outubro 16, 2026

A MANIA DAS COMPRAS

O ESTADO EXPLICADO A CRIANÇAS - Aviso já que este texto  é baseado na cópia de excertos de um brilhante post do economista e Professor Pedro Santa Clara, no Linkedin, sobre esta mania que o Estado Português agora desenvolveu de comprar participações em empresas privadas, teoricamente através de um fundo soberano que o Primeiro Ministro anunciou numa festa do PSD. As compras estão em movimento, primeiro na REN, agora no BCP, com o Estado a recomprar, caro, o que há uns anos vendeu. Vamos então aos escritos de Pedro Santa Clara,  apresentados no seu Linkedin como se fosse um livro para crianças, em 17 páginas deslumbrantes, cuja capa aqui reproduzo e que se chama “O Estado vai às compras”. Começa pelo tal fundo soberano: “O fundo chama-se Fundo Soberano. Foi anunciado em junho. Ainda não existe. Não tem estatutos, não tem conselho, não tem regras, não tem relatório. Mas já comprou duas coisas. É um fundo muito especial: compra antes de nascer. O Senhor Primeiro-Ministro diz que é como o fundo da Noruega. O fundo da Noruega tem uma regra, só uma, escrita no mandato: não pode investir na Noruega. A Noruega tem petróleo e põe o dinheiro fora, para o Estado não mandar nas empresas do país. Portugal não tem petróleo, tem dívida, e põe o dinheiro dentro, para o Estado mandar nas empresas do país. É igualzinho, só que ao contrário”. E, mais adiante, sobre o desejo de o Estado tomar posição no BCP: “Sabes que países têm Estados que mandam nos bancos? A China. A Rússia. A Índia. O Brasil. A Turquia, onde o presidente baixa os juros por decreto. A Hungria, onde o Estado comprou bancos para dar aos amigos. Olha que bonito, Portugal vai brincar com eles. Nos outros países, os Estados só são donos de bancos quando os tiveram de salvar, e vendem assim que podem. O Reino Unido salvou o Nat West em 2008 e saiu em 2025. A Holanda está a sair do ABN Amro. A Itália vendeu o Monte dei Paschi. Em vinte anos, nenhum Estado rico comprou um bocadinho de um banco saudável por o achar estratégico. Portugal vai ser o primeiro. Portugal é muito original.”. E prossegue:  “Quem é que vigia as compras do Estado? O Tribunal de Contas põe um carimbo que diz que o contrato está bem escrito. Não diz se o preço está bem. A CMVM recebe um papel. O Parlamento não vota. Quem aconselhou o Estado a comprar a REN foi o CaixaBI, que é da Caixa, que é do Estado. O Estado perguntou ao Estado se devia comprar, e o Estado disse que sim. Um ministro decide, um banco do Estado aconselha, um tribunal carimba, e tu pagas” (com os impostos que todos pagamos). Vão ao Linkedin e leiam o livrinho todo, o respectivo link é este https://lnkd.in/p/ei529GUX .



SEMANADA - As verbas para o ensino desceram de 6,7% do PIB em 2010 para 4,4% em 2022 e esta redução coincidiu com o regredir dos resultados de Portugal no estudo PISA; a falta de vagas para alunos nas escolas gera 46% das reclamações contra o Ministério da Educação e mais de metade dos casos reportados no Portal da Queixa envolve crianças do pré-escolar e do 1º ciclo; desde que o ano letivo se iniciou, em setembro, o número de aposentações disparou e as escolas perderam 1542 professores, que adicionam aos  1721 que tinham saído nos primeiros oito meses de 2026;  em 2025, o índice de preços da habitação registou uma subida anual de 17,6%; no segundo trimestre de 2026 foram transaccionadas em Portugal 40.1412 habitações, menos 6,4% do que no mesmo período de 2025;  quase um em cada cinco dos portugueses entre 25 e 34 anos teve uma consulta na área da saúde mental no ano passado; a carga fiscal portuguesa,  sobre combustíveis, em valor e em paridades de poder de compra, é a quarta mais elevada da UE na gasolina 95 e a sétima no gasóleo; um estudo divulgado na semana passada indica que das 12 campanhas publicitárias analisadas em Portugal em torno do Mundial 2026 a mais eficaz foi a da McDonald’s, seguida pelas do Continente e do BPI; os seguros de saúde já cobrem 4,5 milhões de pessoas em Portugal; o volume de negócio dos hospitais privados subiu 44% em quatro anos; em apenas oito meses, a população prisional aumentou em 652 detidos, enquanto o corpo da guarda prisional perdeu 73 profissionais; a PSP e a GNR registaram 35 assaltos a residências por dia em 2025; a GNR registou, a nível nacional, um total de 964 desaparecimentos; quem ganha o salário médio será menos beneficiado com as alterações ao IRS.  


O ARCO DA VELHA -  O consumo de combustíveis em Portugal está a crescer acima da média europeia.





O TRIUNFO DA PINTURA - Juan Araujo é um artista venezuelano que tem vivido em Lisboa, com uma extensa carreira internacional  e presença em algumas colecções públicas importantes, como a Tate de Londres, o MOMA de Nova Iorque ou o Centro Galego de Arte Contemporânea. “El Pez Que Fuma” é o título da sua exposição patente na galeria Cristina Guerra Contemporary Art até 14 de Novembro. São trabalhos essencialmente de pintura, a óleo, de pequenas dimensões, registos detalhados  “imagens de mundos perdidos, cidades mortas, ruínas, pedras que opõem ao tempo a sua própria plasticidade, a sua aptidão para se fragmentarem, sobreviverem e significarem a obsolescência das coisas”, como escreveu Leopoldo Iribarren na folha de sala desta exposição, sublinhando ainda que “quem, como Juan Araujo, aspira a produzir uma poética da ruína não pode senão escavar na sua própria memória.” Nas paredes surgem imagens de vulcões, de destruição, mas também de um famoso toureiro venezuelano conhecido como Diamente Negro. Várias obras integram séries, como acontece na evocação de Pompeia ou na referência à intrusão dos Estados Unidos na Venezuela e no ataque a navios venezuelanos no ano passado. O traço é magnífico, o detalhe dos pequenos quadros a óleo é o testemunho do triunfo da pintura. Na inauguração algumas das obras já estavam reservadas por colecionadores. (Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33) .





ROTEIRO
-  Na Galeria Lumina a fotógrafa Luísa Ferreira mostra um lado menos conhecido do trabalho documental e de fotojornalismo que tem feito ao longo dos anos. Mas, em paralelo,
durante quase três décadas e meia Luísa Ferreira desenvolveu um trabalho persistente com base em Polaroids em cujo processo de revelação interveio (na imagem). O resultado está agora à vista em “Metamorfoses”, a surpreendente exposição que está patente na Lumina Galeria até 7 de Novembro, mostrando outro lado do trabalho da artista, sem recurso a facilitismos e com o mesmo rigor que caracteriza o seu trabalho documental.  (Rua Actor Vale 53 a - no sábado pelas 18h30 decorre uma conversa sobre o processo criativo do trabalho exposto). Em Lisboa o "Imago Photo Festival" já começou , com exposições em vários locais como a Mitra, o Museu da Água, o Instituto Cervantes, a Sociedade Nacional de Belas Artes , a Galeria Sá da Costa ou a Galeria de Santa Maria Maior. Ao todo são nove locais onde podem ser vistas obras de, Joan Fontcuberta, Viktoria Sorochinski, Marc Schroeder ou José Luis Neto, entre cerca de três dezenas de autores. O  Imago Photo Festival deste ano tem por tema “Repensar a Fotografia” e a programação pode ser vista em imagolisboa.pt .





ESCALDANTE - O tema da IA está ao rubro e este livro vem a propósito. “Se Alguém a Criar, Morremos Todos”, de Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, é uma obra dedicada aos riscos associados ao desenvolvimento de uma superinteligência artificial. Os autores defendem que uma inteligência artificial  capaz de ultrapassar as capacidades humanas poderá desenvolver objetivos incompatíveis com os interesses da Humanidade. e consideram que o risco de extinção associado à inteligência artificial deve ser tratado como uma questão de escala global, colocando-o ao lado de ameaças como as pandemias e a guerra nuclear. A investigação que desenvolveram  indica que IAs suficientemente avançadas irão desenvolver metas próprias, que as colocarão em conflito connosco. Os autores são fundadores e responsáveis do MIRI - Machine Intelligence Research Institute e têm larga experiência nesta área. Edição Dom Quixote.



SOBRE A CRISE FRANCESA - Numa altura em que a França atravessa de novo uma crise profunda, espartilhada entre uma situação económica difícil e crescentes protestos, vale a pena ler esta biografia de Charles De Gaulle, um retrato do herói da resistência francesa contra os nazis, estadista incontornável do pós guerra europeu, responsável pelo fim da guerra da Argélia, uma figura controversa e conservadora que no final da sua carreira política se defrontou com tudo o que aconteceu em Maio de 1968,  e decidiu dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições gerais, que reforçaram o seu partido gaullista. Esta biografia de De Gaulle foi escrita por Bernard Phan especialista em história contemporânea, e autor de numerosas obras ligadas à educação e divulgação histórica. Edição Guerra & Paz.




COLTRANE REVISITADO - Em 1963, por insistência da sua editora de então, a Impulse, que queria que o músico seguisse um caminho menos experimental,  John Coltrane convidou o cantor Johnny Hartman  a gravar um disco que ficou célebre e se tornou numa lenda das gravações de jazz. Foi a única vez em que o saxofonista gravou com um vocalista e o resultado foi um disco soberbo que tinha por título o nome de ambos. Agora Branford Marsalis, no centenário de Coltrane, revisitou a aventura de 1963 e convidou Dianne Reeves a juntar a voz ao saxofone, no album “Dedicated To You”recriando os seis temas que tinham sido gravados  por Coltrane e Hartman, “They Say It’s Wonderful”, “Dedicated To You”, “My One And Only Love”, “Lush Life”, “You Are Too Beautiful” e “Autumn Serenade”. A estes temas Marsalis juntou peças instrumentais compostas por Coltrane na mesma época, com destaque para “Big Nick”, aqui interpretadas pelo seu quarteto e ainda três faixas extra. Edição Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.



DIXIT - “Na sua mensagem de Natal de 2025, Luís Montenegro exortou-nos a ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo. O Primeiro-Ministro considera que faz falta ao país. Se calhar tem razão e é isso que vai fazer avançar a economia portuguesa. Mas não toda. Apenas a indústria do papel. Sobretudo o sector dos lenços de papel. Dez milhões de Cristianos Ronaldos vão precisar de muitas caixas de kleenex para assoarem todo o ranho produzido nas suas birras.” - José Diogo Quintela, no Observador.


BACK TO BASICS - “Não há nada tão inútil como fazer de forma eficiente aquilo que não precisava de ser feito” - Peter Drucker.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS