confundir Estado com mercado é um vício penoso que se tornou numa praga em Portugal.
CRISE – Nestas semanas de crise a mais completa e elucidativa cobertura, entre as revistas generalistas, tem sido a da «Newsweek», e isto porque procura perceber as razões do que sucedeu e avançar pistas para o futuro. Na edição de dia 13 a revista publicava um artigo do historiador Francis Fukuyama, «The Fall of America Inc» (pode ser visto em http://www.newsweek.com/id/162401 ), que analisava o que ao longo dos anos levou à situação actual, em que uma certa forma de capitalismo colapsou. Será possível restaurar a confiança na marca «América»? - pergunta Fukuyama provocatoriamente. Vale a pena ler o artigo, é absolutamente brilhante. Também imperdíveis têm sido os artigos do redactor-estrela da revista, Fareed Zakaria, cheios de dados, recordando a sucessão de factos que levaram ao colapso do sistema financeiro, mas também sugerindo soluções para ultrapassar a crise e mostrando que todas as crises têm um lado positivo.
BOATARIA – Passadas duas semanas, vale a pena lembrar que, segundo o «Expresso», a primeira referência sobre problemas «em dois pequenos bancos» terá sido criada a partir de uma declaração do Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, numa reunião com os cinco maiores bancos portugueses. O mais curioso é que na semana seguinte foi o mesmo Vítor Constâncio quem veio atacar a boataria sobre problemas na Banca portuguesa. É de mim ou isto é tudo um bocadinho esquisito?
PETISCAR – As reconciliações são sempre momentos felizes. Foi o que me aconteceu um destes dias quando me reconciliei com o Salsa e Coentros, um restaurante marcado pela gastronomia alentejana e que, há uns largos meses, me tinha desiludido no serviço, na forma como os clientes eram tratados, no ambiente geral. Passado um patamar médio da qualidade da cozinha, a forma como um restaurante recebe, a simpatia no atendimento de marcações, a forma como se processa o serviço na refeição, são tudo coisas que contam. Comer fora não é encher o bandulho, é suposto ser um momento de prazer e não um castigo ou sacrifício. Alguns restaurantes portugueses gostam de tratar os clientes como uns meros maçadores e assumem uma postura arrogante. Deste mal me queixava eu em relação ao Salsa e Coentros, mas a situação mudou e desta vez senti-me bem e comi melhor. A escolha foi uma perdiz de fricassé que estava perfeita. Roubando uma garfada ao vizinho do lado conatatei que a empada de perdiz estava igualmente boa. As batatas fritas às rodelas, finíssimas e no ponto, estavam perfeitas. Aqui está um sítio onde terei gosto em voltar. Rua Coronel Marques Leitão nº12 (perto da Avenida Rio de Janeiro, Alvalade). O telefone é o218410990.
OUVIR – David Oistrakh (1908-1974) foi um dos mais extraordinários violinistas de sempre. Por ocasião do centenário do seu nascimento a Deutsche Grammophon juntou algumas das suas gravações mais representativas, interpretações emocionantes de obras de Mendhelsson, Bruch, Prokofiev, Chausson, Ravel, Glazunov e Kabalevski, registadas entre 1948 e 1961, numa selecção cuidada de registos de origens e épocas muito diversas. A edição inclui ainda um CD extra, com gravações raras, de 1952, em que Oistrakh é acompanhado ao piano por Vladimir Yampolsky. Triplo CD «Concertos And Encores», Deutsche Grammophon.
LER – Os conflitos religiosos, a condição humana, a fé, as guerras em que os Estados Unidos se envolvem no exterior e, claro, o conflito entre a moral e o sexo, são os temas do novo livro de Philip Roth, «Indignation», a sua 29ª obra. Considerado com um dos grandes escritores contemporâneos, Roth localiza a acção em 1951, na época da Guerra da Coreia e num jovem estudante universitário, Marcus Messner, proveniente de uma família judia ortodoxa, em conflito com a religião, inadaptado no ambiente que descobre na universidade. O livro contém descrições brilhantes de lugares e de situações – à mistura com considerações e formas de ver o mundo - e desenrola-se num ambiente de crescentes conflitos, que culmina numa irreversível ruptura – com a vida. «Indignation», 233 páginas, edição Houghton Mifflin, comprado na Amazon.
BACK TO BASICS – Um político pensa apenas no seu próximo acto eleitoral, um estadista pensa na próxima geração (James Clark).
ESQUECIMENTOS
PUBLICADO NO JORNAL DE NEGÓCIOS DE 10 DE OUTUBRO
outubro 09, 2008
OS INIMIGOS DO SERVIÇO PÚBLICO
(publicado no diário Meia Hora de 8 de Outubro)
Quando os papéis de propagandista e de controlador da comunicação coexistem na mesma figura o resultado nunca é brilhante. A História está cheia de exemplos terríveis – do qual o do nazi Goebbels é o mais tristemente célebre. Mesmo algumas democracias não escapam à tentação de misturar propaganda com controlo e condicionamento da informação.
Lamentavelmente é isso que se passa em Portugal e os protagonistas são o Ministro Santos Silva e a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), que ele criou. O acréscimo de poderes que agora o Governo, pela mão do Ministro, quer dar à ERC levanta as maiores preocupações – sobretudo atendendo ao histórico desta Entidade, curto no tempo mas largo em exemplos de más práticas no relacionamento com os Media.
As recentes tomadas de posição da ERC a propósito dos comentários políticos no Serviço Público de televisão são exemplos acabados de uma actuação que conjuga interesse político (condicionar a opinião) com oportunismo partidário (em vésperas de ano eleitoral o melhor será deixar os comentários fora da RTP, sobretudo aqueles que têm maiores audiências – no caso Marcelo Rebelo de Sousa). O incidente apenas confirma a total governamentalização da ERC.
A forma como a ERC entende actuar vai no sentido de condicionar o funcionamento das Direcções de Informação e das redacções do operador de serviço público: ao critério da oportunidade editorial, ao critério do interesse noticioso, sobrepõe-se um cínico princípio de igualdade de acesso à antena por parte dos vários agentes políticos e partidários que é a mais falaciosa e enganadora forma de manipulação – torna as emissões ilegíveis e desinteressantes, privilegia os que têm meios de comunicar de outra forma e, em vez de proporcionar igualdade, agrava de facto as desigualdades.
Existe no entanto outro ponto que o método adoptado pela ERC suscita: se a informação de serviço público é para ser governada por um cronómetro, em vez de ser dirigida por critérios jornalísticos e editoriais, se quem diz o que se deve fazer é o Governo, pela mão da ERC, então mais valerá que não exista Serviço Público. Neste momento a maior ameaça ao Serviço Público de Televisão vem da forma como ele é tratado pelo Ministro Santos Silva e pela ERC. Ambos estão apostados em manipulá-lo e descredibilizá-lo.
(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Outubro)
CINISMO - Num daqueles supremos exercícios de ironia o Governo prepara-se para votar nos primeiros dias de Outubro um diploma intitulado «Lei do Pluralismo e da não concentração nos meios de comunicação social». O diploma visa - na realidade e de facto - limitar o pluralismo e, ao mesmo tempo, reforçar os poderes da Entidade Reguladora da Comunicação, cujo balanço de actividade é uma mancha negra na liberdade de imprensa em Portugal e no descarado proteccionismo às ingerências governamentais no sector (de que é exemplo o recente e caricato episódio da divulgação pública dos documentos sobre o caso da licenciatura de Sócrates, que estiveram escondidas durante meses e apenas foram reveladas depois de o «Expresso» as ter publicado) . Claro que a autoria da Lei vem das mãos do Ministro Santos Silva.
AUDIOVISUAL - A alteração progressiva da matriz de serviço público na RTP ao longo dos últimos anos, conjugada com o aumento da capacidade de produção instalada da empresa e com a grande diminuição de produção de documentários e magazines na RTP 2, teve uma consequência terrível num conjunto de pequenas empresas de produção audiovisual independentes que mantinham elevados padrões de qualidade na produção, tinham desenvolvido competências e especialização precisamente na produção de documentários e que, de uma forma geral, viram desaparecer a relação de continuidade que permitia a existência de equipas e de um «cluster» criativo específico nesta área. Por isso é importante discutir o papel do serviço público e dos operadores de televisão (através da obrigações das respectivas concessões) na criação e desenvolvimento da produção audiovisual nacional. A realidade é que sob as orientações políticas de Santos Silva em matéria de serviço público têm desaparecido produtores e a paisagem audiovisual portuguesa tem empobrecido. É aliás espantoso que, da área da Cultura, que tem a tutela do audiovisual , nada se diga sobre esta situação.
ECONOMIA- Para além deste jornal, há uma outra maneira interessante de ler economia – trata-se da revista «Portfolio», editada nos Estados Unidos pelo grupo Conde Nast. Apresentada como uma publicação de informação confidencial sobre negócios, a «Portfolio» tem de facto uma abordagem inovadora na forma como apresenta as questões – na edição de Setembro analisava a crise que a cadeia de televisão NBC estava a passar, ao mesmo tempo apontava as oito medidas que as grandes estações de televisão terão que adoptar se quiserem manter-se vivas num negócio que está a mudar a velocidade acelerada, e – entre vários outros artigos e secções interessantes - entrevistava o CEO da Renault, Carlos Ghosn. A revista encontra-se à venda em Portugal e pode ter uma ideia de como ela é no site www.portfolio.com – por acaso muito interessante na actual conjuntura de crise.
OUVIR - Sou fã de Burt Bacharach e garanto que isto não tem nada a ver com o facto de ele ter sido o pianista e maestro de eleição de Marlene Dietrich. Bacharach é um dos grandes compositores da música popular norte-americana e a sua carreira é marcada pelas canções que fez com Hal David, composições tornadas célebres pelas vozes de Dionne Warwick, os Carpenters, Tom Jones, Dusty Springfield ou Aretha Franklin. Da sua extensa lista de colaborações constam nomes como Elvis Costello ou ainda bandas sonoras de filmes como «Casino Royale». Por outro lado sou fã de Steve Tyrell porque ele tem uma vox fora de série e , sobretudo, uma capacidade de interpretação absolutamente extraordinária. De modo que quando vi um disco chamado «Back To Bacharach» assinado por Steve Tyrell, o impulso de o descobrir foi imediato. É um disco absolutamente extraordinário, com uma qualidade de interpretação musical e vocal invulgares – Tyrell trabalhou com Bacharach na produção e finalização do disco, percebe-se que este foi um projecto longamente pensado. Aqui estão temas como «Walk On By», «The Look Of Love», «What The World Needs Now», «I Say A Little Prayer For You», «Always Something There To Remind Me» e «Raindrops Keep Falling On My Head», entre outros. CD Koch Records, disponível na Amazon.
VER - Na rua da Boavista 84, ao Cais de Sodré, fica a Transboavista, um edifício dedicado à arte contemporânea e que engloba três espaços de características diferentes. A VPF Cream art gallery é destinada a nomes já com obra produzida e reconhecida e apresenta novos trabalhos de Ana Cardoso sob o título «Sans Image». Na Rock Gallery, destinada a mostrar o trabalho de novos artistas, está Cristina Robalo e na Plataforma Revólver, um espaço mais experimental, está uma colectiva, comissariada por Luísa Especial e que inclui obras de Ana Telhado, Catarina Patrício, Eduardo Guerra, Jorge Siganier Castro, Pedro Vaz e Rita Sá.
COMER - Um daqueles locais de Lisboa a que apetece sempre voltar é o «La Moneda». Eu, que o costumava geralmente frequentar á hora de almoço, tive há pouco tempo um jantar de um grupo de amigos – numeroso grupo de amigos – e a coisa correu absolutamente sobre rodas, em termos de serviço e de qualidade da comida. Não é fácil cozinhar bem para um grupo grande mas o «La Moneda» sai-se bem do desafio, sob a batuta do seu dono, o chileno Leo Guzman que dirige as operações na cozinha – sempre com novas surpresas – o menu está longe de ser uma coisa estática, o que é mais uma razão para lá voltar. Fica na Rua da Moeda 1C, à Praça D. Luís, telefone 21 390 8012.
BACK TO BASICS – Na América o sexo é uma obsessão, no resto do mundo é apenas uma coisa que acontece – Marlene Dietrich
UM SONO TRANQUILO
(Publicado no diário «Meia Hora»)
Ele há dias em que até me apetecia simpatizar com o Governo. No início pensei que Sócrates teria uma genuína intenção reformista, mas ao longo destes anos fui perdendo as ilusões. Cada vez que uma crise grave sobreveio e a dureza das reformas propostas provocou desgaste na opinião publica, Sócrates resolveu o problema livrando-se das políticas e, se necessário, dos membros dos governo que se propunham executá-las. Correia de Campos, como bem recentemente confirmou, foi vencido pelo desgaste dos protestos. Mário Lino, que e um animal político, percebeu a tempo que mais valia engolir todas as patacuadas que disse sobre a inevitabilidade da Ota para assumir a opção que ele próprio classificou de impossivel, Alcochete. Mas o que interessa, no fundo, é a falta de determinação de Sócrates em manter-se solidário com políticas quando elas ameaçam os votos que sao o seu oxigénio. No recente comício de Guimarães percebeu-se que daqui até às eleições o que interessa é conseguir segurar votos.
O mais curioso neste cenário é que a decisão de voltar atrás nas reformas mais complicadas se deu um ambiente de maioria absoluta, com uma assembleia domesticada e uma oposição esfrangalhada e paralisada. Mesmo assim em vários sectores fundamentais as coisas ficaram por metade - saúde e educação - e noutros nem isso - como acontece de forma gritante na Justica, porventura o mais ineficaz de todos os Ministérios do Governo de Sócrates. É verdade que a modernização administrativa - e os vários derivados do simplex - avançou e hoje ,numa série de áreas, a vida é mais fácil. Mas as melhorias verificadas neste sector são, por exemplo, apagadas pelos abusos e excessos contra os cidadãos no gritante caso das Finanças, com os automatismos das punições fiscais a deixarem muita gente revoltada. Feitas as contas não é certo que este Governo tenha na sua matriz o respeito pelos direitos dos cidadãos.
Com eleições a um ano e com as propbabilidades de voltar a obter a maioria absoluta bastante ameaçadas, Sócrates encontra-se num dilema: não pode continuar a alimentar polémicas, vai precisar de muitas cedências para manter Manuel Alegre sossegado e tudo isso, por outro lado, vai fazer a erosão do centro direita que acreditou nele nas ultimas eleições.
Se com maioria absoluta o resultado está a ser o que se viu, sem maioria absoluta Sócrates arrisca-se a ser uma caricatura de si próprio e, pior que isso, o futuro nao augura nada de bom em termos de governação. Se a oposicao existisse e desse conta do que pretende fazer, esta podia ser uma ocasião de ouro. Mas como a oposição anda enredada em mostrar como tem um sono tranquilo, quer me bem parecer que temos pela frente um longo período de oportunidades perdidas, de reformas metidas no saco e de progresso adiado.
Publicado no Jornal de Negócios
ADIVINHOS - A recente crise dos bancos de investimento chamou a atenção para as recomendações feitas por analistas com muito pouca experiência, que acabaram por jogar um papel determinante no aconselhamento dos investidores, na criação de expectativas e no semear de ilusões No mercado português assisti, ao longo dos últimos anos, a recomendações feitas por analistas financeiros sobre empresas de media cuja ligeireza – e ignorância - eram de estarrecer. Alguns, mais atrevidos, chegavam a opinar sobre grelhas de programas de estações de televisão ainda antes de elas serem estreadas, projectando rentabilidades sobre formatos que nunca tinham sido testados. A ignorância é geralmente má conselheira, mas quando ainda por cima é arrogante, como foi muitas vezes o caso desses analistas, o resultado só pode ser desastroso. Quem lhes deu ouvidos não se pode vir queixar agora: qualquer especialista lhes poderia ter dito em que pontos as análises eram incorrectas. Só que preferiram adivinhos e vendedores de promessas vestidos de analistas a especialistas - e o resultado está à vista.
LISBOA- A corrida às autárquicas em Lisboa já vai mexendo. Alguém destapou a panela das cedências de habitações camarárias, sem se lembrar que o assunto queima muito mais o partido que mais anos esteve no poder em Lisboa, e que foi o PS – aliás é curioso que ninguém faça um trabalho sério sobre as consequências e culpas da gestão socialista de Jorge Sampaio e de João Soares no deficit geral da autarquia, na sua má situação financeira e também nas corruptelas instaladas.
CAFÉ – Na proximidade da abertura da Starbucks em Portugal, deixo aqui dito que cada vez gosto mais do velho comércio tradicional que funciona bem. Gosto da qualidade, delicadeza e preço do meu velho café de esquina, do atendimento sabedor do livreiro aqui da rua – em contraste com cadeias mais baseadas no marketing que na qualidade e com muito pouca atenção aos interesses dos consumidores.
DESAPARECIDO - Por estes dias dou comigo a apensar onde andará o célebre Tratado de Lisboa, essa peça de força da diplomacia socrática – esse enorme triunfo propagandístico que ocupou páginas e páginas de jornal há um ano atrás. O tratado não está em vigor, deixou de se ouvir falar dele, apesar de ter sido dado como facto consumado. O que é facto é que, de peça fundamental e necessária sem a qual nada se faria, se passou para o extremo oposto de ser uma recordação de um falhanço de que ninguém quer falar. O tratado de Lisboa parece desaparecido, onde está?
OUVIR - Em 1972, em Berlim, uma extraordinária reunião de talentos criou aquela que por muitos é ainda considerada como a melhor gravação de sempre da ópera «La Bohème». Herbert Von Karajan dirigiu a Orquestra Filarmónica de Berlim e um naipe de vozes extraordinárias: Mirella Freni, Luciano Pavarotti, Elizabeth Harwood, Rolando Panerai, Gianni Maffeo e Nicolai Ghiaurov, entre outros. «La Bohème», uma das mais populares óperas de sempre, foi escrita por Giacomo Puccini em 1896, no início da fase mais brilhante da sua carreira. De entre as gravações feitas ao longo dos anos, os críticos são unânimes em destacar duas – uma dirigida por Sir Thomas Beecham em 1956 e outra, este registo berlinense dirigido por Karajan e editado pela Decca . Por ocasião das celebrações do centésimo aniversário do nascimento de Karajan, a Decca promoveu uma reedição, magnífica, agora à venda, que inclui a transcrição integral do libretto e uma série de textos sobre a gravação e sobre todos os seus intervenientes, para além de um disco extra com o registo de uma divertida conversa de Mirella Freni com Catherine Bott.
A gravação original foi remasterizada digitalmente a 24 bits. Edição Decca, distribuição Universal Music.
LER - A edição deste mês da revista «Vanity Fair» celebra o 25º aniversário desta segunda fase da revista, iniciada em 1983. A «Vanity Fair» tinha tido uma vida anterior, com início em 1913, e que acompanhou o nascer o jazz e do cinema. A segunda fase, dos anos 80, acompanhou as carreiras de nomes como Madonna e Demi Moore – algumas das caras mais presentes nas 309 capas desta fase da revista e que são todas reproduzidas neste número de Outubro – cuja capa é dedicada a Marilyn Monroe e a uma nova investigação aos últimos tempos da sua vida, com novos documentos e fotografias. Outros pontos de interesse nesta edição são o habitual «Questionário de Proust», desta vez respondido por Michael Bloomberg. Uma conversa com a fotógrafa Annie Leibowitz sobre o seu método de trabalho e uma bela entrevista a Rupert Murdoch são ainda outros pontos altos. No entretanto deliciem-se com o site da edição inglesa, www.vanityfair.co.uk ou da edição americana www.vanityfair.com
VER – Uma das mais marcantes exposições que me foi dado ver abriu esta semana em Lisboa na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa (Edifício de Espanha, Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º, no Bairro de Santos). A exposição chama-se «Aquilo sou eu» e agrupa obras da vasta colecção de Safira e Luis Serpa, centrada em auto-retratos de artistas contemporânos portugueses e estrangeiros. As peças expostas resultam de um desafio feito em tempos para que os artistas se retratassem a eles próprios independentemente do suporte e da forma como o fizessem. O resultado é impressionante de diversidade, cativante pela relação de cumplicidade e proximidade que o casal de coleccionadores manteve com os artistas. A exposição estava programada e a ser preparada há meses, mas o facto de ter surgido após a morte de Safira Serpa dá-lhe uma carga emocional e simbólica invulgares – uma homenagem a uma forma muito especial e delicada de estar na vida. A exposição pode ser vista às 4ªas, 5ªas e 6ªas entre as 14 e as 20 horas e aos sábados entre as 14 e as 19 horas.
BACK TO BASICS – Hollywood é o local onde nos pagam mil dólares para terem um beijo e cinquenta cêntimos para ficarem com a alma – Marylin Monroe.
UMA ENTIDADE OBEDIENTE
(publicado no diário «Meia Hora»)
Neste ultimo fim-de-semana soube-se que a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) colocou entraves ao acesso à documentação sobre a investigação às tentativas de pressão do Primeiro-Ministro a vários orgãos de comunicação, no caso da conclusão da licenciatura de José Sócrates.
Sabe-se agora – segundo o «Expresso» noticiou - que o relatório que sobre este assunto a ERC elaborou minimiza todos os depoimentos e dados que indicavam a existência de pressões do Gabinete do Primeiro Ministro, e do próprio José Sócrates, para tentar impedir o surgimento de notícias sobre a licenciatura que obteve na Universidade Independente.
A ERC entendeu há cerca de um ano que devia arquivar o caso, apenas com um voto contra, dando assim provimento à tese Governamental que não teriam existido pressões. Sabe-se agora que os membros da ERC trocaram entre si «insultos, ameaças e intimidações» a propósito do relatório, e, em especial, da possibilidade de chamar o Primeiro-Ministro a depor. Sabe-se que essa extraordinária figura da política à portuguesa, chamada Estrela Serrano, e que integra a ERC, achou por bem dizer a jornalistas que noutros países é pior e recomendar aos seus pares que o Primeiro Ministro deve ser respeitado. Ora eu acho que, na realidade, a ideia subjacente é que o Primeiro Ministro não deveria ser incomodado com estas questões de estar a fomentar o condicionamento da informação. Isto é de uma enorme gravidade: quando se fala de respeito a altas individualidades num caso em que a liberdade de imprensa é posta em causa por elas próprias, estamos perante a mais indigna das posições – quem pensa assim não pode estar num órgão regulador.
Com este relatório e tudo o que sobre ele agora se conhece, esta ERC perdeu os últimos laivos de credibilidade que tinha. A composição desta entidade foi cozinhada nos corredores da Assembleia pelo fatídico Bloco Central em depois de tudo o que agora se sabe, os membros do Conselho da ERC deviam ter a dignidade de se demitirem.
Cada regime tem os órgãos que merece e a Entidade Reguladora da Comunicação é bem o exemplo do que vai mal na actividade política, do primado da ocultação dos podres sobre a divulgação da verdade, de nomeações de conveniência e não de competência, de transferência da guerrilha partidária para órgãos que deviam ser reguladores. Sócrates gosta de ser obedecido. A ERC tem-lhe obedecido.
setembro 21, 2008
(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Setembro)
EXACTO - Não resisto a começar esta coluna por citar um «post» de Manuel João Ramos no blog «O Carmo E A Trindade»: «Que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade é quase um golpe de estado.»
ABUSO - Acho um bocado aborrecido que o Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa se ponha a escrever artigos de opinião contra uma das religiões. Foi o que se passou esta semana com Mário Soares que resolveu lançar-se em vôo picado contra o Papa. Talvez valesse a pena Soares rever as posições que ocupa – o seu passado não justifica nem desculpa tudo. E eu, que não sou católico, acho incompreensível este tipo de comportamento.
CONCERTO - Parece que esta semana está na moda dizer mal de Madonna. Pois eu gostei do concerto de Madonna, tal como gosto de Madonna propriamente dita. Foi uma produção monumental, uma máquina absolutamente impressionante de fazer espectáculo. Arranjos novos de velhas canções – a maior parte bem conseguida – coreografias e cenografias impecáveis, o toque da aventura cigana particularmente bem conseguida, quer a nível musical, quer no guarda roupa, quer na forma de encher o palco. Claro que um concerto ao ar livre não é visto por todos em condições ideais, mas isso é o risco de quem quer ver produções desta natureza.
RISO - Os dias começam melhor quando se ouve Bruno Nogueira logo de manhã na TSF – por volta das nove e vinte lá vem o «Tubo de Ensaio», que depois é repetido duas vezes à tarde. Também pode ser ouvido no site da TSF, e ali vale tudo, desde ouvir chamar «McGyver dos comentários a Moita Flores», até uma descrição impagável do novo cabelo de Nuno Rogeiro. Para além do trabalho de Bruno Nogueira, é justo destacar os textos de João Quadros. Humor no seu melhor.
MÚSICA- Stefano Bollani é um pianista de jazz italiano que tem dedicado boa parte da sua carreira a interpretações baseadas em standards da música popular brasileira. «Carioca» é o seu mais recentre disco, e inclui versões muito cool e swingantes de temas como «Luz Negra», «Choro Sim», «Segura Ele», «Valsa Brasileira», «Doce de Coco», «Folhas Secas» ou «Samba e Amor» entre outros. Neste disco Bollani privilegiou o samba e o choro, mas numa gravação anterior, «Falando de Amor» dedicou-se à obra de António Carlos Jobim. Neste «Carioca» é acompanhado por bons músicos brasileiros sobre este reportório tão rico de autores como Edu Lobo, Chico Buarque, Pixinguinha, Jacob do Bandolim ou Ismael Silva, entre outros. O risco de fazer um disco insuportável neste cruzamento entre jazz e samba e choro era grande – mas «Carioca» é uma obra conseguida, com um ritmo contagiante. CD Emarcy/ Universal.
LEITURA - Na revista «Monocle» deste mês a Europa é tema em destaque – a começar pela análise implacável que um investigador, Richard G. Whitman, faz sobre a construção européia, com observações impressionantes sobre o que está a falhar e a acabar um pouco mais à frente uma análise das razões que levaram três países a situações difíceis – o Reino Unido, a Itália e a Bélgica. No resto da edição há muito que ler e ver – um belo portfólio sobre cinema mexicano e produções de moda de rara qualidade. A «Monocle» de facto é um objecto invulgar, um manancial de curiosidades, de chamadas de atenção, de pequenas descobertas que ajudam a perceber melhor o que se passa à nossa volta. No editorial deste mês o fundador da revista, Tyler Brûlé, analisa o que pode melhorar a vida de uma comunidade e chega a conclusões que são simples, universais e de bom senso: maior atenção à proximidade, salvaguarda da individualidade e da tradição, boa rede de comunicações, bom comércio local que faça a diferença das redes multinacionais iguais em todo o sítio e boas ligações e transportes. Eu por mim concorco – antes uma bica e uma empada no café da esquina onde o empregado é simpático e atencioso que um folhado sofisticado e sensaborão numa loja da moda com empregados arrogantes e ineficientes.
IMAGEM - Vou ver se nos próximos dias consigo ver três exposições de fotografia que me suscitam curiosidade: imagens de Moçambique por Sérgio Santimano na P4 (Rua dos Navegantes 16) – amanhã há uma conversa entre o fotógrafo e o crítico de arte Alexandre Pomar na galeria às 18h00; as imagens de Rodrigo Amado sob o título «Searching For Adam» na Módulo, Calçada dos Mestres 34ª, a Campolide; e imagens de Carlos Afonso Dias realizadas entre 1956 e 2008 na Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes nº10, ao Jardim das Amoreiras.
COMIDA - Situado em plena esquina da Rua Latino Coelho com a Rua Filipe Folque, fica o restaurante Latino. Sala espaçosa, num prédio de gaveto, com boa luz natural e mesas espaçosas e muito confortáveis. A cozinha é inspirada na culinária portuguesa, produtos tradicionais de muito boa qualidade, da alheira ao peixe fresco. Em duas ocasiões recentes experiências muito positivas com fígado de vitela absolutamente no ponto e um bacalhau com grão impecável e com tudo o que a tradição manda. Garrafeira a preços decentes, muito bom cesto de pão. Rua Latino Coelho 18, tel 213141897.
BACK TO BASICS – Pobre do homem cujo prazer depende da autorização de outro, Madonna
UMA INEVITÁVEL REMODELAÇÃO
(Publicado no diário Meia Hora do dia 17 nde Setembro)
O maior problema de José Sócrates nestes dias que correm chama-se Costa. Não António Costa, a quem o Primeiro Ministro deu o presente envenenado da Câmara de Lisboa e que para o ano terá nas eleições autárquicas uma difícil prova perante as dificuldades em federar a esquerda. O grande problema de Sócrates chama-se Alberto Costa e está a afectá-lo onde mais dói, o terreno do descontentamento dos eleitores cujo combustível é a sensação de que o crime deixou de ser punido.
Uma boa parte das embrulhadas dos últimos meses deve-se à forma como foi feita e introduzida a reforma do código penal. É certo que a Justiça é um sector em crise há anos e que funciona mal. Mas também é facto que as coisas pioraram substancialmente no consulado deste Ministro.
Não estou a falar só das questões directamente ligadas às polémicas em torno das novas normas que regulam a prisão preventiva – a crise vai mais funda, passa por falta de condições em tribunais, em rupturas de equipamentos, um não acabar de queixas de juízes, funcionários, e, mais importante, dos cidadãos.
Em declarações recentes o Procurador Geral da República, Pinto Monteiro, comentando de forma indirecta a questão das alterações à lei que reduzem a prisão preventiva, disse a frase mais terrível de todas: «Os primeiros a saber os efeitos das leis são os cidadãos». É um recado claro, que tem uma carga enorme, que é a de focar o assunto na realidade e não no plano teórico. E é precisamente a realidade que o Ministro Alberto Costa tem procurado evitar, refugiando-se em conceitos dúbios e numa postura de teimosia que releva incapacidade de compreender o que se está a passar, dificuldade em reconhecer um erro e necessidade de o corrigir.
A coisa é de tal forma que na última semana várias figuras próximas do PS se demarcaram da forma com que Alberto Costa encara toda a situação e houve mesmo quem dissesse, preto no branco, que ele tinha pouco jeito para ser Ministro – e não foi ninguém da oposição (que continua em retiro espiritual…)
Uma remodelação parece ser inevitável - é uma questão de escolher o momento que evite mais penalizações e que consiga encontrar uma saída airosa. A um ano de eleições todas as jogadas são perigosas, mas, da forma como Alberto Costa se isolou, os custos de o manter são maiores que os de o substituir.
setembro 16, 2008
PARA QUE SERVEM OS POLÍTICOS?
Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Setembro
RUÍDO - No PS existe um trio – Santos Silva, Vitalino Canas e António Vitorino – que serve de tropa de ataque verbal. São os altilfalantes de serviço quando é preciso justificar o injustificável. Um deles – Santos Silva - por acaso, tem a tutela da comunicação social e já se sabe que este Governo tem uma política de comunicação invulgarmente bem conseguida. É um pouco paradoxal que dois dos elementos deste trio de picaretas falantes tenham lugar de destaque numa iniciativa que se pretende fazer passar por «think tank». Colocar propagandistas à frente de um grupo de reflexão só serve que de lá surja mais propaganda e menos pensamento.
SILÊNCIO - Num esforço de compreender a estratégia do silêncio, esperei por ouvir o discurso de Manuela Ferreira Leite. Foi um bom discurso, um diagnóstico certo do estado do país, uma crítica ao que merece ser criticado. O único problema, depois de dois meses de silêncio, é que o discurso, mais coisa menos coisa, repetiu o mesmo que a líder do PSD tinha dito há umas semanas atrás numa entrevista na TVI a Constança Cunha e Sá. E, no fim do silêncio, impunha-se alguma novidade. Em vez disso veio a repetição. Esta falta de novidade apenas serve para reforçar as dúvidas sobre a bondade – e verdadeiras razões - da estratégia do silêncio.
LISBOA- À falta de fazer obra e de mudar a cidade, António Costa opta por fazer alianças que lhe permitam semear apoios para as próximas eleições. A negociação com Helena Roseta é mais um caso de hipocrisia política – de ambas as partes. Particularmente desagradável é que o mesmo executivo camarário que acabou com o África Festival venha agora cobrir o novo acordo com umas iniciativas em prol da multiculturalidade.
TRIBUNAL - Esta semana foi pródiga em notícias judiciais e a única conclusão que se pode tirar é que, qualquer dia, se começa a poder dizer que com tribunais destes o crime compensa. O que é certo é que um ex-detido já tem uma indemnização mas as vítimas do mesmo processo ainda não.
TV - A pouco tempo do início do processo sobre o quinto canal de televisão convém ter presente o papel que ele pode ter, em termos estratégicos, para a reorganização do espaço audiovisual e para a manutenção e desenvolvimento de uma indústria audiovisual falada em português. Há uns anos a SIC e a TVI deram um impulso à produção independente que, durante anos, a RTP não conseguiu dar. À escala, o quinto canal pode e deve potenciar o que já existe - desde que haja vontade para isso. Não ter isto em conta pode ser fatal para a consolidação da produção audiovisual portuguesa.
LEILÃO - Damien Hirst é um artista plástico que se comporta como uma estrela rock – citando a capa da «Time» desta semana. No próximo dia 15 Hirst prepara-se para fazer história ao leiloar através da Sotheby’s um conjunto de 223 obras suas, recentes, propositadamente produzidas para a ocasião, e que se estima poderem gerar vendas de 120 milhões de euros. Será a maior venda de obras de arte de um artista contemporâneo, mas também um marco – Hirst ultrapassou os tradicionais galeristas e vende directamente através de uma leiloeira – quer dizer que em vez de dividir com o galerista, irá receber a totalidade da receita da venda (já que nos leilões o comprador paga a comissão à leiloeira por cima do preço do lance). Na realidade nos leilões os artistas raramente recebem dinheiro já que as obras não lhe pertencem – neste caso é ao contrário. Hirst fez do seu nome uma marca, geriu a sua carreira com cuidado e agora aqui está a sua produção recente, realizada com o auxílio de 120 assistentes em seis ateliers diferentes em Inglaterra. Vão ao site da Sotheby’s (www.sothebys.com), cliquem no delicioso nome da exposição de Hirst («Beautiful Inside My Head Forever») e explorem o que por lá está. Não vão dar o vosso tempo por perdido.
COMIDA - O Kaffeehaus é um simpático bar-restaurante que abriu no Chiado, mesmo em frente ao Governo Civil, na Rua Anchieta nº3. A decoração é despretenciosa mas confortável, o ambiente tem a luz certa, o serviço é muito simpático e rápido e na comida – austríaca, claro – destaque para os escalopes de porco panados com salada de batata (bons escalopes, finos, sem óleo a escorrer), o guisado vienense de vaca e um bife de novilho picado acompanhado por um bom puré de batata. Para os mais frugais também há umas saladas, parece que boas. Há vinho a copo, boa cerveja de pressão e nas sobremesas há um incontornável sachertorte, ou seja o bolo de chocolate dos cafés vienenses. Os preços são moderados. Fecha à segunda e o telefone é o 210956828.
ESCUTA – Para quem gosta de blues e de jazz aqui fica uma recomendação: corram a ouvir «Two Men With The Blues», um delicioso encontro entre o trompetista Wynton Marsalis e o country singer Willie Nelson, os dois às voltas com standards como «Stardust», «Geórgia On My Mind», «Rainy Day Blues» ou «Bright Lights Big City».
LEITURA - De entre as revistas recentes surgidas em Portugal há uma que merece destaque, a «Parq», que se apresenta como revista gratuita de moda e cultura urbana. A frase corresponde à realidade, os artigos são interessantes, o grafismo e a fotografia são exemplares., nesta edição número 6, de Setembro, recomendo o portfólio «Angola Luso», o artigo sobre a fotógrafa Olivia Arthur e sobretudo a pequena história da última página, começada numa operação STOP. Mais informações sobre a revista em www.parqmag.com .
BACK TO BASICS – A realidade supera sempre a ficção, Mark Twain.
setembro 03, 2008
O SILÊNCIO
(publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Setembro)
Estamos a meses do início de um novo ciclo eleitoral, que vai ser já ali ao virar da porta. Em 2009 sucedem-se eleições europeias, autárquicas e legislativas e a verdade é que o panorama político está confuso. À direita PP e PSD têm crises internas de diferentes matizes e não souberam aproveitar estes três anos do ciclo do PS no poder para se reorganizarem, para definirem estratégias, para produzirem um programa alternativo credível. Um e outro partido enredaram-se em disputas internas de poder absolutamente estéreis.
E, no entanto, a oportunidade existe: as fragilidades do PS são grandes, os resultados do Governo são discutíveis, o alcance reformista estancou, o próprio PS está dividido entre uma posição mais ao centro e outra mais à esquerda. Mais além, no espectro partidário, o PCP mantém-se igual e o Bloco de Esquerda, ao institucionalizar-se cada vez mais, perdeu o apelo romântico que lhe deu ânimo nos primeiros anos.
No meio deste cenário tão confuso, o mais provável é que os próximos 12 meses não tragam grande novidade, que fique tudo mais ou menos na mesma. A minha convicção é que, sob a ilusão da estabilidade ou a defesa da continuidade, se vai entrar numa etapa de desagregação acelerada da actividade política e partidária tal como a conhecemos. A geração que estava nas faculdades no dia 25 de Abril de 1974 está a entrar na idade da reforma e quando olha para trás não tem muito com que se orgulhar – foram demasiadas as oportunidades perdidas, sobretudo quando comparamos com o que se passou aqui mesmo ao lado, em Espanha.
Quando as eleições começam a ficar próximas, quem está no poder deixa de tomar medidas polémicas, passa a estar mais sensível à opinião pública e tem tendência a ter mais cuidado com o que diz, com o que faz e, sobretudo, com o que anuncia querer mudar. Fazer grandes mudanças em ano eleitoral pode ser bom a médio-longo prazo, mas nunca é bom para quem quer assegurar maiorias. Vamos entrar oficialmente no ano de todas as promessas. Preparem-se – o que ainda não se fez, tão cedo não se fará. Vivemos num país adiado por promessas eleitorais. 2008, como se está a ver, é o ano de todos os silêncios – apenas a tradução do enorme vazio que nos cerca.
agosto 31, 2008
Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Agosto
COMUNICAR – O PSD está em vias de deixar de ser um partido político para se tornar num fórum de discussão sobre como comunicar. Como bem refere Luís Paixão Martins no seu blog (lpm.blogs.sapo.pt), «é a comunicação quem organiza a nossa sociedade» e não se pode fugir a isso. Com a devida vénia aqui fica uma citação mais alongada, não seria fácil dizer melhor sobre o tema: « a base eleitoral de um partido político, dos activistas mais fundamentais aos votantes menos firmes, é uma comunidade que precisa de estar permanentemente a ser conduzida pela Comunicação. O que pensa hoje o eleitorado potencial do PSD, incluindo os seus principais activistas, sobre os temas “políticos” das últimas semanas? Quem lhe deu os argumentos para formar um pensamento coerente e dinâmico? Que racional é que ele tem para estruturar uma ideia de alternativa às políticas do Governo (que são devidamente comunicadas)? ». A contenção comunicacional, como LPM afirma, na realidade está a dificultar a criação do “cimento” interno que o PSD precisa para se manter. No meio de tudo isto o que mais me custa é assistir à transformação da política numa mera sucessão de auditorias e de «due dilligencies», rigorosa e desapaixonadamente feitas e apresentadas, em vez de uma actividade de criação de estratégias e tácticas alternativas.
SEGURANÇA – No caso da proliferação de acções de crime violento nos últimos tempos acho que é injusto assacar as responsabilidades em exclusivo à actuação do Ministério da Administração Interna. Uma boa parte da culpa e uma grande parte das causas deve ser procurada na actuação do Ministério da Justiça e do sistema judicial em geral, que repetidamente criou ao longo dos anos a noção da impunidade, da suavidade das punições, que tornou vulgar que detidos em flagrante delito fossem soltos no dia a seguir, ou ainda a criação de reformas legislativas que não conseguem ser eficazes no objectivo de combater a criminalidade. E sobre isto tudo muito estranho o silêncio do Ministro da Justiça e do Primeiro Ministro.
METRO – O Metropolitano de Lisboa está muito contente por ter melhorado os seus resultados operacionais em 2007. Eu, que habito e trabalho em Lisboa, não consigo compreender a impunidade com que o Metropolitano não cumpre prazos das obras e não tem o menor respeito por quem anda na cidade. No prolongamento da linha vermelha a zona do Saldanha a S. Sebastião está completamente esventrada há anos. Depois de várias actualizações de prazo, a placa das obras dizia que elas ficariam concluídas no segundo trimestre de 2008. Vamos quase no fim do terceiro trimestre e tudo continua na mesma. Pior: não há actualização de informação, não há respeito pelos lisboetas, não há decência. A Câmara Municipal de Lisboa não pode multar o Metropolitano pelos transtornos que ele causa?
METRO – No site do Metropolitano de Lisboa existe uma grande lenga-lenga sobre o apego da empresa às artes, apresentando um programa de acções culturais nas estações. O site esquece-se de referir as acções que de facto marcam a actuação da empresa nas estações, como a destruição dos painéis de azulejos originais de Maria Keil, feitos na década de 60. Face à destruição foi colocada a questão de saber se seria devida indemnização à autora. Pois a decisão do Metropolitano foi a de que não havia lugar a indemnização porque a autora tinha oferecido a obra, não tendo sido por ela remunerada. É de mim, ou o mundo está ao contrário? O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa não quererá instruir o seu representante na Administração do Metropolitano para que estas coisas não aconteçam, ou António Costa prefere esquecer o assunto?
RENOVÁVEIS – Imprescindível a leitura do artigo de Nigel Lawson na edição da revista «Time», intitulado «What´s Green And Goes Pop?». A ideia geral é que depois da explosão da bolha da internet e da explosão da bolha do crédito subprime, a próxima bolha a explodir será a dos investimentos nas energias renováveis. Lawson explica como os subsídios governamentais estão a distorcer a paisagem do investimento em energias renováveis, questiona uma série de decisões e práticas, da União Europeia por exemplo, e desmistifica algumas crenças comuns sobre o aquecimento global e a exequibilidade do protocolo de Kyoto. Vale a pena ler e meditar, digitem o nome do autor ou do artigo no site da «Time» (www.time.com ) e chegarão lá com facilidade.
MAGNOLIA – Em tempos habituei-me a frequentar um restaurante deste nome perto do Campo Pequeno. O restaurante cresceu para uma mini-cadeia de lojas e abriu há pouco tempo uma delas nas Avenidas Novas. Em duas visitas tive duas decepções: em primeiro lugar no serviço, quer ao balcão, quer na sala – porque é estes restaurantes desprezam o serviço? E depois na confecção e qualidade da comida, nas duas ocasiões, me pareceu bem pouco aliciante. Vou dar ao caso o benefício da dúvida mas no entretanto sugiro aos responsáveis do Magnólia que provem, ali bem perto, os pastéis de massa tenra da Pastelaria Sá, na esquina da Miguel Bombarda com a Conde de Valbom, para perceberem como as coisas devem ser feitas. E já agora, passem a ter Água das Pedras em vez das outras que propõem em alternativa, é irritante limitar as escolhas aos consumidores, sobretudo quando não é para melhor.
OUVIR – A banda sonora da semana é mais um disco da colecção «Verve Originals», desta feita «The Ramsey Lewis Trio At The Bohemian Caverns». Gravado nesse bar de Washington em Junho de 1964, este disco inclui, logo a abrir, um medley extraordinário de temas de «West Side Story» e depois versões fantásticas como a que é apresentada de «Fly Me To The Moon».
BACK TO BASICS – O silêncio alimenta-se a ele próprio e quanto mais tempo fôr mantido, mais difícil se torna encontrar alguma coisa para dizer – Samuel Johnson
agosto 24, 2008
Publicado no Jornal de Negócios de 22 de Agosto
A NOVA CORRUPÇÃO – Nos últimos tempos tem-se assistido ao surgimento de uma nova corrupção, que não tem a ver nem com vantagens pecuniárias, mas sim com vantagens políticas, poder e um recorrente espírito messiânico (o caminho da razão, a certeza de bem fazer, os detentores da verdade, os que só querem o bem do próximo desde que feito por eles). O maior exemplo deste espírito de corrupção política e ideológica está na Câmara Municipal de Lisboa e é personificado por José Sá Fernandes. Eleito pelo Bloco de Esquerda, foi-se distanciado da força que o elegeu com o também messiânico slogan «O Zé faz falta». Nos últimos tempos a sua posição confunde-se com a do PS e ele pouco mais é que um alter ego de António Costa- sempre em nome do bem colectivo. Esta forma de estar na política, ziguezagueando, é uma nova forma de corrupção do sistema, de total desrespeito pelos eleitores e de uma nova forma de demagogia e de populismo tão perigosa como todas as outras.
AS EXPLOSÕES – Sucedem-se as explosões nos bairros sociais da periferia das grandes cidades. O fenómeno não é novo nem nacional, existe um pouco por todo o mundo mas seria bom que, aqui, os responsáveis pelo que foi feito e os actuais responsáveis analisassem as causas e estudassem medidas. A «reinserção social» defendida pelas almas cândidas em meados dos anos 80 e princípios dos anos 90 tornou-se num barril de pólvora com rastilho curto. Ao longo dos anos o Estado, as polícias e as autoridades diversas deram sucessivos sinais de impunidade e de alheamento de tudo isto. Retomar capacidade de dissuasão, voltar a garantir segurança e conseguir exercer autoridade não vai ser tarefa fácil e, sobretudo, não se conseguirá concretizar apenas com palavras – este é o outro lado, mais fundo e perigoso, da crise do sistema judicial português.
POLÍCIA – Há semanas a polícia e os bombeiros foram chamados, por amigos e familiares, para arrombarem uma casa onde residia um casal de idosos que há dias não dava sinais de si. Uma vez dentro de casa depararam-se com um cenário de horror e destruição, com ambos os idosos com sinais de agressão e maus tratos, necessitando os dois de cuidados hospitalares. Pois a polícia, presente no local, não recolheu provas, não procurou indícios, não isolou o local, não abriu uma investigação. Limitou-se a fazer figura de corpo presente para a abertura da porta e fechou os olhos à realidade à sua frente. Será isto uma coisa normal?
AS FÉRIAS – O Primeiro Ministro foi a banhos depois de ter anunciado como exclusivo do seu Governo uma coisa que afinal que já existia há meses em vários países (o computador Magalhães que é o Classmate concebido pela Intel para os países do terceiro mundo). No regresso de férias anuncia como grande triunfo a criação de um call center da PT na zona de Santo Tirso, mas as duas centrais sindicais lançam críticas à política de emprego do Governo. Pior que isso, é brindado com uma declaração do seu amigo Hugo Chávez, que publicamente anuncia ao mundo que Sócrates lhe garantiu em Lisboa que a economia portuguesa estava estagnada. Pior ainda, tudo indica que não vai conseguir fazer a propaganda que desejaria em torno dos resultados portugueses nos Jogos Olímpicos.
CULTURA -. Da maneira que este Governo tem funcionado, mais vale repensar a existência, em próximos executivos, de um Ministério da Cultura. Falta de peso político, falta de estratégia e decisão, perca de iniciativa para a área da Economia e Turismo, paralisia das instituições, ausência de projecto, actividade residual. Para que serve manter uma máquina assim?
PETISCAR – Delicados filetes de linguado com açorda (fritos no ponto), amêijoas fresquíssimas, azeitonas excepcionalmente bem temperadas e, a rematar, a melhor talhada de melão do ano. Onde se passa tudo isto? No restaurante Rosita, na Estrada Nacional 10, na esquina com a estrada que liga a Brejos de Azeitão. Em cima sala para não fumadores, em baixo sala para cigarros. Fecha à quinta, ementa variada – picanha muito bem fatiada é uma alternativa para os carnívoros. Telefone 212 189 133.
LER – Um dos meus livros destas férias tem sido «Tóquio Ano Zero» de David Pearce, um «thriller» passado no Japão, em Tóquio, logo a seguir ao fim da Segunda Grande Guerra. Investigações sobre violações e assassinatos de jovens raparigas cruzam-se com o renascer do crime organizado, com a perseguição às autoridades do período da guerra, com a miséria que alastra pelo país. É um retrato pouco conhecido no ocidente, a miséria a conviver com o sexo, o cruzamento da investigação policial com as tradições e convenções milenares de uma sociedade em clara ruptura. Na origem a história, real, de um serial killer, Kodaira Yoshio, e do detective Minami que tenta deslindar os mistérios envoltos em jogos de poder. A escrita de Pearce é além disso notável, com um sentido rítmico perturbante e envolvente, por vezes a sugerir poesia no meio das mais complexas situações. Nota positiva para a boa tradução, de Rita Graña, para a editora «Tinta da China».
OUVIR – Esta semana destaco mais um disco da fabulosa colecção «Verve Originals» distribuída por cá no início do Verão. É uma gravação ao vivo, protagonizada por B.B. King e foi feita no Apollo Theatre em 10 de Novembro de 1990, com King a ser acompanhado pelo pianista Gene Harris e a Philip Morris Super Band, recheada de grandes músicos. É um disco de blues absolutamente imperdível, que abre com a versão de BB King para um original dos U2, «When Love Comes To Town» e passa por temas clássicos como «The Thrill Is Gone», «Sweet Sixteen» e «Since I Met You». CD «BB King Live At The Apollo», Verve Originals, Universal Music.
BACK TO BASICS –Oitenta por cento do segredo do êxito reside em aparecer o mais possível – Woody Aleen.
agosto 16, 2008
Publicado no Jornal de Negódios de 14 de Agosto
PSD – Até posso compreender que Manuela Ferreira Leite se queira distanciar do folclore dos comícios de Chão da Lagoa ou do Pontal; o que já me custa a perceber é que se queira distanciar de qualquer forma de pronunciamento político e que tenha decidido fechar para férias – o site do PSD não é actualizado desde o fim de Julho. A política tem rituais, os partidos têm rituais e a política é feita com uma boa dose de razão e uma boa dose de emoção. Se um dos ingredientes falha, fica o cozinhado estragado.
EXEMPLO – Jorge Nunes é o Presidente da Câmara de Bragança, eleito pelo PSD. Nesta década investiu 22 milhões de euros em infraestruturas, equipamentos e actividades culturais. É provavelmente o maior investimento de uma autarquia na área da cultura. Pelo caminho estabeleceu parcerias (com Serralves, por exemplo) e pôs de pé um Teatro Municipal que tem uma taxa de ocupação de 75 % e que apresenta produções actuais e diversificadas. Não conheço Jorge Nunes, mas sei que um autarca que investe assim faz mais pela criatividade, pela capacidade de atracção de quadros e pelas condições de vida do seu concelho do que os que só sabem fazer rotundas e vias rápidas. Bragança tem também um Centro de Ciência que me dizem ser exemplar. António Costa bem podia pôr os olhos nesta estratégia e nesta forma de agir, em vez de reduzir Lisboa ao vil e apagado estado em que se encontra em matéria cultural.
OLÍMPICOS – A Eurosport está a dar dez a zero à RTP na qualidade dos comentários que acompanham as suas transmissões dos jogos olímpicos. A cerimónia da abertura dos jogos, via RTP, foi um exercício de preguiça e indigência mental dos respectivos comentadores. No canal Eurosport percebeu-se que os comentadores portugueses que estavam de serviço tinham feito o trabalho de casa e não abriam a boca apenas para ocupar espaço
DELICIOSO – As publicações Serrote editam objectos tipográficos que vão de cadernos a cartões, passando por livros. São edições especialíssimas cujos temas vão desde motivos minhotos a futebolísticos, passando pela caligrafia ou tecidos estampados, para além de uma magnífica série de cartões para diversas ocasiões. A meio caminho entre o recambolesco e o saudosista, as edições Serrote marcam um espaço de imaginação que é o ideal para uma prenda surpresa. Estes deliciosos objectos completamente portugueses são feitos com os cuidados da velha arte tipográfica e estão á venda nos Estados Unidos, na Coreis do Sul, na Alemanha, no Brasil, Espanha. Bélgica, Japão, Austrália, França e Finlândia. Por cá existem em várias cidades nas boas livrarias indicadas no site www.serrote.com .
BEIRA DA ESTRADA – No Verão gosto de parar nos restaurantes e snack bares de beira da estrada que tenham camiões e motocicletas paradas à porta. Quantos mais camiões e motocicletas, maior a probabilidade de se comer bem. Nestes restaurantes é frequente que a banda sonora do jantar tenha juras de amor em forma de canção, invariavelmente transmitidas pela Romântica FM, a rádio que mais toca nestes estabelecimentos. Nestes sítios não há pretensiosismo, apenas serviço simpático e amigável, boa matéria prima, abundância e qualidade de confecção. Tudo isto se encontra em «O Retiro do Gama», que se orgulha do peixe fresco, do choco frito (às vezes também há enguias para fritar…) das amêijoas, caracóis, salada de polvo e da doçaria de inspiração conventual feita na casa. O vinho a jarro é da região e acompanha bem. O «Retiro do Gama» fica ena rua principal de Cabanas, Quinta do Anjo, Palmela, e pode ser contactado pelo 965710693. Fecha às segundas e terças.
LER – Philip Kerr é um escritor escocês de livros policiais, grande parte baseados em incidentes surgidos no pós II Grande Guerra. «The One From The Other» conta uma história com passagem pela Alemanha no início da reconstrução, pelos primórdios do Estado de Israel, e pela forma como os maus espíritos – americanos ou nazis – se podiam facilmente encontrar e entender nesses tempos. A escrita é descritiva, cinematográfica – não há-de ser por acaso que ele vendeu os direitos para cinema de cada um dos 14 livros que já escreveu. «The One From Another» começa em Berlim, em Setembro de 1937, mas é verdadeiramente em Munique, no ano de 1949, que a acção começa a ganhar forma. Eduição Quercus Fiction, 400 páginas, comprado na Amazon.
OUVIR – Terry Callier é um daqueles nomes meio esquecidos no meio do jazz norte-americano. Autor e intérprete, músico e cantor, Callier é um exemplo de grandes canções, com uma inspiração vinda dos blues, baseadas numa simplicidade tão grande como a sua beleza. No final dos anos 90 Callier foi redescoberto por alguns DJ's que passaram a integrar samples de gravações suas nas misturas que apresentavam. «Occasional Rain», o seu histórico disco de 1972, foi agora reeditado pela Verve numa colecção absolutamente fabulosoa, a que hei-de aqui voltar, a «Verve Originals». Amigo de infância de Curtis Mayfield, Callier tem voltado recentemente aos estúdios, como aconteceu este ano, ao lado dos Massive Attack. Se puderem descubram a força e o encanto das canções deste «Occasional Rain». CD Verve/ Universal.
GUERRA – O meu filho mais velho, que tem 19 anos e está de férias, telefonou-me a perguntar que guerra era esta, referindo-se à invasão da Geórgia pela Rússia. Que se responde a isto?
BACK TO BASICS – A guerra gosta de aparecer como um ladrão pela noite, Ambrose Bierce.
agosto 10, 2008
OLÍMPICOS
Quando quero ver transmissões dos Jogos Olímpicos, sempre que tenho possibilidade, escolho a Eurosport. Os comentários da RTP são muito piores e tipicamente quem está ao microfone não fez o trabalho de casa. Na Eurosport ao menos sente-se que se prepararam e que não falam apenas para encher o vazio.