Nas grandes cidades já se vêem poucas janelas assim, com cortinados de bordados laboriosamente feitos com linha branca. Nalgumas vilas do interior, e numas muito poucas janelas de rés de chão de zonas antigas das cidades maiores, às vezes ainda se encontram estes cortinados. Nasceram assim arrendados para que entrasse alguma luz enquanto impediam os curiosos de espreitar para dentro de casa. Os bordados eram o retrato de uma época, feitos nos tempos livres, muitas vezes à noite, depois do jantar, numa época em que ainda não havia televisão e os trabalhos manuais eram uma forma de passar o tempo. As pessoas com mãos mais hábeis bordavam enquanto falavam, mantinham um diálogo de agulha na mão, contando os pontos mentalmente enquanto a conversa andava noutras paragens. Havia revistas com modelos de bordados, havia lojas que vendiam os seus fios, havia até concursos de bordados. Não se pense que os bordados ficavam só na janela, eles podiam invadir as casas por todo o lado, principalmente em cima de mesas ou nos braços dos sofás e, quando a televisão começou a ser o centro das atenções domésticas, um bordado por cima do grande móvel de madeira que suportava um ainda pequeno ecrã era muito habitual. Hoje em dia quase desapareceram, das janelas e das casas. Poucas pessoas sabem já bordar, foi um saber que se foi perdendo. O rito do bordado à noite perdeu-se entre telenovelas e reality shows. E, nestes dias que correm, a agulha e a linha foram substituídas pelo telemóvel e redes sociais. Despiram-se as janelas.
(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMPRE EM SAPO.PT)
