novembro 28, 2014

Sobre a arte do comissionismo na política

COMISSIONISTAS - Ao longo de quatro décadas criou-se em Portugal uma raça a que vou chamar de comissionistas políticos. Cresceram a cobrar, sempre discretamente, comissões pela sua actividade onde quer que tivessem uma réstea de poder. Desenvolveram-se em todos os partidos e quadrantes ideológicos e foram fazendo a sua actividade em benefício das suas organizações partidárias, locais ou nacionais, de grupos de pressão, de organizações amigas a que depois ficavam ligados e, nalguns casos, em proveito próprio. As comissões tinham mil caras - desde as que estavam impressas nas notas de papel moeda até às trocas de favores ou obtenções de sinecuras futuras. A sucessão de casos foi crescendo ao longo dos anos e foi-se estendendo também na administração pública e nalgumas empresas. Mais cedo ou mais tarde as coisas começam a dar nas vistas em demasia e foi isso que agora aconteceu. Durante muito tempo proliferou o discurso que acusava a justiça de só perseguir os pobres e indefesos; mas mal o aparelho judicial começou a perseguir banqueiros, altos funcionários, políticos no activo ou na reforma, ex-governantes e dirigentes partidários, começou um imenso clamor de protesto de que havia intenções políticas detrás das acções da justiça. E assim chegamos ao ponto em que pensadores de diversos matizes se deixam envolver mais pelo sentimento do que pela razão e se tornam cegos. Fernando Sobral escreveu, aqui neste jornal, que se criaram as condições para uma pergunta assassina, em termos sociais e políticos: “és a favor ou contra Sócrates?” E acrescentava: “se a política se reduzir a isto estamos perdidos”. Mas é isso mesmo que está a acontecer, como desde quinta-feira se tornou bem patente, graças ao contributo de Mário Soares para a questão. Subjacente a tudo isto está um princípio, de que a esquerda não abdica: ela é intocável e intrinsecamente honesta, e a direita é a mãe de todos os vícios e fundamentalmente desonesta. Ou seja, a esquerda é o Bem e a direita é o mal. Este raciocínio maniqueísta tem ainda mais décadas que a existência de comissionistas políticos em Portugal - mas é o raciocínio da moda, que comanda o sentimento sobre a razão. É o raciocínio solidário:  Sócrates é de esquerda e, portanto, não pode ser desonesto; se o acusam é porque se trata de uma manobra política, obviamente desonesta e de direita. Estarmos reduzidos a isto é uma tristeza. E há ainda outra coisa: os mesmíssimos políticos que gostam de jogar com a velocidade e agilidade mediática quando estão a fazer guerrilha e chicana, são os que agora se lamentam pela excessiva atenção dada pelos media a este caso, não se recodadndo que foi a mesma atenção dada a outros recentes onde não viram nada de excessivo. No fundo não compreendem uma coisa básica: a velocidade da justiça e a velocidade do sistema mediático são coisas diferentes. E ainda bem. Talvez preferissem que não houvesse velocidade. Ou seja, que nada se movesse. Presumo que escuso de citar Galileu.


 


SEMANADA - PS e PSD juntaram-se pela primeira vez nesta legislatura para apresentarem uma proposta de reposição das subvenções aos políticos, mas passados dias os seus proponentes tiveram que a retirar; duas dezenas de deputados declararam manter colaborações regulares com orgãos de comunicação; na semana seguinte à prisão de vários altos quadros do Estado no processo dos vistos gold o ex-Primeiro Ministro José Sócrates foi detido sob a suspeita de corrupção e branquamento de capitais; o advogado que apareceu a defendê-lo já tinha pedido há um mês atrás cópias dos despachos que ordenaram a destruição das escutas dos telefonemas entre Sócrates e Armando Vara; a detenção ocorreu na noite de sexta feira e o advogado João Araújo apareceu como seu representante no dia a seguir; Mário Soares foi visitá-lo à prisão na quarta-feira e disse que ele era um homem exemplar; Pedro Silva Pereira, um dos mais próximos colaboradores de Sócrates, esteve mais de 72 horas sem se pronunciar publicamente sobre a detenção do ex-Primeiro Ministro; um grupo de jovens eborenses, alunos de arquitectura, tirou selfies à porta da prisão onde está José Sócrates logo no dia em que ele chegou; depois da visita de Mário Soares José Sócrates distribuíu um comunicado a considerar a sua detenção “um abuso”; segundo a Marktest no último fim-de-semana o nome de José Sócrates foi o mais mencionado nas redes sociais, sobrepondo-se a todos os outros assuntos, personalidades ou marcas; ainda segundo a Marktest em apenas dois dias foram divulgadas cerca de três mil notícias relacionadas com o ex-Primeiro-ministro; o investimento estrangeiro estava a subir 641% até à crise dos vistos gold; em dois anos fecharam mil lojas de compra e venda de ouro; o fisco penhorou 197 imóveis por dia desde o início do ano; há 73 queixas por dia de violência doméstica em Portugal; de 2009 até agora houve 4605 pessoas que mudaram de nome; o Estado arrecadou mais de 30 mil milhões de euros de impostos até Outubro, um aumento de mais 2 mil milhões em relação a igual período do ano passado.


 


ARCO DA VELHA - O ex-procurador Pinto Monteiro afirmou que, no almoço que teve com José Sócrates em Lisboa na semana em que o ex-Primeiro Ministro foi detido, apenas falaram de livros e de viagens.


 


FOLHEAR - Esta é a altura em que a “Monocle” chega à sua edição dupla, de Dezembro/Janeiro, que este ano tem cerca de 270 páginas. O tema da edição é o “soft power”, a capacidade de um país exercer  poder e ganhar reconhecimento  através da sua diplomacia e da sua presença no mundo. A lista de 30 países resulta do relatório de um think-tank britânico, The Institute For Government. Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Japão e França ocupam os cinco primeiros lugares de uma lista de 30 países, na qual Portugal está na 24ª posição. Nesta edição há ainda um destaque para o Top 50 dos viajantes e para Antuérpia, além da Art Basel de Miami. Finalmente, na capa, uma fotografia de um eléctrico bem lisboeta é o chamariz para um especial destacável, um guia de Portugal.  A edição deste guia resulta do esforço conjugado do Turismo de Portugal com o interesse há muito manifestado pela revista em relação ao nosso país - é rara a edição em que não se encontra alguma coisa seja sobre Lisboa ou Porto ou sobre criadores ou artesãos portugueses que estão a marcar a diferença.  O guia sobre Portugal tem 36 páginas e, como é hábito nestes guias da “Monocle”, tem recomendações sobre sítios onde ficar, onde comer e lugares a visitar, sobre lojas e pequenas indústrias, além de múltiplos dados sobre o país. Lisboa, as praias do surf, o Alentejo, o Algarve, o Porto, o Douro e o Minho são as zonas em destaque, com boas e acertadas sugestões. Já agora a revista anuncia que a 17 e 18 de Abril realizará em Lisboa a “The Monocle Quality Of Life Conference” que abordará temas desde urbanismo até ao comérico, passando pela indústria da restauração e hotelaria,  ou ainda o artesanato e ofícios criativos. E a 5 de Dezembro o grupo que edita a “Monocle” lança uma nova publicação, um almanaque anual intitulado “The Forecast”, que em 240 páginas promete ensaios fotográficos, reportagens e análises. Já falta pouco.


 


VER - Hoje recomendo-vos uma visita à Fundação Louis Vuitton, o edifício junto ao Bosque de Bolonha, no 16º Bairro de Paris, onde Frank Gehry concebeu e construíu um edifício extraordinário, encomendado por Bernard Arnault, o Presidente do grupo de produtos de luxo LMVH, para albergar um museu e centro cultural que teve um investimento de construção de perto de 150 milhões de dólares. A visita, para quem está em Lisboa e para aguçar o apetite, é fácil e barata. Basta ir a www.fondationlouisvuitton.fr e começar a percorrer o site. Aí poderão encontrar informação sobre as actividades, mas também registos de eventos recentes - desde o concerto inaugural de Lang Lang em Outubro até uma recente actuação, já em Novembro, dos Kraftwerk. Encontrarão também uma visita electrónica à obra do ponto de vista arquitectónico, que tembém pode ser vista através de uma aplicação disponível para smartphones. Ainda nesse campo existe também uma aplicação, concebida especialmente para crianças, que lhes permite fazerem uma visita virtual a esta obra de Gehry, “Archi Moi”, disponível para iPad.


OUVIR - Poucos discos me agarraram e surpreenderam tanto como “Down Where The Spirit Meets The Bone”, o álbum que a norte-americana Lucinda Williams editou em Outubro. Aos 61 anos é o seu primeiro duplo CD e inclui 18 temas originais, além de uma canção, “Compassion”, que abre o disco, feita a partir de um poema do seu pai, Miller Williams, e de uma versão de um tema de JJ Cale, “Magnolia”, que encerra o álbum. Além disso este é o disco de estreia da sua própria editora, Highway 20 Records. A produção é dela própria, de Tom Overby, seu marido, e de Greig Leisz. Entre os músicos está a secção rítmica de Elvis Costello, o trio Jackshit, ou o guitarrista Bill Frisell. A base da música de Lucinda Williams é a country, com incursões frequentes nos blues. Aliás o segundo CD do álbum é assumidamente bluesy. Eu não gosto muito de dizer coisas destas, mas ouvindo vez após vez este disco, e a diversidade e intensidade das suas canções, ocorre-me que este é uma daqueles momentos em que o título de obra de carreira se pode aplicar. Definitivamente um dos grandes discos de 2014. (Highway 20 Records, na Amazon)


 


PROVAR - No meio da proliferação das hamburguerias de todos os feitios e padrões vale a pena referir uma casa inaugurada há pouco tempo sob o nome “A Loja”. Fica perto do Liceu Maria Amália, entre a Artilharia Um e a Rua Castilho, cá para cima, do lado da Marquês da Fronteira - esta é aliás uma rua de boa memória em matéria de restauração. A Loja tem uma decoração leve e confortável, o pessoal é simpático e, como se exige numa casa destas, a carne é de boa qualidade, saborosa - e na cozinha sabem fazer o hamburguer mal passado (e é aí que se percebe que a carne que serve de base é boa). Há umas surpresas que vão variando mês a mês - em Outubro houve o hamburguer tártaro, em Novembro o de alheira com grelos salteados, vamos lá a ver que hamburguer traz o Pai Natal em Dezembro. Enquanto não se conhece o menu surpresa de Dezembro uma boa hipótese é o hamburguer da Loja, que leva cebola caramelizada e queijo gruyére. As batatas fritas são mesmo caseiras, grossas e vêm no ponto, sem óleo a escorrer. Há uma dúzia de variedades de hamburgueres, no prato ou no pão, tábuas de petiscos para uma conversa ao fim da tarde, saladas e sopas para as dietas e, nos doces, uma tentadora mousse de chocolate da casa e, se ainda não tiver esgotado a célebre e única A Tarte de amêndoa.  A Loja fica na Rua D. Francisco Manuel de Mello 26.


 


DIXIT - “Não é uma Justiça igual para todos que destrói a democracia - é a impunidade” -  Luis Rosa, no “i”.


 


GOSTO - Os turistas que visitam Lisboa descobriram as castanhas assadas e tornaram-se compradores frequentes do petisco.


 


NÃO GOSTO - Da maneira sistemática como se repetem inundações em Lisboa cada vez que a chuva é mais intensa.


 


BACK TO BASICS - “Os políticos deviam ler livros de ficção científica em vez de histórias de detectives e de crimes” - Arthur C. Clarke

novembro 21, 2014

SOBRE A ARTE DE FUGIR DE DECIDIR

 


INUTILIDADES - Uma coisa que me surpreende cada vez mais é como, neste tempo em que a propagação da informação surge instantaneamente em várias plataformas, alguns protagonistas da vida pública, seja política ou económica, persistem em achar que podem deixar para depois uma resposta. Neste tempo quem não responde, foge; quem não fala, esconde. Mesmo que não seja assim, o efeito é esse. O silêncio penaliza quem o amplifica. Os últimos meses estão cheios de casos destes - o BES, claro, mas também agora os efeitos directos e colaterais dos vistos gold, as taxas a taxinhas de Lisboa, as colocações de professores, o Citius e etc e etc. O desgaste de imagem dos protagonistas destas situações deve-se, em primeiro lugar, a uma má gestão dos tempos de resposta, à falta de capacidade de ter um discurso organizado, à falta de compreensão e previsão dos efeitos de uma medida, de um discurso, de uma decisão. Não estamos no século XIX para dizer, como ouvi por estes dias  a um ilustre académico empossado num cargo público, que só para a semana se pronunciaria sobre determinado assunto, aflito por o tutelar Ministro lhe ter passado a responsabilidade da reacção. O que sai fora de tempo, é inutil. Quem se deixa cair na inutilidade não se pode queixar de ser depois ignorado, ultrapassado, e de não ter voz activa na matéria que era suposto governar. É isto que amiúde se passa no reino.


 


SEMANADA - A posição da Galp e REN relativa à taxa extraordinária sobre o sector energético provoca um rombo de 60 milhões nas contas do Estado; o Tribunal Constitucional detectou ilegalidades em todas as candidaturas às presidenciais de 2011; as gorduras do Estado aumentaram mil milhões entre 2007 e 2015; a Assembleia da República teve prejuízos de 6,17 milhões de euros em 2013, um valor dez vezes superior ao resultado negativo de 2012, de 680 mil euros; Marques Mendes disse que achava que uma empresa, da qual é sócio, se extinguira em 2011 - por acaso a referida empresa, JMF, está ligada ao caso dos vistos dourados; Portugal registou este ano o número mais baixo de incêndios florestais dos últimos 25 anos; a GNR caçou este ano 39 incendiários em flagrante; uma empresa que assegura transportes escolares em Santa Maria da Feira deixou uma criança de 3 anos, por esquecimento, dentro do autocarro durante quatro horas; nove crianças por dia sofrem quedas graves; uma rusga da PSP num bar em Alcântara levou a que subitamente fossem deixadas no chão da pista de dança 11 armas brancas, uma soqueira e quase 200 doses de droga; Braga é a cidade portuguesa com maior número de pessoas inscritas num site destinado a promover a infidelidade nas relações afectivas - 17 mil utilizadores em Braga, 15 mil no Porto e 13 mil em Lisboa; parece que a RTP vai ficar com a transmissão dos jogos da Champions League por ter oferecido mais do que a TVI pagava por eles; no Reino Unido os jogos da Champions não são licitados pela BBC e são transmitidos pela ITV e a Sky Sports, ambas privadas, como a TVI.


 


ARCO DA VELHA - Em pouco mais de um ano os vistos gold passaram de case study para  caso de polícia e, pela primeira vez, um juiz mandou prender um director de uma das polícias do Estado.


 


FOLHEAR - Se ha coisa de que gosto é de uma edição provocadora. E poucas edições são tão atraentes, provocadoras e inesperadas como este “O Bordel das Musas ou as nove donzelas putas”, de Claude LePetit, agora lançado pela Guerra & Paz. A boa tradução é de Eugénia de Vasconcellos e as ilustrações, a condizer com o espírito libertino da obra, são de João Cutileiro. A edição é bilingue e parte do original francês, escrito no século XVII. O autor acabou na fogueira aos 23 anos - e, como diz o editor Manuel S. Fonseca no texto de apresentação, “queimaram-lhe o corpo por causa dos pecados das alma”. João Cutileiro, num curto texto recorda que “há pouco mais de 150 anos ainda na praça do Giraldo havia autos de fé e execuções com palco e tudo” E remata: “quando faço estes desenhos penso sempre nisto”. A tradutora, Eugénia de Vasconcellos, pelo seu lado,  sublinha o prazer que sentiu em “levar-lhe um verso que seja para outro país, outra língua”, recordando: “Claude Le Petit morreu muito jovem, a poesia não lhe cabe na idade; acredito que estamos diante de uma voz singular que tentou e desconseguiu romper o casulo das suas circunstâncias”.


 


VER - Uma semana com muito que observar. Começo pela Galeria Luis Serpa Projectos (Rua Tenente Raul Cascais 1B) onde abriu Skate.Exe - é a sétima exposição do ciclo “Olho Por Olho Mente Por Mente”comissariado por António Cerveira Pinto. André Sier partiu do universo do skate e esta exposição (na imagem) apresenta uma série de obras interativas multimédia, fotografia digital e esculturas 3D. Logo a seguir destaque para o novo espaço da Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12 a 16) - e para a inauguração uma colectiva, “grifo”, que reúne trabalhos de Helena Gonçalves, Teresa Gonçalves Lobo, Pauliana Valente Pimentel, Cláudia Garrudo, Jaime Vasconcelos, Joanna Latka, e Marta Ubach. Na galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 r/c esq) , duas exposições: “Fúcsia” de Jorge Molder e “A memória Viva Nasce A Cada Dia, Florescendo”, de Catarina Branco. E, finalmente, no Museu do Chiado, a começar agora e durante um ano, apresentação de trabalhos de artistas portugueses que têm vindo a desenvolver trabalho lá fora, mas sem eco em Portugal, sob o título  “Ecos On The Wall: diáspora portuguesa”. Finalmente, em “A Pequena Galeria”, (Av. 24 de Julho 4C) este é o último fim de semana de “A Fotografia Nas Redes Sociais”.


OUVIR - Neil Percival Young completou 69 anos há poucos dias. Está a tornar-se num hábito, verdadeiramente fruto dos tempos, falar de novos trabalhos de nomes da primeira linha da música popular anglo-americana que continuam a fazer bons discos com idades, digamos, avançadas. Aqui há umas semanas falei de Leonard Cohen, que vai nos 80 anos, hoje é a vez de Neil Young. A sua carreira musical começou em 1966 com os Buffalo Springfield, portanto há quase cinco décadas - e o mais engraçado é que continuo a ter um imenso prazer a ouvir os discos dos Buffalo Springfield. Depois vieram os Crazy Horse, Crosby, Stills, Nash & Young e, em 1979, esse cataclismo conhecido por “Rust Never Sleeps”, que mudou a minha vida e a maneira de ouvir música - a minha e de muitos mais. É curioso que após todos estes anos o novo disco de Young tenha uma versão acústica e outra com uma orquestra; em 78 a digressão “Rust Never Sleeps” tinha uma primeira parte acústica e outra eléctrica. Passaram-se os anos e a electricidade ficou depurada. Mas mantém-se a ideia da pureza das formas - e sobretudo a intensidade de interpretação -  que só a versão acústica (apenas com guitarra, ukelele, piano e voz) transmite. A presença da orquestra em vez dos Crazy Horse é o sinal dos tempos e da idade. Mas é também o testamento da insubordinação e imprevisibilidade que Neil Young gosta de mostrar. São dez canções novas - quase 20 de tão diferentes que parecem nas duas versões.”Storytone”, este novo disco de Young, mostra o que ele sente, o que ele pensa e, acima de tudo como continua atento a tudo à sua volta. Gosto muito de “All Those Dreams”, “Like You Used To Do”, “Plastic Flowers”, o épico “Who’s Gonna Stand Up?” ou road songs como “I Want To Drive My Car” e “Glimmer”. Ou, sempre, da maneira como canta o amor, como aparece em “I’m Glad I Found You” ou “When I Watch You Sleeping”. Nos últimos tempos, antes deste disco, começou a pintar aguarelas, separou-se, apaixonou-se e gravou um disco em sistemas primitivos de som com Jack White. A seguir, pensou numa orquestra. Faz sentido. (CD Reprise, na Amazon)


 


PROVAR - Quando se tem uma segunda estrela Michelin num restaurante, merecida, não se pode desfazer a imagem criada com o que acontece num outro restaurante a uma centena de metros do premiado. O Belcanto recebeu esta semana a segunda estrela Michelin e José Avillez está de parabéns. Mas o bem que faz no Belcanto não pode justificar o que permite e tolera ali ao lado no Mini Bar, no Teatro de S. Luiz. Avillez tem cinco restaurantes na zona do Chiado e um no Porto. Talvez já não dê a atenção devida à sua marca e isso não é bom. No Chiado, além do Belcanto, estão o inicial Cantinho do Avillez, o Café Lisboa no S. Carlos, a Pizzaria Lisboa ali ao pé e o Mini Bar no S. Luiz. Já experimentei os cinco e não recomendo a Pizzaria Lisboa nem o Mini Bar. A Pizzaria porque não tem os mínimos de qualidade e serviço, o segundo porque a confecção e qualidade são inconstantes e o serviço é pretencioso e ineficaz. Fui lá esta semana e explicaram-me que finger food, que é o nome que dão ao que servem, se chama assim porque se come com os dedos; apreciei saber. Só não percebo porque é que num sítio de tapas se esconde o vinho longe do cliente sem haver condições para existir cuidado nem atenção para o servir quando ele é preciso na mesa. Há um lado pretencioso, no contraste entre os petiscos e o serviço, que é fatal. Constatei ainda que o tempero e qualidade dos pratos são variáveis - o cornetto temaki de atum com soja picante estava bom num dia e exageradamente temperado noutro; a cavala fumada com salada de maçã e aipo com trufa era insípida; as vieiras, cozinhadas no ponto, vinham no entanto com o sabor próprio demasiado ofuscado por um duvidoso tempero thai. Salvou-se o ferrero rocher “parece que é mas não é”, que leva foie gras, manteiga de cacau, natas e avelã. E salvou-se o vinho, um belo branco feito em parceria com José Bento dos Santos, com base nas castas Arinto e Viognier - pena é que fosse preciso fazer um requerimento cada vez que se queria continuar a degustá-lo. A única coisa constante foi o empratamento, viçoso. Mas os petiscos, petiscam-se, eventualmente com os dedos, sem ser só com os olhos. Estaremos perante um daqueles momentos em que a forma pretende superar o conteúdo?


 


DIXIT - "Não menti em nenhum dos momentos em que falei neste Parlamento" - Maria Luis Albuquerque, Ministra das Finanças, na Comissão Parlamentar de inquérito ao BES.


 


GOSTO - Do novo sistema de informação de proximidade, o Tomi, instalado em estações de Metro de Lisboa, uma espécie de tablet gigante com sugestões sobre a zona e que até selfies podem fazer.


 


NÃO GOSTO - A um mês do fim do primeiro período ainda há alunos sem aulas de compensação devidas pelos atrasos nas colocações.


 


BACK TO BASICS - O preço é aquilo que se paga, o valor é aquilo que se obtém - Warren Buffet

novembro 14, 2014

TAXAS - A OUTRA EPIDEMIA

BASÓFIAS -  Por muito que eu tente assobiar para o ar é impossível fugir a este tema: António Costa aproveitou nos últimos anos todas as oportunidades que teve para criticar as medidas de austeridade, e nomeadamente os aumentos de impostos. Aproveitou os ares dos tempos, e sobretudo as indemizações do Estado, pendentes há décadas, à Câmara Municipal de Lisboa, para mascarar resultados e se armar em grande gestor das contas públicas. Depressa se esvaíram os milhões dessas indemnizações num aparelho autárquico que nunca reformou e, à primeira oportunidade, surgida agora, aumentou a colecta de taxas na cidade. Lisboa, quando a coisa fôr vista com atenção e distância daqui a uns anos, tornou-se num sorvedouro de ineficiências durante o consulado de António Costa - e esse é o seu cartão de visita para os eleitores quando se apresentar a eleições nacionais. Pelo sim pelo não já começou a recuar em questões como a reposição dos salários da Função Pública e outras promessas se esvaziarão com a suavidade própria dos vendedores de banha da cobra. Aos poucos se irá descobrindo como a basófia era maior que os ditames da realidade. Esta realidade mostrará que António Costa tem um mau currículo em Lisboa, mascarado apenas pelo efeito para o exterior, que sempre privilegiou, à defesa dos interesses dos habitantes e contribuintes da cidade que cá habitam e que no dia a dia vêem uma cidade mais agreste. Imaginem isto transposto para o país.


 


SEMANADA - Em 2013 os hospitais portugueses registaram 40462 casos de pneumonia e 8424 doentes (20%) acabaram por morrer; quase15%  das torres de refrigeração analisadas de 2010 a 2012 em todo o país tinham a bactéria legionella; a importação de bacalhau aumentou 76% em Outubro; o Presidente da República recomendou ao líder parlamentar do PS que fizesse “o trabalho de casa”; “O que andaram a fazer os accionistas e gestores” da PT - questionou Cavaco Silva numa declaração, sublinhando que essa é “uma pergunta que os portugueses têm o direito de colocar”; Cavaco Silva condecorou Zeinal Bava em 10 de Junho deste ano, com a ordem de mérito comercial; o ex-Presidente Ramalho Eanes afirmou que os portugueses não devem limitar-se a votar de quatro em quatro anos e que devem mostrar aos poderes que “não podem ultrapassar determinados limites”; uma stripper brasileira foi filmada a conduzir um alfa pendular da CP a 220 km/h e colocou o filme on line; Maria Luis Albuquerque admitiu que a classe média foi a grande sacrificada pelos planos de austeriodade, justificando esse facto por, disse, em Portugal existir um reduzido número de ricos; o BBVA fecha 43 balcões em Portugal; a banca reduz mais de 1200 colaboradores só este ano; o número de famílias que deixaram de pagar as mensalidades do crédito à habitação subiu para 150 mil; Luis Filipe Menezes diz ter sido alvo de um “tsunami psicoafectivo”, a propósito das suspeitas de corrupção e enriquecimento ilícito que o têm envolvido.


 


ARCO DA VELHA - Manuel Maria Carrilho deu uma conferência de imprensa para acusar o Governo de “apoio encapotado” a Bárbara Guimarães, sua ex-mulher, que leu um poema sobre violência doméstica num encontro promovido pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.


 


FOLHEAR - Um livro que conta histórias do quotidiano, na linguagem de agora, sem preconceitos nem pruridos, que relata façanhas e pecados, bondades e malfeitorias, é de si um facto raro. Um livro que foge ao politicamente correcto e fala da vida que existe é quase subversivo. Um livro assim, escrito em Angola, nos tempos que correm, a relatar o dia-a-dia de personagens actuais, é coisa rara e - para mim - nunca vista. “A Virgem” é uma história de amor antigo no tempo de hoje, passado na cidade do Lobito. Está escrito com expressões do país, que nos levam a aprender o que é a Angola para além das intrigas políticas e das lutas de poder - este livro é um romance sem ser em tempo de guerra. É uma história de amor, simples sem ser piegas. Divertida. Bem escrita. Não é passado em Luanda, é no Lobito; não fala de ministros nem de generais, nem de condomínios, nem de fortunas e bancos. Fala das pessoas e do que elas fazem. O seu autor assina Tempestade Celestino, mas de facto chama-se Celestino Jerónimo, estudou Relações Internacionais e é funcionário público numa empresa do Lobito, depois de ter sido repórter, jornalista, cronista. Escreve sobre pessoas, costumes e os ritmos da vida. Só posso dizer que foi uma surpresa e gostei - da diferença e da ousadia que é escrever um romance apenas para contar uma história de amor. Conheço uns rapazes e raparigas que se aborrecem com este conceito. Edição “Guerra & Paz”.


 


VER - Como o nome indica uma revista interactiva, digital,  tem que ser vista e às vezes ouvida, não pode apenas ser apenas lida ou folheada. Baseada em três vectores - artes, ciência e tecnologia, e com opção de escolha entre textos em português ou inglês, a “Luz” está disponível para download gratuito para iPad na App Store em 74 países e já tem 4500 leitores. Estão disponíveis quatro edições, focadas nos elementos Sol, Água, Ar e Terra - tudo fontes de energia. A revista, concebida para ser vista em tablets, é uma aplicação nativa para iOS e vai estar brevemente disponível também em Android. Com esta publicação digital a EDP tem claramente como objectivo mostrar como está ligada às tendências e tecnologias mais recentes. Nos números já editados é possível, por exemplo, ver os projectos de arquitectura da nova sede EDP (que pode ser visualizada em 3D) e o Centro de Artes e Tecnologias da Fundação EDP, o primeiro a funcionar já para o ano e o segundo em 2016.


OUVIR - Hoje em dia tenho um método para os discos que continuo a adquirir compulsivamente - primeiro ouço-os no carro, nas voltas da cidade ou a caminho de casa. No carro consigo saltar rapidamente de faixa para faixa, voltar atrás, ver se uma canção resiste à interrupção de um telefonema que entra no sistema - no fundo é o equivalente moderno do salta-pocinhas feito com a agulha no tempo em que se ouvia vinil (por necessidade e não por moda). Álbum que resiste a este tratamento passa para a fase seguinte que é ser ouvido várias vezes em casa, de seguida, de fio a pavio. “Nostalgia”, de Annie Lennox, resistiu aos testes e passou à fase de escuta intensiva. Aproveitando o título do álbum deixo aqui uma nota pessoal, nostálgica se quiserem: o cartaz de lançamento do “Blitz - A Música em Jornal”, feito há 30 anos, tinha um fundo amarelo vivo, com as letras Blitz a vermelho e uma fotografia a preto e branco de Lennox, nessa altura na crista da onda dos Eurythmics, o tempo de “Sweet Dreams”; ainda colei uns cartazes desses à porta do Frágil, no Bairro Alto. O título “Nostalgia” vem do facto de este disco ser feito de versões do cancioneiro popular norte-americano, como “Georgia On My Mind”, “I Put A Spell On You”, “Summertime”, “I Cover The Waterfront” ou “You Belong To Me” e “The Nearness Of You” - são 12 ao todo.  Lennox, que está à beira dos 60 anos, claramente amadureceu voz, sensibilidade e capacidade de interpretação. Nunca vai pelo caminho fácil, arrisca por vezes remar contra a tradição. E fez um disco que me deu muitíssimo prazer. (CD Island/Universal, disponível nos sítios onde ainda há discos).


 


PROVAR - O edifício do Espelho de Água data da Exposição do Mundo Português, de 1940 - foi feito para ser a cafetaria do evento. Ao longo das décadas teve várias utilizações, desde posto de turismo até restaurante, passando por um clube privado e uma discoteca que fez época nos anos 90 do século passado, o T-Club. Os últimos anos foram para esquecer, em projectos sem qualidade e que afundaram rápido. Agora ganhou novo fôlego, com um novo proprietário que pela primeira vez desde há alguns anos soube aproveitar as potencialidades arquitectónicas do edifício e a sua localização, em cima do rio - e assim foi recuperada a esplanada. A decoração é simples mas cuidada, a realçar o edifício - que teve pequenas alterações como um parte do tecto que pode abrir na zona do bar. A cafetaria, aberta desde as 10 da manhã, ocupa o espaço, amplo, de entrada, convivendo com obras de arte - já que o novo proprietário, o empresário luso-angolano Mário de Almeida, é também galerista. E assim, lá está, finalmente, à vista, o mural que o artista norte-americano Sol Lewitt pintou em finais dos anos 80. Arte à parte a cafetaria tem propostas simples, de sandes a saladas, ovos em diversas versões e pisceas, que são as boas pizzas do local, até pratos (bem) confeccionados. Ao longo de todo o dia pode passar-se por lá e dentro em breve abrirá o restaurante, na sala que tem o mural de Lewitt . Em duas visitas, uma delas numa mesa mais numerosa, o resultado foi sempre bom em qualidade e muito razoável no preço. Quando o restaurante abrir darei notícias. Espelho de Água, Avenida Brasília, 213 010 510


 


DIXIT - “Em Portugal, já não há direita e esquerda, mas só governo e oposição, isto é, os que têm de se reger pelo dinheiro que há, e os que podem fingir que não tem de ser assim” - Rui Ramos, n’ Observador.


 


GOSTO - Do vinho Têmpera, 2010, de José Bento dos Santos, feito à base de uvas da casta Tinta Roriz.


 


NÃO GOSTO - Dos croissantes simples, massudos, da Sacolinha, no Chiado.



BACK TO BASICS - Na cauda é que está o veneno - anónimo

novembro 07, 2014

SERÁ QUE O PRIMEIRO MILHO É DOS PARDAIS?

DIZERES POPULARES - A procissão, como se costuma dizer, ainda vai no adro. Esta corriqueira frase aplica-se às presidenciais, mas também ao futuro da coligação governamental, ao evoluir de António Costa no PS e, claro, ao BES, ao Novo Banco, às previsões do Orçamento do próximo ano, e, para manter um ar contemporâneo, à venda da PT - todos os dias tem aparecido novo interessado. Até parece que fica mal não querer comprar. Grupo que é grupo que se preze manifesta interesse. Afinal, a PT parece valer mais do que aquilo que se dizia - tantos são os interessados. Eu, que gosto do que a PT fez e construíu ao longo dos anos, às vezes ponho-me a falar com os meus botões e imagino o que seria se o poder anterior voltasse pela mão de um dos putativos compradores. Todos aqueles que andaram a esfregar as mãos de contentes quando Zeinal Bava saíu devem agora estar com uma considerável dor de cabeça com a possibilidade de ele poder estar ligado a quem, no fim, fôr o comprador. Ninguém sabe o que vai acontecer e acredito que muita água há-de correr nesta ponte por onde passa o negócio. E há muita gente a pensar se aqui se aplicará a frase: “o primeiro milho é dos pardais”.


 


SEMANADA - Insolvências de empresas e singulares caíram 32% entre Janeiro e Junho; a Comissão Europeia reviu em baixa as previsões de retoma da economia; a Comissão Europeia considerou irrealistas as previsões do Governo para 2015; o Banco de Portugal apresentou queixa contra Ricardo Salgado e outros ex-gestores do BES por suspeitas de burla, infidelidade e falsificação; a Câmara Municipal de Lisboa não entregou dentro do prazo estipulado o seu Orçamento para 2015; o ex-Presidente da Câmara de Vila Verde, Braga, aumentou a dívida da autarquia em mil por cento ao longo dos 12 anos do seu mandato; uma auditoria à reabilitação do Bairro do Aleixo, no Porto, aponta irregularidades à gestão de Rui Rio; a Câmara Municipal do Cartaxo, que tem uma dívida de 60 milhões de euros, pediu uma ajuda urgente de 11 milhões para cumprir o pagamento de necessidades básicas do funcionamento da autarquia; nos últimos dez anos verificaram-se 250 fugas das cadeias e há ainda 15 reclusos por apanhar; uma auditoria da Inspecção Geral da Justiça revelou que existem nas cadeias portuguesas negócios sem controlo no valor de 8,3 milhões de euros; nas cadeias estão cinco centenas de presos a cumprir penas por violência doméstica; desde 2012 a violência doméstica faz três orfãos por mês; num só ano a ASAE apreendeu 1,2 milhões de litros de vinho português adulterado; 13% dos portugueses entre os 20 e 79 anos têm diabetes; na semana passada o conjunto dos canais de cabo ultrapassou a SIC no horário nobre e está praticamente colado à TVI;  “Os Maias”, de João Botelho, é o 10º filme português mais visto de sempre.


 


ARCO DA VELHA - Xanana Gusmão não avisou Passos Coelho da expulsão de magistrados portugueses de Timor Leste invocando que “estava atrapalhado com outras atividades”. Os oito portugueses expulsos investigavam há três anos ministros do governo timorense alegadamente por corrupção..


 


FOLHEAR - Joana Stichini Vilela regressa à crónica das últimas décadas do século passado, com “LX 70 - Lisboa, do Sonho à Realidade”, uma espécie de sequela de “LX 60- A Vida em lisboa Nunca Mais Foi a Mesma”. O novo volume, dedicado à década de 70, faz a viagem pelos últimos anos do antigo regime e sobre os primeiros anos da democracia, incluindo os anos da brasa.


Aqui estão dados estatisticos de um ano, 1970, em que 63% dos partos ainda decorriam em casa, em que apenas 47% das casas tinham água canalizada e em que Portugal tinha 8,6 milhões de habitantes - e que foi o ano de estreia de “007 Ao Serviço de Sua Majestade” e o ano em que, apesar de Eusébio ter sido o melhor marcador, o campeonato foi ganho pelo Sporting. O livro prossegue a viagem pela década, pelas boites como o Stone’s, os programas de rádio e televisão, a arquitectura mais inovadora por exemplo nas igrejas, os filmes portugueses que marcaram uma época, a moda ou os grandes estaleiros de reparação naval inaugurados na altura. E depois, claro, os anos a seguir a 74 - a explosão, o regresso dos retornados, os primeiros partidos, os primeiros políticos, Carlucci, Crazy Horese, Cornelia e Capitão Roby. São 300 deliciosas páginas para quem viveu a década, aqui muito bem recordadas por escrita e imagem e com uma belíssima paginação, de Nick Mrozowski e Pedro Fernandes. A década de 80 desta equipa aparece quando? “LX70- LISBOA: DO SONHO À REALIDADE”, editado pela D.Quixote.


 


VER - Esta semana faço sugestões avulsas. Começo pelo Centro de Artes Visuais, de Coimbra, que expõe “Esta Terra É A Tua Terra - Os Anos 90 em Portugal, na colecção dos Encontros de Fotografia” (na foto) e que inclui imagens de António Júlio Duarte, José Manuel Rodrigues, Nuno Cera, Paulo Nozolino, Duarte Belo e de um conjunto de fotógrafos estrangeiros que foram convidados pelos Encontros, ao longo dos anos, a realizar trabalhos sobre Portugal. A curadoria é de Sérgio Mah.


Na Culturgest podem ser vistos cartazes de exposições desenhados pelos artistas que são expostos - é uma amostra da colecção Lempert, que tem cerca de 15 mil peças. Podem ser vistos cartazes criados por Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Richard Hamilton, Dieter Roth, Oswald Oberhuber, Sol Lewitt, Marcel Broodthaers, Lawrence Weiner, ou Günter Brus, entre outros. A exposição “permite compreender em que medida e de que maneira um objeto, cuja função é publicitar e que tem um ciclo de vida curto, foi sendo recriado e valorizado por muitos artistas”. Está na Culturgest, em Lisboa, até 15 de Março.


Na Sociedade Nacional de Belas Artes e até 5 de Dezembro mostra-se uma colectiva sob o título “Projecto Sociedade/Um Cadáver Esquisito Para o Século XXI”, apresentando um alargado conjunto de participantes, entre artistas e curadores, que foram convidados a integrar uma obra colectiva “que retoma os princípios do "cadavre-esquis", método de criação colectiva espontâneo e inconsciente, guiado pela insondável justeza do acaso, inventado e profusamente praticado nas primeiras décadas do século XX por poetas e artistas surrealistas.” Integra imagens de Julião Sarmento, Inez Teixeira, Pedro Calapez, Rui Chafes, Luis Pavão, Delfim Sardo e João Pinharanda, entre outros.


OUVIR - Nos últimos anos Cecilia Bartoli tem-se dedicado a descobrir e divulgar compositores pouco conhecidos, pegando nas suas árias e dando-lhes o seu toque muito pessoal. As respectivas edições são exemplos de investigação sobre os autores, a sua época, as circunstãncias em que a música foi composta. Agora foi editado mais um trabalho nesta linha, “St. Petersburg”. Bartoli é acompanhada pela orquestra de cãmara I Barocchisti, dirigidos por Diego Fasolis e pelo côro da Readiotelevisão Suíça, dirigido por Gianluca Capuano. As onze árias aqui incluídas, investigadas pela própria Bartoli, foram agora gravadas pela primeira vez e mostram o trabalho de compositores como Araia, Raupach, Cimarosa e Manfredini, que cultivavam a ópera italiana bem longo do deu país, na corte imperial russa das Tsarinas Anna Ioannovna, Elizaveta Petrovna e Catarina a Grande, durante o século XVIII. A meia-soprano Cecilia Bartoli continua a ser um exemplo de técnica vocal e de capacidade de interpretação. CD Decca, disponível em Portugal.


 


PROVAR - Tenho para mim que um bitoque é uma espécie de prova dos nove em qualquer restaurante. Pelo bitoque avalia-se a qualidade da carne, o cuidado no molho, a arte do ovo estrelado e a atenção às batatas. Um destes dias fui experimentar a Casa do Lago, o novo restaurante que abriu no Campo Grande, no lado dos barcos a remos. Fechado durante anos, praticamente em ruínas durante algum tempo, o edifício foi reconstruído, redecorado e funciona desde há pouco tempo. Admito que o sítio me traz boas recordações, desde os tempos da adolescência e, sobretudo, da época da faculdade - o local fica paredes mesias com a Cidade Universitária. Além do mais tem um amplo terraço que proporciona uma boa esplanada, completamente arranjada, a meio do jardim e com vista directa para o lago onde continua a ser possível alugar uns pequenos barcos a remos. Na Casa do Lago o serviço é simpático, a decoração das duas pequenas salas do interior é simpática (uma delas também tem vista para o lago). Há pratos do dia que vão variando, há petiscos como tábuas de queijos e enchidos, ovos mexidos com farinheira ou com espargos ou folhados d emarmelo caramelizado com queijo de cabra. A lista inclui dois pratos de bacalhau (confitado e à portuguesa), o salmão salteado e um risotto de camarão. Nas carnes há cinco bifes e o acima mencionado bitoque. Há vinho a copo, Vale dos Fornos, da região Tejo - honesto. Passemos ao bitoque - carne de bom corte, no ponto em que foi pedido, ovo convenientemente estrelado, gema mal passada, clara em condições; molho saboroso sem transpirar gordura, batatas aos gomos salteadas, o que foi uma boa surpresa. Balanço geral positivo. Local sem pretensões nem enganos. Há parque de estacionamento na faixa interior do lado da Universidade. Está aberto de terça a domingo das 10 às 23 e no fim de semana fecha à meia noite. O telefone é 217 574 241.





DIXIT - “O PS tem de escolher: ou quer recuperar José Sócrates ou quer recuperar o país. Os dois juntos, não dá” - João Miguel Tavares


 


GOSTO - O lucro dos CTT cresceu 16,5% com os novos serviços que começou a prestar, e esta semana anunciou um serviço de expedição de pranchas de surf para vários pontos do país com uma embalagem própria.


 


NÃO GOSTO - A Europa perdeu 421 milhões de aves nos últimos 30 anos.


 


BACK TO BASICS - “Acredito que há por aí alguém a velar por nós. Infelizmente é o Governo” - Woody Allen


 


 

outubro 31, 2014

O GOLPE AUTÀRQUICO QUE LEVOU COSTA ONDE ESTÁ (with a little help from his friend Zé)

GOLPE - O desfecho do julgamento do caso Bragaparques é um belíssimo exemplo do que tem sido a política nos últimos anos em Portugal. Advogados habilidosos e imaginativos, em concluio ideológico com agentes do Ministério Público, criaram, na última década e meia, sobretudo na sua primeira metade, um sistema de fabrico de processos jurídicos para contestar decisões políticas. Nem é bem só a judicialização da política, é o alinhamento ideológico do sistema de investigação judicial que é o mais chocante. O agora vereador José Sá Fernandes foi um dos especialistas nesse assunto e, por isso, o Bloco o recrutou sob o lema “O Zé faz falta”. Cedo se percebeu que, a ele, fazia mais falta o apoio de António Costa que o do Bloco - e  lá está o Zé a alugar a avenida para feiras e a fazer vários dislates autárquicos, sob o manto diáfano do politicamente correcto. A verdade é que este processo da Bragaparques foi o que levou à queda do executivo autárquico de Carmona Rodrigues e à oportuna convocação de eleições municipais antecipadas em Lisboa, que acabaram por colocar António Costa na linha de partida para as suas ambições, agora já perfeitamente claras. Costa deve a Sá Fernandes a construção dessa rampa de lançamento e os eleitores devem à conspiração justicialista o estado em que a cidade está - do Marquês do Pombal às inundações, passando pelas sujidades. Sobre a acusação, cito a decisão do Tribunal, que absolveu Carmona Rodrigues e os outros réus, na época afastados da Câmara:  este processo teve por base um conjunto de “suspeições, impressões, convicções não sustentadas, boatos e rumores”. Lá vai Lisboa...


SEMANADA - As empresas públicas voltaram a furar os tectos de subida de endividamento, que atingiu 5,4% em 2013 quando o limite fixado era de 4%; o número de casais em que os dois estão desempregados aumentou 688% no espaço de três anos; a meio do primeiro período lectivo ainda há 35 mil alunos sem professores e já há escolas que estão a defender o adiamento dos exames; Alberto João Jardim propôs uma revisão constitucional que estabelece um mandado único de dez anos para o Presidente da República; Rui Rio defendeu a realização de eleições primárias no PSD; apoiantes de Rui Rio, do Fórum Democracia e Sociedade,  defendem a realização de um congresso antecipado do PSD; 30 dias após vencer as primárias do PS António Costa continua sem apresentar propostas concretas; o guião para a reforma do Estado foi apresentado há um ano e continua por executar; em todo o mundo são enviados 100 milhões de emails por minuto; o primeiro “banner” publicitário na internet apareceu há 20 anos no pioneiro site da icónica revista “Wired”; a internet já é hoje o segundo meio com maior investimento publicitário em Portugal, a seguir à televisão; Mira Amaral propôs que os investigadores dos laboratórios do Estado sejam classificados em função das patentes criadas e do trabalho feito em ligação com as empresas; o Instituto Politécnico de Bragança tem 1200 alunos estrangeiros; aguarda-se que Alexandre Soares dos Santos se pronuncie sobre a compra do célebre hotel Paris Marriott Champs Elysées por uma empresa chinesa.


ARCO DA VELHA - O director do Instituto de Ciências Sociais deu instruções para que fosse retirado da circulação o mais recente número da revista daquela entidade,  “Análise Social”, justificando que a publicação continha imagens ofensivas, fotografias de graffiti nas ruas de Lisboa que ilustram a insatisfação com o governo e agentes económicos.


FOLHEAR - Tenho desde há uns anos um fascínio pelo exemplar trabalho realizado pela Aperture Foundation no campo da divulgação e estudo da fotografia - seja nas exposições e debates que promove, seja nos livros que edita ou na revista que publica quatro vezes por ano, a “Aperture Magazine”. Só há pouco tempo tive ocasião de conhecer o local onde funciona, em plena zona de Chelsea, em Nova Iorque, num andar amplo em que coexiste o espaço de exposições e a livraria - no caso a exposição era de imagens que fizeram a primeira página do “New York Times” e marcaram a História. A “Aperture Magazine” tem 132 páginas, em grande formato, é excepcionalmente bem impressa em bom papel. Cada edição é dedicada a um tema , além de conter noticiário variado e sugestões. O tema central da edição de Outono da Aperture Magazine é “Fashion” e este número tem como editores convidados a dupla Inez & Vinoodh, que há 25 anos colaboram criando imagens invulgares de moda. Aqui estão referências à célebre responsável da Vogue Francesa Emmanuelle Alt e várias reflexões, de que destaco estas duas: a fotografia de moda foi uma incubadora de inovação e reflexão culturais, especialmente nos anos 60, 70 e 90 e, depois, a seguir ao 11 de Setembro; a outra é a que explora as ligações entre o trabalho da fotografia documental e o trabalho dos fotógrafos de moda. Destaque para os portfolios de Ed van der Elsken e de Jason Evans, este último com os trabalhos para a revista japonesa Hanatsubaki - são imagens impactantes. Há também um portfolio histórico com fotografias marcantes de Richard Avedon, Guy Bourdin, Annie Leibowitz, Bruce Weber, David Bailey, Deborah Turbeville, e Hans Feurer e uma revisitação da época de ouro das revistas britânicas como a I-D e The Face. Mais uma vez, neste número especial sobre a moda, a Aperture Magazine (disponível na Amazon), consegue conciliar a descoberta com a memória e a tradição.


VER - Destaco em primeiro lugar os meticulosos e certeiros desenhos a tinta da china de Pedro Proença em “O Nu E A Fraude”( na imagem) que estão na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18-B), onde a mitologia tem uma presença forte, e que o artista descreve como “uma reflexão sobre a escultura, a pintura e o cinema que não estão lá”.. Em segundo lugar destaco a exposição “Objectos Imediatos”, que mostra 93 obras de José Pedro Croft, feitas ao longo dos 12 últimos anos, em papel e escultura, em grande parte inéditas. Estão divididas pelo espaço do Torreão Nascente da Cordoaria e pela Fundação Carmona e Costa (Rua Soeiro Pereira Gomes 1).  Na Fundação Carmona e Costa estão 52 obras - 31 gravuras, 20 desenhos e uma escultura. As restantes 41 obras, 12 gravuras, 12 desenhos e 17 esculturas, duas das quais de grandes dimensões, estão na Cordoaria. O conjunto doa trabalhos permite perceber a ligação entre o suporte de papel e a escultura na produção de José Pedro Croft.


OUVIR - Quando comecei a ouvir o novo disco de Leonard Cohen, “Popular Problems”, surgiu-me um sorriso. Aos 80 anos Cohen continua a surpreender, a jogar maravilhosamente com as palavras. É impressionante esta capacidade que continua a mostrar. Defende-se, é claro, o seu estilo está cada vez mais próximo da fala do que do canto e os arranjos de Patrick Leonard permitem dar espaço às palavras e à sua voz, aqui e ali ajudada por outras vozes femininas. Cohen grava discos há 47 anos, antes disso escrevia canções, como a que em 1966 entregou a Judy Collins e ficou célebre - “Suzanne”. Foi a escrever poesia e ficção que fez as  primeiras edições - “Let Us Compare Mythologies”, um livro de poemas. data de 1956 e foi a sua estreia editorial. Há meio século que faz canções, grava discos, escreve livros de poesia e novelas, sempre um observador atento da vida, do amor e das relações entre as pessoas. Tem 15 livros editados, 13 discos de originais, seis mais gravados ao vivo e cinco compilações.  Neste “Popular Problems”, que me acompanha por todo o lado há umas semanas, destaco os temas “Slow”, “Almost Like The Blues”, “Did I Ever Love You”, “Nevermind” e “Born In Chains”. Conjuga o humor com o retrato dos tempos actuais, como faz logo na abertura do disco, em “Open”: “ I am slowing down the tune/ I never liked it fast/ you want to get there soon/ I want to get there last”. Portanto, uma canção deste tempo.


PROVAR - Hoje vou falar de uma instituição lisboeta que é o Bar do Hotel Ritz, situado no lobby, à direita de quem entra. O sítio, como toda a arquitectura do hotel aliás, é magnífico. Quando está bom tempo pode utilizar-se o terraço, mas a zona interior é espaçosa e confortável, dominada por uma belíssima tapeçaria a evocar motivos vinícolas. Ao longo de todo o dia o bar serve refeições ligeiras, algumas até algo elaboradas - embora estas estejam só disponíveis à hora de almoço e jantar. Durante a tarde, e sobretudo ao fim da tarde, o Bar do Ritz é um ponto incontornável de encontros entre figuras bem conhecidas da actividade empresarial, da comunicação ou da política. Há mesmo quem faça do local uma espécie de escritório e agende reuniões para o local ao longo da tarde - já vi algumas pessoas ficarem á espera, num qualquer sofá, de falar com uma personbalidade porque o encontro anterior demorou mais e ela ainda está ocupada. Mas reuniões à parte o Bar do Ritz é um local excelente para petiscar durante uma conversa. Para além da inevitável, mas exemplar, salada Caesar, há um belíssimo prego em pão especial (que pode ter ovo ou não), um hamburguer com pickles e cebola confitada ou uma sanduíche de salmão com queijo Philadelphia e endro, além daquela que é talvez a melhor sanduíche club de Lisboa. Quem quiser só tapas tem uma selecção de queijos ou de enchidos de barrancos, os apreciadores de cozinha italiana têm risottos, raviolis e sobretudo um famoso fettiucine de lagosta e camarão. De 4ª a sexta há uma carta de sushi. Destaque ainda para a carta de vinhos do Porto e de vinhos e, ao fim da tarde, para os cocktails.


DIXIT - “Não é por razões fiscais que as pessoas vão ter filhos” - Rui Morais, Presidente da Comissão de Reforma do IRS


GOSTO - Do trabalho de edição de documentários e cinema português em DVD que a Cinemateca Portuguesa,mdirigida por José Manuel Costa, começou a fazer em colaboração com o Museu de Etnologia


NÃO GOSTO - Fiscalidade verde faz subir para 19 cêntimos a diferença do preço da gasolina face a Espanha.


BACK TO BASICS - O nosso destino não está nas estrelas mas sim em nós próprios - William Shakespeare


 

outubro 24, 2014

AR ABAFADO, SALGALHADAS ESCALDANTES

XADREZ - Um estranho clima percorre o país e não é só este verão de S. Martinho, abafado e antecipado. A temperatura continua quente na Justiça e na Educação, com as confusões em torno do Orçamento de Estado, com os novos abusos do Fisco, com as pequenas guerrilhas dentro da coligação. O cenário geral de actuação do Fisco merece particular atenção e não tem só a ver com o aumento da carga fiscal - tem a ver com os abusos na cobrança do IMI relatados esta semana e tem, sobretudo, a ver com a diminuição dos direitos de defesa dos contribuintes. O Fisco tem dois comportamentos e isso tornou-se política oficial neste Orçamento: limitar os direitos de quem tem poucas condições para reclamar e manter as aparências nos restantes. Quando um sorriso é permanente há boas razões para se pensar que ele pode ser falso. A Ministra das Finanças é desse género de permanente sorriso, e talvez por isso se diga que ela tem ambições políticas - a hipocrisia é uma característica necessária no sistema que temos. Se ela enveredar pela política terá muita concorrência - perfilam-se no horizonte os candidatos a protagonistas do próximo ciclo político: em dois anos vamos ter as eleições legislativas, as presidenciais e as autárquicas. Se repararem com atenção já se estão a dispôr peões para estes três tabuleiros, até para o autárquico. Os jogos começaram a desenhar-se, mas ainda ninguém consegue dizer como eles se vão desenvolver. Imagino algumas surpresas, antevejo candidatos a mudarem de tabuleiro e imagino muita gente a dar o dito por não dito em termos de disputas de cargos.


 


SEMANADA - As novas medidas do IRS foram modificadas em diversos pontos depois de apresentadas; o responsável pelo estudo sobre a reforma do IRS considerou uma “salganhada” a cláusula de salvaguarda anunciada por Passos Coelho; um estudo da Deco calcula que o Fisco esteja a cobrar 244 milhões de euros em excesso no Imposto Municipal sobre Imóveis; os contribuintes com processos no fisco até cinco mil euros ficam sem direito a recurso aos tribunais para se poderem defender; insultar funcionários do fisco vai dar multa ou prisão até 5 anos; Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças, questionou a aplicação da Fiscalidade Verde num país com baixa competitividade como Portugal; as confusões sobre a sobretaxa do IRS e na educação criaram mal estar na coligação; as negociações sobre uma eventual nova coligação só começarão no início de 2015; no momento da despedida Durão Barroso disse que a União Europeia tinha ficado mais forte depois da crise e confessou que, ao longo dos dez anos em que foi Presidente da Comissão Europeia, perdeu “as ilusões”; um docente que já estava colocado nos Açores, foi simultaneamente colocado em mais 95 escolas por todo o país e, em consequência, cerca de dois mil alunos continuaram sem aulas; Passos Coelho elogiou a determinação de Nuno Crato; os gastos em estudos e pareceres no Estado sobem 32% no orçamento para 2015, atingindo 766 milhões, contra 581 milhões este ano; os ninhos de cegonha em Portugal aumentaram 50% nos ultimos dez anos; seis em cada dez lisboetas não utilizam transportes públicos; a partir de 2015, em todas as salas de cinema da NOS, será possível consumir pipocas portuguesas feitas a partir de 400 toneladas de milho que serão compradas a 10 produtores nacionais.


 


ARCO DA VELHA - A coisa já é sobejamente conhecida mas não resisto: Os Juízes do Supremo Tribunal Administrativo reduziram a indemnização a uma mulher alegando que “aos 50 anos a actividade sexual não tem a importância que assume em idades mais jovens”. A mulher, na sequência de um erro médico numa cirurgia, nunca mais conseguiu ter relações sexuais após a operação. Não é só o Citius que não funciona na justiça portuguesa.


 


FOLHEAR - A edição de Novembro da revista “Monocle” tem a arquitectura e o design como pratos principais, mas há bastante mais para ler. Um dos artigos interessantes é sobre a divisão, ainda hoje existente, dos Ministérios do Governo federal Alemão, entre Bona e Berlim, 25 anos depois da queda do Muro. Outro curioso artigo é sobre  as mudanças que o novo adido cultural da França em Nova Iorque está a introduzir, com o objectivo de tentar fazer renascer a francofonia no outro lado do Atlântico - algo que podia ser lido pela diplomacia portuguesa, em prol da lusofonia, claro. Ainda dentro dos temas culturais destaque para o primeiro de uma série de artigos sobre a criatividade na concepção de novos espaços, no caso uma galeria de arte em Los Angeles, “The Mistake Room”, Passando para o lado das cidades um dos destaques vai para Istambul, com uma boa proposta de roteiro. No Design Directory há um destaque para o Bairro da Bouça, no Porto, um projecto de habitação social, e ainda duas referências adicionais a Portugal: uma à empresa O Editorial que produz as tábuas de cozinha e de servir tapas desenhadas por Gonçalo Prudêncio,  e a outra à cadeira Aranha, desenhada por Marco Sousa Santos e produzida pela Branca, em Paços de Ferreira. A terminar, mais dois destaques - um para o belíssimo relato de um almoço com Gay Talese em Nova Iorque, um dos mentores do New Journalism; e o outro vai para o editorial de Tyler Brulé, que reflecte de forma acertada, mas polémica, sobre a decadência da imprensa e as razões de tal situação, e os modelos de negócio seguidos por alguns jornais no digital. Atrevo-me a dizer que é leitura obrigatória para quem trabalha em qualquer disciplina da comunicação.


 


VER - Há para ver, nos próximos tempos, dois documentários sobre música bem distintos, ambos com um longo processo de gestação. Vou começar por “Uivo” (na foto), um documentário sobre o radialista, editor e produtor António Sérgio, que morreu em 31 de Outubro de 2009. No Facebook há uma página intitulada “Eu aprendi a ouvir música com António Sérgio”, que é por si só o testemunho de uma geração que descobriu faces menos óbvias da edição discográfica através dos seus programas radiofónicos, como “A Hora do Lobo”, “Som da Frente” ou “Lança Chamas”. O produtor e realizador do “Uivo”é Eduardo Morais, que já se tinha aventurado antes, noutro documentário sobre a temática do rock,  “Meio Metro de Pedra”, que traçou um panorama da produção portuguesa desde a década de 50. O “Uivo” vai ser estreado dia 1 de Novembro no Palácio Foz e ao mesmo tempo será apresentado o livro “O Uivo da Matilha”, de Ana Cristina Ferrão. mulher e colaboradora de António Sérgio, que com ele trabalhou intensamente.


O outro documentário, bem diferente, vem assinado por Bruno de Almeida, chama-se “Fado”, e foi realizado sobre o trabalho de Camané, a partir da gravação do disco “Sei de Mim”, de 2008. Depois de um documentário sobre Amália, esta é a segunda incursão de Brunco de Almeida no Fado. O documentário estreou por estes dias no Doc Lisboa e é uma viagem ao processo de criação de um disco, que, no caso, mostra também a importância do trabalho do produtor, que foi José Mário Branco.


OUVIR - Entre as Caldas da Rainha e Londres nasceram Los Waves - com uma formação mutante que passou do duo inicial ao quarteto actual. A banda tem feito uma carreira internacional desde que se estreou em Londres, em 2011 e este seu primeiro álbum é editado praticamente em simultâneo nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Portugal. Los Waves cruzam vários estilos, é possível detectar influências que vão da new wave à pop urbana, aqui e ali com uns laivos psicadélicos. Há uma coisa curiosa neste “This Is Los Waves So What?”, que é o facto dos 11 temas manterem uma qualidade homogénea ao ponto de haver quem diga que este álbum é um somatório de singles. Talvez por isso mesmo já há canções de Los Waves nas bandas sonoras de séries como”Gossip Girsl” e “Mentes Criminosas” e em filmes como “Veronica Mars”, “Enough Said”  ou “Cradle Of Storms”. “Golden Maps” foi a canção que ganhou notoriedade no festival South By Southwest e abriu-lhes as portas da América. Claro que está neste disco, que tem tanto de inesperado como de atraente.


 


PROVAR - Quando se fala em éclairs o que vem à mente são bolos, doces, uma das delícias da pastelaria francesa. Acontece que também há éclairs salgados, que podem ser acompanhados por uma salada e assim constituir uma refeição. O admirável mundo dos novos éclairs chegou a Lisboa, mais precisamente à Avenida Duque de Ávila 44. Nos dias bons há uma esplanada no passeio e a sala é espaçosa e elegante. “L´Éclair” é obra de um jovem pasteleiro francês, de 26 anos, Mathieu Croiger, que decidiu experimentar a sua arte e a sorte em Lisboa. O local é cuidado na apresentação e exemplar no serviço, muitas vezes com o próprio dono presente. E além dos éclairs doces ou salgados, há macarons que podem ser invulgares, como os de pistáchio ou de alfazema, e o clássico pain au chocolat. Logo de manhã, que a casa funciona cedo, há deliciosos crosissants bem frescos para o pequeno almoço. Está aberto de segunda a sexta das 07h30 às 20h00 e ao fim de semana das 09h30 às 19h00. Podem ser encomendados éclairs ao metro, para ocasiões especiais, num dos 15 sabores disponíveis. E volta e meia há surpresas, como o éclair de amendoim com uma pitada de flor de sal.


 


DIXIT - “Vocês aqui fazem descontos a deputados?” - parlamentar cujo nome não foi revelado em pergunta ao dono do restaurante “XL”, perto da Assembleia da República, citado pelo jornal “i”.


 


GOSTO - Da série “Os Anos 90”, transmitida às quartas-feiras pelo canal National Geographic.


 


NÃO GOSTO - Os processos judiciais de cobranças de dívidas ainda não estão no Citius.


 


BACK TO BASICS - Quanto mais se observa a política mais se tem a noção que os partidos são todos o mesmo, a única diferença é que aqueles que estão na oposição prometem sempre um mundo melhor - Will Rogers


 

outubro 17, 2014

SOBRE O SENTIMENTO DOS TRIPULANTES DE OVNIS EM PORTUGAL

OVNI  - Um observador neutral que, de repente, no decurso desta semana, tivesse aterrado no país, saído de um OVNI, depois de ouvir as declarações de Passos Coelho sobre o Orçamento de Estado, diria que o Primeiro Ministro está farto de ser Governo e se quer ir embora logo que possível. Essa poderá ser a única explicação para o Governo ter desistido de rever a carga fiscal dos cidadãos em 2015, ter inventado mais umas taxas com desculpas ecológicas e, de um modo geral, ter continuado a ser mais papista que o Papa em matéria de austeridade. Já se viu que o Orçamento é baseado na perspectiva de a receita fiscal crescer o triplo da economia, o que diz tudo sobre a estratégia que se deseja para o país. O facto de existir um efectivo agravamento da carga fiscal obrigou a Ministra das Finanças a malabarismos de contorcionismo intelectual para o tentar esconder. A apresentação do Orçamento decorreu sob o espectro de crises graves na justiça e na educação, que deixaram marcas em dois sectores que tocam toda a população. Vozes de dentro do PSD, como Marques Mendes, já começaram a insinuar a necessidade de uma remodelação que substitua as figuras que notoriamente não provaram ser capazes. A crise nos tribunais, que demorou mais de um mês a resolver, foi no entanto pouca coisa comparada com o caos no arranque do ano lectivo - por muitas ideias que tenha, Nuno Crato perdeu no ponto crítico ao dar razão aos professores sobre a situação de descalabro no seu Ministério. Esse é porventura o custo mais grave de uma gestão política inábil de toda a situação. A nova oposição também não está muito melhor: António Costa apressou-se a reivindicar a demissão de Crato - mas menos de 24 horas depois foi literalmente inundado, numa demonstração de falta de organização da Câmara Municipal a que preside. Para agravar as coisas recorreu a um  sentido de humor bem negro - parece que a culpa das inundações, na versão oficial da autarquia, foi de ter chovido e Costa afirmou alto e bom som que não ha solução para as inundações em Lisboa. Se seguir raciocínio idêntico para o país o pequeno rectângulo afunda-se de vez. Entre uns e outros venha o diabo e escolha, pensa com os seus botões o observador que saíu do OVNI.


 


SEMANADA - Bruxelas pediu mais austeridade para o Governo não agravar o défice; diversos fiscalistas vêem falta de transparência na solução apresentada para a sobretaxa do IRS; o Orçamento não indica nenhuma diminuição de impostos; o líder parlamentar do PSD congratulou-se por não haver nenhum aumento de impostos; o CDS tinha reivindicado uma diminuição da carga fiscal em 2015; o Orçamento prevê que receita total dos impostos cresça 4,7%, o triplo do crescimento estimado do PIB que é de 1,5% ; quatro autarquias já pediram ajuda de emergência ao Governo; no último ano aumentou em dez mil o numero de milionários portugueses, há agora 76 mil portugueses com um património de um milhão de dolares ou superior; os portugueses trabalham mais 300 horas por ano que os alemães; a quantidade de empregos vagos em Portugal daria apenas para ocupar 2,74% dos desempregados; mais de metade dos europdeputados exerce actividades fora do parlamento europeu; o preço dos combustíveis não está a companhar a descida do preço do petróleo, que já atingiu o mínino dos últimos quatro anos; o Porto de Lisboa perdeu tráfego e recuou para níveis de há doze anos; Cavaco Silva pediu reflexão sobre o modelo de colocação de professores; já há escolas a eliminar matéria que não vão conseguir dar por falta de tempo devido aos atrasos no começo das aulas; António José Seguro vai dar aulas de Teoria do Estado no curso de Relações Internacionais e a sua turma tem 12 alunos; em Coimbra a nova moda é atirar carros de compras do supermercado ao Mondego no final do desfile dos caloiros.


 


ARCO DA VELHA - Vitor Bento foi Presidente do BES sem nunca perder a ligação ao Banco de Portugal, do qual ainda é funcionário, e onde gozava de uma licença sem vencimento desde que foi para a SIBS em 2000.


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da revista “Wired” é o número anual dedicado ao design e, para além de conter um mostruário de gadgets e de tendências, apresenta este ano “Dez Lições Para Uma Nova Era”. É um repositório de ideias, de evocações, de incursões no mundo novo, dos objectos de decoração às próteses para o corpo, passando pela arquitectura, por novas empresas, pela moda e pela recuperação das suas marcas (o exemplo da Burberry), pelo equipamento tecnológico da Nike, pelos drones e pelo poder da imaginação e da criatividade da mente humana. É uma edição para guardar, onde poderão ainda encontrar artigos sobre como se podem fazer partes de esqueleto com uma impressora 3D ou uma conversa com o Monty Python Terry Gilliam.


 


VER - A Sala do Veado fica na Faculdade de CIências , na Rua da Escola Politénica. É um espaço amplo e austero, despido, onde a relação entre o lugar das obras e a configuração da sala é por si só um desafio. Ana Vidigal aceitou o desafio e mostra pedaços da sua vida, entre imagens, leituras e objectos De 2 de Outubro a 2 de Novembro, “Où Va-t’-on?”,(na foto) uma obra única com três elemantos - uma série de 90 Polaroids, trabalhadas em técnica mista com recurso a banda desenhada e comentários manuscritos, e duas pequenas vitrinas onde estão um veado em porcelana e um bambi num dispensador de pastilhas Pez. Mais uma vez Ana Vidigal mostra o seu humor e sentido de observação aplicado ao quotidiano e a evocações do seu próprio passado. Uma outra exposição a visitar - é a de Inez Teixeira, “No Vazio da Onda”, que vai estar até 30 de Dezembro  no Teatro Municipal Joaquim Benite, de Almada. É uma pena que durante a semana estas exposições estejam tão vazias e que a promoção seja tão pontual e dirigida fundamentalmente ao momento da inauguração. Qualquer uma destas duas exposições merece atenção.


 


OUVIR - Desta vez proponho um DVD e um CD. O DVD é de Sting, acompanhado em palco por uma orquestra de 14 músicos. Dentro do horário previsto Sting apresentou este mês na Broadway “The Last Ship”, uma peça de teatro musical baseada no seu disco de final do ano passado. A coincidir com a estreia Sting editou um DVD que  reproduz um concerto realizado no Public Theatre de Nova Iorque, e apresenta 15 temas, em vez das onze que estavam no CD do ano passado e que foi o seu primeiro disco de originais nos últimos dez anos . “The Last Ship” conta a história do declínio da indústria de construção naval em Newcastle, onde Sting cresceu. Há uma forte influência de música folk, e como aqui escrevi quando o disco saíu,  “as canções não são para brincadeiras, contam histórias duras, abordam rupturas familiares e tensões dentro da comunidade, mas também casos de amor e desejo, como em “I Love Her So But She Loves Someone Else””. O segundo disco é um resumo da carreira de Madeleine Peyroux, uma cantora de jazz americana com quase 20 anos de carreira (o seu primeiro disco é de 1996). Trata-se de um duplo CD com 27 canções, que percorre muitos dos seus temas originais mas também versões de canções alheias que ela incorporou no seu cancioneiro. Eu gosto do estilo desprendido de Madeleine Peyroux e mesmo nos discos de estúdio ela canta como se estivesse num cabaret frente ao público. Não exagero se disser que ela é uma das minhas cantoras preferidas, bem longe de algumas coisas delico-doces que por aí abundam.


 


PROVAR - A Quinta do Monte d’Oiro, de José Banto dos Santos, já nos habituou a reservas de grande qualidade. A de 2010, agora colocada no mercado, distingue-se pelo aroma e suavidade na fruta, pela presença discreta da madeira, pelo final longo. Este vinho, da região de Lisboa, é feito com 95% de casta Syrah e 5% de casta Viognier. Este Reserva já vai na 12ª colheita, de uma vinha plantada em 1992  e tem-se mostrado consistente na qualidade, progressivamente mais apurado e requintado. É porventura das melhores reservas de produtores portugueses, um tinto verdadeiramente excepcional que vai bem com pratos de caça e carnes intensas.


 


DIXIT - “Com este elenco governativo nem vale a pena concorrer às próximas eleições” - António Lobo Xavier


 


GOSTO -  A Weso, uma orquestra portuguesa especializada em bandas sonoras para a indústria cinematográfica, venceu a 6ª edição do Prémio Nacional Indústrias Criativas Super Bock/Serralves.


 


NÃO GOSTO - Nuno Crato continua sem dizer quando estará resolvida a colocação de professores.


 


BACK TO BASICS - “Já houve um tempo em que tudo era muito melhor, até o futuro” - Nir Hod, artista plástico, numa exposição em Nova Iorque

outubro 13, 2014

VEM AÌ MUITA RETÓRICA E FARTO FALATÓRIO

ANIMAÇÃO - As duas primeiras acções politicamente relevantes de António Costa após a sua vitória foram fazer a partilha de lugares dentro do PS na proporção dos votos das primárias e ir discursar no Congresso do partido Livre: um sinal interno e outro externo, à sua esquerda. E logo a seguir começou a marcar território - mesmo sem conhecer o documento, Costa já decidiu: vai votar contra o Orçamento de Estado que o Governo irá apresentar. Com o espectro do novo partido de Marinho Pinto no ar, as eleições legislativas do próximo ano já motivam jogadas de xadrez por todo o lado. Na área do Governo, o CDS/PP abriu com estrondo a frente da diminuição da carga fiscal e o PSD não perdeu tempo a deixar correr rumores de que admite que a actual coligação se desfaça. Fica na dúvida se mais este arrufo público de Passos e Portas não será o primeiro acto de uma negociação que permita fazer nascer das cinzas desta coligação um novo acordo, cheio de oportunas medidas em véspera de eleições. Tudo indica que este vai ser um ano de muita retórica, de imenso falatório, de muitas "photo opportunities" e de numerosos rumores e boatos. A coisa promete.

SEMANADA - Há 15 mil imóveis, que eram do BES, com um valor estimado de dois mil milhões de euros, os quais, por falta de enquadramento legal, não podem ser negociados e são activos mortos; segundo o “i” Ricardo Salgado recusou explicar à família porque tinha recebido "uma liberalidade" de 14 milhões de euros do empreiteiro José Guilherme; segundo o mesmo jornal Ricardo Salgado terá dito, noutra ocasiāo, sobre a questão das comissōes de 15 milhōes da Escom, relativas ao negócio dos submarinos, que houve "uma parte que teve de ser paga a alguém em determinado dia", e obviamente não revelou o misterioso destinatário, que deve ter ficado preocupado; no primeiro semestre deste ano os sete maiores bancos já fecharam quase 200 balcões no país; os prazos nos tribunais foram suspensos até o Citius funcionar; sobre a situação no PS o título mais curioso foi “Seguristas seguram-se"; dos projectos apresentados pelo Centro Português Para a Cooperaçãao, a ONG ligada a Passos Coelho, só se concretizou um curso de costura na Pedreira dos Húngaros; Marinho Pinto mostrou-se disposto, no seu novo partido, a fazer alianças “até com o Diabo” se as considerar úteis; António Costa foi discursar ao congresso do partido Livre; um estudo da Uniāo Europeia estima que em 27 anos o programa Erasmus, que incentiva a mobilidade entre estudantes, gerou mais de um milhāo de bebés; em plena crise Tecnoforma Passos Coelho assistiu à final do europeu de ténis de mesa, sem aparato e sem vaias e quis o destino que aplaudisse a vitória de Portugal sobre a Alemanha, feito raro nos últimos tempos.

ARCO DA VELHA - Todos os anos desperdiçamos dois mil milhões de euros em combustível nas filas de trânsito, feitas as contas são cinco milhões de euros por dia.

FOLHEAR - A revista “Intelligent Life” é publicada de dois em dois meses e integra o grupo editorial da revista semanal “The Economist”. Tem edição em papel com distribuição normal e uma bela aplicação para iPad, oferecida gratuitamente graças ao Credit Suisse , que patrocina a edição digital. Na edição de Setembro/Outubro destaco um ensaio fotográfico sobre Myanmar por Mathias Messner, uma investigação sobre a vida real da mulher que inspirou a Madame Bovary de Flaubert - qual das mulheres da vida do escritor era Emma Bovary? Uma das colunas incontornáveis da publicação é “The Wine-List Inspector” onde Tim Atkin, desta vez, lança pistas sobre o que há a descobrir nos vinhos turcos. Outras colunas imperdíveis: sobre desporto ( “Reading The Game”) e culinária (“The Kitchen Dialogues” ). Uma secção que vale a pena ler é a agenda cultural, informativa, não sectária, a descobrir novas tendências e novos protagonistas. Finalmente o prato forte desta edição é um suplemento especial, “Inspiring Innovation” que conta com colaborações de David Lynch sobre Mikhail Gromov, James Lovelock sobre Charles Harington, Jimmy Wales sobre JJ Abrams, Jazzie B on sobre James Brown, Sophie Wilson sobre Isaac Asimov e Frances Corner sobre Yohji Yamamoto.

VER -  Mário Macilau é um fotógrafo Moçambicano, que vive em Maputo e nasceu em 1984. Esteve na edição do BES Photo de 2011, expôs nos festivais de de Bamaki e de Arles e é o director do novo Maputo Foto Fest , que se vai estrear em 2015. Algumas das suas obras mais recentes podem ser vistas na Galeria Belo-Galsterer, Rua Castilho 71, r/c esq, sob o título “Moments Of Transition”. O projecto visa fotografar jovens de Maputo que ao Domingo se vestem com redobrados cuidados, combinando peças de marcas globais com peças feitas de capulanas, numa mistura estilizada e elegante, muito individualizada. Macilau selecciona as personagens que lhe parecem mais interessantes, convence-as a serem fotografadas em estúdio e estas imagens são o fruto desse trabalho - é um projecto que segue uma ideia que anteriormente foi explorada por nomes da fotografia africana como Malick Sidibé e Seydou Keita, ambos do Mali, ambos explorando a identidade e cultura de quem fotografaram, documentando tradições e novos conceitos de comportamento. Num outro plano é curioso comparar este trabalho de Macilau com as imagens de “Olhar o Futuro”, de Luisa Ferreira, feitas em 2012 e que estão expostas na Galeria do Ministério da Saúde (Avenida João Crisóstomo nº9). “Olhar O Futuro” retrata uma comunidade de jovens portugueses fotografados em grupo e individualmente, sempre enquadrados no mesmo cenário natural.

OUVIR - Richard Bona é um músico nascido numa pequena aldeia dos Camarões, em 1967. Começou por tocar guitarra em grupos de baile, mas evoluíu muito depressa para o território do jazz e para o baixo eléctrico. Em 1989 foi para Paris e em 1985 rumou a Nova Iorque, onde ganhou reputação como um dos mais interessantes baixistas. Em 1999, após numerosas gravações como músico de estúdio, editou o seu primeiro disco a solo, “Scenes From My Life”. Ao longo dos últimos anos reforçou o seu trabalho como produtor e “Bonafied”, agora editado, é o seu sétimo álbum. É um álbum intimista, o lado acústico ganhou força e a mistura de géneros surge natural - desde o jazz latino de “Mute Esukudu” aos tango de “An Uprising of Kindness”, passando pelo afro-pop de “Diba La Bobe”, até cançōes de cabaret como “Janjo la Maya”. A música dos Camarões é evocada em “Tumba la Nyama”, mas a grande faixa do disco é talvez “Mulema”, com guitarra acústica e percussão, recorrendo também ao tradicional balafon, um instrumento africano que faz lembrar o xilofone. A canção relata a viagem de um homem no oceano em busca da sua amada. No disco há uma outra versão da mesma canção, interpretada pela francesa Camille e que tem por título “La Filla d’a Coté”, e que conta a história na perspectiva da amada que não sabe onde está o seu homem.  Finalmente, a terminar o CD, há uma versão instrumental de um original de James Taylor “On The Fourth Of July” , onde Bona segue as pisadas da sua maior influência no jazz, o baixista Jaco Pastorius. “Bonafied”, Richard Bona, CD Universal, diusponível em Portugal.

PROVAR - Depois de uma incursão, há uns meses, à hora de almoço, fui desta vez experimentar o Restaurante Avenue ao jantar. O Avenue fica na Avenida da Liberdade, paredes meias com o Hotel Sofitel, num primeiro andar. A sala dá para a avenida e em qualquer das mesas junto à janela tem-se uma belíssima vista. A sala estava bem composta, o serviço foi atento e, mais uma vez, a cozinha, a cargo da Chef Marlene Vieira, excedeu as expectativas. O menu executivo proposto ao almoço vale 20 euros sem bebidas e à noite o menu proposto está cheio de tentações. Marlene Vieira foi anteriormente a Chef residente do restaurante Manifesto e trabalhou com Luis Baena. O couvert proposto inclui pão e duas manteigas - uma de torresmos (que é deliciosa) e outra de cabra com ervas. Para a mesa vieram ainda uns peixinhos da horta perfeitos e estaladiços com maionese de coentros. A escolha da lista recaíu numa asa de raia corada com lavagante e terrina de courgettes, e num pregado com molho de ostras e legumes glaceados, ambos a fazer jus à reputação da Chef. A terminar, um gelado de pastel de nata, o ponto mais fraco do jantar.  Ampla lista de vinhos, recomendações acertadas e de preço honesto para vinho a copo. Serviço atento e eficaz.  Avenida da Liberdade 129 B, telefone 216 017 127.

DIXIT - “Agora (António Costa) tem de se explicar em público em vez de ouvir olimpicamente, na Quadratura do Círculo, a oposição que Pacheco Pereira fazia por ele” - Vasco Pulido Valente.

GOSTO - Da nova imagem do portal Sapo

NÃO GOSTO - Este ano já emigraram mais de 300 médicos

BACK TO BASICS - “Quando há falta de ideias, falar bem dá muito jeito” - Goethe

outubro 03, 2014

BATALHAS FLORAIS NO HORIZONTE POLÍTICO

FLORES - Durante o próximo ano vamos assistir a um despique curioso. De um lado está António Costa, que, aposto, permanecerá até ao limite do possível na autarquia lisboeta, e que vai usar a sua função de Presidente da Câmara para fazer umas flores de sedução eleitoral, tentando dar uma ideia do que poderá vir a praticar no país, se chegar a Primeiro-Ministro; do outro estará Passos Coelho, a ver se consegue fazer crescer algumas flores no território devastado que é Portugal. Tenho a tentação de dizer que ambos se vão dedicar à jardinagem, para que os eleitores possam escolher entre os respectivos arranjos florais. A coisa seria divertida se não fosse trágica: de um lado um recém eleito líder da oposição que foge de dizer que medidas e políticas quer implementar; do outro um Primeiro Ministro desgastado pela obediência cega à Europa e que desistiu de criar um projecto para o país. Ambos têm em comum a actividade política continuada desde a adolescência, ambos dedicaram o essencial da sua vida adulta à actividade nos respectivos partidos, ambos são um exemplo daquilo que esses partidos produzem no seu interior. Olhando para o que têm feito, olhando para como se têm comportado, não se pode dizer que sejam um exemplo estimulante para gerações futuras. Ambos pertencem à mesma geração, têm em comum a persistência, a teimosia, uma agenda própria que ultrapassa a do respectivo partido e alguma indiferença pelo que os outros dizem. Ambos vão ter que olhar para o mesmo sítio no próximo ano: para o eleitorado do centro que, mais uma vez, será o decisivo. António Costa vai procurar federar a esquerda que lhe quiser dar boleia, como aconteceu já em Lisboa - mas não se pode arriscar a perder o centro; e Passos vai ter que manter apoios à direita sem perder de vista o eleitorado que está à sua esquerda. Vai ser um ano interessante - cheio de batalhas florais.


 


SEMANADA - Domingo, no início das votações para as primárias do PS, a candidatura de António Costa enviou um SMS apelando ao voto e, mais tarde, depois de reclamações e protestos, afirmou que se tratava de um erro processual, opinião que foi partilhada por Jorge Coelho, que dirigia o processo eleitoral; Enquanto António José Seguro ficou na sede do PS, no Largo do Rato, António Costa preferiu utilizar a sede da Assembleia Municipal de Lisboa, um edifício que é propriedade da Câmara que dirige; nas eleições para as federações distritais do PS realizadas no início de Setembro, e onde só votaram militantes inscritos, António José Seguro recolheu 51,2% dos votos contra 48,8% dos candidatos apoiados por António Costa, mas nas eleições primárias de Domingo passado, abertas a militantes e simpatizantes, António Costa ganhou com larga vantagem ao obter 67,88% dos votos, contra 31,65% registados a favor de António José Seguro; António Costa “tem predisposição e vontade” para envolver apoiantes de Seguro, disse fonte próxima do novo líder; António Costa nomeou Ferro Rodrigues líder da bancada parlamentar do PS; Jerónimo de Sousa disse que “o PS mudou as caras mas não apresentou alternativa” ; alguns jornais indianos festejaram a vitória de António Costa e dizem que ele é conhecido por “Gandhi de Lisboa devido ao seu estilo de vida espartano”; o salário mínimo aumentou para 505 euros a 1 de Outubro; 78% dos pensionistas têm pensões de velhice inferiores ao salário mínimo;  apenas metade das pessoas entre os 55 e 64 anos estão activas e a trabalhar; a família Espírito Santo terá recebido cinco dos cerca de 30 milhões de euros pagos à Escom por serviços de consultoria no caso da compra dos submarinos; um artesão de Barcelos, Joaquim Esteves, provocou o caso parlamentar da semana com a exposição, no Parlamento, de bustos de barro de todos os Presidentes da República, incluindo os do período da ditadura - a exposição foi proposta à Assembleia da República pela autarquia de Barcelos, do PS.


 


ARCO DA VELHA - Em Santo Tirso a autarquia, governada pelo PS, entregou por ajuste directo, no valor de 33 mil euros, a produção de uma revista municipal a uma empresa de fabrico de mobiliário.


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da revista Wallpaper tem a capa desenhada por Frank Gehry e lá dentro tem fotografias do novo edifício da Fundação Louis Vuitton, em Paris,  desenhado por Gehry que são uma espécie de injecção de ciúmes para aquilo que Lisboa perdeu por obra e graça do então inquilino de Belém, Jorge Sampaio - para os mais distraídos recordo que o projecto de Gehry para o Parque Mayer foi vetado pelo Presidente da República da época. Frank Gehry é aliás um dos editores desta edição da revista, ao lado de Jean Nouvel - um número de luxo. Enquanto Gehry mostra o seu espectacular edifício novo, em Paris, Nouvel mostra alguns dos monumentos que criou ao longo das duas últimas décadas e também alguns dos seus projectos futuros. Outros destaques são o top 100 de peças de design, um portfolio sobre as aventuras no rock’n’roll de Heidi Slimane (onde ela sugere apenas o que nunca mostra) e a short list dos melhores novos hotéis de cidade, onde figura o lisboeta Memmo Alfama. É precioso este número da Wallpaper. Uma coisa de coleccionadores.


 


VER - Sandra Vásquez de la Horra é chilena, vive há anos na Alemanha, tem um sentido de observação que  propulsiona uma imaginação furiosa e desenha com um traço vigoroso que consegue reproduzir o que lhe vai no pensamento. Não é coisa pouca. O seu trabalho tem raízes na tradição popular e na literatura fantástica da América do Sul, o imaginário chileno está presente, a figura feminina assume o papel principal na sua obra, com as personagens a criarem permanentes manifestos de afirmação do seu corpo, entre a provocação e o recolhimento. A exposição, na Galeria João Esteves de Oliveira, “Todas íbamos a ser reinas” inclui 30 desenhos e uma série de 9 gravuras, de uma edição de 25. Sandra Vásquez de la Horra foi vencedora do prémio Fundação Guerlain em 2009 e o seu trabalho estará na Galeria João Esteves de Oliveira, até 21 de Novembro - Rua Ivens 38, às segundas-feiras entre as 15h00 e as 19h30 e de terça a sábado das 11 às 19h30.


OUVIR - Os Boo Radley tiveram mais um fogacho de fama nos anos 90 graças a canções como “Wake Up Boo”. O grupo tornou-se um precursor do renascimento do britpop. Não é de estranhar que Martin Carr, então autor das canções e guitarrista da banda, seja um assumido seguidor dos cânones pop, com um grau de ecletismo que neste seu álbum a solo, “The Breaks”, lhe permite revisitar desde Style Council a Eagles, passando por Smiths ou Elvis Costello por exemplo. A revisitação faz-se pela forma de sugestão de uns acordes, uns truques de vocalizações e de construção de letras, de que o melhor exemplo será “St. Peter in Chains”. “The Breaks” é basicamente uma operação de revivalismo do britpop em que os Boo Radleys se inseriam. Digamos que este é um disco de variedades, feito com grande know how e apurada execução. As pilhagens de inspiração são feitas em bons sítios e o resultado tem sido elogiado. Quem quer recordar o pop antigo encontra motivos de satisfação, mesmo quen passageira. Como dizia o outro, “ a splendid time is guaranteed for all” - desde que queiram passar por lá. Se ouvirem com atenção o tema “I Don’t Think I’ll Make It” ficarão convencidos.


 


PROVAR - Os grandes apreciadores de atum dizem que  a ventresca é a parte mais apreciada do peixe. Há quem diga que a ventresca está para o atum como os secretos estão para o porco preto. E o que é afinal a ventresca? - trata-se da parte muscular que forra a cavidade abdominal do peixe. Tem um sabor intenso e uma textura irregular. Prová-la bem fresca é experimentar um manjar único - mas é difícil de encontrar. Felizmente há quem faça belíssimas conservas de ventresca de atum, como a açoreana fábrica Corretora. Experimente abrir uma lata, partir a ventresca aos pedaços e servi-la com quadrados de requeijão bem fresco aromatizado com cebolimho. É uma entrada magnífica, mais ainda se deixar ao acaso umas finíssimas fatias de pepino cortadas em mandolina. Vai ver que ninguém resiste. É uma entrada simples e barata. O pepino encontra em qualquer lado, as conservas da Corretora estão no gourmet do Corte Inglés e um bom requeijáo também por lá existe. Duas latas, um requeijão e meio pepino fazem a festa para quatro. A Corretora é uma fábrica de conservas localizada nos Açores, em Ponta Delgada e existe desde 1913, há mais de cem anos portanto. 


 


DIXIT - “É o estilo missionário, mais do que as suas origens indianas, que fizeram Costa ganhar a alcunha de Gandhi de Lisboa” - Andrée-Marie-Dussault, “Outlook India”.


 


GOSTO - Da nova imagem gráfica da Câmara Municipal do Porto


 


NÃO GOSTO - Por causa dos problemas informáticos os distritos judiciais de Lisboa e do porto optaram por deixar de lado os julgamentos dos crimes mais graves.


 


BACK TO BASICS - “O grande problema da vida dos políticos é que alguém está sempre a querer interromper com uma eleição o que eles fazem ” - Will Rogers


 

setembro 26, 2014

SOBRE A INFLUÊNCIA DO VAZIO POLÍTICO NAS AUDIÊNCIAS TELEVISIVAS

VAZIO - Segundo a opinião da generalidade dos analistas, os debates entre Seguro e Costa foram vazios de conteúdo político e a coisa piorou para o final, quando a conversa entre ambos endureceu e, da troca de ideias, se passou para a troca de galhardetes pessoais e, depois, para quase insultos. Rezam ainda os analistas que o primeiro debate, na TVI, terá sido ganho por Seguro, que nesse dia teve pela frente um pachorrento Costa que replicou a imagem diletante que apresenta na sua descansada “Quadratura do Círculo”. Acontece no entanto que esse debate, na TVI, foi o que teve maior número de espectadores em relação aos outros dois. Os números são estes: o debate final, realizado terça 23 de Setembro na RTP1, registou um share médio de audiência de 20,5%; o debate  que tinha sido realizado na SIC no dia 10 de Setembro obteve um share de 25,1% e o debate de estreia, na TVI, a 9 de Setembro, registou 32,8% de share. Para além da evidência que é o facto de a TVI ser a líder de audiências, neste particular faço notar que o share do primeiro debate esteve acima do share médio da estação naquele horário - o que legitimamente deixa pensar que havia alguma expectativa. A expectativa saíu furada e nos debates seguintes a coisa foi sempre a cair. A narrativa da novela da política nunca foi suficiente para bater a intriga das telenovelas de ficção que concorreram nesse horário. O caso dá duplamente que pensar - pela indiferença relativa das audiências e pela fraca qualidade dos debates - para não falar já da ausência de conteúdo programático e político. Vamos então ter primárias, nas quais os eleitores socialistas votarão gostos pessoais e a capacidade de insultar o adversário - porque ideias políticas não existem. Numas eleições para escolher o candidato do principal partido da oposição a Primeiro Ministro a ausência de estratégias para o país é, pelo menos, estranha.


 


SEMANADA  - “Há três anos que o País tem uma greve a cada cinco dias”; “Notas de dez euros ainda não circulavam e já havia burlas”; “Quanto valem as cagarras das Selvagens?”; “Ministério público valida acusações contra Meneses”; “Passos pede à PGR que investigue factos de que não se recorda”; “Ministra diz que já não há juízes a olhar para o ar”; “Salário mínimo sobe um café por dia”; “Menezes paga 72 mil euros por livro”; “Último debate marcado por insultos e populismo”; “No debate mais duro de todos quase não se falou de governação”; ”Comerciantes da baixa dizem que um dia ainda serão engolidos pelo rio”; “Forte chuva deixou meia Lisboa submersa e a Câmara queixa-se de falta de aviso”;  “Bloco de Esquerda leva piropo ao Parlamento com punição até três anos”; “Bloco de Esquerda repensa liderança bicéfala”; “Bloco de Esquerda volta a levar ao Parlamento adopção por casais do mesmo sexo”; “Deputados ganham mais do que médicos, juízes e professores”; “Há 2100 polícias que têm direito a dispensa sindical, é evidente que há esquadras que não têm capacidade de assegurar serviços mínimos”; “Calotes nas Ex-Scut entopem finanças”; “Madeira extinguiu departamentos investigados por ocultação de dívidas”; “Lisboa não aguenta uma chuvada”; “Prostituta agride cliente que só pagou cinco euros”; “É difícil conseguir autorização para grafitar”; “Castro Marim tem menos habitantes do que camas turísticas aprovadas”; “Fernando Santos não estará no banco, mas já montou engenharia”. (Todas estas frases são extraídas de títulos de jornais dos últimos dias)


 


ARCO DA VELHA - A polícia do Vaticano prendeu o arcebispo Józef Wesolowski,acusado de pedofilia enquanto representante papal na República Dominicana.É a primeira vez que uma medida deste género é tomada contra alguém com um alto cargo na Santa Sé.


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da “Monocle” é dedicada à diplomacia e aos seus enredos e o artigo de entrada é obviamente sobre as Nações Unidas, o seu Conselho de Segurança e as suas ligações por todo o planeta. Na secção internacional há um artigo curioso sobre o rebranding das Ilhas Canárias, particularmente em foco nestes dias, as quais adoptaram agora o slogan “European Business Hub To Africa”. Um dos destaques da edição é o indíce das 25 melhores cadeias de lojas internacionais. A Suécia sai ganhadora e ocupa as cinco primeiras posições, com o 1º lugar para a Ikea, o 2º para a H&M e o 4ª para a COS (que recentemente abiu na Avenida da Liberdade). Um dos outros artigos interessantes tem a ver com a forma de gerir uma galeria de arte, no caso uma conversa com o londrino Stephen Friedman. Este mês a “Monocle” dedica-se também a fazer um ponto de situação das tendências do jornalismo contemporâneo. Passando para outra realidade, o Turismo de Espanha investiu em quatro páginas, duas sobre os “paradores” e duas sobre Madrid, no género daquilo a que chama publi-reportagens. Na secção de recomendações estão duas belas páginas cheias de elogios à nossa Vista Alegre. Sabe bem lê-las.


 


VER - Os azulejos são peças que sempre me encantaram. Permitem geometrias, são um suporte de desenho, de cores, de formas. Em Lisboa existe uma galeria, a Ratton, que desde 1987 se especializou na criação de séries limitadas de azulejos desenhados por artistas contemporâneos. Para além destas séries assegurou a produção de painéis de azulejo presentes em diversas instituições, em prédios de habitação, em estações de caminhos de ferro e de metropolitano ou em escolas e mercados, entre outras localizações. Até 3 de Outubro está a decorrer na Galeria Ratton uma exposição apropriadamente chamada “Puzzle” em que os visitantes são desafiados a escolher e combinar entre si azulejos de 14x14 cms, de diversos autores, que ali estão expostos. Ali estão peças de Júlio Pomar, Paula Rego, Menez, Lourdes Castro, Graça Morais, Bartolomeu dos Santos, Jorge Martins, Andreas Stöcklein, Josephine King, Luisa Correia Pereira, Irene Buarque, René Bertholo, Costa Pinheiro e João Vieira, entre outros autores. Vale a pena conhecer estas pequenas peças, imaginando-as sózinhas ou agrupadas. A Galeria Ratton está aberta ao público de segunda a sexta das 15 às 19h30, na Rua da Academia das Ciências 2 C (à Rua do Século).





OUVIR -  Não é muito comum encontrar uma banda portuguesa tão original e com um disco tão inesperado como os Brass Wires Orchestra (BWO). A origem da música que praticam está na folk, mas felizmente têm uma abordagem criativa do assunto - embora não escapem a comparações com os Beirut, muito por acção do vocalista. O timbre da voz, a maneira como interpreta as canções e o espaço que os arranjos dão às palavras são relativamente pouco usuais em Portugal. A Brass Wires Orchestra remonta a 2011 e tem feito carreira ao vivo tocando nas ruas, em estações de metro, mas também em salas como o Olga Cadaval, há poucos dias. Mas também já passaram pelo Festival de Paredes de Coura, foram escolhidos para o Hard Rock Calling em Londres, e passaram pelo Vodafone Mexefest. O álbum de estreia agora editado, “Cornerstone” desperta a curiosidade e, entre as dez canções do CD, os temas “Tears Of Liberty” e “Wash My Soul” são uma amostra das potencialidades da banda. Os BWO integram Miguel da Bernarda, Hugo Medeiros, Afonso Lagarto, Rui Gil, Luís Grade Ferreira, Zé Valério, Nuno Faria e Zé Guilherme Vasconcelos são e o disco foi  gravado nos Black Sheep Studios ( a sala de ensaios da banda em Mem Martins), por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim (ambos dos PAUS), e masterizado nos Abbey Road Studios (Londres), por Frank Arkwright (que trabalhou com Arcade Fire).


 


PROVAR - Hoje vou falar de petiscos lusitanos e de locais onde gosto de os provar, em Lisboa. Começo por um petisco bem português de entrada - peixinhos da horta. Para mim os melhores de Lisboa sāo os do Guarda Mor ( Rua do Guarda Mor 8, tel 213 978 663) - fritos na perfeiçāo, sem gordura a mais, o feijāo verde al dente e a polme estaladiça; no mesmo sítio também merecem destaque os filetes de peixe galo, um assunto que mais à frente retomarei. Passemos ao seguinte - os pastéis de bacalhau do Apuradinho sāo do melhor e vêm servidos com um bom arroz de pimentos ou de tomate; ainda no Apuradinho sou fā dos pivetes (rabo de boi) com puré de batata, e do cozido à portuguesa (Rua de Campolide 209, tel. 213 880 501). Em matéria de cozinha portuguesa também é preciso falar da Bica do Sapato, onde a escolha recai muitas vezes nos belíssimos pastéis de massa tenra ou, em alternativa, no bacalhau fresco escalfado em azeite virgem ou no polvo grelhado com batata a murro e grelos salteados. Regressemos ao peixe e aos filetes - n’ O Polícia (Rua Marquês Sá da Bandeira 112, tel 217 963 505) há também uns excelentes filetes de peixe galo e uma pescada de anzol, cozida, com todos, que é de chorar por mais. Se quiser filetes de garoupa procure A Paz (Largo da Paz 22, à Ajuda, 213 641 503), onde também pode ter a sorte de encontrar a cabeça do animal bem cozida. E termino, na lista dos meus restaurantes do coração, com A Primavera, no Bairro Alto, onde já tantas vezes jantei, entre bons amigos e com belas conversas, que acompanharam excelentes escalopes panados ou primorosas lulas recheadas (Travessa da Espera 34, tel. 213 420 477).


 


DIXIT -  "Já se desconfiava, veio a confirmação: os Antónios detestam-se. Os Antónios magoam-se. Os Antónios não divergem nas ideias, divergem no caráter e no ego. Perdeu a política, perdeu sobretudo o PS" - José Manuel Fernandes n’o “Observador”, sobre o último debate Seguro-Costa


 


GOSTO - Portugal será representado com uma exposição sobre 14 autores e apresentação de obras no festival de banda desenhada e ilustração de Treviso, Itália.


NÃO GOSTO - Nos próximos 12 meses mais de meio milhão de portugueses prevê emigrar e ir trabalhar para fora do país, indicam os dados de um novo estudo da Marktest.


BACK TO BASICS - "Antes não se imaginava aquilo que agora é provado" - William Blake