
ESQUERDA E DIREITA - À hora a que escrevo não se sabe ainda o resultado das eleições no Reino Unido - mas, se as sondagens estiverem certas, a probabilidade é que os trabalhistas ganhem e os conservadores abandonem o governo do país, que lideram desde 2010. Numa Europa onde o resultado das eleições tem dado a vitória a partidos à direita do espectro político, o Reino Unido surge assim como uma excepção, bem diferente do que se passa em França. É curioso seguir o pós eleições nestes dois países europeus - um que disputa a liderança da União Europeia, a França, e outro que é um bastião dos direitos e liberdades, o Reino Unido. Como Luciano Amaral escreveu no “Correio da Manhã”, “completamente em contraciclo com uma Europa continental onde a direita radical se aproxima dos governos, o RU vira ordeiramente à esquerda”. E Luciano Amaral deixa ainda uma nota: “repare-se no que teria acontecido nas últimas eleições europeias se o Reino Unido ainda elegesse cerca de 70 deputados: supondo que os resultados fossem como os das legislativas, os Socialistas e Democratas europeus poderiam tê-las ganho, levando a UE a virar à esquerda, em vez de à direita”. E por falar nas eleições francesas, e em esquerda e direita, termino com outra citação, desta vez de Ana Cristina Leonardo: “Os gritos de vem aí o fascismo, a que se tem resumido em grande parte a estratégia da esquerda, o varrer para debaixo do tapete temas como os da imigração, violência urbana e o radicalismo identitário vêm empurrando cada vez mais eleitores para a extrema-direita, indiferentes ao voto ideológico e a esse preferindo um voto pragmático que, entretanto, deixou de ser simplesmente de protesto. Os tempos adivinham-se de chumbo e a verdade pura e dura, como dizia o humorista francês Guy Bedos, é que está a ser cada vez mais difícil ser de esquerda, sobretudo quando não se é de direita.“
SEMANADA - Os gastos dos turistas norte-americanos em Portugal ultrapassaram os dos turistas espanhóis nos primeiros quatro meses deste ano e atingiram 692 milhões de euros; o número de dormidas de turistas americanos em hotéis portugueses no ano passado totalizou 4,6 milhões, um aumento de 33% em relação ao ano anterior; um estudo do ISCSP indica que três quartos dos jovens portugueses têm uma visão polarizada da política e colocam-se mais à direita; Lisboa passou a ser a 23ª cidade da Europa com trânsito mais congestionado e subiu 25 posições face a 2022; as plataformas eletrónicas de TVDE tiveram um volume de negócios em 2023 superior a 500 milhões de euros e já ultrapassaram o volume de negócios dos táxis tradicionais; a receita fiscal caíu 100 milhões de euros nos primeiros cinco meses deste ano, devido a uma queda de 291 milhões de euros na colecta de impostos directos enquanto a subida dos indirectos, que atingiu 193 milhões, não foi suficiente para compensar; 81% dos doentes com cancro estão à espera de uma primeira consulta no sector público para além do tempo máximo de resposta que é estabelecido; o número de mulheres sem filhos em Portugal triplicou nas últimas duas décadas e Portugal continua a ter uma taxa de fecundidade abaixo da média da OCDE.
O ARCO DA VELHA - Invocando frio no Inverno e ruído dos saltos de uma vizinha do andar superior, o anterior Presidente do Supremo Tribunal de Justiça recusou viver na casa de função que é propriedade do Ministério da Justiça, um apartamento de 200 m2 com vista para o Tejo na Avenida Infante Santo, e optou por arrendar uma outra casa que implicou uma despesa de 60.000 euros ao Estado.

ELVAS EM FARRA - Cerca de duas centenas de obras de dezenas dos mais importantes artistas contemporâneos portugueses e vários estrangeiros podem ser vistas em Elvas na primeira edição da Farra, uma iniciativa impulsionada pelo MACE, Museu de Arte Contemporânea de Elvas e que até 25 de Agosto estará patente ao público em três dezenas de exposições espalhadas por outros tantos espaços da cidade, de Museus a casas particulares, passando por sociedades recreativas e edifícios históricos. FARRA, um nome excelente, significa Festa da Arte em Rede na Região do Alentejo. Dirigida por Ana Cristina Cachola, esta primeira edição da FARRA conseguiu mobilizar para Elvas a participação de 14 das mais importantes colecções do país, 13 entidades sem fins lucrativos e dois museus. A FARRA inclui ainda um extenso programa de atividades paralelas que inclui performances e diferentes atividades de educação. Júlio Pomar, Julião Sarmento, Manuel Baptista, Lourdes Castro, Miguel Palma, Luísa Cunha, Isabel Cordovil, José Pedro Croft, Gonçalo Mabunda, Ângela Ferreira, João Louro, Michelangelo Pistoletto, Eduardo Chillida,Yonamine, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis, Inez Teixeira, Pedro Valdez Cardoso, Jorge Queiroz, Patrícia Garrido e Cristina Ataíde são alguns dos nomes cujas obras estão na FARRA. Na imagem podem ver ”Mulher Com Árvore”, de Cristina Ataíde, incluída na Colecção PLMJ, exposta na Sociedade Recreativa O Elvas. Programação completa em farra.pt .

ROTEIRO - Esta semana destaco duas artistas brasileiras. Começo por Bettina Vaz Guimarães, que tem duas exposições: “Abraço ao Infinito” na Capela do Centro Cultural de Cascais (até 29 de Setembro) e “Tabela Periódica” no Museu de História Natural, em Lisboa. Em Cascais Bettina Vaz Guimarães apresenta 280 pinturas, que compõem a exposição, especialmente pensada para o espaço da antiga Capela, um trabalho onde onde a cor e a forma são os elementos primordiais. As obras têm todas a mesma dimensão (24x32cm, cada) e foram realizadas em tinta acrílica sobre papel, grafite e lápis de cor. A outra artista brasileira é Panmela Castro e expõe até 14 de Setembro “Do Jardim Um Oceano” (na imagem), na Galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76, Marvila). Durante dois meses Panmela Castro instalou o seu atelier numa varanda de Lisboa, onde retratou amigos e recém conhecidos, portugueses e imigrantes de várias nacionalidades, além de um autorretrato da artista. Destaque ainda para a nova série de trabalhos de Jorge Feijão, com o título “Livro de Horas”, patente na Galeria Nuno Centeno (Rua da Alegria 598, Porto).

UM LIVRO EMOCIONANTE - O que mais surpreende no novo romance de Rui Couceiro, “Morro da Pena Ventosa”, é o ritmo da escrita, a sucessão de momentos, de episódios, de pequenas histórias, de personagens que se desenvolvem ao longo de 140 episódios curtos e que nos arrastam até ao final sem vontade de parar. O derradeiro episódio, chamemos-lhe assim , tem duas páginas e termina dando um recado com destinatária apontada: “Não há na escrita nenhum compromisso com a verdade, apenas um acto de rebeldia, uma forma de nos vingarmos da vida. A leitura, essa, é a verdadeira ação criadora, os metros últimos da passadeira que a escrita estende.” Rui Couceiro fez um livro sobre o Porto, levando-nos a percorrer caminhos que, os que não são da cidade, apenas conhecem de nome e que desta forma descobrem de outra maneira. É, também, um livro sobre a vida, mas que não teme a morte e a evoca com o amor que se destina a quem gostamos. E é um livro que fala dos nossos problemas actuais, que olha para o Douro como uma fonte de vida que parece ameaçado por quem lhe interrompe a água antes de chegar a Portugal - chama-se “pedir ao rio que venha”, esse episódio.”Morro da Pena Ventosa” é o segundo romance de Rui Couceiro (o primeiro foi “Baiôa sem Data para Morrer”). Aqui, o autor dá um salto em frente, arriscado, mudando quase tudo na forma como se apresenta ao leitor. Os 140 momentos deste romance podiam ser os planos de um filme que se sucedem na sala de edição - e cada momento encaixa no anterior, abre a porta para o seguinte mas também pode ser visto pelo que é. Edição Porto Editora.

O ESCRITOR DE CANÇÕES - No início dos anos 90 Johnny Cash (que morreu em 2003) atravessava um mau bocado, a sair de uma cura de reabilitação, sem editora, com pouco trabalho. Mas em 1993 entrou num estúdio em Nashville e começou a trabalhar numa série de canções que tinha escrito ao longo de 30 anos e que ainda não tinha gravado. Estas gravações nunca foram finalizadas, eram aliás pouco mais que ensaios, e até ao ano passado andaram desaparecidas. Foram encontradas pelo seu filho, John Carter Cash que em pós produção isolou a voz de Cash e a juntou em estúdio a uma série de músicos, incluindo vários que o conheceram bem. Esta é a base de “Songwriter”, o álbum agora lançado e que inclui 11 temas, dois dos quais “Like A Soldier” e “Drive On” apareceram no álbum “American Recordings”, produzido por Rick Rubin e que em 1994 assinalou o início de uma nova etapa na carreira de Cash. Algumas canções são inesperadas e mostram a faceta de humor que caracterizava Cash, como “Well Alright” ou a forma como cantava o amor, em “I Love You Tonite”, dedicada a June, a sua mulher. O trabalho de pós produção que recuperou as gravações de “Songwriter”, a cargo de David Ferguson e John Carter Cash, é assinalável e inclui a colaboração de uma dezena músicos, e até a inclusão, em coros , de Waylon Jennings, outra lenda da música Country, que aliás integrou os “Highwaymen” com Cash, Willie Nelson e Kris Kristofferson. Disponível em streaming.
WEEKEND - Aqui ficam três sugestões para o fim de semana. A primeira é um filme, “À Mesa da Unidade Popular”, mais que um documentário, uma revisitação corajosa do último meio século de Moçambique, desde o período colonial às mudanças, ilusões e desilusões dos anos da independência. Um grande trabalho de Isabel Noronha e Camilo de Sousa, em exibição no Cinema Ideal. A segunda é um oportuno livro, “Atlas da Revolução Francesa”, que vai desde a convocação dos Estados Gerais em 1778 até à coroação de Napoleão I em 1804, boa leitura para acompanhar a segunda volta das eleições francesas. A terceira é um documentário da HBO, sobre uma das lendas do rock, eterno parceiro de Bruce Springsteen, actor ocasional e grande músico: “Steven Van Zandt: Disciple”, em streaming na MAX.
UMA PERGUNTINHA - Alguém sabe qual a programação cultural prevista para a presença portuguesa na Expo Mundial Osaka 2025 que começa já a 13 de abril do próximo ano?
DIXIT - "Todos concordamos que é preciso que algo mude no Ministério Público no sentido da credibilização. Alguém tem de pôr ordem na casa” - Rita Alarcão Júdice.
BACK TO BASICS - “A política é a conjugação da arte do possível com o que é necessário” - Raymond Aron
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS