outubro 09, 2008

Publicado no Jornal de Negócios

ADIVINHOS - A recente crise dos bancos de investimento chamou a atenção para as recomendações feitas por analistas com muito pouca experiência, que acabaram por jogar um papel determinante no aconselhamento dos investidores, na criação de expectativas e no semear de ilusões No mercado português assisti, ao longo dos últimos anos, a recomendações feitas por analistas financeiros sobre empresas de media cuja ligeireza – e ignorância - eram de estarrecer. Alguns, mais atrevidos, chegavam a opinar sobre grelhas de programas de estações de televisão ainda antes de elas serem estreadas, projectando rentabilidades sobre formatos que nunca tinham sido testados. A ignorância é geralmente má conselheira, mas quando ainda por cima é arrogante, como foi muitas vezes o caso desses analistas, o resultado só pode ser desastroso. Quem lhes deu ouvidos não se pode vir queixar agora: qualquer especialista lhes poderia ter dito em que pontos as análises eram incorrectas. Só que preferiram adivinhos e vendedores de promessas vestidos de analistas a especialistas - e o resultado está à vista. 

 


 


LISBOA- A corrida às autárquicas em Lisboa já vai mexendo. Alguém destapou a panela das cedências de habitações camarárias, sem se lembrar que o assunto queima muito mais o partido que mais anos esteve no poder em Lisboa, e que foi o PS – aliás é curioso que ninguém faça um trabalho sério sobre as consequências e culpas da gestão socialista de Jorge Sampaio e de João Soares no deficit geral da autarquia, na sua má situação financeira e também nas corruptelas instaladas.  

 


 


CAFÉ – Na proximidade da abertura da Starbucks em Portugal, deixo aqui dito que cada vez gosto mais do velho comércio tradicional que funciona bem. Gosto da qualidade, delicadeza e preço do meu velho café de esquina, do atendimento sabedor do livreiro aqui da rua – em contraste com cadeias mais baseadas no marketing que na qualidade e com muito pouca atenção aos interesses dos consumidores.  

 


 


DESAPARECIDO - Por estes dias dou comigo a apensar onde andará o célebre Tratado de Lisboa, essa peça de força da diplomacia socrática – esse enorme triunfo propagandístico que ocupou páginas e páginas de jornal há um ano atrás. O tratado não está em vigor, deixou de se ouvir falar dele, apesar de ter sido dado como facto consumado. O que é facto é que, de peça fundamental e necessária sem a qual nada se faria, se passou para o extremo oposto de ser uma recordação de um falhanço de que ninguém quer falar. O tratado de Lisboa parece desaparecido, onde está? 

 


 


OUVIR - Em 1972, em Berlim, uma extraordinária reunião de talentos criou aquela que por muitos é ainda considerada como a melhor gravação de sempre da ópera «La Bohème». Herbert Von Karajan dirigiu a Orquestra Filarmónica de Berlim e um naipe de vozes extraordinárias: Mirella Freni, Luciano Pavarotti, Elizabeth Harwood, Rolando Panerai, Gianni Maffeo e Nicolai Ghiaurov, entre outros. «La Bohème», uma das mais populares óperas de sempre, foi escrita por Giacomo Puccini em 1896, no início da fase mais brilhante da sua carreira. De entre as gravações feitas ao longo dos anos, os críticos são unânimes em destacar duas – uma dirigida por Sir Thomas Beecham em 1956 e outra, este registo berlinense dirigido por Karajan e editado pela Decca . Por ocasião das celebrações do centésimo aniversário do nascimento de Karajan, a Decca promoveu uma reedição, magnífica, agora à venda, que inclui a transcrição integral do libretto e uma série de textos sobre a gravação e sobre todos os seus intervenientes, para além de um disco extra com o registo de uma divertida conversa de Mirella Freni com Catherine Bott.


A gravação original foi remasterizada digitalmente a 24 bits. Edição Decca, distribuição Universal Music. 

 


 


LER - A edição deste mês da revista «Vanity Fair» celebra o 25º aniversário desta segunda fase da revista, iniciada em 1983. A «Vanity Fair» tinha tido uma vida anterior, com início em 1913, e que acompanhou o nascer o jazz e do cinema. A segunda fase, dos anos 80, acompanhou as carreiras de nomes como Madonna e Demi Moore – algumas das caras mais presentes nas 309 capas desta fase da revista e que são todas reproduzidas neste número de Outubro – cuja capa é dedicada a Marilyn Monroe e a uma nova investigação aos últimos tempos da sua vida, com novos documentos e fotografias. Outros pontos de interesse nesta edição são o habitual «Questionário de Proust», desta vez respondido por Michael Bloomberg. Uma conversa com a fotógrafa Annie Leibowitz sobre o seu método de trabalho e uma bela entrevista a Rupert Murdoch são ainda outros pontos altos. No entretanto deliciem-se com o site da edição inglesa, www.vanityfair.co.uk  ou da edição americana www.vanityfair.com 

 


 


VER – Uma das mais marcantes exposições que me foi dado ver abriu esta semana em Lisboa na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa (Edifício de Espanha, Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º, no Bairro de Santos). A exposição chama-se «Aquilo sou eu» e agrupa obras da vasta colecção de Safira e Luis Serpa, centrada em auto-retratos de artistas contemporânos portugueses e estrangeiros. As peças expostas resultam de um desafio feito em tempos para que os artistas se retratassem a eles próprios independentemente do suporte e da forma como o fizessem. O resultado é impressionante de diversidade, cativante pela relação de cumplicidade e proximidade que o casal de coleccionadores manteve com os artistas. A exposição estava programada e a ser preparada há meses, mas o facto de ter surgido após a morte de Safira Serpa dá-lhe uma carga emocional e simbólica invulgares – uma homenagem a uma forma muito especial e delicada de estar na vida. A exposição pode ser vista às 4ªas, 5ªas e 6ªas entre as 14 e as 20 horas e aos sábados entre as 14 e as 19 horas. 

 


 


BACK TO BASICS – Hollywood é o local onde nos pagam mil dólares para terem um beijo e cinquenta cêntimos para ficarem com a alma – Marylin Monroe. 

 

 

UMA ENTIDADE OBEDIENTE

(publicado no diário «Meia Hora»)


Neste ultimo fim-de-semana soube-se que a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) colocou entraves ao acesso à documentação sobre a investigação às tentativas de pressão do Primeiro-Ministro a vários orgãos de comunicação, no caso da conclusão da licenciatura de José Sócrates.


Sabe-se agora – segundo o «Expresso» noticiou - que o relatório que sobre este assunto a ERC elaborou minimiza todos os depoimentos e dados que indicavam a existência de pressões do Gabinete do Primeiro Ministro, e do próprio José Sócrates, para tentar impedir o surgimento de notícias sobre a licenciatura que obteve na Universidade Independente.


A ERC entendeu há cerca de um ano que devia arquivar o caso, apenas com um voto contra, dando assim provimento à tese Governamental que não teriam existido pressões. Sabe-se agora que os membros da ERC trocaram entre si «insultos, ameaças e intimidações» a propósito do relatório, e, em especial, da possibilidade de chamar o Primeiro-Ministro a depor. Sabe-se que essa extraordinária figura da política à portuguesa, chamada Estrela Serrano, e que integra a ERC, achou por bem dizer a jornalistas que noutros países é pior e recomendar aos seus pares que o Primeiro Ministro deve ser respeitado. Ora eu acho que, na realidade, a ideia subjacente é que o Primeiro Ministro não deveria ser incomodado com estas questões de estar a fomentar o condicionamento da informação. Isto é de uma enorme gravidade: quando se fala de respeito a altas individualidades num caso em que a liberdade de imprensa é posta em causa por elas próprias, estamos perante a mais indigna das posições – quem pensa assim não pode estar num órgão regulador.


Com este relatório e tudo o que sobre ele agora se conhece, esta ERC perdeu os últimos laivos de credibilidade que tinha. A composição desta entidade foi cozinhada nos corredores da Assembleia pelo fatídico Bloco Central em depois de tudo o que agora se sabe, os membros do Conselho da ERC deviam ter a dignidade de se demitirem.


Cada regime tem os órgãos que merece e a Entidade Reguladora da Comunicação é bem o exemplo do que vai mal na actividade política, do primado da ocultação dos podres sobre a divulgação da verdade, de nomeações de conveniência e não de competência, de transferência da guerrilha partidária para órgãos que deviam ser reguladores. Sócrates gosta de ser obedecido. A ERC tem-lhe obedecido. 

 

setembro 21, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Setembro)

EXACTO - Não resisto a começar esta coluna por citar um «post» de Manuel João Ramos no blog «O Carmo E A Trindade»:  «Que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade é quase um golpe de estado.» 


 


ABUSO - Acho um bocado aborrecido que o Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa se ponha a escrever artigos de opinião contra uma das religiões. Foi o que se passou esta semana com Mário Soares que resolveu lançar-se em vôo picado contra o Papa. Talvez valesse a pena Soares rever as posições que ocupa – o seu passado não justifica nem desculpa tudo. E eu, que não sou católico, acho incompreensível este tipo de comportamento.


 

 


CONCERTO - Parece que esta semana está na moda dizer mal de Madonna. Pois eu gostei do concerto de Madonna, tal como gosto de Madonna propriamente dita. Foi uma produção monumental, uma máquina absolutamente impressionante de fazer espectáculo. Arranjos novos de velhas canções – a maior parte bem conseguida – coreografias e cenografias impecáveis, o toque da aventura cigana particularmente bem conseguida, quer a nível musical, quer no guarda roupa, quer na forma de encher o palco. Claro que um concerto ao ar livre não é visto por todos em condições ideais, mas isso é o risco de quem quer ver produções desta natureza.  

 


RISO - Os dias começam melhor quando se ouve Bruno Nogueira logo de manhã na TSF – por volta das nove e vinte lá vem o «Tubo de Ensaio», que depois é repetido duas vezes à tarde. Também pode ser ouvido no site da TSF, e ali vale tudo, desde ouvir chamar «McGyver dos comentários a Moita Flores», até uma descrição impagável do novo cabelo de Nuno Rogeiro. Para além do trabalho de Bruno Nogueira, é justo destacar os textos de João Quadros. Humor no seu melhor. 

 


 


 


MÚSICA- Stefano Bollani é um pianista de jazz italiano que tem dedicado boa parte da sua carreira a interpretações baseadas em standards da música popular brasileira. «Carioca» é o seu mais recentre disco, e inclui versões muito cool e swingantes de temas como «Luz Negra», «Choro Sim», «Segura Ele», «Valsa Brasileira», «Doce de Coco», «Folhas Secas» ou «Samba e Amor» entre outros. Neste disco Bollani privilegiou o samba e o choro, mas numa gravação anterior, «Falando de Amor» dedicou-se à obra de António Carlos Jobim. Neste «Carioca» é acompanhado por bons músicos brasileiros sobre este reportório tão rico de autores como Edu Lobo, Chico Buarque, Pixinguinha, Jacob do Bandolim ou Ismael Silva, entre outros. O risco de fazer um disco insuportável neste cruzamento entre jazz e samba e choro era grande – mas «Carioca» é uma obra conseguida, com um ritmo contagiante. CD Emarcy/ Universal. 

 


 


LEITURA - Na revista «Monocle» deste mês a Europa é tema em destaque – a começar pela análise implacável que um investigador, Richard G. Whitman, faz sobre a construção européia, com observações impressionantes sobre o que está a falhar e a acabar um pouco mais à frente uma análise das razões que levaram três países a situações difíceis – o Reino Unido, a Itália e a Bélgica. No resto da edição há muito que ler e ver – um belo portfólio sobre cinema mexicano e produções de moda de rara qualidade. A «Monocle» de facto é um objecto invulgar, um manancial de curiosidades, de chamadas de atenção, de pequenas descobertas que ajudam a perceber melhor o que se passa à nossa volta. No editorial deste mês o fundador da revista, Tyler Brûlé, analisa o que pode melhorar a vida de uma comunidade e chega a conclusões que são simples, universais e de bom senso: maior atenção à proximidade, salvaguarda da individualidade e da tradição, boa rede de comunicações, bom comércio local que faça a diferença das redes multinacionais iguais em todo o sítio e boas ligações e transportes. Eu por mim concorco – antes uma bica e uma empada no café da esquina onde o empregado é simpático e atencioso que um folhado sofisticado e sensaborão numa loja da moda com empregados arrogantes e ineficientes. 

 


 


IMAGEM - Vou ver se nos próximos dias consigo ver três exposições de fotografia que me suscitam curiosidade: imagens de Moçambique por Sérgio Santimano na P4 (Rua dos Navegantes 16) – amanhã há uma conversa entre o fotógrafo e o crítico de arte Alexandre Pomar na galeria às 18h00; as imagens de Rodrigo Amado sob o título «Searching For Adam» na Módulo, Calçada dos Mestres 34ª, a Campolide; e imagens de Carlos Afonso Dias realizadas entre 1956 e 2008 na Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes nº10, ao Jardim das Amoreiras. 

 


 


COMIDA - Situado em plena esquina da Rua Latino Coelho com a Rua Filipe Folque, fica o restaurante Latino. Sala espaçosa, num prédio de gaveto, com boa luz natural e mesas espaçosas e muito confortáveis. A cozinha é inspirada na culinária portuguesa, produtos tradicionais de muito boa qualidade, da alheira ao peixe fresco. Em duas ocasiões recentes experiências muito positivas com fígado de vitela absolutamente no ponto e um bacalhau com grão impecável e com tudo o que a tradição manda. Garrafeira a preços decentes, muito bom cesto de pão. Rua Latino Coelho 18, tel 213141897. 

 


 


BACK TO BASICS – Pobre do homem cujo prazer depende da autorização de outro, Madonna 

 

UMA INEVITÁVEL REMODELAÇÃO

(Publicado no diário Meia Hora do dia 17 nde Setembro)

 


O maior problema de José Sócrates nestes dias que correm chama-se Costa. Não António Costa, a quem o Primeiro Ministro deu o presente envenenado da Câmara de Lisboa e que para o ano terá nas eleições autárquicas uma difícil prova perante as dificuldades em federar a esquerda. O grande problema de Sócrates chama-se Alberto Costa e está a afectá-lo onde mais dói, o terreno do descontentamento dos eleitores cujo combustível é a sensação de que o crime deixou de ser punido.


Uma boa parte das embrulhadas dos últimos meses deve-se à forma como foi feita e introduzida a reforma do código penal. É certo que a Justiça é um sector em crise há anos e que funciona mal. Mas também é facto que as coisas pioraram substancialmente no consulado deste Ministro.


Não estou a falar só das questões directamente ligadas às polémicas em torno das novas normas que regulam a prisão preventiva – a crise vai mais funda, passa por falta de condições em tribunais, em rupturas de equipamentos, um não acabar de queixas de juízes, funcionários, e, mais importante, dos cidadãos.


Em declarações recentes o Procurador Geral da República, Pinto Monteiro, comentando de forma indirecta a questão das alterações à lei que reduzem a prisão preventiva, disse a frase mais terrível de todas: «Os primeiros a saber os efeitos das leis são os cidadãos». É um recado claro, que tem uma carga enorme, que é a de focar o assunto na realidade e não no plano teórico. E é precisamente a realidade que o Ministro Alberto Costa tem procurado evitar, refugiando-se em conceitos dúbios e numa postura de teimosia que releva incapacidade de compreender o que se está a passar, dificuldade em reconhecer um erro e necessidade de o corrigir.


A coisa é de tal forma que na última semana várias figuras próximas do PS se demarcaram da forma com que Alberto Costa encara toda a situação e houve mesmo quem dissesse, preto no branco, que ele tinha pouco jeito para ser Ministro – e não foi ninguém da oposição (que continua em retiro espiritual…)


Uma remodelação parece ser inevitável  - é uma questão de escolher o momento que evite mais penalizações e que consiga encontrar uma saída airosa. A um ano de eleições todas as jogadas são perigosas, mas, da forma como Alberto Costa se isolou, os custos de o manter são maiores que os de o substituir.  

 

setembro 16, 2008

PARA QUE SERVEM OS POLÍTICOS?

 


Uma das coisas que mais aflição me faz é a facilidade com que pessoas que nunca tiveram nenhuma experiência profissional relevante surgem, com tanta frequência, em cargos de responsabilidade dos partidos políticos e da vida política. Não são poucos os casos de pessoas que começaram a actividade nas juventudes partidárias e que ingressaram na política a tempo inteiro sem nunca terem tido um contacto diversificado e prolongado com o mundo real.

 

Estas pessoas chegam à política com pouca experiência de adaptação às mudanças, facilmente preferem alimentar guerras e abater inimigos a fazer negociações, habituam-se a viver no mundo da política, que é uma redoma com códigos e comportamentos próprios, viciam-se nos pequenos poderes e fazem análises a partir dos seus próprios interesses.

O retrato parece pessimista? Marques Mendes e José Sócrates, por exemplo, têm uma carreira essencialmente feita nos meandros da política partidária, com passagens reduzidas pela vida real, sem experiência de facto fora de organizações do Estado ou a ele ligadas. Estes políticos dependem dos seus partidos, da sua manutenção na política e muito rapidamente se enredam num terreno onde é fácil confundir-se o interesse colectivo com o interesse pessoal e onde a sobrevivência política se torna numa garantia de sobrevivência pessoal. O poder vicia e distorce a realidade.

 

Nestes últimos dias fiquei verdadeiramente espantado com algumas declarações de jovens que frequentaram a Universidade de Verão do PSD e que se declaram dispostos a ser políticos no velho modelo que hoje conhecemos  - e que é a principal causa do divórcio cada vez maior entre os cidadãos e a política.

 

A política partidária actual representa um paradigma que está no fim de um ciclo que dura há cerca de 200 anos e progressivamente vai deixar de ter a importância que hoje lhe damos – é para este desafio de mudança que todos nos devíamos preparar. Aos poucos caminhamos para uma sociedade onde os políticos passarão a ser actores secundários e não protagonistas principais. A crise que atravessamos apenas fará acelerar a noção de que a actividade política não pode continuar a ser este jogo de habilidosos que desprezam de facto a vida das pessoas.

 

Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Setembro

RUÍDO - No PS existe um trio – Santos Silva, Vitalino Canas e António Vitorino – que serve de tropa de ataque verbal. São os altilfalantes de serviço quando é preciso justificar o injustificável. Um deles – Santos Silva - por acaso, tem a tutela da comunicação social  e já se sabe que este Governo tem uma política de comunicação invulgarmente bem conseguida. É um pouco paradoxal que dois dos elementos deste trio de picaretas falantes tenham lugar de destaque numa iniciativa que se pretende fazer passar por «think tank». Colocar propagandistas à frente de um grupo de reflexão só serve que de lá surja mais propaganda e menos pensamento.

 

SILÊNCIO - Num esforço de compreender a estratégia do silêncio, esperei por ouvir o discurso de Manuela Ferreira Leite. Foi um bom discurso, um diagnóstico certo do estado do país, uma crítica ao que merece ser criticado. O único problema, depois de dois meses de silêncio, é que o discurso, mais coisa menos coisa, repetiu o mesmo que a líder do PSD tinha dito há umas semanas atrás numa entrevista na TVI a Constança Cunha e Sá. E, no fim do silêncio, impunha-se alguma novidade. Em vez disso veio a repetição. Esta falta de novidade apenas serve para reforçar as dúvidas sobre a bondade – e verdadeiras razões - da estratégia do silêncio.

 

LISBOA- À falta de fazer obra e de mudar a cidade, António Costa opta por fazer alianças que lhe permitam semear apoios para as próximas eleições. A negociação com Helena Roseta é mais um caso de hipocrisia política – de ambas as partes. Particularmente desagradável é que o mesmo executivo camarário que acabou com o África Festival venha agora cobrir o novo acordo com umas iniciativas em prol da multiculturalidade.

 

TRIBUNAL - Esta semana foi pródiga em notícias judiciais e a única conclusão que se pode tirar é que, qualquer dia, se começa a poder dizer que com tribunais destes o crime compensa. O que é certo é que um ex-detido já tem uma indemnização mas as vítimas do mesmo processo ainda não.

 

TV - A pouco tempo do início do processo sobre o quinto canal de televisão convém ter presente o papel que ele pode ter, em termos estratégicos, para a reorganização do espaço audiovisual e para a manutenção e desenvolvimento de uma indústria audiovisual falada em português. Há uns anos a SIC e a TVI deram um impulso à produção independente que, durante anos, a RTP não conseguiu dar. À escala, o quinto canal pode e deve potenciar o que já existe  - desde que haja vontade para isso. Não ter isto em conta pode ser fatal para a consolidação da produção audiovisual portuguesa.

 

LEILÃO - Damien Hirst é um artista plástico que se comporta como uma estrela rock – citando a capa da «Time» desta semana. No próximo dia 15 Hirst prepara-se para fazer história ao leiloar através da Sotheby’s um conjunto de 223 obras suas, recentes, propositadamente produzidas para a ocasião, e que se estima poderem gerar vendas de 120 milhões de euros. Será a maior venda de obras de arte de um artista contemporâneo, mas também um marco – Hirst ultrapassou os tradicionais galeristas e vende directamente através de uma leiloeira – quer dizer que em vez de dividir com o galerista, irá receber a totalidade da receita da venda (já que nos leilões o comprador paga a comissão à leiloeira por cima do preço do lance). Na realidade nos leilões os artistas raramente recebem dinheiro já que as obras não lhe pertencem – neste caso é ao contrário. Hirst fez do seu nome uma marca, geriu a sua carreira com cuidado e agora aqui está a sua produção recente, realizada com o auxílio de 120 assistentes em seis ateliers diferentes em Inglaterra. Vão ao site da Sotheby’s (www.sothebys.com), cliquem no delicioso nome da exposição de Hirst («Beautiful Inside My Head Forever») e explorem o que por lá está. Não vão dar o vosso tempo por perdido.

 

COMIDA - O Kaffeehaus é um simpático bar-restaurante que abriu no Chiado, mesmo em frente ao Governo Civil, na Rua Anchieta nº3. A decoração é despretenciosa mas confortável, o ambiente tem a luz certa, o serviço é muito simpático e rápido e na comida – austríaca, claro – destaque para os escalopes de porco panados com salada de batata (bons escalopes, finos, sem óleo a escorrer), o guisado vienense de vaca e um bife de novilho picado acompanhado por um bom puré de batata. Para os mais frugais também há umas saladas, parece que boas. Há vinho a copo, boa cerveja de pressão e nas sobremesas há um incontornável sachertorte, ou seja o bolo de chocolate dos cafés vienenses. Os preços são moderados. Fecha à segunda e o telefone é o 210956828.

 

ESCUTA – Para quem gosta de blues e de jazz aqui fica uma recomendação: corram a ouvir «Two Men With The Blues», um delicioso encontro entre o trompetista Wynton Marsalis e o country singer Willie Nelson, os dois às voltas com standards como «Stardust», «Geórgia On My Mind», «Rainy Day Blues» ou «Bright Lights Big City».

 

LEITURA - De entre as revistas recentes surgidas em Portugal há uma que merece destaque, a «Parq», que se apresenta como revista gratuita de moda e cultura urbana. A frase corresponde à realidade, os artigos são interessantes, o grafismo e a fotografia são exemplares., nesta edição número 6, de Setembro, recomendo o portfólio «Angola Luso», o artigo sobre a fotógrafa Olivia Arthur e sobretudo a pequena história da última página, começada numa operação STOP. Mais informações sobre a revista em www.parqmag.com .

 

BACK TO BASICS – A realidade supera sempre a ficção, Mark Twain.

 

setembro 03, 2008

O SILÊNCIO

(publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Setembro) 


Estamos a meses do início de um novo ciclo eleitoral, que vai ser já ali ao virar da porta. Em 2009 sucedem-se eleições europeias, autárquicas e legislativas e a verdade é que o panorama político está confuso. À direita PP e PSD têm crises internas de diferentes matizes e não souberam aproveitar estes três anos do ciclo do PS no poder para se reorganizarem, para definirem estratégias, para produzirem um programa alternativo credível. Um e outro partido enredaram-se em disputas internas de poder absolutamente estéreis.


E, no entanto, a oportunidade existe: as fragilidades do PS são grandes, os resultados do Governo são discutíveis, o alcance reformista estancou, o próprio PS está dividido entre uma posição mais ao centro e outra mais à esquerda. Mais além, no espectro partidário, o PCP mantém-se igual e o Bloco de Esquerda, ao institucionalizar-se cada vez mais, perdeu o apelo romântico que lhe deu ânimo nos primeiros anos.


No meio deste cenário tão confuso, o mais provável é que os próximos 12 meses não tragam grande novidade, que fique tudo mais ou menos na mesma. A minha convicção é que, sob a ilusão da estabilidade ou a defesa da continuidade, se vai entrar numa etapa de desagregação acelerada da actividade política e partidária tal como a conhecemos. A geração que estava nas faculdades no dia 25 de Abril de 1974 está a entrar na idade da reforma e quando olha para trás não tem muito com que se orgulhar – foram demasiadas as oportunidades perdidas, sobretudo quando comparamos com o que se passou aqui mesmo ao lado, em Espanha.


Quando as eleições começam a ficar próximas, quem está no poder deixa de tomar medidas polémicas, passa a estar mais sensível à opinião pública e tem tendência a ter mais cuidado com o que diz, com o que faz e, sobretudo, com o que anuncia querer mudar. Fazer grandes mudanças em ano eleitoral pode ser bom a médio-longo prazo, mas nunca é bom para quem quer assegurar maiorias.  Vamos entrar oficialmente no ano de todas as promessas. Preparem-se – o que ainda não se fez, tão cedo não se fará. Vivemos num país adiado por promessas eleitorais. 2008, como se está a ver, é o ano de todos os silêncios – apenas a tradução do enorme vazio que nos cerca. 

 


 

agosto 31, 2008

Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Agosto

COMUNICAR – O PSD está em vias de deixar de ser um partido político para se tornar num fórum de discussão sobre como comunicar. Como bem refere Luís Paixão Martins no seu blog (lpm.blogs.sapo.pt), «é  a comunicação quem organiza a nossa sociedade» e não se pode fugir a isso. Com a devida vénia aqui fica uma citação mais alongada, não seria fácil dizer melhor sobre o tema: « a base eleitoral de um partido político, dos activistas mais fundamentais aos votantes menos firmes, é uma comunidade que precisa de estar permanentemente a ser conduzida pela Comunicação. O que pensa hoje o eleitorado potencial do PSD, incluindo os seus principais activistas, sobre os temas “políticos” das últimas semanas? Quem lhe deu os argumentos para formar um pensamento coerente e dinâmico? Que racional é que ele tem para estruturar uma ideia de alternativa às políticas do Governo (que são devidamente comunicadas)? ». A contenção comunicacional, como LPM afirma, na realidade está a dificultar a criação do “cimento” interno que o PSD precisa para se manter. No meio de tudo isto o que mais me custa é assistir à transformação da política numa mera sucessão de auditorias e de «due dilligencies», rigorosa e desapaixonadamente feitas e apresentadas, em vez de uma actividade de criação de estratégias e tácticas alternativas. 

 


 


SEGURANÇA – No caso da proliferação de acções de crime violento nos últimos tempos acho que é injusto assacar as responsabilidades em exclusivo à actuação do Ministério da Administração Interna. Uma boa parte da culpa e uma grande parte das causas deve ser procurada na actuação do Ministério da Justiça e do sistema judicial em geral, que repetidamente criou ao longo dos anos a noção da impunidade, da suavidade das punições, que tornou vulgar que detidos em flagrante delito fossem soltos no dia a seguir, ou ainda a criação de reformas legislativas que não conseguem ser eficazes no objectivo de combater a criminalidade. E sobre isto tudo muito estranho o silêncio do Ministro da Justiça e do Primeiro Ministro. 

 


 


 


METRO – O Metropolitano de Lisboa está muito contente por ter melhorado os seus resultados operacionais em 2007. Eu, que habito e trabalho em Lisboa, não consigo compreender a impunidade com que o Metropolitano não cumpre prazos das obras e não tem o menor respeito por quem anda na cidade. No prolongamento da linha vermelha a zona do Saldanha a S. Sebastião está completamente esventrada há anos. Depois de várias actualizações de prazo, a placa das obras dizia que elas ficariam concluídas no segundo trimestre de 2008. Vamos quase no fim do terceiro trimestre e tudo continua na mesma. Pior: não há actualização de informação, não há respeito pelos lisboetas, não há decência. A Câmara Municipal de Lisboa não pode multar o Metropolitano pelos transtornos que ele causa?  

 


 


METRO – No site do Metropolitano de Lisboa existe uma grande lenga-lenga sobre o apego da empresa às artes, apresentando um programa de acções culturais nas estações. O site esquece-se de referir as acções que de facto marcam a actuação da empresa nas estações, como a destruição dos painéis de azulejos originais de Maria Keil, feitos na década de 60. Face à destruição foi colocada a questão de saber se seria devida indemnização à autora. Pois a decisão do Metropolitano foi a de que não havia lugar a indemnização porque a autora tinha oferecido a obra, não tendo sido por ela remunerada. É de mim, ou o mundo está ao contrário? O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa não quererá instruir o seu representante na Administração do Metropolitano para que estas coisas não aconteçam, ou António Costa prefere esquecer o assunto? 

 


 


RENOVÁVEIS – Imprescindível a leitura do artigo de Nigel Lawson na edição da revista «Time», intitulado «What´s Green And Goes Pop?». A ideia geral é que depois da explosão da bolha da internet e da explosão da bolha do crédito subprime, a próxima bolha a explodir será a dos investimentos nas energias renováveis. Lawson explica como os subsídios governamentais estão a distorcer a paisagem do investimento em energias renováveis, questiona uma série de decisões e práticas, da União Europeia por exemplo, e desmistifica algumas crenças comuns sobre o aquecimento global e a exequibilidade do protocolo de Kyoto. Vale a pena ler e meditar, digitem o nome do autor ou do artigo no site da «Time» (www.time.com ) e chegarão lá com facilidade. 

 


 


MAGNOLIA – Em tempos habituei-me a frequentar um restaurante deste nome perto do Campo Pequeno. O restaurante cresceu para uma mini-cadeia de lojas e abriu há pouco tempo uma delas nas Avenidas Novas. Em duas visitas tive duas decepções: em primeiro lugar no serviço, quer ao balcão, quer na sala – porque é estes restaurantes desprezam o serviço? E depois na confecção e qualidade da comida, nas duas ocasiões, me pareceu bem pouco aliciante. Vou dar ao caso o benefício da dúvida mas no entretanto sugiro aos responsáveis do Magnólia que provem, ali bem perto, os pastéis de massa tenra da Pastelaria Sá, na esquina da Miguel Bombarda com a Conde de Valbom, para perceberem como as coisas devem ser feitas. E já agora, passem a ter Água das Pedras em vez das outras que propõem em alternativa, é irritante limitar as escolhas aos consumidores, sobretudo quando não é para melhor. 

 


 


OUVIR – A banda sonora da semana é mais um disco da colecção «Verve Originals», desta feita «The Ramsey Lewis Trio At The Bohemian Caverns». Gravado nesse bar de Washington em Junho de 1964, este disco inclui, logo a abrir, um medley extraordinário de temas de «West Side Story» e depois versões fantásticas como a que é apresentada de «Fly Me To The Moon».  

 


 


BACK TO BASICS – O silêncio alimenta-se a ele próprio e quanto mais tempo fôr mantido, mais difícil se torna encontrar alguma coisa para dizer – Samuel Johnson 

 

agosto 24, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de 22 de Agosto

A NOVA CORRUPÇÃO – Nos últimos tempos tem-se assistido ao surgimento de uma nova corrupção, que não tem a ver nem com vantagens pecuniárias, mas sim com vantagens políticas, poder e um recorrente espírito messiânico (o caminho da razão, a certeza de bem fazer, os detentores da verdade, os que só querem o bem do próximo desde que feito por eles). O maior exemplo deste espírito de corrupção política e ideológica está na Câmara Municipal de Lisboa e é personificado por José Sá Fernandes. Eleito pelo Bloco de Esquerda, foi-se distanciado da força que o elegeu com o também messiânico slogan «O Zé faz falta». Nos últimos tempos a sua posição confunde-se com a do PS e ele pouco mais é que um alter ego de António Costa- sempre em nome do bem colectivo. Esta forma de estar na política, ziguezagueando, é uma nova forma de corrupção do sistema, de total desrespeito pelos eleitores e de uma nova forma de demagogia e de populismo tão perigosa como todas as outras.   

 


 


AS EXPLOSÕES – Sucedem-se as explosões nos bairros sociais da periferia das grandes cidades. O fenómeno não é novo nem nacional, existe um pouco por todo o mundo mas seria bom que, aqui, os responsáveis pelo que foi feito e os actuais responsáveis analisassem as causas e estudassem medidas. A «reinserção social» defendida pelas almas cândidas em meados dos anos 80 e princípios dos anos 90 tornou-se num barril de pólvora com rastilho curto. Ao longo dos anos o Estado, as polícias e as autoridades diversas deram sucessivos sinais de impunidade e de alheamento de tudo isto. Retomar capacidade de dissuasão, voltar a garantir segurança e conseguir exercer autoridade não vai ser tarefa fácil e, sobretudo, não se conseguirá concretizar apenas com palavras – este é o outro lado, mais fundo e perigoso, da crise do sistema judicial português. 

 


 


POLÍCIA – Há semanas a polícia e os bombeiros foram chamados, por amigos e familiares, para arrombarem uma casa onde residia um casal de idosos que há dias não dava sinais de si. Uma vez dentro de casa depararam-se com um cenário de horror e destruição, com ambos os idosos com sinais de agressão e maus tratos, necessitando os dois de cuidados hospitalares. Pois a polícia, presente no local, não recolheu provas, não procurou indícios, não isolou o local, não abriu uma investigação. Limitou-se a fazer figura de corpo presente para a abertura da porta e fechou os olhos à realidade à sua frente. Será isto uma coisa normal? 

 


 


AS FÉRIAS – O Primeiro Ministro foi a banhos depois de ter anunciado como exclusivo do seu Governo uma coisa que afinal que já existia há meses em vários países (o computador Magalhães que é o Classmate concebido pela Intel para os países do terceiro mundo). No regresso de férias anuncia como grande triunfo a criação de um call center da PT na zona de Santo Tirso, mas as duas centrais sindicais lançam críticas à política de emprego do Governo. Pior que isso, é brindado com uma declaração do seu amigo Hugo Chávez, que publicamente anuncia ao mundo que Sócrates lhe garantiu em Lisboa que a economia portuguesa estava estagnada. Pior ainda, tudo indica que não vai conseguir fazer a propaganda que desejaria em torno dos resultados portugueses nos Jogos Olímpicos. 

 


 


CULTURA -. Da maneira que este Governo tem funcionado, mais vale repensar a existência, em próximos executivos, de um Ministério da Cultura. Falta de peso político, falta de estratégia e decisão, perca de iniciativa para a área da Economia e Turismo, paralisia das instituições, ausência de projecto, actividade residual. Para que serve manter uma máquina assim? 

 


 


PETISCAR – Delicados filetes de linguado com açorda (fritos no ponto), amêijoas fresquíssimas, azeitonas excepcionalmente bem temperadas e, a rematar, a melhor talhada de melão do ano. Onde se passa tudo isto? No restaurante Rosita, na Estrada Nacional 10, na esquina com a estrada que liga a Brejos de Azeitão. Em cima sala para não fumadores, em baixo sala para cigarros. Fecha à quinta, ementa variada – picanha muito bem fatiada é uma alternativa para os carnívoros. Telefone 212 189 133. 

 


 


LER – Um dos meus livros destas férias tem sido «Tóquio Ano Zero» de David Pearce, um «thriller» passado no Japão, em Tóquio, logo a seguir ao fim da Segunda Grande Guerra. Investigações sobre violações e assassinatos de jovens raparigas cruzam-se com o renascer do crime organizado, com a perseguição às autoridades do período da guerra, com a miséria que alastra pelo país. É um retrato pouco conhecido no ocidente, a miséria a conviver com o sexo, o cruzamento da investigação policial com as tradições e convenções milenares de uma sociedade em clara ruptura. Na origem a história, real, de um serial killer, Kodaira Yoshio, e do detective Minami que tenta deslindar os mistérios envoltos em jogos de poder. A escrita de Pearce é além disso notável, com um sentido rítmico perturbante e envolvente, por vezes a sugerir poesia no meio das mais complexas situações. Nota positiva para a boa tradução, de Rita Graña, para a editora «Tinta da China». 

 


 


OUVIR – Esta semana destaco mais um disco da fabulosa colecção «Verve Originals» distribuída por cá no início do Verão. É uma gravação ao vivo, protagonizada  por B.B. King e foi feita no Apollo Theatre em 10 de Novembro de 1990, com King a ser acompanhado pelo pianista Gene Harris e a Philip Morris Super Band, recheada de grandes músicos. É um disco de blues absolutamente imperdível, que abre com a versão de BB King para um original dos U2, «When Love Comes To Town» e passa por temas clássicos como «The Thrill Is Gone», «Sweet Sixteen» e «Since I Met You». CD «BB King Live At The Apollo», Verve Originals, Universal Music. 

 


 


BACK TO BASICS –Oitenta por cento do segredo do êxito reside em aparecer o mais possível – Woody Aleen. 

 

agosto 16, 2008

Publicado no Jornal de Negódios de 14 de Agosto

PSD – Até posso compreender que Manuela Ferreira Leite se queira distanciar do folclore dos comícios de Chão da Lagoa ou do Pontal; o que já me custa a perceber é que se queira distanciar de qualquer forma de pronunciamento político e que tenha decidido fechar para férias – o site do PSD não é actualizado desde o fim de Julho. A política tem rituais, os partidos têm rituais e a política é feita com uma boa dose de razão e uma boa dose de emoção. Se um dos ingredientes falha, fica o cozinhado estragado.


 


EXEMPLO – Jorge Nunes é o Presidente da Câmara de Bragança, eleito pelo PSD. Nesta década investiu 22 milhões de euros em infraestruturas, equipamentos e actividades culturais. É provavelmente o maior investimento de uma autarquia na área da cultura. Pelo caminho estabeleceu parcerias (com Serralves, por exemplo) e pôs de pé um Teatro Municipal que tem uma taxa de ocupação de 75 % e que apresenta produções actuais e diversificadas. Não conheço Jorge Nunes, mas sei que um autarca que investe assim faz mais pela criatividade, pela capacidade de atracção de quadros e pelas condições de vida do seu concelho do que os que só sabem fazer rotundas e vias rápidas. Bragança tem também um Centro de Ciência que me dizem ser exemplar. António Costa bem podia pôr os olhos nesta estratégia e nesta forma de agir, em vez de reduzir Lisboa ao vil e apagado estado em que se encontra em matéria cultural.


 


OLÍMPICOS – A Eurosport está a dar dez a zero à RTP na qualidade dos comentários que acompanham as suas transmissões dos jogos olímpicos. A cerimónia da abertura dos jogos, via RTP, foi um exercício de preguiça e indigência mental dos respectivos comentadores. No canal Eurosport percebeu-se que os comentadores portugueses que estavam de serviço tinham feito o trabalho de casa e não abriam a boca apenas para ocupar espaço


 


DELICIOSO – As publicações Serrote editam objectos tipográficos que vão de cadernos a cartões, passando por livros. São edições especialíssimas cujos temas vão desde motivos minhotos a futebolísticos, passando pela caligrafia ou tecidos estampados, para além de uma magnífica série de cartões para diversas ocasiões. A meio caminho entre o recambolesco e o saudosista, as edições Serrote marcam um espaço de imaginação que é o ideal para uma prenda surpresa. Estes deliciosos objectos completamente portugueses são feitos com os cuidados da velha arte tipográfica e estão á venda nos Estados Unidos, na Coreis do Sul, na Alemanha, no Brasil, Espanha. Bélgica, Japão, Austrália, França e Finlândia. Por cá existem em várias cidades nas boas livrarias indicadas no site www.serrote.com .


 


BEIRA DA ESTRADA – No Verão gosto de parar nos restaurantes e snack bares de beira da estrada que tenham camiões e motocicletas paradas à porta. Quantos mais camiões e motocicletas, maior a probabilidade de se comer bem. Nestes restaurantes é frequente que a banda sonora do jantar tenha juras de amor em forma de canção, invariavelmente transmitidas pela Romântica FM, a rádio que mais toca nestes estabelecimentos. Nestes sítios não há pretensiosismo, apenas serviço simpático e amigável, boa matéria prima, abundância e qualidade de confecção. Tudo isto se encontra em «O Retiro do Gama», que se orgulha do peixe fresco, do choco frito (às vezes também há enguias para fritar…) das amêijoas, caracóis, salada de polvo e da doçaria de inspiração conventual feita na casa. O vinho a jarro é da região e acompanha bem. O «Retiro do Gama» fica ena rua principal de Cabanas, Quinta do Anjo, Palmela, e pode ser contactado pelo 965710693. Fecha às segundas e terças. 


 


LER – Philip Kerr é um escritor escocês de livros policiais, grande parte baseados em incidentes surgidos no pós II Grande Guerra. «The One From The Other» conta uma história com passagem pela Alemanha no início da reconstrução, pelos primórdios do Estado de Israel, e pela forma como os maus espíritos – americanos ou nazis – se podiam facilmente encontrar e entender nesses tempos. A escrita é descritiva, cinematográfica – não há-de ser por acaso que ele vendeu os direitos para cinema de cada um dos 14 livros que já escreveu. «The One From Another» começa em Berlim, em Setembro de 1937, mas é verdadeiramente em Munique, no ano de 1949, que a acção começa a ganhar forma. Eduição Quercus Fiction, 400 páginas, comprado na Amazon.


 


OUVIR – Terry Callier é um daqueles nomes meio esquecidos no meio do jazz norte-americano. Autor e intérprete, músico e cantor, Callier é um exemplo de grandes canções, com uma inspiração vinda dos blues, baseadas numa simplicidade tão grande como a sua beleza. No final dos anos 90 Callier foi redescoberto por alguns DJ's que passaram a integrar samples de gravações suas nas misturas que apresentavam. «Occasional Rain», o seu histórico disco de 1972, foi agora reeditado pela Verve numa colecção absolutamente fabulosoa, a que hei-de aqui voltar, a «Verve Originals». Amigo de infância de Curtis Mayfield, Callier tem voltado recentemente aos estúdios, como aconteceu este ano, ao lado dos Massive Attack. Se puderem descubram a força e o encanto das canções deste «Occasional Rain». CD Verve/ Universal.


 


GUERRA – O meu filho mais velho, que tem 19 anos e está de férias, telefonou-me a perguntar que guerra era esta, referindo-se à invasão da Geórgia pela Rússia. Que se responde a isto?


 


BACK TO BASICS – A guerra gosta de aparecer como um ladrão pela noite, Ambrose Bierce.

agosto 10, 2008

OLÍMPICOS

Quando quero ver transmissões dos Jogos Olímpicos, sempre que tenho possibilidade, escolho a Eurosport. Os comentários da RTP são muito piores e tipicamente quem está ao microfone não fez o trabalho de casa. Na Eurosport ao menos sente-se que se prepararam e que não falam apenas para encher o vazio.

SOARES, CORREIOS E OUTRAS ANOMALIAS NO MEIO DE FÉRIAS

QUEDA LIVRE – Há coisas que um ex-Presidente da República não tinha necessidade de fazer. O artigo de Mário Soares desta semana sobre a comunicação de Cavaco Silva é uma dessas coisas. Soares nunca aceitou a derrota nas urnas, acha-se de uma elite política superior às escolhas do voto e bem que podia remeter-se ao silêncio, quer neste caso, quer nos apoios a Hugo Chávez. E o remeter-se ao silêncio significava ter o bom senso de não fazer as patéticas «Conversas de Mário Soares» nem o lamentável «O Caminho Faz-se Caminhando», com Clara Ferreira Alves, ambos na RTP. Isto não é serviço público, é frete político (saudosista ainda por cima) – vai uma enorme diferença. 

 


 


EFEITOS DO CALOR – « Depois de ter proibido as massagens, o comandante da zona marítima do Algarve, Reis Águas, resolveu proibir a distribuição de maçãs nas praias algarvias por considerar que esta acção seria apenas pura publicidade. A Associação de Produtores de Maça de Alcobaça pretendia distribuir as maçãs gratuitamente, como o fez em 2007, nas praias entre Aveiro e Lisboa. O presidente da Associação de Produtores, Jorge Soares, defende-se, dizendo que o objectivo da acção era o de sensibilizar para os benefícios de comer maçãs. Algumas capitanias proibiram a distribuição deste fruto, alegando tratar-se de publicidade que sujaria as praias. O Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, Manuel Carrageta, não consegue entender tal proibição. Esta acção, um projecto em parceria com a Comissão Europeia, e o ministério da agricultura, que tinha como objectivo combater a obesidade não vai poder acontecer, ao contrário do que tem acontecido noutros anos.» (à excepção do título, integralmente citado da minha fonte de notícias em férias, www.tsf.pt ).


 


SUGESTÃO – Que O Sr. Reis Águas se junte ao Sr. Nunes da ASAE e vão os dois de viagem para Marte – a coisa lá parece carecer de regulação…


 


CTT – Descobri esta semana que a minha correspondência andava a ser entregue há quase dois meses na casa de um vizinho, da mesma rua. O nome da casa é parecido, os nomes dos endereços não têm nada a ver. Na realidade os carteiros já não são o que eram, os CTT já nem cartas conseguem entregar aos seus destinatários. Não sei que formação dão aos carteiros, não sei se quando começam uma ronda nova lhes explicam onde ficam as ruas e as casas das ruas sem numeração, a verdade é que a situação me provocou vários prejuízos. E, agora pergunto eu, se os CTT não servem para entregar correio, para que servem afinal? Tenho impressão que os novos negócios dos velhos correios atingiram o «core business» da empresa… 

 


 


LER – Tenho um especial gosto por aquelas editoras que se dedicam a fazer livros que de outra maneira não iria apanhar. Entre elas está a Tinta da China (www.tintadachina.pt), que tem vindo a publicar uma deliciosa colecção de clássicos mal conhecidos, com cuidados na apresentação – capa dura, bom formato, bom papel. A minha leitura destes dias tem sido o delicioso «Dicionário do Diabo» de Ambrose Bierce, um jornalista norte-americano que fez fama com uma coluna num jornal do final do século XIX. Cujos excertos são aqui compilados. Ao contrário do que o título sugere, esta não é uma elegia a Belzebu, apenas um constatar de factos correntes, a maioria actualíssimos e justíssimos. Imperdível o prefácio de Pedro Mexia. 

 


 


OUVIR – Vladimir Horowitz deu o seu derradeiro recital público em Hamburgo, a 21 de Junho de 1987. Tocou Schubert, Schumann, Chopin, Liszt e Mozart. Tinha, nessa data, 83 anos. O recital foi gravado para a rádio NDR Kultur e a Deustche Grammophon fez agora a primeira edição desse registo, uma mostra da capacidade de interpretação e do génio de Horowitz, da sua enorma capac idade de comunicar através da música. CD «Horowitz in Hamburg – The Last Concert», edição disponível na FNAC. 

 


 


VER – Duas sugestões de fotografia, uma a sul e outra a norte. Comecemos pelo sul, Évora, no Palácio da Inquisição., a exposição «Antologia Experimental» de José Manuel Rodrigues, até 30 de Agosto. No Porto, em Serralves, David Goldblatt, um dos maiores nomes da fotografia contem porânea, até 12 de Outubro. Para aguçarem o apetite vejam o blog de Alexandre Pomar (http://alexandrepomar.typepad.com ), imprescindível para seguir fotografia em Portugal, e visitem www.davidgoldblatt.com .


 


DESCOBRIR – Se está de férias e quer descobrir o que se passa de relevante no mundo sugiro em vez de ver os seus emails no computador, visite alguns sites bem interessantes. Para saber as últimas da tecnologiia nada como o www.wired.com . Se quiser saber o que se passa no mundo a boa solução é www.time.com, e ainda pode espreitar as diversas edições da revista no planeta. Se quiser saber o que se passa em Portugal experimente os novos site da TSF, www.tsf.pt , ou então o nosso sempre estimável www.sapo.pt . Se quiser mesmo manter-se em dia sobre o estado da economia, já sabe: www.negocios.pt . 

 


 


 


 


PETISCAR – Setúbal é uma cidade conhecida pela qualidade do seu peixe. Se quiserem experimentar um restaurante onde a matéria prima é fresquíssima, os preços razoáveis, a garrafeira com bons vinhos da região, visitem o «Poço das Fontainhas» e peçam à D.Ana, sempre a circular entre as mesas, sugestões para o que hão-de comer, desde raia à moda do mar até aos salmonetes à setubalense. Vão ver que não se arrependem. Rua das Fontainhas 98, Setúbal, telef 265 534 807. 

 


 


BACK TO BASICS – A política é uma luta por interesses, disfarçada  de disputa por princípios – Ambrose Bierce. 

 

agosto 03, 2008

A ESQUINA DO RIO

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 1 de Agosto)


 


PUFF! – As ruas de Lisboa cheiram mal, os passeios estão sujos, há sítios onde o branco da calçada é uma recordação. A coisa existe em várias áreas, não é só numa – e não se vêem lavagens de rua frequentes. Que se passa com a limpeza na cidade? Das avenidas novas ao Bairro Alto, passando pelo Martim Moniz, o cheiro nestes dias de calor é pestilento. 




INDECÊNCIA – O pequeno Largo do Chiado é dos melhores locais de Lisboa. Nestes dias de Verão, ao fim da tarde, é um corropio de estrangeiros, ouve-se falar todas as línguas, é engraçado ficar numa esplanada a ver o ambiente. Claro que tudo seria melhor se a esplanada estivesse limpa, mas infelizmente não é o caso. A «Brasileira» do Chiado, ao fim da tarde, é o exemplo do que não pode acontecer – já nem falo da degradação das mesas com a pintura toda estalada e geralmente sujas – basta ver o chão. Na zona concessionada da esplanada, ao fim da tarde, acumulam-se sujidades diversas, restos de embalagens, guardanapos de papel, bocados de pacotes de açúcar. Verdadeiramente não sei o que a Câmara anda à espera para pôr o local na ordem e obrigar os concessionários a manter bem limpa e digna a esplanada melhor colocada de Lisboa, protegida pela sombra de Fernando Pessoa. 

 


 


ROMANCE – Muito curiosa a troca de piropos entre João Cravinho e Alberto Martins, ambos destacados socialistas, a propósito da legislação de combate à corrupção. Cravinho, já se sabe, acha que o assunto não está a ser tratado com o rigor devido. E Alberto Martins acusou o toque. Pelo meio ficaram acusações que nem a oposição se lembra de insinuar. Deve ser uma forma de exprimir a fraternidade socialista, suponho. 

 


 


FUTEBOL – No caso da RTP e do Futebol quem tem que explicar o que quer é o representante do accionista Estado, ou seja o Ministro Santos Silva. Convém que esclareça se o accionista Estado, em vésperas de permitir a abertura de um terceiro canal privado, pretende reforçar a competitividade comercial do operador de serviço público. Aqui a única pessoa com responsabilidades é quem dá orientações, ou seja, o accionista. 

 


 


CHINA – Nestes dias todas as revistas trazem fotografias de Pequim, da nova Pequim, em vésperas do início dos Jogos Olímpicos. Estive lá em 1990, um ano depois dos incidentes de Tiananmen, e quando olho para as fotografias actuais das grandes avenidas nem acredito na transformação acontecida em menos de duas décadas. Arquitectura impressionante, soluções de engenharia inovadoras, uma dimensão enorme, uma cidade completamente transformada, uma sociedade em constante mutação.  

 


 


ESQUISITO – O Ministro da Cultura demitiu o Director do Teatro Nacional D. Maria II sem ter tido uma única conversa com ele sobre o seu trabalho. Ninguém questiona o direito de o Ministro escolher a sua equipa e de não ter que viver com as escolhas da sua antecessora, mas não parece curial, sobretudo nesta área, que se evite o frente a frente e que se assine uma exoneração sem se ter dito ao interessado, olhos nos olhos, que iria ser demitido. Como todos os intervenientes nesta história são crescidinhos, resta pensar que existe alguma coisa escondida em toda esta novela. É do interesse público saber o que se passou e não promover jogos da cabra cega. 

 


 


VER – Merece uma visita a exposição de fotografias de João Silva, um fotojornalista português que trabalha no «The Star» de Joanesburgo. Intitulada «Pesadelo», a exposição agrupa imagens do Iraque, do Afeganistão, do Líbano, do Malawi, da África do Sul, do Gana e do Quénia. Pode ser vista na Galeria do «Diário de Notícias», Avenida da Liberdade 266. 

 


 


LER – A mais recente edição da «Vanity Fair» tem reportagens fascinantes sobre as razões do colapso do Banco Bear Sterns e sobre a história dos conflitos entre os herdeiros de Agnelli e, sobretudo, um exemplo de jornalismo investigativo nos bastidores da campanha de Hillary Clinton, sobre as razões que levaram à sua derrota. Mas melhor que tudo é o editorial do director da revista, Graydon Carter, que – sem papas na língua – revela que Bill Clinton andou a denegrir o autor de um anterior artigo da revista sobre as suas actividades pós-presidenciais. Sempre achei que uma revista como a «Vanity Fair» fazia falta por cá. E que fazem falta mais editores como Graydon Carter. 

 


 


OUVIR  - Nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova vale a pena encomendar da Amazon  (já que por cá não existe) a colectânea «The Antonio Carlos Jobim Songbook», uma edição da Verve feita em 1995 para homenagear Jobim aquando da sua morte. Para além da «Garota de Ipanema» por Stan Getz e João Gilberto com o próprio Jobim, o CD inclui versões de Sarah Vaughan («Corcovado»), Wes Montgomery («Insensatez»), Billy Eckstine («Felicidade»), Ella Fitzgerald («Desafinado»), Óscar Peterson («Wave») e Dizzy Gillespie («Chega de Saudade»).  

 


 


COMER – Picanhas há muitas, mas começa a ser raro encontrar uma que seja tenra, bem cortada e grelhada na brasa como deve ser, sem ficar passada e transformada num bocado de sola de sapato. Um novo restaurante em Campolide, ambiente simples e familiar, oferece uma boa alternativa. «O Assador» é especialista em grelhados de peixe e carne, tem serviço simpático e boa matéria prima. O vinho da casa, da região de Aveiras, acompanha bem os grelhados, o preço no fim da refeição é uma boa surpresa –a par da qualidade do bolo de bolacha sugerido para sobremesa. Fumadores autorizados. O Assador, Rua de Campolide 165 A, Tel 21309870783.


 

 


BACK TO BASICS – A Paz, na política internacional, consiste num período de vigarices, entre dois períodos de conflito, Ambrose Bierce. 

 


 

agosto 01, 2008

PÚBLICO COM NOVO SUPLEMENTO DE HUMOR

Notícia:


O jornal diário «Público» lançou hoje um novo suplemento de humor, a encapar o «Inimigo Público», inteiramente dedicado à cidade de Lisboa.


Com quatro páginas e muita quadricormia, o novo suplemento mostra um olhar bem humorado e cáustico sobre a gestão autárquica da capital, incluindo várias declarações de personalidades de diversas origens.


O referido suplemento não indica a periodicidade nem a autoria, embora se admita que pode provir de uma recente reunião que juntou o publicitário Pedro Bidarra com o advogado Ricardo Sá Fernandes e o humorista José Sá Fernandes.

julho 31, 2008

A INFO PROPAGANDA

Com a devida vénia, cito o Zero de Conduta:


Publicidade enganosa


Primeiro foram as notícias que davam conta de uma nova fábrica da Intel em Portugal. Um sucesso, garantia-se, que já tinha 4 milhões de encomendas ainda antes de ser instalada a primeira pedra. Um investimento que iria criar 1000 postos de trabalho qualificados, na zona de Matosinhos, graças à diligência do Governo. A apresentação foi ontem. Com pompa e circunstância a imprensa andou dois dias a anunciar o “primeiro portátil português”. O Magalhães é um computador inspirado no navegador, diziam ontem as televisões em coro. Para dar credibilidade à coisa, o mais famoso relações públicas nacional e o presidente da Intel subiram ontem ao palco do Pavilhão Atlântico para a "apresentação mundial" deste computador de baixo custo.


 


Um único problema. Não só o computador não tem nada de novo como a única coisa portuguesa é a localização da fábrica e o capital investido.  A "novidade mundial" ontem apresentada, já tinha sido anunciada a 3 de Abril - no Intel Developer Forum, em Shangai - e foi analisada pela imprensa internacional vai agora fazer quatro meses. O tempo que tem a segunda geração do Classmate PC da Intel, que é o verdadeiro nome do Magalhães. De resto, o primeiro computador mundial para as crianças dos 6 aos 11 anos, características que foram etiquetadas pela imprensa lusa por ser resistente ao choque e ter um teclado resistente à agua, já está à venda na Índia e Inglaterra. No primeiro país com o nome de MiLeap X, no segundo como o JumpPC. O “nosso” Magalhães é isso mesmo, uma versão produzida  em Portugal sob  licença da Intel, uma história bem distinta da  habilmente "vendida" pelo governo para criar mais um caso de sucesso do Portugal tecnológico.


 


Fábrica da Intel nem vê-la e os tão falados 1000 novos postos de trabalho ainda menos, tudo se ficando por uma extensão da actual capacidade de produção da fábrica da JP Sá Couto. Serão 80 novos empregos, 250 se conseguirem exportar para os Palops. Os tais 4 milhões, que já estavam assegurados, lembram-se? Só que as 4 milhões encomendas não passam de wishfull tinking do nosso primeiro. E muito pouco credível. Em todos os países onde o computador está à venda é produzido através de licenças com empresas locais. Como explicou o presidente da Intel, a empresa continua à procura de parceiros locais para ganhar quota de mercado com o Classmate PC, não o Magalhães.


 


A guerra de Intel é outra, como se pode perceber no relato que um dos mais reputados sites tecnológicos - a Arstechnica, do grupo editorial da New Yorker - faz da apresentação da Intel e do governo português: espetar o derradeiro prego no caixão do One Laptop for Child, o projecto de Nicholas Negroponte e do MIT para destinar um computador a cada criança dos países do terceiro mundo. É essa a importância estratégica para a Intel. O resto é fogo de vista para português ver.

 


PS: Não tenho nada contra a iniciativa em si, parecendo-me meritório um projecto para garantir um contacto precoce de milhares de alunos com a informática. Mas isso não quer dizer que aceite gato por lebre. Não seria nada mau sinal se a imprensa nacional, que andou a vender uma história ficcionada, também cumprisse o seu papel. 


 

julho 29, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 25 de Julho)

PREOCUPANTE – A Entidade Reguladora da Comunicação decidiu esta semana obrigar um jornal, o «Semanário Económico», a republicar um esclarecimento que já tinha publicado há meses, mas desta feita acompanhado por uma fotografia que o reclamante anexara para ilustrar a sua rectificação e que o jornal, com razão, à época entendeu extravasar a reclamação e não ser relevante. A coisa pode parecer um acto menor, mas na verdade é a demonstração dos abusos que um organismo, como a ERC, pode cometer: de regulador quer passar a ser editor, a interferir em critérios editoriais, a dizer como se pagina uma notícia. Daqui à censura é apenas um pequeno passo. A ERC está a começar claramente a precisar de alguém que vigie a sua actuação – com este caso provou-se que os seus membros têm comportamentos de risco para a liberdade de imprensa. 

 


 


UM PAÌS ARQUIVADO - Já repararam como quase todos os casos complicados da justiça portuguesa acabam arquivados ou julgados de forma inconclusiva? Já repararam como as investigações sistematicamente não descobrem nem conseguem provas? O «caso Maddie» foi o pretexto para centenas de notícias sobre Portugal publicadas na imprensa mundial no ano passado. O arquivamento do caso e o reconhecimento da falência da investigação deu a imagem de um país que não é capaz de fazer justiça. Mais, o arquivamento é a cabal demonstração de que, à falta de provas, a Judiciária constituíu arguidos apenas para mostrar serviço. 

 


 


 


 


 


VER – Ao princípio parecem imagens do tempo das capas dos discos dos Yes. Há alguma coisa entre o místico e o psicadélico na origem dos quadros do artista norte-americano que assina sob o nome Mars-1. Mas para além das primeiras aparências, há uma recorrente influência do imaginário da ficção científica, das ilustrações tipificadas de extra-terrestres em banda desenhada. Na realidade arrisco dizer que por aqui passa a reinvenção da pop art , agora localizada no espaço, entre planetas e naves – é aliás daí que vem o nome Mars 1, originalmente uma estação interplanetária soviética lançada em direcção a Marte em 1 de Novembro de 1962, e que nunca chegou ao seu destino. O verdadeiro nome do artista é Mario Martinez, nascido no Colorado e a trabalhar e expor regularmente em S.Francisco.  Até dia 31 deste mês podem descobrir alguns dos seus trabalhos na VPF Cream art gallery, Rua da Boavista 84, 2º, em Lisboa (de segaunda  sábado entre as 14h00 e as 19h30).


 

 


OUVIR – O Esbjorn Svensson Trio afirmou-se como uma das mais interessantes formações de jazz da Europa no decurso dos últimos anos. O seu líder e mentor, o pianista Esbjorn Svensson, morreu há poucas semanas, num acidente de mergulho, e o seu legado pode bem ser descoberto e compreendido no duplo CD gravado ao vivo em Hamburgo, num concerto ali realizado em 22 de Outubro de 2006. Editado no ano seguinte, o disco foi considerado como a melhor demonstração da capacidade musical e da criatividade do trio sueco, que além de Svensson, inclui Dan Berglund no baixo e Magnus Ostrom na bateria, uma secção rítmica verdadeiramente irresistível. A energia do grupo é envolvente, a qualidade da gravação e da mistura são exemplares e na realidade, tudo junto, cria um dos melhores registos ao vivo do jazz contemporâneo que me foi dado ouvir. EST Live In Hamburg, edição ACT, distribuição Dargil. 

 


 


LER – De entre as mais recentes revistas publicadas em Portugal vale a pena destacar a Neo 2. O leque dos temas abordados vai da música ao design, passando pela moda e a arquitectura. Editada bimestralmente, a Neo 2 vai no seu oitavo número. A edição de Junho/Julho tem 148 páginas cheio de boas ideias, bom grafismo e muita descoberta. Se quando comecei o jornal Blitz, em Novembro de 2004, tivesse podido fazer uma revista, desejaria que o resultado – ressalvadas as diferenças de época – não fosse muito diferente. E por isso mesmo é com especial alegria que olho para a Neo 2 e vejo ali a diferença e a ousadia que são tão raras nos novos projectos da imprensa portuguesa contemporânea.


 


 


PETISCAR – Se gostam de um peixe bem fresco e bem assado, podem rumar a Sesimbra e experimentar o Âncora, um restaurante pequeno e simpático que fica na Rua dos Pescadores, por detrás do Hotel Sana (antigo Espadarte), a meio das escadinhas, meio esplanada, meio sala de jantar. Ali há o que é raro: matéria prima de primeira, serviço simpático, preço razoável. Mais: o responsável pela mesa teve cuidado na escolha do peixe, para o tamanho não ser demasiado grande e não quis abusar da factura. Nesta estreia foi partilhada uma dourada, fresquíssima e no ponto certo da grelha, acompanhada por umas inesperadas mas deliciosas couves cozidas, a que se juntaram cenouras, feijão verde e salada. Há muito tempo que não comia peixe tão simples e tão bem apresentado. Rua dos Pescadores 26, 21 223 54 40. 

 


 


BACK TO BASICS I – Se tivesse um martelo não estaria aqui a ver televisão, ditado popular. 

 


 


BACK TO BASICS II – Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és (na última semana Sócrates manteve amenas relações com Kadafi e Hugo Chavez). 

 

julho 23, 2008

O MUNDO É DOS TIRANOS

(publicado no diário  Meia Hora de 23 de Julho)

 


Se há coisa que estes últimos meses mostram é que o mundo passou a ser controlado pelos tiranos. Conjugando regimes onde a democracia é pouco mais que uma figura de retórica, baseados sobre fontes de energia natural de grande dimensão, muitos dos senhores do antigo terceiro mundo são agora verdadeiramente os donos do universo.


Ditam o preço do petróleo, trucidam as economias mais frágeis, atiçam a crise, fazem operações internacionais de bolsa que os tornam proprietários de grandes companhias do antigo primeiro mundo, impõem-se um pouco por todo o lado, fazem o que querem, como querem, quando querem. A sua arrogância é total, extravasa as suas fronteiras. Ditam condições, trocam negócios por apoios políticos que legitimem os seus regimes e forma de actuar.


Hoje, uma dessas figuras está de visita a Lisboa, Hugo Chavez, que nas últimas eleições no seu país usou como imagem de propaganda uma imagem sua ao lado de José Sócrates. Imagino que este périplo europeu que está a efectuar seja uma sucessão de «photo-opportunities» para uso em posteriores acções de propaganda.


Escudados na necessidade de obter vantagens económicas ou minorar os efeitos da crise onde se deixaram enredar, líderes europeus recebem (ou visitam) estas figuras, ignorando o que eles são na realidade, submetendo-se à sua chantagem, verdadeiramente aceitando fazer negócios com o Diabo.


Dentro das suas fronteiras a União Europeia exige o cumprimento de regras claras sobre os direitos do homem e o funcionamento da democracia – mas os auto-proclamados grandes defensores da Europa não se importa de fomentar regimes onde nada disso se aplica. O namoro do actual Primeiro Ministro português a figuras desta índole, as mais das vezes conotadas com uma esquerda que há muito se tornou mais reaccionária que qualquer direita europeia, é um facto que nos deve envergonhar. Não é um feito diplomático, é um ajoelhar perante tiranos – a semana passada Kadafi, esta semana Chavez.


Esta atitude, em matéria de política externa, conduz ao esvaziamento de valores fundamentais, coloca os princípios em segundo plano e, na prática, acaba por dar razão a todos os que defendem um princípio de actuação baseado num único lema: os fins justificam os meios. Não penso que seja uma boa forma de um país ser governado. A permissividade e o contorcionismo diplomático têm limites que Sócrates há muito ultrapassou. 

 

julho 21, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 18 de Julho)

 


JUSTIÇA - O retrato da justiça é dado por uma notícia de jornal: «Assaltaram um Tribunal para levar caixa Multibanco». Foi em Loures. Não vale a pena dizer mais nada. Vão ver «Tropa de Elite» do brasileiro José Padilha (vencedor do Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim) e comecem a entender como o crime e a polícia andam de mãos dadas. E não é só no Brasil.


 


POLÍCIA - Gonçalo Amaral, o primeiro responsável pela investigação do caso Maddie publicou um livro sobre o assunto. O seu comportamento ao longo da investigação é um manual do que não fazer quando se é polícia e se tem que ter uma relação com a opinião pública. O livro mostra que não aprendeu. O título, talvez auto-crítico, é «A Verdade da Mentira». Mas o livro tem uma grande vantagem: nem bom polícia, nem bom escritor. Passemos adiante.


 


TRETA - Passámos anos a dizer que era no mar que estava o nosso futuro, fizeram-se colóquios, organismos, estudos, investimentos, todos os sucessivos governos encheram a boca com o mar e o nosso destino de povo de marinheiros. Factos: desde o início de 2000 o sector da pesca em Portugal perdeu oito mil profissionais e 2113 barcos. Não vale a pena dizer mais nada sobre as maravilhas vindas da política comunitária e da subserviência dos nossos governos a Bruxelas.


 


TRAGÉDIA - O que se está a passar em redor da Direcção do Teatro Nacional D. Maria é um exemplo do que não pode acontecer: escolhem-se e discutem-se pessoas sem antes se definirem e apresentarem políticas. Isto é a fulanização da acção – o que em território público é sempre perigoso. É uma política de gosto, criticável num Ministério da Cultura. A anterior mexida na Direcção do D. Maria já tinha sido um sinal de que os projectos valem pouco. Para além de nem o Ministro ter a coragem de aparecer a explicar o que se passa, a realidade é que não há projecto conhecido mas há cabeça de cartaz auto-anunciada. O Teatro Nacional é protagonista de um romance de cordel, que qualquer dia dá em tragédia.


 


LISBOA - Uma edição recente da revista «Time» dedicava uma página inteira ao novo Museu do Oriente, sublinhando que a herança cultural da presença de Portugal na Ásia tinha finalmente encontrado um local para ser vista. Há poucos dias o «New York Times» elogiava Lisboa como destino interessante e animado e a revista «Monocle», já aqui citada, incluía-a entre as mais interessantes 25 cidades do mundo para se viver. Tudo isto não nasceu do nada – foi um somar de esforços de abertura e organização de espaços, de convites a jornalistas estrangeiros, de articulação de programação ao longo do ano. Lisboa ficou na moda no culminar de um processo que demorou quase duas dezenas de anos a fazer-se. O pior é que agora muito do que contribuiu para esta notoriedade sai da cidade ou extingue-se por completo. Nunca houve uma vereação na Câmara Municipal de Lisboa tão insensível à actividade cultural da cidade como esta. Daqui a uns anos vão estar a perguntar-se como é que Lisboa saiu de moda de repente. Depois talvez possam olhar para a Fundação Saramago, arbitrariamente mandada instalar pela vereação na Casa dos Bicos, e perceber porque o politicamente correcto nem sempre é o politicamente necessário.


 


LER – Na sempre indispensável revista «Wired» descubro um artigo que devia ser oferecido a todos os profetas da desgraça que se revoltam com o acordo ortográfico, essa tropa de velhos do Restelo que prefere ver a língua definhar pura, do que ser falada e escrita viva. Vou só fazer uma citação: «Graças à globalização, à vitória dos aliados na II Grande Guerra e ao predomínio norte-americano em ciência e tecnologia, o inglês tornou-se um idioma tão cheio de êxito que escapou às fronteiras do que os seus naturais acham que devia ser. Em 2020 aqueles que têm no inglês a língua mãe representarão apenas 15 por cento dos dois mil milhões de pessoas que utilizarão o idioma». O artigo está na «Wired» de Julho, acessível na net, e chama-se «Anyone here speaks Chinglish?». Pensem nisto, estudem o caso português, apliquem à realidade.


 


OUVIR – Um belo disco para estes dias: o maestro Claudio Abbado compilou as marchas e danças de que mais gosta – de Beethoven a Prokofiev – e reuniu-as num disco. Escolheu as melhores gravações que fez ao longo de 30 anos para a Deutsch Grammophon com intérpretes de excelência e, desde as contradanças de Mozart à «Radetzky March» de Strauss, pela «Marcha dos Contabandistas», da «Carmen» de Bizet, juntou tudo em «Marce & Danze». Fantástico.


 


PETISCAR – Bom peixe, em cima do mar, serviço simpático e português, dona da casa atenciosa e presente, preços sensatos, enfim tudo aquilo que faz a boa tradição da restauração nacional. Voltei lá esta semana e não me arrependi de jantar na esplanada, numa bela noite de verão, em cima da Boca do Inferno, com uma boa lista que inclui peixe fresquíssimo e mariscos. Uma sugestão segura é a travessa do mar, que traz robalo, dourada e gambas, tudo grelhado, acompanhado de batatas a murro. Além disso pode encontrar uns filetes de pescada com arroz de marisco ou, para os mais audazes, uma cabeça de cherne. A lista de mariscos encontra-se bem preenchida, com destaque para as famosas bruxas de cascais. A casa é comandada por D. Lurdes Tirano, encerra às quartas e está aberta entre as 12h30 e as 23h00. O telefone é o 214832218.


 


BACK TO BASICS – Toda a cooperação entre os seres humanos é baseada em primeiro lugar na confiança recíproca e só acessoriamente em instituições como os tribunais e a polícia, Albert Einstein

julho 17, 2008

LISBOA, UM ANO PERDIDO

(publicado no diário Meia Hora de 17 de Julho)

 


António Costa é Presidente da Câmara Municipal de Lisboa há um ano. Na sua campanha eleitoral prometeu mundos e fundos. Ao fim destes primeiros doze meses não se vê obra feita – nem na reestruturação de serviços, nem no saneamento financeiro, nem na vida quotidiana da cidade.


Lisboa vive num clima de cortes de despesa, que se começa a sentir no estado das ruas, na limpeza dos jardins e espaços públicos. As juntas de freguesia são desprezadas, são-lhes retiradas condições para poderem cumprir projectos e até passos importantes de anteriores executivos – como a reabilitação de Monsanto – começam a dar sinais de regressão.


Na frente cultural o desastre é total. Não há estratégia nem plano, tudo se resume a umas manifestações folclórico-propagandísticas que ocupam a Praça do Comércio aos Domingos, dificultando o trânsito e a vida normal dos lisboetas.


Organismos culturais independentes estão a entrar em crise – como os Artistas Unidos – e uma boa parte das iniciativas que marcavam Lisboa encontraram asilo em Oeiras e Cascais. Por estes dias duas prestigiadas publicações internacionais – a revista «Monocle» e o diário «New York Times» apontavam Lisboa como uma cidade a seguir – isto não nasceu de repente, foi o resultado de um trabalho de vários anos, de uma programação diversificada e internacional, da criação de pólos de atracção – quase todos destruídos - desde a Moda Lisboa até à Lisboa Photo, passando pelo Africa Festival.


A cidade vive da fama ganha nos últimos anos e daquilo que ainda consegue sobreviver. Por este andar, quando este ciclo político terminar, arriscamo-nos a ter o deserto e Lisboa será, mais uma vez, um destino ignorado. É uma pena, agora que o trabalho anterior começava a dar frutos, que tudo esteja a ser desmembrado.


Para mim é um mistério como se deixa que as coisas se degradem na área cultural ao ponto em que estão – e que na vereação municipal isto seja assunto de que não se fala. Preocupados com as suas sinecuras político-partidárias os vereadores – da maioria e da oposição – mostram em relação às políticas de desenvolvimento cultural e criativo da cidade um desprezo que mostra a sua falta de estrutura enquanto cidadãos. Da esquerda à direita é lamentável, simplesmente lamentável. 

 

julho 14, 2008

Lisboa na moda

Apesar das malfeitorias dos sucessivos autarcas, a cidade


 


resiste:


 


http://travel.nytimes.com/2008/07/13/travel/13Lisbon.html?8td&emc=tda1


 


 

Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Julho

MAU - Um desespero, a discoteca da FNAC no Chiado. Cada vez tem menos coisas, cada vez é mais difícil encontrar discos, sente-se falta de reposições, quando se quer não se encontram empregados para consultarem o sistema informático e dizerem se existe o que se pretende. No aniversário da Bossa Nova, esta semana, terça à noite, não existia um único João Gilberto e não sabiam quando viria. Nos livros a desarrumação persiste – fiquei por exemplo a saber que o portuguesíssimo João Pereira Coutinho é um autor brasileiro – pelo menos está nessa prateleira. Resultado, cheguei a casa e encomendei os discos que queria na Amazon, onde encontrei o que pretendia sem dificuldade. Acho que foi a única vez que saí da FNAC sem gastar um cêntimo. E tão cedo não volto lá. 

 


 


IRRITANTE - Amigos meus, que gostam de praia, contam-me uma história alucinante – por causa das novas regras dos parques de estacionamento acabaram os bilhetes de dia inteiro ou meio dia nos parques das praias. Contaram-me que a ASAE terá exigido que os parques da praia de S. João (na Costa da Caparica), deixassem o sistema antigo e passassem à taxação ao minuto. O resultado é que ao fim de semana há filas imensas, chega a demorar-se três quartos de hora a sair, tem havido cenas de quase violência, cancelas forçadas e má disposição geral no fim de um dia que devia ser de descontracção. Pior – as longas filas com carro a trabalhar contribuem para a poluição, fazem gastar combustível, enfim tudo o que se devia procurar evitar. Ele há leis absurdas quando aplicadas cegamente, não há? 

 


 


DESNECESSÁRIO - Estava esta semana no Aeroporto de Lisboa, na zona das chegadas, e dei com um belo quiosque da ANA que ao lado tem um cartaz sobre o museu da empresa, mostrando uma fotografia de Fidel Castro a sair de Lisboa no dia 17 de Maio de 2001. A fotografia é absolutamente anódina – não se percebe onde foi tirada, podia ser aqui ou noutro local qualquer. É irrelevante do ponto de vista documental e fotográfico. E no entanto é esta a imagem que é oferecida pela ANA a quem chega (ou a quem espera quem chega). Aguardo ansiosamente que ao lado sejam colocadas fotografias de Hugo Chávez , talvez abraçado a Mário Soares ou a José Sócrates. 

 


 


LER – Sabiam que há portugueses envolvidos na história do faroeste norte-americano? Pois há e vale a pena conhecer como fizeram parte da construção da lenda.  Dois autores norte-americanos, Donald Warrin e Geofrrey Gomes, ambos professores em universidades da Califórnia, o último de evidente ascendência lusitana, têm investigado a presença de portugueses na América.  Logo a abrir o livro, os autores citam Frederick Jackson Turner: « O verdadeiro ponto de vista da história desta nação não é a costa atlântica, é o imenso oeste». Neste livro há índios, comércio de peles, a corrida ao ouro, a contrução de linhas férreas ou a criação de gado, todos presentes em histórias protagonizadas por portugueses, muitas ligadas à  caça à baleia, actividade que trouxe a maioria dos imigrantes portugueses para a costa do Pacífico. Vale a pena destacar o excelente prefácio de Joel Neto (um dos melhores jornalistas da sua geração), que chama a atenção para a maneira como os portugueses sempre preferiram viver em comunidades fechadas, nunca se envolveram na política nem em actos cívicos relevantes, seja na Igreja ou no sindicalismo, ao contrário de irlandeses e italianos. O individualismo e a competitividade, sublinha Joel Neto, reinaram sempre – e talvez aqui, digo eu, se possa explicar muito do nosso triste fado e o enorme desalento que varre o país. Não percam este «Os Portugueses No Faroeste, Terra A Perder De Vista», de Donald Warrin e Geoffrey Gomes, edição Bertrand, 450 pgs. 

 


 


OUVIR – Confesso que uma das minhas primeiras paixões musicais foi música antiga inglesa tocada em guitarra clássica (ou guitarra espanhola como os britânicos lhe chamam). Ao longo da minha vida, ainda nos tempos do vinil, apanhei alguns discos de um intérprete lendário, Julian Bream, um autêntico menino prodígio que começou a tocar em público aos 12 anos. Especializou-se em guitarra clássica e alaúde e, especialmente, num dos grandes compositores ingleses da época Isabelina, John Dowland. Mais tarde interpretou também repertório de Bach escrito para o instrumento e foi em torno das suas interpretações destes dois compositores que ganhou fama em finais da década de 50, tinha então pouco mais de 25 anos de idade. A Deutsche Grammophon pegou agora nas gravações originais da época, tratou-as digitalmente e editou um precioso álbum em que Julian Bream interpreta precisamente Dowland e Bach. Se não conhecem, nem imaginam o que estão a perder; se gostam da sonoridade da guitarra clássica e de música antiga, nem hesitem. («Julian Bream plays Downland and Bach», duplo CD Deustsche Grammophon) 

 


 


IR – Amanhã, sábado dia 12, o quarteto de Branford Marsalis toca na Cidadela de Cascais, integrado no XXVII Estoril Jazz, um clássico que vem pela mão de Duarte Mendonça. Hoje mesmo, sexta-feira, é a vez do quarteto de Bobby Hutcherson. Para quem gosta de outras músicas, o Optimus Alive no Passeio Marítimo de Algés, uma produção dirigida por Álvaro Covões, que oferece  hoje  Bob Dylan e Nouvelle Vague e amanhã Neil Young e Ben Harper, entre muitos outros – trata-se, de longe, do melhor cartaz de todos os festivais de Verão – uma boa lição de qualidade para a miséria de elenco que tem sido o Rock in Rio em Lisboa. 

 


 


BACK TO BASICS – Quando o pessoal não sabe dançar, diz-se que a sala está torta, anónimo. 

 

julho 10, 2008

O CINEMA NA CIDADE

(Publicado no diário Meia Hora de 9 de Julho)

 


A Câmara Municipal de Lisboa anunciou recentemente a intenção de constituir uma Film Commission, como instrumento auxiliar da captação de produções audiovisuais para a cidade. É uma boa iniciativa, que pretende dotar Lisboa de um organismo que fomente o investimento estrangeiro nesta área. Aqui ao lado, em Espanha, há Film Commissions em Barcelona, Madrid, Valência e Sevilha, e Londres e Paris são outras cidades europeias com grande actividade nesta área.


Há, essencialmente, três aspectos da actuação de uma Film Commission, que se desenvolvem em planos diferentes: em primeiro lugar elaborar um guia de filmagens, com imagens de locais naturais, monumentos, etc, indicação de serviços técnicos e de produção disponíveis localmente, um guia de profissionais portugueses em regime de «free-lance» e um levantamento de tudo o que pode ajudar à actividade; em segundo lugar uma entidade que tenha capacidade de receber, analisar e despachar os pedidos de filmagem, que seja ágil e dê resposta em tempo útil e evite uma peregrinação a dez entidades diferentes; e, finalmente, a obtenção de um regime fiscal que torne competitivo a um estrangeiro vir produzir a Portugal.


Esta é a parte mais delicada de toda a questão: hoje em dia não chega ter muitas horas de sol, lindos cenários naturais e profissionais bem preparados para conquistar produções internacionais, sejam de publicidade, sejam de televisão ou de cinema. Com o IVA à taxa que temos, perdemos logo directamente em competição com a Espanha. Com a dificuldade de reembolso do IVA em algumas produções internacionais, perdemos em relação aos outros países (e Film Commissions) que obtiveram incentivos e regimes especiais que atraem o investimento estrangeiro. Convém aqui recordar que uma produção internacional investe dinheiro directamente no sector e consome (muito) em toda a cadeia turística – hotéis, restaurantes, rent a car, etc.


A Câmara Municipal de Lisboa faria bem em se aconselhar com os profissionais do sector, faria bem em articular os seus esforços com a iniciativa de construção de uma Cidade do Cinema, no Barreiro, por iniciativa de Carlos Matos, um português que tem forte actividade na área do cinema nos Estados Unidos. E faria bem em estudar os bons exemplos no estrangeiro e não se limitar a fazer uma espécie de simplex para o audiovisual.  

 

julho 07, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Julho

PÉSSIMO – Caso se confirme o arquivamento do caso Maddie essa é uma péssima notícia para a justiça portuguesa, um facto que mostra a total incapacidade da Polícia Judiciária em mais um caso de desaparecimento. A Judiciária está a criar a desagradável reputação de só conseguir provas à base de confissões em interrogatórios apertados. Quando pode apertar – talvez até abusar – obtém alguma declaração, mas mesmo aí não consegue encontrar uma prova, como aconteceu no caso de outro desaparecimento, no Algarve, de uma menina chamada Joana. Era interessante pegar em casos semelhantes – desaparecimentos de menores – ocorridos em Portugal nos últimos 20 anos – e analisar quais os solucionados, com provas descobertas pela Judiciária. Cada vez mais se gera a sensação de que a Judiciária é incapaz de investigar crimes violentos. Será ineficácia, falta de preparação, medo, ou pura e simplesmento desprezo pelas vítimas? 

 


 


MAU – Nos últimos três anos, por esta altura, realizava-se em Lisboa o África Festival, que pretendia afirmar a cidade como uma plataforma de encontro entre a cultura portuguesa e expressões culturais africanas, com destaque para as dos países de expressão portuguesa. Concertos, exposições e ciclos de cinema realizaram-se nos últimos três anos. O Festival, que se estava a implantar (com boa repercussão na imprensa estrangeira), e desempenhava um importante papel na estratégia de posicionamento cultural de Lisboa a nível internacional, desapareceu pela habitual razão, falta de verbas. Mas na folha de gastos, e nos balanços anuais, a triste realidade é que foi substituído pelas animações folclóricas de Domingo na Praça do Comércio. Se juntarmos os custos desses Domingos aos da exposição laudatória do génio do putativo candidato a sucessor do Marquês de Pombal  – estou a falar do vereador Manuel Salgado – de certeza que o Africa Festival era mais barato, tinha mais público e mais resultados em termos internacionais. Questão de prioridades, de políticas e de vaidades… 

 


 


 


BOM – A Meo passou em meados de Junho o objectivo dos 100.000 clientes, que estava previsto para Dezembro próximo. E nos últimos 12 dias desse mês conseguiu mais 17.000 novos clientes, uma média de 1400 novos clientes por dia. Zeinal Bava tem razões para se mostrar satisfeito com esta primeira grande batalha da sua nova PT. 

 


 


OUVIR – Passo os dias a ouvir o novo disco dos Coldplay, canções magníficas, ambientes sonoros (produzidos por Brian Eno), verdadeiramente exemplares. A generalidade da crítica considera o novo «Viva La Vida, Death And All His Friends» o melhor álbum da banda ,  inspirado pela obra de Frida Kahlo, diz Chris Martin o vocalista. As boas vendas obtidas pelo disco provam o estatuto que os Coldplay atingiram ,mas são também um sinal de como estratégias de marketing musical alternativas podem funcionar num mercado em crise. Downloadas gratuitos de uma canção, dois singles diferentes enviados às rádios e concertos gratuitos em grandes cidades são responsáveis pelo êxito, que inclui cerca de um terço do total de vendas feitos sob a forma de downloadas pagos na Internet. Para além do negócio, a verdade é que «Viva La Vida» é uma grande canção e que este é um magnífico álbum.  

 


 


PROVAR – Se querem saber o que é um presente saboroso e inesquecível, experimentem umas magníficas caixas de seis embalagens de conservas do fabricante «La Gôndola», um conserveiro tradicional da vila de Perafita, próxima de Matosinhos. No delicioso presente que recebi tinha polvo de caldeirada, sardinhas em tomate e azeite, ovas de bacalhau (um petisco!!!), sardinhas pequenas em azeite, sardinhas em escabeche e lulas de caldeirada. Tudo delicioso. Em Lisboa as caixas oferta podem ser encontradas no Gourmet do Jumbo das Amoreiras. 

 


 


 


 


PETISCAR – O que pode fazer o sucesso de um restaurante? – Boa comida, estacionamento fácil bom serviço, boa vista, simpatia e bom ambiente. Pois é isto mesmo que se encontra no «Spianata», um restaurante com inspiração italiana, situado na Travessa de Santa Quitéria 38, por cima de um supermercado e de um parque de estacionamento, mesmo ao pé da Av. Pedro Álvares Cabral. O dono da casa tem tradição – esteve há muitos anos no La Trattoria e depois foi um dos fundadores do Mezzaluna. Voltou agora às lides com este Spianata. Massas honestas, pizza de massa muito fina e crocante, garrafeira comedida e a preço decente. Para além de tudo o mais, o restaurante dispõe de uma grande esplanada com uma vista fantástica de Lisboa, muito simpática nestas noites de Verão. Ao almoço há um buffet despretencioso. A relação qualidade- preço devia ser um exemplo para muita gente. Telefone 213881892. 

 


 


LER – Poucos livros me deram tanto prazer nos últimos tempos como uma imaginativa edição de «The Bob Dylan Scarpbook: 1956-1966». Devo esclarecer que este não é um livro no sentido clássico, é um objecto de evocação de memória, de reconstituição de uma época ( a da fase inicial da carreira de Bob Dylan). Para quem seja devoto de Dylan – como eu confesso que sou – isto é mesmo uma delícia. O livro reúne textos de Robert Santelli e agrupa reproduções dos manuscritos de letras de canções como «Talking New York» ou «Blowin In The Wind», reproduções de documentos pessoais, fotografias, bilhetes e cartazes de concerto, memorabilia diversa, tudo paginado com um grafismo inventivo. O livro inclui ainda um CD com gravações de entrevistas dessa época. À venda na FNAC. 

 


 


Back To Basics – Não podemos regular a inovação -  senso comum não aplicado por alguns reguladores nacionais.

LISBOA, OS SEUS MUSEUS E O PAVILHÃO DE PORTUGAL

Publicado no diário Meia Hora de 2 de Julho

 


 


Por estes dias o Museu Colecção Berardo assinalou um ano de vida com 24 horas de festa. Este é um daqueles assuntos sobre os quais tenho sentimentos divididos.


Vamos primeiro ao lado positivo – o Museu tem muitos visitantes e, para além da Colecção Berardo, tem existido uma programação diversificada e de qualidade, melhor até do que seria expectável.


Lado negativo – o CCB perdeu a diversidade que tinha e a coerência de programação multidisciplinar ao perder o Centro de Exposições, que desapareceu. E, do lado negativo, está também a forma como o negócio foi montado entre o Estado e Berardo.


Mas, já que o Estado quis assegurar a Colecção Berardo e garantir a existência do respectivo Museu a qualquer preço, já que se dispôs a entregar uma parte de um edifício público, mais valia que tivesse feito o mesmo num local que estava calhado para albergar esta colecção e este Museu, o Pavilhão de Portugal.


Na última semana o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa veio a público constatar a evidência – o Pavilhão de Portugal está desaproveitado, a forma como tem sido utilizado degrada o edifício e evidentemente isto é lamentável. António Costa propõe-se resolver a situação – e isso é uma boa ideia.


Como nunca é tarde para corrigir e melhorar, proponho aqui que a colecção e o Museu Berardo lá sejam instalados – o acordo com o Estado mantém-se, a utilização de um espaço público idem e restitui-se o Pavilhão de Portugal à sua natural vocação expositiva, ao mesmo tempo que o CCB recupera uma área que lhe é preciosa para a programação.


Permito-me acrescentar um outro argumento: Lisboa é um destino turístico de «short-breaks» - férias curtas de fim de semana. Faz sentido ter um pólo cultural e de entretenimento a ocidente da cidade e outro a oriente – o perfeito para uma estada de dois dias.


Na zona ocidental estão a Torre de Belém e os Jerónimos, o Museu (actual ou futuro) dos Coches e o CCB, para além das muitas esplanadas ribeirinhas. No lado oriental, ao Museu do Azulejo, ao Casino de Lisboa e Oceanário, poder-se-ia adicionar o Museu Berardo no Pavilhão de Portugal. Lisboa ganharia em oferta, em dispersão de actividades, em acessibilidades aos equipamentos.


Nunca é tarde para melhorar as coisas, pois não?