julho 27, 2012

A CULTURA SÓ PARA ALGUNS

COSTUMES - Um texto intitulado “É a falta de cultura, estúpido”, de Clara Ferreira Alves, publicado na edição de sábado passado da Revista do Expresso, agitou as redes sociais. No texto a autora defende a tese de que Portugal tem hoje apenas uma pequena elite que consome a cultura, e lamenta-se de essa elite ser velha e não ter sucessores. É um raciocínio antigo, e muito paroquial., baseado numa noção de cultura ela própria elitista e basicamente reaccionária. É este raciocínio que tem sustentado a existência de iniciativas, instituições, fundações e individualidades que pensam apenas no seu umbigo e nos umbigos dos que lhe são próximos. Noutros pontos do texto a autora insurge-se contra a cultura popular contemporânea, com a sobranceria própria das elites: já há uns anos o Maestro Vitorino de Almeida pregava contra a música pop e apelidava-a com diversos mimos e, hoje em dia, saltita nas ruas de aldeias do norte a dirigir uma população rural que consegue cantar o “All Together Now” dos Beatles num belo spot publicitário da Optimus. Mas a essência do texto de CFA relata somente a percepção, que ela tem, de ser uma parte de um núcleo que se fechou em torno de si mesmo e que foi incapaz de encontrar seguidores e sucessores. O seu texto é o retrato do falhanço de uma geração bem pensante que não conseguiu agir, preocupada que estava em se ver ao espelho. A história da criação artística está ligada à capacidade de comunicar, encontrar públicos e financiamentos, para não ir mais longe, pelo menos desde a Renascença. Os artistas sempre procuraram mercado, no sentido de procurarem quem lhes comprasse – ou pagasse - as obras. Não há que ter medo da popularização da criação artística nem da procura do mercado. Pelo contrário, eu defendo que há é que ter medo dos artistas que não querem ter público e do público que quer ser pequeno e ter acesso exclusivo. Isso é que me preocupa. Nos últimos anos, ou nas últimas décadas, um dos problemas das instituições que apresentam produções culturais, clássicas ou vanguardistas, é a comunicação da sua actividade. A maioria das grandes instituições, ditas de referência, peca por se dirigir sempre aos mesmos iluminados e por não procurar cativar novos públicos. Uma análise primária da comunicação dessas instituições mostra isso mesmo. Não estou só a falar da comunicação jornalística, mas também da comunicação publicitária, que todas fazem, mas que as mais das vezes é executada sem critério, sem qualquer base técnica, acabando por impactar sempre os mesmos, em círculo fechado – os tais que não conseguiram reproduzir-se. Agir assim é como pregar a missa aos convertidos e desistir de encontrar novos fiéis – um curioso paralelo entre a ala mais retrógrada da igreja e as instituições que se gabam da sua presença no mundo da criação artística, clássica ou contemporânea. Se forem ver bem o que nos últimos anos tem sido feito pelas grandes instituições, públicas ou privadas,  nesta área do marketing cultural, perceberão que na maioria dos casos não estudam alvos de público, fazem compras directas de espaço publicitário aos media, muitas vezes sem cuidar nem da eficácia nem do preço, com um sibilino (e incorrecto) racional por trás que é o de, assim, estabelecendo uma relação comercial directa, poderem talvez influenciar positivamente o conteúdo editorial. Não estou a falar de cor quando digo isto, na minha vida profissional já me deparei várias vezes com o assunto. Mas tudo vai dar ao mesmo ponto: não basta escolher e programar em abstracto – é preciso saber que públicos se querem conquistar ou que públicos se querem perder. Quem não consegue renovar públicos deve interrogar-se sobre o que está a fazer mal. Talvez se pensarem, em vez de repetirem chavões, consigam ultrapassar o diletantismo típico das infecundas elites portuguesas.


 


 


  


SEMANADA – No primeiro semestre foram extintas mais 33% de empresas que no mesmo período do ano passado; os manuais escolares do 12º ano custam 200 euros e continuam a ser distribuídos em papel; 50% dos portugueses vêem televisão e navegam na internet em simultâneo; o número real de desempregados já ultrapassa o milhão e, destes, cerca de 300.000 não recebem qualquer subsidio;


quase metade das empresas municipais arrisca fechar por não cumprirem os requisitos da lei; apesar da subida de impostos a receita fiscal diminuiu 3,1% no primeiro semestre; há 374 médicos a ganhar duas vezes num mesmo hospital; a dívida do Estado as empresas  de construção aumentou 147 milhões de euros no primeiro semestre e anda agora nos 1,5 mil milhões de euros.


  


ARCO DA VELHA – Apesar dos aumentos, a receita do IVA caiu 119 milhões de euros no primeiro semestre.


 


VER – Três sugestões de exposições. Em Lisboa, na Galeria Valbom (Av Conde Valbom 89), até final deste mês e no início de Setembro, uma exposição de Nádia Duvall, a vencedora do prémio Banif Revelação de 2008. Intitulada “Árvores Que Caem”, mostra mais uma vez a peculiar técnica de pintura da artista, desta vez  sobre um suporte de organza. O resultado é inesperado e mostra mais uma vez o experimentalismo da artista. A exposição inclui ainda uma série de pequenos desenhos, que têm a cera como uma das matérias primas, e que dão uma outra visão do trabalho de Nádia Duvall. Dando um salto até Algés vale a pena ver a renovada exposição do acervo do Centro de Arte Manuel de Brito e uma retrospectiva de Manuel Baptista. Se está no Algarve vá redescobrir a nova fase da vida do Centro Cultural São Lourenço, em Almancil, desta vez com a gestão a cargo da Galeria São Mamede, de Lisboa, que para lá levou obras do seu acervo,  numa colectiva de pintura e escultura.


 


OUVIR – O meu disco de Verão está encontrado: trata-se de “The Bravest Man In The Universe”, de Bobby Womack, uma lenda do soul (foi guitarrista de Sam Cooke) que reaparece após muitos anos. Amigo de Jimi Hendrix, admirado pelos Rolling Stones (que cantaram a sua “It’s All Over Now”), Bobby Womack reaparece depois de uma descida aos infernos pela mão do produtor Damon Albarn – a voz do velho soulman está em grande forma, o registo é soul incontornável e vale a pena ouvir os duetos com Lana Del Rey em “Dayglo Reflection” e em “Nothing Can Save Ya”, com Fatoumata Diawara, a brilhante cantora do Mali que esteve esta semana em Portugal no Festival Músicas do Mundo em Sines. “The Bravest Man In The Universe” tem 11 canções que povoam estes dias.


 


FOLHEAR – Mais uma sugestão de férias – neste ano de crise, em que dar uma escapadela é mais difícil, “A Arte da Viagem” é uma recolha bem escolhida de textos de Paul Theroux, onde ele conta histórias dos seus 50 anos de viagens, mas também intercalado por citações que reproduz de textos de outros grandes viajantes, como Mark Twain, Bruce Chatwin, Hemingway ou Samuel Johnson, entre outros. Fiquei fã de “As regras de viagem de Murphy” e das “Regras de Reportagem de Rosenblum”. Edição Quetzal.


 


PROVAR – Como a crise provoca uma diminuição do trânsito automóvel na cidade, agora há lugar para estacionar no pequeno largo, junto do Museu Nacional de Arte Antiga, onde fica “Le Chat”, uma bar-restaurante com o melhor entardecer de Lisboa. Experimente a tábua de queijos, escolha um vinho, e deixe-se ficar a conversar e a ver o sol a partir. Jardim 9 de Abril, às Janelas Verdes, telefone 966 537 387, fecha às segundas.


 


GOSTO –  Da exposição que assinala os 45 anos de Corto Maltese em Évora, que inclui cinco dezenas de desenhos originais de Hugo Pratt.


 


NÃO GOSTO – De Vítor Gaspar ter imposto para assessorar as privatizações da EDP e REN uma empresa dirigida por um amigo seu, contra a opinião de elementos da administração da CGD.


 


BACK TO BASICS -  “Na Arte só têm importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes” – Eça de Queiroz. 


 


 (Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Julho)

julho 24, 2012

A INJUSTIÇA EM QUE VIVEMOS

Passam os anos e existe um sector onde nada se altera – a Justiça. É raro o mês em que não acontece mais um daqueles casos que nos põe de cabelos em pé. A decisão sobre o caso Freeport é o mais recente exemplo da ineficácia de um sistema em que os vários intervenientes públicos – Procuradoria, investigadores policiais e tribunais - não se entendem e arranjam sempre maneira de descobrir buracos uns dos outros em vez de conseguirem focar-se nos factos e nos casos em julgamento.


 


A um outro nível, em poucas semanas, os tribunais produziram situações assim: um pedófilo assumido foi condenado a 5 anos de pena suspensa depois de pagar uma indemnização à família de uma das vítimas - diz-se “arrependido” e o tribunal justifica a decisão dizendo que ele é uma pessoa “inteligente e estruturada”; um empresário da noite, julgado e condenado a 22 anos de prisão por homicídio em atentado à bomba, foi deixado em liberdade por decisão de um tribunal que anula a decisão anterior por motivos processuais; um psiquiatra foi ilibado por um Tribunal depois de ter violado uma paciente grávida em 2011. Por mais boa vontade que se tenha não se consegue acreditar na justiça, na procuradoria, nos investigadores e nos tribunais.


 


O sistema não funciona e não é só por ser demorado e penoso – não funciona porque se desgasta em guerras internas em vez de procurar esclarecer a verdade, descobrir os culpados e atribuir-lhes o castigo que merecerem. Em Portugal os tribunais deixaram de ser órgãos respeitados para serem a origem de maus exemplos, de anedotas de humor negro, de ineficácias diversas, de tempo perdido. Alguma coisa vai mal num sistema em que deixa de haver justiça e em vez disso há uma farsa onde nunca há culpados.


 


(Publicado no diário Metro de 24 de Julho)

julho 20, 2012

A SAGA DAS FACTURAS, O RIDÌCULO DA ERC E SUGESTÕES AVULSAS

FACTURAS – Eu acho óptimo que se combata a evasão fiscal. Acho ainda melhor que se combata a grande evasão fiscal. Mas fico um bocadinho preocupado se tiver que pedir uma factura quando compro o jornal da manhã, ou se tiver que explicar à simpática senhora que me vende umas belas laranjas da sua pequena propriedade que ela me deve passar uma factura. O que leio nos jornais é que quem não passar factura fica sujeito a uma coima que vai quase a quatro mil euros. Num pais com o desemprego que existe e com a  economia no estado que todos conhecemos, esta medida dificulta o arranque de iniciativas de auto-emprego – seja vender o que a terra dá, seja fazer bolos ou lavar escadas. Bem sei que todos devemos pagar impostos – mas temo que o histórico do passado mostre que os mais fracos serão os que mais serão perseguidos por pequenas infracções, enquanto os especialistas em fugir ao fisco continuarão na mesma. Todos temos uma responsabilidade social – mas em Portugal essa responsabilidade, em matéria fiscal, atinge mais os fracos e muito menos os fortes. Eu sei que, quando viajo, na Europa ou nos Estados Unidos, compro muitas coisas na rua e não vejo os vendedores de pretzels com máquinas registadoras a emitir facturas. Aí vale o dinheiro e não o pagamento electrónico. De certeza que existe uma maneira justa de encontrar uma forma de taxar estas actividades sem as sufocar e penalizar- basta estudar o que se passa nesses países. Estas actividades de rua criam emprego, prestam serviço,  animam as cidades, são úteis. Nos jornais leio que, em função das exigências da facturas, foi feita uma Lei que promove deduções no IRS das famílias. Só que para atingir o teto máximo de deduções de 250 euros no IRS, é necessário reunir facturas de hotelaria, oficina ou cabeleireiro, no montante de 2280 euros por mês, o que se traduz em  perto de 27 mil euros por ano. De certeza que quem fez isto não vive no mundo real. E quer enganar alguém – Vítor Gaspar está enganado ou quer atirar-nos areia para os olhos?


 


ERC – Essa coisa – nem entidade consigo dizer -  que é suposta regular os media deliberou que os resumos vídeo dos jogos da Liga de Futebol só devem ser dados a canais abertos.  A pedido, excluiu o site da “Bola” e o futuro canal que este jornal tem quase pronto a lançar no cabo. Eu achava que uma entidade reguladora devia proporcionar oportunidades para o futuro, acompanhar o presente, e estar atenta aos novos desenvolvimentos tecnológicos. A ERC, não toda, reconheça-se, acha que interessa manter o status quo. Vive no século passado. Ignora a Web TV, os canais de Cabo, o mundo actual. Esquece que 70% da população portuguesa tem acesso ao MEO ou ZON, ou outros operadores. Esta ERC, a mesma que foi conivente com o despautério da Televisão Digital Terrestre, tem por missão impedir o futuro. Em matéria de televisão e de comunicação, a ERC é coisa que cheira a bolor. Em nome da saúde pública denuncie-se o bolor à ASAE, a ver se duas abjecções sucumbem.


 


SEMANADA –  A região Norte perdeu 1256 escolas; em Lisboa já há mais de mil casas sem água por falta de pagamento; mais de cinco mil pais deixaram de pagar pensão de alimentos;  57% das famílias não tem rendimento para pagar IRS; metade das empresas factura baixo de 150 mil euros por ano; em média 11 casas por dia são entregues à banca por famílias que não têm capacidade para assumir os seus compromissos;  em dez anos o numero de agregados familiares que vivem exclusivamente de pensões passou de 329 mil para 850 mil; no mesmo dia em que o Ministério Público pediu a absolvição de dois promotores do Freeport no célebre caso das luvas, decidiu abrir uma investigação à compra da EDP e REN por chineses; a Bolsa de Lisboa perdeu 57 mil milhões em cinco anos


 


ARCO DA VELHA – " A ASAE visitou recentemente um dos melhores restaurantes do país e levantou um auto ao estabelecimento e ao gerente porque o prato "posta
mirandesa" devia ser chamado " posta à mirandesa", dado a carne não ter
certificado de origem!" citado por José Carlos Pinto Coelho, do Onyria Resorts, no estudo “Países Como Nós 2”.

VER – Não é muito vulgar um artista português dedicar tanta atenção a construir um bom site, e, menos ainda, a um bom site de vendas online de obras suas em diversos formatos. Pedro Calapez, que é um explorador incansável, procura sempre surpreender com o que faz e o trabalho que se pode ver em  http://calapez.com/ e em http://buyacalapez.com/ é de facto ímpar na paisagem portuguesa. É uma permanente mostra da evolução da sua criatividade, um actualizar de tendências e um guia para uma melhor compreensão da sua obra. Quase tão bom como visitar o seu atelier ou uma das suas exposições.


 


OUVIR – Como tudo na vida tem o seu tempo, os Keane nasceram em 1995 mas só em 2000 gravaram o seu primeiro singlee um álbum inteiro nasceu em 2004. Foram refinando o estilo – e acentuando a sonoridade do piano, assim como a qualidade das canções ao longo dos anos. Já em 2012 editaram “Strangeland”, que é aquilo que se pode classificar como um perfeito álbum pop. O êxito das suas actuações ao vivo – já estiverem recentemente em Portugal e ainda cá voltarão este Verão – ajuda a consolidar a imagem da banda. Canções que ficam na memória são o passaporte para boa recepção nos festivais:  canta tudo em coro e afinadinho. “Strangeland” ajudou muito a isso este ano.


 


FOLHEAR – Prosseguindo na senda da recomendação dos livros para férias, hoje aventuro-me pelos petiscos. Anthony Bourdain é um nova-iorquino, filho de pai francês, e que se tornou nos últimos anos numa das referências da cozinha mundial – principalmente graças à televisão. Bourdain esteve recentemente em Portugal e fez em Lisboa um episódio da sua série “No Reservations”, que, como habitualmente, primou pelas escolhas inesperadas – podem vê-la no YouTube. O seu primeiro grande êxito editorial foi “Cozinha Confidencial- aventuras no submundo da restauração”, um original de 2000, que foi reeditado entre nós graças à notoriedade que entretanto a televisão trouxe. Bourdain é um tipo divertido, que escreve de forma cativante e que conta histórias de forma deliciosa – como por exemplo a sua descoberta das ostras. Na realidade o livro descreve a forma como ele foi descobrindo o prazer da comida, como foi descobrindo sabores. Mas conta também como é a relação de poder dentro de um restaurante – da cozinha ao bar, passando pela sala. Está bem escrito, bem traduzido e, já agora,  proporciona boas ideias para quem nas férias se quiser aventurar a fazer de cozinheiro.


 


PROVAR – Um destes dias fui jantar a um aprazível local no Cais de Sodré, o IBO, uma homenagem aos sabores de Moçambique, e fiquei com a refeição azeda quando vi que lá estava Vítor Gaspar a jantar, numa mesa de burocratas, nacionais e comunitários. Só mesmo a excelência do caril do IBO e a simpatia do serviço, além dos convivas da mesa, me permitiram sair incólume da noite. Já que os Ministros das Finanças nos aborrecem tanto, deviam ser aconselhados a não estragar a noite aos contribuintes aparecendo em locais públicos ainda por cima provavelmente jantando à custa desses mesmos contribuintes. Adiante, que o IBO merece melhor recomendação que a criatura das Finanças. Quando quiserem provar o melhor caril de Lisboa – de gambas ou caranguejo –é lá que se devem dirigir. Telefone             213 423 611      .


 


GOSTO –   De terem escolhido caricaturas do desenhador António  para a nova estação do Metro do Aeroporto


 


NÃO GOSTO – Que, em qualquer caso ou situação, um Bispo use a sua posição na hierarquia da Igreja para expressar opiniões politicas


 


BACK TO BASICS –  Nada há de mais ruidoso – e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a politica – Eça de Queiroz.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Julho)


 

julho 17, 2012

A BUROCRACIA QUE NOS ESTRANGULA

Conseguir obter uma licença para fazer um negócio de rua, legítimo, é hoje em dia o cabo dos trabalhos. Se se tratar de uma roulotte das que servem comida pior ainda. Pessoa amiga contou-me há dias a saga de um desempregado, recente, que tinha tentado começar um negócio próprio vendendo, num pequeno veículo, fruta fresca, sanduíches, sumos. Nada de cozinhado. Uma coisa simples, a bom preço, tudo previamente embalado. Ao fim de muita andança lá soube que neste momento não há novas licenças e não conseguiu, apesar de muitas tentativas, qualquer forma de resolver a questão. Se a licença tivesse sido possível, uma pessoa desempregada teria ficado com trabalho e teria ainda criado um outro posto de trabalho, de mais uma pessoa que repartisse trabalho e horários com ele. E no fim o Estado pouparia no subsídio de desemprego e ainda conseguiria alguma receita.


 


No estado em que estamos acho estas burocracias incompreensíveis – não se percebe porque é que se impossibilita a alguém a oportunidade de trabalhar, de forma legítima. Isto empurra as pessoas para situações à margem das autorizações - e depois lá vem a ASAE e outras que tais invocar a falta de licenças para fechar tudo. Ainda por cima querem agora lançar uma taxa que será paga pelos consumidores para cobrir os custos da ASAE – ele há dias em que isto não é um país, é uma anedota de humor negro.


 


Quem vai a qualquer cidade nos Estados Unidos vê por todo o lado gente a trabalhar a vender cachorros, pretzels, fruta, soft drinks. Em cada grande cidade são milhares de pessoas que assim ganham a vida, de forma legítima. Em Portugal persegue-se e dificulta-se a vida de quem quer montar um pequeno negócio de rua. Muita coisa tem de ser mudada para este país funcionar. Da maneira que estamos, não vamos lá.


 


(Publicado no Metro de dia 17 de Julho)

julho 13, 2012

O PROBLEMA DO FISCO E O ESTADO DA NAÇÃO

PROBLEMA – Há um problema neste Governo e chama-se Ministério das Finanças. É dele que depende o fisco e é da politica fiscal que depende o desenvolvimento da economia. Todos sabemos o que está a acontecer por causa da diminuição do consumo provocado pelo aumento da carga fiscal. Mas há mais: o fisco português tem automatismos que funcionam a favor do Estado, mas não tem automatismos que funcionam a favor dos contribuintes. Um cidadão que tenha sido ameaçado de execução por causa de uma suposta dívida, arrisca-se a ficar meses com a indicação de devedor mesmo depois de o Estado reconhecer razão ao contribuinte. Há umas semanas atrás o fisco enviou milhares de ameaças aos possuidores de motociclos de 125cc, na maioria scooters, por supostamente não terem pago o imposto de circulação de 2008 – quando nesse ano esses veículos ainda não eram taxados. O que nisto provocou de horas perdidas aos contribuintes e aos funcionários das Finanças não é mensurável. Mas será que o Fisco apresentou desculpas e anulou as ameaças? Até agora nada fez, nem sequer reconhecer publicamente o problema. Este exemplo pode parecer mesquinho ao pé das barbaridades que se passam com execuções fiscais a famílias carenciadas e das tolerâncias a dívidas de milhões. Mas é um exemplo da arrogância, arbitrariedade e impunidade do Estado e dos seus agentes - que erram e não corrigem os erros.


 


SITUAÇÃO – O facto politico mais relevante desta semana foi o apoio de utentes – doentes – à greve dos médicos . O protesto fez o “crossover” – uma coisa rara e que geralmente é desejada quando, em comunicação, se tentam tocar públicos bastante diversos. Pois os médicos conseguiram-no, com a preciosa ajuda de uma notável falta de jeito do Ministério da Saúde. Desde o caso do encerramento de serviços e unidades, passando pelo caso dos salários dos enfermeiros, o Ministério conseguiu o notável feito de fornecer motivos para juntar os grevistas com os utentes atingidos pela greve. Este facto mostra o estado a que está a chegar a tensão social em Portugal. Numa época em que os protestos neste rectângulo pouco têm passado de desabafos no Facebook e outras redes sociais, e de uma acções insignificantes do PC e da CGTP, a greve dos médicos é um sinal vermelho ao Governo. A despesa do Estado deve diminuir sim, mas saber onde cortar e quem penalizar é a questão mais decisiva num país em que as grandes fraudes financeiras são branqueadas. Há qualquer coisa errada na forma como se resolvem os buracos deixados pelos grandes infractores e se penalizam os cumpridores. O Estado da Nação é este: o esforço dos portugueses não é acompanhado por um esforço do Estado e nem os malabarismos das esotéricas criaturas que povoam o Tribunal Constitucional conseguem disfarçar isso.


 


SEMANADA – A imprensa relata que aumenta o número de empresas que estão a adiar o pagamento dos subsídios de férias; mais de dez mil empresas foram extintas em Portugal no primeiro semestre deste ano; segundo a OCDE Portugal destruiu quase meio milhão de postos de trabalho nos últimos quatro anos; os ginásios perderam cerca de 100 mil clientes nos primeiros seis meses do ano; um pedófilo assumido foi condenado a 5 anos de pena suspensa depois de pagar uma indemnização à família de uma das vítimas - diz-se “arrependido” e o tribunal justifica a decisão dizendo que ele é uma pessoa “inteligente e estruturada”; um empresário da noite, julgado e condenado a 22 anos de prisão por homicídio em atentado à bomba, é deixado em liberdade por decisão de um tribunal que anula a decisão anterior por motivos processuais. um psiquiatra foi ilibado depois de ter violado uma paciente grávida em 2011; um psiquiatra foi ilibado por um Tribunal depois de ter violado uma paciente grávida em 2011.


 


ARCO DA VELHA – O sector leiteiro português pode perder metade do seu rendimento com a nova reforma da politica agrícola comum europeia.



VER – Joshua Benoliel foi o mais importante foto repórter português das duas primeiras décadas do século XX. Este pioneiro da fotografia na imprensa portuguesa trabalhava para o “Século” (jornal extinto por Manuel Alegre nos anos 70). Em boa hora o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, que tem grande parte do espólio de Benoliel, montou uma exposição que mostra a visão que ele tinha das varinas de Lisboa. São imagens autênticas, densas, que mostram o que era a cidade vivida no Mercado da Ribeira, em mulheres que inspiravam (e muitas vezes cantavam) o Fado. A exposição “Varinas de Lisboa”, por Joshua Benoliel, pode ser vista de segunda a Sábado, entre as 10 e as 19h00, na Rua da Palma 246. Agora que os museus da cidade estão em redefinição, aqui está um que bem podia ganhar em protagonismo e notoriedade.


 


OUVIR – Vou ser prático e rápido – “Orelha Negra” está entre os cinco melhores discos portugueses dos últimos anos. Tem canções, tem músicos, cantores, ritmo, melodia e sentimento. Tem intensidade. Dá gosto ouvir e repetir. Inspira-se em sons americanos e europeus, usa guitarras estridentes e linhas de baixo intensas, percussões soltas e teclados envolventes. Se considerar só este ano, é o melhorzinho que por cá ouvi, mais português que alguns fadistas de ocasião. É um belo argumento de exportação. E de animação em qualquer noite destas.


 


FOLHEAR – Inauguro hoje a lista de sugestões para leituras de férias com um livro escrito por um professor inglês de Ciência Politica, uma disciplina ultimamente de reputação duvidosa. Adiante – Neill Lochery está actualmente no University College de Londres e no ano passado publicou o livro “Lisbon – War In The Shadows Of The City Of Light 1939-1945”. A Editorial Presença editou o livro em Portugal há pouco tempo e as histórias de espiões que povoam estas páginas encantam-me – até porque o autor soube criar um relato cativante da forma como Lisboa se tornou na única cidade europeia onde aliados e potencias do Eixo operavam à luz do dia e se vigiavam mutuamente. Nestes anos Lisboa era o ponto de passagem de figuras como os duques de Windsor, Calouste Gulbenkian, Ian Fleming (o criador de 007) e muitos outros personagens. O autor mostra o delicado equilíbrio politico em que Salazar jogava a neutralidade na II Grande Guerra e traça um retrao aventureiro de Lisboa. A edição portuguesa, bem traduzida, chama-se “Lisboa – A guerra nas sombras da cidade luz”.


 


PROVAR –Volta e meia regresso aos mesmos restaurantes, mas é o destino que o dita. Neste caso o destino está ligado a pastéis de bacalhau. É fácil fazer um mau pastel de bacalhau, mas é muito difícil fazer de forma constante um bom pastel de bacalhau. O equilíbrio da mistura entre batata e bacalhau desfiado, os diversos condimentos, a forma de os moldar, de salpicar de salsa a massa crua, e, no fim, o ponto certo da fritura, fazem toda a diferença. Para mim os melhores pasteis de bacalhau nascem no Apuradinho, em Lisboa, na Rua de Campolide 209-A. Nem sempre estão na lista mas pode indagar da sua existência pelo telefone 213880501 . Vêm geralmente acompanhados de um arroz de tomate bem cozinhado sem malandrices, com um toque de pimentos. O “Apuradinho” tem boa fama, mas quem lá vai tem bom proveito. Eu não me canso de repetir a dose e até acontece encomendar, para levar uma pratada de pasteis de bacalhau, acabadinhos de fazer, para uma patuscada de amigos.


 


GOSTO – As exportações portuguesas continuam a aumentar


 


NÃO GOSTO – De investigações jornalísticas com agenda politica nem de notícias com cheiro de vingança


 


BACK TO BASICS – Devemos treinar para suportarmos a perca daquilo que mais tememos ver desaparecer – George Lucas, em Star Wars


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Julho)

julho 10, 2012

O ESTADO DA NAÇÃO

O verdadeiro debate do Estado da Nação deve ser a avaliação do trabalho do Ministro das Finanças. Gostava que ele fosse avaliado em função das previsões que fez, da estratégia que escolheu, das medidas que implementou e dos resultados que obteve.


 


O Ministro das Finanças estabeleceu um objectivo para o deficit e já veio dizer que não o vai conseguir cumprir; o Ministro das Finanças estabeleceu um objectivo para a colecta fiscal e, apesar de ter aumentado impostos de forma sensível, já se sabe que a cobrança fica muito abaixo do esperado; o Ministro das Finanças escolheu uma estratégia assente em políticas de austeridade e tomou medidas que provocaram o aumento das falências, o consequente aumento do desemprego e uma degradação da situação do país, em termos económicos e financeiros.


 


Começo a pensar que a chave dos problemas da Economia não está no Ministro da Economia mas nas más opções do Ministro das Finanças. Uma avaliação imparcial da actuação do Ministro das Finanças mostra que ele não cumpriu objectivos e errou no efeito previsto das medidas tomadas. Em qualquer circunstância, fora da política, um mau desempenho como este levaria a que o seu responsável fosse afastado. Vitor Gaspar é o maior falhanço do Governo, e a sua acção contaminou vários Ministérios.


 


Aquilo que pode ter parecido uma boa opção – a escolha de alguém conhecedor dos mecanismos financeiros da União Europeia , acabou por se revelar uma péssima escolha quando se percebeu que ele não passava de um burocrata cego, sem vontade nem capacidade de negociação, desligado da realidade e incapaz de corrigir erros em tempo oportuno. As vantagens que poderá ter trazido são bem menores que os prejuízos que causa.


 


(Publicado no diário Metro de 10 de Julho)

julho 06, 2012

OS SENHORES DOUTORES E TEMAS DIVERSOS

DOUTORES – Razão tinha Álvaro Santos Pereira quando, vindo fresquinho do Canadá, entrou no Ministério da Economia pedindo por o tratarem por Álvaro, sem qualquer título académico em prefixo. Esta mania portuguesa de tratar toda a gente por um título académico dá nefastos resultados na política e torna-se ridículo no dia a dia. Fruto dos costumes,  os políticos sentem-se obrigados a ostentar um título e fazem tudo para o adquirir. O assunto afecta de forma especial aqueles que passaram o tempo normal de estudo nas juventudes partidárias e que desleixaram os exames em função da actividade política – e isso não é um pecado. Mais tarde inscreveram-se de novo numa faculdade para obterem o canudo, cuidando mais do título do que do saber. Pegando em casos recentes, Sócrates escondeu as peripécias do seu inglês técnico, ao menos Miguel Relvas assumiu as coisas como elas aconteceram. Mas o essencial da questão não é isso. O essencial é que o que conta num político é a dedicação à causa pública, ideias concretas para Portugal, honestidade e capacidade de liderança – além de intuição política, claro. O resto, é secundário. Com a proliferação de cursos e a abundância de licenciados, a triste verdade é que, agora, até os anúncios de convívios eróticos têm meninas que se apresentam como licenciadas para se valorizarem face aos potenciais clientes e à concorrência. Nada disto faz sentido.


 


SEMANADA – Os negócios imobiliários caíram 44% em 2011; as vendas de carros em Portugal caíram 43,9% no primeiro semestre; o crédito ao consumo caíu 15,2% em 2011; existe escassez de professores de mandarim em Portugal face ao aumento da procura; a empresa chinesa State Grid, accionista da REN, vai investir 12 milhões de euros na criação em Portugal de um centro tecnológico; no primeiro semestre deste ano, as falências judiciais aumentaram 83% face ao mesmo período de 2011, alcançando praticamente a barreira das dez mil e a um ritmo de 53 por dia; está a diminuir o número de imigrantes em Portugal, sobretudo de brasileiros; a Bolsa de Lisboa perdeu 27 empresas cotadas na última década; a grande distribuição vendeu menos 173 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano em comparação com igual período do ano passado; um enfermeiro contratado pelo Estado via uma empresa de prestação de serviços ganha menos à hora que uma mulher a dias.


 


ARCO DA VELHA – Por causa de uma directiva europeia sobre as gaiolas nas quais devem estar as poedeiras,  cerca de três milhões de galinhas arriscam ser abatidas no fim do mês, cerca de metade do total que existem no país.


 


VER –  Duas sugestões bem diversas na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, inauguram exposições este fim de semana. A primeira resulta das interpretações que, com trabalhos inéditos, Paula Rego e Adriana Molder fazem de «A Dama Pé de Cabra», um conto recolhido por Alexandre Herculano nas suas «Lendas e Narrativas», de 1851.  E a outra resulta de um desafio feito a Pedro Calapez para interagir com uma das mais marcantes obras de Paula Rego, “Anjo”, de 1998.  Em «Innervisions», um outro olhar sobre a colecção da casa das Histórias, Pedro Calapez justapõe «Dark Skies», uma série inédita de trabalhos concebida especificamente para este momento como uma instalação.


 


OUVIR – Se eu escrever que «Banga», o novo CD de Patti Smith é provavelmente o seu melhor trabalho desde “Horses” estarei a cometer uma heresia? A avaliar pelo que tenho lido aí nalguma crítica lusitana inspirada pela surdez, deverei ser crucificado e alvo de impropérios diversos. Corro o risco e assumo: “Banga” é um grande disco, onde Patti Smith faz de forma superior aquilo que a caracteriza – um rock apaixonado, emotivo, sentido, sempre com a guitarra do eterno Lenny Kaye a guiar o caminho. Tive a sorte de encomendar na Amazon a edição especial, que na verdade é um pequeno livro, com fotos e polaroids, que conta como o disco começou a tomar forma – a bordo de um cruzeiro, em 2009, quando Patti Smith e Lenny Kaye foram convidados por Jean Luc Goddard no agora célebre Costa Concordia, para filmar algumas cenas do filme «Socialism». Foi em frente da costa da Sicília que algumas destas canções foram compostas. As canções têm relações directas com a vida de Patti Smith - «Seneca» é sobre o seu afilhado Seneca Sebring, «This Is The Girl» é uma homenagem a Amy Winehouse, «Nine» é um presente de aniversário a Johnny Depp, que aliás toca guitarra e percussão na faixa que dá o nome ao disco, “Banga”. Outros grandes temas são por exemplo «Amerigo», April Fool» (com um solo de Tom Verlaine) ou «Tarkovsky». O álbum termina com uma versão de homenagem a um clássico de Neil Young, “After The Goldrush” – mas a edição especial tem uma faixa extra, “Just Kids”, o nome da autobiografia da própria Patti Smith. E esta faixa, como quase todo este disco, mostra como ela, aos 65 anos, continua a ser capaz de combinar a poesia com a sensualidade e energia do rock como nenhuma outra artista.


 


FOLHEAR –O que é “Fast Company”? Um nome de um filme? Um nome de uma canção dos Eagles? Ou uma revista sobre tecnologia, design e negócios? Pois as três coisas encaixam no título, mas é sobre a revista que vou falar. Foi criada em 1995 por ex-editores da Harvard Business Review e em 2000 a Bertelsmann comprou-a aos fundadores por 350 milhões de dólares, um número recorde na época. De entre as iniciativas da Fast Company contam-se a Most Innovative Companies, a Most Creative People in Business e Masters of Design. A revista tem ganho numerosos prémios e a sua área digital inclui a Co.Exist, a Co.Design, a Co.Create e a Co.Lead, além de um site verdadeiramente genial chamado 30 Second MBA. Pode dizer-se que o conjunto de iniciativas e sites da revista é um exemplo de como transformar uma publicação em papel  tradicional numa organização digital influente. A edição de Junho era dedicada precisamente às 100 pessoas mais criativas na área dos negócios e é uma espécie de guia de tendências. Vou dizer os três primeiros – Ma Jun, o Director da agência ambiental chinesa, Rebecca Van Dick, que dirige o marketing para consumidores do facebook e Adam Brotman, Chief Digital Officer da Starbucks. Esta edição é preciosa.


 


PROVAR – Descobrir sabores orientais no meio de Azeitão é obra; conjugá-los com a tradicional e saborosa carne do rabo do boi é ainda mais curioso. Mas o resultado final é simpático – os folhados de rabo de boi foram uma excelente surpresa e a sopa Thai, bem condimentada, foi apreciada. Os vinhos, da região, estão a preço comedido, o serviço precisa de melhorar mas o balanço geral é positivo. A equipa, a começar pelo Chef, é jovem, e decidiu arriscar no mesmo espaço que já teve vários protagonistas, desde os tempo do pintor João Vieira até outros mais recentes do restaurante Azeitão, cuja equipa está agora no Clube de Golfe da Quinta do Peru, ali perto. O Eden, assim se chama agora o espaço, fica na Praça da República nº8, em Vila Nogueira de Azeitão, tem o telefone 919 932 182 e é liderado pelo Chef Maurício do Vale (não tem relação com o crítico tauromáquico). Quer-me parecer que lá hei-de voltar mais vezes.


 


GOSTO –   Em 2016 Angola deverá ultrapassar a África do Sul como maior economia de África.


 


NÃO GOSTO – De todo o processo da greve dos pilotos da TAP, cuja reivindicação foi o afastamento de responsáveis das operações de vôo sem cuidar dos prejuízos causados.


 


BACK TO BASICS –  Para se ser um líder tem que se ter a capacidade de fazer com que haja pessoas que nos queiram seguir; mas ninguém quer seguir alguém que não sabe para onde vai – Joe Namath


 

julho 03, 2012

OS ABUSOS DO ESTADO

Uma coisa que sempre me indignou é a forma como o Estado trata os cidadãos e como tem dois pesos e duas medidas – aos cidadãos exige tudo, cobra juros e estabelece prazos apertados, mas o Estado não cumpre prazos nem atua diligentemente. Vou relatar um caso concreto.


 


Um contribuinte recebeu, do Fisco, no início do ano a indicação de que existiria uma dívida fiscal vultuosa, relacionada com a venda de uma casa de habitação própria. Por entender que não havia razão para essa dívida, iniciou um processo de reclamação. Entretanto, como a dívida entraria em execução fiscal, apresentou uma garantia bancária no valor que o Fisco estabeleceu, em finais de Fevereiro, no prazo devido. Apesar de a garantia bancária estar feita, na  página pessoal do referido contribuinte continua a constar que serão feitas penhoras no âmbito da execução fiscal – apesar de por várias vezes ter explicado a situação e pedido aos serviços para retirarem a referência.


 


No final de Maio o contribuinte foi notificado que a reclamação efetuada havia sido deferida, estando portanto anulada a existência da dívida. Desde essa altura, já vai mais de um mês, o contribuinte tenta que os serviços fiscais informem o banco de que a garantia bancária já pode ser extinta. Apesar das várias diligências feitas, os serviços continuam sem o fazer, e o cointribuinte continua a pagar os custos da garantia.


 


O contribuinte tinha prazos para apresentar a reclamação, que cumpriu; tinha prazos para apresentar a garantia bancária, que cumpriu; o Estado, apesar de já ter concordado que a reclamação era justa, continua sem desbloquear a situação.



Como pode um contribuinte respeitar um Estado que age assim?


 


(Publicado na edição do Metro de 3 de Julho)


 

junho 29, 2012

Uma ideia velha, uma revista com ideias novas, um bitoque inovador

REALIDADE – A realidade, dura e pesada, que vivemos hoje em dia, tem as suas raízes numa ideia simpática mas  irrealista de uma Europa unificada, ideia traçada há décadas, numa fase de prosperidade. Ao longo de décadas o sonho europeu transformou-se, por força do irrealismo dos seus criadores e da falta de capacidade dos seus dirigentes, num terrível pesadelo. É escusado recordar o papel da Alemanha em tudo isto – a culpa não é só da Alemanha, é de quem acreditou que se podia gastar cada vez mais sem olhar para as contas. Como bem se sabe a situação atingiu vários países na Europa – cinco já pediram resgate e tudo indica que a médio prazo mais se lhes seguirão. Embora seja muito simpática a ideia europeia, a situação onde deixámos que nos metessem não se resolve com boas intenções nem com retórica apaixonada, pintada com laivos ideológicos. Aquilo por que estamos a passar é o resultado de décadas de ciclos eleitorais onde o voto foi trocado por promessas de cada vez mais obras públicas, prosperidade, apoios e garantias. Os custos brutais que foram incorridos – muito maiores que as receitas - levam agora a distinguir com dificuldade o que era necessário do que foi supérfluo e sobretudo coloca em causa a seriedade de quem geriu o país – e, também, a Europa - nestas décadas. Por isso mesmo olho incrédulo para uma iniciativa auto-intitulada Congresso Democrático das Alternativas (o nome, já agora, não certamente por acaso, evoca acções contra a ditadura em 19557, 69 e 73). Sob o lema “Resgatar Portugal Para um Futuro Decente”, juntam-se vários representantes dos sonhos antigos, alguns responsáveis de políticas do passado e os suspeitos do costume sempre interessados em fazer o Estado distribuir mais do que aquilo que tem. O extraordinário é que toda esta gente emite opiniões, apresenta reivindicações mas não explica nem desenha soluções baseadas em estudos concretos e na realidade. Isto, lamento dizê-lo, não é política – é trafulhice ideológica pintada de demagogia barata. E foi isso que nos trouxe até onde estamos. Mais do mesmo só pode querer dizer piorar as coisas.


 


SEMANADA – As remessas dos emigrantes voltaram a subir para níveis de há dez anos; a receita do imposto sobre veículos é metade da registada no ano passado; as receitas do IRC registam uma quebra de mais de 15% até Maio; os 400 trabalhadores do centro de contacto telefónico da Segurança Social vão ser despedidos por mudança do fornecedor do serviço; o consumo per capita de cerveja em Portugal diminuiu 18 por cento; a administração fiscal vai cobrar as multas dos passageiros que viajarem sem bilhete nos transportes públicos; a Via do Infante perdeu metade do tráfego depois da implementação das portagens; as dívidas a mais de 90 dias do Estado a fornecedores aumentaram 162 milhões em Abril e voltaram a subir em Maio; só um terço dos hospitais diz cumprir prazos de consultas muito prioritárias; número de alunos que não concluíram o secundário aumentou em 2011.


 


ARCO DA VELHA – “Desde que está na prisão, lê a Bíblia, reza e está muito arrependido do que fez” – afirmou um pastor da Igreja Evangélica que tem visitado na prisão o ex-bancário de 46 acusado de 335 crimes de abusos sexuais, pornografia e maus tratos a menores.


 


VER –  Quanto custa investir em arte? - depende. Se escolher artistas em princípio de carreira, o investimento pode ser acessível. João Esteves de Oliveira tem uma galeria com o seu nome, no nº 38 da Rua Ivens, e tem sensibilidade para o mercado e os investimentos em arte. A sua galeria especializou-se em obras em papel e ao longo do ano lá passam autores consagrados e outros no princípio da carreira.  É o que agora acontece com Ângela Dias, Josefina Ribeiro, Manuel Diogo e Vasco Futscher, recentes ex-alunos do ARCO, que ali mostram o seu trabalho. Os preços começam nos 150 euros mas não passam dos 500. O melhor de tudo é que os trabalhos são bons e a exposição é muito interessante. Eu pessoalmente gostei muito dos óleos sobre papel de Manuel Diogo, mas parece certo que Ângela Dias, talvez pelo imaginário próximo de algumas fases de Paula Rego, ganhou elogios da crítica e será seguramente um valor em ascensão. As formas de Vasco Futscher são um momento de novidade e os animais de Josefina Ribeiro fazem lembrar algumas obras de Susan Norrie, que costumava expor no extinto Centro Cultural de Almancil.  Esta é uma boa exposição que mostra como novos artistas estão a desenvolver o seu talento e criatividade. E quem agora apostar em qualquer deles certamente não se arrependerá no futuro.


 


OUVIR – Fiona Apple  não fazia um álbum de originais há sete anos e agora saíu-se com um que tem um extenso nome: “The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do”. Trata-se do seu quarto álbum, o primeiro a seguir a “Extraordinary Machine”, de 2005. A lenda reza que ela trabalhou neste disco em segredo, sem que a sua editora soubesse o que se passava. E o que se passava são arranjos mais comedidos, muitas vezes com inspirações jazzy, com percussões fortes, a acompanhar a intensidade de temas vibrantes como “Daredevil” ou “Periphery”, em que as suas vocalizações intensas deixam uma marca invulgar. “Every Single Night”, a canção de abertura, é uma espécie de manual de introdução ao estilo de Fiona Apple, à forma que ela tem de fazer canções - algumas tão intensas e marcantes como “Left Alone” ou “Hot Knife”, um final absolutamente fantástico para este álbum.


 


FOLHEAR –  A edição de verão da minha querida revista "Monocle" agrupa os meses de Julho e Agosto e inclui a lista das melhores cidades onde viver. Como todas as políticas demoram tempo a causarem efeito, eis que Lisboa saíu da lista das 25 cidades preferidas da "Monocle". Também não é de admirar, depois de a cidade ser em anos seguidos transformada em feira pelas mãos de José Sá Fernandes, de a lixeira ser constante nas ruas pela mão de António Costa ou pelo facto de Nunes da Silva inventar as mais estapafúrdias alterações ao transito que imaginar se pode. Lisboa, nestes poucos anos, passou de uma cidade civilizada a uma cidade incómoda e desconfortável. Nas próximas eleições, quando virem os boletins de voto, não se esqueçam que o culpado do assunto se chama António Costa. E, se se sentirem tentados, por uma qualquer razão ideológica a votar nele, lembrem-se do que a EMEL tem feito no seu mandato, daquilo em que Lisboa tem sido transformada e da falta de plano para uma cidade que vai perdendo pontos, como agora se vê. Mas, voltando à Monocle", que é o que agora interessa, o número é dedicado a tudo aquilo que faz com que possa ser agradável viver numa cidade, Nunca é tarde para aprender e com as autárquicas ao virar da esquina os senhores que decidem sobre os candidatos bem que podiam guardar esta edição e seguir os seus conselhos. Esta "Monocle" tem 282 páginas e vai durar uma boa parte do Verão. Tem algumas coisas deliciosas, como uma lista de 50 coisas que podem melhorar as nossas vidas. Eu espero que por cá alguém, com poder de decisão e execução, a leia - e não resisto a contar uma história: há uns anos, quando a "Monocle" fez um dos primeiros artigos sobre as estratégias para as cidades, que eu, na época, aqui referi, um assessor de António Costa pediu-me cópia do dito texto, invocando o interesse do Presidente da Câmara. Fiquei esperançado que a leitura fosse inspiradora. Nada do que lá estava escrito foi aproveitado.  


 


PROVAR – Se ao Domingo estiver em Lisboas à hora de almoço e lhe apetecer um pouco de pecado carnal, dirija-se ao restaurante Flores, no Bairro Alto Hotel (no Largo de Camões) e peça o bitoque. Trata-se de uma rara conjugação de competências, pela mão do chef Vasco Lello. Comecemos pela carne, excelente, do lombo, passada rigorosamente a gosto do que o cliente pretender. O molho, inspirado no lisboeta Marrare, tem algum toque que lhe dá uma graça inesperada. O ovo a cavalo é preciso e certeiro. E as batatas fritas, de palitos finos, estão no ponto, sem gordura nem tostado excessivo. A decoração, já que os olhos também comem, é albardada com um dente de alho cravejado de uma folha de louro. Este é o bitoque perfeito. E só se serve aos Domingos, ao almoço, no Flores. Telefone 213 408 252.


 


GOSTO –   Da condenação por atentado à liberdade de imprensa do deputado socialista Ricardo Rodrigues;


 


NÃO GOSTO – Foram gastos 21 milhões de euros em obras na sede do Banco de Portugal desde 2010, sempre por ajuste directo e sempre à mesma empresa;


 


BACK TO BASICS –  Em tempos de desânimo generalizado, dizer a verdade é um acto revolucionário - George Orwell


 

junho 26, 2012

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

O primeiro ano do Governo foi passado com a austeridade como programa e o aumento de impostos como receita. O resultado está à vista: a economia está em coma, o desemprego explodiu, e apesar  de todos os aumentos a receita fiscal diminuiu porque o consumo afundou e a evasão fiscal regressou em força. O fisco bate sempre à porta dos mesmos quando se trata de ir buscar mais cobrança – nos salários de quem trabalha por conta de outrem, nos impostos que incidem sobre as casas onde as pessoas vivem, em múltiplas taxas que proliferam cada vez mais.




Já se sabe que Portugal é um país sem justiça onde os tribunais servem apenas de cenário para dar a ideia de que este rectângulo à beira mar plantado não é o far-west . Mas na realidade em Portugal deixou de haver ideia de justiça, deixou de haver referências – e o Estado é quem mais culpas tem nisso.


 


Peguemos no caso das dívidas ao Fisco – a máquina fiscal é muito rápida a penhorar casas onde vivem famílias e, agora, até automóveis, mas é completamente ineficaz nos grandes processos fiscais, nas grandes fugas aos impostos. Mais o Estado, nos casos onde perdeu milhões de euros do dinheiro dos contribuintes, como no BPN, é absolutamente incapaz de dar um exemplo, de mostrar que a Lei se aplica de forma igual para todos.


 


A forma como o fisco actua em situações de famílias modestas que se vêem penhoradas está a transformar-se num escândalo, quando comparado com outros casos, em que o outro lado tem dinheiro e tempo para se defender, protestar, reclamar.


O sistema criou o pior que pode existir – um sentimento de desigualdade e de injustiça de um lado, e de impunidade e corrupção do outro. É impossível que isto dê bom resultado.


 


(Publicado na edição do diário Metro de 26 de Junho)


 

junho 22, 2012

GOVERNAÇÃO, EDUCAÇÃO E SUGESTÕES AVULSAS

GOVERNAR – Depois de uma década de disparates, de mentiras, de falsificações, de trapaças (como a triste história das PPP vem elucidando), o mínimo que se espera de um Governo é serenidade e bom senso. Não há nenhuma necessidade de, ao fim de um ano em funções, o Primeiro Ministro ser apanhado em falta no Parlamento por causa de uma decisão na área da saúde – o encerramento de uma maternidade, por mais simbólica que ela seja. Já é tempo de os gabinetes terem os sistemas de comunicação oleados, de a Presidência do Conselho funcionar como centro de decisão e não como reduto da conspiração – que foi o que, no tempo de Sócrates,  Silva Pereira conseguiu fazer. O Governo tem a obrigação de agir, de comunicar e de poupar o dinheiro dos contribuintes. Convém que o Primeiro Ministro seja mantido a par do que, nesta matéria, se vai fazendo. Governar é um acto de coragem – implica tomar decisões, delegar, controlar. Ao fim de um ano o Governo não pode dar a ideia de que anda perdido. Quanto mais se sabe do que atrás se passou, mais exigentes devemos ser em relação ao que agora se passa. Os erros de Sócrates não estão na folha de crédito de Passos Coelho. São um passivo que ele terá de resolver para se reencontrar com o país.


 


EDUCAÇÃO – Com a devida homenagem vou citar um excerto de um texto absolutamente brilhante de Teolinda Gersão, lido esta semana no “Público”, e que mostra o disparate do sistema educativo português, ainda por cima na área da nossa língua. Ora apreciem: “No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?  A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado.”


 


 


SEMANADA – Número de seguranças privados já supera o de efectivos policiais – 58 mil seguranças, 51 mil polícias; o Estado português não sabe quantos criminosos condenados voltaram a reincidir depois de cumprida a pena, nem porquê, nem qual o seu perfil – isto numa altura em que o Governo quer mudar as leis penais; só 45 câmaras municipais de um total de 308 em todo o país dispensam apoio às dividas de curto prazo; 30% da produção de vinho da região demarcada do Douro não tem escoamento; foi conhecida a insolvência da empresa de moda Storytailors na mesma semana em que a dupla de estilistas vestiu Joana Vasconcelos para a cerimónia de inauguração da sua exposição em Versailles; o fisco ordenou à PSP 2769 penhoras de veículos por dívidas fiscais; num assomo de produtividade e oportunidade uma Universidade Alemã anunciou ter descoberto fósseis de tartarugas que estavam a fazer sexo na altura em que morreram; a directora do Público afirmou que a Entidade Reguladora da Comunicação revelou “a sua inutilidade” no caso da disputa com o Ministro Miguel Relvas.


 


ARCO DA VELHA – Um estudo revelado esta semana indica que a crise fez Portugal perder 300 milionários em 2011 e o seu total está agora nos 10 400, uma queda de 2,8% – sendo milionários as pessoas com liquidez superior a um milhão de dólares; em contrapartida a nível mundial o numero de milionários aumentou 0,8% para um total de cerca de 11 milhões.


 


VER –  Passear por fotografias no meio de móveis e peças de decoração é uma ideia suficientemente invulgar para ser atraente. Luís Serpa é o responsável pela escolha de imagens doo Gabinete de Curiosidades instalado na loja de Conceição Vasco Costa, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. Ali estão fotografias de colecção, da colecção de Luís Serpa, de autores como Bob Wilson, Daniel Blaufuks, Álvaro Rosendo, Jorge Molder, Julião Sarmento, Graça Sarsfield, Maria José Palla, entre outros. É uma curiosa experiência que mostra a forma como a fotografia se deixa ver em quaisquer circunstâncias, conseguindo marcar qualquer espaço.


 


OUVIR –   Uma cantora russa em Nova York é sempre um ingrediente para cocktails explosivos. Quando a isso se conjuga com uma razoável dose de canções confessionais e de comentários sociais, tudo fica mais interessante. Chamar a um museu cheio de preciosidades artísticas um mausoléu público é uma aproximação interessante que alguns irão partilhar. Mas eventualmente o ponto mais alto deste disco, baseado em torno de melodias tocadas ao piano, é “How”, uma balada de separação, uma canção de ruptura, que tem as sete palavras mais fortes da música pop dos últimos anos: “Agora não és mais que um convidado”. CD Sire, Amazon.


 


FOLHEAR –  A edição de Junho da Vogue norte-americana, a original, a que é dirigida por Anne Wintour, tem na capa uma fabulosa fotografia de Annie Leibowitz que faz parte do seu portfolio sobre os atletas olímpicos dos Estados Unidos, convenientemente fotografados para a ocasião ao lado de modelos e roupas belíssimas. Anne Wintour dedica o seu editorial à questão da preservação do bom senso em matéria de saúde e alimentação, incluindo no mundo da moda. Mas o que marca esta edição absolutamente fabulosa são as imagens. Além de Leibowitz, temos fotografias de atletas por Bruce Weber, temos Jennifer Lopez fotografada em fato de banho por Mário Testino e temos um fabuloso artigo sobre o homem que concebeu a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, Danny Boyle, o realizador de “Slumdog Millionaire”. É por causa de edições destas que eu acredito em revistas bem feitas e na importância de conteúdos originais.


 


PROVAR – A época dos caracóis está no auge, e ainda por cima coincide com os jogos do Europeu – nada como um pratinho de vagarosos ao fim da tarde enquanto se assiste a um jogo. Se a coisa acontecer numa sala grande com vários bons ecrãs de televisão e ar condicionado decente, ainda melhor. Existe um local assim em Lisboa, ainda por cima deliciosamente sportinguista. Trata-se do “Filho do Menino Júlio dos Caracóis», um dos mais afamados locais para este petisco. Fica na Rua do vale Formoso de Cima 140-B, ao fundo da parte nova da Avenida dos Estados Unidos da América e perto da Matinha. Além de caracóis há belíssimas moelas, pregos suculentos e, para quem quiser coisas mais sérias, peixe ou carne grelhada na brasa de carvão, e , dependendo dos dias, Cozido á Portuguesa, Galo de Cabidela ou massada de garoupa, entre outras especialidades. A imperial é a 1,20€, a dose de caracóis é a 5 euros e a de moelas a 8.80€. Imperdível!


 


GOSTO –   Parece que o calor começa a chegar no fim de semana.


 


NÃO GOSTO –   As obras do Passos Manuel, geridas pela Parque Escolar, custaram mais 46,5% do que estava inicialmente previsto, diz o Tribunal de Contas.


 


BACK TO BASICS –  "Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra." Nietzsche


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 22 de Junho)

junho 19, 2012

UMA CIDADE AO DEUS DARÁ

Lisboa está suja, o lixo transborda. Lisboa cheira mal. A cidade é cada vez mais mal governada. Quem se senta nas cadeiras da Câmara Municipal tem uma agenda própria de ambição política que não passa por servir a cidade. O estado em que tudo está mostra isso mesmo.


 


O que se tem passado na concessão dos espaços públicos é outro sinal da má forma como a cidade é gerida. A feira ao ar livre que o Continente montou no Terreiro do Paço, é um bom exemplo do desprezo pelos munícipes. Bem pode o vereador Sá Fernandes argumentar com a possibilidade da experiência de ver o campo no meio da cidade, que não consegue apagar as outras consequências da coisa.


 


A ocupação comercial do Terreiro do Paço por uma campanha de marketing de uma cadeia de hipermercados poderá ser ótima para o marketing da empresa em causa, mas dificultou a vida a quem quer circular à beira rio. Os habitantes da cidade, quem aqui vive e paga impostos, são sucessivamente submetidos a condicionamentos de trânsito que causam incómodos e condicionam os seus fins de semana.


 


O comércio das zonas envolvidas nestas operações, sobretudo o que é afetado pelos condicionamentos de transito, sai prejudicado – agravando os problemas que já existem na conjuntura económica em que vivemos. No conforto dos munícipes e na proteção do comércio e restauração  local e tradicional não pensam os responsáveis camarários.


 


Resta o balanço das capacidade de mobilização do fim de semana: a CGTP juntou menos gente que Tony Carreira. O novo líder da central sindical tem uma grande falta de jeito na escolha dos dias das suas ações – arranja sempre um termo de comparação em que sai mal da fotografia.


 


(Publicado no diário Metro de 19 de Junho)

DECLARAÇÃO DE AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA de Teolinda Gersão

Há muito que não lia um texto tão claro sobre o estado do nosso ensino, e sobretudo o do português, como este que Teolinda Gersão editou no Público de segunda-feira. Aqui vai:



DECLARAÇÃO DE AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA de Teolinda Gersão

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? 
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. 
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

TEOLINDA GERSÃO – escritora
Foi professora catedrática da Universidade Nova

junho 15, 2012

A Lei do Cinema, as portagens, observações e sugestões

AUDIOVISUAL –  Eu, sobre a proposta de Lei do Cinema e Audiovisual, tenho duas certezas: beneficia a produção de filmes em detrimento da produção de audiovisual (o que não é simpático em termos de emprego nem de investimento reprodutivo); e os custos suplementares que existem serão mais uma vez pagos pelos cidadãos, em cima de quem se reflectirão os aumentos de taxas e contribuições decretados a operadores e distribuidores de televisão e a anunciantes. Nada disto é novo no sistema legislativo do regime: pagam os mesmos, a despesa não diminui – aqui até talvez aumente. Eu não alinho no embandeirar em arco do sector do cinema – que é cronicamente deficitário e vive de subsídios, com um numero reduzido de espectadores, a fazer filmes para jogos florais chamados festivais onde muita coisa é combinada antes. Quero chamar a atenção para o facto de não ter lido em nenhum lado da proposta a indexação de subsídios a receitas de bilheteira (e outras) obtidas anteriormente pelo produtor ou realizador, e também de não ter encontrado referência a reembolso parcial do subsídio em função das receitas diversas obtidas. Ou seja, é um sistema de subsídio a fundo perdido que não beneficia quem tem bons resultados de bilheteira nem penaliza quem não consegue estabelecer comunicação com os públicos do cinema. Tudo isto me parece muito estranho tanto quanto se sabe que o filme português mais visto este ano “Florbela”, fez 40.000 espectadores e o décimo fez 1.150. Tudo isto é pois bastante ridículo quando pensamos que estamos a falar de subsidiar a fundo perdido e sem regras que beneficiem a capacidade de comunicação. Não entendo isto, não entendo porque é que 80% das receitas vão para financiar nestes moldes desregulados o cinema e apenas 20% vão para o audiovisual, que cria mais emprego, proporciona mais o desenvolvimento técnico e criativo e comunica melhor. Na realidade esta nova proposta de Lei do Cinema é um retrocesso de quase três décadas.


 


PORTAGENS – Na semana passada fiz cerca de 100 kms da A1 e paguei um pouco mais de seis euros. Entrei na A23, onde fiz cerca de 70 kms e paguei mais de sete euros. Alguma coisa não está bem na cabeça de quem fez estas contas, de quem estabeleceu estes preços. Passo pelas portagens electrónicas e tenho a sensação que estou num jogo disparatado de preços arbitrários. O km percorrido nestas estradas de duas faixas é mais caro que o das auto-estradas de três. Não percebo porquê. Um amigo meu, alemão,  que vive nos Estados Unidos há décadas, não acredita no que vê –  ter que ir aos CTT pagar e na complicação que para um estrangeiro é conseguir circular de automóvel em Portugal. Não é preciso viver nos Estados Unidos. Os espanhóis aqui ao lado também não compreendem e no Algarve os portugueses não percebem porque para ir de Vila Real a Lagos têm que pagar cerca de 11 euros. Eu sou a favor do princípio do utilizador pagador, mas recuso-me a aceitar que isso seja equiparado a roubo oficial, que é o que está a acontecer. Os resultados, na diminuição de trânsito e de receitas, estão à vista. O Ministério das Finanças está a cobrar menos em todas as áreas, a abusar mais dos seus poderes, a intimidar mais os contribuintes e a provocar maiores quebras na actividade de quem produz. Eu começo a achar que o problema não está no Ministro da Economia, está sim no Ministro das Finanças – ele é que está de facto a destruir o país – e não a salvá-lo como se quer fazer crer.


 


SEMANADA – O número de empresas que fechou portas no distrito de Viana do Castelo aumentou 65% no espaço de um ano; antigas SCUT perderam quase metade do tráfego desde que têm portagens; China já é o décimo maior importador de produtos portugueses; Sacoor abriu a 11ª loja na Ásia; mais de 25% das leis orgânicas do Governo estão ainda por publicar; em Abril os bancos cortaram em 25% a concessão de crédito a empresas e famílias face ao mês anterior; em Abril o crédito malparado agravou-se em 747 milhões em relação ao mês anterior; a dívida total dos cinco partidos com assento parlamentar atingiu em 2011 mais de 24,4 milhões de euros, o partido que maior prejuízo registou no ano passado foi o P e o que mais lucro obteve foi o PSD; ouvido no Parlamento, Vítor Constâncio recusou qualquer responsabilidade do Banco de Portugal, a que presidia na altura, nas falhas de supervisão que permitiram ao BPN chegar onde chegou.


 


ARCO DA VELHA – Seis subconcessões de estradas foram renegociadas no Governo de Sócrates e provocaram desvios confirmados de 705 milhões de euros nas parcerias público-privadas rodoviárias mas os seus responsáveis estão sujeitos a uma multa máxima de 15 mil euros.


 


VER – Quem puder ir a Madrid por estes dias tem sobejos motivos de contentamento. No Museu Thyssen Bornemisza, até 16 de Setembro, está uma exposição que reúne um conjunto de obras de Edward Hopper verdadeiramente impressionante e que coloca em contraste os primeiros anos da sua carreira, até meados da década 20 do século passado, com a sua obra mais conhecida. Ali perto, no Museu do Prado, inaugurou uma exposição que, também até 16 de Setembro, mostra os trabalhos realizados pelo grande pintor Rafael na última fase da sua vida, a maioria já em Roma, onde morreu com apenas 37 anos em 1520. Mas como se isto não chegasse, e até 14 de Julho, Madrid acolhe a PhotoEspaña, que reúne80 exposições que mostram o trabalho de 315 autores – de Avedon a Capa, passando por Warhol e, curiosamente, o street photographer que assina como The Sartorialist.


 


OUVIR –   Neil Young decidiu voltar a reunir os músicos dos Crazy Horse, a sua banda de eleição, e pegou em clássicos do cancioneiro popular dos Estados Unidos para fazer o seu 34º álbum de estúdio. Desde 2003 que os Crazy Horse não se juntavam a Neil Young, que já vai com 66 anos. As criticas que tenho lido por aí são bastante diversas mas quando ouço o disco só me apetece dizer que Neil Young tem um talento e uma criatividade que às vezes compensam pequenas falhas. As suas interpretações de temas como “This Land Is Your Land”” Get A Job”, “Clementine” ou “Oh Susannah” mostram que existe uma grande diferença entre interpretar , recriar ou imitar – e isso é uma coisa que nos tempos que correm se vai esquecendo , quando os imitadores são muitas vezes mais elogiados que os criadores.


 


FOLHEAR –  Quem tem iPad pode fazer gratuitamente o download da edição número 1 da revista Wired, datada de Janeiro de 1993, quase há 20 anos. Eu comecei a apanhar e devorar a revista aí por volta de 1995/96 e desde então ela faz parte das minhas leituras favoritas. Louis Rossetto, o fundador da revista, escrevia nesse número inaugural : “Porquê a Wired? – Porque a revolução digital está a tomar conta das nossas vidas como um tufão, porque numa época em que há uma avalanche de informação o luxo mais importante é descobrir o significado e o contexto das coisas, ou de outra forma, se o que procura é a alma da nossa nova sociedade numa matamorfose selvagem, o nosso conselho é simples:  siga-nos na Wired.” Percorrer os artigos desta edição é uma delícia, e faz-nos exercitar a memória para nos lembrarmos como, do ponto de vista tecnológico, em 1993, as coisas eram tão diferentes que hoje parecem atrasadas. Não certamente por acaso o título da “Wired” deste m~es é “How To Be A Geek Dad” – pois, os geeks já têm filhos e isso é que mostra como o mundo vai mudar ainda mais depressa.


 


GOSTO –   Da maneira como Varela entrou, virou o jogo, rematou e no fim foi modesto.


 


NÃO GOSTO –  Da maneira como Ronaldo se arma em campeão e depois tem falhanços sucessivos e ainda por cima atira com desculpas de mau pagador.


 


BACK TO BASICS –  Exactamente porque as coisas são o que são, elas não permanecerão como estão – Bertolt Brecht


 

junho 12, 2012

CAÇAR MULTAS OU COMBATER O CRIME?

Na semana passada foi notícia o assalto e agressão ao realizar José Fonseca e Costa, no Bairro Alto. Na altura falou-se da falta de segurança que hoje em dia existe na zona e da falta de policiamento. É sabido que a presença física em rondas, da polícia, é um forte elemento dissuasor. Mas para isso é preciso que os polícias saibam estabelecer prioridades.


 


Uns dias depois, na Rua da Boavista, perto do Cais do Sodré, decorreu uma inauguração no edifício Transboavista – um prédio quase completamente ocupado por espaços de exposição de arte contemporânea e que junta artistas já consagrados com jovens artistas no início de carreira. Estas inaugurações costumam juntar muita gente e constituir um bom momento.


 


Na noite do passado dia 5 havia uma meia dúzia de scooters no passeio em frente, eram de pessoas que tinha ido ver a exposição. Ali perto não há nenhuma zona de estacionamento de motos. E às 23h15 não existe um intenso trânsito de peões no local – aliás os visitantes das exposições são mesmo os únicos que por ali andam.


 


Pois foi a essa hora de movimentadíssimo tráfego pedonal que um carro patrulha, provavelmente da esquadra que fica próxima, com dois agentes, um graduado e outro mais novo, estacionou no meio da faixa de rodagem, sem luzes de sinalização, com o objectivo de multar as scooters. E era o graduado que de bloco em punho circulava entre as scooters, anotando as respectivas matrículas. Não dizia nada – nem sequer pedia os documentos ou a identificação a quem entretanto estava a retirar os veículos.  É um estilo – mas é o retrato de uma corporação que mais facilmente anda à caça da multa que em patrulha a prevenir crimes e agressões. Quem manda podia estabelecer prioridades. E evitar cenas ridículas como esta.


 


(Publicado no diário Metro de 12 de Junho)

junho 08, 2012

A memória na política, desabafos, citações, sugestões avulsas

MEMÓRIA - Esta semana soube-se da decisão final sobre as escutas efectuadas a José Sócrates e que acabaram por ir parar ao processo “Face Oculta”. Não vou discutir a decisão dos tribunais (embora cada vez mais desconfie dos tribunais portugueses a todos os níveis), mas uma coisa parece certa: vão ser eliminados dados que no futuro nos ajudariam melhor a compreender a História de Portugal no início do século XXI. Até podia entender que as escutas ficassem congeladas 20 anos ou mais, mas apagá-las revela que se quer esconder o passado. Não é uma questão de legitimidade em eliminar dados eventualmente obtidos de forma discutível, é uma questão de varrer os factos e impedir que se saiba o que aconteceu. Noronha da Costa, nesta matéria, assemelha-se historicamente àqueles que aceitaram que fotografias fossem alteradas, que relatos fossem adulterados. No futuro não saberemos de facto que se passou. E os juízes – todos os juízes mesmo os mais altos magistrados – que permitiram a sua eliminação serão cúmplices de esconder o passado perante as gerações futuras. Espero que haja cópias piratas e que elas se mantenham – será sinal de vitalidade.


 


VOAR – Sou daquelas pessoas que acha que voar é mais seguro, em termos estatísticos, que andar de carro ou de comboio. Mas continuo a ficar revoltado com a frequência com que ocorrem acidentes com aviões ultraleves. Na semana passada mais um caso, dois mortos - foi o terceiro acidente este ano, 5 mortos no total desde Janeiro. Duas dezenas desde 2006. Numa recente reportagem, o jornal “i”  afirmava: “A Federal Aviation Administration (FAA – autoridade norte-americana para a aviação) dizia, num comunicado relativo aos motores Rotax – que são os mais usados na aviação ultraleve –, que “durante uma revisão do processo de produção foi detectada uma irregularidade na construção de uma cambota”, que, caso não fosse corrigida, poderia levar à “paragem do motor durante o voo”. Já este ano, a Civil Aviation Authority (CAA – equivalente britânica da FAA) repetiu o aviso. Num documento de 18 de Janeiro diz-se que o problema se restringe a “um número limitado de motores”, mas a lista que acompanha o alerta da CAA enumera mais de uma dezena de modelos da marca em que a anomalia foi detectada.” E mais à frente, sobre esta motorização utilizada nos aviões ultraleves Tecnam: O manual de motor de modelos da marca, a que o i teve acesso, tem uma particularidade nada habitual que refere “Perigo: este motor, pelo seu desenho, está sujeito a paragens súbitas. A paragem do motor pode resultar em despenhamentos. Esses despenhamentos podem resultar em ferimentos graves ou morte”. Mais abaixo diz-se que “o utilizador assume todos os riscos e reconhece, pelo seu uso, o facto de o motor estar sujeito a paragens súbitas”. André Garcia, director de produção da Tecnam Portugal – empresa que comercializa os aviões ultraleves equipados com motores Rotax –, interpreta a nota como uma forma de a empresa “escapar a processos legais” por possíveis acidentes. Contudo, a nota de aviso não tem impedido o INAC de certificar estes aviões como estando aptos para a prática de voo.”. Isto não vos causa alguma inquietação sobre os nossos reguladores?


 


SEMANADA – Depois de milhões gastos e de actividade quase nula, o Governo criou um Grupo de Trabalho para estudar a rentabilização do Aeroporto de Beja, que é constituído por sete pessoas; o PS é o recordista de faltas por deputado na AR; 38% dos beneficiários do rendimento de inserção são menores e os beneficiários deste apoio triplicaram no primeiro trimestre; os processos fiscais rendem menos que a troika pensava e o presidente do Supremo Tribunal Administrativo disse estar “a convencer a troika do nosso interesse em mudar a situação”; frequentar a faculdade custa em média um salário mínimo por mês; tirar o curso superior absorve um quinto dos rendimentos das famílias portuguesas;  António Borges, o ex-vice presidente da Goldman Sachs, actualmente na categoria de  “quadro superior”  ao serviço do Governo e da Jerónimo Martins (como um deputado do PSD se lhe referiu no Parlamento), defendeu a redução dos salários em Portugal  e conseguiu ser contrariado por toda a gente, do PR ao PM, passando por porta-vozes de todos os partidos, incluindo o seu; no aniversário do primeiro ano em funções do Governo, o PSD desceu as intenções de voto, o PS ficou igual, assim como o PP e as subidas são do PCP e Bloco de Esquerda; na semana em que registou o pior resultado de sempre de um Presidente da República numa sondagem, Cavaco recebeu uma camisola da selecção com o  número 10, das mãos de Cristiano Ronaldo.


 


ARCO DA VELHA –  Em 15 anos foram gastos 75 milhões de euros no Metro do Mondego mas o projecto ainda não saíu do papel e deixaram de existir ligações ferroviárias entre Coimbra e a Lousã desde 2010.


 


PALAVREADO – “O Parlamento é um escritório de representação de empresas” – Paulo Pinto, Professor, Vice Presidente da associação Transparência e Integridade


 


VER – Esta semana gostei muito de ver os azulejos de Xavier Sousa Tavares, na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C, à Rua do Século); as pequenas e reveladoras esculturas e os desenhos de Rui Sanches na TPobjectosdearte (Rua S. João da Praça 120, perto da Sé) ; e as noites de Inez Teixeira e as experiências de Inês A, ambas na Plataforma Revólver , na Rua da Boavista 84 – cuidado com a PSP que nas noites de inaugurações anda à caça de multar quem não estaciona certinho no local. Confesso que, de tudo, foram as noites de Inez Teixeira que mais marca me deixaram – depois daqueles quadros nem me apeteceu ir refilar com os zelosos agentes da autoridade que só estão onde se estaciona, e nunca onde há roubos. Coisas.


 


OUVIR –  Hoje não há muitos discos novos que me surpreendam, mas reconheço que «Absence», o terceiro álbum de Melody Gardot, é uma agradável prova do seu talento e criatividade. Ela conta que este disco foi influenciado por estadias mais ou menos prolongadas em Marrocos, na Argentina, no Brasil e em Lisboa (esteve cá quase seis meses em 2011).  Gardot canta no seu inglês nativo, mas também em espanhol e em português- podia ser um pesadelo, mas na realidade é um grande disco – e em boa parte porque ela percebe o que é o tango, ou a bossa nova ou o fado e não se coloca no papel de imitadora turística. Ela saíu-se bem, em grande parte pela produção, excelente, do brasileiro Heitor Pereira. As duas canções «portuguesas» do disco são «Lisboa» e «Amália» - sendo que esta Amália é inspirada por um pássaro e não pela Fadista. Às vezes é difícil explicar porque se gosta – mas este é um grande disco, que pode ser ouvido em casa com o espírito de se estar num bar, a ouvi-la cantar, com improviso e emoção.


 


 


FOLHEAR –  A melhor publicação editada actualmente por uma instituição cultural em Portugal é o mais que fanzine e quase magazine “Próximo Futuro”, espécie de órgão central das programações que António Pinto Ribeiro elabora para  a Fundação Gulbenkian. A presente edição, que leva o nº 10, é dedicada ao mundo árabe e às transformações sociais, politicas e criativas que lá decorrem. A fotografia ocupa felizmente um lugar importante nesta publicação – como os quadros fotográficos de Majida Khattari, que reproduz. Alem disso a edição inclui informações sobre toda a programação, nas diversas áreas que abrange. Se todos os programas fossem assim, não deitava nada fora e não me cabia tanto papel em casa.


 


PROVAR  – Nestes dias em que os jogos do Europeu estão à porta recomendo o bar do Espaço 10, o local desenvolvido por Rui Costa, em pleno Saldanha. Na andar de baixo há um bar onde se petisca (caracóis, pica-pau, presunto...), e ao fim de semana há música ao vivo. Mas nestes dias o que interessa é que os ecrãs são grandes e bons e se pode passar lá um bom fim de tarde a ver os jogos do Europeu. Com um bocado de sorte o próprio Rui Costa ainda lá aparece. Quando a fome apertar basta subir ao primeiro andar, ao restaurante, onde se come bem e com uma vistaça sobre a Avenida da República. Fica no edifício do Atrium Saldanha, entrada pela Avenida Casal Ribeiro 63 A, telefone – 213 528 242.


 


 


GOSTO –  Da Volvo Ocean Race e da forma como ela projectou internacionalmente uma imagem positiva de Lisboa e de Portugal.


 


NÃO GOSTO –  Da falta de activação das marcas de grandes empresas portuguesas, nomeadamente as  ligadas ao ambiente e energia, na Volvo Ocean Race.


 


BACK TO BASICS – Tanto quanto me consigo recordar nunca houve um economista que se tivesse de preocupar sobre como iria conseguir a próxima refeição – Peter Drucker


 


 

junho 05, 2012

O FEIRANTE JOSÉ

O marketing do Continente é bom – tenho que reconhecer. As ideias das acções são concebidas para dar que falar e aproveitar todas as oportunidades e cumplicidades; a publicidade – sobretudo os spots de televisão – são muito apelativos e memorizáveis e existe um bom complemento de comunicação nas acções. Foi assim o ano passado na invasão da Avenida Da Liberdade e tudo indica que assim será este ano no piquenicão do Terreiro do Paço, por gentileza de José Sá Fernandes. No próximo dia 16 o Terreiro do Paço será invadido por uma acção publicitária do Continente – lá descarregarão hortaliças, chourições, porcos, vacas e um sem fim de virtualhas. Para completar o ramalhete a festa será abrilhantada pelo incontornável Tony Carreira. Tudo do melhor, portanto.


 


Numa recente reunião camarária, em que o evento foi desancado até por vereadores da coligação costista, e por vereadores de todas as outras listas, Sá Fernandes disse que  gostaria de fazer isto, mesmo sem acções publicitárias e os jornais relataram que o vereador explicou que as finanças camarárias não permitem à autarquia promover uma iniciativa destas a suas expensas. Ficamos pois a saber que houvesse folga nas finanças e a cidade seria transformada numa feira permanente e num hino aos bons selvagens.


Não resisto a citar Alberto Gonçalves que este Domingo escreveu no Diário de Notícias sobre o tema: «O vereador Sá Fernandes, especialista na consignação de espaços públicos para patuscadas, explica que o evento dará a conhecer animais que muitas pessoas não conhecem. O gnu? O ornintorrinco? Decerto não será o urso, a figura dos que acreditaram que o Zé fazia falta á capital e acreditam que o António, putativo candidato a Belém. Faz falta ao país.»


 


(Publicado no diário Metro de 5 de Junho)

maio 29, 2012

MURO DAS LAMENTAÇÕES

O Dr. António Costa, sempre habilidoso em matéria de propaganda, resolveu criar um mural em plena Baixa, na Rua Augusta 24, na parece do MUDE. Na práctica forrou a fachada do edifício de pequenos papéis adesivos – os vulgares post-it. Empoleirado numa espécie de andaime lá foi fotografado a colocar um papelinho na parede. O exercício destina-se, para além de fazer um pouco de propaganda, a recolher ideias para o orçamento participativo da Câmara Municipal, que tem 2,5 milhões de euros para viabilizar propostas para Lisboa. As melhores, na opinião dos propagandistas, entrarão depois na burocracia do costume para fazer de conta que as ideias dos munícipes contam para alguma coisa – enfim, o exercício é tanto mais tristonho quanto se sabe que António Costa e sua equipa gerem a cidade sem se ralar com o conforto e o bem estar de quem cá vive.


 


A parte mais curiosa desta operação é a utilização dos post-it como instrumento de agitação e propaganda política – criar uma photo opportunity é cada vez mais difícil mas António Costa tem feito sucessivas pós-graduações na matéria, desde que utilizou uma corrida entre um burro e um carro desportivo numa eleição autárquica. Já sabia que realizadores, como Woody Allen, usam post-its para fazer a ordenação das sequências de um filme, mas nunca tinha pensado que podiam servir para enaltecer a imagem de um Presidente da Câmara. Por acaso tenho algumas ideias para Lisboa: Acabem com a EMEL! Internem num manicómio quem teve a ideia das modificações de trânsito no Marquês de Pombal e Avenida da Liberdade! Avaliem a sanidade mental de quem gere os espaços públicos e os transforma em feiras. A lista era longa – dava mais para um muro de lamentações que para outra coisa.


 


(Publicado no DIÁRIO Metro de dia 29 DE Maio)