março 24, 2016

SE NÃO REAGIRMOS SEREMOS DERROTADOS

REAGIR - Hoje em dia não sabemos quando atacam, mas sabemos quem ataca. A guerrilha deslocou-se de territórios distantes para dentro das capitais da Europa. As antigas práticas de guerra, com um cerimonial de disposição de tropas - ou as acções da guerra de guerrilha no meio do mato em regiões remotas - são coisas obsoletas comparadas com o que se passa. Com a amplificação conseguida, em tempo real, do efeito dos ataques no actual sistema mediático, os manifestos e as palavras foram substituídos por bombas. Se perguntarmos a alguém qual a causa dos ataques as respostas são tão diversas que se percebe que a origem do que se passa depende do modo como se vê o mundo. Mas é certo que a desorientação e a fragmentação europeias não ajudam a prevenir e a combater quem decide promover esta guerrilha urbana contemporânea. Deixo aqui as palavras de Miguel Monjardino, no Expresso, no dia dos atentados de Bruxelas, sobre os quatro novos objectivos dos terroristas: “Os aeroportos, as estações de metropolitano, os hotéis e as grandes salas de espetáculos nas capitais europeias são agora os principais alvos daqueles que usam o terrorismo para atingir os seus objetivos políticos.” Tudo isto só nos pode fazer lembrar que quem se divide não se defende. Não partilho as palavras de António Costa, néscias, como li algures, quando recomendou "nada de reacções reactivas": Prefiro pensar como se combate o que acontece, sabendo os riscos e as dificuldades. E termino a dizer que se mudarmos as nossas vidas damos a vitória ao terror. Não é isso que queremos.


IMG_4221.JPG


SEMANADA - A Câmara de Valongo fez 49 ajustes directos ao mesmo empresário, no valor de 1,5 milhões de euros, entre 2008 e 2013; 147 mil famílias têm o pagamento dos empréstimos à habitação com prestações em atraso; 27% do olival alentejano é de espanhóis; 80% dos camiões de mercadorias portugueses abastecem em Espanha devido ao aumento dos impostos sobre combustíveis em Portugal; o desemprego está a subir há sete meses consecutivos, contam-se agora mais 43 mil desempregados do que em Julho do ano passado; em 2015 verificaram-se 1456 casos de abusos de crianças e 561 casos de violações de pessoas adultas; em 2006 Sócrates quis criar um privilégio judicial para os políticos, do género daquele que Lula e Dilma estão agora a tentar utilizar no Brasil; A área metropolitana de Lisboa foi responsável por 46% do valor das transacções de imóveis realizadas no ano passado; Rui Moreira aproveitou a sua guerra com a TAP a propósito do abandono de rotas a partir do Porto para lançar um livro que é um manifesto pela regionalização, um tema que promete voltar a dar que falar neste ciclo político; António Costa disse que a banca precisa de "capital estrangeiro, seja ele espanhol, angolano, alemão ou americano; Mira Amaral diz que a espanholização da banca põe em risco empresas portuguesas.


 


ARCO DA VELHA - Em Rio Tinto um homem pediu o carro emprestado à vizinha para assaltar uma loja de electrodomésticos na Póvoa do Varzim e foi apanhado porque um televisor, que estava a furtar,  caíu-lhe em cima do pé, deixando-o ferido e impossibilitado de andar - muito menos fugir.


 


pequenodicionario.jpg


FOLHEAR - Numa semana em que se falou tanto de Angola a propósito do sistema financeiro português foi lançado um livro que é uma preciosa obra de amor e entendimento entre o português que se fala em Portugal e o que se fala em Angola. É um livro que vale mais do que mil acordos ortográficos, destes anacrónicos que nos impõem por decreto. O livro é um glossário de termos que mostram o idioma português vivo no coração de África e é também um manifesto de amizade, assinado por Manuel S. Fonseca, que é meio português e meio angolano, editor e autor, que aqui dá mostras do seu amor a uma língua que se reinventa nos acontecimentos do dia a dia. O livro chama-se “Pequeno Dicionário Caluanda” e foi editado pela Guerra & Paz. Como autor diz, os angolanos conferem à língua portuguesa uma vitalidade própria - em Luanda, os caluandas cantam o português, impregnando-o de um humor salutar que faz a língua portuguesa rir-se como não se ri em mais nenhum lugar onde é falada”. Esta é uma primeira recolha daquilo a que se chama o falar de Luanda. São palavras novas, algumas, outras já com décadas, que conquistaram direito a reconhecimento, tão amplo é hoje o seu uso, já não só em An­gola, mas também em Portugal, em Moçambique e no Brasil.. Vale a pena ler - para sabermos todos mais e para nos conhecermos melhor uns aos outros.


Pedro Cabrita Reis_Galeria João Esteves de Olivei


VER - “Horas Quietas” é o título da exposição de novas obras de Pedro Cabrita Reis, patente desde esta semana na Galeria João Esteves de Oliveira. Outro título possível seria “O Triunfo do Desenho”, já que é a partir do traço que se desenvolvem as 28 peças apresentadas. Praticamente todas usam técnica mista, com recurso a pintura e a colagens em muitos casos, mas com uma presença do desenho mais intensa que na generalidade da obra mais recente do artista. O nu, o desenho do corpo nu de modelos que com ele trabalharam, é o elemento comum, assim como a delimitação geométrica que define o espaço de muitas das obras, mostrando a delimitação entre o desenho e alguma das outras técnicas utilizadas. Muitas vezes o desenho do nu surge de forma quase académica, mas sempre como um ponto de partida ou de  passagem e não como um ponto de chegada nas peças expostas. É claramente uma exposição inesperada e sedutora, que oscila entre o corpo e a natureza, e que revela mais uma vez como Pedro Cabrita Reis mantém a capacidade de surpreender. Há muito tempo que não se viam tantos coleccionadores a marcar peças que desejavam comprar como nesta inauguração. No mesmo dia foi lançado o livro “Horas Quietas”, com a reprodução de todos os desenhos mostrados na exposição, do qual foi feita uma edição especial de 75 exemplares, assinados e chancelados pelo autor e pela galeria. Até 6 de Maio, Rua Ivens 38.


 


image (11).png


OUVIR - Parece-me ser impossível ficar indiferente à forma como Kenny Barron e o seu trio tocam em “Book Of Intuition”, o disco que agora editaram. Quem gosta da formação clássica do trio de jazz - piano, baixo e bateria - não pode passar ao lado deste CD. Em boa parte isso é devido à forma como Kenny Barron toca piano, com ritmo e melodia, virtuosismo e swing nos sete temas da sua autoria, nas duas versões de temas de Thelonius Monk (sobretudo Shuffle Boil) e no magnífico Nightfall, de Charlie Haden. Se quiserem, o tema de abertura, do próprio Barron, Magic Dance, conta toda a história que está neste álbum - a energia, a criatividade, o desafio. Kenny Barron é dos maiores pianistas contemporâneos de jazz e este registo prova isso mesmo - ao ouvi-lo quase que parece que o piano ganha outra dimensão. E deve dizer-.se que Kiyoshi Kitagawa no baixo e Johnatan Blake na bateria complementam o trabalho de Barron no piano de forma exemplar. CD Impulse, distribuído em Portugal por Universal Music.


 


PROVAR -  Há uma lenda para o folar da Páscoa - parte de uma história de rivalidades, no amor, entre um fidalgo e um pequeno agricultor, que se confrontaram em torno da mesma rapariga. Reza a lenda que, numa aldeia portuguesa, vivia uma jovem chamada Mariana, dividida entre os dois pretendentes. Ambos queriam que ela se decidisse até ao Domingo de Ramos. Chegada essa data, uma vizinha foi muito aflita avisar Mariana que o fidalgo e o lavrador se tinham encontrado a caminho da sua casa e que, naquele momento, travavam uma luta de morte. Mariana correu até ao lugar onde os dois se defrontavam e foi então que, depois de pedir ajuda a Santa Catarina, Mariana soltou o nome de Amaro, o lavrador pobre.  Na véspera do Domingo de Páscoa, Mariana andava atormentada, porque lhe tinham dito que o fidalgo apareceria no dia do casamento para matar Amaro. Mariana rezou a Santa Catarina e a imagem da Santa, ao que parece, sorriu-lhe. No dia seguinte, Mariana foi pôr flores no altar da Santa e, quando chegou a casa, verificou que, em cima da mesa, estava um grande bolo com ovos inteiros, rodeado de flores, as mesmas que Mariana tinha posto no altar. Correu para casa de Amaro, mas encontrou-o no caminho e este contou-lhe que também tinha recebido um bolo semelhante. Pensando ter sido ideia do fidalgo, dirigiram-se a sua casa para lhe agradecer, mas este também tinha recebido o mesmo tipo de bolo. Mariana ficou convencida de que tudo tinha sido obra de Santa Catarina.  Inicialmente chamado de folore, o bolo veio, com o tempo, a ficar conhecido como folar e tornou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação.  Com o correr dos tempos ficaram três receitas bem diversas, uma a norte, duas a sul. A do norte, o folar transmontano, não leva açúcar e tem carnes fumadas no seu recheio - por esta altura há feiras do Folar por toda a região transmontana e os de Chaves (que em Lisboa podem ser adquiridos nos “Prazeres da Terra” do largo Dona Estefânia) são particularmente apreciados. Eu por  mim gosto dos folares alentejanos, temperados a erva doce e azeite e que ficam com a massa dura e ovos cozidos no meio. Mas há também os folares algarvios, onde a massa leva leite e canela e o interior fica cremoso - são demasiado doces para o meu gosto. Para mim Páscoa sem folar alentejano é pior que Páscoa sem amêndoas.


 


DIXIT - “Tenho saudades do tempo em que Portugal era um país industrializado. Nós desindustrializámo-nos para além do que era razoável. O país bem escusaria de estar a passar por aquilo por que está a passar” - Carvalho Rodrigues, na sua derradeira aula na universidade.


 


GOSTO - José Pedro Croft e Siza Vieira representam Portugal na Bienal de Veneza


 


NÃO GOSTO - Usar o dinheiro dos contribuintes para pagar a modernização do sector dos táxis, sobretudo quando este teve meios e tempo para se modernizar e optou sempre por o não fazer e continuou a proteger comportamentos inaceitáveis dos taxistas.


 


BACK TO BASICS - A única forma de derrotarmos o terrorismo é não nos mostrarmos aterrorizados - Salman Rushdie

março 18, 2016

COMO IRÁ FICAR O NOSSO AUTO-RETRATO?

AUTO-RETRATO - Estamos aqui entretidos com o nosso orçamento - o primeiro orçamento em que o PCP votou favoravelmente em dezenas de anos - e o resto da Europa não se rala muito com os nossos sobressaltos internos. Não se vê grande eco dos acontecimentos lusitanos por essa União fora. Em contrapartida ouve-se o ranger de dentes que o Banco Central Europeu provoca, sente-se o arrepio que o resultado das eleições na Alemanha desencadeou, palpita-se a inquietação sobre as conversações com a Turquia, percebe-se a insegurança que a situação em Espanha produz nos analistas. Portugal é  a última preocupação da Europa, é um dano colateral na melhor das hipóteses. Se a coisa correr mal e Costa não tiver o tal plano B, a Comissão Europeia não vai ser branda no julgamento e, mais uma vez, perceberemos a asneira tarde demais. Gostaria que não fosse assim, mas a Europa é o que é, e nós temos a dimensão que temos. Ou seja, estamos entre a espada e a parede, local onde recorrentemente voltamos. Vou gostar de seguir a execução orçamental, vou gostar de ver se as previsões de receitas com o aumento dos impostos nos combustíveis se cumprem, se a descida do IVA na restauração tem algum efeito prático, se a despesa pública não explode com subsidios a taxis e benefícios fiscais a animais. A vida não está fácil e da maneira que as coisas estão não vejo maneiras de melhorar. A nossa selfie arrisca-se a ficar desfocada.


IMG_4263.JPG


SEMANADA - Marcelo pegou no seu próprio carro e foi visitar Mário Soares a casa no Domingo; 28% dos portugueses entre os 16 e 74 anos nunca usaram a internet - a média europeia é de 16%; Portugal teve a mais baixa taxa de fertilidade da União Europeia em 2014; as despesas de veterinário com animais domésticos até ao limite de 250 euros anuais vão poder ser deduzidas no IRS; no ano passado as infecções hospitalares mataram sete vezes mais que os acidentes rodoviários - 12 pessoas por dia; o Ministério da Educação reconheceu não saber quantos professores estão de baixa; um relatório internacional revelou que os adolescentes portugueses são os que menos gostam da escola nos 42 países analisados; em 2015 foram feitas mais de 300 mil queixas nos livros de reclamações, sobretudo nos sectores do comércio e restauração; a DECO recebeu quase 700 mil queixas em 2015, um aumento de 24% face a 2014, com o sector da energia e das telecomunicações a motivarem o maior numero de reclamações; os despedimentos colectivos aumentaram 32,5% desde Janeiro; Angola e Brasil foram responsáveis por uma quebra de mil milhões nas exportações portuguesas em 2015; ainda há 156 milhões de euros em notas de escudos por trocar; por causa da diferença no preço dos combustíveis, devido à carga fiscal, os portugueses abastecem cerca de um milhão de euros por dia em Espanha; o governo vai criar novas taxas que aumentarão o peso das receitas obtidas pela chamada fiscalidade verde; o Governo propõe-se atribuir financiamentos de 17 milhões de euros com o intuito de promover a modernização dos taxis; um quarto dos carros da PSP estão parados, avariados ou para abate.


 


ARCO DA VELHA - A Câmara Municipal de Lisboa, que metodicamente toma medidas para dificultar o trânsito automóvel e a vida dos automobilistas, encara proceder à demolição quase total da Vila Martel, na encosta da Glória, onde trabalharam alguns dos maiores nomes da pintura portuguesa, para construir um estacionamento robotizado de catorze andares - chama-se a isto o Paradoxo de Medina. Que triste sina a de Lisboa…


 


image (8).png


FOLHEAR - Os meus leitores saberão que eu me interesso por experimentar restaurantes, petiscarias, locais variados desde que não sejam pretensiosos, onde se pratique boa cozinha.  Além disso também já terão notado que eu sou um crente na possibilidade da sobrevivência do papel impresso - nomeadamente das revistas. Já aqui falei algumas vezes sobre a quantidade (e qualidade) de novas revistas que vão surgindo, muitas dirigidas a nichos, outras mais abrangentes. A partir de agora há um local em Lisboa, na Rua Marquês Sá da Bandeira 88, perto da Gulbenkian, onde se pode encontrar esta nova geração de revistas e apreciar a diversidade e criatividade que o sector tem. Este quiosque contemporâneo chama-se Under The Cover (vejam a página no Facebook com o mesmo nome). Uma das revistas que por estes dias lá vi e trouxe para casa chama-se “The Gourmand - A food and culture journal”. Na primeira página está uma citação de Leonard Cohen: “we humans are always looking for things to do between meals”. The Gourmand tem uma periodicidade semestral, é editada no Reino Unido e lá tem um preço de 12 libras. Foi considerada a revista do ano em 2015. Cada edição mistura objectos com comida, receitas com reportagens, entrevistas com ensaios. A fotografia é exemplar, a ilustração é cuidada. Neste número 7, editado em finais de Janeiro, destaco um ensaio de um linguista sobre a forma como os menus, as criticas de restaurantes ou a apreciação de vinhos é escrita - um texto deslumbrante intitulado “Sex, Druga And Sushi Rolls”. Embora não goste de franceses, gostei da introdução aos princípios básicos da cozinha francesa a propósito dos conselhos culinários de Alexandre Dumas; gostei ainda mais da história sobre as habilidades gastronómicas do vampiresco actor Vincent Price e guardei  as receitas que vêm no final da revista - e que em algum ponto são mencionadas num dos seus artigos. Sugiro que vá à Under The Cover ver a revista ou que visite o site  thegourmand.co.uk


 


image (10).png


VER - Esta recomendação é para quem está no Porto. Na Galeria Árvore ( Rua Azevedo de Albuquerque 1), está uma exposição que agrupa obras de Cristina Ataíde (na imagem), Graça Pereira Coutinho e Ana Vidigal sob o título “O Sublime Flamejar das Pestanas”, com curadoria de Albuquerque Mendes. Cada uma das artistas tem um espaço próprio na exposição e há uma zona comum onde as obras de todas se cruzam, estabelecendo o diálogo de partida. A ideia é evocar uma casa onde cada divisão é habitada por uma pessoa e existe uma zona comum que é de todas. São 30 obras, entre cerâmicas, pinturas e instalações, em exposição na Árvore até ao fim do mês.


 


image (9).png


OUVIR - No princípio é a linha do baixo; depois, é  a voz. A voz, aqui faz a diferença. A simplicidade dos arranjos ajuda. A clareza das palavras é bem vinda. O som simples e despretensioso é uma benção. De repente dei comigo a trautear estas canções dos Minta & The Brook Trout. A pôr o disco a tocar vezes seguidas - para ouvir a voz surpreendente de Francisca Cortesão, a guitarra discreta e eficaz de Bruno Pernadas, o baixo de Mariana Ricardo, as teclas de Margarida Campelo, a percussão de Nuno Pessoa. Há muito tempo que uma banda portuguesa não me surpreendia tanto como aconteceu com “Slow”,. este disco dos Minta & The Brook Trout, um grupo que ao todo já tem meia dúzia de registos no activo. Devo dizer que as canções, as onze histórias que estão neste disco, são da autoria de Francisca Cortesão. Parecem autobiográficas, estão muito bem escritas - um sentido rigoroso na utilização das palavras, cantado em inglês. É o meu disco português do mês. CD NorteSul/ Valentim de Carvalho.


image (7).png


PROVAR -  Raramente utilizo açúcar - nem no café. Também não uso adoçantes. Em geral não bebo refrigerantes adocicados. Mas o chocolate… o chocolate é um incontornável vício. Gosto dele duro e amargo. Uma variante possível são farripas de casca de laranja cobertas com chocolate escuro. Em relação aos ovos da Páscoa, durante muito tempo dediquei-os às crianças. Mas quando descobri que a chocolataria Equador tinha ovos de chocolate preto fiquei naquela fase do regresso à infância. Só me apetecia que me escondessem ovos desse chocolate nos cantos da casa para eu os ir descobrindo. Esta versão adulta dos ovos de chocolate veio trazer uma Páscoa diferente. Nunca é tarde para actualizarmos as nossas memórias e para descobrirmos novos prazeres,  neste caso na Chocolataria Equador - no Porto na Rua Sá da Bandeira 637, e em Lisboa na Rua da Misericórdia 72. O difícil é escolher.


 


DIXIT - “No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia, mas quando um rico rouba, ele vira ministro" - Lula da Silva, 1988


 


GOSTO - Há uma editora portuguesa de Jazz, a Clean Feed, que se tornou uma referência no jazz internacional e que editou 400 discos nos 15 anos que já leva de vida e que agora celebra.


 


NÃO GOSTO - Do caos das obras em Lisboa, dos projectos feitos à pressa e que são interrompidos para serem corrigidos e nunca mais sãoretomados, do desprezo que a autarquia manifesta pelos lisboetas que são quem sustenta o incompetente desgoverno da cidade.


 


BACK TO BASICS - “Gosto do cinema que me faz mexer na cadeira” - Nicolau Breyner


 

março 11, 2016

SOBRE A IMPORTÂNCIA DOS SÌMBOLOS NA POLÍTICA

SÍMBOLOS - Escrevo quarta-feira à noite e reparo agora que esta coluna será publicada dia 11 de Março, 41 anos depois dos acontecimentos que marcaram definitivamente Portugal - a série de nacionalizações, o extremar de posições, um clima tenso na elaboração da Constituição. É impossível não recordar esse espírito do tempo nesta semana em que o novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, iniciou funções - até porque a esquerda parlamentar, como se viu na cerimónia, preferiu manter o clima de divisão de há 41 anos,  No encontro ecuménico no dia da sua posse o Presidente da República apelou  “à aceitação do outro, ao diálogo, ao entendimento, à compreensão recíproca, sem negar as diferenças de princípios ou de vivências.”. Este encontro entre várias religiões foi mais um momento simbólico dos vários que tem criado: na véspera de ser empossado dormiu na casa dos pais e foi a pé até à Assembleia da República, numa clara evocação da sua infância e do seu percurso, mas sobretudo uma homenagem aos seus próprios pais. Na véspera despediu-se da vida de simples cidadão almoçando sozinho numa esplanada, de boné na cabeça. Os seus convites ao Rei de Espanha, ao Presidente da Comissão Europeia e ao Presidente de Moçambique, são outros símbolos - assim como o é a escolha anunciada de Paris para palco das comemorações do Dia de Portugal. Marcelo Rebelo de Sousa, antes de ser Presidente, é um homem da comunicação - foi jornalista, director de jornais,  editor, colunista, comentador. Sabe a importância da comunicação, sabe a importância dos símbolos na construção de uma imagem - como a escolha de citações de Mouzinho de Albuquerque, Miguel Torga e Lobo Antunes no seu discurso de posse bem revela. Ou, ainda, como a cirúrgica citação de Adam Smith sobre a mão invisível, evocando a obra “A Riqueza das Nações”. É um tempo novo que se parece abrir. Bem precisamos dele.


IMG_4220.JPG


SEMANADA - O cavaquismo despediu-se do país em Cascais; Marcelo Rebelo de Sousa escolheu Paris para o próximo Dia de Portugal; António Costa diz que “a Comissão vê riscos onde nós não vemos”;  Bruxelas anunciou querer mais austeridade em Portugal; o Estado já gastou cinco milhões de euros em consultores para tratar do caso dos swaps; um estudo do Reuters Institute sinaliza que em Portugal as mulheres consomem menos notícias que os homens e revela que a televisão e o computador são actualmente os dispositivos mais usados para o consumo de notícias; os operadores de telecomunicações foram alvo de 429 processos de contraordenação pela Anacom em 2015, um aumento de 24% em relação ao ano anterior; o Governo fez mil nomeações nos primeiros cem dias da sua existência; o preço das casas desvalorizou 26% desde 2000; a Câmara Municipal de Lisboa decidiu aplicar uma taxa às lojas que coloquem vasos de plantas á porta; oito mil estrangeiros já solicitaram pedidos de residência em Portugal para usufruírem de vantagens fiscais; a Polícia Judiciária fez buscas na Câmara de Gaia relacionadas com aspectos da gestão de Luís Filipe Menezes naquela autarquia, onde deixou uma divida de 300 milhões de euros; entre 2012 e 2014 as empresas adquiridas pelo grupo britânico que contratou Maria Luís Albuquerque tiveram benefícios fiscais de 381,7 mil euros; Lisboa vai ter mais 40 novos hotéis até 2017.


 


ARCO DA VELHA - Lula da Silva veio a Portugal para o lançamento do livro de José Sócrates com a viagem paga por uma empresa que tinha ganho o concurso para a construção de um troço do TGV e que era sócia do grupo Lena na empreitada. O responsável da Odebrecht, a empresa brasileira em causa, foi entretanto condenado a 19 anos de prisão no âmbito das investigações de corrupção durante o Governo de Lula e Dilma, conhecidas como Lava Jato.


lusiadas.png


FOLHEAR - Como é tradição um dos primeiros actos do novo Presidente da República foi depositar coroas de flores nos túmulos de Luís Vaz de Camões e Vasco da Gama, no Mosteiro dos Jerónimos. Neste caso a homenagem a Luís Vaz de Camões assume um significado especial, porque Marcelo Rebelo de Sousa não utiliza o Acordo Ortográfico nos seus escritos pessoais e vários dos elementos da sua equipa tomaram posições contra esse mesmo Acordo. Tudo isto me leva à obra de Camões - “Os Lusíadas”, o poema épico que enaltece a capacidade, a coragem e a criatividade dos portugueses. A obra começa com a primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, sempre com a História de Portugal como pano de fundo ao longo dos dez cantos do poema, que terá sido concluído em 1556 e editado em 1572. Tirando as edições escolares não é muito fácil encontrar edições acessíveis de “Os Lusíadas”. Não deixa de ser uma feliz coincidência que a editora Guerra & Paz, na sua colecção de textos clássicos, tenha decidido editar agora “Os Lusíadas”, que estarão disponíveis por 13 euros, voltando a oferecer a possibilidade de redescobrir um dos textos mais importantes da Cultura portuguesa. Esta edição tem nova fixação de texto feita por  Helder Guégués e felizmente não segue o Acordo ortográfico.


image (6).png


 


VER - Este é o fim de semana da Moda Lisboa - Lisbon Fashion Week. De sexta a Domingo cerca de duas dezenas de estilistas portugueses vão apresentar o seu trabalho no Pátio da Galé, junto ao Terreiro do Paço. Mas além disso, nos Paços do Concelho estarão patentes duas exposições: uma, de fotografia, de João Telmo, nos Paços do Concelho, sob o título “Gineceu Androceu”, que retrata 20 personalidades e 11 designers de moda portugueses; a outra de uns objectos especiais e muito quotidianos - se nunca viu sapatos em exposição sem ser em fotografias do closet de Imelda Marcos experimente, no mesmo local, Paços do Concelho, ver as propostas dos designers portugueses para vestir os pés nacionais no Outono/Inverno deste ano. Ainda na Praça do Município, no espaço  Wonder Room, veja uma pop-up store dedicada a cerca de 30 marcas nacionais emergentes, todas Made in Portugal, mostrando o trabalho de designers em áreas que vão da roupa aos óculos de sol, passando por fatos de banho, equipamentos de surf e acessórios variados. Todo o programa e horários em modalisboa.pt .


image (5).png


 


OUVIR - Hélène Grimaud é uma pianista francesa que tem uma preocupação assumida por causas ambientais. Nitin Sawhney é um músico, compositor e produtor de origem indiana, residente em Londres, que se caracteriza por combinar influências musicais asiáticas com elementos do jazz e da electronica. O projecto que junta Grimaud e Sawhney tem por título “Water” e combina obras de compositores clássicos que se dedicaram a este tema, com pequenos temas expressamente desenvolvidos por Sawhney para serem intercaladas entre essas peças clássicas interpretadas por Grimaud,  Aqui estão obras de oito compositores diferentes - Maurice Ravel, Franz Liszt, Claude Debussy, mas também outros mais inesperados como  Luciano Berio, Toru Takemitsu, Gabriel Fauré, Isaac Albéniz e Leos  Janácek, todos eles de alguma forma ligados ao tema da água. As interpretações de Hélène Grimaud foram gravadas ao vivo em Nova York,  e as sete transições de Sawhney, que introduzem separadores ambientais criados de forma electronica, gravados posteriormente em Londres e depois intercalados entre as interpretações da pianista, contribuem para sublinhar o lado conceptual de toda a obra. A água, diz Grimaud referindo-se ao título do disco, é uma fonte de vida e de inspiração e este projecto pretende mostrar as várias formas que a água pode ter nas nossas emoções. CD Deutsche Grammophon.


 


PROVAR - Era uma vez um grupo de amigos, apreciadores de sushi, que tinham descoberto os segredos da cozinha japonesa pela mão de Mestre Takashi Yoshitake, nas várias versões que o seu Aya teve ao longo da sua vida, terminada demasiado cedo. Há cerca de um ano esses amigos tiveram a ideia de fundar um clube de sushi, semi-privado e abriram o restaurante Go Juu nas Avenidas Novas, na Rua Marquês Sá da Bandeira 46 A, frente aos jardins da Gulbenkian. Ao jantar o Go Juu está aberto de quarta a sábado, mas nas noites de quinta, sexta e sábado é prioritariamente reservado aos sócios e seus convidados - mas se sobrarem lugares, dos cerca de quarenta e cinco que existem - eles ficam disponíveis ao público. Às quartas qualquer pessoa pode reservar e ao almoço, de terça a domingo, o local está igualmente aberto ao público. Existe um menu de almoço com várias sugestões e ao jantar a lista oferece propostas da melhor cozinha tradicional japonesa. Os menus de almoço incluem uma salada, uma sopa miso, pickles japoneses e depois diversas possibilidades de escolha de variedades de sushi e sashimi. Num restaurante japonês, o arroz é um critério de selecção para se saber se estamos a falar de coisas sérias ou de brincadeiras. O do Go Juu é seríissimo. Os peixes são muito frescos e é um prazer almoçar ao balcão a ver o trabalho dos dois sushiman, a preparar cada prato. Este não é um sítio para se ir comer a correr. É um local para parar, sentir e desfrutar o prazer. O serviço é muito bom, a carta de vinhos é criteriosa mas de preços razoáveis e existe vinho a copo, bem escolhido. Nas sobremesas destaque para os gelados de chá verde, de gengibre e de sésamo e ainda para os tradicionais castella e bolo de castanha e chá. Vê-se que a casa é frequentada por clientes habituais e por apreciadores da tradição culinária japonesa. O preço médio ronda os 30 euros por pessoa. Go Juu, Rua Marquês Sá da Bandeira 46, Telefone 218 280 704.



DIXIT - “Não quero atribuir-lhe outra qualificação a não ser ausência total de bom senso ao aceitar um cargo desta natureza” - Manuela Ferreira Leite sobre a contratação de Maria Luis Albuquerque pela Arrow.


 


GOSTO - Enquanto cidadão Marcelo Rebelo de Sousa não escreve segundo o Acordo Ortográfico


 


NÃO GOSTO - Da atitude dos partidos que se dizem republicanos e não aplaudiram o novo Presidente da República eleito em sufrágio universal.


 


BACK TO BASICS - Nos Estados Unidos qualquer pessoa pode vir a ser Presidente - é um dos riscos com que temos de viver - Adlai Stevenson Jr.


 

março 04, 2016

Sobre o equivalente político de um elefante numa loja de porcelanas

CULTURA - Há uma enorme diferença entre gerir instituições culturais e programar a sua actividade para os públicos que cada uma atinge ou pretende atingir. A confusão vem de há muito e atravessa a manada que nem um raio em noite de trovoada seca. Por cá o azar começa muitas vezes logo nos Ministros. João Soares é um bom exemplo do problema: em vez de delinear uma estratégia para o seu largo sector - as instituições culturais e a comunicação (que inclui o audiovisual), deu apenas sinais de querer programar a discutível e débil colecção de Mirós para Serralves, ao mesmo tempo que vai distribuindo promessas de atenção a isto e aquilo, sem mostrar os meios que poderá usar para garantir que tanta atenção seja produtiva. O seu consulado fica para já marcado mais por afastamentos - que noutros tempos alguns apelidariam de saneamentos - do que por propostas concretas. João Soares entrou no sector como um elefante se passeia numa loja de porcelanas. As suas demissões e nomeações reflectem mais uma preocupação de distribuir aliados e multiplicar iniciativas do que de criar uma linha coerente e integrada que junte peças - coisa que também fez em Lisboa quando foi vereador da Cultura. A esse nível João Soares padece do mesmo pecado que António Lamas: ambos gostam de controlar e de ter a última palavra. Estou à vontade no assunto: não alinho no muro de lamentações em torno de Lamas. Um dia, quando alguém contar a história verdadeira das coisas, se saberá quem apadrinhou a ideia de mudar o plano original do CCB, introduzindo a valência de ópera no Grande Auditório, que radicalmente desequilibrou o projecto arquitectónico original, deu uma machadada irrecuperável na acústica da sala, e foi responsável por uma grande parte do enorme desvio orçamental da obra. Se forem ver quem mandava no plano e acompanhava a construção perceberão melhor o efeito destruidor da tendência de ser programador de gostos pessoais  - e no caso pretendendo fazer tábua rasa do S. Carlos. Que fazia António Lamas à data? - Superintendia o organismo que tutelava a construção do CCB. Dele apenas sei, pelo que me diz quem com ele trabalhou, que é um autocrata, incapaz de delegar, que concentra tudo em si mesmo. Quis, agora, no CCB onde em má hora voltou, reproduzir uma coisa que fez bem em Sintra, num contexto de recuperação de monumentos e ruínas, preconizando uma gestão integrada de instituições com programações autónomas na zona de Ajuda-Belém, abrindo o caminho a descaracterizar cada uma delas. Nunca concordei com esta ideia e deixei-o aliás escrito. A posição de um Ministro é dar orientações - se as souber dar, claro. Não é demitir porque não se simpatiza - como aconteceu agora no CCB, mas também no S. Carlos.  A ver vamos onde isto vai parar. Como se sabe, e agora se tem visto, dirigir é bem mais difícil do que mandar. Na Cultura está a criar-se um Gulag. Em nome do antifascismo, claro, que de outra forma não podia ser. Uma palhaçada.


IMG_4157.JPG


SEMANADA -  O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse em Marrocos que o PS quer conquistar novo mandato governamental em 2019; Passos Coelho garantiu em Lisboa que o PSD está preparado para governar e admite voltar ao governo mesmo sem eleições antecipadas; as avaliações de Bruxelas a Portugal vão continuar  pelo menos até 2035, segundo dados do Eurogrupo; o Conselho das Finanças Públicas considera que existem “riscos importantes” no Orçamento de Estado e avalia como demasiado optimista a receita fiscal prevista; a dívida pública aumentou 3,34 milhões de euros em Janeiro, tendo atingido o total de 234 mil milhões de euros; nos últimos anos encerraram mais de 10% das escolas portuguesas; a McDonald’s anunciou que as refeições para crianças vão deixar de ter a indicação de que se destinam a rapazes ou raparigas, em funções dos brinquedos que têm como brinde, para evitarem estimular a descriminação entre sexos; uma mulher de Chaves tentou matar o marido por este não a querer deixar ir jogar ao casino; o regresso às 35 horas semanais a partir de Junho deste ano vai custar ao Serviço Nacional de Saúde entre 28 a 40 milhões de euros; as vendas de automóveis em Portugal atingiram as 20.640 unidades em Fevereiro, o que corresponde a mais 23,4% que as unidades vendidas no mesmo mês de 2015; 68% dos utilizadores de telemóveis já possuem smartphones e a penetração destes equipamentos aumentou 89% relativamente ao observado em Abril de 2013.


 


ARCO DA VELHA - O Pessoas-Animais-Natureza (PAN) pretende que seja possível deduzir as despesas veterinárias “em sede de IRS”, como despesa de saúde, beneficiando animais e pessoas que têm “animais de companhia” e manifestou-se contrário à utilização de coleiras em cães.


 


image (3).png


FOLHEAR - Eu aposto que 99% dos autores de insultos variados a Henrique Raposo no Facebook não leram o livro que motivou a polémica que se criou em torno das suas declarações num programa da SIC Radical. O livro chama-se “Alentejo prometido”  e acontece que é um livro bem escrito e que aborda com originalidade um retrato do Alentejo, a região de onde a família do autor é originária, em temas como a vida, o papel da mulher, o suicídio, o desenraizamento depois da fuga para a grande cidade ou os seus arredores. Ora o retrato que Henrique Raposo faz é realista, elogiando a resistência das mulheres, recordando a vida na região na última metade do século passado, explicando o desespero de quem põe fim à vida ou as saudades da terra que se deixou. Não sou particularmente fã das colunas de opinião de Henrique Raposo - e neste momento ele está a ser vítima do estilo que usa na sua coluna e não do que escreveu neste livro, que é um bom livro. Mas o tema não é este - o que me irrita é a banalização de uma suposta superioridade moral da esquerda que justifica que se faça censura e se apelem a autos de fé contra esta obra e contra o seu autor. Em suma, pretendem vigiar a opinião mas nem sabem ler aquilo que criticam. Se lessem arrepender-se-iam de ter diabolizado “Alentejo prometido”. Eu não preciso que decidam por mim o que devo ler - quando não engraço com a coisa sigo em frente. Para dizer que não se gosta é preciso saber ler - uma coisa que exige paciência, atenção e algum desejo de aprender. E neste livro aprende-se.


 


vinyl.jpg


VER - Hoje estou em dia de contrariar os bem pensantes. Depois de ver o segundo episódio aqui declaro gostar de “Vinyl”, a série de Scorsese & Jagger, produzida pela HBO, que a TV Series está a exibir. Aceito que a coisa possa parecer fantasiosa, mas acreditem que, na época retratada, anos 70, a indústria discográfica era mesmo assim. Se achei o primeiro episódio, duplo, longo demais, achei o segundo com bom ritmo e certeiro. Vejo a série e adivinho alguns dos nomes reais que inspiraram os autores a criar aquelas personagens. “Empire”, outra série sobre o mesmo tema, é apenas uma variante mais pobre, embora mais contemporânea, sobre a mesma história.


 


image (4).png


OUVIR - Francisco Silva é o criador de uma aventura musical chamada Old Jerusalem, que publica discos a ritmo incerto. O anterior trabalho datava de 2011 e agora, de repente, sai este “A Rose Is A Rose Is A Rose”, título inspirado em Gertrude Stein. Atrevo-me a dizer que este sexto álbum de originais é o seu melhor trabalho. Poder-se-iam detectar numerosas influências musicais neste CD - mas cada artista cria as suas obras a partir daquilo que mais o tocou. Fiquei rendido com o tema de abertura, “A Charm”, mas depois fui descobrindo, ao longo das dez canções, a espantosa energia e eficácia de uns arranjos que, se tivessem errado, seriam apenas espampanantes em vez de impressionantes. A responsabilidade de uma riqueza sonora que convive com a simplicidade deve ser assacada ao pianista Filipe Melo. Mas é ao “clandestino” Francisco Silva que se deve mais este episódio das aventuras sonoras dos Old Jerusalem, algo do melhor que se tem feito neste pequeno rectângulo.


 


PROVAR -  Uma série de amigos andava a falar-me, desde há uns tempos, de um restaurante que fica perto da Estrada da Luz, na rua da Loja do Cidadão, chamado Bom de Veras. Nos últimas semanas fui lá duas vezes e em ambas dei por bem empregue o tempo e fiquei contente com o resultado da prova. Da primeira vez comi um dos pratos do dia - e vale sempre a pena perguntar ao proprietário, Luis Filipe, o que tem para propôr que não esteja na carta. Normalmente estas propostas são comida de conforto, caseira, bem portuguesa e muito bem confeccionada. Na lista há especialidades como uma empada de carne, uma coxa de pato confitada ou um bacalhau fresco sobre cama de brás - em que o fiel amigo vem invulgarmente bem afinado na confecção. O couvert conta com umas azeitonas muito bem temperadas. Quanto aos vinhos não se fiquem pela lista e peçam sugestões: eu segui a recomendação de uma Quinta das Camélias Reserva, magnífico tinto que faz jus à evolução que a região tem tido. Os preços dos vinhos não são especulativos e a conta é honesta. A sala tem duas zonas - para fumadores e não fumadores e ao Domingo há um buffet de cozido que tenho ouvido louvar com frequência - e nesse dia é mesmo preciso marcar. Bom de Veras - Rua Abranches Ferrão nº 17, telefone 217 266 203.


 


DIXIT - “É preciso dizer que o jornalismo do cidadão é uma treta” - Carlos Magno, Presidente da ERC


 


GOSTO - De ter um Presidente que diga que a comunicação social é essencial para a democracia, como Marcelo Rebelo de Sousa fez esta semana - bem melhor que um Presidente que se gabava de não ler jornais, como Cavaco Silva.


 


NÃO GOSTO - Dois terços dos médicos e enfermeiros apresentam sinais de esgotamento.


 


BACK TO BASICS - Os jornais não se podem preocupar em ter amigos - Joseph Pulitzer.

fevereiro 26, 2016

SOBRE REFORMAS ESTRUTURAIS, MINISTROS E SUGESTÕES AVULSAS

MINISTROS - Numa recente e amena conversa sobre a situação política o meu interlocutor defendia que pessoas como Vitor Gaspar eram superiormente preparadas e afirmava que, também por isso, tinha sido um dos melhores Ministros que Portugal teve nos últimos anos. A conversa levou-me a pensar nas características que fazem de alguém um bom Ministro. Algumas são fáceis de identificar: o conhecimento do sector, a capacidade técnica, o empenho na mudança, a capacidade de liderança de equipas. Mas outras são mais difíceis de detectar: vontade e capacidade de negociação, objectivo de gerar consensos e usá-los para alcançar mudanças estruturais, sensibilidade, conhecimento e poder  políticos, e, por fim, mas cada vez mais importante, capacidade de comunicação. Um excelente técnico que seja teimoso, incapaz de gerar consensos, politicamente insensível, que julgue a sua opinião como uma verdade indiscutível e que tenha fraca capacidade de comunicação dificilmente será um bom Ministro, por muitos conhecimentos e capacidades que tenha nas áreas que tutela. O problema com Vitor Gaspar vinha da sua arrogância, intelectual e comunicacional - esta última agravada por um sentido de humor baseado no cinismo, do qual a história da enorme carga de impostos foi o paradigma. Mas claro que um consensualista que deixe tudo na mesma e se preocupe mais com jogos de equilíbrio do que com a gestão da coisa pública também não serve. Por isso é tão difícil encontrar bons ministros: quem aceita ir para o lugar fá-lo certamente por sentido de dever e patriotismo - mas não excluo que em alguns casos o faça por vaidade pessoal e vontade de exercer o poder sem olhar a fins. Feitas as contas, não me parece que Vitor Gaspar tenha sido um bom ministro - a prova está hoje à vista: preocupou-se mais em aumentar a receita do que em diminuir a despesa e não fez mudanças estruturais duradouras. Este foi o pecado original do no anterior governo e Gaspar tem uma boa quota parte de responsabilidade nisso: as mudanças foram feitas sem o objectivo de as tornar irreversíveis e deixaram a estrada aberta para aquilo a que agora assistimos, e que talvez nos custe ainda mais do que já nos custou.


IMG_4149.JPG


SEMANADA - Em 2015 os hotéis portugueses ultrapassaram pela primeira vez os dez milhões de hóspedes estrangeiros; o aumento de turistas em Lisboa provocou um aumento das rendas, afastou residentes do centro da cidade e levou ao encerramento de estabelecimentos comerciais históricos; o preço das casas em Lisboa aumentou 7,1% no ultimo ano; o Governo vai injectar mais 567 milhões de euros no BPN; o Estado perde 140 mil euros por dia em burlas na saúde e na Segurança Social; quase 60% dos desempregados não recebem subsidio; em 2015 foram registados 24 crimes de branqueamento de capitais e 2528 crimes no domínio da cibercriminalidade; os residentes da zona euro vão ver cerca de 250 mil milhões de euros dos seus impostos a servir apenas para pagar juros e encargos das dividas publicas da região; o Tribunal Constitucional divulgou esta semana, ao fim de cinco anos, as multas que decidiu aplicar nas eleições presidenciais de 2011; o Tribunal de Contas detectou ilegalidades de 4,2 milhões de euros nos serviços prisionais; desde que tomou posse o actual Governo já anulou seis concursos para cargos dirigentes de organismos públicos; título do “Público” : “o orçamento de que ninguém gosta vai ser aprovado por alguns”; pela primeira vez em 42 anos a esquerda votou em conjunto um orçamento de Estado; remessas dos emigrantes em 2015 foram as maiores em 15 anos; Lisboa iniciou um ciclo de obras que vai dar cabo da cabeça aos residentes da capital até ás eleições autárquicas; quer-me parecer que o pequeno rectângulo vai começar de novo a meter água um dia destes.


 


ARCO DA VELHA - O economista Vitor Bento manifestou convergência com  o PCP quanto à  nacionalização do Novo Banco. O PS manifestou simpatia pela ideia.


 


 


Displaying image.pngInline image 1


LER - Muitos de nós olhamos para o que se passa, para o processo deste Orçamento de Estado e dos anteriores, para o que sucedeu com a troika e, digo eu, legitimamente, podemos interrogar-nos: qual a razão de fundo para isto cá estar a correr tão mal? A principal virtude de um livro lançado esta semana,  “A Economia Portuguesa Na Zona Euro”, de Alexandre Patrício Gouveia, é abrir pistas para podermos reflectir sobre isto. O livro é um trabalho importante de recolha e compilação de dados, mas também da sua comparação com outros países que têm dimensões de PIB mais ou menos semelhantes. Aqui está a dívida - do Estado, das empresas e das pessoas - a informação sobre os sectores que receberam maior investimento e os efeitos globais que as opções tiveram na economia. O livro é feito do estudo de dados, mas também de convicções, de sugestões e mesmo de propostas - e é esta mistura virtuosa da observação dos factos com a sua interpretação, e com o abrir de pistas, que o torna especialmente atraente e uma leitura estimulante. A questão central da dívida e como lá se chegou,  das pensões, do desemprego, das reformas estruturais ou dos custos da energia, por exemplo, são abordados sempre numa perspectiva de comparar os dados que aqui existem com outros, equivalentes, de outros países, procurando os melhores exemplos e louvando as virtudes dos que alcançaram bons resultados. “A Economia Portuguesa na Zona Euro” é um livro de consulta, de leitura fácil, que nos pode ajudar a perceber como chegámos ao ponto onde estamos. (edição Aletheia).



Inline image 1


VER - Para a semana já saberemos quais são os vencedores dos Óscares de Hollywood - de maneira que esta semana tenho duas sugestões, a propósito desta matéria. A primeira é que vão ver sem falta “The Hateful Eight”, ou “Os Oito Odiados” na versão portuguesa, o novo filme de Quentin Tarantino. As críticas têm sido oscilantes mas na minha opinião é dos melhores filmes que vi nos últimos meses: uma escolha de actores verdadeiramente excepcional (de onde me permito destacar Samuel J. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Kurt Russell e Tim Roth), um argumento sólido sobre uma das fases mais duras da História dos Estados Unidos, no pós-Guerra Civil, diálogos verdadeiramente excepcionais e uma banda sonora, já aqui referida noutra ocasião, e que é um dos grande trunfos do filme - assinada por Ennio Morricone. Acresce que “The Hateful Eight” foi filmado em Super Panavision de 70mm, obviamente em película da boa. Este é um invulgar western, cuja acção decorre no interior de um posto de paragem das velhas diligências, no Wyoming. Os oito odiados, que dão o nome ao filme, criam entre eles uma tensão dramática enorme, que espelha as velhas rivalidade entre o Norte e o Sul, mas também as tensões entre quem está do lado da Lei e quem lhe foge. Tudo iosto com uma participação especial da sombra patriarcal de Abraham Lincoln sobre todo o enredo, como aqueles que forem ver o filme descobrirão. Como sairá a contenda de Oscars com Star Wars- The Force Awakens ?


 


Inline image 1


FOLHEAR E OUVIR  - Já que estamos em maré de Óscares não posso deixar de recomendar a edição especial da revista Vanity Fair dedicada ao evento,  com Jane Fonda, Kate Blanchett, Viola Davis e Jennifer Lawrence na capa, fotografadas por Annie Leibowitz. Além do portfolio fotográfico de Leibowitz, esta edição propõe uma viagem pelas memórias de Hollywood, com histórias de bastidores, destaques musicais como os que Randy Newman foi aprontando ao longo da sua carreira e, já agora, uma visão muito particular de Hollywood por Samuel L Jackson. Outro artigo delicioso é sobre a carreira de Kathleen Kennedy, a produtora que tem trabalhado toda a vida ao lado de Spielberg, responsável ela própria por “Star Wars- The Force Awakens”, e que é considerada das mulheres mais poderosas de Holyywood. Ver com muita atenção esta edição é o mais próximo que podemos estar da magia do cinema na noite deste Domingo pelo módico preço de nove euros e meio. A edição encerra com o habitual “Questionário de Prous”, aplicado a Chris Rock, que este ano será o anfitrião da cerimónia dos Oscares.  A terminar: se quiser folhear a revista e ao mesmo tempo ter um momento revivalista agarre-se ao CD ou ao DVD que registam a passagem de Charles Aznavour num espectáculo de carreira, realizado no Palais des Sports, de Paris, em 2015, onde ele interpreta todos os seus grandes sucessos.


 


PROVAR -  Existe um restaurante de bom peixe e produtos do mar, nas Amoreiras, com decoração cuidada, serviço atencioso e propostas interessantes? A resposta é sim, existe, chama-se Barbatana, nasceu  há meio ano, a partir da tradição do Porto de Santa Maria, o histórico restaurante do Guincho. Situado na renovada zona de restauração do Centro Comercial, tem um balcão e uma área no food court, com lista própria, onde se pode petiscar ao longo do dia - de pica pau do lombo a prego de atum. Além disso o Barbatana tem uma sala, ampla, luminosa e confortável, com uma lista mais tradicional, onde, além dos peixes da lota, há ao longo da semana sugestões de pratos fixos em cada dia - como os filetes de polvo com arroz de feijão, à segunda feira, que eram verdadeiramente acima da média. No área do balcão existe um menu do dia a 10,80 €, que inclui entrada, prato, bebida e café, que é renovado semanalmente e está na página do Barbatana no Facebook. A supervisão é de Miguel Laffan, que aceitou o desafio de trabalhar esta nova marca do Porto de Santa Maria. O branco da casa, que experimentei, é o Quinta da Monteira, de Alcácer do Sal, e portou-se muito bem. Quer no balcão, quer na sala, a experiência é boa e merece elogio. Reservas para a sala do restaurante pelo telefone 913 582 639.  


 


DIXIT - “(em relação á Europa)  a política portuguesa caracteriza-se por a esquerda estar a mexer e a direita não” - Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros


 


GOSTO - A realizadora Leonor Teles ganhou o prémio do Festival de Cinema de Berlim para a melhor curta-metragem, “Balada de um Batráquio”.


 


NÃO GOSTO - No último ano Lisboa desceu um lugar no ranking que avalia a qualidade de vida nas cidades.


 


BACK TO BASICS - Não há homem que tenha uma memória suficientemente boa para poder ser um mentiroso capaz - Abraham Lincoln


 

fevereiro 19, 2016

DO CAOS LISBOETA AO CAOS NO PAÍS - A CONSISTÊNCIA DE UMA LINHA POLÍTICA

Esta semana as semelhanças entre o caos que a Cãmara Municipal se prepara para instalar em Lisboa e o caos instalado no Orçamento de Estado - com uma semelhança : nem Costa foi eleito Primeiro Ministro, nem Medina foi eleito Presidente da Câmara. Coincidências nascidas na interpretação que este PS faz do sentido de voto nas eleições.


 


HABILIDOSOS - No meio das desgraças que assolam Lisboa fiquei a saber que a grande preocupação do presidente não eleito da autarquia,  Fernando Medina, é descobrir o que fazer à Moda Lisboa, que vai estar na Praça do Município, no dia da tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, o qual gostaria de patrocinar uma festa no local, nessa ocasião, para celebrar a sua investidura. Reparei agora que estamos perante uma conjugação interessantíssima de factores - em São Bento temos um Primeiro Ministro que não ganhou em eleições e que deixou na Câmara Municipal de Lisboa, para lhe suceder, um seu correlegionário que também não ganhou eleições para o cargo que ocupa. Deve ser uma coisa nova da malta do PS - conseguir estar no poder, de forma habilidosa, à revelia dos resultados eleitorais. Enfim, já se sabe que o mundo é feito de mudança. O pior é que Medina resolveu dar cabo do sossego aos lisboetas e começou uma série de obras que prometem o caos para durante a sua existência e depois da sua conclusão. Os vereadores Salgado e Medina estão a querer ser réplicas contemporâneas do Marquês do Pombal mas a verdade é que se assemelham mais a réplicas do terramoto. Já está à vista o resultado dos desvarios na Avenida da Liberdade - maior concentração de trânsito e maior poluição, ao contrário do que se apregoava. Vai ser assim no resto, sobretudo no tal eixo central. Mas o pior de tudo é que, para esta gente, a comodidade de quem vive na cidade não interessa para nada. Apenas interessa arranjar o jardim para os visitantes passearem. É sabido que nos anos de Costa o centro da cidade perdeu habitantes, que muito comércio tradicional foi encerrado, que os lisboetas perderam qualidade de vida. É muito engraçado, embora pouco realista, querer fazer-se uma cidade contra o automóvel, mas à autarquia sabe-lhe bem cobrar os impostos de circulação e os estacionamentos, mantendo transportes públicos ineficazes. Que nome dar a quem ocupa o poder para fazer obras em interesse próprio e  em desrespeito pelo interesse colectivo?


IMG_4125.JPG


SEMANADA - António Costa mandou os Ministros falar com o PS pelo país fora no fim de semana passada, a explicar o que o Governo anda a fazer; o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desdobrou-se em entrevistas e assustou meio Portugal com o que disse sobre o imposto sucessório;  António Costa fez videos a explicar as contas do orçamento - não sei bem em qual das versões das contas se baseou; a ideia dos videos governamentais no YouTube é boa como conceito de propaganda, só que o actor é péssimo; fiquei a ver um dos videos convencido que estava a ver um daqueles canais de compras que passam de madrugada a vender bruxedos; um amigo meu diz que o Costa, nos videos, parece aqueles spots dos canais regionais de televisão norte americanos com vendedores de carros em segunda mão a fazerem contas provando que vendem mais barato que os outros; os videos fizeram-me pensar se António Costa não estaria a querer ser o Chavez da Europa em versão tecnológica; no resto da pátria está tudo tranquilo;  Passos Coelho inaugurou uma escola - de repente pensei que era notícia antiga mas não, foi mesmo desta semana; Mário Centeno anunciou que vai injectar mais 567 milhões de euros no defunto BPN; um amigo meu diz que Mário Centeno é parecido com Zé Colmeia, uma figura de banda desenhada que gosta de ir ao pote do mel; outro diz que, com as confusões do Orçamento, António Costa parece um daqueles condutores que entram em sentido contrário numa auto.estrada e começam a barafustar contra quem vem contra ele.


 


ARCO DA VELHA - Este orçamento já vai em três versões - uma que foi para Bruxelas, outra que foi feita depois para cá corrigindo o que Bruxelas achou excessivo, um rol de erratas que corrigia diversas coisas e finalmente mais umas rectificaçõezitas sobre uns mapas que estavam com numeros um bocadinho errados.


 


Inline image 1


FOLHEAR - Quando leio um livro como “M Train”, de Patti Smith, interrogo-me sobre o sentido da vida e sobre o que algumas pessoas, cuja obra admiramos, dela fazem. O livro anterior de Patti Smith, “Just Kids”, apesar de relatar os anos 70 em New York e a relação de Patti com Robert Mapplethorpe, parece uma reportagem num jardim escola quando comparado com este “M Train” - o relato da vida e da cumplicidade que ela desenvolveu com Fred “Sonic” Smith, o guitarrista dos MC5, um dos génios da guitarra eléctrica, desaparecido prematuramente em 1994. Patti Smith E Fred viveram, tiveram filhos, fizeram música e viagens. Este livro é o relato de uma paixão e de uma cumplicidade, do que fizeram e do que ficou por fazer, das viagens que ela ainda faz pensando em Fred, das suas obsessões, dos seus hábitos e rotinas, mas é sobretudo uma viagem ao processo criativo de uma artista marcante da sua geração. Não é nem uma biografia nem uma memória - é um ensaio sobre o dia-a-dia. E é um dos melhores livros que se pode ler para perceber o que vai dentro da cabeça de uma artista cheio de talento. (Edição Bloomsbury, na Amazon).


 


 


Inline image 1


VER - Recomendações para esta semana: na Galeria Belo-Galsterer a exposição colectiva “PAPERWORKS III - Paisagem sem Paisagem”, com C. B. Aragão, Claudia Fischer, João Grama e Marta Alvim (Rua Castilho 71, r/c esq); na Pequena Galeria (Av 24 de Julho 4c), a exposição RETRATOS, dos fotógrafos Marilene Bittencourt e Fernando Ricardo; “AS PALAVRAS”, assemblages de José Pinto Correia, na Corclínica, Campo Grande 28 - 2º-C; mas o meu destaque, embora tardio, vai para  a belíssima exposição “MÃOS”, de Teresa Dias Coelho, na Galeria Monumental, que encerra já neste sábado dia 20 - a partir das 16h00 desse dia tem uma finissage, aproveite para ir ao Campo dos Mártires da Pátria 101 ver outras obras como esta que aqui se reproduz.


 


Inline image 1


OUVIR - Este segundo disco do saxofonista Charles LLoyd para a Blue Note tem o feeling dos blues, a descoberta de temas originais do próprio Lloyd, o encanto de algumas versões e a perenidade de tradicionais folk. Se o saxofone é a imagem de marca do disco, o retoque da diferença é dado pelas guitarras de Bill Frisell e Greg Leisz, sobretudo a do primeiro. Nas versões destaco “Masters Of War”, de Dylan, onde as guitarras estão em primeiro plano, a versão de “Last Night I Had The Stangest Dream”, um original de Ed McCurdy que aqui conta com a participação especial de Willie Nelson e de “You Are So Beautiful”, de Billy Preston, aqui interpretado por Norah Jones. Se escolher um dos originais vou para o tema final, “Barche Lamsel” e se escolher um dos tradicionais vou para “Shenandoah”, onde Frisell mostra todo o seu talento na guitarra. Este é daqueles discos onde se percebe que todos os participantes tiveram mesmo gôzo em tocar. Uma belíssima supresa este “I Long To See You”- Charles Lloyd & The Marvels, edição Blue Note/Universal - claro que com uma mãozinha de Don Was na produção.


 


PROVAR -  Frequentemente gosto de comer sózinho, ao almoço, sentado, na calma, a ler uma revista e ás vezes, hoje em dia, a folhear no iPhone o Flipboard ou outra aplicação do género. Mas o que mais gosto mesmo nesses momentos é ficar a olhar à minha volta . o movimento da sala, os clientes, os empregados. Tenho, deste ponto de vista, saudades das Galerias Ritz, onde se podia ficar sentado ao balcão em algumas posições estratégicas que dominavam a entrada e permitiam ter uma boa visão das coisas. E, para o género, a comida era boa. A única sala que ainda permite isto hoje em dia é o Galeto, um bastião da tradição do snack bar e talvez o restaurante lisboeta que junta maior numero de clientes solitários regulares, sobretudo à noite - e continua a servir até tarde. Hoje vou lá pouco nesse horário, mas volta e meia gosto de lá ir ao almoço. A comida é mediana, mas sem sobressaltos, o balcão é confortável - um bom balcão sentado como há poucos hoje em dia em Lisboa. O bife à Galeto não engana com as suas batatas fritas semi sintéticas, o ovo a acavalo bem estrelado e um esparregado com uns torneados incomparáveis. Continua a ter combinados, que convivem com alheiras e outros petiscos como iscas à portuguesa. Pronto - isto é mesmo vício de ficar a devanear enquanto se petisca e se faz uma viagem ao passado - às vezes parece que de repente entrámos nos anos 70. Galeto - 213 544 544, Avenida da República 14, das 07h30 ás 03h30.


 


DIXIT - “Está toda a gente a querer fazer desaparecer Cavaco Silva, a fazer de conta que já não existe” - Joaquim Aguiar sobre as audiências que o presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa, tem realizado com protagonistas governamentais e políticos.


 


GOSTO - Das lojas antigas de Lisboa


 


NÃO GOSTO - Da destruição das lojas antigas de Lisboa


 


BACK TO BASICS - “Estudem o passado se quiserem definir o futuro” - Confúcio


 

fevereiro 12, 2016

SOBRE A ACTUALIDADE DA POESIA DE BRECHT NA CONJUNTURA COSTISTA

IMG_4070.JPG


POESIAS - Estava eu a ouvir Mário Centeno no debate parlamentar desta semana e lembrei-me de um poema de Bertolt Brecht, que começa assim: “Todo os dias os ministros dizem ao povo/Como é difícil governar. Sem os ministros/O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima”. É a segunda vez, em poucos dias, que Brecht me vem à memória. A primeira foi depois desse momento sublime dos conselhos de António Costa, quando recomendou que não se andasse de automóvel, que não se fumasse, estabelecendo regras de bom comportamento. Pensei nessa altura que, por este andar, qualquer dia vai estar a dizer-nos outras coisas que podemos ou não fazer. Ou dizer. E vai daí lembrei-me deste poema, também de Brecht:


“Primeiro levaram os negros


Mas não me importei com isso


Eu não era negro


 


Em seguida levaram alguns operários


Mas não me importei com isso


Eu também não era operário


 


Depois prenderam os miseráveis


Mas não me importei com isso


Porque eu não sou miserável


 


Depois agarraram uns desempregados


Mas como tenho o meu emprego


Também não me importei


 


Agora vierem buscar-me


Mas já é tarde.


Como eu não me importei com ninguém


Ninguém se importa comigo”.


 


SEMANADA - Os automobilistas portugueses vão pagar mais 580 milhões de euros este ano; um Renault Mégane é proporcionalmente mais penalizado na nova fiscalidade automóvel que um Lamborghini e os veículos híbridos e eléctricos ficam a perder no novo OE; os técnicos da Unidade Técnica de Apoio Orçamental do Parlamento alertaram para a “elevada incerteza” das estimativas na proposta de Orçamento; Mário Centeno considerou, numa entrevista, que “quem tem 2000 euros de rendimento tem uma posição privilegiada”; metade da consolidação orçamental vem do lado da receita, a despesa continua impune; as gorduras do Estado aumentam 8,6%, ou seja 912 milhões de euros, e batem novo recorde; há 20 mil casos de propinas em atraso em quatro universidades, sendo que a de Coimbra lidera a lista; enquanto estava na oposição António Costa passava a vida a acusar o Governo de ser obediente em relação a Angela Merkel, mas a verdade é que, como Primeiro-Ministro, Costa conseguiu arranjar pretexto para ir ouvir Merkel antes de fechar o processo do Orçamento de Estado; apesar de todas as medidas da CML, tomadas ainda no tempo de Costa, o trânsito na Avenida da Liberdade aumentou 30% em apenas um ano, ao contrário das previsões anunciadas; extrapolamos a eficácia das suas previsões lisboetas para a matéria orçamental?; no último ano duplicou o número de pedidos de asilo político em Portugal, sobretudo de cidadãos da Ucrânia, Mali, China e Paquistão; os turistas chineses gastam em média 600 euros em compras quando visitam Portugal; 65% dos médicos trabalham no Serviço Nacional de Saúde; nenhum hospital público do Norte tem médicos especialistas à noite; em quatro anos saíram do país mil médicos; mais de meio milhão de portugueses não sabe ler; antes de sair de Belém, Cavaco vai condecorar Vitor Gaspar - que mal frequentadas andam as condecorações nacionais.


 


ARCO DA VELHA - Um estudo da OCDE aponta que Portugal é o quarto pior país para se trabalhar, apenas ultrapassado pela Turquia, Espanha e Grécia.


 


FullSizeRender (10).jpg


FOLHEAR - “A Ilha do Tesouro” - Há muito tempo que não pegava neste livro. Literalmente, há décadas. E, no entanto, foi um dos meus livros do início da juventude - via-o como o supra sumo dos livros de aventuras. Foi a época em que devorava histórias de piratas umas atrás das outras e que nem sonhava que um dia Indiana Jones havia de tomar conta da minha imaginação. Razão tinha Robert Louis Stevenson, o autor de “A Ilha do Tesouro” quando disse que “a ficção é para o homem adulto o que o brinquedo representa para a criança”. Folheio esta nova edição e vou-me recordando de tudo o que vivi, sonhando a ler este livro -desde os mistérios da arca do marinheiro aos enigmas do mapa do tesouro, e até aos feitos do insuperável Capitão Silver. “A Ilha do Tesouro” foi o primeiro romance de Robert Louis Stevenson e foi o livro que mais fama lhe trouxe. Fiquei fascinado ao redescobri-lo na nova edição da Guerra&Paz, com belíssima tradução de Rui Santana Brito. Na nota de contra-capa o editor diz, com razão, que “esta é a mais popular história de piratas de todos os tempos”. Se Stevenson fosse nosso contemporâneo não lhe havia de faltar matéria prima para falar sobre piratas, olhando para o que se tem passado em Portugal.


 


Andrei Rublev (1966)


VER - Hoje não falo de exposições. Venho apenas recomendar um ciclo de cinema, dedicado à obra do cineasta Andrei Tarkovsky, amaldiçoado por Brejnev e pelo regime soviético, e o maior realizador russo depois de Sergei M. Eisenstein. Este ciclo começa exactamente pelo filme “Andrei Rublev”, que foi a causa da irritação de Brejnev, que manteve o filme proibido de ser exibido na então União Soviética até 1971, acusando-o de mostrar uma visão deturpada da História. O ciclo começou ontem, quinta-feira, no Nimas, em Lisboa, e tem também programação no Porto a partir de dia 12, no cinema Campo Alegre. Além de “Andrei Rublev” (cartaz original na imagem) o ciclo, que se estende até ao início de Março, inclui a longa metragem de estreia “O Pequeno Ivan” (que ganhou um Leão de Ouro em Veneza), “Solaris” (de 1972), “Stalker” (de 1979), “O Espelho” (de 1975), “Nostalgia” (de 1983) e o derradeiro “O Sacrifício” (de 1986). A programação pode ser encontrada no site da Medeia Filmes(http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-cinema-russo-andrei-tarkovsky-espaco-nimas/) e inclui também a curta-metragem “O Rolo Compressor E O Violino”, que foi o trabalho de fim de curso do cineasta e que é exibido nos mesmos dias que “O pequeno Ivan”.


 


Inline image 1


OUVIR - O pianista norueguès Tord Gustavsen é responsável por um dos melhores discos dos últimos anos, “The Well”, de 2012. Interpretado com o seu quarteto, “The Well” teve uma sequência lógica em “Extended Circle”, editado dois anos depois. Entretanto Gustavsen sentiu necessidade de sair do caminho que tão bem tinha trilhado nesses dois discos e regressou à ideia de um álbum onde músicas e palavras se completassem, como já tinha feito no início da sua carreira. Com uma extraordinária cantora, meio alemã, meio afegã,  Simin Tander, fez um CD de canções simples, maioritariamente com temas tradicionais e de raízes religiosas. Aqui estão textos da tradição popular norueguesa, versões inglesas de escritos do século XIII do poeta e místico persa Rumi, mas também o célebre”I Refuse” de Kenneth Rexroth, um poeta da Beat generation. Além de Tord Gustavsen no piano, teclados e baixo sintetizado, e da voz de Simin Tander, o baterista Jaris Vespestad completa a formação que fez este ”What Was Said”, o CD gravado em meados de 2015 e editado em Janeiro deste ano pela ECM. Na Amazon.


 


PROVAR -  Como os meus leitores hão-de já ter reparado ando um pouco enfastiado com os chefs portugueses. Diria mesmo que vai sendo altura de substituir a adoração aos chefs pelo elogio aos restaurateurs - os criadores de restaurantes, os que pensam no seu conceito, na sua arquitetura, no tipo de serviço que querem prestar, na clientela que querem conquistar, em quem se vai ocupar da cozinha e na comida que pretendem servir, bem entendido - ou seja, pensam nos clientes antes de pensarem na sua própria glória. Um restaurador - para usar o termo português (que se presta a alguma confusão) é aquilo a que no linguajar contemporâneo se poderia chamar um curador de comensais. Às vezes são eles próprios chefs, mas não se põem em bicos de pés. Já houve tempo em que havia alguns restauradores dignos de nota, agora a coisa é mais escassa na nova cultura ditada pela moda dos balcões dos mercados virados tascas modernaças - que sinceramente é um conceito que me irrita. Mas voltemos aos restauradores. Há em Lisboa um que merece destaque - é nepalês, veio para Portugal no final dos anos 90 e conseguiu criar ambientes especiais. Chama-se Tanka Sapkota, dedica-se à comida italiana que estudou com afinco e não hesita em fazer  experiências. É conhecido pela qualidade das suas pizzas napolitanas, mas não hesita em misturar massas tradicionais com, por exemplo, perceves ao lado de camarões da costa. E faz isso com tanto à vontade como é dos raros a servir trufa branca na estação e a incluir generosas lâminas de trufa negra nas suas pizzas. Depos de várias casas alheias, a começar pela antiga Trattoria, o Come Prima foi a sua primeira grande experiência e agora tem também o Forno d’Oro, onde dantes era o Mezzaluna. Mas é o Come Prima que merece mais atenção pelos pormenores da decoração, pelo espaço, pelo ambiente e pela qualidade da confecção. O próprio Tanka Sapkota está nas salas dos seus restaurantes, fala com os clientes, permanece atento, como um bom restaurador deve fazer. O Come Prima fica na Rua do Olival 256,  e tem o telefone 213 902 457.


 


DIXIT - “Estou convencido de que queriam evitar que eu apresentasse a minha candidatura à Presidência” - José Sócrates, explicando a sua detenção em entrevista a um jornal holandês.


 


GOSTO - As exportações portuguesas cresceram 33% nos últimos cinco anos.


 


NÃO GOSTO - Um terço dos parlamentares portugueses concilia a sua actividade enquanto deputados com actividades na advocacia ou na consultoria, o que potencia conflitos de interesse - denuncia um relatório do Conselho da Europa.



BACK TO BASICS - É muito perigoso querer ter razão quando o Governo está errado - Voltaire

fevereiro 05, 2016

ENCALHANÇOS, TEORIAS, INJUSTIÇAS, FILMES & PETISCOS

FullSizeRender (9).jpg


 


ENCALHADOS - O PS tem uma tradição matemática  simples: primeiro gasta-se, depois logo se vê. Foi assim com o agora louvaminhado Guterres, foi assim até ao extremo com Sócrates e está a ser assim com Costa, independentemente da reconhecida capacidade de vendedor de tapetes voadores que tem demonstrado. Como temos visto em anos recentes a receita do PS é criar condições para o Estado aumentar a dívida - e os contribuintes é que a pagam sempre. Como se tem visto nos últimos dias, o PS gosta da Europa que lhe dá dinheiro, mas não gosta mesmo nada da que lhe estabelece regras quanto aos gastos e ainda menos da que cobra dívidas. O PS, em geral, acha as dívidas uma falsa questão; já o Bloco prefere esquecê-las e o PC ignorá-las. A coligação tem um ponto comum nisto: venha o dinheiro, não me falem em obrigações. Este é o lema do cimento ideológico que sustenta Costa. Na realidade estes meses de governação vêm mais uma vez provar que a utopia esbarra na realidade - mais uma vez as promessas ficam no saco dos votos perdidos e os impostos voltam a cair maioritariamente na classe média. Permito-me recordar que os anos de austeridade do anterior Governo se traduziram numa queda do défice público de 11,2 por cento do PIB registado em 2010, para 3 por cento do PIB em 2015 . Já agora para os que dizem que a dívida do Estado foi feita nos anos da troika e não antes, recordo que no período de austeridade a subida foi de apenas 11 por cento do PIB, enquanto entre 2005 e 2011, no consulado do PS com Sócrates, foi de 58 por cento do PIB. E assim, de gasto em gasto, lá vamos continuando encalhados. Coisas…


 


SEMANADA - Depois de ter dito que não mexia no Orçamento por imposição de Bruxelas, o Governo começou a fazer ajustamentos; atirou-se aos consumos ligados aos hábitos individuais - nos impostos sobre combustíveis e sobre automóveis, que já são dos maiores em toda a Europa; a ideia de que o Governo não iria aumentar impostos está a revelar-se uma partida de Carnaval; Bruxelas queria um corte adicional de 500 milhões no Orçamento; O Ministro do Planeamento e Infra-estruturas anunciou que o Governo quer investir 450 milhões em novas obras públicas; no meio da discussão orçamental Costa vai oportunamente a Berlim falar com Angela Merkel e a sua agenda diz que o tema da conversa será a crise dos refugiados; Passos Coelho vai recandidatar-se à liderança do Partido Social Democrata e a sua grande definição ideológica e estratégica é, depois de anos a defender o neo-liberalismo, afirmar-se com o slogan “Social Democracia Sempre; o desemprego em Portugal é o quarto maior da zona Euro; o regresso das 35 horas semanais vai provocar um aumento de custos nas áreas onde se trabalha por turnos; em 2015 a GNR registou 2300 crimes graves feitos através da internet; Cavaco Silva condecorou com a Grã Cruz da Ordem da Liberdade António Guterres, o Primeiro Ministro que se pôs ao fresco quando a situação se começou a complicar em Portugal; na mesma ocasião Cavaco Silva recomendou Guterres para secretário-geral da ONU e Guterres mostrou-se desiludido com a Europa; depois de anos a queixarem-se que o IVA era o pai de todos os males na restauração, a Associação do sector apresentou um estudo por si patrocinado onde afirma que a descida do IVA não resolve os problemas da restauração.


 


ARCO DA VELHA - Um tribunal de Coimbra condenou um homem de 71 anos a dois anos e três meses de pena suspensa por abusar sexualmente  de um neto, que tinha quatro anos à altura do crime, e uma juíza de Lisboa mandou deter um cidadão por ter inadvertidamente faltado a um depoimento sobre um assalto à sua própria casa. Que avaliação podem estes dois juízes ter?


 


As Direitas na Democracia Portuguesa


 


FOLHEAR - Os dias que correm são particularmente adequados para se ler um livro recente intitulado “As Direitas Na Democracia Portuguesa”. A edição foi coordenada por Riccardo Marchi, um investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e inclui onze estudos que abordam a evolução da direita nos últimos 40 anos. Gostaria de destacar o trabalho de António Araújo sobre os intinerários socioculturais da direita portuguesa, o trabalho de Ana Sofia Ferreira sobre a evolução das ideologias políticas do PSD e do CDS-PP, o excelente”As Direitas, o Estado e as Igrejas” de Luis Salgado de Matos, o trabalho do próprio Marchi” “À Direita da Direita: O Desafio da Extrema Direita à Democracia Portuguesa”, a contribuição de Manuel Monteiro, um ex-líder do CDS-PP sobre a organização que dirigiu e, sobretudo  o trabalho de Andrè Freire e Sofia Serra Silva sobre “A Opinião Pública de Direita, antes e depois da crise de 2008”. Recomendo que o próximo candidato a líder da oposição a Costa leia bem este capitulo. A edição é da Texto, grupo Leya.


amigos do peito.jpg


 


VER - Sugiro um programa para o fim de semana: uma visita à Ilustrarte, a VII Bienal Internacional de Ilustração para a Infância que até 17 de Abril vai estar no Museu da Electricidade. Esta edição da Ilustrarte atribuíu o primeiro prémio à espanhola Violeta Lópiz, que ilustrou o livro “Amigos do Peito” do brasileiro Cláudio Thebas (na imagem). No Museu da Electricidade estão mais de 150 ilustrações, feitas por meia centena de artistas, seleccionados de entre 1700 inscritos, de mais de sete dezenas de países. Portugal está representado por trabalhos de Teresa Lima, Catarina Sobral, Joana Estrela e Daniel Moreira. Edições anteriores da Ilustrarte registaram entre 25 a 30 mil visitantes. O artista convidado desta exposição é o francês Serge Bloch, um dos mais destacados ilustradores contemporâneos. Finalmente esta edição inclui uma exposição dedicada à obra de Alice Vieira, , uma das mais importantes escritoras portuguesas para a infância e juventude. O preço da entrada é 2 euros e reverte para a campanha Unicef- Crianças Sírias.


 



OUVIR - Há cerca de 30 anos que Ennio Morricone não compunha temas para uma banda sonora de um western. Actualmente com 87 anos, Morricone pode gabar-se de ter sido, desde os tempos em que compunha para os western-spaghetti de Sergio Leone, uma das influências maiores de vários grupos de rock. O facto é cabalmente demonstrado aqui pelo clássico dos White Stripes, um original de 2000,  “Apple Blossom”, que encaixa que nem uma luva no meio dos temas orquestrais de Morricone para Hateful Eight . Só mesmo Quentin Tarantino, na sua versão de DJ sem barreiras,  se podia lembrar de juntar a banda de Jack White ao génio de Morricone. Vale a pena sublinhar que por aqui também passa Roy Orbinson no magnífico ”There Wont’t Be Many Coming Home”, vários momentos de diálogo do filme, e uma canção popular australiana, muito bem interpretada, como Jennifer Jason Leigh a canta na película. Produtor assumido desta banda sonora, Tarantino, que nunca tinha feito uma banda sonora integral para nenhum dos seus filmes, aproveitou a deixa que em tempos Morricone lhe deixou, ao dizer que já não encarava trabalhar com ele. Pois aqui está - e mesmo sabendo que alguns dos temas são reaproveitamentos nunca antes usados de composições feitas para um filme de John Carpenter (“The Thing”), o génio de Morricone domina. Aqui está. Estreado esta semana em Portugal sob o título escasso “Os Oito Odiados” , vale a pena ter o disco para saborear as memórias do filme quando se chega a casa. CD Decca/Universal.


 


PROVAR -  Há restaurantes que investem mais em comunicação e em relações públicas que na simpatia do atendimento. Gostam de criar a ideia que estão na moda, ter filas, recusam reservas e têm empregados a dizer com ar arrogante “no mínimo vai ter uma espera de 45 minutos”. Cada vez gosto menos de restaurantes da moda, de chefs que se copiam uns aos outros sem ter em conta um tema básico, que é bem servir o cliente. Às vezes leio que num restaurante o espectáculo é tão importante como a comida. Nada é tão importante como o bom atendimento, o conforto e a qualidade do que se apresenta à mesa. Por isso estas linhas de hoje são dedicadas a restaurantes que não estão em locais da moda, que têm comida bem confeccionada a partir de boa matéria prima, que são hospitaleiros e praticam preços honestos. É quanto basta. Sexta feira passada em boa hora constatei que um dos locais da moda, no Principe Real, de origem italiana, enxotava quem não quisesse ficar numa longa fila e dirigi-mo-nos ao velho Comida de Santo onde fomos bem recebidos, estivemos muito confortáveis e comemos uma belíssima feijoada à brasileira, baseada na tradição e sem modernices, acompanhado de um vinho da casa, do Dão, muito equilibrado. No domingo, a seguir, aproveitando o bom tempo, quis ir perto do mar e recordei-me que em tempos era fiel cliente do Carula, em Paço de Arcos. A casa continua a receber bem - o dia era de sedutor cozido, mas ficámo-nos no robalo, que estava óptimo, acompanhado por umas couves saborosas. Foi antecedido por uma pasta de sapateira e gambas igualmente muito boa. Resumo: a Comida de Santo e o Carula são dois locais onde tenho ido menos do que devia - porque são restaurantes que sabem que a amabilidade da tradição é bem melhor que a arrogância do sucesso. Comida de Santo , Calçada Engenheiro Miguel Pais 39 (à Rua da Escola Politécnica, em Lisboa), telefone 213 963 339; Carula, Rua Costa Pinto 41, Paço de Arcos (é a mesma rua do Hotel Paço dos Arcos-Vila Galé, à Marginal) telefone 214 432 206.


 


DIXIT - A nossa doméstica esquerda pós-moderna confunde a bruta e fera realidade, onde se joga o destino pessoal e coletivo de 10 milhões de portugueses, com um teste à sua boa consciência. Nem a tragédia do esmagamento da Grécia do Syriza lhe parece ter ensinado a perceber a desagradável diferença entre virtude e razão de Estado” - Viriato Soromenho Marques


 


GOSTO - O diário britânico The Guardian considerou o Hot Clube um dos dez grandes locais para ouvir jazz na Europa.


 


NÃO GOSTO - Numa sondagem realizada pela Win Gallup International Portugal está entre os 13 países menos felizes, com 5% a considerar-se muito feliz, 45% feliz, 39% nem feliz nem infeliz, 9% infeliz e 1% muito infeliz.


 


BACK TO BASICS - A finança é a arte de passar dinheiro de mão para mão até que finalmente desapareça - Robert W. Sarnoff

janeiro 29, 2016

O QUE TEMOS, O QUE NOS FALTA E O QUE NOS APETECE - DESABAFOS & SUGESTÕES

PRONTO - Temos Presidente, temos Governo, falta é claro conseguirmos ter Portugal. Não vou apelar ao bom senso do Governo porque as recentes declarações sobre o Orçamento e o défice provocam-me arrepios, assim como os aumentos de despesa prometidos em declarações de muitos ministros, sem saber como as vão cobrir num Orçamento que é feito a partir da base zero. De maneira que dedico estas linhas a duas questões que penso poderem ser reformas marcantes e que só podem nascer de uma colaboração entre os vários orgãos de soberania e as diversas forças políticas. Em primeiro lugar o Banco de Portugal: desde há anos que está quase tudo mal naquelas bandas, como comprova o rol de acontecimentos no sistema financeiro. Ao longo das últimas décadas o Banco de Portugal transformou-se num Estado dentro do Estado e numa parideira de Ministros das Finanças, a maior parte dos quais com resultados catastróficos para o país. Ou a escola é má, ou a inconsciência é total. Seja como fôr há que mudar o Banco de Portugal, o seu papel, controlar a sua actuação e sobretudo evitar que ele tome o freio nos dentes para depois se pôr a assobiar quando atira a carruagem para o abismo. Em segundo lugar vem a reforma do sistema político, a reforma das leis eleitorais, a actualização séria dos cadernos eleitorais, decisões sensatas sobre a coexistência entre as obrigações da comunicação nos actos eleitorais e a liberdade editorial, e, finalmente, alguma modernização no funcionamento e comportamento da Comissão Nacional de Eleições, que tem demonstrado uma desagradável tendência para se imiscuir no que não deve, não compreendendo o tempo em que vive. Se estas mudanças não forem feitas a abstenção só vai aumentar. Nestas eleições, em dois terços do país, a abstenção ficou acima dos 50% e o candidato eleito, por larga margem, teve 52% dos votos expressos mas apenas 24,8% do número de recenseados. Se estas duas questões forem resolvidas já se terá avançado mais neste mandato que nas últimas décadas.


IMG_4004.JPG


SEMANADA - O Governo apresentou a proposta de orçamento a Bruxelas e reduziu duas décimas no défice que estava no documento original; Bruxelas respondeu que uma redução de duas décimas é insuficiente e que pode exigir uma revisão do Orçamento; a agência de notação Fitch disse que se António Costa não conseguir uma redução de défice que permita a sua aprovação por Bruxelas terá que descer o rating de Portugal; a mesma Fitch classificou de “irrealistas” as previsões do OE;  a Moody’s afirmou que o OE é demasidado optimista e repete erros do passado; Bruxelas alertou para o elevado risco da dívida portuguesa a médio prazo; Jerónimo de Sousa admitiu que o PCP possa viabilizar um orçamento de Estado “mais duro”; António Costa diz que a actual visita da Troika a Portugal não tem relevância política; o Ministro da Saúde diz que a reposição das 35 horas pode aumentar os custos do Estado no sector;  o Ministério Público suspeita que Sócrates terá influenciado o resultado da OPA da Sonae sobre a PT a troco de “luvas”; já em 2009 Belmiro de Azevedo tinha culpado Sócrates pelo falhanço da OPA à PT; o Partido da Terra pronunciou-se contra a intenção de plantar mais árvores na segunda circular; um estudo recente indica que 90% das leis aprovadas em Portugal ficam fora do escrutínio público; o PAN reivindica a existência de um menu vegetariano em todas as cantinas públicas; Portugal é o país europeu com uma maior associação entre chumbos e pobreza; a China ultrapassou Portugal nas vendas para Angola; Jerónimo de Sousa, líder do PCP, resumiu a atitude do seu partido nas presidenciais da seguinte forma:”podíamos arranjar uma candidata engraçadinha, mas não somos capazes de mudar”; no dia a seguir disse que retirava a afirmação caso alguém no Bloco de Esquerda tenha “enfiado a carapuça”; na quarta-feira o Comité Central do PCP culpou o PS e o Bloco de Esquerda pelo resultado das eleições.


 


ARCO DA VELHA - Na noite eleitoral Sampaio da Nóvoa, que obteve menos de metade dos votos do vencedor, disse que tinha ficado perto de passar à segunda volta;


 


 


Inline image 1


FOLHEAR - Sou fascinado por edições de livros com um toque especial - que tenham um tratamento gráfico inesperado. Quem diria que num clássico, pouco conhecido, de Camilo Castelo Branco, isso poderia acontecer, ainda por cima por vontade do autor? “O Que Fazem Mulheres” é uma paródia aos folhetins românticos que já foi descrito como um romance filosófico sobre o comportamento feminino - obviamente analisado à luz dos costumes de 1858, ano em que foi publicado.O livro começa por um diálogo em que uma mãe tanta convencer a filha a casar por dinheiro. A filha, Ludovina, é bela mas sem dote e dela diz um enamorado: “lisongeia um amante, mas não pode satisfazer as complicadas necessidades de um marido”. Está dado o mote e, como Camilo anunciou à época, aqui há “bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios”. O lado gráfico da edição segue à risca as recomendações de Camilo: inclui um capítulo solto que o leitor pode colocar onde quiser, no decurso da narrativa, e um outro capítulo, fechado, que tem este aviso expresso do autor: “Cinco páginas que é melhor não se lerem”. Edição Guerra & Paz.


 


Inline image 1


VER - O que é “Spotlight”? É um filme sobre investigação jornalística mas era também o nome de uma unidade especial existente dentro do diário  “Boston Globe”, um dos principais jornais norte-americanos, e que publicava as suas reportagens de investigação na edição de Domingo, a mais lida.. Foi fundado em 1872 por cinco homens de negócios da cidade, ganhou uma dúzia de prémios Pulitzer, tornou-se um exemplo de como o noticiário local é importante para reforçar os laços com a comunidade de leitores e criou não poucas inovações editoriais, a começar na forma como acompanhava o baseball e a equipa local, os Boston Red Sox, e a acabar na unidade de investigação que tinha um funcionamento praticamente autónomo, uma pequena redacção própria e funcionava com uma grande liberdade editorial e sem pressões de prazos para publicação. Uma das reportagens que tornou o Boston Globe famoso, e que deu à equipa da Spotlight mais um Pulitzer, foi a investigação sobre o escândalo dos comportamentos pedófilos de padres católicos, publicada em dezenas de artigos entre 2001 e 2003. Do caso foi feito um filme, estreado esta semana nas salas portuguesas e que tem o nome “Spotlight”. Nele retrata-se o funcionamento do jornal, e sobretudo da equipa do Spotlight e dão-se conta da situação criada numa cidade predominantemente católica quando o principal jornal acusa o clero de uma série de abusos sexuais sobre menores, praticados ao longo dos anos.  O filme, uma crónica assumida sobre o jornalismo, estreou nos EUA em Novembro de 2015, está nomeado para seis Oscars e foi realizado por Tom McCarthy. Se depois de verem o filme quiserem espreitar o jornal basta irem ao seu site, que é também um dos mais premiados da imprensa norte-americana - www.bostonglobe.com


 



Inline image 1


OUVIR - Yaron Herman é um pianista israelita que vive em Paris e que até agora tinha uma carreira feita sobretudo a partir de versões de composições originais de nomes tão diversos como Björk, Britney Spears, Leonard Cohen e alguns compositores clássicos, além música popular de inspiração judaica. “Everyday” é o seu álbum de estreia na Blue Note e é também um salto numa direcção mais pessoal. Uma ajuda importante neste disco é do baterista Ziv Ravitz, que assume a direcção musical do projecto ao lado de Yaron Herman. Aqui a maioria dos temas são da autoria de Herman, alguns em co-autoria com Ravitz, e duas  versões - uma do “Prelúdio nº4, opus 74” de Alexander Scriaboin e a outra de uma canção de James Blake, “Retrograde”, que já havia revisitado anteriormente. Um dos temas feito em co-autoria, é “Volcano”, que de alguma forma assume um papel central no disco, uma espécie de cruzamento de influências. A produção do tema é de Valgeir Sigursson, que costuma trabalhar com Bjork, a a interpretação vocal é de uma cantora islandesa, Helgi Jónsson - já agora vários temas do álbum são cantados. “Volcano” é um tema envolvente, com sonoridades inesperadas. “Vista”, “Everyday”, “Five Trees”, “Volcano”, “Retrograde” e “18:26” são talvez as faixas deste CD que melhor conseguem mostrar o caminho entre a improvisção do jazz e revisitações de diversos estilos contemporâneos que Yaron Herman está a trilhar.


 


PROVAR - Desde há uns anos Duarte Calvão e Miguel Pires são os animadores de um blogue de crítica gastronómica, o Mesa Marcada, que foi criando influência e audiência. Paulina Mata foi durante algum tempo convidada do Mesa Marcada e agora iniciou o seu blogue pessoal, Assins & Assados. O Mesa Marcada foi-se extremando na cozinha de autor e em propostas gastronómicas sofisticadas, que alinham na designação de fine dinning. As listas dos melhores restaurantes que o Mesa Marcada anualmente organiza mostra como o enfoque está no acompanhamento da moda em termos de restauração (e também de alguma sensibilidade às relações públicas e à comunicação que têm fabricado alguns chefs). Esta opinião tem origem na minha aversão profunda a menus degustação e aos restaurantes que fazem do estilo um catecismo, área que o Mesa Marcada aprecia. Para mim os menus degustação, salvo raras excepções, são uma mesmice, para usar uma expressão que li no blogue, num comentário de um leitor, e a que achei graça. Mas volta e meia o Mesa Marcada lá fala de coisas úteis, como locais onde comer bem no dia a dia ou simplesmente petiscar. Uma outra coisa parece estar a nascer no blogue de Paulina Mata, que para já parece mais focado na essência das coisas e na revisitação daquilo que é básico: boa matéria prima bem confeccionada. A ver vamos como evolui. Aqui ficam os endereços:  http://assinseassados.blogs.sapo.pt/  e http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/


 


DIXIT - O PS vive num estado de ilusão e não está em condições de combater o Bloco de Esquerda, que se tornou o partido mais populista em Portugal - Francisco Assis, em artigo no Jornal de Notícias no dia seguinte às presidenciais.


 


GOSTO - O Estado gastou menos dinheiro a subvencionar as eleições presidenciais


 


NÃO GOSTO - Do barulho e do cheiro das pipocas nas salas de cinema - não há banda sonora que resista ao ranger dos dentes no milho esponjoso


 


BACK TO BASICS - A inveja dos outros é o imposto que nos cai em cima quando temos sucesso - David Nichols