outubro 17, 2026

OUTRAS VISTAS


Esta semana dei comigo num autocarro a ir pela auto-estrada fora, rumo ao norte. Sem ter que conduzir, restava-me olhar para o que se passava à volta. Percebi que num autocarro se olha por cima das barreiras laterais da estrada, que temos outras vistas, que há casas que nunca tínhamos sequer imaginado, campos cultivados, animais a pastar. E assim fui vendo o que nunca tinha visto, nesta mesma estrada por onde tantas vezes já passei a guiar. É bem certo que quando não vamos a conduzir a atenção à paisagem é diferente. Em vez de olhar para o carro da frente e para os retrovisores, podia olhar para os lados. É todo um mundo novo que se abre. Quem conduz, não vê; quem é conduzido, espreita - eis a conclusão a que cheguei. A certa altura dei por mim a recordar-me do tempo em que andava no Liceu e ainda havia em Lisboa autocarros de dois andares. Eu gostava de subir a escada e ir lá para cima - havia menos gente, mais espaço,  e descobria-se outra cidade. Hoje já não há autocarros desses para os residentes, só há para os turistas, com esplanadas em cima ou vidros panorâmicos. Na altura fazia de turista na minha terra, via a avenida da República e o Saldanha de cima. Depois passei a andar de metro e passei a ver só pessoas sempre apressadas. No andar de cima do autocarro via a cidade a cores; no metropolitano, via as profundezas da cidade a preto e branco. Esta viagem de autocarro pela estrada fora devolveu-me o prazer de ver por onde a estrada passa. 

(pensamentos ociosos, sempre em sapo.pt)