fevereiro 27, 2015

SOBRE UMA CAIXA DE VELOCIDADES ENCRAVADA EM MARCHA-ATRÁS

NOVELA - Alguém no Governo grego estudou guionismo e fez com que a sua política se assemelhe a uma novela, com os gregos a fazerem de heróis perseguidos e vários países a vestirem a pele do vilão. É sabido que o conceito de drama vem do teatro grego clássico, e talvez por isso, antes de assumirem medidas, os novos governantes definiram personagens, com guarda-roupa e tiques de comportamento. Sabiam que o palco se encheria de figurantes e ficaram à espera. É certo que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, e nessa medida tudo indica que a nossa Ministra Maria Luís se enganou nos camarins a escolher o guarda roupa, escolhendo um papel menor para Portugal. Ainda ninguém sabe o desfecho da novela - imagino que, seguindo as melhores práticas, decorram estudos de opinião entre os espectadores para escolher o final feliz. Pelo caminho percebeu-se que o especialista da teoria dos jogos, vestido de galã, não acertou no euromilhões e ficou-se por um modesto quarto  prémio. O facto causou frisson nas hostes de apostadores gregos e o compositor da banda sonora desta novela, Mikis Theodorakis, figura de proa do Syriza, revoltou-se contra o maestro e o galã. Nada disto é novidade - é apenas mais um partido que ganha eleições e a seguir manda o programa eleitoral às urtigas. por cá temos muita experiência disso e  há-de haver um personagem nesta novela que virá dizer: “- Meus amigos, a política é isto mesmo: fazer promessas para ganhar votos e esquecê-las a seguir”. Para já  o Governo do Syriza é um carro que ficou com a caixa de velocidades engatada na marcha atrás. A presidente do FMI, tão elegante quanto manhosa, depois de se deixar fotografar sorridente, de fato de cabedal, ao lado do galã da companhia, deixou já antever esta semana que está a ensaiar a passagem de sedutora a dominatrix. A coisa promete.


 


SEMANADA -  A Procuradora Geral da República reconheceu que a corrupção utiliza o aparelho de Estado; o presidente da EMEL, Júlio de Almeida, que tinha o seu maior apoio no vereador Manuel Salgado, foi demitido; Júlio de Almeida tem actividade privada no sector imobiliário e Manuel Salgado é o vereador com o pelouro do urbanismo; no mandato anterior Júlio de Almeida entrou em conflito com o vereador que tutelava a empresa, Nunes da Silva, e com os outros membros do conselho de administração da EMEL; neste mandato entrou em conflito com o vice-presidente da autarquia, Fernando Medina, que pretendia receber da EMEL 13 milhões de euros devidos pelas rendas de concessão que a empresa devia à Câmara de Lisboa e que Júlio de Almeida se recusava a pagar; no mandato de Júlio de Almeida as normas sobre a relação entre os residentes em Lisboa e a EMEL foram alteradas, a desfavor dos munícipes; António Costa, secretário-geral do Partido Socialista, reconheceu que o país terá superado a crise e está hoje numa situação "muito diferente" do que em 2011; em comentário o PS afirmou que o seu Secretário-Geral falou com “sentido de Estado”; 150 mil alunos chumbam por ano em Portugal; alguns dos processos judiciais mais importantes do país, entre os quais os do BPN e de José Sócrates, estão armazenados num corredor de acesso no  estacionamento subterrâneo do DCIAP; casinos e bingos perderam mais de um terço das receitas em seis anos; o endividamento das famílias portuguesas desceu e significa um rácio do PIB de 85,7%; o das empresas também desceu para um equivalente a um rácio do PIB de 142%; o do Estado aumentou ligeiramente para 128,7% do PIB; o saldo líquido do sector do Turismo em 2014 foi de 7.076 milhões de euros, com as receitas globais a ultrapassarem os dez mil milhões de euros, o que significa 14,6% das exportações globais; as remessas de Angola em Dezembro de 2014 caíram para metade do valor que tinha sido registado em Dezembro de 2013; em Janeiro os portugueses subscreveram 1.941 milhões de euros em certificados de aforro e em 2014 o valor da dívida pública subscrita por particulares subiu de 12.479 milhões de euros para 19.131 milhões de euros; o IGCP já foi ao mercado buscar 8,25 mil milhões de euros em dívida de médio e longo prazo e o montante angariado nos dois primeiros meses de 2015 é o triplo da média da dívida emitida em Janeiro e Fevereiro entre 2005 e 2011, antes da chegada da ‘troika' ; já existem 11 pré-candidatos às eleições para a Presidência da República.


 


ARCO DA VELHA - Fim de semana no Chiado, um vendedor ambulante com uma banca cheia de imitações da Burberry e com um singelo cartaz: “Cachecóis Varoufakis”.


 


FOLHEAR - A revista mensal “Wallpaper”, o primeiro grande projecto editorial de Tyler Brulé, hoje editor da “Monocle”, está a recuperar de uns anos sombrios e ganhou de novo personalidade própria. A capa da edição de Março é uma imagem manuseada pelo português Noé Sendas, que assina o portfolio de moda dessa edição, 16 páginas de belíssimas imagens fotografadas por Jan Lehner e trabalhadas por Sendas. A série tem o título “The Lady Vanishes” e vai estar até 31 de Março em exposição em Londres na Michael Hoppen Gallery. Noé Sendas, que agora vive em Madrid, depois de uma temporada em Berlim, estudou no Atelier Livre da Escola António Arroio e no Ar.CO, em Lisboa (1992), prosseguindo depois no Royal College of Arts, em Londres (1993), e no Art Institute of Chicago (1997). Sendas foi convidado a fazer o tema de capa da edição especial Style Special (W*192) pela directora criativa da Wallpaper, Sarah Douglas. A série de imagens foi fotografada por Jan Lehner em colaboração com a editora de moda Isabelle Kountoure e “apresenta o corpo como entidade que é simultaneamente teórica e material” , pretendendo que, “na imobilidade das imagens, seja a roupa e não o corpo feminino que se vê objectualizado”. Um outro momento imperdível da revista é um panorama dos talentos contemporâneos de Los Angeles, intitulado “LA stories” e onde John Baldessari e Ed Ruscha passam em revista alguns dos nomes que estão a fazer a diferença, desde escritores a músicos, passando por pintores, artesãos, escultores ou fotógrafos. São dez páginas que vão das memórias de Baldessari e Ruscha na sua LA ao futuro que se desenha todos os dias.


 


OUVIR - Benjamin Grosvenor tem 22 anos e é um caso sério no panorama dos pianistas contemporâneos.  “Dances” é o seu terceiro disco e nele Grosvenor interpreta  Bach, Chopin, Scriabine, Granados, Albéniz, e finaliza com um boogie woogie de Morton Gould. Mostra o seu virtuosismo mas ultrapassa-o demonstrando que  a interpretação é um misto de técnica com inteligência. Na verdade o repertório do disco é uma proposta de um programa de danças que passa através dos séculos. O “Guardian” dizia que ele é um “raro talento, um prodígio que está a amadurecer para se tornar numa verdadeira estrela”. A crítica nota que a sua interpretação de Bach é algo agitada, mas reconhece que a interpretação da “Polonaise” de Chopin é avassaladora, assim como a forma como interpreta as “Valses Poéticos” de Granados. Destaca ainda a sua abordagem às mazurkas de Scriabine e ao tango de Albéniz. (CD Decca, distribuído por Universal Music, no Corte Inglés).


 


VER - Esta semana destaco três exposições de fotografia em Lisboa. Começo pela mais relevante, integrada no programa Próximo Futuro, da Gulbenkian, uma iniciativa de António Pinto Ribeiro. No diálogo que procura estabelecer entre várias culturas, o Próximo Futuro propõe desta vez  quatro fotógrafos que captaram o caminho do Brasil rumo ao modernismo. Três deles eram emigrantes europeus: Thomaz Farkas era húngaro, Marcel Gautherot veio de França, e Hans Günter Flieg nasceu na Alemanha. Além deles a exposição mostra obras de José Medeiros, um dos mais marcantes fotojornalistas brasileiros, que se dedicou a mostrar o Rio de Janeiro, as suas praias, a vida da cidade - é dele a fotografia que reproduzimos. Thomas Farkas criou um olhar próprio sobre as formas da arquitectura e foi um dos fotógrafos que ajudou a mostrar Brasília ao Mundo. O outro testemunho do nascimento de Brasília,, também presente nesta exposição, foi Marcel Gaujtherot, que abordou frequentemente os rituais e as festas populares; e por último Hans Gunter Flieg que documentou fotograficamente o processo de industrialização do Brasil. A exposição chama-se “Modernidades: Fotografia Brasileira (1940-1964) e vai estar patente até 19 de Abril na Galeria de Exposições Temporárias do edifício principal da Fundação Gulbenkian. Entretanto na Fundação EDP, Museu da Electricidade, estão a partir desta semana e até 26 de Abril duas outras exposições de fotografia: “Through The Pale Dawn” mostra imagens da Coreia do Norte vista por Carlos Lobo, última parte da trilogia “Far Far East”, que antes percorreu a China e o Japão; a segunda é “Allumar”, de José Manuel Ballester,  que resulta de uma estada prolongada nas Astúrias, mostrando paisagens industriais e a natureza da região. numa linha de procurar problematizar o banal.


 


PROVAR -  A Avenida da Liberdade está cheia de novos hotéis, todos incluindo propostas de restauração que se pretendem cuidadas e com vida própria. Uma delas é o Sítio, no Hotel Valverde, um pouco abaixo do Teatro Tivoli. Fica no piso inferior do Hotel, ao lado de um belo terraço, com piscina, A localização e a envolvente são inesperadas e o ambiente é muito simpático. É um hotel pequeno, com um restaurante confortável e com um serviço adequado sem ser espalhafatoso. O couvert inclui tapenade de azeitona e de tomate e uma variedade de pães de que se destaca o  pão de tomate seco.  Na ocasião o amouse-bouche foi ovos mexidos com farinheira. O prato escolhido, que excedeu as expectativas, foi risotto na cataplana - uma solução inesperada mas que resultou bem., acompanhado por um branco do Douro, Pedra Escrita, servido a copo. No final um pudim de vinho do Porto foi uma boa surpresa. Na cozinha está Carla Sousa, que trabalhou com Henrique Sá Pessoa. Fica no 164 da Avenida da Liberdade e tem o telefone


210 910 300


 


DIXIT - “Nas sociedades contemporâneas olha-se para a cultura como um elemento de fim de linha. Só quando estão resolvidos os outros problemas da sociedade é que se fala de cultura. A cultura precisa de mais atenção” - Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura


 


GOSTO - Muito bom o “Macbeth” que o S. Carlos leva à cena com Angel Ódena no papel de Macbeth e Elisabete Matos numa interpretação explêndida de Lady Macbeth. Se arranjar bilhetes ainda pode ver esta sexta 27 às 20h00 e no Domingo 1 de Março às 16h00.


 


NÃO GOSTO - Da ausência de Portugal da Expo Universal de Milão, cujo tema é a indústria agro-alimentar, invocando os custos da participação - em 2014  Portugal exportou 5,5 mil milhões de euros de produtos agrícolas e a Feira será também uma importante mostra das capacidade de atracção turística de cada país, da qual pelos vistos estaremos ausentes.


 


BACK TO BASICS - Independentemente dos jogos que queiram fazer envolvendo-nos, temos de evitar fazer jogos connosco próprios - Ralph Waldo Emerson

TELEVISÃO - O MUNDO IDEAL PODIA SER ASSIM

Nos resultados da audimetria de Televisão há um indicador que gosto sempre de ver, que é o melhor minuto de cada canal – o resultado mais alto em termos de audiência obtido num único minuto ao longo da semana. Bem sei que as coisas não podem ser lidas como agora vou dizer, mas gosto de olhar o “melhor minuto” como o potencial máximo de audiência que cada canal poderia ter. Nesta semana o melhor minuto da RTP1 foi alcançado pelo “Preço Certo”, o que é relativamente frequente, com 30,9% de share; na RTP2 a série espanhola El Principe conseguiu 4,8%, fazendo lembrar os resultados de tempos distantes; na SIC, e como também é hábito, o melhor resultado foi para a novela Mar Salgado, com 47% de share no minuto em que foi mais vista; e na TVI esta semana o minuto com maior audiência ocorreu na transmissão do jogo Basileia – F.C. do Porto, com 37,8% de share. No mundo ideal isto era assim – mas claro que cada canal tem altos e baixos e o resultado médio é sempre mais baixo. Ao longo da semana a RTP1 teve em média cerca de 318 mil espectadores, a RTP2 esteve perto dos 38 mil, a SIC dos 377 mil e a TVI dos 486 mil. Para se ter uma ideia, no cabo, o AXN teve uma média de 36 mil, o Hollywood atingiu os 49 mil, a SIC Notícias ficou pelos 31 mil, a FOX pelos 26mil, a TVI24 pelos 23 mil, a RTP Informação pelos 16 mil e a Globo pelos 20 mil. Tudo valores médios claros. A estatística é uma coisa terrível.


 


(Publicado na revista Correio TV de dia 27 de Fevereiro)

fevereiro 20, 2015

SOBRE O BOM SENSO E A FALTA DELE

BOM SENSO - O grande problema da burocracia e dos burocratas é que substituem a inteligência pela obediência, a análise de situações pelas regras, e ignoram o que é o mais elementar bom senso, algo que devia estar sempre na preocupação das pessoas - porque é a base mínima para nos conseguirmos entender uns com os outros. Peguemos no caso dos sacos de plástico. Eu sou obviamente a favor de medidas que protejam o ambiente e combatam a poluição - mas elas devem ser feitas com bom senso e devem ser preparadas por forma a captar simpatia em vez de repúdio. O caso dos sacos de plástico do Ministro Moreira da Silva tem um equivalente em matéria de falta de bom senso no caso da circulação de automóveis anteriores a 2000 na cidade de Lisboa e arrisco dizer que o grande ponto comum entre Moreira da Silva e António Costa é falta de bom senso. Peguemos agora no caso das multas sobre pagamentos ao Estado que se atrasam, como o caso das portagens de meia dúzia de euros que facilmente chegam às largas centenas (e que os tribunais têm estado a considerar inválidas). Só a mais completa falta de bom senso justifica que a cobrança coerciva chegue a estes absurdos - mas isto é comum no fisco português que criou mecanismos de automatismo que executam penhoras ou mantêm avisos de dívida mesmo depois de as multas serem pagas ou as dívidas liquidadas. A falta de bom senso por parte dos organismos do Estado e seus responsáveis anda geralmente de braço dado com abuso de autoridade e a falta de respeito pelos cidadãos. Estou quase a acreditar que a primeira coisa que ensinam a quem tem poder é como abusar dele. O Estado português está cheio disso e o mais engraçado é que não vejo nenhuns políticos preocupados com o mau uso do poder que lhes cai nas mãos.


 


SEMANADA - Investimento alemão em Portugal cresceu 37,8% em 2014; o investimento estrangeiro dos 28 países da União Europeia em Portugal caíu 140,3% nos primeiros 11 meses de 2014 face ao mesmo período do ano anterior; em contrapartida o investimento dos países extra UE aumentou 589,8% no mesmo período; em Janeiro foram registados quase 12 mil novos veículos automóveis; a JSD admite avançar com uma proposta de legalização da prostituição; em 2014 o número de funcionários públicos baixou mas aumentou o dos gabinetes governamentais; o emprego no Estado caíu cerca de 10% nos últimos três anos; Portugal continua a ter o quinto maior défice da União Europeia; o crédito automóvel cresceu 33% em 2014; em 2013 havia 264.000 explorações agrícolas em Portugal, menos 40.800 do que em 2009, mas a área cultivada não teve variação significativa; as receitas dos hotéis portugueses cresceram 12,8% em 2014; no município de S. João da Madeira o Mandarim é disciplina curricular no 1º ciclo e facultativa no 5º ano, um projecto que envolve 669 alunos; na semana de estreia o filme “As 50 Sombras de Grey” foi visto por 160.830 espectadores; o Governo da Guiné Equatorial quer encontrar uma forma de se associar ao Benfica e tem estado em conversações com dirigentes do clube sobre essa possibilidade; António Costa está desde Outubro a comandar os destinos dos socialistas mas, apesar de as sondagens lhe darem o primeiro lugar, o PS está em queda desde há quatro meses; desde o final de 2013 registam-se pelo menos uma vez por ano demissões em bloco de responsáveis médicos do hospital Amadora-Sintra, invocando perda de condições de qualidade na assistência aos doentes; na última semana o tema dominante das notícias na informação televisiva foi o Carnaval e os seus festejos.


 


ARCO DA VELHA - 350 agentes da Unidade Especial de Polícia estão desde há um mês a tomar banho de água fria após os treinos diários, na sequência de uma avaria na caldeira das instalações que usam, na Ajuda.


 


FOLHEAR - Chama-se “Machinas Fallantes” e é uma deliciosa história sobre a música gravada em Portugal no início do século XX. O livro, da autoria de Leonor Losa, uma investigadora de etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, recupera a história das primeiras tecnologias de gravação e reprodução de som do final do século XIX, conta a popularização dos gramofones no início do século XX e a maior vulgarização da música gravada nos anos 30. Pelo caminho ficam histórias de artistas, de autores, do teatro de revista, de repertórios populares e eruditos, das primeiras editoras discográficas portuguesas, como a Valentim de Carvalho. O livro recupera muitas imagens - ilustrações e fotografias - pouco conhecidas e algumas mesmo raras, e está escrito de forma rigorosa, mas como a história dessa aventura que é a música gravada e o desenvolvimento da música popular portuguesa. Amplamente documentado, é sobretudo cheio de informações pouco conhecidas relativas aos primeiros 50 anos do século passado - como aliás o título indica. A edição inclui um CD com duas dezenas de gravações históricas, quer de canções de revista, quer de gravações raras como o “Fado de Coimbra” pelo próprio autor Reinaldo Varella e algumas canções populares. A edição é da Tinta da China.


 


VER - O espaço Novo Banco, ex BESArte, no Marquês de Pombal nº3, voltou a ter uma exposição pela primeira vez desde o ciclone que varreu a instituição. É uma amostra da colecção de fotografia criada ao longo dos anos pelo BES, e que agora pertence ao Novo Banco. A exposição, que é de entrada gratuita e está aberta de segunda a sexta entre as 09h00 e as 19h00, inclui obras de Nan Goldin, Marina Abramovic, Martin Parr, Cindy Sherman, Irving Penn, mas também Julião Sarmento, Helena Almeida, João Penalva e Vasco Araújo, entre outros, e permite estabelecer uma ideia aproximada da instabilidade da colecção.


Outras sugestões: “Desenhos”, de Helena Almeida, na Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção 80, a Xabregas; a colectiva “Pintura Modernista na Colecção Millennium BCP, Galeria Millennium, Rua Augusta 96; “Como Se Pronuncia Design Em Português”, no MUDE, Rua Augusta 24; e para terminar  com fotografia, uma exposição de Tito Mouraz, que esteve nos Encontros de Imagem, de Braga, a “Casa das Sete Senhoras”, na imagem, que está na Galeria Módulo, Calçada dos Mestres 34.


 


OUVIR - O pianista Kenny Barron (71 anos) e o baixista Dave Holland (68 anos) começaram a tocar em duo em 2012 e têm realizado numerosos espectáculos que incluem quer versões de standards do jazz, quer temas originais dos dois músicos - e cada um deles tem carreira própria recheada de referências Barron mais tradicional, Holland mais exuberante. Em 2014 entraram em estúdio para gravar uma selecção do repertório que tocaram nesses espectáculos e daí saíu o CD “The Art Of Conversation”. Inclui dez temas (três de Barron, quatro de Holland, um de Charlie Parker, outro de Thelonius Monk e outro do trio Duke Ellington, John LaTouche e Billy Strayhorn). O nome do álbum reflecte bem a capacidade de diálogo e de entendimento musical entre os dois músicos, o à vontade com que interpretam os standards, com respeito pelos originais mas também com o sentido de inovação que ambos sabem imprimir às suas interpretações. Quer Barron quer Holland são virtuosos, atentos ao detalhe, e ambos, sente-se, respeitam-se mutuamente. É um bom exemplo de junção de talentos e de criatividade. CD Impulse.


 


PROVAR - A nova pizzaria “Fornodoro”, onde antes era o Mezzaluna, é mais um restaurante do nepalês que tem multiplicado o seu talento em alguns restaurantes da cidade. Chama-se Tanka Sapkota e desta vez estudou a fundo a arte da pizza, encomendou um forno de Itália, uma máquina para bater a massa que a torna leve e fôfa, e escolheu uma selecção de ingredientes em que muitos são raridades nas pizzarias de Lisboa - como as túbaras, um tubérculo  português que ainda será aparentado com as trufas. O forno, que pesa nove toneladas, foi construído no local por uma empresa de Nápoles, que trouxe a pedra vulcânica e todos os outros materiais, e foi forrado a folha de  ouro - daí o nome dado ao restaurante. O precioso forno é alimentado a lenha de carvalho e cada pizza fica lá dentro 70 segundos. O que ali se serve é a pizza napolitana, de massa leve mas não fininha, sem exageros de tomate e queijo e com combinações interessantes de outros ingredientes. O resultado é uma pizza mais leve que o habitual. Uma boa surpresa é uma carta de cervejas artesanais, muitas italianas, mas também de outras zonas do mundo e de Portugal. O serviço é muito bom e a boa disposição é reinante. À saída, e perante um pedido de isqueiro para uma fumadora, o chef trouxe à porta,numa pá de pizza, pequenas brasas do forno que serviram para acender o cigarro pós-prandial. Não podia ter terminado de melhor forma esta estreia. Fornodoro, Rua Artilharia 1- 16 B, telefone 213 879 944.


 


DIXIT - “Espero que brevemente o país retome a liberdade de poder festejar o Carnaval” - afirmou António Costa, defendendo o regresso da tolerância de ponto se vencer as eleições.


 


GOSTO - O ritmo de crescimento do turismo português em 2014 foi mais de  três vezes superior ao de Espanha.


 


NÃO GOSTO - Enquanto faltam médicos em Portugal o número de portugueses que foi estudar medicina para o estrangeiro aumentou 90% nos últimos anos e desses nem metade regressou ao país.



BACK TO BASICS - Não há nada pior que a estupidez agressiva - Goethe

FALAR EM CÍRCULO FECHADO

O programa mais visto da RTP1 é “Got Talent”. Passa nos domingos à noite e, enquanto está no ar consegue melhores resultados de audiência do que “Secret Story” na TVI e deixa a grande distância “Sabes Quem sabe Dançar?”, da SIC. É um programa com um objectivo de audiência familiar e que consegue um espectro muito alargado, num compromisso raro de qualidade de produção e de conteúdo. Sabe-se lá porquê a RTP 2 tem ao mesmo tempo uma das suas melhores séries, “O Paraíso”, que assim se vê esvaziada de audiência. “O Paraíso” é uma série da BBC, baseada na obra “Au Bonheur Des Dames” de Émile Zola. Quem quiser ver o “Got Talent” não vai poder ver “o Paraíso”, que ainda por cima é uma série insuficientemente promovida. Nesta matéria as estações de televisão gostam de ficar com a consciência tranquila quando fazem auto-promoções, ou seja, divulgação dos seus próprios programas nas suas antenas, ou seja, não vão buscar espectadores que estão noutros lados. Em muitos países é frequente ver anúncios de séries e de programas de informação nos placards laterais dos autocarros, no metropolitano ou em sites de jornais. No caso da RTP nem sequer há grandes sinergias a este nível com as estações de rádio. O tema do marketing de programas é crucial nos canais de televisão hoje em dia, esmagados pela oferta do cabo e pela possibilidade de visionamento diferido. Não há-de ser por acaso que esta semana a RTP2, na região de Lisboa, não aparece na lista dos 15 canais mais vistos.


(Publicado na revista Correio da Manhã TV de 20 de Fevereiro)

fevereiro 13, 2015

QUANDO EM NOME DO PROGRESSO SE PRATICA O RETROCESSO

RETROCESSO - Vivo quase metade da semana numa pequena aldeia a 40


quilómetros de Lisboa, ainda com uma forte componente agrícola, que coexiste


com grandes unidades industriais essencialmente exportadoras, com um espírito


de comunidade arreigado, com sociedades recreativas que fazem festas e um


comércio local onde toda a gente se conhece. Até ao ano passado a Câmara


Municipal de Palmela tinha travado o crescimento demasiado de grandes


superfícies dentro das malhas urbanas. No Verão de 2014 autorizou um


supermercado de média dimensão dentro dessa povoação - apesar de num raio de


dez quilómetros existirem mais seis supermercados e grandes superfícies. Essa


povoação tinha um comércio local dinâmico e variado, com uma forte oferta de


produtos frescos, de produtos locais, alguns deles com denominação de origem.


Nessas lojas encontrava-se o melhor que ali se produzia - fosse queijo fresco do


dia, pão cozido a forno de lenha, doces regionais, peixe vindo de madrugada da


lota de Setúbal ou fruta e hortícolas da região. Nestes pouco mais de seis meses já


encerraram meia dúzia de lojas, derrotadas pelo supermercado - onde nem tudo é


mais barato, poucas coisas são tão frescas e onde os produtos naturais não


abundam. Este supermercado é de um dos maiores grupos nacionais, uma empresa


que propagandeia responsabilidade social e apoio aos produtores. Na realidade, a


nível local, não é nada disso que se vê - destruição de valor, quebra da vida em


comunidade, destruição da frágil economia familiar que estava baseada em


pequenos comércios. A maneira como as cadeias de supermercados afectam a


economia local, sem benefícios evidentes quando as contas são bem feitas, é um


dos maiores problemas do país nos últimos anos e as Câmaras Municipais têm


muitas responsabilidades nas autorizações que concedem. Custa-me ouvir a


senhora da loja onde me habituei a ir dizer que não sabe se conseguirá mater a


porta aberta muito mais tempo. Isto não é progresso. É retrocesso.


 


SEMANADA - António Costa continua a não querer dizer se Guterres já o


informou da sua indisponibilidade para Presidente da Republica; Alfredo Barroso,


fundador do PS, classifica António Vitorino, apontado como um dos possíveis


candidatos socialistas a Belém, como “um facilitador de negócios”; Rui Rio, que


alguns apontam como eventual candidato, anunciou desejar um Presidente da


República mais interventivo; uma sondagem do Correio da Manhã indica que, caso


Guterres não se candidate, Marcelo Rebelo de Sousa ganha com vantagem folgada


aos três outros nomes da área do PS já indicados - Jaime Gama, António Vitorino


e Maria de Belém, sempre com mais de 60% dos votos; pelo terceiro ano seguido


as exportações portuguesas superaram as importações efectuadas; a Alemanha é


o país europeu com quem Portugal tem maior déficit comercial; o preço da carne


de porco caíu 20% devido ao impacto do embargo de vendas à Rússia; dos 126


mil imóveis transaccionados no ano passado, 23 mil envolveram estrangeiros


e os franceses estão a aproximar-se dos chineses em número de aquisições; o


Parlamento considerou exorbitantes as multas aplicadas pelo fisco devido ao não


pagamento de portagens e que chegam a atingir um aumento de 900% sobre o


valor original que o automobilista teria que pagar; metade dos contratos públicos


em 2013 foi por ajuste directo; o Governo anunciou querer saber quem são e como


se financiam os donos dos orgãos de comunicação social portugueses.


 


ARCO DA VELHA - O caso dos submarinos provocou uma crise no PS e Ana


Gomes e Isabel Moreira passaram a semana a atacarem-se mutuamente. Ana


Gomes desencadeou um ataque a Paulo Portas sobre os submarinos baseada em


escutas cuja transcrição confundiu canal com Canalis e aquilo com Kiel. Apesar


disso Ana Gomes disse não estar disposta a receber lições de Isabel Moreira.


 


FOLHEAR - Baseada em Nova Iorque, a Aperture Foundation é uma organização


sem fins lucrativos dedicada à divulgação da fotografia em revistas, livros,


exposições e actividades de formação. Edita uma magnífica revista, publicada


sazonalmente, quatro vezes por ano. A edição deste Inverno tem sobejos motivos


de interesse. O maior será talvez um artigo sobre a influência da escrita na obra


do fotógrafo Walker Evans, conhecido sobretudo pela sua obra no campo da


fotografia documental para revistas como a Time ou a Fortune. Mas a presença


da literatura esteve sempre por perto, nas séries que fez para acompanhar alguns


textos de autores que mais o interessavam. E assim descobre-se como Flaubert,


Baudelaire ou Proust, por exemplo, exerceram uma notável influência na sua obra


- é um magnífico ensaio de David Campany. As relações da fotografia com o texto


são também exploradas em “Word vs Images” onde diversos autores de ficção


elaboram sobre o assunto, entre os quais, Lynne Tillman e Tom McCarthy. Outra


abordagem curiosa à ligação da imagem com a literatura é a história das capas,


fotográficas, da editora New Directions, que em meados do século passado apostou


em imagens, por vezes quase experimentais, para capear obras de William Carlos


Williams ou Yukio Mishima, entre outros. E , claro, há portfolios de autores como


Hervé Guibert e descobertas como as fotografias feitas por William S. Burroughs.


A edição pode ser comprada directamente à Aperture Foundation ou encomendada


via Amazon ao preço de capa de 25 US$.


 


VER - Esta semana é incontornável falar da colecção Sonnabend, que estará na


Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 3 de Maio.É uma rara oportunidade


de ver de perto, em Lisboa, um conjunto significativo de obras de artistas


como Robert Rauschenberg, Roy Liechtestein, Andy Warhol ou Jasper Johns.


Feita em colaboração com a Sonnabend Collection Foundation (Nova Iorque)


e a Fondazione Musei Civici di Venezia - Ca' Pesaro Galleria Internazionale


d'Arte Moderna (Veneza), a exposição Sonnabend | Paris – New York reúne


um importante conjunto de peças da colecção histórica da Galeria Sonnabend,


mostradas durante os primeiros cinco anos de actividade da galeria em Paris,


entre 1962 e 1967, recorrendo a um total de 50 obras de 15 artistas que melhor


representam o movimento Pop e Minimal Art em esculturas, pintura e desenho - e


alguns desenhos pouco conhecidos de Roy Liechtestein são boas descobertas desta


exposição. A inauguração esteve cheia de gente que não costuma ir a exposições,


menos ainda de arte moderna, mas que se sentiram compelidos ao frisson nova-


iorquino levado ao Jardim das Amoreiras. O poder foi ao Museu - fico na dúvida


se para se mostrar, ou se para ver.


 


OUVIR - É surpreendente como aos 73 anos Bob Dylan tenha ainda a capacidade


de surpreender como fez, no início da década de 60, com os seus primeiros discos.


Eterno apaixonado pela tradição musical norte-americana, que dos blues à country


foi sempre o motor da inspiração das diversas fases da sua carreira, iconoclasta


por natureza, desprezando as verdades estabelecidas, Dylan fez agora um disco


baseado em temas que foram interpretados por Frank Sinatra - 10 temas que


fogem ao óbvio do repertório e vão buscar pérolas esquecidas do cancioneiro


popular norte-americano - como “I’m A Fool To Want You”, “Stay With Me”,


“Autumn Leaves” “ Full Moon and Empty Arms” ou “What ‘ll I Do”, para citar só


algumas. É preciso ter coragem para aos 73 anos dar uma volta destas à carreira,


surpreendendo tudo e todos. Dylan canta com paixão o que Sinatra cantava


com gosto, E canta com um gôzo contagiante, raro, com uma capacidade de


interpretação que só os grandes talentos são capazes de mostrar. Assim se prova


que uma canção pode ser revisitada sem ser traída, que não é da imitação que nasce


a luz, mas que é da surpresa que nasce o encanto. Bob Dylan, Shadow In The


Night, CD Sony Music na Amazon ou no Spotify. Na semana passada, na gala do


Musicares na qual foi homenageado como Personalidade do Ano, Dylan fez um


discurso que retrata a sua visão sobre a música popular norte-americana e que é


imperdível - pode ser lido aqui:


http://www.thedailybeast.com/articles/2015/02/09/bob-dylan-s-whole-life-in-30-


minutes.html?via=mobile


 


PROVAR - Tinha ouvido falar bastante do La Parisienne, um restaurante recente,


situado no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e que, como o nome


indica, tem na cozinha francesa a sua inspiração. É mais cozinha tradicional,


descansem os cépticos da nouvelle cuisine, e por alguma razão o restaurante usa


o subtítulo Bistrot Français. A decoração é simpática, o serviço é escorreito, a


sala é acolhedora mas falta qualquer coisa para a experiência ser completamente


conseguida. Seguindo sugestão alheia provei um bife tártaro, que estava no ponto


no que à qualidade, corte e tempero da carne diz respeito. É uma pena que as


batatas fritas fossem tão fracas, francamente inferiores ao que é aceitável num


restaurante destes - e um tártaro com batatas fritas inquietas perde um pouco da


sua graça. Do outro lado da mesa a experiência foi melhor, com um filete de robalo


com molho de pimenta rosa e legumes. Dizem-me que a choucrute e o cassoulet


da casa (mal traduzido é um cozido è francesa), merece elogios - convém notar que


os enchidos franceses utilizados são da responsabilidade do chef Xavier Charrier,


que há uns anos abrira uma charcutaria no Linhó, que fez fama. O La Parisienne


é de um casal francês que aterrou em Lisboa, Olivier Vallancien e a sua mulher


Lumir Ardant-Leverd e depois recrutaram Xavier Charrier. Hei-de lá voltar para


navegar mais nas listas e verificar o estado das batatas fritas. Largo Rafael Bordalo


Pinheiro 18, telef. 964203947.


 


DIXIT - “Uma percentagem elevada da população caíu numa situação dramática” -


Luis Barbosa, Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa


 


GOSTO - Pedro Cabrita Reis está a expôr em Toulon, no Hotel des Arts, e o


comissãrio da exposição, Jean François Chougnet, o primeiro director do Museu


Berardo, considera-o “um artista genial com capacidade para fazer projectos de


dimensão absolutamente fora do comum”


 


NÃO GOSTO - De ouvir um relato de uma intervenção policial no bairro da


Cova da Moura que teria incluído expressões como “vocês têm sorte que a lei


não permite, senão seriam todos executados”, dirigidas a jovens de côr que foram


detidos, dois deles da direcção do Moinho da Juventude, projecto comunitário que


existe há 30 anos na Cova da Moura, premiado pela Assembleia da República.


 


BACK TO BASICS - “Muito daquilo que é apresentado como idealismo não é


mais do que amor disfarçado ao poder“ - Bertrand Russell

fevereiro 06, 2015

A DIFERTENÇA ENTRE EPOPEIAS E CONTOS DE CRIANÇAS

EPOPEIA -  Não é possível deixar de falar da Grécia, a terra onde nasceu a forma de construir histórias, de criar e desenvolver uma acção dramática. Os primeiros dias do Governo de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis são um manual de como escrever um guião de cinema. Qualquer bom guionista sabe que o essencial é definir bem como se caracterizam as personagens, dos tiques ao visual - e nisso Tsipras e Varoufakis são talentos raros; depois é fundamental que os primeiros minutos surpreendam o espectador, que a acção emocione, que o inverossímil tome a aparência da realidade e que os heróis ensaiem lutas desiguais e desafiem sem temor os seus oponentes. Assistimos a tudo isto numa dezena de dias pós eleições. Desde a formação da coligação com a direita, passando pelo  abandono do “não pagamos” que passou a ser “talvez paguemos”,  às primeiras propostas financeiras, ao périplo europeu de ambos e às soluções que propuseram, parece que estamos perante uma versão contemporânea da “Ilíada”. A minha dúvida neste momento é saber o desfecho que os guionistas reservaram para o final da epopeia. É uma dúvida a que ninguém sabe responder porque estamos ainda perante o desassossego provocado pela acção intensa dos primeiros minutos do drama que nos é proposto. A acção dramática desta encenação estabelece claramente quem são, para os protagonistas, os maus que eles próprios, os bons, enfrentam. Nestes tempos modernos a peça tornou-se interactiva e mesmo quem não foi interpelado não deixou de enviar sinais - como aconteceu com Passos Coelho, que carregou logo no botão do “like” aos maus da narrativa. Neste momento o Syriza é uma máscara que assola a Europa e todos os dias a sua face se altera por debaixo da máscara. Estamos naquele momento da acção em que a utopia choca com a realidade. Os espectadores inteligentes preferem assistir em silêncio e percebem que tudo isto é bem mais que um simples conto de crianças.


 


SEMANADA - O Tesouro assegurou em Janeiro 60% do objectivo de captação de poupanças nos certificados de aforro para 2015; o total das subscrições atingiu 1,5 mil milhões de euros no primeiro mês do ano; várias estações dos CTT tiveram que prolongar o horário de funcionamento nos últimos dias de Janeiro para conseguirem atender todos os clientes que queriam certificados de aforro com a taxa de juro antiga, mais compensadora; a Assembleia da República admitiu ainda não saber quanto pagou em excesso aos partidos que concorreram às autárquicas de 2009; o Ministério da Educação recebeu, desde Setembro, 74 denúncias de praxes abusivas; o número de insolvências em Portugal desceu 33% em 2014, em relação ao ano anterior, para um total de 4019 casos; o volume de negócios do Vinho do Porto em 2014 foi de cerca de 330 milhões de euros, dos quais apenas cerca de 50 milhões foram realizados no mercado português; atrasos do fisco deixaram 85 mil multas por cobrar por falta de bilhete nos transportes públicos, no valor de cerca de 10 milhões de euros; Bruxelas diz que Portugal só cumpriu um terço das reformas exigidas pela troika; o Governo apoiou a candidatura de Figo à presidência da FIFA; numa sondagem realizada pela Win Gallup International os portugueses dizem esperar que 2015 seja um ano de dificuldades económicas; Fernando Gomes culpou Guterres por derrota da regionalização; segundo a Marktest cerca de 5,5 milhões de portugueses visitaram sites de jornais, revistas e de informação portugueses no ano de 2014; ainda segundo a Marktest quase 60% dos portugueses ouvem rádio regularmente e, destes, a maioria são quadros médios e superiores, seguidos pelos empregados nos serviços, comércio e administrativos; ainda segundo a Marktest a RTP1 foi a estação que emitiu mais notícias, com 2369 trabalhos e a que deu mais tempo em grelha à informação regular, com 79 horas.





ARCO DA VELHA - Uma pessoa minha amiga foi operada a uma anca e os médicos avisaram que devia estar imobilizada algum tempo e que a recuperação demoraria umas semanas; face a isto perguntou aos Serviços da Segurança Social o que seria preciso para garantir que não existiriam problemas com a baixa médica se fosse fazer a convalescença para casa de um familiar, na mesma cidade; os serviços disseram-lhe que não havia problema, mas para expôr o assunto, o que fez por carta registada; recebeu uma resposta dos serviços, citando a carta que tinha enviado, avisando que perderia o direito à baixa por não se encontrar na sua residência e anunciando que para poder ter direito à baixa devia formalmente mudar de morada no documento de identificação.


 


FOLHEAR - Uma vez por ano, geralmente em Fevereiro, o British Journal Of Photography dedica uma das suas edições a escolher os “Ones To Watch”, ou seja os talentos emergentes, um pouco por todo o mundo, na área da fotografia. “Pode haver melhor forma de começar o ano do que olhar para o futuro?” - pergunta Simon Bainbridge, o editor da revista, no seu editorial. A lista de 25 nomeados partiu de um conjunto de 300 seleccionados inicialmente, de todas as partes do mundo. Aqui cruzam-se maneiras de olhar, estilos e diferentes aproximações à fotografia e é isso que faz desta edição do BJP algo de tão fascinante - “hoje em dia a fotografia inventa, assimila, apropria-se e testa a cultura visual para novas direcções, mais amplas e diversas que as exigências do mercado ou as tendências da arte”, sublinha Bainbridge. Não há nenhum português entre estes 25 seleccionados, mas há muitos caminhos abertos e bons exemplos de trabalho de diversos pontos da europa, áfrica, ásia e américas. Alguns dos nomes têm estilos e olhares marcantes. E daqui, aposto, vão sair alguns nomes que vão marcar a fotografia nos próximos anos.





VER - Cecília Costa é das minhas artistas favoritas. Os seus desenhos deixam-me sempre a pensar e transportam-me frequentemente para um patamar de imaginação e surpresa como é raro acontecer. A partir de pormenores da figura humana Cecília Costa imagina situações que nos remetem para momentos de reflexão sobre nós próprios e sobre a nossa envolvente, cria um jogo de cumplicidades entre o que desenhou e as possibilidades de interpretação que oferece a quem vê os seus desenhos. De certo modo eles estão todos relacionados uns com os outros, embora na forma até sejam bastante diferentes, dependendo da época em que foram feitos. Curiosamente Cecília Costa começou por estudar matemática antes de estudar Artes Visuais e, além do desenho, tem feito fotografia, video e instalações. Na sua exposição na Galeria João Esteves de Oliveira é possível observar algumas das fases recentes da sua obra de desenho e perceber a forma como ela vem evoluindo e como cria situações, retratando estados de espírito e inquietações. A exposição de Cecília Costa coexiste com outra, de  trabalhos de Domingos Rego, sob a designação comum “Traço Contínuo” e estará patente até 13 de Março na Rua Ivens 38, em Lisboa.


 


OUVIR - “Wallflower”, o novo disco de Diana Krall, é uma boa surpresa. Maioritariamente abandona o registo de (cada vez mais) soft vocal jazz que se tornou a sua imagem de marca e revisita canções pop, interpretando-as de forma desprendida mas surpreendente, como acontece com “Califormia Dreamin’” dos Mamas & The Papas, “Desperado” dos Eagles ou “Superstar” dos Carpenters. Mas há também versões de temas de Elton John e dos Beatles, e duetos com Michael Bublé (“Alone Again Naturally” de Gilbert O’Sullivan), Bryan Adams (“Feels Like Home”, de Randy Newman) ou Georgie Fame (no clássico “Yeah Yeah”). O nome do álbum vem de um clássico da fase country de Bob Dylan, “Wallflower”, aqui com Blake Mills. Nem Bublé consegue destruir a surpresa das melancólicas interpretações de Diana Krall destes êxitos dos anos 70 e 80. CD Verve, distribuído por Universal.





PROVAR - Um dia destes deparei-me com uma especialidade que julgava extinta: uma garrafa de Carcavelos, um vinho fortificado que o Marquês de Pombal tornou famoso ao produzi-lo na sua quinta em Oeiras, no século XVIII, a partir das castas arinto, galego, dourado e ratinho. Este vinho fortificado, de 17,5º, é envelhecido em barricas de carvalho por um período de dez anos, apresenta uma cor amarela dourado e tem um sabor dominado por frutos secos, mel e especiarias. O vinho voltou a ser elaborado segundo uma técnica que remonta ao século XIV, por iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras, já que a quinta que foi do Marquês de Pombal é hoje património daquela autarquia. Vende-se em garrafas de 375 ml sob a marca Villa Oeiras e é um excelente remate de uma refeição. Carcavelos é uma denominação de origem controlada


Uma nota final, de outro assunto: já começou a época da lampreia, provei a primeira do ano, à bordalesa, e estava excelente. Foi no Apuradinho, Rua de Campolide 209-A. Vale a pena telefonar a indagar quando há - 213 880 501.





DIXIT - “Tudo o que o PS produziu de política nestes dois meses, foi peregrinações; peregrinações a Évora para ver o amigo preso e arengar cabalas contra a justiça” - Pedro Bidarra


 


GOSTO - Do momento visual da semana, quando Matteo Renzi ofereceu uma bela gravata italiana a Alexis Tsipras


 


NÃO GOSTO - A agricultura perdeu 74 mil postos de trabalho e o emprego no sector desceu para mínimos históricos.


 


BACK TO BASICS -  Os homens inteligentes falam porque têm alguma coisa a dizer, os idiotas porque querem sempre estar a falar - Platão

janeiro 30, 2015

SOBRE DEBATES; OPINIÕES E TELEVISÕES

COMENTÁRIOS - Que papel deve ter a televisão na participação cívica e na actividade política? Em Portugal a questão costuma resumir-se a alguma discussão sobre a forma dos debates pré-eleitorais e sobre a rotina das entrevistas a líderes políticos. Ao longo de um ano, especialmente de um ano não eleitoral, há poucos debates. O problema não é exclusivamente televisivo - apesar dos 40 anos da Assembleia da República há poucos debates, bastante retórica e maioritariamente chicana e propaganda partidária. Não há o hábito de discussão de ideias, mas sim de afirmação de posições - o que leva a que acordos sejam uma palavra rara. Normalmente nesta terra de brandos costumas não nasce a luz da discussão mas é frequente nascer a confusão da troca de galhardetes. Tirando isso, e regressando à televisão, ficam os comentários e os comentadores. Ora a esmagadora maioria dos comentadores são paus de bandeira com o estandarte hasteado, cada um a marcar o respectivo território O curioso é que a análise política e o comentário não partidário são bens escassíssimos nos media portugueses, em particular na televisão - e sobretudo, por mais paradoxal que isto possa parecer, nos canais de cabo dedicados à informação. O debate político em Portugal é tratado ao nível de concursos de talentos e de imitadores em que os concorrentes são ex ou actuais notáveis das vidainhas partidárias. É curto, mesmo que às vezes seja divertido. E, claro, ajuda a fazer carreiras - the show must go on.





SEMANADA - No domingo passado, o Syriza, da esquerda radical, ganhou as eleições gregas; na segunda feira o seu líder, Alex Tsipras, anunciou uma coligação com um partido de direita nacionalista; depois de optar por uma tomada de posse sem referências religiosas, ao contrário do que é hábito na Grécia, reuniu-se com o chefe da Igreja Ortodoxa grega; Tsipras, que tem criticado as sanções europeias à Rússia, recebeu uma calorosa saudação de Vladimir Putin pela vitória eleitoral, propondo aumentar a cooperação entre os dois países; o primeiro encontro de Tsipras com um diplomata estrangeiro, depois de vencer as eleições, foi com o embaixador Russo Andrey Maslov; o primeiro acto público oficial de Tsipras depois de ser empossado primeiro-ministro foi depositar flores num memorial a vitímas da ocupação nazi alemã na Grécia; Angela Merkel dirigiu uma mensagem de felicitação a Tsipras  dizendo desejar fortalecer a cooperação entre os dois países; em França Marine Le Pen congratulou-se com o resultado das eleições gregas, classificando-o como o início do julgamento da euro-austeridade; o primeiro ministro espanhol, Mariano Rajoy, participou na campanha do derrotado ex-primeiro ministro Samaras e um porta-voz do seu Partido Popular disse que não se podiam fazer comparações entre a Espanha e a Grécia; o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi disse que é bom ter um aliado como Tsipras em Bruxelas; Mário Soares manifestou “uma grande alegria” com a vitória “do amigo” Alex Tsipras, com quem esteve no ano passado, nas eleições europeias, num comício do Bloco de Esquerda realizado no norte do país; ao segundo dia como Primeiro Ministro Tsipras anunciou ir "reestruturar dívida", subir já o salário mínimo, travar privatizações e contratar funcionários públicos despedidos no tempo da troika; a bolsa grega caíu a pique e  os juros da dívida helénica dispararam; o primeiro Conselho de Ministros de Alex Tsipras foi transmitido em directo pela televisão.


 


ARCO DA VELHA - O negócio dos submarinos rendeu em comissões 27 milhões de euros que foram distribuídos por accionistas da ESCOM e do GES.


 


FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Monocle” é dedicada à hospitalidade, nas suas diversas formas, desde maneiras hospitaleiras de receber, seja em casa, num hotel ou num restaurante, até à forma como algumas embaixadas acolhem convidados. É uma edição muito curiosa, pontuada entre o bom gosto e as boas maneiras. Na secção de cultura há um destaque para o panorama das galerias e da arte em Nova Orleãs, mas também uma história deliciosa de mil árvores, plantadas no ano passado na floresta norueguesa, árvores que darão origem ao papel que será usado em 2114 para imprimir uma antologia de 100 autores que já está a ser preparada. Na area de Media um artigo pequeno, mas curioso, sobre o que está a acontecer na produção televisiva em França, em parte impulsionada pela chegada ao mercado local do Netflix. Regressando à hospitalidade, Lisboa merece duas referências, uma com o Hotel Valverde na Avenida da Liberdadee outra com o Café Lisboa e as suas receitas, criadas por José Avilez. Finalmente nesta edição aparece o anúncio da “Monocle Quality Of Life Conference”, que se realizará em Lisboa nos dias 17 e 18 de Abril, à volta da questão do desenvolvimento das cidades, da sua arquitectura, de como colocar o artesanato e o design no centro do desenvolvimento de actividades económicas. Para terminar, na nota final de Tyler Brulé fica a saber-se que a edição especial “The Forecast”, editada em Dezembro, terá igualmente uma edição no Verão, mais centrada na cultura e nos media.


 


VER - Até 17 de Fevereiro ainda pode ser vista, nos Paços do Concelho, em Lisboa,  a exposição de imagens de fotojornalismo da agência noticiosa espanhola EFE. A mostra pretende dar a conhecer a actividade fotográfica da agência desde que ela se iniciou, há 75 anos. A EFE tem mais de 13 milhões de imagens no arquivo, e destas, cerca de 2,5 milhões podem ser visitadas em  www.lafototeca.com. Diariamente a agência produz cerca de mil imagens em todo o mundo, mas predominantemente nas zonas de influência de Espanha, nomeadamente a América do Sul. Olhando para este trabalho de preservação da memória do fotojornalismo fico a pensar como seria oportuno fazer idêntico trabalho na portuguesa agência LUSA e nas suas antecessoras, Notícias de Portugal, ANOP, ANI e Lusitânia, a precursora, fundada em 1944, há 70 anos portanto. Um bom complemento desta expoosição da EFE, embora de natureza diversa, pode ser visto no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246), onde até 14 de Março pode ser visitada a exposição de postais ilustrados “Palavra Arquivada” (na imagem) , comissariada por Carla Cabanas, a partir de um conjunto de postais do início do século XX provenientes da sua coleção particular e da coleção de Eduardo Portugal.


 


OUVIR - David Virelles é um pianista cubano que se tornou num dos novos cartões de visita da prestigiada editora alemã de jazz ECM, infelizmente cada vez mais difícil de encontrar em Portugal. Neste seu disco de estreia para a ECM, “Mbókò”, Virelles é acompanhado por uma formação inusitada - dois baixistas, dois percussionistas (um deles também vocalista) e ele próprio no piano. Interpretam o que classificam de música sacra e ritual afro-cubana, com incursões de fusão frequentes em sonoridades contemporâneas. Os dois duplo-baixos, e as improvisções que desenham, são uma peça fundamental na construção da sonoridade, assim como as percussões, às quais é deixado um papel essencialmente de pontuação melódica. É difícil catalogar o disco, com raízes evidentes na world music, mas com pontes constantes ao jazz num trabalho de evidente exploração e inovação. O disco inclui dez temas do próprio Virelles e merece ser referido o papel de Thomas Morgan e Robert Hurst, ambos no duplo baixo, do baterista Marcus Gilmore e de Róman Diaz, um percussionista que toca biankoméko, um conjunto de percussões de quatro tambores, sinos e maracas. O meu exemplar de “Mbókò” veio da Amazon do Reino Unido.





PROVAR - Uma edição recente da revista norte-americana “Time” dedicava a sua capa inteirinha a elogiar os benefícios da manteiga e a contrariar a ideia de que ela poderia ser perigosa para o regime alimantar. Confesso que não resisto à boa manteiga, mas ela não é fácil de encontrar. Nos últimos anos tenho usado a “Nova Açores” mas há dias descobri uma nova marca do arquipélago, a “Manteiga Rainha do Pico” . Comprei-a na Garrafeira Néctar das Avenidas (Av Luis Bivar 40B, junto à esquina com a Duque de Ávila). Uma embalagem de 500 gramas custa 5,20 euros e garanto que uma torrada com esta manteiga faz toda a diferença. As minhas manhãs são outras desde que a descobri - ainda por cima com a consciência menos pesada graças à Time.  Este espaço, Garrafeira Néctar das Avenidas, que recomendo vivamente, tem uma bela escolha de vinhos, incluindo alguns de pequena produção com boa relação qualidade/preço e distingue-se por uma cuidada selecção de vinhos do Porto. A casa é propriedade de um açorriano, recebe semanalmente produtos do arquipélago, desde a manteiga e compotas como a de capucho a biscoitos de canela, passando por massa sovada e bolo lêvedo das Furnas. Este deve ser dos poucos sítios do Continente onde se pode comprar o maravilhoso vinho generoso Czar, originário da ilha do Pico, e que deve o seu nome ao facto de em tempos idos a produção ser quase integralmente comprada pela corte imperial russa.


 


DIXIT - “Fala ao telemóvel com tranquilidade? - Falo. Como se estivesse a falar para um gravador” - Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, em entrevista ao “Expresso”.


 


GOSTO - O número de falências baixou pela primeira vez desde 2010


 


NÃO GOSTO - Mais de um terço dos professores chumbaram na prova de avaliação e os erros básicos de português foram abundantes - apenas 34,7% dos avaliados não fizeram erros ortográficos.


 


BACK TO BASICS - O preço que os homens bons pagam pela sua indiferença face à coisa pública é virem a ser governados por homens sem valor - Platão


 

janeiro 23, 2015

QUEM NASCEU EM 1997 PODE VOTAR ESTE ANO: E AGORA?

 


DÚVIDAS - Nas eleições legislativas que vão realizar-se por volta do início de Outubro poderão votar, pela primeira vez, eleitores que nasceram em 1997. Será que vão exercer o seu direito de voto? Será que se sentem motivados pela acção dos partidos e pelo funcionamento do sistema político? Será que acham que o voto tem alguma influência para mudar o estado de coisas? As perguntas não são retóricas - corre-se o risco de a abstenção aumentar ainda mais, o que quer dizer que um dia destes alguém pode perguntar se esta democracia ainda é representativa. As eleições deste ano iniciam um novo ciclo eleitoral que, depois das legislativas, terá continuidade com as presidenciais e as autárquicas. São três momentos de significado diverso mas que poderão servir para aferir se o comportamento do eleitorado português continua a enquadrar-se na tipificação que existiu durante as últimas quatro décadas, ou se alguma coisa mudou: teremos ainda as mesmas maiorias socio-políticas, ou não? Os novos eleitores terminaram o ensino primário já neste século e tratam a internet por tu. Vêem menos televisão. Lêem menos jornais. Ganham informação e estabelecem opinião de outra maneira - sabem qual é? O sistema está preparado para isto? Que fez para mobilizar a participação cívica de quem agora está a entrar na idade adulta? Vamos deixar o futuro político do país em quem nele vai viver nas próximas décadas, ou em quem nele tem vivido nas anteriores?ΩΩΩ


 


SEMANADA - Em 2014 a venda de automóveis na União Europeia cresceu 5,7% mas em Portugal o crescimento foi de 34,8%; as exportações da Auto Europa subiram 12% no ano passado graças à China; entre 2011 e 2014 os salários caíram 11% no sector privado e quase o dobro no Estado; o valor da marca Cristiano Ronaldo subiu 11 milhões de euros em 2014 e mais que duplicou desde 2011, atingindo actualmente um valor potencial de 54 milhões de euros;


2014 foi o melhor ano da história do turismo em Portugal, com os hotéis a facturarem mais de 2 mil milhões de euros graças a 15 milhões de hóspedes, o que significa um maior número de dormidas que na vizinha Espanha; mais de 30% dos jovens portugueses não acabam o ensino secundário; Portugal registou em 2014 o mais baixo índice de mortalidade infantil de sempre; 33% dos partos realizados em Portugal são cesarianas; nos hospitais privados a taxa de cesarianas é de 67% contra os 28% registados no Serviço Nacional de Saúde; António Costa disse que o país precisa de regionalização; Rui Rio disse que a regionalização era o abanão de que o país necessita; o fisco cobrou em 2014 cerca de 900 milhões de euros em impostos acima das previsões; uma empresa de Viana do Castelo está a ser alvo de vários processos de penhora no montante de cerca de 35 mil euros referentes a portagens não pagas de uma viatura que vendeu em 2010; um terço das 24 freguesias de Lisboa não cumpre o Código dos Contratos Públicos.


 


ARCO DA VELHA - Na segunda-feira Mário Soares disse que Cavaco Silva era salazarista, na quarta-feira afirmou que Sócrates era um preso político.


 


FOLHEAR - A revista “Wallpaper” de Fevereiro é a edição especial relativa aos prémios de Design que a revista atribui anualmente e que vão da joalharia à iluminação, passando pela roupa, a arquitectura ou utensílios domésticos, como um serviço de café por exemplo. Há exemplos de peças deliciosas, como uma mesa de sala de reuniões desenhada por Jasper Morrison, uma casa pré-fabricada em aço galvanisado da Vipp’s ou uns simples uns óculos da Lindberg. O melhor rebranding foi para a Lowe, a melhor apresentação de uma refeição foi para “La Bonne Table” de Tóquio, a melhor cozinha foi para a Boffi, o melhor sofá para a Cassina e o melhor armário de roupa para a Ceccotti Collezioni. Na moda o título de melhor criação para mulher foi para a colecção de Outono-Inverno 14 da Dior, desenhada por Raf Simons, e a melhor criação de roupa de homem foi para a colecção Outono-Inverno 14 da Saint Laurent, desenhada por Heidi Slimane.Tóquio foi considerada a melhor cidade e o título do melhor novo restaurante foi para Carlo e Camilla, em Milão. O sempre disputado prémio de melhor novo hotel foi para o American Trade Hotel na Cidade do Panamá. O melhor projecto de arquitectura para uma residência particular foi para a Vault House, em Oxnard, na California, projectada por Johnston Marklee. A presença portuguesa está numa página de publicidade dos papéis higiénicos coloridos da Renova.


 


VER - Hoje quero chamar a atenção para duas exposições que abrem proximamente. A primeira vai ser uma curtíssima oportunidade de rever o trabalho que a fotógrafa portuguesa Pauliana Valente Pimentel fez na Grécia, inicialmente exposto em Lisboa em 2013. Sob o título “Jovens de Atenas”, a que pertence a imagem que ilustra esta nota, a fotógrafa documenta o sentimento vivido em Atenas em 2012, no auge da crise económica e política do país. A propósito das eleições gregas que decorrem neste fim de semana, a Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12-16) faz a reposição desta exposição, durante três dias, deste Domingo até dia 28. E no Domingo, entre as 18 e as 21, a autora estará disponível para um debate com convidados sobre esta sua obra. A outra exposição inaugura para a semana na galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71). Trata-se da colectiva “Paperworks II - Para Além do Desenho”, que inclui obras de Alexandre Conefrey, Antje Weber, Ernesto de Sousa, Juliane Solmsdorf e Pedro Calapez. A partir do próximo dia 29.  


 


OUVIR - Fred Hersch é um dos grandes pianistas de jazz norte-americanos e podia dizer-se que ele é um mestre que não vai em modas. Normalmente o seu trabalho é baseado num trio que, como aqui acontece, além dele próprio inclui o baixista John Hébert e o baterista EricMcPherson. “Floating” é a sua gravação mais recente e tem sete temas originais do próprio Hersch, dois standards (“You & The Night & The Music” e “If Ever I Would Leave You”) e ainda um tema de Thelonius Monk, “Let’s Cool One”. Hersch gosta de baladas e não tem nenhum problema em utilizá-las como matéria prima para o seu trabalho, como se percebe enquanto se vai ouvindo este disco. O tema de abertura, “You & The Night & The Music” é um exemplo do seu virtuosismo, com a mão esquerda a rasgar para além da melodia traçada pela mão direita. Destaque também para o tema-título “Floating” que é uma deliciosa balada, e para um tema dedicado a Esperanza Spalding, “Arcata” onde John Hébert demonstra no seu baixo como a simplicidade pode ser a base da criatividade. O disco termina com o clássico “If  Ever I Would Leave You” e com o tema de Monk, “Let’s Cool One”, ambos demonstrações perfeitas do que pode ser o entendimento entre três músicos que vivem e sentem a mesma música. CD Palmetto, na Amazon.


 


PROVAR - Em matéria de doces, quando é para pecar, que se peque a sério. Um dos pretextos ideias que conheço para este género de pecados é a produção da Fábrica de Rebuçados de Ovo de Portalegre. Estes rebuçados de ovos são característicos desta região e baseiam-se numa receita conventual. Hoje em dia continuam a ser  feitos à mão e embrulhados em papel de seda. Vendem-se em latas com 12 unidades e são deliciosos a acompanhar um bom café arábica da Pérola de Chaimite, na Duque de Ávila, onde por acaso também são vendidos estes tentadores rebuçados. A lata onde vêm é só por si um belo objecto que apetece guardar - mas o seu sabor e consistência são iguais aos rebuçados de ovos de que me lembro na infância, quando o meu pai os comprava em Nisa, na única senhora que os produzia e que tinha uma receita que não partilhava com ninguém. Hoje em dia são um dos produtos da empresa “Sabores de Santa Clara”, sediada em Portalegre, e que produz também bolachas artesanais, licores a partir de plantas naturais, um xarope de groselha e nozes e amêndoas tostadas no forno e levemente adoçadas posteriormente. Os produtos da casa são uma tentação. Consultem os sites www.rebucado.com e ou www.saboressantaclara.com. Estes produtos também estão à venda no Mercado da Ribeira.


 


DIXIT - “Quanto mais o líder do PS fizer papel de morto, mais hipóteses tem de ganhar as eleições” - Mira Amaral


 


GOSTO - O músico e fotógrafo português Rodrigo Amado foi incluído entre os cinco melhores saxofonista tenor por um grupo de 46 críticos de jazz de todo o mundo.


 


NÃO GOSTO - Da confusão instalada nos serviços de urgência dos hospitais.


 


BACK TO BASICS - Quando os políticos se queixam de que a televisão transforma o mundo num circo, esquecem-se que o circo já lá estava e que a TV apenas evidenciou que nem todos os artistas estão suficientemente ensaiados - Edward R. Murrow


 

janeiro 16, 2015

Uma novela de rótulos com a ASAE, uma boa série mal exibida, o retrato de um dia das nossas vidas na internet

ASAE - Esta semana soube de uma história extraordinária. Numa das zonas próximas de Lisboa que ainda têm uns restos de agricultura uma mulher empreendedora decidiu criar o seu  posto de trabalho num negócio próprio, baseada no seu talento culinário. Com recurso a produtos naturais da região criou uma marca, com várias variedades, montou uma cozinha regulamentar e meteu mãos à obra. Pagou impostos e taxas, fez comunicação e publicidade, foi a feiras e certames e ganhou prémios de qualidade. Nas lojas da região os seus produtos ganharam fama e começaram a ser procurados. Geraram receitas para o Estado, animaram, à sua pequena proporção, a economia local. Não recebeu subsídios, arriscou, trabalhou, divulgou, vendeu. Um dia destes entrou-lhe pela casa o Estado, vestido de ASAE e o que encontraram para tolher as pernas à iniciativa foi uma menção num rótulo. O rótulo dos produtos tinha escrito “Best before” e, depois, a data da validade. Pois os nossos queridos agentes da ASAE mandaram suspender imediatamente todas as vendas, recolher todos os produtos e substituir “Best Before” por “Consumir antes de”. O resultado disto é que desde há quase um mês que não se prepara novo produto nem se fazem vendas e se está apenas a substituir etiquetas, causando evidentes prejuízos. Os senhores da ASAE talvez pudessem ter dito alguma coisa do género “isto não é regulamentar, tem de corrigir, tem x meses (o que fosse razoável) para mudar”. Mas não - tem de mudar já. Não sei se já ocorreu às almas da ASAE, que são pagas pelos contribuintes,  que cada vez que tomam uma medida que pode lesar actividades económicas estão a desrespeitar quem lhes paga. Uma coisa é velar pela Lei, outra é ser cego e não olhar a meios. Assim a ASAE não ajuda nem o país nem os contribuintes. Muito menos a economia. O Estado no seu melhor.


 


SEMANADA - A investigação do caso Sócrates encontrou um milhão de euros, em dinheiro vivo, num cofre do Barclays, pertencente ao amigo Carlos Santos Silva; António Costa estabeleceu que carros anteriores a 2000 estão proibidos de circular no centro de Lisboa; no caso BES uma coisa é certa: havia uma extraordinária obediência, todos se limitavam a cumprir ordens e ninguém sabia de nada; a Parque Escolar tem dívidas a fornecedores no valor de 1,14 mil milhões de euros; há uma escola básica, no Parque das Nações, que está por concluir há quatro anos; em menos de quatro meses houve mais de 700 denúncias de maus tratos a animais; Marco António Costa, porta voz do PSD, elogiou Santana Lopes por admitir avançar por sua própria iniciativa para as eleições presidenciais; Marques Mendes diz que Rui Rio está inclinado a avançar com uma candidatura presidencial; Vitor Bento voltou a ser nomeado por Cavaco Silva para o Conselho de Estado; um juiz de Braga anulou uma multa de 62,10 euros relativa a uma portagem que era originalmente de 5,75 euros; no final de 2013 o fisco tinha mais de 5,9 mil milhões de euros que não podia cobrar aos devedores; a dívida total de médio e longo prazo que Portugal tem de amortizar durante a próxima legislatura deve chegar a 62 mil milhões de euros, ou seja mais de 35% do PIB só para os credores em quatro  anos; em 2013, 75% dos técnicos de ambulância tinham sintomas depressivos; Alberto João Jardim deixou a presidência do Governo Regional da Madeira ao fim de 37 anos de poder; a GNR já detectou nos últimos meses 33 toneladas de azeitona roubada no Alentejo.


 


ARCO DA VELHA - Há três distritos, Bragança, Setúbal e Évora, com 40% de desistências e chumbos escolares no 12º ano.


 


LER - Devo começar por fazer uma declaração de interesse - sou diretor-geral da Nova Expressão, a Agência de Meios que esta semana tornou público um estudo de hábitos digitais dos portugueses, “Um Dia Das Nossas Vidas Na Internet”. Promovido pela agência e executado pela Marktest, o relatório integral foi disponibilizado no site da Nova Expressão e na sua página do Facebook. O estudo revela e quantifica as grandes mudanças ocorridas nos últimos anos. Muito resumidamente: o chamado horário nobre da televisão, entre as 20 e as 24, coincide com o período do dia em que há maior número de acessos na internet - maioritariamente em computadores portáteis e em dispositivos móveis como tablets e smartphones; 58% dos inquiridos de uma amostra representativa dos cibernautas portugueses com mais de 15 anos admite que ao ver televisão em casa, num televisor, costuma navegar em simultâneo na Internet; a hora das refeições coincide com o período em que são mais utilizados dispositivos móveis; os portugueses já passam mais tempo a navegar na internet que a ver televisão, verifica-se um aumento da idade média dos utilizadores e regista-se um crescimento significativo do comércio electrónico; finalmente os conteúdos mais procurados são redes sociais (com o Facebook à frente), o visionamento de videos (claramente liderado pelo YouTube), ou a partilha de fotografias no Instagram. Finalmente o estudo conclui que a utilização da internet em Portugal é já um hábito comportamental consolidado e absoluto, que a transferência dos suportes de media convencionais para o acesso na internet é elevado e crescente e sublinha que a capacidade multi-task dos internautas portugueses é grande. Definitivamente o nosso mundo comunicacional já mudou, talvez mais do que aquilo que muita gente pensava.


 


VER - A RTP 2 está a emitir desde o início da semana passada uma exemplar série produzida pelo operador público de televisão Dinamarquês, “Borgen”, que revela os bastidores da política , a formação de um governo de coligação e as negociações permanentes que existem para conseguir manter o poder. A série tem sido um sucesso em todo o mundo e cerca de três dezenas de países já a exibiram, antes de a RTP2 a ter começado a programar - mas nem um desses países a tratou da forma que a RTP está a tratar - episódios seguidos de segunda a sexta, desrespeitando o formato original de exibição de um episódio por semana, que caracteriza a narrativa e a produção original. Tratar uma série destas, premiada internacionalmente, como se fosse uma telenovela é uma amostra do muito que há para mudar no comportamento do serviço público em Portugal. “Borgen”, cujos direitos de adaptação foram negociados pela BBC e pela HBO norte-americana, é o exemplo do que pode e deve ser a produção audiovisual num serviço público. A Dinamarca tem 5,5 milhões de habitantes, o seu idioma tem uma reduzido alcance mundial, mas produções como esta fizeram com que nos últimos anos o audiovisual dos países nórdicos desse um enorme salto qualitativo. O formato original tem três séries, de dez episódios cada uma: a RTP 2 está a consumir cinco episódios por semana, fez uma fraca promoção da série e em termos de audiência cerca de um terço dos espectadores dos programas de informação que antecedem a exibição de “Borgen” desaparece do ecrã quando a série começa. Na Dinamarca o operador público fez conjugar a exibição em televisão de um programa na rádio pública, que acompanhou o lançamento e a exibição, desenvolvendo um spin off  com uma narrativa paralela. Não resisto a contar que a Copenhagen Business School fez um inquérito junto de espectadores regulares de “Borgen”, inquirindo-os sobre o seu posicionamento político -  a maioria respondeu que a série não lhes tinha feito modificar as opções partidárias pessoais, e uma também clara maioria dos inquiridos declarou que tinha começado a seguir a actualidade política dinamarquesa com maior atenção desde que a série começou. Por mim um dos momentos favoritos, logo num dos primeiros episódios, é quando a recém empossada primeiro-ministra nomeia para assessor de comunicação um eminente académico, especialista em retórica, que se espalha ao comprido na primeira crise política que enfrenta e que diz tamanhas barbaridades numa entrevista à televisão que é de imediato dispensado.  Geografias diferentes, histórias paralelas.


 


PROVAR - Nos últimos anos o vinho Moscatel de Setubal, nas suas várias variantes, tem obtido um reconhecimento merecido. A sua utilização na doçaria da região é tradição antiga - desde uma mousse com ele temperada (que com sorte se apanha no restaurante Retiro do Gama, em Cabanas, Quinta do Anjo), até ao belíssimo Pastel de Moscatel, fabricado pela confeitaria S. Julião, de Palmela e que pode ser encontrado nalgumas lojas e restaurantes da região - uma delas a casa agrícola Horácio Simões, que produz um premiado Moscatel Roxo e que fica situada precisamente na Quinta do Anjo. Prove o doce em conjunto com este vinho e terá uma grata surpresa. O pastel tem a configuração de uma queijada, é elaborado com amendoa, ovos, açucar e moscatel e recebeu já vários prémios em certames. O responsável pela confeitaria S. Julião é Nuno Gil, de 42 anos, que se dedica ao estudo dos doces tradicionais da região e é presidente da direcção da Confraria Gastronómica de Palmela. Além dos Pastéis de Moscatel faz outros doces regionais, como o histórico Dom Filipe e fogaças. A Confeitaria S. Julião pode ser contactada pelo telefone 919 927 457 ou na página do Facebook.


 


DIXIT - “Os políticos não gostam, de modo nenhum, de análises de custo/benefício independentes e competentes” - Miguel Cadilhe.


 


GOSTO - A Livraria Lello, do Porto, foi classificada em primeiro lugar na lista das livrarias mais “cool” do mundo pela revista Time.


 


NÃO GOSTO - Das posições da deputada europeia Ana Gomes, do PS, que defende os  argumentos usados pelos terroristas islâmicos no caso do jornal Charlie Hebdo .



BACK TO BASICS - Todas as decisões devem ser avaliadas em função dos resultados obtidos e não das intenções que as inspiraram - Cícero

janeiro 03, 2015

NEBULOSO 2014 E SUGESTÕES PARA BONS MOMENTOS EM 2015

NEBULOSA - Quanto mais se avança no caso BES mais dúvidas surgem sobre os dias que levaram à intervenção do Banco de Portugal e mais se pensa se essa mesma intervenção não terá sido feita de uma forma pouco pensada, se as consequências de tudo terão sido bem medidas. Não é só o caso da Goldmnan Sachs, é também a situação dos pequenos accionistas e de depositantes que foram levados a determinados produtos. As novelas jurídicas que se desenham em torno da venda de activos e de património e o resto que, palpita-me, ainda há surgir vão fazer correr muita tinta. E já nem falo da polémica mudança de nome e de imagem em nome da anulação de uma marca e de uma história -  cabe perguntar se a destruição da marca não significou ela própria uma destruição de valor para uma venda futura; tenho as minhas dúvidas que tenha sido a melhor decisão. Este ano que está a findar foi fértil no desmantelar de ilusões e na destruição de valor - na Banca, mas também na PT e em outras grandes empresas nacionais que sendo vítimas do Estado, de corporações ou de vendas mal apressadas e mal pensadas acabaram por colocar a economia portuguesa mais fragilizada. O tempo, como sempre, será o melhor juiz do que este ano se passou.


 


SEMANADA - O Ministério da Saúde perdeu mais de seis mil trabalhadores desde 2009; um quinto do total dos médicos do Serviço Nacional de Saúde tinha no final do ano passado entre 55 e 59 anos; o Hospital Amadora Sintra ficou sem capacidade para receber mais doentes na época do Natal; em 2013 o sector do comércio perdeu 21 mil trabalhadores e quatro mil empresas face a 2012, mas conseguiu que o volume de negócios se mantivesse igual; 689 empresas foram declaradas insolventes em Novembro, 10% abaixo do número registado no mesmo mês de 2013; Portugal tem que importar bacalhau, peru e cabrito no período do Natal para fazer face à procura; Portugal ocupa a 7ª posição na lista dos países em que o preço dos combustíveis tem maior carga fiscal , 63% - à frente da França, Irlanda e Espanha; a secretária do estado do Tesouro, em pessoa, reuniu-se com quatro bancos para saber se estariam disponíveis para financiar a TAP; Luis Todo Bom, um dos obreiros da construção da Portugal Telecom, escreveu um artigo de opinião no Expresso onde afirma que “os brasileiros já destruíram a Cimpor, agora será a PT e, no futuro, a TAP”; as receitas do Turismo cresceram 12,3% de Janeiro a Outubro, num total de 9 mil milhões de euros; o número de pensões de velhice atribuídas em 2014 foi 17% superior ao das concedidas em 2013; foi publicada uma portaria que estabelece que em 2016 a idade da reforma sobe para 66 anos e dois meses; 88% das acções pendentes em Tribunal são de cobrança de dívidas; o presidente do Sporting diz que “é absurdo e injusto” dizer que o clube está em crise e afirma que a origem dos problemas está na comunicação social.


 


ARCO DA VELHA - A Câmara de Grândola vai esterilizar dezenas de gatos vadios na península de Tróia, para manter o número de animais controlado e reduzir as pragas de pulgas e carraças no verão.


 


FOLHEAR - Este Natal tive uma magnífica prenda - o “The Photography Book”  - publicado inicialmente pela Phaidon em 1997, e que teve este ano uma segunda edição revista e aumentada - que foi a que recebi. O livro apresenta fotografias marcantes de mais de meio milhar de fotógrafos, de todo o mundo e de diversas épocas e estilos, publicadas por ordem alfabética, com a indicação de detalhes cronológicos do autor e da imagem seleccionada, e ainda com a indicação de outros fotógrafos com trabalhos semelhantes ou que praticam o. mesmo género de fotografia. Já agora, a única presença portuguesa é de uma imagem de Helena Almeida. Os editores da obra são Tim Cooke e Caroline Kinneberg, que nas 576 páginas do livro incluíram também um glossário de termos e técnicas fotográficas e um outro glossário de movimentos artísticos, grupos e géneros ligados à fotografia. Finalmente existe ainda um indíce de galerias e museus que tenham um foco particular em fotografia. A selecção de imagens leva-nos a uma viagem através de momentos familiares e outros invulgares ao longo do tempo, mostrando o trabalho de fotógrafos famosos, mas também de desconhecidos e de outros que são ou foram especialmente inovadores. “The Photography Book” é um livro de consulta permanente para quem se interessa pela fotografia e pode ser adquirido na loja on line da Phaidon ou na Amazon.


 


VER - Um dia destes, a espreitar o site do MoMA, descobri a área de publicações digitais e, em especial, fiquei com curiosidade em ver “Picasso: The Making of Cubism 1912-1914”. O Museum Of Modern Art de Nova Iorque orgulha-se de estar a par dos tempos e a sua área de publicações digitais é uma referência. Neste caso o trabalho sobre as origens do Cubismo pode ser adquirido, por download, nas versões de ebook, PDF interactivo ou uma App para iPad - que foi a que adquiri e que é absolutamente exemplar. Custa 24 dólares e permite fazer uma viagem pelo processo criativo que levou Picasso a uma das fases mais empolgantes da sua obra. Mas o MoMA tem também aplicações gratuitas, como a MoMA Books, que permite ver amostras de uma boa parte das edições feitas pelo Museu, algumas delas já esgotadas na versão impressa, folheá-las e decidir se quer ou não comprar o acesso à edição integral. Estava eu nestas cusquices digitais quando me ocorreu como tem sido feito tão pouco desta natureza nos nossos museus. Não é por falta de material - ele existe, desde os Painéis de São Vicente, até catálogos já difícieis de encontrar como “O Triunfo do Barroco”, do tempo da Europália. Esta questão volta a colocar o problema da manutenção da presença cultural portuguesa no mundo digital - não basta defender a língua, é fundamental assegurar que ela exista no unverso audiovisual, multimedia e digital que é hoje a base da descoberta e do conhecimento em todo o mundo. O meu desejo para 2015 é que possamos ver, nos novos meios e suportes digitais, o que de melhor existe nos nossos museus e na nossa cultura.


 


OUVIR - O que é que Bryan Ferry e Neil Young têm em comum? Musicalmente pouco, a não ser os respectivos talentos - mas são da mesma idade , 69 anos, e ambos fizeram discos curiosos este ano. De “Storytone”, de Neil Young, falámos há poucas semanas, do novo de Bryan Ferry, “Avonmore”, falo hoje, já que anda no carro há uns dias largos, dando muito boa conta do recado. É impressionante como a voz de Ferry continua marcante - embora se faça sentir o passar dos anos. No entanto o seu estilo continua, entre o sofisticado e o cool, sem recursos a manobras electrónicas sobre as cordas vocais - ou seja, ele continua mesmo a cantar. “Avonmore” é uma surpresa - retoma um lado quase rock, nas guitarras - que se faz sentir logo na faixa de entrada, “Loop De Li” que apresenta nada menos que seis guitarristas, entre os quais Nile Rodgers, Johnny Marr e Neil Hubbard (que colaborou em Avalon, dos Roxy Music). É aliás curioso que Avonmore retome, a começar pelo título, alguma da atmosfera de Avalon, que é modernizada em “Johnny & Mary”, um original de Robert Palmer, onde Ferry, a encerrar o disco, faz parelha com o DJ e produtor norueguês Todd Terje. No álbum há oito temas originais e duas versões ( a outra é "Send in the Clowns" de Stephen Sondheim) e o co-produtor do disco é Rhett Davies, que colabora com Ferry dessde os últimos anos dos Roxy Music. Ferry leva cinco décadas de carreira musical, mantém-se fiel à pop elegante com arranjos sofisticados e além dos nomes já referidos chamou para o seu lado músicos como Mark Knopfler e Ronnie Spector, entre outros. (CD na Amazon).


 


PROVAR - O restaurante Bem Haja nasceu e ganhou fama em Nelas. O local era um antigo lagar de vinhos e a proposta era dedicação total à cozinha portuguesa, tendo em conta a inspiração regional da zona da Serra da Estrela, assim como, na garrafeira, as possibilidades dos vinhos do Dão. Passados uns anos do começo desta história, há cerca de dois meses, o Bem Haja abriu em Lisboa, comandado por Isabel Raposo, que criou o conceito original e que hoje se divide entre os seus dois restaurantes com o. mesmo nome. Em Lisboa fica na Rua de Campolide, a meio de quem desce, no nº 165. As propostas da lista têm a cozinha portuguesa como matriz e alguns dos pratos da casa original, como o cabrito assado no forno ou o entrecosto com arroz de carqueja têm aqui lugar garantido. Devo no entanto confessar que a minha preferência vai para uns filetes de polvo absolutamente deliciosos, muito bem preparados, acompanhados por umas migas que estavam mesmo boas. Na ideia, para experiência futura, ficou uma posta de vitela com arroz de cogumelos que, na mesa ao lado, me despertou a atenção. As entradas e as sobremesas funcionam em regime de buffet e ambas têm mérito. A garrafeira tem boas propostas a preços decentes, e sugiro que peçam recomendações da região do Dão. À noite vale a pena fazer reserva. Telefone 213870039.


 


DIXIT - “O sistema judicial vive em autogestão. Tem que se rever o actual modo, em que as decisões estão apenas nas mãos dos senhores juízes e senhores magistrados” - António Barreto


 


GOSTO - De organizações como a Refood, que, com base no trabalho de voluntários, recupera e distribui a quem deles necessita alimentos prontos e não consumidos em restaurantes e pastelarias.


 


NÃO GOSTO - Da contradição cada vez maior que existe entre formação e trabalho - estamos a formar pessoas que não encontram colocação em Portugal nas suas áreas e cujo único destino é a emigração.


 


BACK TO BASICS - Por melhor que a estratégia pareça ser, é sensato olhar de vez em quando para os resultados que ela está a produzir - Winston Churchill

dezembro 26, 2014

RTP: CONCORRENCIAL OU COMPLEMENTAR?

Muita da polémica à volta da RTP e do conceito de serviço público tem a ver com o debate sobre duas palavras que moldam o conceito de estação – concorrencial e complementar. O enquadramento legal existente, por mais estranho que pareça, aponta à RTP o dever de ser concorrencial em relação aos outros canais generalistas, SIC e TVI. Tenho para mim que este facto é uma das portas abertas para toda a situação que se vive. A Direcção de Programas e a Direcção de Informação da televisão pública têm assim a obrigação de desenvolver estratégias de programação e de informação concorrenciais e a Administração tem o dever de as apoiar nessas estratégias. É aliás isso que levou a que se comprassem os direitos da Champions League, e é isso que justifica boa parte dos programas e do conceito de telejornais existentes. Mas, se em vez de “concorrencial” a palavra fosse “complementar”, aí deixava de haver razão para ter os mesmos formatos e lógica dos outros canais e, provavelmente, a estratégia traçada seria diferente. Esta não é uma discussão bizantina – é a discussão de fundo. A RTP não pode ser concorrencial com menos orçamento de grelha, com menos tempo de publicidade por hora, com menos receitas. E, além disso, se fôr concorrencial, está a fazê-lo com dinheiros públicos, da contribuição audiovisual, o que seria desleal em relação aos canais privados que obviamente não recebem ajudas oficiais. Mais lógico era que se clarificasse de vez se queremos um serviço público concorrencial ou complementar em relação às estações privadas. O ideal era que o EStado, que é accionista e gere os nossos dinheiros, assumisse a responsabilidade em vez de se encostar a um Conselho Geral Independente que em matéria de audiovisual é um vácuo de ideias. 


(esta nova versão foi revista e actualizada depois de ter sido publicada na edição de 26 de Dezembro da revista de televisão do Correio da Manhã)

SOBRE O EFEITO DA DISTRAÇÃO NA CONDUÇÃO DAS NEGOCIATAS

DISTRAÍDOS -Nos últimos tempos, em diversas ocasiões, em diversas circustâncias, tornou-se habitual ouvir responsáveis de empresas, bancos e até de organismos oficiais dizerem que não sabiam o que se passava nas estruturas que dirigiam, que não tinham conhecimento de decisões onde eram supostos terem participado. Aparentemente, apesar de estarem em postos de direcção, não detectaram o mais leve indício de que alguma coisa de menos bom se passava. É como se estivessem em lugares de responsabilidade sem, de facto, terem nenhuma responsabilidade. Como um amigo meu dizia este fim de semana, a questão é que durante anos todas estas pessoas ganharam salários aparentemente sem nada terem feito daquilo que fazia parte das suas funções enquanto responsáveis e dirigentes. Continuo a citar o meu amigo, recomendando que o melhor seria que todas estas pessoas devolvessem ops salários e prémios que ganharam, já que nada fizeram daquilo que deviam, já que confessam nada saber daquilo que se passava à sua volta. Ou, mais prosaicamente “se não sabia, se não acompanhou, devolva todos os salrários que ganhou para saber e acompanhar”.


 


SEMANADA -  No primeiro mês de detenção José Sócrates recebeu mais de duas dezenas de visitas de dirigentes e quadros do PS; o Público on line fez um título fantástico: “João Soares foi visto em Évora” ; mais de metade das receitas de empresas ligadas a Santos Silva vieram de câmaras PS e da Parque Escolar; João Perna, o motorista, confirmou ter feito viagens a Paris e disse que Carlos Santos Silva lhe entregava dinheiro para o fundo de maneio do ex Primeiro Ministro;  motorista de Sócrates passa a prisão domiciliária; segundo o “Expresso” Sócrates admitiu não saber quanto recebeu de Santos Silva; Portugal perdeu 146 mil habitantes desde o início da década; a TAP pediu um empréstimo de 250 milhões para fazer face à crise de tesouraria que atravessa; a Força Aéreia lançou o primeiro curso de pilotos de drones; as famílias portuguesas gastam uma média de 271 euros em prendas de Natal, mais do que os espanhóis, os gregos e os russos; Marques Mendes e José Maria Ricciardi são ambos administradores de uma imobiliária ligada ao BES.





ARCO DA VELHA -  Luis Filipe Menezes invocou a sua qualidade de Conselheiro de Estado do Presidente da República para classificar de devassa da sua vida privada a investigação da Judiciária aos seus sinais exteriores de riqueza.


 


FOLHEAR - Já pensaram numa aventura meio passada no futuro, entre uma Londres desolada e uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, onde nada é como agora pensamos ou esperamos que seja? A história, passada entre épocas, num labirinto de personagens e enigmas, gira em torno de viagens no tempo, armas, drogas e terrorismo. O livro, agora editado, “The Peripheral”, é a 11ª obra de William Gibson, que se tornou conhecido há 30 anos, em 1984, com “Neuromante” - o livro que mudou a ficção científica e abriu novos caminhos à imaginação, ajudando a definir a cultura da época. “The Peripheral” é um bilhete para uma viagem ao futuro, num mundo caótico, de valores invertidos e mistérios. São 480 páginas que nos projectam noutra dimensão. Como dia o Guardian, qualquer dos 11 livros de William Gibson estão entre as melhores e mais singulares novelas escritas em inglês. (à venda na Amazon)


 


VER - Temos a infeliz mania de dizer que por aqui não se passa nada. Mas é mentira. Passam-se imensas coisas boas em Portugal. Quando nos aplicamos sabemos fazer na indústria, na agricultura e nos serviços. E sabemos também juntar vontades para mostrar a nossa História. Uma visita ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota é uma belíssima surpresa. Faz-nos pensar que Portugal já teve estratégia, assente na ideia da independência e da  expansão. Que No século XV e XVI soubemos marcar fronteiras e ir além delas. Soubemos analisar os inimigos, ver quais eram os seus pontos fracos e utilizar os nossos pontos fortes.  Essa é a grande lição de Nuno Álvares Pereira, que a Fundação Batalha de Aljubarrota tão bem conta, sem nacionalismos serôdios, mas com orgulho e rigôr. A minha sugestão é que planeiem uma visita à Fundação, que passeiem no campo de batalha e vejam as indicações que lá estão, que se sentem a assistir ao espectáculo multimedia que recria a batalha. Este não é um museu morto, é uma obra bem viva. A partir do antigo museu militar que ali existia foi desenvolvida uma nova área, tecnologicamente evoluída e exemplar nos conteúdos que proporciona. Ao olhar para a obra da Fundação fico a pensar que ela merece ser mais conhecida e divulgada. Fica a uma hora e um quarto de Lisboa e permite-nos, a todos, compreender melhor o país que é o nosso. www.fundacao-aljubarrota.pt.


 


OUVIR - Se eu tivesse que escolher um disco de Natal, daquelas colectâneas que se fazem sempre nesta época, escolhia “Round Nina - A tribute to Nina Simone”. São dez das grandes canções que Nina Simone cantou, interpretadas por nomes contemporâneos, que vão de Gregory Portes e Melody Gardot a Liannne La Havass com passagem obrigatória em Camille, que faz uma excelente versão de “My Baby Just Cares For Me”. Outras hipóeteses de prendas natalícias discográficas:  se o lado clássico fôr o objectivo sugiro a belíssima nova edição da Decca para a Ópera Turandot, de Puccini, um registo de uma versão histórica, com as participações de Joan Sutherland, Luciano Pavarotti, Montserrat Caballé e Tom Krause, nume gravação do início dos anos 70 dirigida por Zubin Mehta. Se o saudosismo imperar então vale a pena redescobrir “Crime Of The Century”, dos Supertramp, que eu costume dizer que são a banda com o nome mais autocrítico da história da música popular. Finalmente, ainda nas memórias, destaco o disco que assinala os 20 anos de o álbum “Viagens”, de Pedro Abrunhosa. Se gostam de bandas sonoras, a do mais recnete “Hobbit” , “The Battle of The Five Armies” , foi composta por Howard Shore e vale a pena ser bem ouvida. E finalmente, aquele que para mim é o melhor disco prenda deste Natal, “Amália no Chiado”, que foi agora editado (e já aqui mencionado há duas semanas) e que inclui inéditos e raridades gravadas no estúdio que existia na antiga loja Valentim de Carvalho no Chiado, em 1951, tinha Amália 31 anos nessa altura. Imperdível.


 


PROVAR - Como imagino que se esteja em fase de dietas sugiro que se aproveitem estes dias entre o Natal e o Ano Novo para rumarem a Portalegre, ao restaurante Tomba Lobos. Na mesa há pão como deve ser, azeitonas das boas. Só as entradas são uma perdição: da tiborna aos peixinhos da horta, passando pelos queijinhos assados e umas inesperadas e deliciosas pétalas de toucinho. Se gosta de tutano experimente as vieiras do montado. No dia em que lá fui recentemente, um sábado, havia cozido de grão, com chouriço mouro e farinheira, boas carnes da região. Na sobremensa venceu uma boleima de maçã e uns queijinhos de ovos irresistíveis. A casa tem duas salas, fica nos limites de Portalegre, e além das duas salas do restaurante tem uma zona onde pode adquirir produtos que levam o carimbo do autor de toda esta cozinha, José Júlio Vintém. Destaque para os seus enfrascados - perdiz de escabeche, orelha de porco, salada de pato, coelho de vilão e fraca de escabeche. A acompanhar a refeição veio um vinho da região, o Herdade Porto da Bouga, tinto, reserva. feito na Serra de São Mamede. O Tomba Lobos fica no Bairro da Pedra Basta, lote 16, e o telefone é o 965416630. Se seguirem a sua página no Facebook podem ver o que o Chef Vintém vai propondo na ementa, como uma perdiz brava assada no forno á antiga que por estes dias lá tem aparecido.


 


DIXIT - “Chega o Natal e os meus amigos inundam-me de cuecas e de meias. Triste fado. Mas por que motivo eu não terei um amigo como o amigo de José Sócrates?” - João Pereira Coutinho.


 


GOSTO - Da sugestão, de Marcelo Rebelo de Sousa, dirigida a Cavaco Silva, para que ele fale sobre a TAP.


 


NÃO GOSTO - De o FMI ter responsabilidades na epidemia do Ébola, segundo um estudo da Universidade de Cambridge, devido às políticas na área da saúde que implementou na África Ocidental.


 


BACK TO BASICS - O grande problema com os tempos actuais é que o futuro já não é aquilo que costumava ser - Paul Valéry