novembro 03, 2008

O MAU CHEIRO DA GASOLINA NA AVENIDA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 28 de Outubro de 2008)

 

Sinceramente não consigo perceber o que pode passar pela cabeça de um Presidente da Câmara para deixar transformar a mais prestigiada e importante avenida da sua cidade num misto de stand de automóveis com uma pista de corridas.

Sinceramente não percebo nem compreendo porque é que António Costa permitiu que a Avenida da Liberdade fosse encerrada ao trânsito durante dois dias para servir de palco a uma manobra publicitária algo terceiro-mundista de uma marca de automóveis.

Sinceramente não entendo como o tão ecologista António Costa, conhecido em tempos eleitorais por correr em cima de um burro contra um Ferrari, permitiu a dose de poluição sonora e atmosférica que um motor de Fórmula Um provoca no meio de uma cidade.

Por muito que me esforce não consigo compreender de onde vem esta arrogância, este desrespeito pelos munícipes, pelos comerciantes que pagam taxas elevadas, por quem vive e trabalha na cidade. A decisão de deixar fazer o que aconteceu neste passado fim-de-semana na Avenida da Liberdade é próprio de basbaques deslumbrados e algo provincianos, que se encantam com pouco e acham que podem usar o espaço público em seu benefício, sob o pretexto de dar um bocadinho de espectáculo ao povoléu – a maior parte não votante em Lisboa, aposto. Costa deve ter-se inspirado no cheiro a gasolina que ilumina outro autarca do género, Rui Rio, que transformou as margens do Douro numa pista de corridas para aviões. Bem sei que os dois, Costa e Rio, são dados a acordos privados em matéria politiqueira, mas agora ficámos a saber que ambos partilham também do gosto em poluir as suas cidades e em abusarem do poder que têm.

Acham que a marca de automóveis que fez este dislate, francesa de origem, conseguiria fazer tamanha arruaça em Paris, nos Champs Elysées? Estão a ver isto acontecer em Londres ou Nova York nas ruas onde as lojas das marcas de prestígio se encontram?

A questão de fundo é a de saber até que ponto é legítimo deixar usar espaço público de uma cidade desta forma, que incomoda, perturba, prejudica e polui. No dia das eleições autárquicas em Lisboa lembrem-se disto - esteja Costa sózinho ou coligado.

(Já agora, estranhei que o sempre diligente José Sá Fernandes não tivesse interposto uma providência cautelar para impedir o evento).

 

Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Outubro de 2008

 


DEBATE – Aguardo com expectativa que a ERC emita as suas instruções editoriais sobre a forma como devem ser montados os debates que envolvam Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino. É que no Domingo passado, no debate em directo a propósito das eleições nos Açores, Marcelo arrasou de tal forma Vitorino que tão cedo ele não deve querer outra vez um frente a frente destes. De modo que resta à ERC regulamentar o tempo de antena de Vitorino para ele brilhar sozinho, que é como brilha melhor.

 

OPORTUNIDADE – É inegável que o Primeiro Ministro geriu com sentido de oportunidade e eficácia a resposta do Governo à situação desencadeada pela crise dos mercados financeiros. Conseguiu responder a dois níveis – por um lado com medidas imediatas para diminuir os riscos em Portugal; e, por outro, aproveitou bem o momento para lançar uma série de medidas no Orçamento de Estado do próximo ano que o vão ajudar bastante no ciclo eleitoral que aí vem. O contraste com o apagamento da oposição foi dramático. Por este andar Sócrates ganha o jogo por falta de comparência do adversário.

 

ELEIÇÕES – Resumo das eleições nos Açores: maior abstenção, menos votantes, o PS reforçou a maioria absoluta mas com menor número de votos que na eleição anterior. Quer-me parecer que o início do ciclo eleitoral não trouxe boas notícias em termos da saúde do sistema democrático e partidário. E não me surpreendo se nas eleições gerais, autárquicas e europeias do próximo ano este cenário de alheamento dos cidadãos voltar a ocorrer. Tudo caminha nesse sentido…

 

VER – Vale a pena ir a Coimbra, à Quinta das Lágrimas, ver a exposição que o colectivo de artistas «Laboratório Afectos» lá montou, por iniciativa da dinâmica Galeria Sete, um espaço coimbrão de arte contemporânea. O desafio proposto aos 11 artistas convidados foi o de explorarem o tema dos afectos à sombra da história do amor de D. Pedro e de Inês de Castro. Destaco as obras de Pedro Valdez Cardoso, de Maria Pia Oliveira, de Ana Fonseca e de Cristina Ataíde, todas elas surpreendentes no conceito, na forma e no resultado final obtido. Desde a alcova secreta do encontro de amantes interpretado por Maria Pia Oliveira, até à violência da História mostrada por Pedro Valdez Cardoso, passando pelo labirinto de desejos que compõem a paixão de Cristina Ataíde ou a permanente provocação que alimenta as fantasias, mostrada por Ana Fonseca, a exposição invadiu os jardins da Quinta das Lágrimas dando oportunidade aos visitantes de se confrontarem com a arte contemporânea em cruzamento com um local histórico.

 

PENAR – Quando se sai da Quinta das Lágrimas em direcção a Lisboa o mais natural é perderem-se se não conhecerem os cantos às cidades. Eu sei que as cidades de província são ciosas em guardar os seus visitantes, mas Coimbra faz penar um suplício com a falta de sinalização, a sua diminuta dimensão, a dificuldade de visualização. Este problema, no entanto, não afecta só Coimbra. Os responsáveis pela colocação de sinalização dentro de cidades devem achar que toda a gente conhece os caminhos e vai daí desprezam os incautos viajantes que apenas procuram direcções para seguirem para outro destino. É muito irritante.

 

LER – Fareed Zakaria, editor internacional da Newsweek, tem-se destacado pela sua análise da actual crise. Um livro que editou este ano, «O Mundo Pós-Americano» é uma obra fundamental para compreender o que se passa, como o Mundo se está a transformar. Com uma forma de escrita cativante, Zakaria junta factos e números, sugere interpretações, propõe hipóteses. Com uma simplicidade fascinante o autor descreve o que se passa nas novas grandes potências, aborda o peso das diferentes culturas e religiões, analisa o que se passa no ensino, na indústria e nas alterações geoestratégicas. Muito provavelmente este é o mais fascinante livro que este ano me passou pelas mãos. «O Mundo Pós-Americano», Fareed Zakaria, 251 pgs, editado pela Gradiva.

 

PETISCAR – Querem uma sugestão para um petisco de meio da tarde num fim de semana ou para uma entrada fria? Experimentem as «Enguias de Portugal em Molho de Escabeche» produzidas pela fábrica de conservas da Murtosa (Comur), numa inconfundível embalagem verde e amarela. A receita é a tradicional da região – as enguias, depois de fritas, são temperadas num escabeche e assim ficam à nossa espera até que a lata se abra. Com um bom pão e rabanetes às rodelas para ir alternando, o sucesso é garantido.

 

OUVIR – A prestigiada editora de Jazz Verve está a reeditar algumas das suas gravações clássicas numa série que tem o nome de «Originals» que inclui várias gravações feitas sob a influência da descoberta da bossa nova pelos norte-americanos. Recomendo «Big Band Bossa Nova» com Stan Getz e a orquestra de Gary McFarland (1962), «Piano, Strings And Bossa Nova» pelo pianista Lalo Schifrin (1962) e «Bossa Nova» do cantor brasileiro Luiz Bonfa, com Lalo Schifrin e Oscar Castro Neves, gravado em Nova York a 30 e 31 de Dezembro de 1962 – um ano de descobertas.

 

BACK TO BASICS – A vida sem datas marcantes tinha menos graça – Prixarde D.

 

outubro 22, 2008

POBRE CULTURA

(Publicado no diário MeiaHora de 21 de Outubro)


 


A estimativa de execução orçamental do Ministério da Cultura para 2008 é de 217,7 milhões de euros. Na proposta de Orçamento de Estado para 2009 a despesa prevista no Ministério da Cultura é de 212,6 milhões de euros, cerca de cinco milhões de euros a menos, um decréscimo, de facto, de 2,3 por cento. No programa do actual executivo, aprovado na Assembleia da República, dizia-se: «O compromisso do Governo, em matéria de financiamento público da cultura, é claro: reafirmar o sector como prioridade na afectação dos recursos disponíveis. Neste sentido, a meta de 1% do Orçamento de Estado dedicada à despesa cultural continua a servir-nos de referência de médio prazo». Na realidade, como apontava em Setembro a Deputada Ana Drago na Assembleia da República, a percentagem do investimento na Cultura no Orçamento de Estado tem sempre vindo a diminuir e não a aumentar – em 2001 era de 0,7% e em 2008 já tinha caído para 0,2%. Este ano, pelos vistos, mantém-se o pobre panorama. O mesmo Programa de Governo afirmava que uma das prioridades do executivo PS seria «retirar o sector da cultura da asfixia financeira». Não é isso que se tem passado – o sector hoje está mais débil, as estruturas independentes existentes vivem com maiores dificuldades, continua a não se fazerem investimentos necessários na internacionalização de criadores portugueses e a conservação do Património foi várias vezes notícia ao longo deste ano pelas piores razões – falta de verbas. No meio deste panorama o Ministro da Cultura faz uma habilidade para defender politicamente o Governo: em vez de comparar a estimativa de execução orçamental com o orçamento proposto para o próximo ano, pega no valor que estava indicado na primeira versão do Orçamento para 2008 para encontrar forma de dizer que o sector cresce – feitas as contas dessa estranha maneira (ai que mal vai o ensino da matemática…) o Ministro encontrou um crescimento de 0,4 por cento. Já agora vale a pena comparar esta afirmação do Ministro Pinto Ribeiro, com a da sua antecessora, Isabel Pires de Lima, há um ano: nessa altura reivindicava ela um aumento de 9,2 por cento no Orçamento da Cultura. A ser assim só se pode concluir que, seja qual fôr a forma de fazer as contas, o peso político e a importância dada pelo Governo á Cultura está em queda livre.

Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Outubro

ELEIÇÕES – A notícia do arranque formal da campanha eleitoral do Governo foi dada com a proposta de Orçamento de Estado para 2009, que contempla o catálogo de medidas eleitoralistas a aplicar no decurso da campanha. Na mesma semana o Primeiro Ministro sublinhou a importância da manutenção do calendário das grandes obras públicas previstas e mereceu logo um significativo coro de aplausos daqueles empresários portugueses que gostam mais de trabalhar para o Estado do que de procurar clientes no mercado. É engraçado comparar o esforço do Estado nessas obras com incentivos à exportação ou estímulos à criação de novas empresas. Recordo aqui que ainda há pouco tempo o Presidente da República chamou a atenção para o facto de os empresários deverem ter em conta o mercado real dos consumidores e não o mercado manipulado das encomendas do Estado e das obras públicas. O desenvolvimento de um país é o resultado não da capacidade de lobby no aparelho de Estado, mas sim do êxito no mercado. Confundir Estado com mercado é um vício penoso que se tornou numa praga em Portugal.


 


CRISE – Nestas semanas de crise a mais completa e elucidativa cobertura, entre as revistas generalistas, tem sido a da «Newsweek», e isto porque procura perceber as razões do que sucedeu e avançar pistas para o futuro. Na edição de dia 13 a revista publicava um artigo do historiador Francis Fukuyama, «The Fall of America Inc» (pode ser visto em http://www.newsweek.com/id/162401 ), que analisava o que ao longo dos anos levou à situação actual, em que uma certa forma de capitalismo colapsou. Será possível restaurar a confiança na marca «América»? - pergunta Fukuyama provocatoriamente. Vale a pena ler o artigo, é absolutamente brilhante. Também imperdíveis têm sido os artigos do redactor-estrela da revista, Fareed Zakaria, cheios de dados, recordando a sucessão de factos que levaram ao colapso do sistema financeiro, mas também sugerindo soluções para ultrapassar a crise e mostrando que todas as crises têm um lado positivo.


 


BOATARIA – Passadas duas semanas, vale a pena lembrar que, segundo o «Expresso», a primeira referência sobre problemas «em dois pequenos bancos» terá sido criada a partir de uma declaração do Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, numa reunião com os cinco maiores bancos portugueses. O mais curioso é que na semana seguinte foi o mesmo Vítor Constâncio quem veio atacar a boataria sobre problemas na Banca portuguesa. É de mim ou isto é tudo um bocadinho esquisito?


 


PETISCAR – As reconciliações são sempre momentos felizes. Foi o que me aconteceu um destes dias quando me reconciliei com o Salsa e Coentros, um restaurante marcado pela gastronomia alentejana e que, há uns largos meses, me tinha desiludido no serviço, na forma como os clientes eram tratados, no ambiente geral. Passado um patamar médio da qualidade da cozinha, a forma como um restaurante recebe, a simpatia no atendimento de marcações, a forma como se processa o serviço na refeição, são tudo coisas que contam. Comer fora não é encher o bandulho, é suposto ser um momento de prazer e não um castigo ou sacrifício. Alguns restaurantes portugueses gostam de tratar os clientes como uns meros maçadores e assumem uma postura arrogante. Deste mal me queixava eu em relação ao Salsa e Coentros, mas a situação mudou e desta vez senti-me bem e comi melhor. A escolha foi uma perdiz de fricassé que estava perfeita. Roubando uma garfada ao vizinho do lado conatatei que a empada de perdiz estava igualmente boa. As batatas fritas às rodelas, finíssimas e no ponto, estavam perfeitas. Aqui está um sítio onde terei gosto em voltar. Rua Coronel Marques Leitão nº12 (perto da Avenida Rio de Janeiro, Alvalade). O telefone é o218410990.


 


OUVIR – David Oistrakh (1908-1974) foi um dos mais extraordinários violinistas de sempre. Por ocasião do centenário do seu nascimento a Deutsche Grammophon juntou algumas das suas gravações mais representativas, interpretações emocionantes de obras de Mendhelsson, Bruch, Prokofiev, Chausson, Ravel, Glazunov e Kabalevski, registadas entre 1948 e 1961, numa selecção cuidada de registos de origens e épocas muito diversas. A edição inclui ainda um CD extra, com gravações raras, de 1952, em que Oistrakh é acompanhado ao piano por Vladimir Yampolsky. Triplo CD «Concertos And Encores», Deutsche Grammophon.


 


LER – Os conflitos religiosos, a condição humana, a fé, as guerras em que os Estados Unidos se envolvem no exterior e, claro, o conflito entre a moral e o sexo, são os temas do novo livro de Philip Roth, «Indignation», a sua 29ª obra. Considerado com um dos grandes escritores contemporâneos, Roth localiza a acção em 1951, na época da Guerra da Coreia e num jovem estudante universitário, Marcus Messner, proveniente de uma família judia ortodoxa, em conflito com a religião, inadaptado no ambiente que descobre na universidade. O livro contém descrições brilhantes de lugares e de situações – à mistura com considerações e formas de ver o mundo - e desenrola-se num ambiente de crescentes conflitos, que culmina numa irreversível ruptura – com a vida. «Indignation», 233 páginas, edição Houghton Mifflin, comprado na Amazon.


 


BACK TO BASICS – Um político pensa apenas no seu próximo acto eleitoral, um estadista pensa na próxima geração (James Clark).

ESQUECIMENTOS

 


(Publicado no diário Meia Hora de 14 de Outubro)

 

Ele há dias em que não se sabe muito bem o que se passa neste estimado rectângulo à beira-mar plantado. Dizem-se umas coisas, atribuem-se umas responsabilidades, clamam-se por louros, mas depois nada se passa e ninguém gosta de exercitar a memória. Querem exemplos? Aí vai.

Durante meses e meses falou-se do Tratado de Lisboa como se o mundo dele dependesse. Há um ano o Governo considerava o documento uma importante vitória diplomática portuguesa. O Tratado esvaíu-se, ninguém fala dele - muito menos no meio desta crise – e o mais certo é que dele não fique rasto na História.

Durante os primeiros dois anos deste Governo a Cultura andou em bolandas sem se perceber o que a Ministra fazia no Palácio da Ajuda. Depois mudou-se o inquilino mas ele só dá sinal de vida em algumas cerimónias oficiais. Para uma série de efeitos práticos o Ministro que desenvolve acções na área da Cultura é o da Economia. Exemplos? Basta ver o que está agendado para Serralves, um programa em torno da Criatividade, em que o protagonista governamental é Manuel Pinho.

O campeão do jogo de cintura é no entanto Mário Lino, o homem que garante que tudo vai avançar e se tornou especializado em guiar em marcha-atrás. Confrontado com a necessidade de dar trabalho aos empreiteiros, desdobra-se em projectos que vão sendo adiados, modificados, e lá vai permanecendo com um ar bonacheirão a estreitar a influência francófona em Portugal, marcando as suas mais bombásticas declarações com palavras francesas – para todos os efeitos ele ficará conhecido como Monsieur Jamais.

Outro sector que sofre de amnésia galopante e tem esquecimentos frequentes é o Ministério da Educação. Se confrontarmos as intenções anunciadas com as realidades actuais, as diferenças são enormes. Pelo meio esqueceu-se de fazer avaliações rigorosas aos alunos, optando por nivelar por baixo, e abandonou as avaliações aos professores. Mas o campeão do esquecimento é Sócrates, o mais legítimo herdeiro do cognome «O Promessas», surgido nos últimos anos. Das dezenas de promessas de reformas anunciadas vai chegar ao fim da legislatura com uma taxa de execução pobre e percentualmente diminuta. Espero que alguém lhe lembre, nessa altura, aquilo que ele vai ter tendência em esquecer – tudo o que falhou.

 

PUBLICADO NO JORNAL DE NEGÓCIOS DE 10 DE OUTUBRO

 


POLÍTICA - É muito curioso ver como os norte-americanos encaram e debatem as eleições presidenciais. Mesmo publicações científicas não hesitam em dar conselhos aos seus leitores sobre a forma como devem analisar os candidatos. A edição de 26 de Setembro da prestigiada «Science» sugere que cada leitor faça a sua análise a partir deste raciocínio: « como encara cada um dos candidatos a Ciência? Quais são as suas prováveis nomeações para os cargos científicos de designação presidencial?» E vai mais longe: é bom aconselhar os candidatos, questioná-los em debates com perguntas concretas sobre políticas concretas na área da ciência. E o circunspecto «New England Journal Of Medicine», de 2 de Outubro, não hesita: «Devemos ver quais os pensamentos dos candidatos sobre políticas de saúde, sobre a reforma do sistema e que soluções criativas trazem para esta área». Que bom seria se em Portugal as instituições e as pessoas começassem a pensar e a agir assim.

 

SARAMAGO – Curioso e educativo o comunicado da Federação dos Invisuais dos Estados Unidos sobre o filme «Blindness», baseado no romance «Ensaio Sobre a Cegueira», do Nobel José Saramago. Excertos: «Condenamos e deploramos este filme, mau para a causa dos invisuais. Os invisuais, neste filme, são retratados como incompetentes, sujos, viciosos e depravados. Aparecem retratados como sendo incapazes de fazer as coisas mais simples como vestirem-se e tomarem banho ou até encontrarem o WC. A verdade é que os invisuais geralmente podem fazer quase tudo o que as pessoas com visão fazem». Ora que dirá Saramago desta politicamente correctíssima análise do seu romance?

 

COISAS - Pragmatismo, pragmatismo é o Estado encomendar milhares de computadores a um fabricante que anda às voltas com um processo de incumprimento fiscal. Esta semana soube-se que os fabricantes do «Classmate» da Intel em Portugal, baptizado como «Magalhães» pelo Governo, têm sérios problemas com o fisco e assistiu-se a uma muralha de silêncio do Eng Sócrates, que até aqui tem sempre elogiado fartamente a empresa. Ora aqui está o caso de um fabricante que gosta de ter o Estado como principal cliente…e pelos vistos financiador…

 

TELEVISÃO - Olho para os últimos números de audiências dos três principais canais e constato a persistência da SIC no terceiro lugar. Olho para a programação destes três canais e vejo demasiados pontos de contacto e falta de uma oferta diversificada. Olho para os resultados e vejo uma TVI triunfante, a aumentar a sua distância na liderança. Ponho-me a olhar para a Impresa e os seus sinas de instabilidade (por exemplo na área comercial) e começo a pensar: será que o total dos leitores da «Visão» e do «Expresso» - um total de 1,3 milhões de pessoas - se revêem na programação da televisão do grupo? Poderá existir um canal generalista para públicos mais exigentes em termos de conteúdos? Como é que o futuro 5º canal se irá implantar, em termos de tipologia de programação, neste universo saturado de novelas, concursos e entretenimento corriqueiro? Num mundo que começa a questionar a eficácia dos sistemas tradicionais de planeamento publicitário e compra de espaço comercial em televisão -. o que quer dizer começar a pôr em dúvida o critério único dos GRP’s - a questão da qualidade das audiências volta a estar em cima da mesa. Fará sentido anunciar em simultâneo o mesmo produto, por exemplo, na «Visão», «Expresso» e «Sic»? Uma metodologia relativamente recente, que analisa os pontos de contacto dos públicos com os media, defende que esse tipo de planeamento é um desperdício numa sociedade em que o consumo da comunicação é cada vez mais fragmentado.

 

LER – Mais um debate lançado na edição de Outubro da revista »Monocle», cada vez mais indispensável para pensar o futuro das cidades. A revista defende que não basta ser criativo, é preciso ser produtivo e sublinha a importância das pequenas indústrias, das pequenas manufacturas e do comércio especializado para dinamizar e tornar únicos os centros urbanos. Quem se passeia nas animadas ruas de cidades como Nova Iorque é isso mesmo que constata – comércio diversificado sempre aberto, abundante escolha, pequenas oficinas ou ateliers um pouco por todo o lado mesmo no centro de Manhattan. É isso que faz a vida de uma cidade. Qualquer candidato às próximas autárquicas numa cidade devia folhear com atenção as edições deste ano da «Monocle» - poderia fazer um manifesto eleitoral diferente e bastante mais inteligente que o habitual somatório de lugares comuns. Nesta edição por acaso a revista recomenda cinco locais lisboetas: o Hotel Heritage Solar no Castelo de S. Jorge, o restaurante Galito, a loja «A Vida Portuguesa» (abundante sortido de galos de Barcelos com decorações inesperadas), os gelados de «A Veneziana» e o terraço do Bairro Alto Hotel. Boas escolhas.

 

OUVIR – O disco é surpreendente: mistura interpretações orquestrais com duetos entre guitarra e plano, recupera as vozes de James Taylor ou Renée Fleming em temas tradicionais e clássicos. A ideia veio de dois músicos de jazz, do pianista Dave Grusin e do guitarrista Lee Ritenour e inclui originais dos próprios e versões de obras de Fauré, António Carlos Jobim, Ravel ou Handel, entre outros. «Amparo» é dos discos mais surpreendentes e excitantes deste ano. CD edição Decca/Universal Music.

 

COMER – Regresso ao velho «Pote», no número7 D da Avenida João XXI, já a chegar ao Areeiro. Ao jantar, a meio da semana, sala meio cheia, serviço simpático – algumas caras que me lembram rostos de há uns 30 anos. O «Pote» é um clássico da zona da Avenida de Roma e mantém-se em grande forma – tal como as favas que nesse dia me serviram. Do outro lado da mesa o salmão grelhado estava suculento e no final um pudim flan à fatia, sem ar sintético, e um melão honesto, tudo a preços simpáticos. Telefone 218 486 397.

 

BACK TO BASICS – Num mundo cheio de opiniões em segunda mão, o importante é conhecer os factos em primeiro lugar – lema do «New York Times».

 

outubro 09, 2008

OS INIMIGOS DO SERVIÇO PÚBLICO

(publicado no diário Meia Hora de 8 de Outubro)

 


Quando os papéis de propagandista e de controlador da comunicação coexistem na mesma figura o resultado nunca é brilhante. A História está cheia de exemplos terríveis – do qual o do nazi Goebbels é o mais tristemente célebre. Mesmo algumas democracias não escapam à tentação de misturar propaganda com controlo e condicionamento da informação.


Lamentavelmente é isso que se passa em Portugal e os protagonistas são o Ministro Santos Silva e a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), que ele criou. O acréscimo de poderes que agora o Governo, pela mão do Ministro, quer dar à ERC levanta as maiores preocupações – sobretudo atendendo ao histórico desta Entidade, curto no tempo mas largo em exemplos de más práticas no relacionamento com os Media.


As recentes tomadas de posição da ERC a propósito dos comentários políticos no Serviço Público de televisão são exemplos acabados de uma actuação que conjuga interesse político (condicionar a opinião) com oportunismo partidário (em vésperas de ano eleitoral o melhor será deixar os comentários fora da RTP, sobretudo aqueles que têm maiores audiências – no caso Marcelo Rebelo de Sousa). O incidente apenas confirma a total governamentalização da ERC.


A forma como a ERC entende actuar vai no sentido de condicionar o funcionamento das Direcções de Informação e das redacções do operador de serviço público: ao critério da oportunidade editorial, ao critério do interesse noticioso, sobrepõe-se um cínico princípio de igualdade de acesso à antena por parte dos vários agentes políticos e partidários que é a mais falaciosa e enganadora forma de manipulação – torna as emissões ilegíveis e desinteressantes, privilegia os que têm meios de comunicar de outra forma e, em vez de proporcionar igualdade, agrava de facto as desigualdades.


Existe no entanto outro ponto que o método adoptado pela ERC suscita: se a informação de serviço público é para ser governada por um cronómetro, em vez de ser dirigida por critérios jornalísticos e editoriais, se quem diz o que se deve fazer é o Governo, pela mão da ERC, então mais valerá que não exista Serviço Público. Neste momento a maior ameaça ao Serviço Público de Televisão vem da forma como ele é tratado pelo Ministro Santos Silva e pela ERC. Ambos estão apostados em manipulá-lo e descredibilizá-lo. 

 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Outubro)

CINISMO - Num daqueles supremos exercícios de ironia o Governo prepara-se para votar nos primeiros dias de Outubro um diploma intitulado «Lei do Pluralismo e da não concentração nos meios de comunicação social». O diploma visa - na realidade e de facto - limitar o pluralismo e, ao mesmo tempo, reforçar os poderes da Entidade Reguladora da Comunicação, cujo balanço de actividade é uma mancha negra na liberdade de imprensa em Portugal e no descarado proteccionismo às ingerências governamentais no sector (de que é exemplo o recente e caricato episódio da divulgação pública dos documentos sobre o caso da licenciatura de Sócrates, que estiveram escondidas durante meses e apenas foram reveladas depois de o «Expresso» as ter publicado) . Claro que a autoria da Lei vem das mãos do Ministro Santos Silva.  

 


 


AUDIOVISUAL - A alteração progressiva da matriz de serviço público na RTP ao longo dos últimos anos, conjugada com o aumento da capacidade de produção instalada da empresa e com a grande diminuição de produção de documentários e magazines na RTP 2, teve uma consequência terrível num conjunto de pequenas empresas de produção audiovisual independentes que mantinham elevados padrões de qualidade na produção, tinham desenvolvido competências  e especialização precisamente na produção de documentários e que, de uma forma geral, viram desaparecer a relação de continuidade que permitia a existência de equipas e de um «cluster» criativo específico nesta área. Por isso é importante discutir o papel do serviço público e dos operadores de televisão (através da obrigações das respectivas concessões) na criação e desenvolvimento da produção audiovisual nacional. A realidade é que sob as orientações políticas de Santos Silva em matéria de serviço público têm desaparecido produtores e a paisagem audiovisual portuguesa tem empobrecido. É aliás espantoso que, da área da Cultura, que tem a tutela do audiovisual , nada se diga sobre esta situação. 

 


 


 


ECONOMIA- Para além deste jornal, há uma outra maneira interessante de ler economia – trata-se da revista «Portfolio», editada nos Estados Unidos pelo grupo Conde Nast. Apresentada como uma publicação de informação confidencial sobre negócios, a «Portfolio» tem de facto uma abordagem inovadora na forma como apresenta as questões – na edição de Setembro analisava a crise que a cadeia de televisão NBC estava a passar, ao mesmo tempo apontava as oito medidas que as grandes estações de televisão terão que adoptar se quiserem manter-se vivas num negócio que está a mudar a velocidade acelerada, e – entre vários outros artigos e secções interessantes - entrevistava o CEO da Renault, Carlos Ghosn. A revista encontra-se à venda em Portugal e pode ter uma ideia de como ela é no site www.portfolio.com – por acaso muito interessante na actual conjuntura de crise. 

 


 


OUVIR - Sou fã de Burt Bacharach e garanto que isto não tem nada a ver com o facto de ele ter sido o pianista e maestro de eleição de Marlene Dietrich. Bacharach é um dos grandes compositores da música popular norte-americana e a sua carreira é marcada pelas canções que fez com Hal David, composições tornadas célebres pelas vozes de Dionne Warwick, os Carpenters, Tom Jones, Dusty Springfield ou Aretha Franklin. Da sua extensa lista de colaborações constam nomes como Elvis Costello ou ainda bandas sonoras de filmes como «Casino Royale». Por outro lado sou fã de Steve Tyrell porque ele tem uma vox fora de série e , sobretudo, uma capacidade de interpretação absolutamente extraordinária. De modo que quando vi um disco chamado «Back To Bacharach» assinado por Steve Tyrell, o impulso de o descobrir foi imediato. É um disco absolutamente extraordinário, com uma qualidade de interpretação musical e vocal invulgares – Tyrell trabalhou com Bacharach na produção e finalização do disco, percebe-se que este foi um projecto longamente pensado. Aqui estão temas como «Walk On By», «The Look Of Love», «What The World Needs Now», «I Say A Little Prayer For You», «Always Something There To Remind Me» e «Raindrops Keep Falling On My Head», entre outros. CD Koch Records, disponível na Amazon. 

 


 


VER - Na rua da Boavista 84, ao Cais de Sodré, fica a Transboavista, um edifício dedicado à arte contemporânea e que engloba três espaços de características diferentes. A VPF Cream art gallery é destinada a nomes já com obra produzida e reconhecida e apresenta novos trabalhos de Ana Cardoso sob o título «Sans Image». Na Rock Gallery, destinada a mostrar o trabalho de novos artistas, está Cristina Robalo e na Plataforma Revólver, um espaço mais experimental, está uma colectiva, comissariada por Luísa Especial e que inclui obras de Ana Telhado, Catarina Patrício, Eduardo Guerra, Jorge Siganier Castro, Pedro Vaz e Rita Sá. 

 


 


COMER - Um daqueles locais de Lisboa a que apetece sempre voltar é o «La Moneda». Eu, que o costumava geralmente frequentar á hora de almoço, tive há pouco tempo um jantar de um grupo de amigos – numeroso grupo de amigos – e a coisa correu absolutamente sobre rodas, em termos de serviço e de qualidade da comida. Não é fácil cozinhar bem para um grupo grande mas o «La Moneda» sai-se bem do desafio, sob a batuta do seu dono, o chileno Leo Guzman que dirige as operações na cozinha – sempre com novas surpresas – o menu está longe de ser uma coisa estática, o que é mais uma razão para lá voltar. Fica na Rua da Moeda 1C, à Praça D. Luís, telefone 21 390 8012. 

 


 


BACK TO BASICS – Na América o sexo é uma obsessão, no resto do mundo é apenas uma coisa que acontece – Marlene Dietrich 

UM SONO TRANQUILO

(Publicado no diário «Meia Hora»)


Ele há dias em que até me apetecia simpatizar com o Governo. No início pensei que Sócrates teria uma genuína intenção reformista, mas ao longo destes anos fui perdendo as ilusões. Cada vez que uma crise grave sobreveio e a dureza das reformas propostas provocou desgaste na opinião publica, Sócrates resolveu o problema livrando-se das políticas e, se necessário, dos membros dos governo que se propunham executá-las. Correia de Campos, como bem recentemente confirmou, foi vencido pelo desgaste dos protestos. Mário Lino, que e um animal político, percebeu a tempo que mais valia engolir todas as patacuadas que disse sobre a inevitabilidade da Ota para assumir a opção que ele próprio classificou de impossivel, Alcochete. Mas o que interessa, no fundo, é a  falta de determinação de Sócrates em manter-se solidário com políticas quando elas ameaçam os votos que sao o seu oxigénio. No recente comício de Guimarães percebeu-se que daqui até às eleições o que interessa é conseguir segurar votos.

O mais curioso neste cenário é que a decisão de voltar atrás nas reformas mais complicadas se deu um ambiente de maioria absoluta, com uma assembleia domesticada e uma oposição esfrangalhada e paralisada. Mesmo assim  em vários sectores fundamentais as coisas ficaram por metade -  saúde e educação - e noutros nem isso - como acontece de forma gritante na Justica, porventura o mais ineficaz de todos os Ministérios do Governo de Sócrates. É verdade que a modernização administrativa - e os vários derivados do simplex -  avançou e hoje ,numa série de áreas, a vida é mais fácil. Mas as melhorias verificadas neste sector são, por exemplo, apagadas pelos abusos e excessos contra os cidadãos no gritante caso das Finanças, com os automatismos das punições fiscais a deixarem muita gente revoltada. Feitas as contas não é certo que este Governo tenha na sua matriz o respeito pelos direitos dos cidadãos.

Com eleições a um ano e com as propbabilidades de voltar a obter a maioria absoluta bastante ameaçadas, Sócrates encontra-se num dilema: não pode continuar a alimentar polémicas, vai precisar de muitas cedências para manter Manuel Alegre sossegado e tudo isso, por outro lado, vai fazer a erosão do centro direita que acreditou nele nas ultimas eleições.

Se com maioria absoluta o resultado está a ser o que se viu, sem maioria absoluta Sócrates arrisca-se a ser uma caricatura de si próprio e, pior que isso, o futuro nao augura nada de bom em termos de governação. Se a oposicao existisse e desse conta do que pretende fazer, esta podia ser uma ocasião de ouro. Mas como a oposição anda enredada em mostrar como tem um sono tranquilo, quer me bem parecer que temos pela frente um longo período de oportunidades perdidas, de reformas metidas no saco e de progresso adiado.

Publicado no Jornal de Negócios

ADIVINHOS - A recente crise dos bancos de investimento chamou a atenção para as recomendações feitas por analistas com muito pouca experiência, que acabaram por jogar um papel determinante no aconselhamento dos investidores, na criação de expectativas e no semear de ilusões No mercado português assisti, ao longo dos últimos anos, a recomendações feitas por analistas financeiros sobre empresas de media cuja ligeireza – e ignorância - eram de estarrecer. Alguns, mais atrevidos, chegavam a opinar sobre grelhas de programas de estações de televisão ainda antes de elas serem estreadas, projectando rentabilidades sobre formatos que nunca tinham sido testados. A ignorância é geralmente má conselheira, mas quando ainda por cima é arrogante, como foi muitas vezes o caso desses analistas, o resultado só pode ser desastroso. Quem lhes deu ouvidos não se pode vir queixar agora: qualquer especialista lhes poderia ter dito em que pontos as análises eram incorrectas. Só que preferiram adivinhos e vendedores de promessas vestidos de analistas a especialistas - e o resultado está à vista. 

 


 


LISBOA- A corrida às autárquicas em Lisboa já vai mexendo. Alguém destapou a panela das cedências de habitações camarárias, sem se lembrar que o assunto queima muito mais o partido que mais anos esteve no poder em Lisboa, e que foi o PS – aliás é curioso que ninguém faça um trabalho sério sobre as consequências e culpas da gestão socialista de Jorge Sampaio e de João Soares no deficit geral da autarquia, na sua má situação financeira e também nas corruptelas instaladas.  

 


 


CAFÉ – Na proximidade da abertura da Starbucks em Portugal, deixo aqui dito que cada vez gosto mais do velho comércio tradicional que funciona bem. Gosto da qualidade, delicadeza e preço do meu velho café de esquina, do atendimento sabedor do livreiro aqui da rua – em contraste com cadeias mais baseadas no marketing que na qualidade e com muito pouca atenção aos interesses dos consumidores.  

 


 


DESAPARECIDO - Por estes dias dou comigo a apensar onde andará o célebre Tratado de Lisboa, essa peça de força da diplomacia socrática – esse enorme triunfo propagandístico que ocupou páginas e páginas de jornal há um ano atrás. O tratado não está em vigor, deixou de se ouvir falar dele, apesar de ter sido dado como facto consumado. O que é facto é que, de peça fundamental e necessária sem a qual nada se faria, se passou para o extremo oposto de ser uma recordação de um falhanço de que ninguém quer falar. O tratado de Lisboa parece desaparecido, onde está? 

 


 


OUVIR - Em 1972, em Berlim, uma extraordinária reunião de talentos criou aquela que por muitos é ainda considerada como a melhor gravação de sempre da ópera «La Bohème». Herbert Von Karajan dirigiu a Orquestra Filarmónica de Berlim e um naipe de vozes extraordinárias: Mirella Freni, Luciano Pavarotti, Elizabeth Harwood, Rolando Panerai, Gianni Maffeo e Nicolai Ghiaurov, entre outros. «La Bohème», uma das mais populares óperas de sempre, foi escrita por Giacomo Puccini em 1896, no início da fase mais brilhante da sua carreira. De entre as gravações feitas ao longo dos anos, os críticos são unânimes em destacar duas – uma dirigida por Sir Thomas Beecham em 1956 e outra, este registo berlinense dirigido por Karajan e editado pela Decca . Por ocasião das celebrações do centésimo aniversário do nascimento de Karajan, a Decca promoveu uma reedição, magnífica, agora à venda, que inclui a transcrição integral do libretto e uma série de textos sobre a gravação e sobre todos os seus intervenientes, para além de um disco extra com o registo de uma divertida conversa de Mirella Freni com Catherine Bott.


A gravação original foi remasterizada digitalmente a 24 bits. Edição Decca, distribuição Universal Music. 

 


 


LER - A edição deste mês da revista «Vanity Fair» celebra o 25º aniversário desta segunda fase da revista, iniciada em 1983. A «Vanity Fair» tinha tido uma vida anterior, com início em 1913, e que acompanhou o nascer o jazz e do cinema. A segunda fase, dos anos 80, acompanhou as carreiras de nomes como Madonna e Demi Moore – algumas das caras mais presentes nas 309 capas desta fase da revista e que são todas reproduzidas neste número de Outubro – cuja capa é dedicada a Marilyn Monroe e a uma nova investigação aos últimos tempos da sua vida, com novos documentos e fotografias. Outros pontos de interesse nesta edição são o habitual «Questionário de Proust», desta vez respondido por Michael Bloomberg. Uma conversa com a fotógrafa Annie Leibowitz sobre o seu método de trabalho e uma bela entrevista a Rupert Murdoch são ainda outros pontos altos. No entretanto deliciem-se com o site da edição inglesa, www.vanityfair.co.uk  ou da edição americana www.vanityfair.com 

 


 


VER – Uma das mais marcantes exposições que me foi dado ver abriu esta semana em Lisboa na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa (Edifício de Espanha, Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º, no Bairro de Santos). A exposição chama-se «Aquilo sou eu» e agrupa obras da vasta colecção de Safira e Luis Serpa, centrada em auto-retratos de artistas contemporânos portugueses e estrangeiros. As peças expostas resultam de um desafio feito em tempos para que os artistas se retratassem a eles próprios independentemente do suporte e da forma como o fizessem. O resultado é impressionante de diversidade, cativante pela relação de cumplicidade e proximidade que o casal de coleccionadores manteve com os artistas. A exposição estava programada e a ser preparada há meses, mas o facto de ter surgido após a morte de Safira Serpa dá-lhe uma carga emocional e simbólica invulgares – uma homenagem a uma forma muito especial e delicada de estar na vida. A exposição pode ser vista às 4ªas, 5ªas e 6ªas entre as 14 e as 20 horas e aos sábados entre as 14 e as 19 horas. 

 


 


BACK TO BASICS – Hollywood é o local onde nos pagam mil dólares para terem um beijo e cinquenta cêntimos para ficarem com a alma – Marylin Monroe. 

 

 

UMA ENTIDADE OBEDIENTE

(publicado no diário «Meia Hora»)


Neste ultimo fim-de-semana soube-se que a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) colocou entraves ao acesso à documentação sobre a investigação às tentativas de pressão do Primeiro-Ministro a vários orgãos de comunicação, no caso da conclusão da licenciatura de José Sócrates.


Sabe-se agora – segundo o «Expresso» noticiou - que o relatório que sobre este assunto a ERC elaborou minimiza todos os depoimentos e dados que indicavam a existência de pressões do Gabinete do Primeiro Ministro, e do próprio José Sócrates, para tentar impedir o surgimento de notícias sobre a licenciatura que obteve na Universidade Independente.


A ERC entendeu há cerca de um ano que devia arquivar o caso, apenas com um voto contra, dando assim provimento à tese Governamental que não teriam existido pressões. Sabe-se agora que os membros da ERC trocaram entre si «insultos, ameaças e intimidações» a propósito do relatório, e, em especial, da possibilidade de chamar o Primeiro-Ministro a depor. Sabe-se que essa extraordinária figura da política à portuguesa, chamada Estrela Serrano, e que integra a ERC, achou por bem dizer a jornalistas que noutros países é pior e recomendar aos seus pares que o Primeiro Ministro deve ser respeitado. Ora eu acho que, na realidade, a ideia subjacente é que o Primeiro Ministro não deveria ser incomodado com estas questões de estar a fomentar o condicionamento da informação. Isto é de uma enorme gravidade: quando se fala de respeito a altas individualidades num caso em que a liberdade de imprensa é posta em causa por elas próprias, estamos perante a mais indigna das posições – quem pensa assim não pode estar num órgão regulador.


Com este relatório e tudo o que sobre ele agora se conhece, esta ERC perdeu os últimos laivos de credibilidade que tinha. A composição desta entidade foi cozinhada nos corredores da Assembleia pelo fatídico Bloco Central em depois de tudo o que agora se sabe, os membros do Conselho da ERC deviam ter a dignidade de se demitirem.


Cada regime tem os órgãos que merece e a Entidade Reguladora da Comunicação é bem o exemplo do que vai mal na actividade política, do primado da ocultação dos podres sobre a divulgação da verdade, de nomeações de conveniência e não de competência, de transferência da guerrilha partidária para órgãos que deviam ser reguladores. Sócrates gosta de ser obedecido. A ERC tem-lhe obedecido. 

 

setembro 21, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Setembro)

EXACTO - Não resisto a começar esta coluna por citar um «post» de Manuel João Ramos no blog «O Carmo E A Trindade»:  «Que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade é quase um golpe de estado.» 


 


ABUSO - Acho um bocado aborrecido que o Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa se ponha a escrever artigos de opinião contra uma das religiões. Foi o que se passou esta semana com Mário Soares que resolveu lançar-se em vôo picado contra o Papa. Talvez valesse a pena Soares rever as posições que ocupa – o seu passado não justifica nem desculpa tudo. E eu, que não sou católico, acho incompreensível este tipo de comportamento.


 

 


CONCERTO - Parece que esta semana está na moda dizer mal de Madonna. Pois eu gostei do concerto de Madonna, tal como gosto de Madonna propriamente dita. Foi uma produção monumental, uma máquina absolutamente impressionante de fazer espectáculo. Arranjos novos de velhas canções – a maior parte bem conseguida – coreografias e cenografias impecáveis, o toque da aventura cigana particularmente bem conseguida, quer a nível musical, quer no guarda roupa, quer na forma de encher o palco. Claro que um concerto ao ar livre não é visto por todos em condições ideais, mas isso é o risco de quem quer ver produções desta natureza.  

 


RISO - Os dias começam melhor quando se ouve Bruno Nogueira logo de manhã na TSF – por volta das nove e vinte lá vem o «Tubo de Ensaio», que depois é repetido duas vezes à tarde. Também pode ser ouvido no site da TSF, e ali vale tudo, desde ouvir chamar «McGyver dos comentários a Moita Flores», até uma descrição impagável do novo cabelo de Nuno Rogeiro. Para além do trabalho de Bruno Nogueira, é justo destacar os textos de João Quadros. Humor no seu melhor. 

 


 


 


MÚSICA- Stefano Bollani é um pianista de jazz italiano que tem dedicado boa parte da sua carreira a interpretações baseadas em standards da música popular brasileira. «Carioca» é o seu mais recentre disco, e inclui versões muito cool e swingantes de temas como «Luz Negra», «Choro Sim», «Segura Ele», «Valsa Brasileira», «Doce de Coco», «Folhas Secas» ou «Samba e Amor» entre outros. Neste disco Bollani privilegiou o samba e o choro, mas numa gravação anterior, «Falando de Amor» dedicou-se à obra de António Carlos Jobim. Neste «Carioca» é acompanhado por bons músicos brasileiros sobre este reportório tão rico de autores como Edu Lobo, Chico Buarque, Pixinguinha, Jacob do Bandolim ou Ismael Silva, entre outros. O risco de fazer um disco insuportável neste cruzamento entre jazz e samba e choro era grande – mas «Carioca» é uma obra conseguida, com um ritmo contagiante. CD Emarcy/ Universal. 

 


 


LEITURA - Na revista «Monocle» deste mês a Europa é tema em destaque – a começar pela análise implacável que um investigador, Richard G. Whitman, faz sobre a construção européia, com observações impressionantes sobre o que está a falhar e a acabar um pouco mais à frente uma análise das razões que levaram três países a situações difíceis – o Reino Unido, a Itália e a Bélgica. No resto da edição há muito que ler e ver – um belo portfólio sobre cinema mexicano e produções de moda de rara qualidade. A «Monocle» de facto é um objecto invulgar, um manancial de curiosidades, de chamadas de atenção, de pequenas descobertas que ajudam a perceber melhor o que se passa à nossa volta. No editorial deste mês o fundador da revista, Tyler Brûlé, analisa o que pode melhorar a vida de uma comunidade e chega a conclusões que são simples, universais e de bom senso: maior atenção à proximidade, salvaguarda da individualidade e da tradição, boa rede de comunicações, bom comércio local que faça a diferença das redes multinacionais iguais em todo o sítio e boas ligações e transportes. Eu por mim concorco – antes uma bica e uma empada no café da esquina onde o empregado é simpático e atencioso que um folhado sofisticado e sensaborão numa loja da moda com empregados arrogantes e ineficientes. 

 


 


IMAGEM - Vou ver se nos próximos dias consigo ver três exposições de fotografia que me suscitam curiosidade: imagens de Moçambique por Sérgio Santimano na P4 (Rua dos Navegantes 16) – amanhã há uma conversa entre o fotógrafo e o crítico de arte Alexandre Pomar na galeria às 18h00; as imagens de Rodrigo Amado sob o título «Searching For Adam» na Módulo, Calçada dos Mestres 34ª, a Campolide; e imagens de Carlos Afonso Dias realizadas entre 1956 e 2008 na Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes nº10, ao Jardim das Amoreiras. 

 


 


COMIDA - Situado em plena esquina da Rua Latino Coelho com a Rua Filipe Folque, fica o restaurante Latino. Sala espaçosa, num prédio de gaveto, com boa luz natural e mesas espaçosas e muito confortáveis. A cozinha é inspirada na culinária portuguesa, produtos tradicionais de muito boa qualidade, da alheira ao peixe fresco. Em duas ocasiões recentes experiências muito positivas com fígado de vitela absolutamente no ponto e um bacalhau com grão impecável e com tudo o que a tradição manda. Garrafeira a preços decentes, muito bom cesto de pão. Rua Latino Coelho 18, tel 213141897. 

 


 


BACK TO BASICS – Pobre do homem cujo prazer depende da autorização de outro, Madonna 

 

UMA INEVITÁVEL REMODELAÇÃO

(Publicado no diário Meia Hora do dia 17 nde Setembro)

 


O maior problema de José Sócrates nestes dias que correm chama-se Costa. Não António Costa, a quem o Primeiro Ministro deu o presente envenenado da Câmara de Lisboa e que para o ano terá nas eleições autárquicas uma difícil prova perante as dificuldades em federar a esquerda. O grande problema de Sócrates chama-se Alberto Costa e está a afectá-lo onde mais dói, o terreno do descontentamento dos eleitores cujo combustível é a sensação de que o crime deixou de ser punido.


Uma boa parte das embrulhadas dos últimos meses deve-se à forma como foi feita e introduzida a reforma do código penal. É certo que a Justiça é um sector em crise há anos e que funciona mal. Mas também é facto que as coisas pioraram substancialmente no consulado deste Ministro.


Não estou a falar só das questões directamente ligadas às polémicas em torno das novas normas que regulam a prisão preventiva – a crise vai mais funda, passa por falta de condições em tribunais, em rupturas de equipamentos, um não acabar de queixas de juízes, funcionários, e, mais importante, dos cidadãos.


Em declarações recentes o Procurador Geral da República, Pinto Monteiro, comentando de forma indirecta a questão das alterações à lei que reduzem a prisão preventiva, disse a frase mais terrível de todas: «Os primeiros a saber os efeitos das leis são os cidadãos». É um recado claro, que tem uma carga enorme, que é a de focar o assunto na realidade e não no plano teórico. E é precisamente a realidade que o Ministro Alberto Costa tem procurado evitar, refugiando-se em conceitos dúbios e numa postura de teimosia que releva incapacidade de compreender o que se está a passar, dificuldade em reconhecer um erro e necessidade de o corrigir.


A coisa é de tal forma que na última semana várias figuras próximas do PS se demarcaram da forma com que Alberto Costa encara toda a situação e houve mesmo quem dissesse, preto no branco, que ele tinha pouco jeito para ser Ministro – e não foi ninguém da oposição (que continua em retiro espiritual…)


Uma remodelação parece ser inevitável  - é uma questão de escolher o momento que evite mais penalizações e que consiga encontrar uma saída airosa. A um ano de eleições todas as jogadas são perigosas, mas, da forma como Alberto Costa se isolou, os custos de o manter são maiores que os de o substituir.  

 

setembro 16, 2008

PARA QUE SERVEM OS POLÍTICOS?

 


Uma das coisas que mais aflição me faz é a facilidade com que pessoas que nunca tiveram nenhuma experiência profissional relevante surgem, com tanta frequência, em cargos de responsabilidade dos partidos políticos e da vida política. Não são poucos os casos de pessoas que começaram a actividade nas juventudes partidárias e que ingressaram na política a tempo inteiro sem nunca terem tido um contacto diversificado e prolongado com o mundo real.

 

Estas pessoas chegam à política com pouca experiência de adaptação às mudanças, facilmente preferem alimentar guerras e abater inimigos a fazer negociações, habituam-se a viver no mundo da política, que é uma redoma com códigos e comportamentos próprios, viciam-se nos pequenos poderes e fazem análises a partir dos seus próprios interesses.

O retrato parece pessimista? Marques Mendes e José Sócrates, por exemplo, têm uma carreira essencialmente feita nos meandros da política partidária, com passagens reduzidas pela vida real, sem experiência de facto fora de organizações do Estado ou a ele ligadas. Estes políticos dependem dos seus partidos, da sua manutenção na política e muito rapidamente se enredam num terreno onde é fácil confundir-se o interesse colectivo com o interesse pessoal e onde a sobrevivência política se torna numa garantia de sobrevivência pessoal. O poder vicia e distorce a realidade.

 

Nestes últimos dias fiquei verdadeiramente espantado com algumas declarações de jovens que frequentaram a Universidade de Verão do PSD e que se declaram dispostos a ser políticos no velho modelo que hoje conhecemos  - e que é a principal causa do divórcio cada vez maior entre os cidadãos e a política.

 

A política partidária actual representa um paradigma que está no fim de um ciclo que dura há cerca de 200 anos e progressivamente vai deixar de ter a importância que hoje lhe damos – é para este desafio de mudança que todos nos devíamos preparar. Aos poucos caminhamos para uma sociedade onde os políticos passarão a ser actores secundários e não protagonistas principais. A crise que atravessamos apenas fará acelerar a noção de que a actividade política não pode continuar a ser este jogo de habilidosos que desprezam de facto a vida das pessoas.

 

Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Setembro

RUÍDO - No PS existe um trio – Santos Silva, Vitalino Canas e António Vitorino – que serve de tropa de ataque verbal. São os altilfalantes de serviço quando é preciso justificar o injustificável. Um deles – Santos Silva - por acaso, tem a tutela da comunicação social  e já se sabe que este Governo tem uma política de comunicação invulgarmente bem conseguida. É um pouco paradoxal que dois dos elementos deste trio de picaretas falantes tenham lugar de destaque numa iniciativa que se pretende fazer passar por «think tank». Colocar propagandistas à frente de um grupo de reflexão só serve que de lá surja mais propaganda e menos pensamento.

 

SILÊNCIO - Num esforço de compreender a estratégia do silêncio, esperei por ouvir o discurso de Manuela Ferreira Leite. Foi um bom discurso, um diagnóstico certo do estado do país, uma crítica ao que merece ser criticado. O único problema, depois de dois meses de silêncio, é que o discurso, mais coisa menos coisa, repetiu o mesmo que a líder do PSD tinha dito há umas semanas atrás numa entrevista na TVI a Constança Cunha e Sá. E, no fim do silêncio, impunha-se alguma novidade. Em vez disso veio a repetição. Esta falta de novidade apenas serve para reforçar as dúvidas sobre a bondade – e verdadeiras razões - da estratégia do silêncio.

 

LISBOA- À falta de fazer obra e de mudar a cidade, António Costa opta por fazer alianças que lhe permitam semear apoios para as próximas eleições. A negociação com Helena Roseta é mais um caso de hipocrisia política – de ambas as partes. Particularmente desagradável é que o mesmo executivo camarário que acabou com o África Festival venha agora cobrir o novo acordo com umas iniciativas em prol da multiculturalidade.

 

TRIBUNAL - Esta semana foi pródiga em notícias judiciais e a única conclusão que se pode tirar é que, qualquer dia, se começa a poder dizer que com tribunais destes o crime compensa. O que é certo é que um ex-detido já tem uma indemnização mas as vítimas do mesmo processo ainda não.

 

TV - A pouco tempo do início do processo sobre o quinto canal de televisão convém ter presente o papel que ele pode ter, em termos estratégicos, para a reorganização do espaço audiovisual e para a manutenção e desenvolvimento de uma indústria audiovisual falada em português. Há uns anos a SIC e a TVI deram um impulso à produção independente que, durante anos, a RTP não conseguiu dar. À escala, o quinto canal pode e deve potenciar o que já existe  - desde que haja vontade para isso. Não ter isto em conta pode ser fatal para a consolidação da produção audiovisual portuguesa.

 

LEILÃO - Damien Hirst é um artista plástico que se comporta como uma estrela rock – citando a capa da «Time» desta semana. No próximo dia 15 Hirst prepara-se para fazer história ao leiloar através da Sotheby’s um conjunto de 223 obras suas, recentes, propositadamente produzidas para a ocasião, e que se estima poderem gerar vendas de 120 milhões de euros. Será a maior venda de obras de arte de um artista contemporâneo, mas também um marco – Hirst ultrapassou os tradicionais galeristas e vende directamente através de uma leiloeira – quer dizer que em vez de dividir com o galerista, irá receber a totalidade da receita da venda (já que nos leilões o comprador paga a comissão à leiloeira por cima do preço do lance). Na realidade nos leilões os artistas raramente recebem dinheiro já que as obras não lhe pertencem – neste caso é ao contrário. Hirst fez do seu nome uma marca, geriu a sua carreira com cuidado e agora aqui está a sua produção recente, realizada com o auxílio de 120 assistentes em seis ateliers diferentes em Inglaterra. Vão ao site da Sotheby’s (www.sothebys.com), cliquem no delicioso nome da exposição de Hirst («Beautiful Inside My Head Forever») e explorem o que por lá está. Não vão dar o vosso tempo por perdido.

 

COMIDA - O Kaffeehaus é um simpático bar-restaurante que abriu no Chiado, mesmo em frente ao Governo Civil, na Rua Anchieta nº3. A decoração é despretenciosa mas confortável, o ambiente tem a luz certa, o serviço é muito simpático e rápido e na comida – austríaca, claro – destaque para os escalopes de porco panados com salada de batata (bons escalopes, finos, sem óleo a escorrer), o guisado vienense de vaca e um bife de novilho picado acompanhado por um bom puré de batata. Para os mais frugais também há umas saladas, parece que boas. Há vinho a copo, boa cerveja de pressão e nas sobremesas há um incontornável sachertorte, ou seja o bolo de chocolate dos cafés vienenses. Os preços são moderados. Fecha à segunda e o telefone é o 210956828.

 

ESCUTA – Para quem gosta de blues e de jazz aqui fica uma recomendação: corram a ouvir «Two Men With The Blues», um delicioso encontro entre o trompetista Wynton Marsalis e o country singer Willie Nelson, os dois às voltas com standards como «Stardust», «Geórgia On My Mind», «Rainy Day Blues» ou «Bright Lights Big City».

 

LEITURA - De entre as revistas recentes surgidas em Portugal há uma que merece destaque, a «Parq», que se apresenta como revista gratuita de moda e cultura urbana. A frase corresponde à realidade, os artigos são interessantes, o grafismo e a fotografia são exemplares., nesta edição número 6, de Setembro, recomendo o portfólio «Angola Luso», o artigo sobre a fotógrafa Olivia Arthur e sobretudo a pequena história da última página, começada numa operação STOP. Mais informações sobre a revista em www.parqmag.com .

 

BACK TO BASICS – A realidade supera sempre a ficção, Mark Twain.

 

setembro 03, 2008

O SILÊNCIO

(publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Setembro) 


Estamos a meses do início de um novo ciclo eleitoral, que vai ser já ali ao virar da porta. Em 2009 sucedem-se eleições europeias, autárquicas e legislativas e a verdade é que o panorama político está confuso. À direita PP e PSD têm crises internas de diferentes matizes e não souberam aproveitar estes três anos do ciclo do PS no poder para se reorganizarem, para definirem estratégias, para produzirem um programa alternativo credível. Um e outro partido enredaram-se em disputas internas de poder absolutamente estéreis.


E, no entanto, a oportunidade existe: as fragilidades do PS são grandes, os resultados do Governo são discutíveis, o alcance reformista estancou, o próprio PS está dividido entre uma posição mais ao centro e outra mais à esquerda. Mais além, no espectro partidário, o PCP mantém-se igual e o Bloco de Esquerda, ao institucionalizar-se cada vez mais, perdeu o apelo romântico que lhe deu ânimo nos primeiros anos.


No meio deste cenário tão confuso, o mais provável é que os próximos 12 meses não tragam grande novidade, que fique tudo mais ou menos na mesma. A minha convicção é que, sob a ilusão da estabilidade ou a defesa da continuidade, se vai entrar numa etapa de desagregação acelerada da actividade política e partidária tal como a conhecemos. A geração que estava nas faculdades no dia 25 de Abril de 1974 está a entrar na idade da reforma e quando olha para trás não tem muito com que se orgulhar – foram demasiadas as oportunidades perdidas, sobretudo quando comparamos com o que se passou aqui mesmo ao lado, em Espanha.


Quando as eleições começam a ficar próximas, quem está no poder deixa de tomar medidas polémicas, passa a estar mais sensível à opinião pública e tem tendência a ter mais cuidado com o que diz, com o que faz e, sobretudo, com o que anuncia querer mudar. Fazer grandes mudanças em ano eleitoral pode ser bom a médio-longo prazo, mas nunca é bom para quem quer assegurar maiorias.  Vamos entrar oficialmente no ano de todas as promessas. Preparem-se – o que ainda não se fez, tão cedo não se fará. Vivemos num país adiado por promessas eleitorais. 2008, como se está a ver, é o ano de todos os silêncios – apenas a tradução do enorme vazio que nos cerca. 

 


 

agosto 31, 2008

Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Agosto

COMUNICAR – O PSD está em vias de deixar de ser um partido político para se tornar num fórum de discussão sobre como comunicar. Como bem refere Luís Paixão Martins no seu blog (lpm.blogs.sapo.pt), «é  a comunicação quem organiza a nossa sociedade» e não se pode fugir a isso. Com a devida vénia aqui fica uma citação mais alongada, não seria fácil dizer melhor sobre o tema: « a base eleitoral de um partido político, dos activistas mais fundamentais aos votantes menos firmes, é uma comunidade que precisa de estar permanentemente a ser conduzida pela Comunicação. O que pensa hoje o eleitorado potencial do PSD, incluindo os seus principais activistas, sobre os temas “políticos” das últimas semanas? Quem lhe deu os argumentos para formar um pensamento coerente e dinâmico? Que racional é que ele tem para estruturar uma ideia de alternativa às políticas do Governo (que são devidamente comunicadas)? ». A contenção comunicacional, como LPM afirma, na realidade está a dificultar a criação do “cimento” interno que o PSD precisa para se manter. No meio de tudo isto o que mais me custa é assistir à transformação da política numa mera sucessão de auditorias e de «due dilligencies», rigorosa e desapaixonadamente feitas e apresentadas, em vez de uma actividade de criação de estratégias e tácticas alternativas. 

 


 


SEGURANÇA – No caso da proliferação de acções de crime violento nos últimos tempos acho que é injusto assacar as responsabilidades em exclusivo à actuação do Ministério da Administração Interna. Uma boa parte da culpa e uma grande parte das causas deve ser procurada na actuação do Ministério da Justiça e do sistema judicial em geral, que repetidamente criou ao longo dos anos a noção da impunidade, da suavidade das punições, que tornou vulgar que detidos em flagrante delito fossem soltos no dia a seguir, ou ainda a criação de reformas legislativas que não conseguem ser eficazes no objectivo de combater a criminalidade. E sobre isto tudo muito estranho o silêncio do Ministro da Justiça e do Primeiro Ministro. 

 


 


 


METRO – O Metropolitano de Lisboa está muito contente por ter melhorado os seus resultados operacionais em 2007. Eu, que habito e trabalho em Lisboa, não consigo compreender a impunidade com que o Metropolitano não cumpre prazos das obras e não tem o menor respeito por quem anda na cidade. No prolongamento da linha vermelha a zona do Saldanha a S. Sebastião está completamente esventrada há anos. Depois de várias actualizações de prazo, a placa das obras dizia que elas ficariam concluídas no segundo trimestre de 2008. Vamos quase no fim do terceiro trimestre e tudo continua na mesma. Pior: não há actualização de informação, não há respeito pelos lisboetas, não há decência. A Câmara Municipal de Lisboa não pode multar o Metropolitano pelos transtornos que ele causa?  

 


 


METRO – No site do Metropolitano de Lisboa existe uma grande lenga-lenga sobre o apego da empresa às artes, apresentando um programa de acções culturais nas estações. O site esquece-se de referir as acções que de facto marcam a actuação da empresa nas estações, como a destruição dos painéis de azulejos originais de Maria Keil, feitos na década de 60. Face à destruição foi colocada a questão de saber se seria devida indemnização à autora. Pois a decisão do Metropolitano foi a de que não havia lugar a indemnização porque a autora tinha oferecido a obra, não tendo sido por ela remunerada. É de mim, ou o mundo está ao contrário? O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa não quererá instruir o seu representante na Administração do Metropolitano para que estas coisas não aconteçam, ou António Costa prefere esquecer o assunto? 

 


 


RENOVÁVEIS – Imprescindível a leitura do artigo de Nigel Lawson na edição da revista «Time», intitulado «What´s Green And Goes Pop?». A ideia geral é que depois da explosão da bolha da internet e da explosão da bolha do crédito subprime, a próxima bolha a explodir será a dos investimentos nas energias renováveis. Lawson explica como os subsídios governamentais estão a distorcer a paisagem do investimento em energias renováveis, questiona uma série de decisões e práticas, da União Europeia por exemplo, e desmistifica algumas crenças comuns sobre o aquecimento global e a exequibilidade do protocolo de Kyoto. Vale a pena ler e meditar, digitem o nome do autor ou do artigo no site da «Time» (www.time.com ) e chegarão lá com facilidade. 

 


 


MAGNOLIA – Em tempos habituei-me a frequentar um restaurante deste nome perto do Campo Pequeno. O restaurante cresceu para uma mini-cadeia de lojas e abriu há pouco tempo uma delas nas Avenidas Novas. Em duas visitas tive duas decepções: em primeiro lugar no serviço, quer ao balcão, quer na sala – porque é estes restaurantes desprezam o serviço? E depois na confecção e qualidade da comida, nas duas ocasiões, me pareceu bem pouco aliciante. Vou dar ao caso o benefício da dúvida mas no entretanto sugiro aos responsáveis do Magnólia que provem, ali bem perto, os pastéis de massa tenra da Pastelaria Sá, na esquina da Miguel Bombarda com a Conde de Valbom, para perceberem como as coisas devem ser feitas. E já agora, passem a ter Água das Pedras em vez das outras que propõem em alternativa, é irritante limitar as escolhas aos consumidores, sobretudo quando não é para melhor. 

 


 


OUVIR – A banda sonora da semana é mais um disco da colecção «Verve Originals», desta feita «The Ramsey Lewis Trio At The Bohemian Caverns». Gravado nesse bar de Washington em Junho de 1964, este disco inclui, logo a abrir, um medley extraordinário de temas de «West Side Story» e depois versões fantásticas como a que é apresentada de «Fly Me To The Moon».  

 


 


BACK TO BASICS – O silêncio alimenta-se a ele próprio e quanto mais tempo fôr mantido, mais difícil se torna encontrar alguma coisa para dizer – Samuel Johnson 

 

agosto 24, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de 22 de Agosto

A NOVA CORRUPÇÃO – Nos últimos tempos tem-se assistido ao surgimento de uma nova corrupção, que não tem a ver nem com vantagens pecuniárias, mas sim com vantagens políticas, poder e um recorrente espírito messiânico (o caminho da razão, a certeza de bem fazer, os detentores da verdade, os que só querem o bem do próximo desde que feito por eles). O maior exemplo deste espírito de corrupção política e ideológica está na Câmara Municipal de Lisboa e é personificado por José Sá Fernandes. Eleito pelo Bloco de Esquerda, foi-se distanciado da força que o elegeu com o também messiânico slogan «O Zé faz falta». Nos últimos tempos a sua posição confunde-se com a do PS e ele pouco mais é que um alter ego de António Costa- sempre em nome do bem colectivo. Esta forma de estar na política, ziguezagueando, é uma nova forma de corrupção do sistema, de total desrespeito pelos eleitores e de uma nova forma de demagogia e de populismo tão perigosa como todas as outras.   

 


 


AS EXPLOSÕES – Sucedem-se as explosões nos bairros sociais da periferia das grandes cidades. O fenómeno não é novo nem nacional, existe um pouco por todo o mundo mas seria bom que, aqui, os responsáveis pelo que foi feito e os actuais responsáveis analisassem as causas e estudassem medidas. A «reinserção social» defendida pelas almas cândidas em meados dos anos 80 e princípios dos anos 90 tornou-se num barril de pólvora com rastilho curto. Ao longo dos anos o Estado, as polícias e as autoridades diversas deram sucessivos sinais de impunidade e de alheamento de tudo isto. Retomar capacidade de dissuasão, voltar a garantir segurança e conseguir exercer autoridade não vai ser tarefa fácil e, sobretudo, não se conseguirá concretizar apenas com palavras – este é o outro lado, mais fundo e perigoso, da crise do sistema judicial português. 

 


 


POLÍCIA – Há semanas a polícia e os bombeiros foram chamados, por amigos e familiares, para arrombarem uma casa onde residia um casal de idosos que há dias não dava sinais de si. Uma vez dentro de casa depararam-se com um cenário de horror e destruição, com ambos os idosos com sinais de agressão e maus tratos, necessitando os dois de cuidados hospitalares. Pois a polícia, presente no local, não recolheu provas, não procurou indícios, não isolou o local, não abriu uma investigação. Limitou-se a fazer figura de corpo presente para a abertura da porta e fechou os olhos à realidade à sua frente. Será isto uma coisa normal? 

 


 


AS FÉRIAS – O Primeiro Ministro foi a banhos depois de ter anunciado como exclusivo do seu Governo uma coisa que afinal que já existia há meses em vários países (o computador Magalhães que é o Classmate concebido pela Intel para os países do terceiro mundo). No regresso de férias anuncia como grande triunfo a criação de um call center da PT na zona de Santo Tirso, mas as duas centrais sindicais lançam críticas à política de emprego do Governo. Pior que isso, é brindado com uma declaração do seu amigo Hugo Chávez, que publicamente anuncia ao mundo que Sócrates lhe garantiu em Lisboa que a economia portuguesa estava estagnada. Pior ainda, tudo indica que não vai conseguir fazer a propaganda que desejaria em torno dos resultados portugueses nos Jogos Olímpicos. 

 


 


CULTURA -. Da maneira que este Governo tem funcionado, mais vale repensar a existência, em próximos executivos, de um Ministério da Cultura. Falta de peso político, falta de estratégia e decisão, perca de iniciativa para a área da Economia e Turismo, paralisia das instituições, ausência de projecto, actividade residual. Para que serve manter uma máquina assim? 

 


 


PETISCAR – Delicados filetes de linguado com açorda (fritos no ponto), amêijoas fresquíssimas, azeitonas excepcionalmente bem temperadas e, a rematar, a melhor talhada de melão do ano. Onde se passa tudo isto? No restaurante Rosita, na Estrada Nacional 10, na esquina com a estrada que liga a Brejos de Azeitão. Em cima sala para não fumadores, em baixo sala para cigarros. Fecha à quinta, ementa variada – picanha muito bem fatiada é uma alternativa para os carnívoros. Telefone 212 189 133. 

 


 


LER – Um dos meus livros destas férias tem sido «Tóquio Ano Zero» de David Pearce, um «thriller» passado no Japão, em Tóquio, logo a seguir ao fim da Segunda Grande Guerra. Investigações sobre violações e assassinatos de jovens raparigas cruzam-se com o renascer do crime organizado, com a perseguição às autoridades do período da guerra, com a miséria que alastra pelo país. É um retrato pouco conhecido no ocidente, a miséria a conviver com o sexo, o cruzamento da investigação policial com as tradições e convenções milenares de uma sociedade em clara ruptura. Na origem a história, real, de um serial killer, Kodaira Yoshio, e do detective Minami que tenta deslindar os mistérios envoltos em jogos de poder. A escrita de Pearce é além disso notável, com um sentido rítmico perturbante e envolvente, por vezes a sugerir poesia no meio das mais complexas situações. Nota positiva para a boa tradução, de Rita Graña, para a editora «Tinta da China». 

 


 


OUVIR – Esta semana destaco mais um disco da fabulosa colecção «Verve Originals» distribuída por cá no início do Verão. É uma gravação ao vivo, protagonizada  por B.B. King e foi feita no Apollo Theatre em 10 de Novembro de 1990, com King a ser acompanhado pelo pianista Gene Harris e a Philip Morris Super Band, recheada de grandes músicos. É um disco de blues absolutamente imperdível, que abre com a versão de BB King para um original dos U2, «When Love Comes To Town» e passa por temas clássicos como «The Thrill Is Gone», «Sweet Sixteen» e «Since I Met You». CD «BB King Live At The Apollo», Verve Originals, Universal Music. 

 


 


BACK TO BASICS –Oitenta por cento do segredo do êxito reside em aparecer o mais possível – Woody Aleen. 

 

agosto 16, 2008

Publicado no Jornal de Negódios de 14 de Agosto

PSD – Até posso compreender que Manuela Ferreira Leite se queira distanciar do folclore dos comícios de Chão da Lagoa ou do Pontal; o que já me custa a perceber é que se queira distanciar de qualquer forma de pronunciamento político e que tenha decidido fechar para férias – o site do PSD não é actualizado desde o fim de Julho. A política tem rituais, os partidos têm rituais e a política é feita com uma boa dose de razão e uma boa dose de emoção. Se um dos ingredientes falha, fica o cozinhado estragado.


 


EXEMPLO – Jorge Nunes é o Presidente da Câmara de Bragança, eleito pelo PSD. Nesta década investiu 22 milhões de euros em infraestruturas, equipamentos e actividades culturais. É provavelmente o maior investimento de uma autarquia na área da cultura. Pelo caminho estabeleceu parcerias (com Serralves, por exemplo) e pôs de pé um Teatro Municipal que tem uma taxa de ocupação de 75 % e que apresenta produções actuais e diversificadas. Não conheço Jorge Nunes, mas sei que um autarca que investe assim faz mais pela criatividade, pela capacidade de atracção de quadros e pelas condições de vida do seu concelho do que os que só sabem fazer rotundas e vias rápidas. Bragança tem também um Centro de Ciência que me dizem ser exemplar. António Costa bem podia pôr os olhos nesta estratégia e nesta forma de agir, em vez de reduzir Lisboa ao vil e apagado estado em que se encontra em matéria cultural.


 


OLÍMPICOS – A Eurosport está a dar dez a zero à RTP na qualidade dos comentários que acompanham as suas transmissões dos jogos olímpicos. A cerimónia da abertura dos jogos, via RTP, foi um exercício de preguiça e indigência mental dos respectivos comentadores. No canal Eurosport percebeu-se que os comentadores portugueses que estavam de serviço tinham feito o trabalho de casa e não abriam a boca apenas para ocupar espaço


 


DELICIOSO – As publicações Serrote editam objectos tipográficos que vão de cadernos a cartões, passando por livros. São edições especialíssimas cujos temas vão desde motivos minhotos a futebolísticos, passando pela caligrafia ou tecidos estampados, para além de uma magnífica série de cartões para diversas ocasiões. A meio caminho entre o recambolesco e o saudosista, as edições Serrote marcam um espaço de imaginação que é o ideal para uma prenda surpresa. Estes deliciosos objectos completamente portugueses são feitos com os cuidados da velha arte tipográfica e estão á venda nos Estados Unidos, na Coreis do Sul, na Alemanha, no Brasil, Espanha. Bélgica, Japão, Austrália, França e Finlândia. Por cá existem em várias cidades nas boas livrarias indicadas no site www.serrote.com .


 


BEIRA DA ESTRADA – No Verão gosto de parar nos restaurantes e snack bares de beira da estrada que tenham camiões e motocicletas paradas à porta. Quantos mais camiões e motocicletas, maior a probabilidade de se comer bem. Nestes restaurantes é frequente que a banda sonora do jantar tenha juras de amor em forma de canção, invariavelmente transmitidas pela Romântica FM, a rádio que mais toca nestes estabelecimentos. Nestes sítios não há pretensiosismo, apenas serviço simpático e amigável, boa matéria prima, abundância e qualidade de confecção. Tudo isto se encontra em «O Retiro do Gama», que se orgulha do peixe fresco, do choco frito (às vezes também há enguias para fritar…) das amêijoas, caracóis, salada de polvo e da doçaria de inspiração conventual feita na casa. O vinho a jarro é da região e acompanha bem. O «Retiro do Gama» fica ena rua principal de Cabanas, Quinta do Anjo, Palmela, e pode ser contactado pelo 965710693. Fecha às segundas e terças. 


 


LER – Philip Kerr é um escritor escocês de livros policiais, grande parte baseados em incidentes surgidos no pós II Grande Guerra. «The One From The Other» conta uma história com passagem pela Alemanha no início da reconstrução, pelos primórdios do Estado de Israel, e pela forma como os maus espíritos – americanos ou nazis – se podiam facilmente encontrar e entender nesses tempos. A escrita é descritiva, cinematográfica – não há-de ser por acaso que ele vendeu os direitos para cinema de cada um dos 14 livros que já escreveu. «The One From Another» começa em Berlim, em Setembro de 1937, mas é verdadeiramente em Munique, no ano de 1949, que a acção começa a ganhar forma. Eduição Quercus Fiction, 400 páginas, comprado na Amazon.


 


OUVIR – Terry Callier é um daqueles nomes meio esquecidos no meio do jazz norte-americano. Autor e intérprete, músico e cantor, Callier é um exemplo de grandes canções, com uma inspiração vinda dos blues, baseadas numa simplicidade tão grande como a sua beleza. No final dos anos 90 Callier foi redescoberto por alguns DJ's que passaram a integrar samples de gravações suas nas misturas que apresentavam. «Occasional Rain», o seu histórico disco de 1972, foi agora reeditado pela Verve numa colecção absolutamente fabulosoa, a que hei-de aqui voltar, a «Verve Originals». Amigo de infância de Curtis Mayfield, Callier tem voltado recentemente aos estúdios, como aconteceu este ano, ao lado dos Massive Attack. Se puderem descubram a força e o encanto das canções deste «Occasional Rain». CD Verve/ Universal.


 


GUERRA – O meu filho mais velho, que tem 19 anos e está de férias, telefonou-me a perguntar que guerra era esta, referindo-se à invasão da Geórgia pela Rússia. Que se responde a isto?


 


BACK TO BASICS – A guerra gosta de aparecer como um ladrão pela noite, Ambrose Bierce.

agosto 10, 2008

OLÍMPICOS

Quando quero ver transmissões dos Jogos Olímpicos, sempre que tenho possibilidade, escolho a Eurosport. Os comentários da RTP são muito piores e tipicamente quem está ao microfone não fez o trabalho de casa. Na Eurosport ao menos sente-se que se prepararam e que não falam apenas para encher o vazio.

SOARES, CORREIOS E OUTRAS ANOMALIAS NO MEIO DE FÉRIAS

QUEDA LIVRE – Há coisas que um ex-Presidente da República não tinha necessidade de fazer. O artigo de Mário Soares desta semana sobre a comunicação de Cavaco Silva é uma dessas coisas. Soares nunca aceitou a derrota nas urnas, acha-se de uma elite política superior às escolhas do voto e bem que podia remeter-se ao silêncio, quer neste caso, quer nos apoios a Hugo Chávez. E o remeter-se ao silêncio significava ter o bom senso de não fazer as patéticas «Conversas de Mário Soares» nem o lamentável «O Caminho Faz-se Caminhando», com Clara Ferreira Alves, ambos na RTP. Isto não é serviço público, é frete político (saudosista ainda por cima) – vai uma enorme diferença. 

 


 


EFEITOS DO CALOR – « Depois de ter proibido as massagens, o comandante da zona marítima do Algarve, Reis Águas, resolveu proibir a distribuição de maçãs nas praias algarvias por considerar que esta acção seria apenas pura publicidade. A Associação de Produtores de Maça de Alcobaça pretendia distribuir as maçãs gratuitamente, como o fez em 2007, nas praias entre Aveiro e Lisboa. O presidente da Associação de Produtores, Jorge Soares, defende-se, dizendo que o objectivo da acção era o de sensibilizar para os benefícios de comer maçãs. Algumas capitanias proibiram a distribuição deste fruto, alegando tratar-se de publicidade que sujaria as praias. O Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, Manuel Carrageta, não consegue entender tal proibição. Esta acção, um projecto em parceria com a Comissão Europeia, e o ministério da agricultura, que tinha como objectivo combater a obesidade não vai poder acontecer, ao contrário do que tem acontecido noutros anos.» (à excepção do título, integralmente citado da minha fonte de notícias em férias, www.tsf.pt ).


 


SUGESTÃO – Que O Sr. Reis Águas se junte ao Sr. Nunes da ASAE e vão os dois de viagem para Marte – a coisa lá parece carecer de regulação…


 


CTT – Descobri esta semana que a minha correspondência andava a ser entregue há quase dois meses na casa de um vizinho, da mesma rua. O nome da casa é parecido, os nomes dos endereços não têm nada a ver. Na realidade os carteiros já não são o que eram, os CTT já nem cartas conseguem entregar aos seus destinatários. Não sei que formação dão aos carteiros, não sei se quando começam uma ronda nova lhes explicam onde ficam as ruas e as casas das ruas sem numeração, a verdade é que a situação me provocou vários prejuízos. E, agora pergunto eu, se os CTT não servem para entregar correio, para que servem afinal? Tenho impressão que os novos negócios dos velhos correios atingiram o «core business» da empresa… 

 


 


LER – Tenho um especial gosto por aquelas editoras que se dedicam a fazer livros que de outra maneira não iria apanhar. Entre elas está a Tinta da China (www.tintadachina.pt), que tem vindo a publicar uma deliciosa colecção de clássicos mal conhecidos, com cuidados na apresentação – capa dura, bom formato, bom papel. A minha leitura destes dias tem sido o delicioso «Dicionário do Diabo» de Ambrose Bierce, um jornalista norte-americano que fez fama com uma coluna num jornal do final do século XIX. Cujos excertos são aqui compilados. Ao contrário do que o título sugere, esta não é uma elegia a Belzebu, apenas um constatar de factos correntes, a maioria actualíssimos e justíssimos. Imperdível o prefácio de Pedro Mexia. 

 


 


OUVIR – Vladimir Horowitz deu o seu derradeiro recital público em Hamburgo, a 21 de Junho de 1987. Tocou Schubert, Schumann, Chopin, Liszt e Mozart. Tinha, nessa data, 83 anos. O recital foi gravado para a rádio NDR Kultur e a Deustche Grammophon fez agora a primeira edição desse registo, uma mostra da capacidade de interpretação e do génio de Horowitz, da sua enorma capac idade de comunicar através da música. CD «Horowitz in Hamburg – The Last Concert», edição disponível na FNAC. 

 


 


VER – Duas sugestões de fotografia, uma a sul e outra a norte. Comecemos pelo sul, Évora, no Palácio da Inquisição., a exposição «Antologia Experimental» de José Manuel Rodrigues, até 30 de Agosto. No Porto, em Serralves, David Goldblatt, um dos maiores nomes da fotografia contem porânea, até 12 de Outubro. Para aguçarem o apetite vejam o blog de Alexandre Pomar (http://alexandrepomar.typepad.com ), imprescindível para seguir fotografia em Portugal, e visitem www.davidgoldblatt.com .


 


DESCOBRIR – Se está de férias e quer descobrir o que se passa de relevante no mundo sugiro em vez de ver os seus emails no computador, visite alguns sites bem interessantes. Para saber as últimas da tecnologiia nada como o www.wired.com . Se quiser saber o que se passa no mundo a boa solução é www.time.com, e ainda pode espreitar as diversas edições da revista no planeta. Se quiser saber o que se passa em Portugal experimente os novos site da TSF, www.tsf.pt , ou então o nosso sempre estimável www.sapo.pt . Se quiser mesmo manter-se em dia sobre o estado da economia, já sabe: www.negocios.pt . 

 


 


 


 


PETISCAR – Setúbal é uma cidade conhecida pela qualidade do seu peixe. Se quiserem experimentar um restaurante onde a matéria prima é fresquíssima, os preços razoáveis, a garrafeira com bons vinhos da região, visitem o «Poço das Fontainhas» e peçam à D.Ana, sempre a circular entre as mesas, sugestões para o que hão-de comer, desde raia à moda do mar até aos salmonetes à setubalense. Vão ver que não se arrependem. Rua das Fontainhas 98, Setúbal, telef 265 534 807. 

 


 


BACK TO BASICS – A política é uma luta por interesses, disfarçada  de disputa por princípios – Ambrose Bierce. 

 

agosto 03, 2008

A ESQUINA DO RIO

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 1 de Agosto)


 


PUFF! – As ruas de Lisboa cheiram mal, os passeios estão sujos, há sítios onde o branco da calçada é uma recordação. A coisa existe em várias áreas, não é só numa – e não se vêem lavagens de rua frequentes. Que se passa com a limpeza na cidade? Das avenidas novas ao Bairro Alto, passando pelo Martim Moniz, o cheiro nestes dias de calor é pestilento. 




INDECÊNCIA – O pequeno Largo do Chiado é dos melhores locais de Lisboa. Nestes dias de Verão, ao fim da tarde, é um corropio de estrangeiros, ouve-se falar todas as línguas, é engraçado ficar numa esplanada a ver o ambiente. Claro que tudo seria melhor se a esplanada estivesse limpa, mas infelizmente não é o caso. A «Brasileira» do Chiado, ao fim da tarde, é o exemplo do que não pode acontecer – já nem falo da degradação das mesas com a pintura toda estalada e geralmente sujas – basta ver o chão. Na zona concessionada da esplanada, ao fim da tarde, acumulam-se sujidades diversas, restos de embalagens, guardanapos de papel, bocados de pacotes de açúcar. Verdadeiramente não sei o que a Câmara anda à espera para pôr o local na ordem e obrigar os concessionários a manter bem limpa e digna a esplanada melhor colocada de Lisboa, protegida pela sombra de Fernando Pessoa. 

 


 


ROMANCE – Muito curiosa a troca de piropos entre João Cravinho e Alberto Martins, ambos destacados socialistas, a propósito da legislação de combate à corrupção. Cravinho, já se sabe, acha que o assunto não está a ser tratado com o rigor devido. E Alberto Martins acusou o toque. Pelo meio ficaram acusações que nem a oposição se lembra de insinuar. Deve ser uma forma de exprimir a fraternidade socialista, suponho. 

 


 


FUTEBOL – No caso da RTP e do Futebol quem tem que explicar o que quer é o representante do accionista Estado, ou seja o Ministro Santos Silva. Convém que esclareça se o accionista Estado, em vésperas de permitir a abertura de um terceiro canal privado, pretende reforçar a competitividade comercial do operador de serviço público. Aqui a única pessoa com responsabilidades é quem dá orientações, ou seja, o accionista. 

 


 


CHINA – Nestes dias todas as revistas trazem fotografias de Pequim, da nova Pequim, em vésperas do início dos Jogos Olímpicos. Estive lá em 1990, um ano depois dos incidentes de Tiananmen, e quando olho para as fotografias actuais das grandes avenidas nem acredito na transformação acontecida em menos de duas décadas. Arquitectura impressionante, soluções de engenharia inovadoras, uma dimensão enorme, uma cidade completamente transformada, uma sociedade em constante mutação.  

 


 


ESQUISITO – O Ministro da Cultura demitiu o Director do Teatro Nacional D. Maria II sem ter tido uma única conversa com ele sobre o seu trabalho. Ninguém questiona o direito de o Ministro escolher a sua equipa e de não ter que viver com as escolhas da sua antecessora, mas não parece curial, sobretudo nesta área, que se evite o frente a frente e que se assine uma exoneração sem se ter dito ao interessado, olhos nos olhos, que iria ser demitido. Como todos os intervenientes nesta história são crescidinhos, resta pensar que existe alguma coisa escondida em toda esta novela. É do interesse público saber o que se passou e não promover jogos da cabra cega. 

 


 


VER – Merece uma visita a exposição de fotografias de João Silva, um fotojornalista português que trabalha no «The Star» de Joanesburgo. Intitulada «Pesadelo», a exposição agrupa imagens do Iraque, do Afeganistão, do Líbano, do Malawi, da África do Sul, do Gana e do Quénia. Pode ser vista na Galeria do «Diário de Notícias», Avenida da Liberdade 266. 

 


 


LER – A mais recente edição da «Vanity Fair» tem reportagens fascinantes sobre as razões do colapso do Banco Bear Sterns e sobre a história dos conflitos entre os herdeiros de Agnelli e, sobretudo, um exemplo de jornalismo investigativo nos bastidores da campanha de Hillary Clinton, sobre as razões que levaram à sua derrota. Mas melhor que tudo é o editorial do director da revista, Graydon Carter, que – sem papas na língua – revela que Bill Clinton andou a denegrir o autor de um anterior artigo da revista sobre as suas actividades pós-presidenciais. Sempre achei que uma revista como a «Vanity Fair» fazia falta por cá. E que fazem falta mais editores como Graydon Carter. 

 


 


OUVIR  - Nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova vale a pena encomendar da Amazon  (já que por cá não existe) a colectânea «The Antonio Carlos Jobim Songbook», uma edição da Verve feita em 1995 para homenagear Jobim aquando da sua morte. Para além da «Garota de Ipanema» por Stan Getz e João Gilberto com o próprio Jobim, o CD inclui versões de Sarah Vaughan («Corcovado»), Wes Montgomery («Insensatez»), Billy Eckstine («Felicidade»), Ella Fitzgerald («Desafinado»), Óscar Peterson («Wave») e Dizzy Gillespie («Chega de Saudade»).  

 


 


COMER – Picanhas há muitas, mas começa a ser raro encontrar uma que seja tenra, bem cortada e grelhada na brasa como deve ser, sem ficar passada e transformada num bocado de sola de sapato. Um novo restaurante em Campolide, ambiente simples e familiar, oferece uma boa alternativa. «O Assador» é especialista em grelhados de peixe e carne, tem serviço simpático e boa matéria prima. O vinho da casa, da região de Aveiras, acompanha bem os grelhados, o preço no fim da refeição é uma boa surpresa –a par da qualidade do bolo de bolacha sugerido para sobremesa. Fumadores autorizados. O Assador, Rua de Campolide 165 A, Tel 21309870783.


 

 


BACK TO BASICS – A Paz, na política internacional, consiste num período de vigarices, entre dois períodos de conflito, Ambrose Bierce. 

 


 

agosto 01, 2008

PÚBLICO COM NOVO SUPLEMENTO DE HUMOR

Notícia:


O jornal diário «Público» lançou hoje um novo suplemento de humor, a encapar o «Inimigo Público», inteiramente dedicado à cidade de Lisboa.


Com quatro páginas e muita quadricormia, o novo suplemento mostra um olhar bem humorado e cáustico sobre a gestão autárquica da capital, incluindo várias declarações de personalidades de diversas origens.


O referido suplemento não indica a periodicidade nem a autoria, embora se admita que pode provir de uma recente reunião que juntou o publicitário Pedro Bidarra com o advogado Ricardo Sá Fernandes e o humorista José Sá Fernandes.