julho 26, 2024

POLÍTICA CULTURAL OU CAÇA A APOIOS ELEITORAIS?

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OS DINHEIROS DA CULTURA - Com a ajuda do INE e da Pordata fui ver qual o total de gastos das autarquias portuguesas em actividades culturais. Ronda actualmente quase 600 milhões de euros por ano. No Orçamento de Estado em vigor o total consagrado ao sector da Cultura, excluindo a dotação da RTP que é outra conversa, anda pelos 510 milhões, menos que o total dedicado pelos 308 municípios portugueses ao sector. Ou seja, as despesas das autarquias com o sector rondam os 5% em média nacional, quando no Orçamento de Estado é menor que 1%. Os valores indicados como gastos das autarquias em cultura incluem desde a conservação do património a bibliotecas e arquivos, passando por artes do espectáculo, artes visuais, edições de livros e outras publicações, audiovisual e multimédia e o item actividades interdisciplinares, que é um grande caldeirão. Temos portanto que as autarquias possuem mais capacidade de investimento no sector do que o Estado central. É bom que isso aconteça, mas é forçoso que se perceba que estes 600 milhões são dinheiro público e portanto a sua utilização deve ser escrutinada. Uma análise mais fina permite perceber que as artes do espectáculo e as actividades interdisciplinares, em conjunto, ficam com um pouco mais de metade do total dedicado pelas autarquias à cultura. A seguir vem a conservação do património e depois as bibliotecas e arquivos. E surgem as questões : Como devem as autarquias tomar decisões no financiamento de actividades culturais com dinheiros públicos? É lógico contratar um determinado artista que tem uma carreira comercial de êxito em vez de fomentar o desenvolvimento de novos talentos, até locais? Até que ponto há nas autarquias decisões nesta área que visam privilegiar  simpatias políticas e futuros apoios eleitorais? A pouco mais de um ano de eleições autárquicas estas questões ganham especial relevância. 


 


SEMANADA - Em termos proporcionais 20% da população nascida em Portugal vive fora do país, sendo que na Europa em 2020 esta taxa é apenas ultrapassada pela Croácia, a Bulgária, a Lituânia e pela Roménia;  segundo dados do INE, 48% dos emigrantes saídos em 2021 tinha completado o ensino superior; o preço do cabaz de alimentos básicos, que inclui 63 bens essenciais,  aumentou 22 euros em dois anos e é agora de 228 euros; o número de encerramentos de urgências obstétricas aumentou num mês de 86 para 120, ultrapassando o máximo de 2023;  o número de pessoas sem médico de família teve um aumento de 75 mil indivíduos em quatro meses; a facturação das lojas dos centros comerciais subiu 7% nos seis primeiros meses do ano; Gaia foi o concelho do país onde mais subiram os preços das casas; o Porto vai restringir o acesso a zonas históricas da cidade a veículos turísticos como tuk-tuks; o número de desempregados registados em Portugal teve no primeiro semestre deste ano o maior aumento da última década com excepção do período da pandemia; nos últimos seis anos, o número de alunos estrangeiros inscritos em universidades e politécnicos portugueses mais do que duplicou mas este ano há alunos estrangeiros inscritos, que pagaram propinas e não conseguem junto dos nossos consulados obter vistos em tempo útil para o início das aulas.


 


O ARCO DA VELHA - Desde o início da sessão legislativa o Parlamento aprovou em quatro meses apenas três leis,  quando a média anterior era de 15 leis por mês.


 


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EXPÔR OS DIAS - Ao longo de meses via quase diariamente uma fotografia que Daniel Blaufuks colocava no Instagram. Eram imagens diferentes, mas do mesmo sítio, uma janela e a mesa ao lado, uma chávena a meio, a evocar o início dos dias e as mudanças da luz. Vou seguindo o trabalho de Daniel Blaufuks há quase 40 anos, primeiro nos jornais e revistas, depois quando iniciou a sua pesquisa pessoal em torno da imagem fotográfica. Publicou vários livros, uns a solo e outros em co-autoria, como por exemplo “My Tangier”, com o escritor Paul Bowles. Além da fotografia fez também filmes e vídeos. No MAAT, em Lisboa, expõe agora um diário onde combina fotografias, colagens, recortes com inscrições pessoais, citações e comentários pessoais. A exposição “os dias estão numerados”, que permanecerá no edifício do MAAT até 7 de Outubro, tem curadoria de João Pinharanda e mostra um diário de imagens de 2023, alguns dias dos cinco anos anteriores e, ainda, os primeiros meses de 2024. Ao todo estão expostas mais de 450 obras. Todas são apresentadas da mesma forma, em folhas de tamanha A4 colocadas em molduras iguais, que Blaufuks numerou, indicando os dias e os anos que vão passando. A maior parte tem fotografias instantâneas, raramente mais que uma ou duas por página, e o autor escreveu (às vezes carimbou)  comentários e citações em cada uma em diversas línguas que domina.  Na realidade esta  exposição é não só um registo do que Blaufuks vê e pensa, como o seu retrato do mundo. É um  trabalho notável, despojado, despretensioso, onde evoca músicos, escritores, filósofos e se expõe a ele próprio.


 


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ROTEIROPedro Calapez apresenta na zet gallery, em Braga, a exposição "Fronteiras" que reflete os seus últimos 20 anos de produção artística através de 23 obras que exploram as possibilidades da pintura em materiais industriais como o alumínio ou o tijolo (na imagem, fotografia de Andrea Ruano). A exposição tem curadoria de Helena Mendes Pereira e a escolha das obras reflecte as raízes industriais da empresa que dinamiza a galeria, o dst group. A exposição está patente na zet gallery até 21 de setembro, na Rua do Raio 175, Braga. Ainda a norte, em Serralves, está patente o trabalho de Miguel Alves, vencedor do Prémio de Fotografia Novo Banco Revelação, um trabalho nascido de uma ida à Moldova e que tem o título “Walking Thru the Sleepy City”. Na Casa de Serralves, um dos mais importantes exemplos de Art Déco do país, pode ser vista até 17 de Novembro a primeira exposição antológica dos artistas portugueses João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, que reúne uma seleção de obras dos autores, algumas inéditas e especialmente concebidas para esta ocasião. Na Casa de Serralves, desde a cozinha até às salas de estar e jantar, passando pelas escadarias e casas de banho, a exposição “Casa Vale Ferreira” ocupa praticamente todos os compartimentos da antiga residência privada, abrindo aos visitantes a história e a memória deste edifício. 


 


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COMO ESCREVER - O primeiro capítulo do novo livro de Miguel Esteves Cardoso começa assim:”Ao longo da vida, a coisa que mais me disseram foi:«Também quero escrever. Como é que faço?» Tentei responder das mais variadas maneiras, mas o tempo nunca chega para explicar. Era preciso um livro. É este o livro.” Assim começa o primeiro livro integralmente original de Miguel Esteves Cardoso dos últimos 28 anos. Durante cerca de 50 anos dedicados à escrita, da crónica ao romance, passando pela poesia, pelo ensaio, pela ópera e até por programas políticos, Miguel Esteves Cardoso escreveu um pouco de tudo, mas há 28 anos que não publicava um livro inédito. O título diz ao que vem: “Como Escrever”. Ao longo de seis capítulos o autor dá ideias sobre como começar e aborda questões como o perigo de ler o que já está escrito”, ou “as dificuldades dos apontamentos”, dá “razões para escrever”, estabelece que “as noites são para sonhar, as noites são para escrever”. E diz, preto no branco, que “escrever é um trabalho” e que”ler é uma coisa que se faz quando não se está a escrever” porque “ler é uma preguiça”. Pelo meio faz a recomendação de que pagar a um editor para rever o texto escrito é “dinheiro bem gasto”. Mais à frente fala do “cenário ideal para escrever”: “é uma ilha deserta e você está todo nu”. E, claro, sublinha que “uma pessoa para escrever tem de se isolar” porque “para escrever é preciso solidão”, antes e depois da escrita. O livro encerra com um capítulo sobre algumas sugestões práticas, algumas questões técnicas e, quando fala do equipamento necessário, afirma, taxativo, que o telemóvel é o maior amigo da escrita que alguma vez existiu” porque com ele “pode fazer apontamentos e escrever sempre que lhe apetecer”. A terminar, nas últimas sete páginas das 196 deste “Como Escrever”, Miguel Esteves Cardoso deixa um exercício que passa pelo papel da fotografia na escrita. Mais não digo.”Como Escrever” é uma edição Bertrand, com edição de Rui Couceiro.


 


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MÚSICA SOLITÁRIA - São 13 canções curtas, mas intensas, apenas 36 minutos de uma música por vezes apenas instrumental, com a voz a surgir num sussurro ou então de forma melodiosa e intimista. Falo de “My Light, My Destroyer”, o terceiro álbum de Cassandra Jenkins, uma norte-americana com raízes no folk. Mas neste disco há também ambientes mais jazzy e o recurso a instrumentos como o violino ou o violoncelo ou mais pop como acontece em “Only One”. A sua voz, com uma marca melancólica, é uma característica evidente mesmo quando por trás existem guitarras eléctricas com o som  distorcido. Jenkins disse numa recente entrevista que fazer canções é para ela como uma obrigação e isso é coisa que não lhe agrada. E, no entanto consegue fazê-las e dar-lhes brilho como este disco comprova. Há imagens de quotidiano nestas canções, como em “Petco” ou “Delphinium Blue”, que relatam os seus pensamentos em deambulações por locais como uma loja de animais ou uma florista. Há também a evocação das suas digressões, mas a solidão é a linha condutora deste disco, assim como a ansiedade. Uma canção, “Aurora, IL” , é o cartão de visita perfeito para perceber a música, o espírito e a voz de Cassandra Jenkins. O disco está nas plataformas de streaming.


 


WEEKEND - Para ver: a exposição “Atelier”, de Pedro Cabrita Reis, na Mitra, em Marvila, encerra no próximo domingo dia 28 e até lá pode ser vista das 14 às 18h00. Para ler: a edição de Agosto da revista “Wallpaper” tem um magnífico portfólio fotográfico assinado pela dupla Inez & Vinoodh, dedicado às 50 pessoas que marcam a diferença em termos de criatividade nos Estados Unidos. Para petiscar:  o “Espalhafato na Cozinha”, onde Francisco Completo propõe bons petiscos quintas, sextas e sábados das cinco da tarde à meia noite, em Alfarim, na avenida José Carlos Ezequiel, 44. 


 


DIXIT - “As novas teorias do género, das minorias, do legado histórico, da restituição e do arrependimento estão a destruir a Europa e a liberdade “- António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A verdade é a melhor resposta à calúnia” - Abraham Lincoln



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julho 19, 2024

PORQUE É QUE DEIXAM GUIAR TVDEs QUEM NÃO SABE CONDUZIR?

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 TVDEs SUSPEITOS - Segundo o Instituto de Mobilidade e Transportes existem 69.814 pessoas com licenças passadas por aquela entidade para conduzirem TVDEs. Só no ano passado foram emitidas quase 21 mil novas licenças. O Instituto trabalha com a Uber e a Bolt, aparentemente no melhor dos entendimentos, e recebe destas empresas, em taxas de supervisão, mais de seis milhões de euros por ano. Não se sabe quantos destes motoristas têm de facto carta de condução verificada e válida em Portugal ou se têm toda a documentação legalizada ou sequer se fizeram testes adequados. Basta ver como muitos condutores de TVDE’s guiam para ter as maiores suspeitas sobre o processo de autorização e fiscalização. É cada vez mais frequente ver TVDE’s fazerem inversões de marcha não autorizadas, nao fazerem sinal de mudança de direção, não seguirem as regras de prioridade ou coisas tão comezinhas como respeito por entradas alternadas no estreitamento das vias. Muitos destes condutores são estrangeiros e claramente desconhecem as regras de trânsito em vigor. É legítimo suspeitar que algo vai mal na verificação das verdadeiras capacidades de condução de muitos destes motoristas e do seu conhecimento das regras de circulação em Portugal. É também legítimo que, face ao que se vê acontecer nas ruas, se suspeite que há desleixo, fraude e talvez mesmo corrupção na concessão de licenças pelo IMT e na fiscalização pelas autoridades. Uma coisa é certa: há muito motorista TVDE a guiar que não devia estar autorizado a fazê-lo. E, se há  suspeitas de que o IMT facilita em demasia as licenças, há claramente a certeza que as plataformas Uber e Bolt não assumem as suas responsabilidade com a sociedade verificando a idoneidade e capacidade dos motoristas que utilizam. Devia haver uma rigorosa auditoria à forma como o IMT actua, emite licenças, autoriza condutores e operadores e se relaciona com Uber e Bolt. Até lá permanece a suspeita de que há podridão e negociata no assunto. Eu por mim, sempre que posso, ando de táxi.


 


SEMANADA - Portugal é o terceiro país da OCDE onde as despesas directas em saúde têm mais peso nos gastos dos cidadãos e 12,4%  dos portugueses estão sujeitos a despesas de saúde superiores a 10% do rendimento; um estudo recente da Nova-SBE indica que 77 mil idosos estão em risco de pobreza ou vêem a sua situação de pobreza agravar-se devido às despesas com cuidados de saúde e medicamentos; nos primeiros três meses deste ano perto de 800 pessoas foram acolhidas na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica; em Portugal  25% dos trabalhadores com formação superior exerce funções abaixo da sua qualificação académica; 25% da população reside hoje em apenas dez dos 308 concelhos do país; entre os países da UE Portugal foi aquele que registou maior crescimento de turistas norte-americanos, duplicando em 2023 o número em relação ao ano anterior; a frota automóvel da PSP tem uma idade média de 15 anos; a PSP destruiu nos últimos dez anos 303.208 armas apreendidas, sendo que na primeira operação realizada este ano foram destruídas 8.317; de 2022 para 2023 o aumento de pedidos de vistos de brasileiros para virem para Portugal foi de 89%; segundo o Tribunal de Contas, entre 2016 e 2023 os  Governos de António Costa desperdiçaram poupanças com maus exercícios de revisão e racionalização da despesa pública, que se tivessem sido implementados teriam  gerado ganhos orçamentais que poderiam ter ajudado a financiar o aumento de despesa com pensões, saúde e cuidados continuados.


 


O ARCO DA VELHA - O Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais já foi condenado duas vezes pelo Supremo Tribunal Administrativo por práticas ilegais em concursos para novos juízes.


 


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FOTOGRAFIAS HISTÓRICAS - Luiz Carvalho é um dos mais marcantes fotojornalistas portugueses saído da geração que começou a trabalhar na imprensa de forma regular depois do 25 de Abril. Arquitecto de formação, Luiz Carvalho é também o autor e realizador de programas de televisão sobre fotografia, nomeadamente o Fotobox, na RTP3, e tem feito também workshops sobre fotografia. Trabalhou em numerosos jornais e revistas e há cerca de 40 anos editou o livro “Portugueses” que fazia um retrato do país e é um importante testemunho da época. Agora tem duas exposições, uma das quais retoma imagens desse livro, actualizadas com novas fotografias: “Portugueses- tal como somos”, está na Galeria de Arte do Convento do Espírito Santo, em Loulé. A segunda exposição mostra as imagens que recolheu entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975. Esta exposição sobre esse período histórico leva o título “50 de 25”, está na Galeria de Arte da Praça do Mar em Quarteira e está agendada para Setembro a edição de um livro que regista as fotografias expostas. Na imagem que acompanha esta nota está uma fotografia dessa exposição que documenta um dos momentos quentes de 1975, o cerco à Assembleia da República, e mostra o jornal “República”, um vespertino já extinto, um testemunho de como a imprensa era avidamente consumida. Cada uma das exposições mostra cerca de 90 fotografias e pode ser vista de terça a sábado até 14 de Setembro. As duas exposições são dominadas pela utilização de fotografias a preto e branco, “não por uma questão de cinzentismo neo-realista, mas porque os três tons continuam a ser o método fotográfico que melhor consegue sintetizar o essencial, tornando a fotografia como uma linguagem única, diferente da pintura, das habilidades performativas e dos virtuosos do salonismo” - sublinha Luiz Carvalho no texto que acompanha a exposição. 


 


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ROTEIRO Na Culturgest, em Lisboa, até 29 de Setembro, pode ser vista uma exposição da obra de Júlia Ventura, que se desenvolve ao longo de sete salas  e que dá a ver mais de vinte séries de trabalho da artista, entre fotografia, desenho, vídeo, texto e instalação, a maioria das quais permanecia inédita (na imagem). Em Bragança, no Centro de Fotografia Georges Dussaud, podem ser vistas fotografias de Carlos Gil, numa exposição “Um Fotojornalista de Guerra e Paz” comissariada por  Daniel Cortesão Gil. Na Galeria Quadrum, em Lisboa, até 8 de Setembro está a exposição colectiva “A Moeda Viva”, com trabalhos de, entre outros, Ângela Ferreira, Cildo Meireles, Filipa César, Filipe Pinto, Isa Toledo, Isabel Cordovil, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Mauro Cerqueira,  e Rita GT. Também em Lisboa, na Galeria Vera Cortês, inaugurou a exposição "Airs”, de Nuno da Luz (Rua João Saraiva 16-1º) e na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12), a artista britânica Elizabeth Prentiss mostra Skewer, um conjunto de esculturas apresentadas como uma instalação. Na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18) está patente uma exposição de videos e pintura de Francisco Queiróz sob o título “Les Frissons, Les Étoiles e os Pirilampos”. Finalmente no Museu Nacional de Arte Antiga, até 29 de Setembro, pode ser vista a exposição “Épico e Trágico: Camões e os românticos”.


 


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UMA HISTÓRIA AMERICANA - James Comey, antigo director do FBI, meteu-se a escrever ficção e o seu primeiro livro, Central Park West, foi agora editado no mercado português. Este é um policial que se desenvolve nos meandros da política - o arranque é o assassinato, pela ex-mulher, de um  ex-Governador do Estado de Nova Iorque, Tony Burke, acusado de assédio sexual por uma série de mulheres. O autor deste policial, James Comey,  estudou Direito, foi procurador, advogado, consultor, professor e, por nomeação de Barack Obama, dirigiu o FBI durante quatro anos. O seu primeiro livro, “A Higher Loyalty: Truth, Lies and Leadership” chegou a inspirar uma série de televisão, “The Corney Rule”. “Central Park West”, agora editado, é o seu primeiro romance. Tudo gira em volta de Kyra, acusada de ter morto o ex-marido, e das polémicas que envolviam Tony Burke, considerado pela imprensa como o Harvey Weinstein da política. Pelo meio surge um líder da máfia, que quer negociar uma quase certa condenação por revelações sobre todo o caso e que, numa reviravolta inesperada, implicam mafiosos na morte do ex-Governador. Este é um livro sobre justiça, política e ocrime organizado nos Estados Unidos, num ambiente de conspiração e corrupção. Edição da Singular. 


 


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O SENHOR LOUIS“Louis In London” é uma magnífica colecção de 13 canções gravadas ao vivo por Louis Armstrong num programa da BBC em 2 de Julho de 1968. Inéditas até agora, estas gravações incluem alguns dos temas mais marcantes da carreira de Armstrong como “A Kiss To Build A Dream On”, “Hello, Dolly”, “You’ll Never Walk Alone”, “Blueberry Hill”, “Mack The Knife”, “What a Wonderful World e “When The Saints Go Marching On”, entre outros. Disponível em vinil e CD, a edição física inclui um texto de Ricky Ricciardi, o biógrafo de Louis Armstrong. Esta gravação, feita dois anos antes da morte de Armstrong, é apresentada como a sua última grande actuação gravada, muito pouco tempo depois de ter chegado ao primeiro lugar do top britânico com “What A Wonderful World”. Acompanhado por um grupo de cinco músicos, o disco mostra, além do seu trompete, a poderosa voz de barítono de Louis Armstrong, com as inflexões e capacidade de interpretação que o caracterizavam. A primeira faixa do disco é “When It’s Sleepy Time Down South.”, que é como que um emblema de toda a sua carreira. Ao lado de Armstrong estão Tyree Glenn no trombone, Joe Muranyi no clarinete, Marty Napoleon no piano, Buddy Catlett no baixo e Danny Barcelona na bateria. Edição Verve, disponível em streaming.


 


WEEKEND - Aproveitem estas boas noites e descubram o Teatro Romano, junto ao Castelo de S. Jorge, onde, até dia 27, nas noites de quarta a sábado, é apresentada a peça “Prometeu Agrilhoado”, de Ésquilo, numa produção do Teatro Livre; na esplanada da Cinemateca há cinema ao ar livre, sempre às 21h45 - sexta-feira 19 “A Ave do Paraíso” de King Vidor e sábado 20 “Jogos de Prazer” de Paul Thomas Anderson. E para lerem sugiro o novo livro de Rui Cardoso Martins, “As Melhoras da Morte”,  uma série de reflexões sobre a vida.


 


DIXIT - “O problema é que a escuta é uma violação dos direitos (....) que deveriam ser respeitados. É dos métodos que deveriam ser banidos (…) Proibir as escutas é dar uma ajuda à liberdade e aos direitos dos cidadãos” - António Barreto





BACK TO BASICS - “Aqueles que são eleitos para governar cidades e vilas não se deviam esquecer que os votos das eleições locais vêm dos residentes e não dos visitantes” - anónimo 


 


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julho 12, 2024

ISTO ESTÁ UMA CÓBOIADA...

ESQUINA 995 -  12 JUL 24


 


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 E DEPOIS DA GALINHA? - Na semana passada o INE informou que em 2023 tivemos 26,5 milhões de turistas visitantes, um aumento de 19,2% face a 2022, mais do que antes da pandemia. Já em sentido contrário o INE revelou que em 2023 o total da venda de produtos e prestação de serviços nas indústrias transformadoras diminuiu 2,1% em relação ao ano anterior. As estatísticas são o que são e olhar só para os números pode ser enganador. Mas a verdade é que o turismo é encarado por vários poderes e sectores como a galinha dos ovos de ouro da economia portuguesa e a indústria não. O problema com os ovos surge sempre quando as galinhas deixam de ser poedeiras e de repente as expectativas são frustradas. A explosão do turismo não afecta só Portugal e os seus efeitos são similares em todo o lado: menor qualidade de vida para os residentes, aumento de preços na habitação, descaracterização dos locais e centros históricos. Em cidades como Barcelona fazem-se manifestações contra o excesso de turismo e noutras, como Veneza, são implementadas medidas restritivas. Aqui as únicas medidas que se tomam estão centradas no aumento da taxa turística, que é para espremer um pouco mais a galinha enquanto ela ainda dá ovos. Por estes dias Portugal lembra o far west e a corrida ao ouro, aqui traduzido em turismo massificado. Acabar com o turismo é uma utopia, mas regulá-lo é um dever de quem manda nas cidades. Enquanto noutros países da Europa se debate como fomentar a reindustrialização, aqui pensa-se pouco ou nada nisso e vão-se iludindo as gentes com miragens digitais. E, no entanto, quando a turística galinha deixar de dar ovos será muito tarde para pensar em como fomentar a economia sem ser só com tuk tuks, hotéis ou TVDEs. Se não produzirmos, se não desenvolvermos indústrias, se não criarmos valor acrescentado, seremos estalajadeiros por mais algum tempo. Mas, e depois?





SEMANADA - No primeiro trimestre do ano o preço das casas em Portugal subiu seis vezes mais que na média da UE; em maio deste ano, as instituições financeiras emprestaram às famílias quase 1,4 mil milhões de euros em crédito à habitação, o terceiro valor mensal mais elevado desde finais de 2014; segundo a OCDE a Letónia e Portugal estão entre os países com os sistemas de pensões menos progressivos, criando uma elevada desigualdade salarial aos idosos; em duas décadas, um milhão e meio de portugueses saíu de Portugal, um número equivalente à eliminação de seis distritos do país; 1 em cada 3 jovens vive já hoje fora de Portugal; 20% dos jovens entre os 18 e 35 anos já acumularam pelo menos dois empregos; em 2000 só havia registo de dois cidadãos nepaleses em Portugal, em 2011 já passavam dos mil e em 2022 já eram mais de 23 mil; o verdadeiro investimento português em Defesa é metade do que foi oficialmente reportado à NATO; a PSP deteve nos primeiros cinco meses do ano 60 suspeitos de terem furtado carteiras, um número que duplicou face a igual período do ano anterior; Portugal ocupa o segundo lugar do pódio no número de erros detetados pelo Tribunal de Contas Europeu  na utilização do dinheiro de Fundos de Coesão; metade dos alunos do 9.º ano de escolaridade que realizaram este ano a prova final de Matemática obteve nota negativa, inferior a 50%. 





O ARCO DA VELHA - Um consultor jurídico da Assembleia da República defende que o Parlamento pode obrigar os cidadãos a entregarem comunicações privadas, como SMS, whatsapp ou e-mails, sem passar pelo Ministério Público e um juiz.


 


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A REVOLUÇÃO DE POMAR - No Atelier-Museu Júlio Pomar está patente até 24 de Novembro a exposição “Revoluções 1960-1975”, focada  numa época que marcou a actividade do artista. As mudanças, que caracterizam toda a sua obra, foram nesses tempos tão radicais que os quadros e as pesquisas do artista poderão, por vezes, julgar-se o trabalho de diferentes autores. Em 1963, Júlio Pomar mudou-se de Lisboa para Paris, inspirou-se noutras realidades, e realizou uma sequência intensa de exposições de sucesso, como a do Museu do Louvre, em 1971. A exposição agora apresentada é comissariada por Óscar Faria e pelo filho do artista e crítico de arte Alexandre Pomar. São dele estas palavras:  “a década de 60 e os primeiros anos 70 foram marcados pela passagem para Paris e por novos temas de pintura, e pela transformação da sua pintura a partir das séries RUGBY e MAIO'68, a que se seguiram o ciclo do BANHO TURCO e outras variações sobre Ingres, e a série seguinte dos RETRATOS.” E, sobre a exposição: “Mostram-se algumas obras inéditas e outras que não voltaram a ser expostas desde os anos 60. A exposição agrupa algumas obras da viragem dos anos 50/60 (pinturas "negras" de uma pista ibérica que reuniria Goya e o primeiro Columbano), depois as cenas do trabalho do povo (pescadores e mariscadores, a pisa do vinho); algumas paisagens de 1961 a 68 (Albufeira, Lisboa, Porto e um Vista da Janela não localizado); algumas figuras de um bestiário pessoal; as tauromaquias e corridas de cavalos e as variações sobre uma Batalha de Uccello”.   “Revoluções 1960-1975” apresenta obras provenientes de várias colecções, privadas e institucionais,  ao todo uma centena de obras e cinco vitrinas com livros, revistas, documentos e fotografias. Na imagem está a obra “Table des Jeux”, de 1969, que pertence à Gulbenkian.  O Atelier-Museu Júlio Pomar fica na Rua do Vale 7, Lisboa.


 


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ROTEIROEm Cascais, no Centro Cultural, Catarina Pinto Leite apresenta até 15 de Setembro uma série de trabalhos inéditos intitulada “Vasos Comunicantes”,  pinturas sobre tela e papel. Luísa Soares de Oliveira, curadora da mostra, observa que estes “Vasos Comunicantes” de Catarina Pinto Leite, “comunicam com a história: a história pessoal, em primeiro lugar, feita de memórias de territórios, passagens, percursos, histórias, leituras, imagens, autores; e a história coletiva da pintura e do desenho”. Na imagem um trabalho a cera de abelha e óleo sobre papel japonês, de 2024, com o título“Por entre os campos escondidos”. Outra exposição a ver é promovida pela CC11, uma associação cultural que centra o seu trabalho na fotografia e  desafiou a curadora americana Maria Mann a organizar uma mostra de fotografia com autores estrangeiros, “De fora para dentro”, que nos mostrassem o seu olhar sobre Lisboa e o país, mas que se distinguisse das imagens estereotipadas que o turismo promove. Até 10 de Agosto, na Galeria Santa Maria Maior e no espaço CC11 @ Imago, cinco fotógrafos de nacionalidades diferentes mostram como vêem Portugal, de fora para dentro: o canarino Francisco Seco, o argentino Horacio Villalobos, o luxemburguês Marc Schroeder, o alemão Martin Zeller e o romeno Mircea Sorin Albutiu. 


 


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A MÚSICA POPULAR - Pode a música unir um povo? - a páginas tantas surge esta ideia em “Dedico-lhe o meu silêncio”, o mais recente, e provavelmente último romance de Mario Vargas Llosa. Esta é a história de como um jornalista de Lima, apaixonado por música peruana, em particular pela valsa crioula, segue a pista de Lalo Molfino, um guitarrista de excepção que descobre por acaso. É curta a carreira de Molfino, que morre novo, e o jornalista, Toño Azpilcueta, dedica-se a um livro que quer contar a história desse guitarrista, mas também da música crioula. A acção decorre no início dos anos 90 e cruza a música com as acções do Sendero Luminoso, um grupo revolucionário, violento, que deixa no país uma marca de divisão. É nesse contexto que Toño Azpilcueta  compreende que a música peruana, as valsas, marineras, polcas e huainos, pode ser o ponto de união de um povo - uma ideia inicialmente escarnecida pelos académicos, depois aceite noutros círculos e que acaba por ser reconhecida como elemento capaz de quebrar preconceitos e barreiras raciais. Azpilcueta descobre onde Molfino cresceu, fala com amigos, enquadra-o no tempo, sempre com a sua música crioula como pano de fundo e faz o seu livro, que se torna num sucesso. Com base nesta história Mario Vargas Llosa escreveu um romance notável, que mostra o poder da música popular genuína, mostrando a sua superioridade em relação às falsificações e cópias que abundam em todo o mundo. “Dedico-lhe o meu silêncio” tem tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra e foi editado pela Quetzal.


 


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VIOLONCELO POP - Mabe Fratti é uma violoncelista pop de 32 anos, da Guatemala e que vive na Cidade do México. Recomendo-vos que vão já a uma das plataformas de streaming e ouçam este seu novo álbum, o quarto a solo,  “Sentir Que No Sabes”. São 13 canções envolventes, onde os arranjos e a voz vão do surpreendente ao emotivo, umas vezes mais melódicos, outras mais rítmico. Não há duas canções iguais, tudo vai mudando, com a linha de baixo sempre presente, a marcar o ambiente. Mabe Fratti é musicalmente aventureira, gosta de experimentar e embora se perceba que tudo é elaborado e pensado, também se sente que de alguma forma o seu trabalho nasce do gosto por improvisar musicalmente e depois ir depurando o resultado. É difícil catalogá-la num género - podia ser pop, mas também podia ser jazz ou música electro-acústica. Num dos temas, aliás duas versões do mesmo tema, “Elastica”, ela é mais radical e há quem diga que a forma como toca o violoncelo, fortemente amplificado, faz lembrar o trabalho de John Cale nos Velvet Underground. Nalguns pontos, como em “Kitana”, não fica longe da guitarra eléctrica. E há temas, como “Alarmas Olvidadas” que mudam de ambiente - e sentimento - de forma abrupta. A forma que usa a voz, que passa de delicada  e intimista como em “Descubrimos Un Suspiro” a dura e expansiva como em “Margen del Indice”num ápice, é uma das características mais marcantes deste “Sentir Que No Sabes”. Disponível nas plataformas de streaming.



WEEKEND - Boa altura para conhecer a nova edição de “O Livro das Imagens”, de Rainer Maria Rilke e ler a sua poesia; na esplanada do bar e restaurante Flagrante Delitro da Casa Museu Fernando Pessoa, às quintas pelas 19h00 há duetos de jazz com músicos do Hot Clube; bebida de verão: gelo, água tónica e no fim, por cima,  um café expresso.


DIXIT - “No ano em que comemoramos um dos raros génios nacionais, Camões, continuamos indiferentes aos estragos que a nossa língua teve com o Acordo Ortográfico” - José Pacheco Pereira.


BACK TO BASICS - “Os meus três anos de actividade política foram muito instrutivos sobre a forma como o apetite pelo poder pode destruir a mente humana, valores e princípios e transformar as pessoas em pequenos monstros” - Mario Vargas Llosa


 


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julho 05, 2024

DUAS ELEIÇÕES EM SENTIDO CONTRÁRIO

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 ESQUERDA E DIREITA -  À hora a que escrevo não se sabe ainda o resultado das eleições no Reino Unido - mas, se as sondagens estiverem certas, a probabilidade é que os trabalhistas ganhem e os conservadores abandonem o governo do país, que lideram desde 2010. Numa Europa onde o resultado das eleições tem dado a vitória a partidos à direita do espectro político, o Reino Unido surge assim como uma excepção, bem diferente do que se passa em França. É curioso seguir o pós eleições nestes dois países europeus - um que disputa a liderança da União Europeia, a França, e outro que é um bastião dos direitos e liberdades, o Reino Unido. Como Luciano Amaral escreveu no “Correio da Manhã”, “completamente em contraciclo com uma Europa continental onde a direita radical se aproxima dos governos, o RU vira ordeiramente à esquerda”. E Luciano Amaral deixa ainda uma nota: “repare-se no que teria acontecido nas últimas eleições europeias se o Reino Unido ainda elegesse cerca de 70 deputados: supondo que os resultados fossem como os das legislativas, os Socialistas e Democratas europeus poderiam tê-las ganho, levando a UE a virar à esquerda, em vez de à direita”. E por falar nas eleições francesas, e em esquerda e direita, termino com outra citação, desta vez de Ana Cristina Leonardo: “Os gritos de vem aí o fascismo, a que se tem resumido em grande parte a estratégia da esquerda, o varrer para debaixo do tapete temas como os da imigração, violência urbana e o radicalismo identitário vêm empurrando cada vez mais eleitores para a extrema-direita, indiferentes ao voto ideológico e a esse preferindo um voto pragmático que, entretanto, deixou de ser simplesmente de protesto. Os tempos adivinham-se de chumbo e a verdade pura e dura, como dizia o humorista francês Guy Bedos, é que está a ser cada vez mais difícil ser de esquerda, sobretudo quando não se é de direita.“


 


SEMANADA - Os gastos dos turistas norte-americanos em Portugal ultrapassaram os dos turistas espanhóis nos primeiros quatro meses deste ano e atingiram 692 milhões de euros; o número de dormidas de turistas americanos em hotéis portugueses no ano passado totalizou 4,6 milhões, um aumento de 33% em relação ao ano anterior; um estudo do ISCSP indica que três quartos dos jovens portugueses têm uma visão polarizada da política e colocam-se mais à direita; Lisboa passou a ser a 23ª cidade da Europa com trânsito mais congestionado e subiu 25 posições face a 2022; as plataformas eletrónicas de TVDE tiveram um volume de negócios em 2023 superior a 500 milhões de euros e já ultrapassaram o volume de negócios dos táxis tradicionais; a receita fiscal caíu 100 milhões de euros nos primeiros cinco meses deste ano, devido a uma queda de 291 milhões de euros na colecta de impostos directos enquanto a subida dos indirectos, que atingiu 193 milhões, não foi suficiente para compensar; 81% dos doentes com cancro estão à espera de uma primeira  consulta no sector público para além do tempo máximo de resposta que é estabelecido; o número de mulheres sem filhos em Portugal triplicou nas últimas duas décadas e Portugal continua a ter uma taxa de fecundidade abaixo da média da OCDE.


 


O ARCO DA VELHA - Invocando frio no Inverno e  ruído dos saltos de uma vizinha do andar superior, o anterior Presidente do Supremo Tribunal de Justiça recusou viver na casa de função que é propriedade do Ministério da Justiça, um apartamento de 200 m2 com vista para o Tejo na Avenida Infante Santo, e optou por arrendar uma outra casa que implicou uma despesa de 60.000 euros ao Estado.


 


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ELVAS EM FARRA - Cerca de duas centenas de obras de dezenas dos mais importantes artistas contemporâneos portugueses e vários estrangeiros podem ser vistas em Elvas na primeira edição da Farra, uma iniciativa impulsionada pelo MACE, Museu de Arte Contemporânea de Elvas e que até 25 de Agosto estará patente ao público em três dezenas de exposições espalhadas por outros tantos espaços da cidade, de Museus a casas particulares, passando por sociedades recreativas e edifícios históricos. FARRA, um nome excelente, significa Festa da Arte em Rede na Região do Alentejo. Dirigida por Ana Cristina Cachola, esta primeira edição da FARRA conseguiu mobilizar para Elvas  a participação de 14 das mais importantes colecções do país, 13 entidades sem fins lucrativos e dois museus. A FARRA inclui ainda um extenso programa de atividades paralelas que inclui performances e diferentes atividades de educação. Júlio Pomar, Julião Sarmento, Manuel Baptista, Lourdes Castro, Miguel Palma, Luísa Cunha, Isabel Cordovil, José Pedro Croft, Gonçalo Mabunda, Ângela Ferreira, João Louro, Michelangelo Pistoletto, Eduardo Chillida,Yonamine, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis, Inez Teixeira, Pedro Valdez Cardoso, Jorge Queiroz, Patrícia Garrido e Cristina Ataíde são alguns dos nomes cujas obras estão na FARRA. Na imagem podem ver ”Mulher Com Árvore”, de Cristina Ataíde, incluída na Colecção PLMJ, exposta na Sociedade Recreativa O Elvas. Programação completa em farra.pt .


 


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ROTEIRO -  Esta semana destaco duas artistas brasileiras. Começo por Bettina Vaz Guimarães, que tem duas exposições:  “Abraço ao Infinito” na Capela do Centro Cultural de Cascais (até 29 de Setembro)  e “Tabela Periódica” no Museu de História Natural, em Lisboa. Em Cascais Bettina Vaz Guimarães apresenta 280 pinturas, que compõem a exposição, especialmente pensada para o espaço da antiga Capela, um trabalho onde onde a cor e a forma são os elementos primordiais. As obras têm todas a mesma dimensão (24x32cm, cada) e foram realizadas em tinta acrílica sobre papel, grafite e lápis de cor. A outra artista brasileira é Panmela Castro e expõe até 14 de Setembro “Do Jardim Um Oceano” (na imagem), na Galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76, Marvila). Durante dois meses Panmela Castro instalou o seu atelier numa varanda de Lisboa, onde retratou amigos e recém conhecidos, portugueses e imigrantes de várias nacionalidades, além de um autorretrato da artista. Destaque ainda para a nova série de trabalhos de Jorge Feijão, com o título “Livro de Horas”, patente  na Galeria Nuno Centeno (Rua da Alegria 598, Porto).


 


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UM LIVRO EMOCIONANTE - O que mais surpreende no novo romance de Rui Couceiro, “Morro da Pena Ventosa”, é o ritmo da escrita, a sucessão de momentos, de episódios, de pequenas histórias, de personagens que se desenvolvem ao longo de 140 episódios curtos e que nos arrastam até ao final sem vontade de parar. O derradeiro episódio, chamemos-lhe assim , tem duas páginas e termina dando um recado com destinatária apontada: “Não há na escrita nenhum compromisso com a verdade, apenas um acto de rebeldia, uma forma de nos vingarmos da vida. A leitura, essa, é a verdadeira ação criadora, os metros últimos da passadeira que a escrita estende.” Rui Couceiro fez um livro sobre o Porto, levando-nos a percorrer caminhos que, os que não são da cidade, apenas conhecem de nome e que desta forma descobrem de outra maneira. É, também, um livro sobre a vida, mas que não teme a morte e a evoca com o amor que se destina a quem gostamos. E é um livro que fala dos nossos problemas actuais, que olha para o Douro como uma fonte de vida que parece ameaçado por quem lhe interrompe a água antes de chegar a Portugal -  chama-se “pedir ao rio que venha”, esse episódio.”Morro da Pena Ventosa” é  o segundo romance de Rui Couceiro (o primeiro foi “Baiôa sem Data para Morrer”). Aqui, o autor dá um salto em frente, arriscado, mudando quase tudo na forma como se apresenta ao leitor. Os 140 momentos deste romance podiam ser  os planos de um filme que se sucedem na sala de edição - e cada momento encaixa no anterior, abre a porta para o seguinte mas também pode ser visto pelo que é. Edição Porto Editora.


 


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O ESCRITOR DE CANÇÕES - No início dos anos 90 Johnny Cash (que morreu em 2003) atravessava um mau bocado, a sair de uma cura de reabilitação, sem editora, com pouco trabalho. Mas em 1993 entrou num estúdio em Nashville e começou a trabalhar numa série de canções que tinha escrito ao longo de 30 anos e que ainda não tinha gravado. Estas gravações nunca foram finalizadas, eram aliás pouco mais que ensaios, e até ao ano passado andaram desaparecidas. Foram encontradas pelo seu filho, John Carter Cash que em pós produção isolou a voz de Cash e a juntou em estúdio a uma série de músicos, incluindo vários que o conheceram bem. Esta é a base de “Songwriter”, o álbum agora lançado e que inclui 11 temas, dois dos quais “Like A Soldier” e “Drive On” apareceram no álbum “American Recordings”, produzido por Rick Rubin e que em 1994 assinalou o início de uma nova etapa na carreira de Cash. Algumas canções são inesperadas e mostram a faceta de humor que caracterizava Cash, como “Well Alright” ou a forma como cantava o amor, em “I Love You Tonite”, dedicada a June, a sua mulher. O trabalho de pós produção que recuperou as gravações de “Songwriter”, a cargo de David Ferguson e John Carter Cash, é assinalável e inclui a colaboração de uma dezena  músicos, e até a inclusão, em coros , de Waylon Jennings, outra lenda da música Country, que aliás integrou os “Highwaymen” com Cash, Willie Nelson e Kris Kristofferson. Disponível em streaming.


 


WEEKEND - Aqui ficam três sugestões para o fim de semana. A primeira é um filme, “À Mesa da Unidade Popular”, mais que um documentário, uma revisitação corajosa do último meio século de Moçambique, desde o período colonial às mudanças, ilusões e desilusões dos anos da independência. Um grande trabalho de Isabel Noronha e Camilo de Sousa, em exibição no Cinema Ideal. A segunda é um oportuno livro, “Atlas da Revolução Francesa”, que vai desde a convocação dos Estados Gerais em 1778 até à coroação de Napoleão I em 1804, boa leitura para acompanhar a segunda volta das eleições francesas. A terceira é um documentário da HBO, sobre uma das lendas do rock, eterno parceiro de Bruce Springsteen, actor ocasional e grande músico:  “Steven Van Zandt: Disciple”, em streaming na MAX.


 


UMA PERGUNTINHA - Alguém sabe qual a programação cultural prevista para a presença portuguesa na Expo Mundial Osaka 2025 que começa já a 13 de abril do próximo ano?


 


DIXIT - "Todos concordamos que é preciso que algo mude no Ministério Público no sentido da credibilização. Alguém tem de pôr ordem na casa” - Rita Alarcão Júdice.


 


BACK TO BASICS - “A política é a conjugação da arte do possível com o que é necessário” - Raymond Aron


 


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junho 28, 2024

O GOVERNO TEM ESTRATÉGIA PARA O SERVIÇO PÚBLICO AUDIOVISUAL?

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A RTP E O FUTEBOL - Nada como uma competição de futebol com a participação da Selecção Nacional para ver qual o entendimento, dos poderes reinantes, sobre o que é o serviço público de televisão. Vamos a dados que os números não enganam. Na semana passada um pouco mais de oito milhões de pessoas viram televisão, mas nenhum dos jogos da selecção chegou sequer a metade desse valor. O que teve maior audiência, frente à Chéquia,  fez 3,4 milhões de espectadores, na SIC, enquanto na RTP1 o jogo com a Turquia ficou nos 2,6 milhões. Em contrapartida a RTP1 registou na semana inaugural do Euro a sua maior média semanal de share do ano, 12,8%, graças aos quatro jogos que transmitiu, três deles entre equipas de outros países. A média anual do canal público  até esta altura é de 10,9%. Há sempre quem defenda que transmitir jogos da selecção é fazer serviço público - embora se perceba mal porque é que tal raciocínio vence quando os operadores privados também os podem emitir - ninguém fica sem ver a Selecção se os jogos não forem emitidos pela RTP. Mas a  RTP desde há muitos anos faz finca pé nisso e tem sido suportada por vários governos, de todas as cores, que até regulamentam que transmissões devem ser consideradas de interesse público. Absurdo maior não pode haver. Nada me move contra o futebol e as suas transmissões, mas não consigo compreender porque é que o serviço público de televisão tem nele o seu principal pilar de programação, quer em transmissões quer em programas de debate e comentário. Na semana passada o Presidente da RTP, Nicolau Santos, foi ao Parlamento e disse o óbvio - há um problema na empresa que dirige, reconhecendo que o canal de informação RTP3 é o que, nessa tipologia, piores resultados alcança. Numa altura em que Luís Montenegro sugeriu querer espalhar dinheiro sobre comunicação, incluindo a RTP, convinha saber qual o entendimento do Governo sobre a estratégia para o serviço público audiovisual. Ninguém a conhece, o que não deixa de ser preocupante.


 


SEMANADACerca de 32 mil crimes de cariz sexual foram investigados pela PJ no espaço de 10 anos, uma média de mais de três mil novos crimes sexuais  por ano; há 450 mil doentes à espera de uma primeira consulta de especialidade além do tempo recomendado; o consumo de antidepressivos quase duplicou na última década; um estudo recente indica que 22,9% dos portugueses sofrem de doenças do foro psiquiátrico; Portugal é o país da UE onde a falta de acesso à habitação mais se agrava; desde 2015 o esforço das famílias portuguesas para adquirir um imóvel, aumentou mais de 50%, o maior agravamento entre os países da União Europeia;  o sector da construção tem mais de 340 mil trabalhadores, dos quais 69 mil imigrantes e precisa de mais 80 a 90 mil pessoas; das 100 empresas que mostraram interesse em testar a semana de quatro dias, 21 levaram o teste de um ano até ao fim e 11 decidiram prolongá-lo; no caso das que decidiram avançar quase 80% consideraram que o impacto financeiro da experiência foi neutro; reduções no absentismo, aumento na capacidade de recrutamento e diminuição na rotatividade foram outras vantagens apontadas; há 45 cursos com taxa de desemprego zero e são todos nas áreas da saúde e engenharia, mas há 21 cursos de outras áreas em que a taxa de desemprego dos licenciados é igual ou superior a 10%.; o abandono escolar após o primeiro ano de licenciatura voltou a aumentar nas instituições de ensino superior públicas e continua a ser nos politécnicos que os alunos mais desistem.


 


O ARCO DA VELHA -No Algarve as perdas de água da rede de distribuição dariam para abastecer quase metade da população.


 


Rosa Carvalho, Montségur, 2004, óleo sobre tela,


OUTRA FORMA DE VER - Até 7 de Outubro está patente na Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva a exposição “Às Escuras” de Rosa Carvalho, uma artista que  desde os meados dos anos 80 do século passado se tem afirmado como uma pintora figurativa em que as temáticas da paisagem e as referências à história da arte antiga foram dominantes. Nos últimos anos a artista iniciou uma outra linha de trabalho: a construção de pequenas maquetas-esculturas de paisagens feitas com materiais reciclados e transformação de materiais e objectos e o recurso a miniaturas. A exposição, com curadoria de Isabel Carlos, reúne um conjunto de mais de 200 trabalhos, entre desenhos, pinturas e objectos tridimensionais, provenientes do espólio pessoal da artista. Esta é uma rara ocasião de contactar com a obra de Rosa Carvalho, mais de uma década depois da sua última exposição individual. A curadora, Isabel Carlos, salienta que “ a artista pinta numa sala sem janelas, sem contacto com o exterior, sem luz natural, na escuridão: a tela é somente iluminada pela luz do projector, sem ver claramente as cores das tintas que estão ao lado e que vai buscando às cegas, só se revelando quando já estão vertidas no suporte da tela ou do papel. Mas, «às escuras», não somente pelo processo de criação, mas também porque estas obras são um retrato poderoso de um mundo em que hoje vivemos, potencialmente apocalíptico”. Esta exposição está inserida na parceria que existe entre o Museu e a Fundação Carmona e Costa, e é a primeira mostra que tem lugar depois da morte de Maria da Graça Carmona e Costa. (Praça das Amoreiras 56).


 


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ROTEIRO -  Em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, está patente até 10 de Novembro a exposição “A liberdade e só a liberdade", com obras de, entre outros, Augusto Brázio, Cláudio Garrudo, Inês d’Orey, Mafalda Santos, Martinho Costa, Nuno Nunes-Ferreira, Patrícia Almeida, Pedro Pascoinho, Rui Horta Pereira, Tiago Casanova e Wasted Rita, com curadoria de Ana Matos. A exposição decorre no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, instalado no local onde funcionou o Tribunal do Santo Ofício de Évora, ou seja a Inquisição, extinta em 1821. Na imagem uma das fotografias de “A Celebração do Incontornável”, de Cláudio Garrudo. No Porto,  Museu Nacional Soares dos Reis, pode ser vista até 29 de Dezembro, a exposição “Centro de Arte Contemporânea –  50 anos: A Democratização Vivida”, que evoca a história do CAC – Centro de Arte Contemporânea, embrião da Fundação de Serralves e do seu Museu de Arte Contemporânea. De 1976 a 1980, o Centro de Arte Contemporânea promoveu cerca de 100 exposições e deu oportunidade a artistas como Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, Álvaro Lapa, Júlio Pomar, Emília Nadal, Eduardo Nery para mostrarem as suas obras pela primeira vez no Porto. Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, a exposição ‘Centro de Arte Contemporânea –  50 anos: A Democratização Vivida’ revisita a história desta aventura, recria alguns dos seus momentos expositivos e mostra  muitos documentos gráficos pouco conhecidos.


 


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CONTOS EXTRAORDINÁRIOS - Gosto de livros de contos, esses pequenos textos que encerram uma história e que podem ser lidos ao sabor do ritmo que quisermos. Depois de ter estado esgotado alguns anos eis agora reeditado “Morte no Verão E Outras Histórias”, que apresenta dez dos contos mais extraordinários escritos por Yukio Mishima, publicados originalmente em revistas e compilados pelo próprio autor. São um bom exemplo do talento de Mishima para retratar a forma como os mais diversos seres humanos enfrentam momentos decisivos. Gueixas que rezam à Lua pelos seus desejos, artistas em confronto com a tradição e consigo mesmos, um militar e a mulher que não o abandona na maior prova de lealdade à pátria, uma família que procura exorcizar uma tragédia: são estas algumas das personagens destas páginas. Mishima cria frases que ficam na memória., como esta que surge logo no segundo conto, uma história de um casal apaixonado que planeia a sua vida em comum: “os olhos dela eram claros e não tinham tempo para outros homens”, uma das mais belas descrições de Amor que tenho lido. Ou esta outra, saída de outro conto: “O seu campo de batalha era um campo sem glória, onde ninguém podia praticar atos de coragem: era a frente de batalha do espírito.” Yukio Mishima, pseudónimo de Kimitake Hiraoka, nasceu em Tóquio em 1925 e suicidou-se praticando o ritual japonês seppuku, a 25 de novembro de 1970, manifestando assim a sua discordância perante o abandono das tradições japonesas e a aceitação acrítica de modelos consumistas ocidentais, comportamento ditado pelo seu idealismo, enraizado no tradicionalismo militar e espiritual dos samurais. Edição Livros do Brasil.


 


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CANÇÕES INTEMPORAIS - John Cale tem agora 82 anos e vai no seu 18º disco a solo. Estudou música clássica no Reino Unido e em Nova Iorque descobriu novos horizontes com John Cage. Há 60 anos, em 1964, conheceu Lou Reed e juntos, com mais alguns músicos,  puseram a andar os Velvet Underground. Em 1967 foi publicado o célebre álbum “The Velvet Underground & Nico”, cuja capa, desenhada por Andy Warhol, ostentava uma banana. Pouco tempo depois Cale começou uma carreira a solo e foi colaborando com numerosos artistas de várias gerações como Patti Smith, The Stooges ou Marc Almond, entre muitos outros. Uma das coisas que o tem distinguido ao longo da sua carreira de seis décadas é a forma como combina a influência de compositores clássicos europeus com músicos de vanguarda como Cage ou inovadores como Brian Eno.“POPtical Illusion” é o seu novo disco, lançado há poucas semanas e um ano depois de ter apresentado outro álbum de originais, “Mercy”. Quem ouvir o novo disco terá dificuldade em perceber que o autor tem 82 anos, que consegue continuar a inovar, a mostrar imaginação. Enquanto “Mercy” tinha temas de homenagem a nomes já desaparecidos como Reed, Nico ou Bowie, o novo disco olha para este mundo e o estado em que se encontra. Cale descreve como tudo parece desmoronar-se à sua volta. No meio de canções sobre o estado do planeta ouvem-se sons de guitarra, misturada com sintetizadores e batidas de hip hop, num cocktail de que só um grande músico e multi-instrumentista, como Cale, é capaz. O novo “POPtical Illusion” tem 13 temas, uma hora de música, com a marcante voz de Cale a cantar temas como “Edge Of Reason”, “I’m Angry”, “How We See The Light”, “Setting Fires”, All To The Good” ou “Laughing In My Sleep”- canções em que os títulos contam logo toda uma história. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Os lisboetas tornaram-se a erva daninha que cresce à sombra da árvore do turismo” -  Clara Ferreira Alves 


 


BACK TO BASICS - “Quando toda a gente pensa o mesmo é sinal de que há falta de pensamento” - Walter Lipmann


 


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junho 21, 2024

O CAMINHO DAS PEDRAS

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O DESCONFORTO DE LISBOA - Terça-feira passada o jornal “Público” noticiava o desagrado dos moradores da Graça com os problemas causados pelo excesso de tuk-tuks nos miradouros e na zona . Há duas semanas tive de me deslocar lá e o que vi é ainda pior do que aquilo que a notícia relata. Já não é só no Chiado e São Pedro de Alcântara, nem no Castelo e na Sé ou em Belém que isto se passa. Lisboa está convertida num tukódromo insuportável. Mas há mais: quem descer a avenida da Liberdade, a quase qualquer hora do dia, constatará que a maioria dos veículos, numa avaliação a olho nu, ostenta a placa TVDE, contribuindo para a poluição na cidade. Bem sei que a estratégia de converter Lisboa numa gigantesca feira para turistas foi obra de Costa e Medina, quando estiveram à frente da CML e impulsionaram o abandono da cidade pelos seus moradores, substituindo-os por turistas. Durante anos escrevi aqui contra os desmandos de Costa e Medina na cidade. Votei contra Medina, na esperança de que Carlos Moedas devolvesse a cidade aos Lisboetas. Infelizmente isso não está a acontecer e seria interessante saber qual o aumento de TVDEs e tuk-tuks em circulação em Lisboa nos últimos dois anos. Arrisco  dizer que o número cresceu. Na semana passada estive uns dias no Funchal, outro destino turístico português por excelência. Praticamente não vi tuk-tuks, TVDEs nem um para amostra, mas vi imensos turistas, quer na cidade, quer nas zonas dos passeios no interior. Estava tudo limpo, sem confusões. O contrário daquilo que infelizmente se passa em Lisboa, onde o excesso de veículos para turistas, o lixo nas ruas e o caos de obras diversas e constantes são problemas reais. Também eu, que aqui nasci e sempre vivi, começo a estar farto disto tudo e, sempre que posso, saio. É importante ter uma política social para os mais idosos na área da saúde e dos transportes. Mas é também importante ter em conta os lisboetas que querem continuar a viver em Lisboa e não querem sentir-se estrangeiros na sua terra. O conforto, o combate ao ruído, a limpeza, a qualidade dos passeios e pavimentos das ruas fazem parte do bem estar. A cidade onde tudo possa estar a 15 minutos, uma das bandeiras de Carlos Moedas, é uma mera ficção com mais de metade do seu mandato percorrido. Lisboa está ainda menos confortável que no tempo de Costa e Medina e viver nela é, muitas vezes, percorrer um doloroso caminho das pedras. Recordo que nas próximas autárquicas quem vota em Lisboa são os incomodados, não os passantes ocasionais.


 


SEMANADA - Nos primeiros quatro meses do ano nasceram menos 246 bebés do que no mesmo período do ano passado, ou seja, uma média de menos dois por dia; em 2023 o número médio mensal de imigrantes registados na Segurança Social e a trabalhar por conta de outrem superou os 495 mil, um acréscimo de 35,5% face ao ano anterior; em 10 anos, de 2014 a 2023, o número de trabalhadores estrangeiros cresceu nove vezes  e são já mais de 20% as empresas que recorrem a imigrantes;  os três sectores mais dependentes de imigrantes são a agricultura, o turismo e a construção; os imigrantes em Portugal são sobretudo jovens com a média de 33 anos, 63% são homens, 37% são mulheres e estão sobretudo concentrados nas áreas metropolitanas de  Lisboa e  Porto, Algarve e Litoral Alentejano; recebem salários 15% mais baixos que os dos portugueses; a população residente em Portugal aumentou em 2023, pelo quinto ano consecutivo, ultrapassando 10,6 milhões,e segundo o INE o acréscimo populacional resultou de um saldo migratório de 155.701 pessoas; Portugal recebeu 2600 novos pedidos de asilo no ano passado, sendo as principais nacionalidades a Gâmbia, o Afeganistão e a Colômbia: o estatuto de criança vítima de violência foi acionado em 10.300 casos num só ano; em Portugal realizam-se cerca de 80 Feiras Medievais; mais de 46 mil professores efectivos querem mudar de escola no próximo ano lectivo, um aumento de 37% face ao verificado no ano passado; a feira do livro de Lisboa foi visitada por mais de um milhão de pessoas; mais de 70% dos portugueses estão preocupados em distinguir notícias verdadeiras e falsas na internet.


 


O ARCO DA VELHASegundo o INE a vinda de Taylor Swift a Portugal em maio teve um impacto nos preços da restauração e alojamento muito maior do que o das Jornadas Mundiais da Juventude.


 


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UM GRANDE POLICIAL - Tornei-me fã de David Lagercrantz quando assumiu a sucessão de Stieg Larsson e escreveu três obras que continuaram a série “Millennium”. Depois descobri o seu romance policial a solo, “Obscuritas”, baseada no trabalho da dupla de investigadores Hans Rekke e Micaela Vargas. E agora deliciei-me com “Memória”, o novo romance com essa dupla. Já que estamos em época de futebol, recordo que David Lagercrantz é o jornalista e escritor sueco que publicou a biografia de Zlatan Ibrahimovic, uma das estrelas do futebol sueco. Adiante na história, e vamos a este “Memória”. O Professor Hanks Rekke é um especialista em psicologia e técnicas de interrogatório, de grande  inteligência  mas de empatia social muito pouco apurada, e trabalha de novo com  Micaela Vargas, uma corajosa agente policial que quer fazer frente às atividades criminosas do irmão. A trama de “Memória” começa quando surge uma fotografia, feita por um turista em Veneza, onde está visível uma mulher que era considerada morta há catorze anos, Claire Lidman. O seu marido vê nesta fotografia a confirmação da convicção que tinha de que Claire não tinha morrido, contrariando o reconhecimento do corpo feito por familiares. É este caso que Hans Rekke e Micaela Vargas vão investigar, revisitando o passado e reconstituindo memórias da crise bancária dos anos 90, os conflitos entre oligarcas russos, o confronto com um perigoso inimigo de Rekke ou os crimes do irmão de Vargas. Mais não conto. o livro já está nas livrarias, pela mão da Porto Editora.


 


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HOMENAGEM A SARAH VAUGHAN - Zara McFarlane, 41 anos, é uma cantora e compositora britânica de jazz, de ascendência jamaicana. Com vários álbuns editados,  em 2014 foi considerada nos MOBO Awards a melhor artista de jazz em Inglaterra. Zara McFarlane até agora gravou sobretudo as suas próprias composições num ambiente sonoro ligado ao jazz britânico. Em “Sweet Whispers: celebrating Sarah Vaughan”, o seu novo disco, o quinto da sua carreira, ela muda de Roma e salta de Londres para os sons de Nova Iorque. O novo álbum é uma homenagem, no ano do centenário de Vaughan, à lendária cantora norte-americana de jazz, que morreu em 1990. Neste disco Zara McFarlane retoma 10 temas originais de Vaughan e apresenta um original que compôs. A acompanhá-la está um quarteto de músicos que normalmente trabalham com ela, sob a direcção do saxofonista Giacomo Smith, que produziu o álbum, fez os arranjos e tem uma participação musical relevante. O disco começa por dois temas clássicos de Vaughan, “Tenderly” e “Mean To Me”, inclui versões notáveis de  “Inner City Blues”, “September Song” e “If You Could See Me Now”. Inclui também “Obsession”, um tema de “Brazilian Romance”, de 1987, o derradeiro registo de Sarah Vaughan e termina com uma composição original,  “Sweet Whispers”. McFarlane não é uma mera imitadora e este álbum mostra a sua grande capacidade vocal e interpretativa. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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UMA GRANDE COLECÇÃO DE FOTOGRAFIA  - Desde 2019 o Museu do Neo Realismo tem vindo a desenvolver uma importante colecção de fotografia, sob a orientação de Jorge Calado, sob o título “A Família Humana”, que evoca a histórica exposição “The Family of Man” organizada por  Edward Steichen no MoMA, Nova Iorque, em 1955. Em Vila Franca de Xira Jorge Calado constituíu uma coleção fotográfica internacional, com cerca de oitocentas imagens de mais de 350 fotógrafos de meia-centena de nacionalidades,  realizadas em quase uma centena de países. São fotografias que mostram todas as dimensões da vida, do trabalho ao lazer, que conjugam olhares de autores famosos com outros desconhecidos, do fotojornalismo à arte fotográfica, numa montagem rigorosa. Nos últimos quatro anos, a Coleção A Família Humana foi objeto de quatro exposições e em cada uma foi colocado em destaque um artista:  Otto Karminski, Claude Jacoby, Erika Stone e Ingeborg Lippmann. Agora, na nova montagem sob o título “Paralelos e Contrapontos”, Jorge Calado escolheu o neerlandês Kees Scherer, co-fundador da World Press Photo, que fotografou várias vezes em Portugal – nomeadamente em Vila Franca de Xira – nos anos 1959-1963. Esta montagem inclui novas aquisições da colecção e apresenta um novo olhar. A exposição, no piso 1 do Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira,  tem entrada gratuita, de terça a domingo, das 10h00 às 18h00, e fica patente até 20 de outubro de 2024. 


 


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ROTEIRO - Esta semana proponho uma deslocação a Viseu onde, na Casa d’Artes e Ofícios, CAOS, mesmo perto do museu Grão Vasco, José Maçãs de Carvalho apresenta  “Dispositivo”, uma exposição que mostra quatro das suas fotografias e que estará patente até 17 de Agosto, entre elas a imagem aqui reproduzida e que foi efectuada em Bratislava em 1991. José Maçãs de Carvalho é um importante fotógrafo português com um percurso singular  e é também Professor no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Para esta exposição foi buscar fotografias das séries “Arquivo e Domicílio” (2014)  e “Arquivo e Dispositivo” (2016), mostras organizadas com imagens nas quais a forma de visão ocupa lugar central, seja com câmaras fotográficas, pinturas, ecrãs ou janelas. No mesmo espaço existe uma zona de atelier destinado à descoberta da Arte por crianças.  Na Sociedade Nacional de Belas Artes Renée Gagnon apresenta até 20 de Julho “Mu Seke 75”, uma exposição de fotografia com curadoria de Paula Nascimento, que apresenta  um conjunto de quatro dezenas de fotografias de Gagnon, tiradas durante o período de 1972 a 1976,  em Luanda, num interessante registo que combina o documental com a descoberta dos jogos de formas e materiais que são a base das construções dos musseques. E na Galeria Monitor continua até dia 22 a exposição “Release The Chicken!”, de Eugénia Mussa (Rua da Páscoa 91).


 


DIXIT - “O combate ao populismo de esquerda e de direita é o grande desafio dos próximos anos. Da imigração à transição ecológica, dos nacionalismos ao federalismo europeu, do egoísmo à solidariedade” - Luís Marques


 


BACK TO BASICS - “Por todo o lado as pessoas confundem o que lêem nos jornais com notícias” - A.J. Liebling









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junho 14, 2024

O MANDRAKE DA POLÍTICA PORTUGUESA

 


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SOBRE O ILUSIONISMO NA POLÍTICA -  Estava eu sossegado a seguir a noite eleitoral quando, na declaração final, Pedro Nuno Santos, todo ufano, reivindicou a vitória eleitoral nas europeias para a esquerda, não apenas para o PS. Dizia ele, logo no arranque da sua declaração, empolgado, que a esquerda tinha sido maioritária nestas eleições, iludindo a grande perda de votos dos seus parceiros de geringonça, Bloco e PC, além da perda de um mandato pelo PS, em relação às europeias de 2019. Sem pudores anunciou que, não contando com o Chega, a esquerda tinha sido vencedora no domingo passado. Eis o que ía na sua cabeça: se somarmos o resultado do PS ao BE, CDU e Livre temos um total de 45,01% dos votos; se por golpe mágico do líder do PS não se contar com o Chega e somarmos a AD à IL temos 40,1% dos votos. Portanto, tudo certo? Não - o malabarista político que dirige o PS colocou o Chega de fora das contas, porque se o somarmos à IL e à AD o total é de 49,9%. Pedro Nuno Santos passa a vida a colar o PSD ao Chega, mas quando lhe dá jeito à conversa, faz de conta que não é nada. Felizmente logo a seguir fez-se luz e percebi o raciocínio do ilusionista Santos: tão enlevado anda em votações conjuntas com o Chega que o colocou do seu lado. Assim os votos da Cheringonça de facto são maioritários, ultrapassando os 50%. Em matéria de finanças públicas já conhecia a contabilidade criativa do PS. Na noite eleitoral fiquei a saber que os seus matemáticos também são capazes de criatividade na interpretação dos resultados das eleições. Hoje em dia, mesmo quando pouca coisa me surpreende, há sempre lugar para me espantar com o descaramento de figuras como a que agora dirige o PS. Mas adiante e passemos para a Europa onde a abstenção foi de 49%, que compara com os 62,1% registados em Portugal. O balanço global na Europa é que a direita avança e a esquerda retrocede. No entanto o bloco central europeu, que agrupa populares, social-democratas, liberais e verdes, conseguiu 63% dos votos, retendo a maioria, apesar do avanço da ultradireita no tradicional eixo do mal europeu, o bloco franco-alemão, além da consolidação dos resultados que a direita obteve na Itália e na Áustria. Talvez Pedro Nuno Santos pudesse olhar para o que se passa na Europa e repensar a política de alianças do PS em Portugal.



SEMANADA - Estão referenciadas 2854 casas devolutas em Lisboa, que correspondem a 5,19% de um universo de 55.000 habitações em toda a cidade; nos últimos dez anos Lisboa perdeu 30% dos seus habitantes tradicionais; as previsões do Ministério da Educação apontam para que até final do ano se reformem cerca de 4700 professores dos vários graus de ensino; em quatro anos duplicou o número de imigrantes a trabalhar na agricultura e turismo; os alunos do secundário da grande Lisboa, Algarve e Alentejo são os que têm mais dificuldades em concluir os vários ciclos do ensino secundário no tempo previsto; entre janeiro e abril foram assaltadas 3867 casas, número que compara com os 4086 ocorridos em idêntico período do ano passado; no primeiro trimestre do ano o Estado arrecadou em impostos provenientes dos jogos online cerca de 86 milhões de euros, mais 36% que em igual período do ano passado; em Portugal a taxa de emprego de quem termina o ensino superior situou-se em 86,8% em 2023, abaixo da média europeia de 87,7%; e a Estónia, com 96,7% foi o país com média mais alta; se todos os planos industriais e de serviços  previstos para Sines forem para a frente representarão 60% de todo o consumo de electricidade feito em Portugal.


 


O ARCO DA VELHA - Nestas europeias a Comissão Nacional de Eleições quis proibir que jornalistas reportassem declarações de candidatos e que informassem sobre números de votações noutros países que estavam no site do Parlamento Europeu. 


 


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UMA COLECÇÃO  - O Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, foi distinguido pela Associação Portuguesa de Museologia como Museu do Ano em 2024. A sua Exposição de Longa Duração, reúne uma das mais importantes colecções de arte portuguesa do século XIX, ao todo 1133 peças distribuídas por 27 salas. Desde há algumas semanas o Soares dos Reis acolhe também o quadro “Descida da Cruz” (na imagem), cedido pela Fundação Livraria Lello que comprou a obra recentemente, numa feira de arte em Maastricht, depois de o Estado não ter feito nada para travar a sua saída do país. ‘Descida da Cruz’, uma pintura sacra datada de 1827, faz parte de um grupo de quatro pinturas tardias de Domingos Sequeira, executadas em Roma, onde o artista morreu em 1837. Domingos Sequeira é considerado como o mais talentoso e original pintor português do seu tempo, tendo desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da arte portuguesa de início do século XIX. o Museu Soares dos Reis dispunha já de alguns estudos preparatórios de Domingos Sequeira para a elaboração de “Descida da Cruz”. O quadro e os desenhos referidos estão na mesma sala onde se encontram  quatro óleos e um conjunto significativo de desenhos de Domingos Sequeira, que fazem parte da colecção do Museu. Filho de um barqueiro e nascido no seio de uma família pobre, em 1768, Domingos Sequeira foi educado na Casa Pia, onde frequentou o curso de Desenho e Figura. Depois, graça a uma  bolsa real concedida por D. Maria I estudou pintura e desenho com Antonio Cavallucci, em Roma. De regresso a Lisboa foi  nomeado por D. João VI,  pintor da corte e corresponsável da empreitada de pintura do Palácio da Ajuda. Foi ainda professor de Desenho e Pintura da Família Real e, em 1806, dirigiu a aula da Academia de Marinha, Porto. Aqui está mais uma razão para visitar este belo museu do Porto.


 


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ROTEIRO -  Até 3 de Novembro, no Porto, na Galeria Contemporânea do Museu e Capela da Casa de Serralves, Sara Bichão apresenta “Lightless” (na imagem), que apresenta como uma reflexão sobre a brevidade e fragilidade da existência humana, mas também da transitoriedade dos objetos, das matérias e da própria natureza, num trabalho que explora a luz e a escuridão com curadoria de Inês Grosso. Na Zet Gallery, em Braga, (Rua do Raio 175) até 6 de Julho, João Tabarra apresenta "Teimosamente persisto em adorar a liberdade livre.", um conjunto de quinze trabalhos, alguns dos quais inéditos, que exploram as possibilidades da fotografia e da imagem em movimento, com curadoria de Helena Mendes Pereira. Na Rialto ( Rua do Conde Redondo 6), duas exposições: “Outro” com pintura e escultura de  Fernão Cruz e “Verónica” de Rita Ferreira, ambas até 19 de Julho. Na Galeria Foco, (Rua Antero de Quental 55A), pode ver até 38 de Junho “Signals from Afar” de Clara Imbert, obras em metal e pedra. Na 3+1 Arte contemporânea Maria Laet apresenta até 29 de Junho Infinita Medida, Largo Hintze Ribeiro 3. Mo Museu Nacional de História Natural e da Ciência Margarida Lagarto apresenta “Uma erva e vinte pedras bordadas” até 30 de Junho. Finalmente em Évora, no Museu nacional Frei Manuel do Cenáculo, “Devir Paisagem” é uma exposição colectiva com obras de Cristina Ataíde, Liana Nigri, Luzia Simons, Marcelo Moscheta, Marlon Wirawasu, Moara Tupinambá, Patrícia Bárbara, Pedro Vaz, Renata Cruz, Renata Pandovan, Tatiana Arocha e Vera Mantero, com curadoria de Lilian Fraiji.


 


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RELER OS LUSÍADAS - É curioso notar como, ao contrário do Governo anterior, a iniciativa editorial portuguesa, dedicou especial cuidado ao lançamento de uma série de livros, importantes, sobre Luís de Camões e a sua obra, por ocasião do quinto centenário do seu nascimento, ocorrido a 10 de Junho.  Uma dessas recentes edições é Luis de Camões - uma antologia”, preparada por Frederico Lourenço. Esta antologia permite ler as passagens mais brilhantes de “Os Lusíadas” e das “Rimas”, além de uma selecção de outros poemas. Inclui ainda uma introdução de Frederico Lourenço onde é abordado o papel de Camões no seu tempo, como a sua obra tem sido interpretada e analisada, incluindo as questões mais contemporâneas relacionadas com a interpretação política actual das descobertas portuguesas. Conhecido pelo seu romance camoniano “Pode Um Desejo Imenso” e por estudos académicos sobre Camões, Frederico Lourenço explora, com elementos novos, a velha questão da presença clássica na obra camoniana, não deixando de enfrentar o problema de como lê-la à luz das mentalidades contemporâneas. Além da introdução, Frederico Lourenço preparou igualmente um conjunto de anotações, quer a “Os Lusíadas”, quer às “Rimas” e também anotações sobre episódios da vida do poeta. O livro termina com um delicioso e curto texto de ficção onde Frederico Lourenço traça “O retrato de Camões”. Edição Quetzal.


 


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UM CONCERTO FANTÁSTICO - O trompetista polaco Tomasz Stanko morreu em 2018 e em 2004, no auge da sua carreira fez uma digressão histórica na Europa e Estados Unidos, acompanhado pelo seu quarteto habitual. Em Setembro de 2004 deu um concerto em Munique que felizmente foi gravado e durante todos estes anos esteve guardado nos arquivos da ECM, que agora o editou sob o título “Suspended Night”. O trompetista, cuja forma de tocar por vezes faz lembrar Miles Davis, tinha constituído um quarteto que além dele próprio incluía músicos 20 anos mais novos que ele acarinhava, como o pianista Marcin Wasilewski, o baixista Slawomir Kurkiewicz e o baterista Michal Miskiewicz. A gravação reproduz esse concerto  no Muffathalle de Munique ao longo de 11 temas e mais de uma hora de excelente música. Os três jovens músicos de então permaneceram juntos depois da morte de  Stanko, no Marcin Wasilewski  Trio. Qualquer destes três músicos, na altura todos abaixo dos 30 anos, tem uma papel importantíssimo nesta gravação, com o piano fornecendo o apoio musical aos solos de Stanko e a secção rítmica a desbravar caminhos. O disco agora editado a partir da gravação do concerto de Munique teve produção do próprio fundador da ECM, Manfred Eicher. Disponível nas plataformas de streaming.



DIXIT - “Há muita gente que tem uma concepção parcial da liberdade de expressão. Quem sabe se também de outras liberdades e de outros direitos” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A sabedoria dos mais velhos é uma grande falácia: não ficam mais sábios, apenas mais cautelosos” - Ernest Hemingway



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 

junho 07, 2024

UMA CAMPANHA FRAQUINHA E VAGAROSA

 


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EUROELEIÇÕES - Se na última semana da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu se  discutiram alguns temas europeus, nas semanas anteriores o foco foi em problemas domésticos, com a agenda a ser comandada sobretudo por pequenos partidos de esquerda, que preferiram a política paroquial. Foi assim que durante semanas as políticas da saúde, a questão do aborto ou da habitação foram chamadas à liça e ocuparam a maior parte do tempo de debates, com raras incursões nas políticas de emigração, ambientais e pouco mais. De início temas como a guerra da Ucrânia, assunto desagradável à esquerda do PS, esteve arredada de conversas, num silêncio cúmplice com Putin. Pelas mesmas razões, da política de defesa também pouco se ouviu falar. Mas se a política de imigração, os impostos e fundos europeus e o alargamento da União Europeia deram ar de sua graça na última semana, continuaram sem  discussão questões tão importantes como o renascer, pela mão de Macron, sob o pretexto da refundação da Europa, do eixo França- Alemanha, com a divisão por regiões das políticas industriais baseadas no reforço desse eixo. O pano de fundo destas eleições é  no entanto o aumento das intenções de voto na direita mais radical, sem que existam grandes reflexões sobre as suas causas. Nestas europeias, na Alemanha, pela primeira vez, a idade de voto desce para os 16 anos, numa altura em que a direita radical AfD é sobretudo apoiada pelos jovens. E há recomposições - como em França, onde um candidato que se apresenta como social democrata, Raphael Gluksmann, do novo Place Publique, ameaça ficar à frente de Macron, mas atrás de Marine Le Pen. Aqui ao lado, em Espanha, também o Vox ameaça ter um resultado significativo. Já em Portugal, onde é inevitável que o resultado obtido por PS e PSD proporcione leituras nacionais, uma coisa é certa: independentemente do resultado que Sebastião Bugalho obtiver nestas europeias, ele já construíu uma rampa de lançamento no interior do PSD, palmilhando concelhias e distritais que aposto, Europa à parte,  lhe serão úteis em futuros vôos.



SEMANADA - Nos últimos 16 anos foram registados 1011 casos de tráfico de pessoas em Portugal; o aumento de tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal, crimes de ódio e violência entre grupos foram os principais indicadores do aumento da criminalidade e da violência em Portugal, no último ano; em 2023 a criminalidade violenta e grave representou 3,8 por cento de toda a criminalidade participada; extorsão, resistência e coação sobre funcionários, roubo por esticão, rapto, sequestro e roubo na via pública foram os crimes violentos e graves que mais subiram no ano passado; nas questões de criminalidade sexual, o maior número de ocorrências está associado aos crimes de abuso sexual de crianças, de violação e de pornografia de menores, perpretados em esmagadora maioria por indivíduos do sexo masculino contra indivíduos do sexo feminino, em ambiente familiar, e com vítimas entre os 8 e os 13 anos; Portugal tem os agricultores mais velhos da Europa, 51,9% das pessoas que se dedicam à agricultura no nosso país têm mais de 65 anos, e há apenas 1,9% com menos de 35 anos; em Portugal a população com 80 anos ou mais quase duplicou nas duas últimas décadas;  os bancos que operam em Portugal, bem como outras entidades financeiras, comunicaram no ano passado mais de 18 mil transações suspeitas de branqueamento de capitais.


 


O ARCO DA VELHA - Na estação Alto dos Moinhos o Metropolitano de Lisboa tapou os painéis de azulejo feitos por Júlio Pomar, evocando grandes figuras da literatura portuguesa,  com máquinas de emissão de bilhetes e outros aparelhos de grandes dimensões.


 


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UMA DESCOBERTA - Volta e meia descobrimos alguém com  uma obra considerável e até agora quase desconhecido. José de Almeida Araújo foi amigo de estrelas como Jean Simmons e John Wayne, privou com Le Corbusier e também com Picasso, Henri Salvador, André Malraux e Errol Flynn. Depois de viver em vários países, voltou a Cascais, como um quase desconhecido, para terminar os seus dias. Nasceu em 1924 e morreu no passado dia 8 de maio, pouco antes de celebrar um século de vida.  Filho de pai português e mãe alemã judia, José Harry de Almeida Araújo cresceu com a família materna, em Berlim, e na adolescência viveu em Cascais. No pós-guerra, descontente com o cenário português da época, emigrou, primeiro para Paris e depois para Londres. A exposição “Almeida Araújo: Fotografia e Pintura” que está no Centro Cultural de Cascais, integra 18 telas produzidas entre 1960 e 1994, entre retratos de familiares e amigos, como um retrato de Nureyev, e representações de paisagens portuguesas, francesas e brasileiras. A pintura completa-se com fotografias feitas por Almeida Araújo, registos do quotidiano de Londres, em Inglaterra, nos anos 50 e fotografou também personalidades da política e das artes como John F. Kennedy, Jeanne Moreau, Jean Cocteau e Roger Vadim. Para além do seu trabalho de pintura e fotografia, José de Almeida Araújo foi escultor, actor e arquitecto - projetou, por exemplo, o hotel Vilalara Thalassa, no Algarve. Foi também o artista escolhido para pintar o topo da maior galeria do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, onde realizou a “Adoração da Cruz”, uma grande pintura em óleo sobre madeira. Pintou ainda retratos de Winston Churchill e da Princesa Soraya do Irão. A exposição está patente no Centro Cultural de Cascais até 23 de Junho.


 


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ROTEIRO - Hoje começo pela exposição de Rui Algarvio na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos Lote F),  Intitulada “Os Passeios Com Caronte” (na imagem) na qual  Rui Algarvio aborda a relação entre o ser humano e a paisagem. A exposição fica patente até 14 de Setembro. Na No-No Gallery (Rua de Santo António à Estrela 39), Ana Pérez-Quiroga apresenta até ao início de setembro a exposição “Estonteante”. Na Galeria das Salgadeiras (nova morada- Avenida dos Estados Unidos 53D), Rita Gaspar Vieira apresenta até 14 de Setembro “Água Viva”. Na galeria Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147), Tomaz Hipólito apresenta até dia 29 a exposição “Tension”. Uma exposição a não perder, até 22 de Junho,  é “Release The Chicken”, da moçambicana Eugénia Mussa na Galeria Monitor (Rua da Páscoa 91). Na Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva pode ser vista até 7 de Julho uma exposição sobre a obra gráfica de Maria Helena Vieira da Silva sob o título “Os Frutos da Liberdade”. Na Casa da Cultura de Setúbal está patente um trabalho do fotógrafo chileno Roberto Santadreu intitulada “Trabalhar no Estaleiro”, baseada na obra literária de Juan Carlos Onetti. E na Galeria das Tapeçarias de Portalegre (Rua Academia das Ciências 2) pode ser vista a exposição “Diálogos”, que apresenta cerâmicas de Beatriz Horta Correia em simultâneo com tapeçarias de  Cruzeiro Seixas, Cargaleiro, Menez e Vieira da Silva.


 


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OUTRA LISBOA - Neill Lochery é um historiador britânico que se tem debruçado em particular sobre os anos 40 e 50 no contexto da segunda grande guerra. Há alguns anos escreveu "Lisboa: A Guerra nas Sombras da Cidade da Luz, 1939- 1945" onde relatou os resultados da sua investigação sobre o papel central de Lisboa nos confrontos entre os serviços de espionagem dos aliados e da Alemanha nazi e as suas relações com as autoridades portuguesas de então. No novo livro "Lisboa II - Os Países Neutros e a Pilhagem Nazi", aborda o papel de Portugal, no pós-guerra.  Com base  em informação inédita, Lochery revela os meandros da fuga dos tesouros roubados pelos nazis e o papel que Portugal teve no desaparecimento de obras de arte de colecionadores judeus, como os Rothschild, e a galeristas importantes, como Paul Rosenberg, de Paris. Segundo Lochery durante a II Guerra Mundial os nazis saquearam cerca de 20 por cento da arte e dos tesouros europeus, entre elas obras dos artistas mais importantes de todos os tempos como Pablo Picasso e Vincent van Gogh. Este "Lisboa II" relata a fascinante história da corrida dos aliados para recuperar estes bens roubados antes que desaparecessem, e antes que a vontade de punir a Alemanha fosse substituída pelas considerações políticas da Guerra Fria, que se aproximava rapidamente. Neill Lochery dá a conhecer os meandros da fuga dos tesouros roubados pelos nazis e a passagem por Lisboa de muitos deles. Aborda também a relação entre os serviços secretos alemães e a PVDE e posteriormente a PIDE e a forma como Salazar seguia o que se passava. Com uma escrita empolgante, este “Lisboa II” permite  ter uma imagem que muitos desconhecem do que se passava em Lisboa nos anos do pós guerra. Edição Casa das Letras. 


 


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UM DISCO ESPECIAL  - A saxofonista Melissa Aldana nasceu em Santiago do Chile mas estudou e vive nos Estados Unidos. O seu primeiro disco data de 2010 e em 2019 foi nomeada para os Grammys com o álbum “Visions”.  Em 2022 gravou com o seu quinteto o álbum “12 Stars” e agora editou “Echoes of the Inner Prophet”. O disco é um espelho da evolução do seu grupo, onde, além de Aldana no sax tenor, participam Lage Lund na guitarra, Fabian Almazan no piano, Pablo Menares no baixo e Kush Abade na bateria. Este quinteto, que realizou uma extensa digressão, é já considerado uma das mais interessantes formações do jazz contemporâneo. Com arranjos e produção de Lund, que com ela trabalha há alguns anos, o  novo álbum é assumidamente uma homenagem a Wayne Shorter, por quem Aldana tem uma enorme admiração. A maior parte das oito composições são suas, mas há uma de Lund, “I Know You Know”e outra de Menares, “Ritual”, com a participação do brasileiro Guinga. Outros temas, como “Unconscious Whisper”, “The Solitary Seeker” e “A Purpose” ou “Cone of Silence”, mostram a forma muito particular com que Aldana cria a sua estética sonora, baseada em improvisações que depois evoluem de forma envolvente em perfeita articulação com os seus músicos. O disco está disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Hoje, o tema económico mais central na UE é a estagnação da nossa produtividade e a perda de terreno em relação aos outros grandes blocos económicos. Nos últimos 20 anos, a distância que separa a riqueza de um europeu médio em relação a um americano médio aumentou de forma considerável.” - Ricardo Reis


 


BACK TO BASICS - “Todos reivindicam mudanças desde que elas não os afetem pessoalmente” - anónimo 


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS