outubro 03, 2014

BATALHAS FLORAIS NO HORIZONTE POLÍTICO

FLORES - Durante o próximo ano vamos assistir a um despique curioso. De um lado está António Costa, que, aposto, permanecerá até ao limite do possível na autarquia lisboeta, e que vai usar a sua função de Presidente da Câmara para fazer umas flores de sedução eleitoral, tentando dar uma ideia do que poderá vir a praticar no país, se chegar a Primeiro-Ministro; do outro estará Passos Coelho, a ver se consegue fazer crescer algumas flores no território devastado que é Portugal. Tenho a tentação de dizer que ambos se vão dedicar à jardinagem, para que os eleitores possam escolher entre os respectivos arranjos florais. A coisa seria divertida se não fosse trágica: de um lado um recém eleito líder da oposição que foge de dizer que medidas e políticas quer implementar; do outro um Primeiro Ministro desgastado pela obediência cega à Europa e que desistiu de criar um projecto para o país. Ambos têm em comum a actividade política continuada desde a adolescência, ambos dedicaram o essencial da sua vida adulta à actividade nos respectivos partidos, ambos são um exemplo daquilo que esses partidos produzem no seu interior. Olhando para o que têm feito, olhando para como se têm comportado, não se pode dizer que sejam um exemplo estimulante para gerações futuras. Ambos pertencem à mesma geração, têm em comum a persistência, a teimosia, uma agenda própria que ultrapassa a do respectivo partido e alguma indiferença pelo que os outros dizem. Ambos vão ter que olhar para o mesmo sítio no próximo ano: para o eleitorado do centro que, mais uma vez, será o decisivo. António Costa vai procurar federar a esquerda que lhe quiser dar boleia, como aconteceu já em Lisboa - mas não se pode arriscar a perder o centro; e Passos vai ter que manter apoios à direita sem perder de vista o eleitorado que está à sua esquerda. Vai ser um ano interessante - cheio de batalhas florais.


 


SEMANADA - Domingo, no início das votações para as primárias do PS, a candidatura de António Costa enviou um SMS apelando ao voto e, mais tarde, depois de reclamações e protestos, afirmou que se tratava de um erro processual, opinião que foi partilhada por Jorge Coelho, que dirigia o processo eleitoral; Enquanto António José Seguro ficou na sede do PS, no Largo do Rato, António Costa preferiu utilizar a sede da Assembleia Municipal de Lisboa, um edifício que é propriedade da Câmara que dirige; nas eleições para as federações distritais do PS realizadas no início de Setembro, e onde só votaram militantes inscritos, António José Seguro recolheu 51,2% dos votos contra 48,8% dos candidatos apoiados por António Costa, mas nas eleições primárias de Domingo passado, abertas a militantes e simpatizantes, António Costa ganhou com larga vantagem ao obter 67,88% dos votos, contra 31,65% registados a favor de António José Seguro; António Costa “tem predisposição e vontade” para envolver apoiantes de Seguro, disse fonte próxima do novo líder; António Costa nomeou Ferro Rodrigues líder da bancada parlamentar do PS; Jerónimo de Sousa disse que “o PS mudou as caras mas não apresentou alternativa” ; alguns jornais indianos festejaram a vitória de António Costa e dizem que ele é conhecido por “Gandhi de Lisboa devido ao seu estilo de vida espartano”; o salário mínimo aumentou para 505 euros a 1 de Outubro; 78% dos pensionistas têm pensões de velhice inferiores ao salário mínimo;  apenas metade das pessoas entre os 55 e 64 anos estão activas e a trabalhar; a família Espírito Santo terá recebido cinco dos cerca de 30 milhões de euros pagos à Escom por serviços de consultoria no caso da compra dos submarinos; um artesão de Barcelos, Joaquim Esteves, provocou o caso parlamentar da semana com a exposição, no Parlamento, de bustos de barro de todos os Presidentes da República, incluindo os do período da ditadura - a exposição foi proposta à Assembleia da República pela autarquia de Barcelos, do PS.


 


ARCO DA VELHA - Em Santo Tirso a autarquia, governada pelo PS, entregou por ajuste directo, no valor de 33 mil euros, a produção de uma revista municipal a uma empresa de fabrico de mobiliário.


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da revista Wallpaper tem a capa desenhada por Frank Gehry e lá dentro tem fotografias do novo edifício da Fundação Louis Vuitton, em Paris,  desenhado por Gehry que são uma espécie de injecção de ciúmes para aquilo que Lisboa perdeu por obra e graça do então inquilino de Belém, Jorge Sampaio - para os mais distraídos recordo que o projecto de Gehry para o Parque Mayer foi vetado pelo Presidente da República da época. Frank Gehry é aliás um dos editores desta edição da revista, ao lado de Jean Nouvel - um número de luxo. Enquanto Gehry mostra o seu espectacular edifício novo, em Paris, Nouvel mostra alguns dos monumentos que criou ao longo das duas últimas décadas e também alguns dos seus projectos futuros. Outros destaques são o top 100 de peças de design, um portfolio sobre as aventuras no rock’n’roll de Heidi Slimane (onde ela sugere apenas o que nunca mostra) e a short list dos melhores novos hotéis de cidade, onde figura o lisboeta Memmo Alfama. É precioso este número da Wallpaper. Uma coisa de coleccionadores.


 


VER - Sandra Vásquez de la Horra é chilena, vive há anos na Alemanha, tem um sentido de observação que  propulsiona uma imaginação furiosa e desenha com um traço vigoroso que consegue reproduzir o que lhe vai no pensamento. Não é coisa pouca. O seu trabalho tem raízes na tradição popular e na literatura fantástica da América do Sul, o imaginário chileno está presente, a figura feminina assume o papel principal na sua obra, com as personagens a criarem permanentes manifestos de afirmação do seu corpo, entre a provocação e o recolhimento. A exposição, na Galeria João Esteves de Oliveira, “Todas íbamos a ser reinas” inclui 30 desenhos e uma série de 9 gravuras, de uma edição de 25. Sandra Vásquez de la Horra foi vencedora do prémio Fundação Guerlain em 2009 e o seu trabalho estará na Galeria João Esteves de Oliveira, até 21 de Novembro - Rua Ivens 38, às segundas-feiras entre as 15h00 e as 19h30 e de terça a sábado das 11 às 19h30.


OUVIR - Os Boo Radley tiveram mais um fogacho de fama nos anos 90 graças a canções como “Wake Up Boo”. O grupo tornou-se um precursor do renascimento do britpop. Não é de estranhar que Martin Carr, então autor das canções e guitarrista da banda, seja um assumido seguidor dos cânones pop, com um grau de ecletismo que neste seu álbum a solo, “The Breaks”, lhe permite revisitar desde Style Council a Eagles, passando por Smiths ou Elvis Costello por exemplo. A revisitação faz-se pela forma de sugestão de uns acordes, uns truques de vocalizações e de construção de letras, de que o melhor exemplo será “St. Peter in Chains”. “The Breaks” é basicamente uma operação de revivalismo do britpop em que os Boo Radleys se inseriam. Digamos que este é um disco de variedades, feito com grande know how e apurada execução. As pilhagens de inspiração são feitas em bons sítios e o resultado tem sido elogiado. Quem quer recordar o pop antigo encontra motivos de satisfação, mesmo quen passageira. Como dizia o outro, “ a splendid time is guaranteed for all” - desde que queiram passar por lá. Se ouvirem com atenção o tema “I Don’t Think I’ll Make It” ficarão convencidos.


 


PROVAR - Os grandes apreciadores de atum dizem que  a ventresca é a parte mais apreciada do peixe. Há quem diga que a ventresca está para o atum como os secretos estão para o porco preto. E o que é afinal a ventresca? - trata-se da parte muscular que forra a cavidade abdominal do peixe. Tem um sabor intenso e uma textura irregular. Prová-la bem fresca é experimentar um manjar único - mas é difícil de encontrar. Felizmente há quem faça belíssimas conservas de ventresca de atum, como a açoreana fábrica Corretora. Experimente abrir uma lata, partir a ventresca aos pedaços e servi-la com quadrados de requeijão bem fresco aromatizado com cebolimho. É uma entrada magnífica, mais ainda se deixar ao acaso umas finíssimas fatias de pepino cortadas em mandolina. Vai ver que ninguém resiste. É uma entrada simples e barata. O pepino encontra em qualquer lado, as conservas da Corretora estão no gourmet do Corte Inglés e um bom requeijáo também por lá existe. Duas latas, um requeijão e meio pepino fazem a festa para quatro. A Corretora é uma fábrica de conservas localizada nos Açores, em Ponta Delgada e existe desde 1913, há mais de cem anos portanto. 


 


DIXIT - “É o estilo missionário, mais do que as suas origens indianas, que fizeram Costa ganhar a alcunha de Gandhi de Lisboa” - Andrée-Marie-Dussault, “Outlook India”.


 


GOSTO - Da nova imagem gráfica da Câmara Municipal do Porto


 


NÃO GOSTO - Por causa dos problemas informáticos os distritos judiciais de Lisboa e do porto optaram por deixar de lado os julgamentos dos crimes mais graves.


 


BACK TO BASICS - “O grande problema da vida dos políticos é que alguém está sempre a querer interromper com uma eleição o que eles fazem ” - Will Rogers