RTP - O debate da última semana sobre o futuro do serviço público de rádio e televisão não começou bem e provocou reacçōes empolgadas, na maior parte dos casos presas a modelos antigos, já pouco ajustados ao presente - e ainda menos ao futuro. Nesta matéria o Governo tem sido ele próprio vítima, também, de colocar ideias feitas à frente de uma análise da realidade.
Façamos um pouco de história rápida: o modelo de serviço público europeu que os velhos do Restelo usam como argumento é algo saído de meados do século passado, numa época em que nem se pensava em operadores privados de TV numa Europa saída da guerra. Nesse tempo não havia satélites, nem distribuição por cabo, muito menos internet, tablets ou smartphones. Hoje já nada é assim, mas há quem queira manter tudo inalterado.
INOVAR NO SERVIÇO PUBLICO - Este Governo tem na mão a possibilidade de, em vez de ir atrás do rebanho, contribuir para um novo posicionamento do serviço público, com os olhos postos no futuro e não no passado, de uma forma até pioneira no panorama tradicional europeu. Mas para isto convinha que existisse uma ideia precisa do que deve ser o serviço público, baseado em conteúdos concretos e não em princípios gerais, muito intessantes, mas pouco úteis na concretização de ideias.
Cada vez mais acho que o serviço público só se justifica se oferecer aquilo que os canais privados são menos susceptíveis de proporcionar - ou seja se fôr, em termos de conteúdos, complementar em vez de alternativo, sectorial em vez de generalista. Por outro lado também me parece muito pouco lógico que continue a concorrer com os privados na captação de publicidade. Conseguirá um operador de serviço público viver com os cerca de 150 milhões da contribuição audiovisual sem esforço suplementar de financiamento do Estado? - os estudos feitos entretanto pelo próprio Governo indicam que sim, ainda mais se existir uma racionalização de meios técnicos e humanos, se existir uma reestruturação da oferta de canais em sinal aberto e no cabo, e se a própria rádio fôr encarada também num novo prisma. O serviço público é importante? Eu também acho que sim, mas não precisa de tantos canais como agora - na televisão pode bem viver com um único canal em sinal aberto, com um único internacional, sem a RTP Memória e com um canal, que substitua a RTP Informação, com características de proximidade, de informação local e de uma interacção maior com a dinâmica da sociedade e com públicos sectoriais que têm necessidades específicas. Ou seja, a oferta deve ser repensada em torno dos públicos-alvo e não dos suportes e formatos rígidos que existiam até aqui. O mesmo se pode dizer da rádio.
CONCESSÃO? - Mais do que uma concessão eu acharia interessante que o serviço público aliviasse o peso da máquina de produção interna e encomendasse mais conteúdos à produção independente, externa e privada. Dessa forma uma boa parte do valor da contribuição audiovisual seria reinvestido no sector privado, na dinamização da produção audiovisual em língua portuguesa, fundamental para mantermos uma identidade cultural no mundo digital e no consumo móvel de conteúdos. E é nesse cenário, e não no passado da família sentada frente a um televisor na sala, que é preciso pensar, porque só assim se justifica hoje em dia a manutenção do serviço público. Ou seja, um operador mais vocacionado para organizar as suas emissões e escolher os seus conteúdos do que em produzi-los: um broadcaster em vez de um producer, em suma. Um serviço público assim, já agora, devia reforçar a sua articulação com uma política sustentada de desenvolvimento do audiovisual e podia ser parte fundamental de uma política integrada de fomento das indústrias criativas, tão relevantes do ponto de vista económico. Assim o investimento da sociedade seria reprodutivo e não consumido essencialmente em estruturas sobre-dimensionadas.
SEMANADA – Em três anos só 11 alunos do ensino militar tentaram seguir carreira nas Forças Armadas;estado gasta 11 milhões por ano com encargos de funcionários públicos que estão a trabalhar no privado e acumulam remunerações; tratamentos termais desceram 10% devido ao fim das comparticipações;este ano já emigraram 1344 enfermeiros; todos os partidos parlamentares querem que o Canal Parlamento seja uma excepção e tenha um tratamento diferente dos outros canais de televisão; lucros dos casinos de Lisboa, Espinho e Póvoa do Varzim cai 92% no primeiro semestre; Vendas de carros usados caíram entre 30 a 40%; o sector da construção perde 90 postos de trabalho por hora; no último ano a dívida pública que foge ao crivo de Bruxelas aumentou 7,4 mil milhões, sobretudo devido aos empréstimos do Estado às empresas públicas; Metropolitano de Lisboa registou menos 5,9 milhões de passageiros no segundo trimestre de 2012 - ou passaram todos a andar de bicicleta nas ciclovias de Sá Fernandes, ou então é mesmo verdade que Lisboa perde habitantes.
ARCO DA VELHA – Rafael Correa, o Presidente do Equador que diz defender Julien Assange em nome da liberdade de expressão, é o mesmo que no seu país persegue jornalistas que escrevem críticas ao seu Governo.
OUVIR – uma das minhas melhores compras dos últimos tempos em matéria discográfica foi o triplo álbum "Screaming And Crying - 75 masterpieces by 35 blues guitar heroes". Aqui estão temas clássicos de nomes como BB King, Johnny Otis, Muddy Waters, T-Bone Walker, Guitar Slim, Chuck Berry, Elmore James, Albert King ou John Lee Hooker, entre outros - uma precisoidade para quem gosta de blues. Neil Slaven fez a selecção e as belíssimas notas que enquadram a evolução dos blues desde 1930 até meados dos anos 60. Triplo CD Fantastic Voyage/Future Noise Music, Amazon.
FOLHEAR – A edição de Setembro da "Monocle" é dedicada aos que se dedicam à arte da guerra. A revista mostra especialistas no fabrico de camuflagens e tem uma curiosa reportagem sobre a escola de cozinheiros do exército suiço - ond há um cozinheiro para cada 50 soldados, todos com uma ideia muito precisa sobre qual a melhor comida que se pode confeccionar para manter a tropa em bom estado.Outros temas são um clube londrino, o Frontline, exclusivo para correspondentes de guerra, um levantamento de revistas e estações de rádio militares, os uniformes dos guardas suiços que protegem o Vaticano, uma entrevista com o secretário geral da NATO e uma descrição daquilo a que se poderia chamar o soldado moderno, sempre sob o prisma de que a maior parte dos militares e dos exércitos está a fazer um grande trabalho.Ainda nesta edição, no "global travel guide" há um destaque para a pousada projectada por Gonçalo Byrne na Cidadela de Cascais e um guia do empreendedorismo que inclui o exemplo da cadeia "A Padaria Portuguesa", citando o seu CEO Nuno Carvalho.
PROVAR – Um dia destes era boa ideia que a cadeia originária do Casanostra, do Bairro Alto, trouxesse para Lisboa o conceito da hamburgueria Casavostra que abriu em Almancil, no local onde antes estava a sua pizzaria, também Casavostra, que agora se mudou para umas novas e amplas instalações, a curta distância aliás. O sítio é simpático e provei um hamburguer baptizado de "alentejano", onde pedaços de morcela são misturados na carne picada do bovino - a coisa resulta, e ainda por cima as batatas fritas são honestíssimas. Além de vários hamburgueres há saladas, pratos vegetarianos e um tártaro de salmão bem apaladado.Aberto todos os dias até às 24. Av. 5 de Outubro 364, Almancil, telefone 289391104 .
GOSTO – A edição de Setembro da Vogue norte-americana tem 916 páginas e pesa quase dois quilos - sinal da vitalidade da publicidade por aquelas bandas.
NÃO GOSTO – Das obras que vão alterar o trânsito no Marquês do Pombal e na Avenida da Liberdade.
BACK TO BASICS – Negócios e política são coisas diferentes. Se fossem a mesma coisa não havia necessidade de existirem duas palavras diferentes - Jody Baumgartner.
(Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Agosto)
Coisas que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
agosto 31, 2012
SOBRE A RTP E A SUA CONCESSÃO
agosto 24, 2012
O CANAL DOS DEPUTADOS
O TAL CANAL – Os deputados portugueses estão convencidos da sua importância para além daquilo que o bom senso recomenda. Pior: julgam que a populaça se interessa pela sua actividade e arrogam-se a pretensão de poderem educar as massas pelo seu exemplo. Vai daí decidiram estar acima das regras e decretaram que devem ter acesso privilegiado a um canal nesse aborto lusitano em que se transformou a TDT – situação a que se chegou, aliás, muito por culpa da inoperância, ignorância e desfasamento do Parlamento em relação à realidade das coisas no universo audiovisual. Querem que o povo que não tem acesso à televisão por cabo os possa seguir, em directo e diferido, nas diatribes em que passam os dias (hoje em dia aqueles que não têm acesso aos canais de cabo deverão ser menos de 30% do total de telespectadores). A populaça já é suficientemente castigada pelos políticos em funções para ter que gramar com tal frete – mas o pior é a mentalidade que isto revela: totalitária, de uns a decidirem por todos acima das leis, sem se submeterem a concurso ou escrutínio, a usarem um espaço de comunicação a que outros não têm acesso. Se fosse dado um canal na TDT, por atribuição directa, sem concurso nem avaliação, a um qualquer grupo de media dos que até têm meios e experiência para tal empreendimento, não haviam de faltar ilustres deputados a clamar pelo crime de lesa-majestade. Mas quando são eles os protagonistas do abuso, ei-los seguros de quererem ser estrelas da TV, convencidos que o povo irá deixar de ver “Dancin’ Days” para seguir os arrufos de bancadas rivais ou a verborreia de muitos debates parlamentares, mais as piadas de caserna abundantes nas respectivas Comissões especializadas. O Parlamento dá frequentemente triste imagem de si próprio, mas este é um case study de cabotinismo político.
O TAL PARTIDO – Francisco Louçã lá decidiu quebrar o tabu que andou a alimentar sobre a sua continuação na liderança do Bloco. Não se contentou em dizer que considerava chegado o momento de sair – o que é um direito que lhe assiste, sobretudo numa altura em que o Bloco está notoriamente em má fase e em que não consegue ter capacidade de resposta face à crise instalada – não aponta alternativas, deixou de ser oposição e nem protesto tem conseguido ser. Mas Louçã não se limitou a sair, quis delinear a sua sucessão, na forma e no conteúdo. Indicou nomes e escolheu um homem e uma mulher, justificando o dueto pela forma natural como a sociedade se organiza – uma posição um pouco homofóbica para um partido que gosta tanto de causas fracturantes. Mas incongruências à parte, o que mais assusta é a evocação dos métodos sucessórios de regimes como da Coreia do Norte, em que o grande líder decide por si só como se irá perpetuar o seu pensamento uma vez que saia de cena.
SEMANADA – O número de casais com ambos os cônjuges desempregados quase duplicou em Julho face a igual mês de 2011 e já atinge os 8807 casais, o valor mais alto desde que esta informação é divulgada; o número de portugueses com salários inferiores a 310 euros por mês aumentou 9,4% face a 2011; o endividamento das empresas atingiu em Junho um novo máximo histórico de 182,5% do PIB; 100 a 120 empresas de construção estão em risco de lay off; prevê-se o encerramento de mais de um milhar de empresas de construção até final do ano; 84 mil homens e 54 mil mulheres entraram no desemprego desde o início de 2011; em 2050 haverá em Portugal um trabalhador por cada reformado; quase cinco mil advogados têm em atraso as quotas devidas à sua ordem profissional; os festivais de música perderam 90 mil espectadores neste verão; os preços da gasolina e do gasóleo em Portugal, antes de impostos, são dos mais altos em toda a Europa; a diocese do Porto lançou uma aplicação iPad gratuita, com os horários das missas.
ARCO DA VELHA – Abundam os protestos contra a extradição de Julien Assange para ser julgado na Suécia sob a acusação de tentativa de assédio e violação a duas mulheres em Estocolmo – mas rareiam os protestos e manifestações contra a forma como decorreu o julgamento e a sentença decretada no caso do grupo punk russo Pussy Riot, que havia parodiado Putin.
VER – Se gostam de fotografia não deixem de visitar o site da histórica agência Magnum(www.magnumphotos.com). Por estes dias vejam a homenagem que a agência colocou on line a uma das suas fundadoras, a fotógrafa Martine Franck, que morreu na semana passada com 74 anos. Aí podem ver uma selecção das suas imagens. A revista online norte-americana Slate também se associou à homenagem com um excelente artigo que evoca a carreira da fotógrafa e mostra igualmente outras fotografias suas.
OUVIR – Nas editoras discográficas há uma categoria de discos de alto risco que geralmente resultam em enormes pepineiras e que são os projectos especiais, tratados pelos departamentos de A&R (artistas e repertório), e que andam à volta de um tema ou de um artista. O objectivo é ampliar a facturação sob a capa da homenagem ou evocação de determinado artistas ou de determinada causa. “A Tribute to Caetano Veloso” tinha tudo à partida para ser uma coisa enfadonha, uma amálgama de boas intenções sem nada mais para celebrar o 70º aniversário do cantor. Felizmente não é isso que se passa e nomes como Chrissie Hynde, os Mutantes,, Beck, Devendra Banhart, Momo, Miguel Poveda, Seu Jorge ou Ana Moura, entre outros, dão boa conta do recado, difícil que era fazerem qualquer coisa de diferente e com qualidade na reinterpretação de 16 temas marcantes da carreira de Caetano Veloso. Conseguiram, e isso não é coisa pouca. (CD Universal)
FOLHEAR – A edição da revista Time de 27 de Agosto tem um dos melhores trabalhos que já li sobre as mudanças que a proliferação do wireless trouxe ao dia a dia das pessoas. A revista mostra as dez principais formas como a tecnologia wireless, aplicada aos smartphones, tem na nossa vida - da política (e, neste caso, das eleições americanas) às formas der pagamento (acautelem-se os cartões de crédito), passando pelo entretenimento, o ensino ou a saúde. É um trabalho absolutamente excepcional, que vale a pena aguardar. Os estrategas das campanhas políticas digitais cá do burgo farão bem em ler as páginas sobre o que está a suceder nas eleições americanas. E de uma forma geral todos ganham em ver que todas as fotografias que ilustram estas três dezenas de páginas da revista foram feitas com smartphones – inluindo a capa que resulta de um mosaico de imagens construído a partir de 30 mil fotografias enviadas por leitores à revista via Instagram.
PROVAR – Agora que no fim de Agosto as enchentes já são mais pequenas, aventure-se a ter uma refeição estival que não seja de peixe grelhado e, se estiver em Lisboa, dirija-se ao Meco, direito ao restaurante Celmar e peça o arroz de lingueirão. Aguente estoicamente os 20 minutos que a iguaria demora a preparar e depois sorria quando ele chegar. Arroz no ponto, bem temperado de coentros, sem ser espapaçado, com suficientes lingueirões em boa forma (não são daqueles que têm a textura de bocados de borracha de câmara de ar). Se gostar de verde peça uma garrafa de Muralhas para acompanhar – vinho que nunca engana e sempre satisfaz. A casa tem o bom senso de usar frappés de gelo abundante e água e não as mangas raquíticas que em dias de caloraça de nada servem. Rua Central do Meco, telefone 212 683 704 . Fecha às segundas.
GOSTO – Dois jovens portugueses, Andrea Luis e Telmo Moutinho, formados na Escola de Hotelaria e Turismo de Óbidos, obtêm sucesso como pasteleiros em Paris.
NÃO GOSTO – 50% dos jovens portugueses apenas conseguem encontrar trabalho temporário.
BACK TO BASICS – Um jovem promissor faz bem em ir para a política: assim pode continuar a fazer promessas durante o resto da sua vida – Robert Byrne.
(Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Agosto)
agosto 17, 2012
SOBRE A CONTESTAÇÃO E A ACÇÃO
CONTESTAÇÃO – A crise não entrou de férias, mas o pais está tão parado que nem os protestos funcionam. Querem ver? – a mais recente manifestação a exigir a demissão de Miguel Relvas reuniu escassas quatro dezenas de pessoas frente à Assembleia da República; no Algarve o protesto contra as portagens na Via do Infante, à porta da casa de férias de Passos Coelho, juntou sete activistas; e o buzinão ao pé do recinto onde decorria a Festa do Pontal, do PSD, tinha cerca de 50 viaturas. Se olharmos para as coisas por outro prisma também se sente a moleza estival – anunciada com pompa e circunstância pelos sindicatos, a greve dos sectores de transportes do passado dia 15 foi um fracasso – o Metro de Lisboa acabou por circular em pleno, na Carris a adesão à greve andou nos 30%, nos STCP mal se fez sentir e apenas na CP ela foi maioritariamente seguida. Se é verdade que o funcionamento dos partidos políticos deixa muito a desejar, está a ficar claro que mesmo aqueles que faziam das acções de rua, de protesto, a sua forma de intervenção politica preferida, estão manifestamente em dificuldades.
ACÇÃO – Inicialmente a Festa do Pontal era uma acção de mobilização das hostes laranja – uma romaria algarvia à qual os dirigentes partidários, de férias por aquelas paragens, compareciam em peso e onde se misturavam com os militantes. Agora é apenas uma acção de comunicação, calendarizada e forçada, uma coisa feita para os telejornais e que cria mais expectativa do que produz resultados. Este ano não foi excepção e o essencial do discurso de Pedro Passos Coelho, resume-se a uma ideia que tem repetido: “isto não vai voltar a ser como dantes”. Pois ainda bem que não vai – e embora alguns simpatizantes socialistas gostassem que o tempo voltasse para trás, o fracasso das acções de protesto também mostra que muita gente já percebeu que as coisas mudaram. Dito isto, valeria a pena a governação dizer o que isto vai ser daqui para a frente, independentemente das promessas de retoma e das garantias de prosperidade. Trocando por miúdos – que propõem para o futuro? Que vão fazer para dinamizar a economia? Que vão fazer para reformar o sistema fiscal? E, acima de tudo, que vão fazer para reformar o Estado? - o mesmo Estado que, quer-me parecer, ainda não sentiu verdadeiramente que “isto não vai voltar a ser como dantes”.
BICICLETAS - Alguns dos meus leitores irritam-se um bocado –e fazem-me chegar ecos disso - quando eu falo de bicicletas, normalmente criticando as ciclovias de Sá Fernandes em Lisboa. Nada me move contra as bicicletas, mas aborreço-me com aqueles que querem impingir a sua fé a todo o custo. Tenho pouco jeito para ouvir missionários e custa-me ver dinheiro público esbanjado em obras que são muito pouco utilizadas. Mas, acima de tudo, irrita-me a forma como cada vez mais ciclistas se comportam – andam lado a lado, a conversar, ocupando meia faixa de rodagem, não respeitam os sinais vermelhos, aproveitam as passadeiras para contornar o trânsito fazendo zigue –zague entre peões, enfim circulam à revelia de tudo o que o código da estrada indica. Acharão eles que as regras de circulação não se lhes aplicam?
SEMANADA – Segundo o “Correio da Manhã”, por alturas do início da Festa do Pontal, o Presidente da República arrumava a toalha e limpava os pés de areia à saída da praia das Belharucas; em contrapartida, mesmo de férias, Cavaco Silva enviou um recado via Facebook ao Banco Central Europeu; o número das pessoas sem emprego em Portugal está perto dos 1,3 milhões; o número dos inactivos que já não procuram trabalho está acima dos 90 mil; o número de pessoas que vivem de biscates e pequenos trabalhos atinge 260 mil; os licenciados sem trabalho já ultrapassam os cem mil; o emprego assalariado caiu 5% desde a assinatura do memorando com a troika; os salários em atraso cresceram 16% no primeiro semestre; a União Europeia tinha 25 milhões de desempregados no final de Junho, um aumento de 9,4% face ao mesmo mês do ano passado.
ARCO DA VELHA – No mês de Agosto, em Portugal, são comercializadas cerca de 77 mil embalagens de preservativos, mais 15 mil que a média dos restantes meses do ano e, também no mês de Agosto, são vendidas 23 mil embalagens de pílulas do dia seguinte, mais quatro mil que a média anual.
VER – Olhar para a situação social do presente e utilizá-lo como inspiração para a criação artística foi o método a que Susana Gaudêncio recorreu para criar a sua instalação no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado. O título é todo um programa: “Época de estranheza frente ao mundo”. Um vídeo de animação, uma mesa de pinho e zinco e um manifesto impresso em acrílico compõem a exposição, assim descrita por Maria João Gamito no texto de apresentação: “Em frente ao ecrã (de frente para o mundo) uma mesa, idêntica às que nessas salas recebem os negociadores, tem o tampo coberto por uma chapa metálica polida, onde são visíveis os vestígios inscritos de aleatórios registos de uma reunião que nunca aconteceu. Do outro lado da mesa, em frente ao mundo, um manifesto, sem tempo, sem lugar e sem verbos, materializado na impressão (prova) à escala real do tampo da mesa, substitui, por sua vez, a imagem da paisagem que nessas mesmas salas é sempre idêntica”. Este trabalho estará exposto até dia 20 de Setembro. Ainda no Museu do Chiado aproveite para ver uma exposição sobre a Art Déco em Portugal.
OUVIR – Nestes dias quentes, ao fim da tarde, enquanto o sol se põe, gosto de ouvir guitarra clássica e há um disco que tem andado regular na minha playlist de férias – “Latino”, do guitarrista montenegrino Milos Karadaglic. Ele tem feito carreira com uma aproximação ligeira e popular à guitarra clássica, muito na linha do que tem sido a mais recente política editorial da Deutsche Grammophon, a etiqueta para onde grava. No ano passado descobri-o no CD “Mediterrâneo”, e agora em “Latino”, ouço as suas interpretações de temas de Astor Piazzola (Libertango), de Villa-Lobos (Mazurka-Chôro), de Gardel (Por Una Cabeza), de Farrés (Quizás,Quizás,Quizás) ou de Matos Rodriguez (La Cumparsita), entre outros. Milos é um virtuoso, mas não se deixa fechar no tecnicismo e evidencia uma capacidade de interpretação que, verdadeiramente, é o que o torna tão interessante.
FOLHEAR –Já saíu a edição especial de verão da “Monocle”, a “Mediterrâneo”, em formato de jornal. Apesar de Portugal estar geograficamente fora do Mediterrâneo, lá aparecem umas notas – por exemplo um elogio ao trabalho dos arquitectos Aires Mateus ou um destaque para a cadeia de supermercados biológicos Brio. Outros pontos de interesse são reportagens sobre o renascer da actividade económica na Líbia e sobre o ressurgimento de Marselha, algumas sugestões de restaurantes e suas receitas (do Líbano a Itália), e um belíssimo texto sobre regras básicas de etiqueta a seguir na praia, escrito pelo editor da Monocle, Andrew Tuck – das tatuagens à conversa com o vizinho do lado no areal, ele fala de tudo com um notável humor. E claro que existe também um guia das melhores noites do mediterrâneo.
PROVAR – Um dos meus petiscos preferidos de fim de tarde é queijo da ilha, esse maravilhoso petisco feito na ilha de S. Jorge, nos Açores, desde o século XVI. Gosto do seu sabor e da sua consistência. Vai bem com um gin tónico a ver o pôr do sol, cortado em pedaços pequenos. Nem precisa de pão. Sabe bem por si só.
GOSTO – “Bons Sons”, um festival inteiramente dedicado à música portuguesa na aldeia de Cem Soldos, perto de Tomar, a decorrer este fim de semana.
NÃO GOSTO – Da lentidão do Estado a pagar as suas dívidas a empresas privadas
BACK TO BASICS – Geralmente as soluções que os governos encontram para os problemas são tão más como os próprios problemas – Milton Friedman
agosto 10, 2012
UMA LISBOA DESPREZADA E OUTRAS OCORRÊNCIAS
LISBOA - O programa de António Costa para Lisboa é transformar uma cidade vivida numa montra perfeita para visitantes, mas incómoda e impossível para quem a habita. Durante o mandato de Costa as condições de vida dos residentes em Lisboa têm-se agravado – na limpeza da cidade, no conforto de circulação, na degradação do piso dos passeios e das ruas. Têm sido feitas muitas obras de fachada mas poucas obras de recuperação, tem sido gasto mais dinheiro em agitação e propaganda (veja-se o caso do Intendente) que num trabalho sério de devolver habitantes à cidade e dar vida a zonas fora do eixo típico-turístico. Devia ser interessante fazer um estudo que avaliasse o custo por utente das ciclovias construídas pela inspiração do vereador Sá Fernandes. Agora, para além da calamidade de circulação no Terreiro do Paço, começaram as obras da absurda transformação do Marquês do Pombal, que prometem infernizar a vida aos lisboetas. A EMEL, essa instituição que não tem deveres nem obrigações para com os contribuintes de Lisboa e que só gosta de exercer o que entende serem os seus direitos, gaba-se de ter tido lucros à custa do arbítrio e da perseguição, de tarifas inflacionadas, e tenta fazer crer que a prepotência é equivalente de boa gestão. Ao fim destes anos já é evidente que, a António Costa e à sua equipa, não interessa o bem estar de quem vive na cidade e muito menos conseguir mais residentes - interessa apenas o cenário, a fachada, o glamour de festas por tudo e por nada, sempre com uma mascarilha pretensamente popular. Se repararem no que tem sido a actividade festeira ao longo destes dois últimos meses, na maior parte a cargo da EGEAC, poderão constatar uma torrente de desperdício, de programação sem lógica nem sentido, para além do fomentar clientelas de favor, numa preparação de apoios artísticos que se vão estimulando para as próximas autárquicas. Aqueles que, nas anteriores eleições, por omissão e vingança, abriram o caminho a que Costa continuasse a estragar Lisboa terão agora o cenário de uma ampla coligação, onde o PCP é desejado, para continuar as malfeitorias na cidade. Quem semeia ventos, colhe tempestades e Lisboa vai demorar muito a recuperar.
OLÍMPICOS – Olhamos para a equipa olímpica portuguesa e a única reacção possível é dizer que parece milagre terem-se conseguido as posições alcançadas. Descobrem-se agora histórias de atletas que tiveram de sair do país para treinar, de outros que só puderam verdadeiramente começar a preparar-se para as olimpíadas a escassos meses do início da prova. Se ainda temos atletas que nos representem, isso deve-se a eles, ao seu esforço individual, à sua força de vontade e muito pouco a apoio oficial, organização e planificação. Os resultados, em modalidades inesperadas, mostram isso mesmo. São um bom sinal da capacidade dos que conseguiram posições de honra e um atestado de amadorismo, no pior sentido, a quem tinha o dever de planear, apoiar, organizar. A selecção nacional de futebol, bem vistas as coisas, no recente Europeu, teve piores resultados que muitos dos nossos atletas olímpicos, apesar de ser constituída por jogadores que treinam todos os dias nas melhores condições, sendo todos eles muito bem pagos. Vai uma diferença para quem trabalha todo o dia e treina quando calha sem grandes condições nem apoios.
SEMANADA – Uma em cada seis famílias tem dívidas de crédito de habitação em atraso aos bancos; há mais de 200 famílias por dia a entrar em incumprimento; no primeiro semestre mil empresas deixaram de poder cumprir os seus compromissos com a banca; mais de 500 empresas abrem falência em cada mês; numero de alunos que procuram universidades estrangeiras subiu 140%; o consumo de remédios para o colesterol duplicou nos últimos oito anos; nas facturas de energia o valor da energia propriamente dita é quase tanto como o das alcavalas, subsídios e taxas diversas; nos Estados Unidos estima-se que a quebra de produtividade provocada pelas pessoas que seguiram as transmissões dos Jogos Olímpicos atinja os 650 milhões de dólares; a “Newsweek” publicou a lista dos 101 melhores restaurantes do mundo – há dez espanhóis e nenhum português.
ARCO DA VELHA – Em 220 dias as empresas de transportes já fizeram greve em 189 dias – e dia 15 de Agosto estão em greve seis empresas do sector.
VER – Esta semana o destaque é para o site www.nasa.gov, onde podem seguir as peripécias da sonda Curiosity – assim como a sua história e as fotografias que vai enviando.
OUVIR – Depois de alguns anos a experimentar formações e colaborações diversas e até de alguns discos a solo, Brad Mehldau regressou este ano ao trio – essa forma simples e eficaz que fez a sua fama. Para além de Brad Mehldau ao piano, aqui estão Larry Grenadier no baixo e Jeff Ballard na bateria. Os três conhecem-se bem de muitos concertos em que tocaram juntos e este regresso a estúdio produziu um bom disco. Ao contrário de registos anteriores, este “Ode” é baseado unicamente em originais do próprio Mehldau, escritos para esta formação em concreto. “Ode” revela uma energia arrebatadora, sempre trabalhando sobre linhas melódicas imaginativas e por isso mesmo é um daqueles discos de jazz incontornáveis. CD Nonesuch, via Amazon.
FOLHEAR – Vale a pena comprar a edição de iPad do número especial da revista “Time”, evocativo do 50º aniversário da morte de Marilyn Monroe, que reproduz a edição de 14 de Maio de 1956 daquela revista – precisamente aquela em que Marilyn fez a capa e em que se profetizava uma carreira brilhante. No extenso (e ainda hoje interessante) artigo no interior, a revista utilizou o trabalho de 33 repórteres em 26 cidades, e mais de 100 entrevistas, para descrever a ascensão da actriz e fazer um retrato invulgar e sensível das suas aspirações, no ano em que ela protagonizou o filme “Bus Stop”. É engraçado ver como a revista aparecia nessa altura, é fantástico folhear no iPad as páginas da publicidade desse tempo. E, sobretudo, é curioso ver ali retratada uma Marilyn um pouco diferente, para melhor, do mito que a sua morte criou.
PROVAR – Não há muitos restaurantes que se possam gabar de ter uma vista desafogada sobre o Tejo e o mar e de, simultaneamente, terem uma cozinha original e de muita qualidade. Esta semana descobri um sítio assim – no Hotel Solar das Palmeiras, em plena Marginal, antes de Paço de Arcos - onde dantes estava o Cocagne, está agora o Claro!. O nome vem do Chef Vítor Claro. Ao almoço há um menu que vai variando e que oferece uma refeição completa por 24 euros. Ao jantar há duas hipóteses de menus degustação e uma carta com boas sugestões. Na bela noite em que lá fui descobrir a arte de Vítor Claro experimentou-se como entrada um belíssimo presunto de porco preto, muito bem cortado, acompanhado por finíssimas fatias de melão. A seguir, um lado da mesa ficou com o lombo de veado à general Wellington, que mereceu elogios, e eu fiquei-me por garoupa escalfada, acompanhada por lingueirão, berbigão e mexilhões, numa infusão perfeita, acompanhada de batatinhas mesmo pequeninas e sabiamente salteadas. A carta de vinhos é apropriada e a curiosidade mandou experimentar – com bom resultado - o “Dominó”, branco, um vinho do próprio chefe, oriundo de uma pequena vinha na Serra de São Mamede, a 900 metros de altura. O sítio ajuda, mas a arte de Vítor Claro acrescenta valor. Telefone 214414231
GOSTO – Da aventura, da ousadia e da tecnologia de quem preparou e levou a sonda Curiosity a Marte.
NÃO GOSTO – Das tricas, estados de alma e birras de algumas Fundações e seus dirigentes, depois do relatório que pôs a nu muitos podres do sistema.
BACK TO BASICS – A razão pela qual temos dois ouvidos e uma só boca é porque devemos ouvir mais e falar menos – Zeno, filósofo grego
agosto 03, 2012
QUER QUER COMPRAR UMA TV?
TELEVISÃO – Nas últimas semanas têm-se sucedido os anúncios de novos canais de televisão – Correio da Manhã, Bola, dois novos da TVI – (um de ficção e outro de entretenimento). Os indicadores mais recentes apontam para que em Portugal mais de 70% dos lares já utilizam televisão por assinatura – aquilo a que vulgarmente se chama TV Cabo. Este aumento brutal do número de utilizadores do cabo, é, em grande parte, devido à forma desastrada como o processo de transição para a TDT foi gerido. Mas, seja qual for a causa das coisas, agora a maior parte dos telespectadores vê televisão por cabo e no futuro a probabilidade é de a situação não se alterar e até de se aprofundar um pouco mais. De forma quase sistemática o conjunto de canais do cabo é já o segmento que regista valores mais altos de audiência, maior que qualquer dos canais generalistas. Por outro lado parece ser cada vez mais provável que para a próxima época os jogos da Liga portuguesa não sejam transmitidos em nenhum canal aberto e apenas na Sport TV, que detém os direitos das respectivas transmissões. Esta situação não é nada de espantar, o mesmo acontece em vários países europeus, que há muito deixaram de ter futebol em canais gratuitos. Sucede que esta paisagem – proliferação de canais no cabo, aumento do universo de espectadores do cabo - é uma má notícia para a privatização da RTP, cujos contornos se continuam a desconhecer. De tal modo estão as coisas que nos últimos tempos há quem se questione sobre se surgirão candidatos a essa privatização – será sempre uma operação mais cara do que o lançamento de novo canal – e embora os resultados sejam diferentes, também é certo que o risco é menor, até porque a publicidade no cabo aumenta e nos canais de sinal aberto diminui. Como a questão passou para a esfera política mais do que económica, quer dizer que começou a ficar irracional. A ver vamos se nenhum dos operadores de cabo vai ter, in extremis, de engolir o veneno em que a privatização da RTP se arrisca transformar.
SEMANADA – Os emigrantes que vêem a Portugal de férias, por automóvel, queixam-se de não receberem informação suficiente sobre as portagens electrónicas nas SCUT; os turistas estrangeiros deixaram em Portugal, de Janeiro a Abril, 475 milhões de euros, mais 15% que no ano passado; um ladrão roubou material de guerra da GNR à porta do quartel do Comando da corporação no Porto; no primeiro semestre deste ano já se verificaram nas prisões portuguesas tantos suicídios como no total do ano passado; em Portugal, de Janeiro a Março, morreram 33 101 pessoas e nasceram apenas 20 794; por dia ficam falidos 25 particulares; compras da China a Portugal cresceram 64% este ano; António Costa declarou considerar ter “algumas qualidades” para ser secretário geral do PS; António Costa admitiu querer alargar ao PCP a coligação nas próximas autárquicas de Lisboa; a CMVM detectou uma pessoa – não identificada - que exerce cargos na administração de 73 empresas cotadas em bolsa; taxa oficial de desemprego duplicou em quatro anos; a cobrança de impostos está a arrecadar menos receita do que em 2008, quando o IVA estava a 21%.
ARCO DA VELHA – O Ministério das Finanças é aquele onde a dívida a fornecedores mais aumentou no primeiro semestre deste ano – em casa de ferreiro espeto de pau.
VER – A fotografia em película tinha um processo criativo bem diferente da fotografia digital. Cada rolo de película de 35 mm acomodava 36 imagens. Uma vez revelado, o rolo era a base de provas de contacto – folhas que reproduziam em tiras os negativos no seu tamanho original. E era daí que os fotógrafos escolhiam as imagens que consideravam ideais e que , posteriormente, ampliavam. É a partir deste método que o belga Jef Geys olhou para Lisboa. A exposição que está na Culturgest, no Campo Pequeno, até 2 de Setembro, mostra duas provas de contacto resultantes de outros tantos rolos de película utilizados para fotografar Lisboa, a preto e branco, em 1998. É simultaneamente um olhar sobre um método de trabalho que deixou de existir e uma interrogação sobre a forma como a fotografia pode evoluir. É um curioso registo de uma forma de olhar e de fotografar.
OUVIR – O novo disco de Neneh Cherry não é para ouvidos delicados e incapazes de aventuras. Trata-se de um disco de jazz como já é raro encontrar hoje em dia. Neneh, que é filha de Don Cherry, um trompetista marcante com quem Ornette Coleman gostava de tocar na década de 60. Neneh começou carreira na pop e tem andando arredada de gravações a solo desde 1996 – à excepção de umas vocalizações esporádicas - por exemplo com Gorillaz. Agora ressurge num disco atrevido, com um trio de músicos suecos e noruegueses que fazem da improvisação sem barreiras o seu estilo de eleição. Para Neneh Cherry este álbum é um momento de redenção, onde todo o seu talento surge de forma clara. The Thing, o nome da banda, é uma homenagem a um tema homónimo de Don Cherry. O ”The Cherry Thing”, assim se chama o disco, inclui quase só versões – apenas o tema de abertura, “Cashback” foi escrito por Neneh Cherry. Aqui podem encontrar “Golden Heart”,de Don Cherry, “What Reason Could I Give”, de Ornette Coleman, mas também surpresas como “Dirt” dos Stooges ou uma interpretação absolutamente inesperada e arrebatadora de “Dream Baby Dream” dos Suicide ( de Alan Vega) – que engraçado que hinos punk sejam agora, passadas algumas décadas, homenageados pelo jazz improvisado. As coisas, afinal, não andam longe umas das outras. CD Small Town Supersound, na Amazon.
FOLHEAR – A “Egoísta” de Junho é redonda e dedicada à noite. É redonda porque tem o formato de um círculo perfeito, à excepção de uma pequena pega na lombada, que serve para prender as páginas. Mário Assis Ferreira, o director da revista, recorda que “ a noite é um hiato contínuo em metade das nossas vidas” – por alguma razão se diz que ela é boa conselheira. Esta noite, da “Egoísta”, traz-nos fotografias de fantasia de Andreas Reinhold, fotografias testemunho de Augusto Brázio, fotografias memória de António Barreto, um magnífico texto de Fernando Sobral sobre a vida que não tem horas e um conto inesperado de Marta Jecu. Mais uma boa edição cheia de imaginação. Que seria de nós sem estas surpresas sazonais que a “Egoísta” nos proporciona?
PROVAR – Esta semana experimentei o QB, localizado na Quinta da Beloura, perto da entrada da zona de escritórios, numa das antigas casas originais da Quinta, remoçada há uns anos para a actual função. Fiquei a apreciar a robustez de um petisco de entrada que é uma morcela no forno com cebola e maçã caramelizadas, bem seguido por uns estimáveis pasteis de massa tenra com arroz de coentros. O serviço é eficaz, o local arejado e confortável, a lista de vinhos tem boas surpresas e a refeição correu da melhor forma. Na lista existem outras propostas como pastéis de bacalhau com o tradicional arroz de cenoura, bifes e iscas a portuguesa. Bom sítio para, por estes dias de verão, fugir à ventania do Guincho rumo a uma almoçarada depois de uma partida de golfe. Telefone 219 240 166 .
GOSTO – Do apoio da PT às boas ideias de novos projectos, que pode ser visto no site vamosla.pt – precisam-se de mais empresas com a dinâmica de inovação e de intervenção social da PT, neste acaso através da TMN.
NÃO GOSTO – Da maneira como a Câmara dificulta a vida dos lisboetas cortando o trânsito no Terreiro do Paço.
BACK TO BASICS – “Quem quiser ter uma carreira com êxito na política tem que ter consciência de que há um assunto que nunca deve mencionar – a política” – Gore Vidal.
(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Agosto)
julho 27, 2012
A CULTURA SÓ PARA ALGUNS
COSTUMES - Um texto intitulado “É a falta de cultura, estúpido”, de Clara Ferreira Alves, publicado na edição de sábado passado da Revista do Expresso, agitou as redes sociais. No texto a autora defende a tese de que Portugal tem hoje apenas uma pequena elite que consome a cultura, e lamenta-se de essa elite ser velha e não ter sucessores. É um raciocínio antigo, e muito paroquial., baseado numa noção de cultura ela própria elitista e basicamente reaccionária. É este raciocínio que tem sustentado a existência de iniciativas, instituições, fundações e individualidades que pensam apenas no seu umbigo e nos umbigos dos que lhe são próximos. Noutros pontos do texto a autora insurge-se contra a cultura popular contemporânea, com a sobranceria própria das elites: já há uns anos o Maestro Vitorino de Almeida pregava contra a música pop e apelidava-a com diversos mimos e, hoje em dia, saltita nas ruas de aldeias do norte a dirigir uma população rural que consegue cantar o “All Together Now” dos Beatles num belo spot publicitário da Optimus. Mas a essência do texto de CFA relata somente a percepção, que ela tem, de ser uma parte de um núcleo que se fechou em torno de si mesmo e que foi incapaz de encontrar seguidores e sucessores. O seu texto é o retrato do falhanço de uma geração bem pensante que não conseguiu agir, preocupada que estava em se ver ao espelho. A história da criação artística está ligada à capacidade de comunicar, encontrar públicos e financiamentos, para não ir mais longe, pelo menos desde a Renascença. Os artistas sempre procuraram mercado, no sentido de procurarem quem lhes comprasse – ou pagasse - as obras. Não há que ter medo da popularização da criação artística nem da procura do mercado. Pelo contrário, eu defendo que há é que ter medo dos artistas que não querem ter público e do público que quer ser pequeno e ter acesso exclusivo. Isso é que me preocupa. Nos últimos anos, ou nas últimas décadas, um dos problemas das instituições que apresentam produções culturais, clássicas ou vanguardistas, é a comunicação da sua actividade. A maioria das grandes instituições, ditas de referência, peca por se dirigir sempre aos mesmos iluminados e por não procurar cativar novos públicos. Uma análise primária da comunicação dessas instituições mostra isso mesmo. Não estou só a falar da comunicação jornalística, mas também da comunicação publicitária, que todas fazem, mas que as mais das vezes é executada sem critério, sem qualquer base técnica, acabando por impactar sempre os mesmos, em círculo fechado – os tais que não conseguiram reproduzir-se. Agir assim é como pregar a missa aos convertidos e desistir de encontrar novos fiéis – um curioso paralelo entre a ala mais retrógrada da igreja e as instituições que se gabam da sua presença no mundo da criação artística, clássica ou contemporânea. Se forem ver bem o que nos últimos anos tem sido feito pelas grandes instituições, públicas ou privadas, nesta área do marketing cultural, perceberão que na maioria dos casos não estudam alvos de público, fazem compras directas de espaço publicitário aos media, muitas vezes sem cuidar nem da eficácia nem do preço, com um sibilino (e incorrecto) racional por trás que é o de, assim, estabelecendo uma relação comercial directa, poderem talvez influenciar positivamente o conteúdo editorial. Não estou a falar de cor quando digo isto, na minha vida profissional já me deparei várias vezes com o assunto. Mas tudo vai dar ao mesmo ponto: não basta escolher e programar em abstracto – é preciso saber que públicos se querem conquistar ou que públicos se querem perder. Quem não consegue renovar públicos deve interrogar-se sobre o que está a fazer mal. Talvez se pensarem, em vez de repetirem chavões, consigam ultrapassar o diletantismo típico das infecundas elites portuguesas.
SEMANADA – No primeiro semestre foram extintas mais 33% de empresas que no mesmo período do ano passado; os manuais escolares do 12º ano custam 200 euros e continuam a ser distribuídos em papel; 50% dos portugueses vêem televisão e navegam na internet em simultâneo; o número real de desempregados já ultrapassa o milhão e, destes, cerca de 300.000 não recebem qualquer subsidio;
quase metade das empresas municipais arrisca fechar por não cumprirem os requisitos da lei; apesar da subida de impostos a receita fiscal diminuiu 3,1% no primeiro semestre; há 374 médicos a ganhar duas vezes num mesmo hospital; a dívida do Estado as empresas de construção aumentou 147 milhões de euros no primeiro semestre e anda agora nos 1,5 mil milhões de euros.
ARCO DA VELHA – Apesar dos aumentos, a receita do IVA caiu 119 milhões de euros no primeiro semestre.
VER – Três sugestões de exposições. Em Lisboa, na Galeria Valbom (Av Conde Valbom 89), até final deste mês e no início de Setembro, uma exposição de Nádia Duvall, a vencedora do prémio Banif Revelação de 2008. Intitulada “Árvores Que Caem”, mostra mais uma vez a peculiar técnica de pintura da artista, desta vez sobre um suporte de organza. O resultado é inesperado e mostra mais uma vez o experimentalismo da artista. A exposição inclui ainda uma série de pequenos desenhos, que têm a cera como uma das matérias primas, e que dão uma outra visão do trabalho de Nádia Duvall. Dando um salto até Algés vale a pena ver a renovada exposição do acervo do Centro de Arte Manuel de Brito e uma retrospectiva de Manuel Baptista. Se está no Algarve vá redescobrir a nova fase da vida do Centro Cultural São Lourenço, em Almancil, desta vez com a gestão a cargo da Galeria São Mamede, de Lisboa, que para lá levou obras do seu acervo, numa colectiva de pintura e escultura.
OUVIR – O meu disco de Verão está encontrado: trata-se de “The Bravest Man In The Universe”, de Bobby Womack, uma lenda do soul (foi guitarrista de Sam Cooke) que reaparece após muitos anos. Amigo de Jimi Hendrix, admirado pelos Rolling Stones (que cantaram a sua “It’s All Over Now”), Bobby Womack reaparece depois de uma descida aos infernos pela mão do produtor Damon Albarn – a voz do velho soulman está em grande forma, o registo é soul incontornável e vale a pena ouvir os duetos com Lana Del Rey em “Dayglo Reflection” e em “Nothing Can Save Ya”, com Fatoumata Diawara, a brilhante cantora do Mali que esteve esta semana em Portugal no Festival Músicas do Mundo em Sines. “The Bravest Man In The Universe” tem 11 canções que povoam estes dias.
FOLHEAR – Mais uma sugestão de férias – neste ano de crise, em que dar uma escapadela é mais difícil, “A Arte da Viagem” é uma recolha bem escolhida de textos de Paul Theroux, onde ele conta histórias dos seus 50 anos de viagens, mas também intercalado por citações que reproduz de textos de outros grandes viajantes, como Mark Twain, Bruce Chatwin, Hemingway ou Samuel Johnson, entre outros. Fiquei fã de “As regras de viagem de Murphy” e das “Regras de Reportagem de Rosenblum”. Edição Quetzal.
PROVAR – Como a crise provoca uma diminuição do trânsito automóvel na cidade, agora há lugar para estacionar no pequeno largo, junto do Museu Nacional de Arte Antiga, onde fica “Le Chat”, uma bar-restaurante com o melhor entardecer de Lisboa. Experimente a tábua de queijos, escolha um vinho, e deixe-se ficar a conversar e a ver o sol a partir. Jardim 9 de Abril, às Janelas Verdes, telefone 966 537 387, fecha às segundas.
GOSTO – Da exposição que assinala os 45 anos de Corto Maltese em Évora, que inclui cinco dezenas de desenhos originais de Hugo Pratt.
NÃO GOSTO – De Vítor Gaspar ter imposto para assessorar as privatizações da EDP e REN uma empresa dirigida por um amigo seu, contra a opinião de elementos da administração da CGD.
BACK TO BASICS - “Na Arte só têm importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes” – Eça de Queiroz.
(Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Julho)
julho 24, 2012
A INJUSTIÇA EM QUE VIVEMOS
Passam os anos e existe um sector onde nada se altera – a Justiça. É raro o mês em que não acontece mais um daqueles casos que nos põe de cabelos em pé. A decisão sobre o caso Freeport é o mais recente exemplo da ineficácia de um sistema em que os vários intervenientes públicos – Procuradoria, investigadores policiais e tribunais - não se entendem e arranjam sempre maneira de descobrir buracos uns dos outros em vez de conseguirem focar-se nos factos e nos casos em julgamento.
A um outro nível, em poucas semanas, os tribunais produziram situações assim: um pedófilo assumido foi condenado a 5 anos de pena suspensa depois de pagar uma indemnização à família de uma das vítimas - diz-se “arrependido” e o tribunal justifica a decisão dizendo que ele é uma pessoa “inteligente e estruturada”; um empresário da noite, julgado e condenado a 22 anos de prisão por homicídio em atentado à bomba, foi deixado em liberdade por decisão de um tribunal que anula a decisão anterior por motivos processuais; um psiquiatra foi ilibado por um Tribunal depois de ter violado uma paciente grávida em 2011. Por mais boa vontade que se tenha não se consegue acreditar na justiça, na procuradoria, nos investigadores e nos tribunais.
O sistema não funciona e não é só por ser demorado e penoso – não funciona porque se desgasta em guerras internas em vez de procurar esclarecer a verdade, descobrir os culpados e atribuir-lhes o castigo que merecerem. Em Portugal os tribunais deixaram de ser órgãos respeitados para serem a origem de maus exemplos, de anedotas de humor negro, de ineficácias diversas, de tempo perdido. Alguma coisa vai mal num sistema em que deixa de haver justiça e em vez disso há uma farsa onde nunca há culpados.
(Publicado no diário Metro de 24 de Julho)
julho 20, 2012
A SAGA DAS FACTURAS, O RIDÌCULO DA ERC E SUGESTÕES AVULSAS
FACTURAS – Eu acho óptimo que se combata a evasão fiscal. Acho ainda melhor que se combata a grande evasão fiscal. Mas fico um bocadinho preocupado se tiver que pedir uma factura quando compro o jornal da manhã, ou se tiver que explicar à simpática senhora que me vende umas belas laranjas da sua pequena propriedade que ela me deve passar uma factura. O que leio nos jornais é que quem não passar factura fica sujeito a uma coima que vai quase a quatro mil euros. Num pais com o desemprego que existe e com a economia no estado que todos conhecemos, esta medida dificulta o arranque de iniciativas de auto-emprego – seja vender o que a terra dá, seja fazer bolos ou lavar escadas. Bem sei que todos devemos pagar impostos – mas temo que o histórico do passado mostre que os mais fracos serão os que mais serão perseguidos por pequenas infracções, enquanto os especialistas em fugir ao fisco continuarão na mesma. Todos temos uma responsabilidade social – mas em Portugal essa responsabilidade, em matéria fiscal, atinge mais os fracos e muito menos os fortes. Eu sei que, quando viajo, na Europa ou nos Estados Unidos, compro muitas coisas na rua e não vejo os vendedores de pretzels com máquinas registadoras a emitir facturas. Aí vale o dinheiro e não o pagamento electrónico. De certeza que existe uma maneira justa de encontrar uma forma de taxar estas actividades sem as sufocar e penalizar- basta estudar o que se passa nesses países. Estas actividades de rua criam emprego, prestam serviço, animam as cidades, são úteis. Nos jornais leio que, em função das exigências da facturas, foi feita uma Lei que promove deduções no IRS das famílias. Só que para atingir o teto máximo de deduções de 250 euros no IRS, é necessário reunir facturas de hotelaria, oficina ou cabeleireiro, no montante de 2280 euros por mês, o que se traduz em perto de 27 mil euros por ano. De certeza que quem fez isto não vive no mundo real. E quer enganar alguém – Vítor Gaspar está enganado ou quer atirar-nos areia para os olhos?
ERC – Essa coisa – nem entidade consigo dizer - que é suposta regular os media deliberou que os resumos vídeo dos jogos da Liga de Futebol só devem ser dados a canais abertos. A pedido, excluiu o site da “Bola” e o futuro canal que este jornal tem quase pronto a lançar no cabo. Eu achava que uma entidade reguladora devia proporcionar oportunidades para o futuro, acompanhar o presente, e estar atenta aos novos desenvolvimentos tecnológicos. A ERC, não toda, reconheça-se, acha que interessa manter o status quo. Vive no século passado. Ignora a Web TV, os canais de Cabo, o mundo actual. Esquece que 70% da população portuguesa tem acesso ao MEO ou ZON, ou outros operadores. Esta ERC, a mesma que foi conivente com o despautério da Televisão Digital Terrestre, tem por missão impedir o futuro. Em matéria de televisão e de comunicação, a ERC é coisa que cheira a bolor. Em nome da saúde pública denuncie-se o bolor à ASAE, a ver se duas abjecções sucumbem.
SEMANADA – A região Norte perdeu 1256 escolas; em Lisboa já há mais de mil casas sem água por falta de pagamento; mais de cinco mil pais deixaram de pagar pensão de alimentos; 57% das famílias não tem rendimento para pagar IRS; metade das empresas factura baixo de 150 mil euros por ano; em média 11 casas por dia são entregues à banca por famílias que não têm capacidade para assumir os seus compromissos; em dez anos o numero de agregados familiares que vivem exclusivamente de pensões passou de 329 mil para 850 mil; no mesmo dia em que o Ministério Público pediu a absolvição de dois promotores do Freeport no célebre caso das luvas, decidiu abrir uma investigação à compra da EDP e REN por chineses; a Bolsa de Lisboa perdeu 57 mil milhões em cinco anos
ARCO DA VELHA – " A ASAE visitou recentemente um dos melhores restaurantes do país e levantou um auto ao estabelecimento e ao gerente porque o prato "posta
mirandesa" devia ser chamado " posta à mirandesa", dado a carne não ter
certificado de origem!" citado por José Carlos Pinto Coelho, do Onyria Resorts, no estudo “Países Como Nós 2”.
VER – Não é muito vulgar um artista português dedicar tanta atenção a construir um bom site, e, menos ainda, a um bom site de vendas online de obras suas em diversos formatos. Pedro Calapez, que é um explorador incansável, procura sempre surpreender com o que faz e o trabalho que se pode ver em http://calapez.com/ e em http://buyacalapez.com/ é de facto ímpar na paisagem portuguesa. É uma permanente mostra da evolução da sua criatividade, um actualizar de tendências e um guia para uma melhor compreensão da sua obra. Quase tão bom como visitar o seu atelier ou uma das suas exposições.
OUVIR – Como tudo na vida tem o seu tempo, os Keane nasceram em 1995 mas só em 2000 gravaram o seu primeiro singlee um álbum inteiro nasceu em 2004. Foram refinando o estilo – e acentuando a sonoridade do piano, assim como a qualidade das canções ao longo dos anos. Já em 2012 editaram “Strangeland”, que é aquilo que se pode classificar como um perfeito álbum pop. O êxito das suas actuações ao vivo – já estiverem recentemente em Portugal e ainda cá voltarão este Verão – ajuda a consolidar a imagem da banda. Canções que ficam na memória são o passaporte para boa recepção nos festivais: canta tudo em coro e afinadinho. “Strangeland” ajudou muito a isso este ano.
FOLHEAR – Prosseguindo na senda da recomendação dos livros para férias, hoje aventuro-me pelos petiscos. Anthony Bourdain é um nova-iorquino, filho de pai francês, e que se tornou nos últimos anos numa das referências da cozinha mundial – principalmente graças à televisão. Bourdain esteve recentemente em Portugal e fez em Lisboa um episódio da sua série “No Reservations”, que, como habitualmente, primou pelas escolhas inesperadas – podem vê-la no YouTube. O seu primeiro grande êxito editorial foi “Cozinha Confidencial- aventuras no submundo da restauração”, um original de 2000, que foi reeditado entre nós graças à notoriedade que entretanto a televisão trouxe. Bourdain é um tipo divertido, que escreve de forma cativante e que conta histórias de forma deliciosa – como por exemplo a sua descoberta das ostras. Na realidade o livro descreve a forma como ele foi descobrindo o prazer da comida, como foi descobrindo sabores. Mas conta também como é a relação de poder dentro de um restaurante – da cozinha ao bar, passando pela sala. Está bem escrito, bem traduzido e, já agora, proporciona boas ideias para quem nas férias se quiser aventurar a fazer de cozinheiro.
PROVAR – Um destes dias fui jantar a um aprazível local no Cais de Sodré, o IBO, uma homenagem aos sabores de Moçambique, e fiquei com a refeição azeda quando vi que lá estava Vítor Gaspar a jantar, numa mesa de burocratas, nacionais e comunitários. Só mesmo a excelência do caril do IBO e a simpatia do serviço, além dos convivas da mesa, me permitiram sair incólume da noite. Já que os Ministros das Finanças nos aborrecem tanto, deviam ser aconselhados a não estragar a noite aos contribuintes aparecendo em locais públicos ainda por cima provavelmente jantando à custa desses mesmos contribuintes. Adiante, que o IBO merece melhor recomendação que a criatura das Finanças. Quando quiserem provar o melhor caril de Lisboa – de gambas ou caranguejo –é lá que se devem dirigir. Telefone 213 423 611 .
GOSTO – De terem escolhido caricaturas do desenhador António para a nova estação do Metro do Aeroporto
NÃO GOSTO – Que, em qualquer caso ou situação, um Bispo use a sua posição na hierarquia da Igreja para expressar opiniões politicas
BACK TO BASICS – Nada há de mais ruidoso – e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a politica – Eça de Queiroz.
(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Julho)
julho 17, 2012
A BUROCRACIA QUE NOS ESTRANGULA
Conseguir obter uma licença para fazer um negócio de rua, legítimo, é hoje em dia o cabo dos trabalhos. Se se tratar de uma roulotte das que servem comida pior ainda. Pessoa amiga contou-me há dias a saga de um desempregado, recente, que tinha tentado começar um negócio próprio vendendo, num pequeno veículo, fruta fresca, sanduíches, sumos. Nada de cozinhado. Uma coisa simples, a bom preço, tudo previamente embalado. Ao fim de muita andança lá soube que neste momento não há novas licenças e não conseguiu, apesar de muitas tentativas, qualquer forma de resolver a questão. Se a licença tivesse sido possível, uma pessoa desempregada teria ficado com trabalho e teria ainda criado um outro posto de trabalho, de mais uma pessoa que repartisse trabalho e horários com ele. E no fim o Estado pouparia no subsídio de desemprego e ainda conseguiria alguma receita.
No estado em que estamos acho estas burocracias incompreensíveis – não se percebe porque é que se impossibilita a alguém a oportunidade de trabalhar, de forma legítima. Isto empurra as pessoas para situações à margem das autorizações - e depois lá vem a ASAE e outras que tais invocar a falta de licenças para fechar tudo. Ainda por cima querem agora lançar uma taxa que será paga pelos consumidores para cobrir os custos da ASAE – ele há dias em que isto não é um país, é uma anedota de humor negro.
Quem vai a qualquer cidade nos Estados Unidos vê por todo o lado gente a trabalhar a vender cachorros, pretzels, fruta, soft drinks. Em cada grande cidade são milhares de pessoas que assim ganham a vida, de forma legítima. Em Portugal persegue-se e dificulta-se a vida de quem quer montar um pequeno negócio de rua. Muita coisa tem de ser mudada para este país funcionar. Da maneira que estamos, não vamos lá.
(Publicado no Metro de dia 17 de Julho)
julho 13, 2012
O PROBLEMA DO FISCO E O ESTADO DA NAÇÃO
PROBLEMA – Há um problema neste Governo e chama-se Ministério das Finanças. É dele que depende o fisco e é da politica fiscal que depende o desenvolvimento da economia. Todos sabemos o que está a acontecer por causa da diminuição do consumo provocado pelo aumento da carga fiscal. Mas há mais: o fisco português tem automatismos que funcionam a favor do Estado, mas não tem automatismos que funcionam a favor dos contribuintes. Um cidadão que tenha sido ameaçado de execução por causa de uma suposta dívida, arrisca-se a ficar meses com a indicação de devedor mesmo depois de o Estado reconhecer razão ao contribuinte. Há umas semanas atrás o fisco enviou milhares de ameaças aos possuidores de motociclos de 125cc, na maioria scooters, por supostamente não terem pago o imposto de circulação de 2008 – quando nesse ano esses veículos ainda não eram taxados. O que nisto provocou de horas perdidas aos contribuintes e aos funcionários das Finanças não é mensurável. Mas será que o Fisco apresentou desculpas e anulou as ameaças? Até agora nada fez, nem sequer reconhecer publicamente o problema. Este exemplo pode parecer mesquinho ao pé das barbaridades que se passam com execuções fiscais a famílias carenciadas e das tolerâncias a dívidas de milhões. Mas é um exemplo da arrogância, arbitrariedade e impunidade do Estado e dos seus agentes - que erram e não corrigem os erros.
SITUAÇÃO – O facto politico mais relevante desta semana foi o apoio de utentes – doentes – à greve dos médicos . O protesto fez o “crossover” – uma coisa rara e que geralmente é desejada quando, em comunicação, se tentam tocar públicos bastante diversos. Pois os médicos conseguiram-no, com a preciosa ajuda de uma notável falta de jeito do Ministério da Saúde. Desde o caso do encerramento de serviços e unidades, passando pelo caso dos salários dos enfermeiros, o Ministério conseguiu o notável feito de fornecer motivos para juntar os grevistas com os utentes atingidos pela greve. Este facto mostra o estado a que está a chegar a tensão social em Portugal. Numa época em que os protestos neste rectângulo pouco têm passado de desabafos no Facebook e outras redes sociais, e de uma acções insignificantes do PC e da CGTP, a greve dos médicos é um sinal vermelho ao Governo. A despesa do Estado deve diminuir sim, mas saber onde cortar e quem penalizar é a questão mais decisiva num país em que as grandes fraudes financeiras são branqueadas. Há qualquer coisa errada na forma como se resolvem os buracos deixados pelos grandes infractores e se penalizam os cumpridores. O Estado da Nação é este: o esforço dos portugueses não é acompanhado por um esforço do Estado e nem os malabarismos das esotéricas criaturas que povoam o Tribunal Constitucional conseguem disfarçar isso.
SEMANADA – A imprensa relata que aumenta o número de empresas que estão a adiar o pagamento dos subsídios de férias; mais de dez mil empresas foram extintas em Portugal no primeiro semestre deste ano; segundo a OCDE Portugal destruiu quase meio milhão de postos de trabalho nos últimos quatro anos; os ginásios perderam cerca de 100 mil clientes nos primeiros seis meses do ano; um pedófilo assumido foi condenado a 5 anos de pena suspensa depois de pagar uma indemnização à família de uma das vítimas - diz-se “arrependido” e o tribunal justifica a decisão dizendo que ele é uma pessoa “inteligente e estruturada”; um empresário da noite, julgado e condenado a 22 anos de prisão por homicídio em atentado à bomba, é deixado em liberdade por decisão de um tribunal que anula a decisão anterior por motivos processuais. um psiquiatra foi ilibado depois de ter violado uma paciente grávida em 2011; um psiquiatra foi ilibado por um Tribunal depois de ter violado uma paciente grávida em 2011.
ARCO DA VELHA – O sector leiteiro português pode perder metade do seu rendimento com a nova reforma da politica agrícola comum europeia.
VER – Joshua Benoliel foi o mais importante foto repórter português das duas primeiras décadas do século XX. Este pioneiro da fotografia na imprensa portuguesa trabalhava para o “Século” (jornal extinto por Manuel Alegre nos anos 70). Em boa hora o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, que tem grande parte do espólio de Benoliel, montou uma exposição que mostra a visão que ele tinha das varinas de Lisboa. São imagens autênticas, densas, que mostram o que era a cidade vivida no Mercado da Ribeira, em mulheres que inspiravam (e muitas vezes cantavam) o Fado. A exposição “Varinas de Lisboa”, por Joshua Benoliel, pode ser vista de segunda a Sábado, entre as 10 e as 19h00, na Rua da Palma 246. Agora que os museus da cidade estão em redefinição, aqui está um que bem podia ganhar em protagonismo e notoriedade.
OUVIR – Vou ser prático e rápido – “Orelha Negra” está entre os cinco melhores discos portugueses dos últimos anos. Tem canções, tem músicos, cantores, ritmo, melodia e sentimento. Tem intensidade. Dá gosto ouvir e repetir. Inspira-se em sons americanos e europeus, usa guitarras estridentes e linhas de baixo intensas, percussões soltas e teclados envolventes. Se considerar só este ano, é o melhorzinho que por cá ouvi, mais português que alguns fadistas de ocasião. É um belo argumento de exportação. E de animação em qualquer noite destas.
FOLHEAR – Inauguro hoje a lista de sugestões para leituras de férias com um livro escrito por um professor inglês de Ciência Politica, uma disciplina ultimamente de reputação duvidosa. Adiante – Neill Lochery está actualmente no University College de Londres e no ano passado publicou o livro “Lisbon – War In The Shadows Of The City Of Light 1939-1945”. A Editorial Presença editou o livro em Portugal há pouco tempo e as histórias de espiões que povoam estas páginas encantam-me – até porque o autor soube criar um relato cativante da forma como Lisboa se tornou na única cidade europeia onde aliados e potencias do Eixo operavam à luz do dia e se vigiavam mutuamente. Nestes anos Lisboa era o ponto de passagem de figuras como os duques de Windsor, Calouste Gulbenkian, Ian Fleming (o criador de 007) e muitos outros personagens. O autor mostra o delicado equilíbrio politico em que Salazar jogava a neutralidade na II Grande Guerra e traça um retrao aventureiro de Lisboa. A edição portuguesa, bem traduzida, chama-se “Lisboa – A guerra nas sombras da cidade luz”.
PROVAR –Volta e meia regresso aos mesmos restaurantes, mas é o destino que o dita. Neste caso o destino está ligado a pastéis de bacalhau. É fácil fazer um mau pastel de bacalhau, mas é muito difícil fazer de forma constante um bom pastel de bacalhau. O equilíbrio da mistura entre batata e bacalhau desfiado, os diversos condimentos, a forma de os moldar, de salpicar de salsa a massa crua, e, no fim, o ponto certo da fritura, fazem toda a diferença. Para mim os melhores pasteis de bacalhau nascem no Apuradinho, em Lisboa, na Rua de Campolide 209-A. Nem sempre estão na lista mas pode indagar da sua existência pelo telefone 213880501 . Vêm geralmente acompanhados de um arroz de tomate bem cozinhado sem malandrices, com um toque de pimentos. O “Apuradinho” tem boa fama, mas quem lá vai tem bom proveito. Eu não me canso de repetir a dose e até acontece encomendar, para levar uma pratada de pasteis de bacalhau, acabadinhos de fazer, para uma patuscada de amigos.
GOSTO – As exportações portuguesas continuam a aumentar
NÃO GOSTO – De investigações jornalísticas com agenda politica nem de notícias com cheiro de vingança
BACK TO BASICS – Devemos treinar para suportarmos a perca daquilo que mais tememos ver desaparecer – George Lucas, em Star Wars
(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Julho)
julho 10, 2012
O ESTADO DA NAÇÃO
O verdadeiro debate do Estado da Nação deve ser a avaliação do trabalho do Ministro das Finanças. Gostava que ele fosse avaliado em função das previsões que fez, da estratégia que escolheu, das medidas que implementou e dos resultados que obteve.
O Ministro das Finanças estabeleceu um objectivo para o deficit e já veio dizer que não o vai conseguir cumprir; o Ministro das Finanças estabeleceu um objectivo para a colecta fiscal e, apesar de ter aumentado impostos de forma sensível, já se sabe que a cobrança fica muito abaixo do esperado; o Ministro das Finanças escolheu uma estratégia assente em políticas de austeridade e tomou medidas que provocaram o aumento das falências, o consequente aumento do desemprego e uma degradação da situação do país, em termos económicos e financeiros.
Começo a pensar que a chave dos problemas da Economia não está no Ministro da Economia mas nas más opções do Ministro das Finanças. Uma avaliação imparcial da actuação do Ministro das Finanças mostra que ele não cumpriu objectivos e errou no efeito previsto das medidas tomadas. Em qualquer circunstância, fora da política, um mau desempenho como este levaria a que o seu responsável fosse afastado. Vitor Gaspar é o maior falhanço do Governo, e a sua acção contaminou vários Ministérios.
Aquilo que pode ter parecido uma boa opção – a escolha de alguém conhecedor dos mecanismos financeiros da União Europeia , acabou por se revelar uma péssima escolha quando se percebeu que ele não passava de um burocrata cego, sem vontade nem capacidade de negociação, desligado da realidade e incapaz de corrigir erros em tempo oportuno. As vantagens que poderá ter trazido são bem menores que os prejuízos que causa.
(Publicado no diário Metro de 10 de Julho)
julho 06, 2012
OS SENHORES DOUTORES E TEMAS DIVERSOS
DOUTORES – Razão tinha Álvaro Santos Pereira quando, vindo fresquinho do Canadá, entrou no Ministério da Economia pedindo por o tratarem por Álvaro, sem qualquer título académico em prefixo. Esta mania portuguesa de tratar toda a gente por um título académico dá nefastos resultados na política e torna-se ridículo no dia a dia. Fruto dos costumes, os políticos sentem-se obrigados a ostentar um título e fazem tudo para o adquirir. O assunto afecta de forma especial aqueles que passaram o tempo normal de estudo nas juventudes partidárias e que desleixaram os exames em função da actividade política – e isso não é um pecado. Mais tarde inscreveram-se de novo numa faculdade para obterem o canudo, cuidando mais do título do que do saber. Pegando em casos recentes, Sócrates escondeu as peripécias do seu inglês técnico, ao menos Miguel Relvas assumiu as coisas como elas aconteceram. Mas o essencial da questão não é isso. O essencial é que o que conta num político é a dedicação à causa pública, ideias concretas para Portugal, honestidade e capacidade de liderança – além de intuição política, claro. O resto, é secundário. Com a proliferação de cursos e a abundância de licenciados, a triste verdade é que, agora, até os anúncios de convívios eróticos têm meninas que se apresentam como licenciadas para se valorizarem face aos potenciais clientes e à concorrência. Nada disto faz sentido.
SEMANADA – Os negócios imobiliários caíram 44% em 2011; as vendas de carros em Portugal caíram 43,9% no primeiro semestre; o crédito ao consumo caíu 15,2% em 2011; existe escassez de professores de mandarim em Portugal face ao aumento da procura; a empresa chinesa State Grid, accionista da REN, vai investir 12 milhões de euros na criação em Portugal de um centro tecnológico; no primeiro semestre deste ano, as falências judiciais aumentaram 83% face ao mesmo período de 2011, alcançando praticamente a barreira das dez mil e a um ritmo de 53 por dia; está a diminuir o número de imigrantes em Portugal, sobretudo de brasileiros; a Bolsa de Lisboa perdeu 27 empresas cotadas na última década; a grande distribuição vendeu menos 173 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano em comparação com igual período do ano passado; um enfermeiro contratado pelo Estado via uma empresa de prestação de serviços ganha menos à hora que uma mulher a dias.
ARCO DA VELHA – Por causa de uma directiva europeia sobre as gaiolas nas quais devem estar as poedeiras, cerca de três milhões de galinhas arriscam ser abatidas no fim do mês, cerca de metade do total que existem no país.
VER – Duas sugestões bem diversas na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, inauguram exposições este fim de semana. A primeira resulta das interpretações que, com trabalhos inéditos, Paula Rego e Adriana Molder fazem de «A Dama Pé de Cabra», um conto recolhido por Alexandre Herculano nas suas «Lendas e Narrativas», de 1851. E a outra resulta de um desafio feito a Pedro Calapez para interagir com uma das mais marcantes obras de Paula Rego, “Anjo”, de 1998. Em «Innervisions», um outro olhar sobre a colecção da casa das Histórias, Pedro Calapez justapõe «Dark Skies», uma série inédita de trabalhos concebida especificamente para este momento como uma instalação.
OUVIR – Se eu escrever que «Banga», o novo CD de Patti Smith é provavelmente o seu melhor trabalho desde “Horses” estarei a cometer uma heresia? A avaliar pelo que tenho lido aí nalguma crítica lusitana inspirada pela surdez, deverei ser crucificado e alvo de impropérios diversos. Corro o risco e assumo: “Banga” é um grande disco, onde Patti Smith faz de forma superior aquilo que a caracteriza – um rock apaixonado, emotivo, sentido, sempre com a guitarra do eterno Lenny Kaye a guiar o caminho. Tive a sorte de encomendar na Amazon a edição especial, que na verdade é um pequeno livro, com fotos e polaroids, que conta como o disco começou a tomar forma – a bordo de um cruzeiro, em 2009, quando Patti Smith e Lenny Kaye foram convidados por Jean Luc Goddard no agora célebre Costa Concordia, para filmar algumas cenas do filme «Socialism». Foi em frente da costa da Sicília que algumas destas canções foram compostas. As canções têm relações directas com a vida de Patti Smith - «Seneca» é sobre o seu afilhado Seneca Sebring, «This Is The Girl» é uma homenagem a Amy Winehouse, «Nine» é um presente de aniversário a Johnny Depp, que aliás toca guitarra e percussão na faixa que dá o nome ao disco, “Banga”. Outros grandes temas são por exemplo «Amerigo», April Fool» (com um solo de Tom Verlaine) ou «Tarkovsky». O álbum termina com uma versão de homenagem a um clássico de Neil Young, “After The Goldrush” – mas a edição especial tem uma faixa extra, “Just Kids”, o nome da autobiografia da própria Patti Smith. E esta faixa, como quase todo este disco, mostra como ela, aos 65 anos, continua a ser capaz de combinar a poesia com a sensualidade e energia do rock como nenhuma outra artista.
FOLHEAR –O que é “Fast Company”? Um nome de um filme? Um nome de uma canção dos Eagles? Ou uma revista sobre tecnologia, design e negócios? Pois as três coisas encaixam no título, mas é sobre a revista que vou falar. Foi criada em 1995 por ex-editores da Harvard Business Review e em 2000 a Bertelsmann comprou-a aos fundadores por 350 milhões de dólares, um número recorde na época. De entre as iniciativas da Fast Company contam-se a Most Innovative Companies, a Most Creative People in Business e Masters of Design. A revista tem ganho numerosos prémios e a sua área digital inclui a Co.Exist, a Co.Design, a Co.Create e a Co.Lead, além de um site verdadeiramente genial chamado 30 Second MBA. Pode dizer-se que o conjunto de iniciativas e sites da revista é um exemplo de como transformar uma publicação em papel tradicional numa organização digital influente. A edição de Junho era dedicada precisamente às 100 pessoas mais criativas na área dos negócios e é uma espécie de guia de tendências. Vou dizer os três primeiros – Ma Jun, o Director da agência ambiental chinesa, Rebecca Van Dick, que dirige o marketing para consumidores do facebook e Adam Brotman, Chief Digital Officer da Starbucks. Esta edição é preciosa.
PROVAR – Descobrir sabores orientais no meio de Azeitão é obra; conjugá-los com a tradicional e saborosa carne do rabo do boi é ainda mais curioso. Mas o resultado final é simpático – os folhados de rabo de boi foram uma excelente surpresa e a sopa Thai, bem condimentada, foi apreciada. Os vinhos, da região, estão a preço comedido, o serviço precisa de melhorar mas o balanço geral é positivo. A equipa, a começar pelo Chef, é jovem, e decidiu arriscar no mesmo espaço que já teve vários protagonistas, desde os tempo do pintor João Vieira até outros mais recentes do restaurante Azeitão, cuja equipa está agora no Clube de Golfe da Quinta do Peru, ali perto. O Eden, assim se chama agora o espaço, fica na Praça da República nº8, em Vila Nogueira de Azeitão, tem o telefone 919 932 182 e é liderado pelo Chef Maurício do Vale (não tem relação com o crítico tauromáquico). Quer-me parecer que lá hei-de voltar mais vezes.
GOSTO – Em 2016 Angola deverá ultrapassar a África do Sul como maior economia de África.
NÃO GOSTO – De todo o processo da greve dos pilotos da TAP, cuja reivindicação foi o afastamento de responsáveis das operações de vôo sem cuidar dos prejuízos causados.
BACK TO BASICS – Para se ser um líder tem que se ter a capacidade de fazer com que haja pessoas que nos queiram seguir; mas ninguém quer seguir alguém que não sabe para onde vai – Joe Namath
julho 03, 2012
OS ABUSOS DO ESTADO
Uma coisa que sempre me indignou é a forma como o Estado trata os cidadãos e como tem dois pesos e duas medidas – aos cidadãos exige tudo, cobra juros e estabelece prazos apertados, mas o Estado não cumpre prazos nem atua diligentemente. Vou relatar um caso concreto.
Um contribuinte recebeu, do Fisco, no início do ano a indicação de que existiria uma dívida fiscal vultuosa, relacionada com a venda de uma casa de habitação própria. Por entender que não havia razão para essa dívida, iniciou um processo de reclamação. Entretanto, como a dívida entraria em execução fiscal, apresentou uma garantia bancária no valor que o Fisco estabeleceu, em finais de Fevereiro, no prazo devido. Apesar de a garantia bancária estar feita, na página pessoal do referido contribuinte continua a constar que serão feitas penhoras no âmbito da execução fiscal – apesar de por várias vezes ter explicado a situação e pedido aos serviços para retirarem a referência.
No final de Maio o contribuinte foi notificado que a reclamação efetuada havia sido deferida, estando portanto anulada a existência da dívida. Desde essa altura, já vai mais de um mês, o contribuinte tenta que os serviços fiscais informem o banco de que a garantia bancária já pode ser extinta. Apesar das várias diligências feitas, os serviços continuam sem o fazer, e o cointribuinte continua a pagar os custos da garantia.
O contribuinte tinha prazos para apresentar a reclamação, que cumpriu; tinha prazos para apresentar a garantia bancária, que cumpriu; o Estado, apesar de já ter concordado que a reclamação era justa, continua sem desbloquear a situação.
Como pode um contribuinte respeitar um Estado que age assim?
(Publicado na edição do Metro de 3 de Julho)
junho 29, 2012
Uma ideia velha, uma revista com ideias novas, um bitoque inovador
REALIDADE – A realidade, dura e pesada, que vivemos hoje em dia, tem as suas raízes numa ideia simpática mas irrealista de uma Europa unificada, ideia traçada há décadas, numa fase de prosperidade. Ao longo de décadas o sonho europeu transformou-se, por força do irrealismo dos seus criadores e da falta de capacidade dos seus dirigentes, num terrível pesadelo. É escusado recordar o papel da Alemanha em tudo isto – a culpa não é só da Alemanha, é de quem acreditou que se podia gastar cada vez mais sem olhar para as contas. Como bem se sabe a situação atingiu vários países na Europa – cinco já pediram resgate e tudo indica que a médio prazo mais se lhes seguirão. Embora seja muito simpática a ideia europeia, a situação onde deixámos que nos metessem não se resolve com boas intenções nem com retórica apaixonada, pintada com laivos ideológicos. Aquilo por que estamos a passar é o resultado de décadas de ciclos eleitorais onde o voto foi trocado por promessas de cada vez mais obras públicas, prosperidade, apoios e garantias. Os custos brutais que foram incorridos – muito maiores que as receitas - levam agora a distinguir com dificuldade o que era necessário do que foi supérfluo e sobretudo coloca em causa a seriedade de quem geriu o país – e, também, a Europa - nestas décadas. Por isso mesmo olho incrédulo para uma iniciativa auto-intitulada Congresso Democrático das Alternativas (o nome, já agora, não certamente por acaso, evoca acções contra a ditadura em 19557, 69 e 73). Sob o lema “Resgatar Portugal Para um Futuro Decente”, juntam-se vários representantes dos sonhos antigos, alguns responsáveis de políticas do passado e os suspeitos do costume sempre interessados em fazer o Estado distribuir mais do que aquilo que tem. O extraordinário é que toda esta gente emite opiniões, apresenta reivindicações mas não explica nem desenha soluções baseadas em estudos concretos e na realidade. Isto, lamento dizê-lo, não é política – é trafulhice ideológica pintada de demagogia barata. E foi isso que nos trouxe até onde estamos. Mais do mesmo só pode querer dizer piorar as coisas.
SEMANADA – As remessas dos emigrantes voltaram a subir para níveis de há dez anos; a receita do imposto sobre veículos é metade da registada no ano passado; as receitas do IRC registam uma quebra de mais de 15% até Maio; os 400 trabalhadores do centro de contacto telefónico da Segurança Social vão ser despedidos por mudança do fornecedor do serviço; o consumo per capita de cerveja em Portugal diminuiu 18 por cento; a administração fiscal vai cobrar as multas dos passageiros que viajarem sem bilhete nos transportes públicos; a Via do Infante perdeu metade do tráfego depois da implementação das portagens; as dívidas a mais de 90 dias do Estado a fornecedores aumentaram 162 milhões em Abril e voltaram a subir em Maio; só um terço dos hospitais diz cumprir prazos de consultas muito prioritárias; número de alunos que não concluíram o secundário aumentou em 2011.
ARCO DA VELHA – “Desde que está na prisão, lê a Bíblia, reza e está muito arrependido do que fez” – afirmou um pastor da Igreja Evangélica que tem visitado na prisão o ex-bancário de 46 acusado de 335 crimes de abusos sexuais, pornografia e maus tratos a menores.
VER – Quanto custa investir em arte? - depende. Se escolher artistas em princípio de carreira, o investimento pode ser acessível. João Esteves de Oliveira tem uma galeria com o seu nome, no nº 38 da Rua Ivens, e tem sensibilidade para o mercado e os investimentos em arte. A sua galeria especializou-se em obras em papel e ao longo do ano lá passam autores consagrados e outros no princípio da carreira. É o que agora acontece com Ângela Dias, Josefina Ribeiro, Manuel Diogo e Vasco Futscher, recentes ex-alunos do ARCO, que ali mostram o seu trabalho. Os preços começam nos 150 euros mas não passam dos 500. O melhor de tudo é que os trabalhos são bons e a exposição é muito interessante. Eu pessoalmente gostei muito dos óleos sobre papel de Manuel Diogo, mas parece certo que Ângela Dias, talvez pelo imaginário próximo de algumas fases de Paula Rego, ganhou elogios da crítica e será seguramente um valor em ascensão. As formas de Vasco Futscher são um momento de novidade e os animais de Josefina Ribeiro fazem lembrar algumas obras de Susan Norrie, que costumava expor no extinto Centro Cultural de Almancil. Esta é uma boa exposição que mostra como novos artistas estão a desenvolver o seu talento e criatividade. E quem agora apostar em qualquer deles certamente não se arrependerá no futuro.
OUVIR – Fiona Apple não fazia um álbum de originais há sete anos e agora saíu-se com um que tem um extenso nome: “The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do”. Trata-se do seu quarto álbum, o primeiro a seguir a “Extraordinary Machine”, de 2005. A lenda reza que ela trabalhou neste disco em segredo, sem que a sua editora soubesse o que se passava. E o que se passava são arranjos mais comedidos, muitas vezes com inspirações jazzy, com percussões fortes, a acompanhar a intensidade de temas vibrantes como “Daredevil” ou “Periphery”, em que as suas vocalizações intensas deixam uma marca invulgar. “Every Single Night”, a canção de abertura, é uma espécie de manual de introdução ao estilo de Fiona Apple, à forma que ela tem de fazer canções - algumas tão intensas e marcantes como “Left Alone” ou “Hot Knife”, um final absolutamente fantástico para este álbum.
FOLHEAR – A edição de verão da minha querida revista "Monocle" agrupa os meses de Julho e Agosto e inclui a lista das melhores cidades onde viver. Como todas as políticas demoram tempo a causarem efeito, eis que Lisboa saíu da lista das 25 cidades preferidas da "Monocle". Também não é de admirar, depois de a cidade ser em anos seguidos transformada em feira pelas mãos de José Sá Fernandes, de a lixeira ser constante nas ruas pela mão de António Costa ou pelo facto de Nunes da Silva inventar as mais estapafúrdias alterações ao transito que imaginar se pode. Lisboa, nestes poucos anos, passou de uma cidade civilizada a uma cidade incómoda e desconfortável. Nas próximas eleições, quando virem os boletins de voto, não se esqueçam que o culpado do assunto se chama António Costa. E, se se sentirem tentados, por uma qualquer razão ideológica a votar nele, lembrem-se do que a EMEL tem feito no seu mandato, daquilo em que Lisboa tem sido transformada e da falta de plano para uma cidade que vai perdendo pontos, como agora se vê. Mas, voltando à Monocle", que é o que agora interessa, o número é dedicado a tudo aquilo que faz com que possa ser agradável viver numa cidade, Nunca é tarde para aprender e com as autárquicas ao virar da esquina os senhores que decidem sobre os candidatos bem que podiam guardar esta edição e seguir os seus conselhos. Esta "Monocle" tem 282 páginas e vai durar uma boa parte do Verão. Tem algumas coisas deliciosas, como uma lista de 50 coisas que podem melhorar as nossas vidas. Eu espero que por cá alguém, com poder de decisão e execução, a leia - e não resisto a contar uma história: há uns anos, quando a "Monocle" fez um dos primeiros artigos sobre as estratégias para as cidades, que eu, na época, aqui referi, um assessor de António Costa pediu-me cópia do dito texto, invocando o interesse do Presidente da Câmara. Fiquei esperançado que a leitura fosse inspiradora. Nada do que lá estava escrito foi aproveitado.
PROVAR – Se ao Domingo estiver em Lisboas à hora de almoço e lhe apetecer um pouco de pecado carnal, dirija-se ao restaurante Flores, no Bairro Alto Hotel (no Largo de Camões) e peça o bitoque. Trata-se de uma rara conjugação de competências, pela mão do chef Vasco Lello. Comecemos pela carne, excelente, do lombo, passada rigorosamente a gosto do que o cliente pretender. O molho, inspirado no lisboeta Marrare, tem algum toque que lhe dá uma graça inesperada. O ovo a cavalo é preciso e certeiro. E as batatas fritas, de palitos finos, estão no ponto, sem gordura nem tostado excessivo. A decoração, já que os olhos também comem, é albardada com um dente de alho cravejado de uma folha de louro. Este é o bitoque perfeito. E só se serve aos Domingos, ao almoço, no Flores. Telefone 213 408 252.
GOSTO – Da condenação por atentado à liberdade de imprensa do deputado socialista Ricardo Rodrigues;
NÃO GOSTO – Foram gastos 21 milhões de euros em obras na sede do Banco de Portugal desde 2010, sempre por ajuste directo e sempre à mesma empresa;
BACK TO BASICS – Em tempos de desânimo generalizado, dizer a verdade é um acto revolucionário - George Orwell