O ABUSADOR - Luis Neves construíu a sua carreira sob o lema não olhar a meios para atingir os fins. Foi assim que repetidamente fez interpretações muito pessoais de leis e regulamentos para conseguir rapidez na execução, foi assim que, até em termos pessoais, ignorou o que a lei dizia quando fazia obras numa propriedade sua, e foi assim que tomou decisões graves sobre material apreendido pela Polícia Judiciária que então dirigia, com um histórico de contorcionismo do estabelecido na lei. O bom senso não é certamente uma das suas virtudes, o abuso de poder é uma das suas características, a deturpação da verdade é frequente em parte do seu discurso. Não é tranquilizador ter à frente dos corpos policiais um homem com estas características e os recentes acontecimentos relacionados com os protestos desencadeados pela crise da habitação vêm comprovar isso mesmo. Logo no início dos protestos, na madrugada de 15 de Outubro, quando uma carga policial provocou mais de 30 feridos, o Director Nacional da PSP e o ministro defenderam que a polícia tinha actuado bem, de forma adequada e proporcional, mesmo com imagens que mostravam polícias a pontapear um manifestante já caído depois de ter levado bastonadas. No fim de semana passado o pior voltou a acontecer, com uma carga policial a provocar trinta e três feridos, com Luís Neves a dizer hipocritamente que apenas foi usada a “força física para fazer cumprir a lei e o Estado de Direito”. Talvez tivesse sido útil que ele próprio fosse sujeito a esse tratamento quando, com as suas acções, como o desencaminhamento do célebre atrelado com barris de amoníaco, pôs em causa o cumprimento da lei e o Estado de Direito. A violência das actuações policiais tem sido claramente incentivada pela cobertura que o ministro lhes tem dado. Estas acções são questionadas por constitucionalistas que colocam em dúvida se a polícia pode interromper os protestos que se prolongam depois da meia noite e meia - a legislação invocada pelas autoridades sobre o limite horário da manifestação foi feita pelo governo de Vasco Gonçalves, antes da aprovação da Constituição. Certo é que ao longo dos anos se têm verificado vários protestos e vigílias com tendas montadas no espaço público e que foram sempre toleradas, em qualquer horário, algumas durante dias a fio, sem intervenção das autoridades. Resumo do sucedido: temos um Ministro da Administração Interna que quando lhe dá jeito a si mesmo despreza e contorna a lei, mas que é muito zeloso a exigir que os outros a cumpram, mesmo quando não é claro que haja transgressões; e temos um primeiro-ministro silenciosamente cúmplice perante o que se passa, o que volta a trazer à baila a possibilidade de esse silêncio, em relação a Luis Neves, ser insuflado por alguma coisa que ele saiba sobre Montenegro. Escrevo estas páginas segunda-feira. Será que o silêncio e os abusos continuaram pela semana fora?
SEMANADA - No segundo trimestre deste ano os preços das casas aumentaram mais de 20% em quase metade do país; entre os 33 Estados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal é o país onde há mais dificuldade em comprar casa; A dificuldade em ser proprietário de uma casa, em Portugal, está 36% acima da média da OCDE e 50% acima da média da zona euro; na última década, os preços das casas aumentaram 164%; actualmente 46% dos jovens portugueses entre os 18 e os 34 anos que trabalham a tempo inteiro continuam a viver com os pais; o Índice Internacional de Competitividade Fiscal 2026 da Tax Foundation coloca portugal no 33º lugar entre 38 países da OCDE, ou seja é o sexto sistema fiscal menos competitivo; entre 2010 e 2025, Portugal emitiu, por habitante, apenas 55% das licenças de construção de nova habitação registadas na média europeia; o crédito à habitação das famílias portuguesas até ao final de Agosto totaliza €119.100.000.000 mais 11,2% que no período homólogo; Em sete anos, o preço mediano de venda da habitação em Portugal mais do que duplicou, passando dos 1098 euros por metro quadrado no 2.º trimestre de 2019 para 2445 euros/m2 no final de junho deste ano, uma taxa de variação de 122% neste período; em 101 dos 308 municípios portugueses pelo menos 10% dos residentes são estrangeiros; em Lisboa 25,64% dos residentes são estrangeiros e no Porto são mais de 22%; em Odemira a maior parte da população residente, 52,6%, são estrangeiros; a taxa mais baixa de estrangeiros residentes é a de Resende, no distrito de Viseu, com 1,31%; como lembrou a jornalista Bárbara Reis, em 100 anos Lisboa só fez 96 obras de habitação pública.
O ARCO DA VELHA - Todas as sete dezenas de queixas de vítimas de abusos sexuais de padres sobre crianças foram arquivadas pelo Ministério Público.
O ANO DO CAVALO - A galeria Ochre Space, que se tem especializado em mostrar fotografia de autores chineses e japoneses, centrou a sua actividade ao longo deste ano a evocar o ano do Cavalo na astrologia chinesa. Para encerrar este ciclo o responsável pelo espaço, João Miguel Barros, escolheu o trabalho “Appearance and Abstraction”, do chinês Li Gang, que nos últimos dez anos se tem dedicado a fotografar cavalos. O fotógrafo aproxima-se tanto dos animais que quase os faz desaparecer, mostrando apenas detalhes e contornos dos seus corpos. Ao longo deste tempo Li Gang fez quatro livros sempre sobre esta mesma temática e a exposição é baseada no mais recente desses livros. João Miguel Barros explica que para esta série, o artista estudou a fundo a dimensão abstracta da pintura tradicional chinesa e a arte abstracta moderna do Ocidente. E sublinha que “a fotografia abstracta não é o mesmo que a arte abstracta, mas há entre ambas uma afinidade estrutural no plano espiritual, e isso deu a Li Gang uma nova maneira de ver. Naquilo que fotografa, busca as possibilidades de composição dos elementos visuais básicos e um equilíbrio subtil entre ordem e liberdade; entre o ocultamento e a descoberta”. A exposição pode ser vista até 14 de Novembro, de quinta a sábado entre as 15 e as 18h30. A Ochre fica na Rua Bica Do Marquês 31, à Ajuda.
A DESCOBERTA DA VIDA - “Uma Casa no Fim do Mundo”, um romance de Michael Cunningham conta a história de dois amigos: Jonathan, solitário, inseguro e introspectivo e Bobby, sombrio e silencioso. Depois da adolescência numa tranquila cidade do interior, a relação entre ambos encontra em Nova Iorque um novo espaço de crescimento com a cumplicidade de Clare que com eles partilha a casa, uma mulher mais velha e mais experiente. Jonathan, Bobby e Clare procuram construir um novo tipo de família, testando os limites da amizade e do amor. Michael Cunningham descreve a fragilidade e tensão das relações afectivas que assim se estabelecem. Os diálogos entre Clare, Bobby e Jonathan são imperdíveis, sobretudo a descoberta do corpo de uma mulher que Clare proporciona a Bobby. Tudo nasce no espaço de um corredor, numa casa partilhada entre uma mulher divorciada e farta da vida que tem levado, e dois rapazes mais novos que têm uma relação. Como ela diz a certa altura, a velha Clare vai ensinar uma dúzia de truques. Como em outras obras, Michael Cunningham escreve sobre o amor e a fragilidade da condição humana. Edição Gradiva.
MÚSICA ANTIGA - O disco “A Bússola Branca” regista o conjunto de sonatas de Carlos Seixas, a figura maior da música portuguesa para teclas do século XVIII, agora editadas pela primeira vez. A gravação destas sonatas baseia-se na interpretação da cravista francesa Béatrice Martin, que as tocou num instrumento do tempo de Carlos Seixas, o cravo construído em Lisboa por Joaquim José Antunes em 1758 e classificado como Tesouro Nacional. O projeto reúne oito sonatas de Carlos Seixas e uma obra contemporânea de António Pinho Vargas, num diálogo entre o período barroco e a criação musical contemporânea. Este trabalho recupera uma parte do património musical português que permanecia fora do registo discográfico, e fá-lo com um dos poucos cravos portugueses da época que ainda se conservam, hoje em exposição no renovado Museu Nacional da Música, em Mafra. Disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “A habitação é um dos melhores exemplos do cruel falhanço dos serviços públicos portugueses no século XXI”- António Barreto, no Público
BACK TO BASICS - A Imaginação é a única arma eficaz na guerra contra a realidade” - Jules de Gaultier
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS



