outubro 23, 2026

A MÂO LEVE DO ESTADO QUE ENTRA NOS BOLSOS



O NOSSO DINHEIRINHO - Esta semana selecionei alguns dados sobre a maneira como o Estado nos vai buscar dinheiro ao bolso. Prevê-se que para o ano o Estado cobrará 70,672 mil milhões de euros, o valor mais alto de sempre, que significa um crescimento de 4,2% face à estimativa para 2026.  A  parte de leão vem do IVA, o maior imposto indireto, cuja receita deve subir 5,3%, graças às previsões que apontam para um aumento do consumo. Recordo que as nossas taxas de IVA são das maiores da Europa (a nossa normal é de 23% quando em Espanha é de 21% e na Alemanha de 19%). Outro imposto indireto deste rectângulo à beira- mar plantado  é o ISP, relativo aos produtos petrolíferos,que tem aqui uma das taxas mais altas da Europa e cuja receita se estima que crescerá 5,2%. Neste imposto há um caso particularmente aberrante que é o facto de o IVA incidir sobre o ISP: isto é, o Estado cobra um imposto sobre um imposto. O nosso bolso passou a ter dois buracos. Passemos à alínea seguinte, a do IRS e do IRC , que são impostos directos. A receita do primeiro deve subir 3,4%, enquanto a do segundo deve cair 1%. Em média, o rácio entre o nosso IRS e os rendimentos de trabalho é baixo no quadro europeu. Esta média é, porém, enganadora: muitas famílias ganham muito pouco e não pagam IRS, enquanto outras, como os escalões sobem rapidamente, são bastante penalizadas, mesmo não sendo ricas, o que agrava particularmente a classe média. Por sua vez, os impostos efetivamente pagos pelas empresas (IRC mais derramas) são dos mais altos da Europa. No Orçamento de Estado para 2027 as receitas previstas em taxas e taxinhas somam mais de quatro mil milhões de euros, em pagamentos tão diversos como portagens, propinas, multas, coimas, registos de imóveis e automóveis. O ministro das Finanças,  Joaquim Miranda Sarmento, veio dizer com cara alegre que a carga fiscal vai descer em 2027. Mas nada disse sobre o esforço fiscal, uma métrica mais adequada, porque relaciona os impostos cobrados com a capacidade económica do contribuinte. E aí os portugueses estão entre os cidadãos com maior esforço fiscal na Europa. Para um salário bruto de 1500 euros, um português fica com 1115 euros, menos do que um espanhol ou um alemão. Hoje é o que temos, como diz uma amiga minha.

SEMANADA - O PIB português apenas cresceu 41,6% em três décadas o que classifica a economia portuguesa como uma das mais lentas do mundo no século XXI; quase metade das vagas com incentivos para a colocação de médicos em zonas carenciadas ficou por preencher; Portugal é o país do mundo mais exposto ao capital chinês; a margem de refinação obtida pela GALP no terceiro trimestre deste ano foi de mais 101% que no trimestre anterior e mais 256% que no mesmo período do ano passado; durante 2025 o consumo médio de petróleo de cada português, nas suas várias formas e aplicações, foi de 3,3 litros; um trabalhador que ganhe o salário médio líquido, 1348 euros, e que faça 25 kms por dia em viatura própria para ir trabalhar, gasta o que ganha em dois dias só para pagar o combustível que consome mensalmente em deslocações para o emprego; a TAP já custou 3,255 mil milhões de euros ao erário público, está avaliada em cerca de dois mil milhões e será vendida por pouco mais de mil milhões; entre Janeiro e Agosto foram iniciadas 862 investigações de abuso sexual de crianças e 887 de pornografia de menores; segundo a PJ em média são abertos oito inquéritos por dia com crimes sexuais contra crianças e adolescentes; pelo terceiro ano consecutivo, o Instagram é a rede social mais utilizada pelos portugueses com 32.2%  de utilizadores, o WhatsApp ocupa a segunda posição, com 25.6%, enquanto o Facebook, que até 2023 liderava a utilização, surge em terceiro, com 21.7%.


O ARCO DA VELHA - O valor médio gasto por dia pelos portugueses, nos primeiros oito meses do ano, em medicamentos para emagrecer,  foi de cerca de  795 mil euros e em 2025, a média foi de 380 mil euros.




FOTOGRAFIAS INESPERADAS - Juan Fontcuberta é um dos mais importantes fotógrafos espanhóis e europeus e o Imago Lisboa Photo Festival tem como um dos pontos altos desta edição de 2026 a sua exposição “Wunderkammer”. Este termo evoca os gabinetes de curiosidades, uma prática que vem do século XVI e que designa espaços onde se mostram colecções que misturam objectos de várias origens e sem relações entre si. Nesta exposição Fontcuberta juntou oito séries de imagens articuladas como um gabinete de curiosidades contemporâneo. Em “Wunderkammer” Fontcuberta mostra como para si a fotografia deixou de ser um mero testemunho do mundo e recorda-nos que a fotografia já não se conforma em refletir a realidade, mas “reinventa-a, contamina-a e projeta-a para outros mundos possíveis.” A exposição pode ser vista até  dia 15 de Novembro, no Museu da Água, Rua do Alviela 12, Estação elevatória dos Barbadinhos, de 3ª a Domingo entre as 10 e as 18. 




ROTEIRO - Uma das mais interessantes exposições das últimas semanas é de Cecília Costa, “One’s head placing other’s heart” (na imagem). São seis desenhos a fita adesiva de papel e carvão, instalados dentro de armários e da base da chaminé da sala de Química do Museu Nacional de História Natural e Ciência, a que se junta uma mesa do espólio do museu que Cecília Costa converteu efemeramente num objecto artístico, em diálogo com os desenhos. A artista, cuja formação é na área da matemática, tem um desenho muito característico e, em relação a estas obras, afirma:  “temos nas nossas mãos a linha da cabeça e a linha do coração, a linha do coração é uma curva exponencial, cresce muito rápido, e a linha da cabeça é uma curva logarítmica, é uma curva muito contida que cresce devagarinho, até dá a sensação que estabiliza, mas não”. A exposição fica patente até 15 de Novembro e tem curadoria de Sofia Marçal. Um destaque da semana é mais uma edição da mostra “Drawing Room”, dedicada ao desenho, que junta até Domingo, na Sociedade Nacional de Belas Artes, 23 galerias de Portugal e Espanha, com trabalhos de mais de sete dezenas de artistas. Ali existem de certeza boas oportunidades para quem quiser começar uma colecção de arte contemporânea. (Rua Barata Salgueiro 36)


HISTÓRIAS DO NOSSO TEMPO - Francis Fukuyama tornou-se conhecido em 1992, com o seu livro “O Fim da História e o Último Homem”. Tinha então 39 anos, era um académico em início de carreira e o livro tornou-se uma das obras de teoria política mais celebradas e controversas do nosso tempo. Fukuyama está associado ao surgimento do neoconservadorismo, movimento do qual depois se distanciou. Doutor em ciência política pela Universidade de Harvard, vive em Palo Alto, na Califórnia e lecciona estudos internacionais na Universidade de Stanford. Em 2009, rompeu com os seus mentores neoconservadores, após renegar o seu apoio à invasão do Iraque em 2003 e com duras críticas à chamada economia de “laissez-faire”, uma teoria ultra-liberal que desvaloriza o papel do Estado na economia e que é considerada como tendo estado na origem da crise financeira de 2008. Este novo livro “No Reino do Último Homem” explica por que razão mudou de posição. É uma obra de memórias pessoais e políticas, desde a evocação do seu pai até aos seus trabalhos de início de carreira, como consultor de Ronald Reagan e da CIA. Ao longo do livro Fukuyama analisa a sua vida em paralelo com as profundas mudanças políticas dos últimos trinta anos – de Bush a Obama e a Trump, desde a guerra ao terror depois do ataque às torres gémeas à invasão da Ucrânia pela Rússia. Fukuyama, um dos pensadores mais importantes do século XXI, analisa a situação política global contemporânea e, na sua forma de escrever provocadora, sugere pistas sobre como o Ocidente pode resgatar a democracia  num momento em que ela parece estar à beira do abismo. (Edição D. Quixote).





MESA DE CABECEIRA - “A Revolução Invisível - como as mulheres revolucionaram o pensamento político no século XX”, guia-nos pela vida e obra de sete pensadoras fundamentais do século XX que fizeram ouvir a sua voz para questionar as formas de poder e os conceitos universais tradicionais. A autora, Mariana Dimópulos, mostra o pensamento de Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Simone Weil, Simone de Beauvoir, Iris Murdoch, Ágnes Heller e Judith Butler. Mariana Dimópulos,  escritora, tradutora e docente que vive em Berlim, combina história, biografia e filosofia e analisa a forma como estas mulheres do século XX repensaram a liberdade e a justiça e como revolucionaram os fundamentos do pensamento político moderno (edição Temas e Debates). O outro livro foi escrito por uma das mulheres citadas em “A Revolução Invisível” e é a grande obra de Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”, editado pela primeira vez há 70 anos, uma análise dos desequilíbrios de poder entre os sexos e que se tornou na bíblia do feminismo. Neste Volume 1, agora editado na colecção Biblioteca de Alexandria, da Quetzal, Beauvoir explora a identidade feminina através dos mitos e símbolos. 




UMA BOA SURPRESA - Este é um disco inesperado: 15 anos depois da morte de Cesária Évora, surge um novo álbum, “Reina da Morna”, com canções que a artista gravou mas que não foram editadas na época. São gravações originais que sobraram de álbuns anteriores, baseadas em instrumentos de cordas e no piano e, claro na voz e forma de cantar inconfundíveis de Cesária Évora. Foram todas gravadas à primeira tentativa e se algumas não são versões finais perfeitas, têm todas um peso de espontaneidade notável . No repertório do disco, com dez temas,  estão obras de compositores de Cabo Verde, como b.Leza, Manuel d’Novas e, pela primeira vez num disco de Cesária, Eugénio Tavares. É uma magnífica surpresa, com temas surpreendentes como “Sosente”, dedicado ao Mindelo. Disponível nas plataformas de streaming.




ALMANAQUE - Até final do ano pode ser vista a exposição “A Outra Guerra”, que mostra numerosos exemplos de propaganda em português na Segunda Guerra Mundial, materiais originais criados sobretudo pelos alemães e os britânicos, mas também pelos americanos e italianos. Feita a partir de materiais do Arquivo Ephemera, comissariada por José Pacheco Pereira, a exposição pode ser vista às terças, sábados e domingos entre as 10 e as 18 horas, no Armazém, 150, Rua 44, no Parque Empresarial do Barreiro.


DIXIT - “A vitória nas eleições é de quem tiver um programa de habitação” - Ana Sá Lopes, no “Público”.

 

BACK TO BASICS - “Não me agrada pensar se prefiro ir para o céu ou o inferno, porque tenho amigos em ambos os sítios” - Mark Twain


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS