outubro 18, 2011

Ai Lisboa...

António Costa é o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa há quatro anos, desde 2007. É o tempo de um mandato inteiro. Todos os autarcas gostam de dizer que quatro anos é o tempo para apresentar obra. O período dos quatro anos de um mandato costuma ser o horizonte temporal que os políticos gostam de usar para fazer uma apreciação da sua obra.


 


Olhemos então para Lisboa ao fim destes quatro anos e para estes mandatos presididos por António Costa. Conseguiu trazer população de volta para a cidade? Conseguiu criar um sistema de recuperação de imóveis degradados? Tem uma política de reabilitação urbana? Conseguiu fazer obras estruturantes? Conseguiu reanimar o comércio de rua? Conseguiu acabar com o estacionamento em dupla fila? Conseguiu reduzir custos?


Não me podem acusar de má vontade se disser que a resposta a estas perguntas é, em todas, um triste NÃO.


 


Mas olhemos de outro ponto de vista: Aumentou as taxas em Lisboa? Reforçou os poderes e a prepotência da EMEL? A cidade está mais suja? Há mais comércio fechado?  A cidade está mais incómoda para os seus habitantes? A cidade está mais insegura? Aqui, em todos os casos, a resposta é SIM.


 


Os mais optimistas dirão: no entanto a gestão de Costa faz parques hortícolas e ciclovias. E eu acrescento: essas obras decorrem  à mesma velocidade a que Lisboa perde munícipes. António Costa encara a cidade como uma rampa de lançamento político para  as suas ambições no PS  - o discurso que proferiu no 5 de Outubro foi o de um líder da oposição e não o de um autarca.


 


Pessoalmente simpatizo com António Costa, mas acho que ele tem sido um mau presidente da Câmara, muitas vezes a colocar interesses partidários à frente dos interesses da cidade. Por isso mesmo tem vivido politicamente graças a alianças espúrias e a compromissos muitas vezes incompreensíveis. António Costa é um honesto político à moda antiga: primeiro os seus objectivos, só depois o serviço aos cidadãos - esta é a razão de fundo para a cidade estar como está.


 


(Publicado no diário Metro de 18 de Outubro)

outubro 11, 2011

POLITIQUICES

Este mês de Outubro tem sido fértil em solavancos políticos. A celebração da intentona que instaurou a confusão republicana foi o pretexto para os primeiros dislates. Na ocasião o Presidente da República apelou ao fim do consumo fácil – mas esqueceu-se que o consumo fácil nasceu enquanto ele próprio era Primeiro Ministro. Também foi nesse tempo que a política do betão, da auto-estrada e da rotundomania se tornou a prioridade nacional e se começaram a liquidar as pescas e a agricultura.


 


Quem não se lembra das campanhas de arranque de vinha, de olival e até de sobreiros? Quem não se lembra das cedências em matéria de pescas a Bruxelas, em troca de dinheiro para o betão? O mesmo Cavaco Silva que se baseou numa estratégia de obras públicas, é o que agora vem falar da necessidade de desenvolver a agricultura e as pescas. Se isto não fosse dramático passava por anedota – ou por arrependimento de circustância, como há dias li numa bem humorada nota no Facebook.


 


Na mesma ocasião, em plena praça do Município, António Costa, em nome da cidade de Lisboa, fez o discurso de líder da oposição. Quem assistisse a isto tudo ficava siderado pela troca dos papéis, pela pinderiquice da cerimónia e pelo retrato de inconstância dos políticos. Ele há cerimónias que só agravam a má imagem que os políticos têm.


 


Dias depois, dos Açores veio a notícia que Carlos César não se recandidata nas próximas eleições regionais. Fico na dúvida se o faz por querer candidatar-se à liderança do PS nacional ou por ter em mente voos mais altos – sei lá, a Presidência da República. Esta decisão de Carlos César, palpita-me, é das que terá mais repercussões na política deste nosso pequeno rectângulo à beira-mar plantado.


 


Finalmente, a semana findou com a Madeira – com a descida de Jardim e a subida do PP, com a queda do PS, com o desaparecimento eleitoral do Bloco de Esquerda e com os resultados de pequenos partidos fora do núcleo tradicional da política à portuguesa. Aposto que também estas eleições deixam muitas pistas para o futuro – em todo o país.


 

outubro 04, 2011

LISBOA, UMA CÂMARA NOSTÁLGICA

Na semana passada fui ver o novo filme de Woody Allen, “Meia Noite em Paris”. O filme foi rodado na capital francesa,  com diversos apoios oficiais e a presença, num simbólico papel de guia, de Carla Bruni. Como se sabe Woody Allen anda há uns anos a realizar bilhetes postais sobre cidades europeias, aproveitando de forma hábil os financiamentos que as respectivas “film commissions” e outras entidades lhe prestam.


 


O filme não tem grande interesse e parte de uma situação de regresso ao passado. O personagem principal é um escritor norte-americano em crise criativa, farto de fazer guiões para Hollywwod, actividade que lhe dá sucesso e dinheiro mas de que ele não gosta. Num passe de mágica, ao bater da meia noite, ele é apanhado para dentro de um clássico modelo de carro francês dos anos 20, que o leva de volta a essa época – cruzando-se em ambientes boémios com nomes como Hemingway, Gertrude Stein, Cole Porter, Picasso, Dali e vários outros.


 


O ponto curioso de tudo isto é que o personagem principal, o tal escritor, é um apaixonado por aquilo a que chama “Lojas da Nostalgia” – onde pode viver como se estivesse no passado, rodeado de objectos de época, num universo de fantasia que lhe permite escapar da realidade.


Este Woody Allen tem no entanto um mérito: fez-me ver que vereadores lisboetas como José Sá Fernandes, Nunes da Silva ou Manuel Salgado, vivem com o objectivo de transformar Lisboa numa “Loja de Nostalgia”. Uma série de medidas que tomam parecem inspiradas no regresso ao passado, sem carros, com poucas pessoas, a forçar as suas obsessões pessoais no mundo contemporâneo, num delirante regresso ao passado que é a principal linha política da vereação de António Costa, em Lisboa.


 


É engraçado como um sector que se afirma de esquerda acaba por ser essencialmente conservador, incapaz de pensar em soluções contemporâneas, preferindo a ilusão romântica dos bons selvagens. Em Lisboa, tal como no filme, vamos comprovando que quando vivemos para mundos que já não existem, a coisa sai furada.


 


(publicado no diário Metro de 4 de Outubro)


 



setembro 30, 2011

Balanço centenário

GOVERNO – Nestes cem dias de governação ficou saliente um problema do regime: continua a existir uma grande contradição entre a energia na obtenção da receita, que a legitimidade dos votos proporciona, e a quebra das promessas que proporcionaram esses mesmos votos. Foram cem dias intensos – três aumentos de impostos, as primeiras decisões de redução do peso do Estado, o cumprimento do calendário do acordo com a troika. Cem dias que foram focados em criar uma imagem diferente, em termos internacionais, da governação de Portugal – espera-se agora que os próximos cem dias sejam dedicados a dar aos portugueses provas de que o país pode mudar para melhor. Observadores atentos de diversas áreas não se cansam de dizer que os próximos cem dias serão decisivos – o Governo tem sabido usar a palavra mudança, todos esperamos que possa começar a conjugá-la com a palavra esperança. Mais – é fundamental conseguir conciliar a austeridade, que tem de ser uma nova regra de vida, com o crescimento económico, sem o qual não há nem confiança nem esperança. Esta semana gostei de ouvir, numa conferência do «Jornal de Negócios», o Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, a dizer preto no branco que a energia tem que estar ao serviço da economia e não a economia ao serviço da energia. A frase sintetiza uma alteração de comportamento – esperemos que efectiva. E gostei de ouvir o mesmo Ministro defender um reforço da competitividade das exportações portuguesas com recurso a portos marítimos mais eficazes e a linhas ferroviárias de bitola europeia, pensadas para transporte de mercadorias, a norte e a sul. Foi a primeira hipótese alternativa ao TGV que me pareceu interessante e possível. O próximo desafio do Governo – e não é pequeno - é concretizar os planos que elaborou nestes 100 dias.



OPOSIÇÃO – Nestes cem dias de Governo o PS fez um Congresso e mudou de direcção. O Congresso foi uma espécie de reciclagem dos pecadores, sem o ritual da confissão. Bastou a presença  no templo e passaram de pecadores a perdoados sem necessidade de arrependimento. A nova direcção do PS está a caracterizar-se por um vazio ideológico total e tácticas surpreendentes – negativas, entre a falta de noção da realidade e a mais baixa demagogia. Em jeito de balanço dos cem primeiros dias da Governação, António José Seguro resumiu desta forma o Estado da Nação: «O Governo passou os 100 primeiros dias a discutir a tutela do AICEP». No Congresso, o PS recusou-se a olhar para a realidade, para as más políticas que implementou no país. Agora o seu novo líder recusa-se a olhar para aquilo que, concorde-se ou não, tem sido feito pelo actual Governo. A desonestidade intelectual não é um bom programa político para nenhum partido de oposição.


 


ASAE – Esta semana soube-se que uma multa imposta pela ASAE à Livraria Barata tinha sido anulada pelo Tribunal. Há muito que não se ouvia falar da ASAE, esse símbolo dos primeiros anos do Governo Sócrates. A acção contra a livraria Barata é exemplar da forma abusiva como a ASAE actuou e como criou uma imagem de intolerância e prepotência. António Nunes foi o rosto desses abusos, o rosto de uma forma de funcionar que visava criar o medo, mais que prevenir ou esclarecer. A ASAE que foi derrotada em Tribunal é um dos resquícios que temos da forma de agir de Sócrates – os fins justificam os meios. Também aqui há muita coisa para mudar.


 


TV – Cada vez que se pensa na definição e competências do serviço público de televisão deve-se ter em conta os dados do novo relatório da Anacom, relativo à evolução do serviço de televisão por subscrição no segundo trimestre deste ano mostra um crescimento de 7,4% no número de assinantes, em relação ao período homólogo de 2010. O total de assinantes é agora de 2,848 milhões, o que significa aproximadamente 70% das famílias. O grande motor do crescimento do mercado tem sido a instalação de fibra óptica - o número de utilizadores de fibra óptica mais que duplicou entre o segundo trimestre do ano passado e o segundo trimestre deste ano, com o MEO a ser o único operador a crescer em quota de mercado. O operador com maior número de clientes continua a ser a Zon, com 55,8% do total, seguida da PT/MEO com 32,3% e da Cabovisão com 9%. Actualmente mais de metade dos assinantes dispõe de acesso a mais de 80 canais. O mundo já mudou, o serviço público é que não.


 


ARCO DA VELHA – Joe Berardo revelou esta semana que, há uns anos atrás, quis contratar Pinto da Costa para dirigir o Benfica oferecendo-lhe  500.000 contos pela transferência das Antas para a Luz.


 


SEMANADA – Foi extinta a Fundação para as Comunicações, a gestora do projecto Magalhães, que terminou com 70 milhões de euros de dívidas; o número de particulares que pediram insolvência aumentou 156% em relação a 2010; o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu arquivar a queixa contra o Director da Revista Sábado, acusado pelo Ministério Público de ofensa à honra do Presidente da República por ter criticado o seu discurso de posse do segundo mandato; o homem mais rico da China, um industrial da Construção, está na lista para entrar no Comité Central do Partido Comunista Chinês; a frase da semana pertence a Augusto Mateus: «a Europa não pode continuar a ser uma fotografia de grupo de 27 pessoas sorridentes que, face a uma emergência, prometem uma solução para daqui a três meses».

LER – A «Wallpaper» assinalou a sua edição 150 com um número especial que revisita algumas das melhores escolhas da revista nos últimos 15 anos e a lista de 150 personalidades que marcaram a época. Fundada por Tyler Brulé, que depois a vendeu e, anos mais tarde, criou a «Monocle», a «Wallpaper» foi a partir do final dos anos 90 do século passado um guia sobre cidades, criadores, moda, designers – enfim, um manual de cultura urbana. Nesta edição destaco a reportagem dedicada ao renascimento de Roma, o clube privado concebido por David Lynch em Paris, um artigo sobre os directores de arte das grandes campanhas de moda dos últimos anos e. para terminar, as duas páginas sobre o L’And Vineyards, um projecto do arquitecto brasileiro Marcio Kogan, a quem o proprietário das vinhas, José Cunhal Sendim, encomendou o projecto, que fica perto de Montemor-o-Novo.


 


VER – Em termos de exposições a rentrée lisboeta está animada. No Museu Berardo (CCB) está uma exposição retrospectiva do brasileiro Vic Muniz, um cartão de visita á actividade deste artista que integra uma centena de obras; Rui Chafes mostra desenhos inéditos na Galeria João Esteves de Oliveira, ao Chiado; no espaço BES ARTE, no Marqu~es de Pombal, está uma exposição fantástica de fotografas de Gérad castello Lopes – absolutamente imprescindível;  e por vários locais da cidade, do MUDE ao Convento da Trindade, passando pelo antigo Tribunal da Boa Hora decorrem actividades da Experimenta Design, agora na sua semana inaugural – todas as informações em www.experimentadesign.pt .


 


OUVIR – Os Nirvana fizeram o histórico CD «Nevermind» há 20 anos. Canções como «Smells Like Teen Spirit», «Come As You Are» ou «Lithium» integravam os 12 originais que ajudaram a fazer de Kurt Cobain um mito. Para assinalar o 20º aniversário da edição  a Universal preparou uma edição com dois CD’s que reúne, para além do álbum original, nove temas que constituíram os lados B de outros tantos singles da banda. Além disso esta edição inclui registos antes nunca editados que passam por concertos ao vivo, actuações em programas de rádio, gravações de ensaios e demos de trabalho. Para encerrar, o booklet que acompanha esta edição inclui fotografias inéditas e diverso novo material gráfico. É uma edição magnífica, à venda na FNAC e El Corte Ingles.


 


PETISCAR  – Em Espanha, os presuntos 5J são sinónimo de qualidade. A marca remonta a 1879, e tem aberto alguns espaços de petiscar em locais seleccionados. O primeiro desses locais em Portugal abriu há uns meses no sétimo andar do El Corte Ingles, em Lisboa. Ali se pode provar o presunto, com um corte impecável  - já agora, porque é que por cá se corta tão mal o presunto? Mas também há outros petiscos, como lombo ibérico,  achovas de santona com queijo de cabra e beterraba, e ovos estrelados ou em tortilla, com várias possibilidades de ingredientes. Em suma uma casa de tapas onde não faltam uns deliciosos croquetes de presunto que por si só valiam uma deslocação. A carta de vinhos espanhóis é simpática e a cerveja de pressão é a magnífica Mahou. Aqui está um grande sítio para petiscar


 


BACK TO BASICS – Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo - Victor Hugo


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de setembro)


 

setembro 29, 2011

QUEM VÊ TV?

Cada vez mais portugueses vêem televisão através de serviços de subscrição – cabo, satélite, fibra, etc. Na realidade o número de clientes destes serviços não pára de aumentar – no primeiro semestre deste ano o número de assinantes cresceu 7,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O total de casas que compram o acesso a serviços de TV atinge já os 2,85 milhões, o que quer dizer que 70% das famílias tem acesso a pelo menos meia centena de canais. Apenas 30% da população vê TV através das velhas antenas – e sobretudo em zonas do interior do país.


 


Os espectadores estão cada vez mais divididos. Na semana passada cerca de 29% optaram por ver canais de cabo em detrimento dos canais de sinal aberto (RTP 1 e 2, SIC e TVI). A TVI, que continua a liderar obteve 26% de audiência, contra 22,5% da SIC e 18,9% da RTP 1 e 3,9% da RTP 2.


 


Secret Story, jogos de futebol, as novelas Remédio Santo e Laços de Sangue, telejornais e a entrevista a Pedro Passos Coelho ocuparam a lista dos dez programas mais visto, numa semana em que 80% dos portugueses seguiram nalgum momento emissões de televisão.


 


E no cabo, o que se passa? – A SIC Notícias é sistematicamente o canal mais visto – os outros canais de informação estão longe – a RTP N vem em 8º lugar no top do cabo e a TVI 24 surge em 10º lugar.


 


A seguir à SIC Notícias os mais vistos na semana passada foram AXN, Hollywood, Sport TV e Fox – os cinco magníficos do cabo que conquistam a atenção de mais portugueses – o sexto é o Panda, para os mais miúdos.


 


Há 20 anos ainda não existiam canais privados – a SIC nasceu em 1992, a TVI em 1993 e a TV Cabo surgiu em 1994. Em menos de duas décadas os hábitos de consumo de televisão e as exigências dos espectadores por mais oferta não pararam de aumentar. E hoje há canais para todos os gostos. A qualquer hora.


 


Quando se fala de serviço público e da reestruturação da RTP é bom ter estes números presentes. O mundo mudou muito em 20 anos – até que ponto faz sentido o Estado hoje deter estações de televisão?


 


 


(publicado no diário Metro de dia 25 de Setembro)

setembro 23, 2011

Entre o bailinho da Madeira e a criatividade no TGV

MADEIRA – Existe uma criativa empresa em Lisboa que se dedica a estampar tshirts com frases relativas à actualidade. Esta semana colocou no mercado uma novidade que fez furor no Facebook: estampado sobre um fundo azul intenso, com letras abertas a branco, pode ler-se: “Escavadoras Jardim, a cavar buracos desde 1978”. A frase é mortífera e encerra o sentimento que o resto do país tem em relação à Madeira – todos andamos a pagar uma despesa que está descontrolada. Manda a verdade que se diga que os primeiros anos da governação de Jardim produziram obra a nível das infra-estruturas sociais – desde escolas a centros de saúde, passando por habitação social. Mas a partir de certa altura as grandes construtoras tomaram conta da ilha como, em geral, quiseram tomar conta do país. O mito das obras públicas como motor de desenvolvimento produziu os resultados que todos sabemos e a Madeira não escapou. Construíram-se estradas talvez não fundamentais e desencadeou-se um corrupio de grandes obras, mas, infelizmente, soube-se há dois anos, não se fez nada que pudesse prevenir a situação de catástrofe que a ilha da Madeira sofreu com as inundações. Alberto João Jardim, de há uns anos a esta parte, deixou de ser um político com obra para mostrar e passou a ser um político com obras para adjudicar – e sem dinheiro para as pagar. Falando depressa, Jardim passou o seu prazo de validade e não teve a honestidade política de se retirar no auge da obra útil que também fez; pior, no seu partido, todos temeram contrariá-lo e permitiram que ele agravasse os erros – políticos e económicos. Jardim foi fazendo afirmações cada vez mais estranhas do ponto de vista político, ameaçando com uma independência que não sobreviveria sem o dinheiro que o Governo da República lhe foi entregando. Percebe-se agora que as entidades supostas fiscalizar as contas da região andaram a dormir na forma durante muito tempo e o próprio Presidente da República se deixou ficar no engano porque lhe dava jeito - e Passos Coelho fez bem em se demarcar. O que eu sei é que Alberto João Jardim anda a fazer uma média de 1,5 inaugurações por dia na sua actual campanha eleitoral. Se ganhar, como é provável, fica-se com a certeza que, em política, o crime compensa.

TGV- Eu sou dos que acha que a única linha de TGV que faz sentido é a  Lisboa-Madrid. Quando o actual Primeiro Ministro, então ainda apenas líder da oposição, começou a pôr em causa a possibilidade da sua construção nesta altura achei que ele dizia coisas com sentido e presumi que provavelmente os seus assessores teriam estudado as implicações de uma suspensão da obra. Vai-se percebendo que os estudos, se existiram, foram atabalhoados – pelos vistos não tiveram em conta acordos firmados com Espanha nem a possibilidade de manter os financiamentos comunitários para a obra. Desde há cerca de um mês que se intui que o discurso do Governo sobre o TGV está em processo de permanente evolução e a ideia mais recente é que talvez se avance só com uma única via, em vez da dupla via normal. Voz amiga, ao saber da novidade, exclamou logo: «só se for de sentido único para nos pirarmos daqui para fora». Coloquei a frase no Facebook e foi um sucesso. Eu sobre esta matéria não tenho mesmo certezas – mas tenho muitas dúvidas e as maiores delas, nesta questão da via única, é a de saber se, no longo prazo esta solução não encarecerá ainda mais a conclusão da obra a duas vias e se, por outro lado, em matéria de segurança não existem dúvidas. Com o que o passado recente trouxe em matéria de falta de estudo eu cá por mim limito-me a recomendar prudência, bom senso e humildade no estudo da situação.

ARCO DA VELHA – Devido à falta de material circulante, sapadores bombeiros de Braga começaram a utilizar ambulâncias funerárias como veículos de apoio no combate a incêndios.

SEMANADA – A Espanha anunciou que prepara restrições a novos parques eólicos; Lisboa viu as receitas municipais diminuírem 37,5% milhões de euros devido à quebra da actividade económica e diminuição da derrama; virou moda esconder números - confirmou-se que no Instituto do Desporto existiam 635 facturas por processar no valor superior a seis milhões de euros; em várias cidades a iluminação pública foi reduzida e nalguns casos anulada para conter os novos custos que decorrem do aumento do IVA na electricidade; 85% dos portugueses acham que os sacrifícios não estão a ser repartidos de forma

LER – Quando folheei a edição da Monocle, de Outubro, fiquei com vontade de a enviar a diversos responsáveis por alguns grupos de comunicação em Portugal. O tema central é “O Novo Modelo dos Media”, com exemplos analisados em diversos países. No texto de introdução, Tyler Brulé, o director da “Monocle” enfatiza a necessidade sublinhar os exemplos em que o investimento em boas práticas de jornalismo, em talento e em imaginação são aqueles que fazem ganhar audiência. O ponto central é este: é o conteúdo que dita a audiência e não apenas as plataformas de distribuição ou as formas como os conteúdos são empacotados nos vários serviços possíveis. Esta abordagem “back to basics” pode parecer estranha nestes dias, mas os exemplos relatados dão que pensar – e dar que pensar é de qualquer forma o objectivo de qualquer revista que se preze.

VER – Uma coisa que cada vez se torna mais saliente na obra de Ana Vidigal é o seu sentido de humor, que molda as peças, a escolha das técnicas e das cores, os desafios que nascem dos nomes das obras, escolhidos como parte da própria criação artística. «Estilo Queen Anne», um título que por si só é um programa, é a sua nova exposição, que ocupa, em contextos diferentes, as duas salas da Galeria Baginski com duas dezenas de trabalhos, entre a pintura, a colagem e desenho, com incursões pela pop art e pelo imaginário da banda desenhada - aqui usando autocolantes da BD bem comportada e personagens da BD mais marginal. Na outra sala da exposição Ana Vidigal ensaia suportes e técnicas gráficas de impacto visual, simulando o universo das imagens fotográficas e ambientes de fantasia. Depois da sua mostra antológica no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, em 2010, esta exposição mostra os novos e  curiosos percursos que Ana Vidigal está a ensaiar, claramente em ruptura com o status quo instalado. Galeria Baginski, Rua Capitão Leitão 51-53, de 22 de Setembro até 5 de Novembro.

OUVIR – Em Abril deste ano Wynton Marsalis e Eric Clapton gravaram um disco de blues no Lincoln Center, em New York. À partida o desafio era aliciante – combinar a sonoridade do trompete com a da guitarra eléctrica, enquanto solistas numa formação clássica de jazz que combinava mais três metais, teclas, baixo, banjo e bateria. A boa notícia é que o resultado é magnífico – recorrendo a arranjos típicos das formações de jazz de New Orleans. Mantendo uma fidelidade absoluta ao espírito dos blues, Marsalis e Clapton fizeram uma reinterpretação inovadora de clássicos como “Ice Cream”, “Joe Turner’s Blues” ou “Corrine, Corrina”, já para não falar de temas do próprio Clapton, como “Layla”, aqui numa das suas melhores versões de sempre. As vozes são as de Marsalis e de Clapton, com a participação especial do grande Taj Mahal em três. Vale a pena ter a edição especial, que combina o CD áudio com o DVD do concerto. Numa recente entrevista à “Vanity Fair”, Marsalis dizia que os blues eram o grande amor da sua vida – “It cost a lot to find and much more to maintain”. Este disco é prova disso mesmo. CD Reprise, via Amazon UK.

PETISCAR – Ao fundo da Guerra Junqueiro, do lado esquerdo de quem desce, há uma pequena loja que se chama “Mercearia Criativa” que vale a pena ser visitada. Não é uma loja gourmet, como os seus proprietários gostam de sublinhar, é uma mercearia com produtos portugueses bem escolhidos, desde as batatas doces de Aljezur a queijo Monte da Vinha, passando por pão de Castro Verde, conservas tradicionais, os deliciosos croquetes de figo algarvios  e vinhos escolhidos. A Mercearia Criativa tem uma pequena esplanada onde se realizam degustações e se pode provar um petisco dos vários disponíveis no local. Se seguirem a sua página no Facebook irão tendo informação sobre as actividades. A Mercearia Criativa fica no nº 4A da Guerra Junqueiro, já perto da Alameda, e está aberta de segunda a sábado entre as 10 e as 20h00.

BACK TO BASICS – O desenvolvimento da economia é a coisa mais importante de um país e o crescimento da dívida pública o maior dos perigos – Thomas Jefferson


 


(publicado no Jornal de Negócios de 23 de Setembro)

UMA ESTAÇÃO AZUL

Já devem ter reparado que vai para aí uma polémica sobre a estação da Baixa Chiado e o seu novo nome. Confesso que é uma polémica que não entendo. Como se sabe, nas estações de Metro existe publicidade, cujas receitas ajudam às contas da empresa e a evitar que os bilhetes sejam mais caros. Da mesma forma, a extensão da comercialização de espaço ao nome das estações cria novas oportunidades de receitas, mas, também, proporciona um valor adicional – como está a acontecer na estação Baixa-Chiado, em Lisboa. O que o metropolitano fez foi dar o direito a uma outra empresa a figurar no nome da estação – neste caso à PT. A estação passou a contar com o logótipo da operadora telefónica na sua designação e também com a expressão “blue station”, em alusão ao azul que é a cor da PT. A este tipo de negócio chama-se “Naming Rights” , ou direito de utilização do nome. É algo de vulgar por esse mundo fora em grandes espaços públicos, como por exemplo estádios desportivos ou prestigiadas  salas de espectáculo.


 


No caso do Metropolitano, a associação da PT à “blue station” da Baixa Chiado trouxe algo mais: os utentes da estação passaram a poder usufruir de conteúdos do SAPO, com informações sobre actividades diversas, informações para crianças e actualizações noticiosas, além de uma agenda cultural da cidade de Lisboa com um enfoque especial na zona da estação, o Chiado. Além disso a PT disponibilizou ligação Wi Fi gratuita a todos os utilizadores dentro do espaço da estação.


 


Finalmente a PT promove ainda uma série de eventos na própria estação em áreas como a Literatura, a Arte, a Moda, o design ou a Música. Ao longo de um ano 12 pessoas vão pensar as programações para cada mês – a promeira, já em curso, é da autoria do artsita Vasco Araújo. A estação ficou mais rica em animação, em informação e em serviços e o Metro com mais dinheiro para a manter operacional. Para os utilizadores da estação, esta foi uma boa ideia.


 


(publicado no Metro de 19 de Setembro)

setembro 16, 2011

Coisas que funcionam bem

AVISO – Dedico a coluna desta semana a boas ideias, coisas bem sucedidas, exemplos a seguir – um modesto contributo para gerar um pouco de optimismo, mostrando que existe quem reaja e faça coisas, quem não fique de braços cruzados a lamentar-se. Esta semana estive num debate no Instituto Superior Autónomo de Estudos Politécnicos, sobre os problemas que existem na ligação entre o ensino e as empresas, e a maioria dos participantes apontou como principais questões a falta de desenvolvimento de espírito empreendedor e a ideia generalizada de que um diploma deve gerar automaticamente um emprego. A ideia de que a sociedade deve providenciar tudo foi uma curta ilusão nascida no pós-guerra, nos anos 50, e que se começou a desmoronar menos de 50 anos depois. É escusado pensarmos que a sociedade vai fazer alguma coisa por nós, se não nos esforçarmos por fazer alguma coisa pela sociedade. A melhor coisa que podemos fazer a nós próprios é esforçarmo-nos por conseguir acrescentar valor da forma que pudermos. É de casos destes que hoje vou tentar falar.


 


 POLÍTICA - A Universidade de Verão do PSD é um caso raro na política nacional e, este ano, de lá saíram interessantes declarações de vários dos oradores convidados, de vários quadrantes políticos, aliás. De uma forma geral, ano após ano, a Universidade de Verão do PSD tem sido mais interessante que qualquer congresso partidário, tem feito mais debate e criado mais formação entre jovens aspirantes a uma participação cívica que qualquer outra iniciativa. O seu grande impulsionador tem sido Carlos Coelho, deputado social-democrata, que ano após ano tem criado, durante uma semana, um espaço de debate, de experimentação e de troca de experiências – num país onde estas actividades em, matéria de política, são quase um deserto. Interrogo-me aliás se a chamada “rentrée” política do PSD não devia passar a ter a Universidade de Verão como referência, em vez do decadente jantar do Pontal.


 


LER – A Magnética Magazine é uma publicação digital que já vai no seu número 34. Em termos de uma revista exclusivamente digital é um produto particularmente bem cuidado do ponto de vista de conteúdos, nos textos e nas fotografias, e também no design gráfico. Esta iniciativa, que tem um sustentáculo em publicidade na área da moda, é fruto de uma equipa de cerca de 30 colaboradores, das mais diversas áreas, dirigida por Bruno Pereira. É um exemplo de uma equipa que procura fazer coisas diferentes, escolhe temas interessantes, estimula a curiosidade dos leitores e presta informações úteis através de um site com actualizações regulares de agenda. A edição de Setembro é dedicada ao Oriente e tem como destaque um trabalho com Bi Feiyu, um escritor chinês, autor do livro «Three Sisters», galardoado com o Man Asia Literary Prize de 2010.  Estranho? – Não, revelador de que se pode sempre descobrir algo de novo para mostrar. Comunicação é isto mesmo, não é?


 


VER - Luiz Carvalho é um dos jornalistas que há uns meses, num processo de redução de quadros, saíu do Expresso. Não cruzou os braços, começou a fazer workshops onde ensina técnicas de fotojornalismo e, ao mesmo tempo, foi desenvolvendo uma actividade de freelancer. Durante o Verão, Luiz Carvalho publicou no «Expresso», com quem mantém uma boa relação, uma série de reportagens com o título genérico «Portugueses» (revisitando um trabalho que já tinha sido feito sob a forma de livro em 1985). 26 anos depois Luiz Carvalho foi à procura destes novos Portugueses e encontrou 18, das mais diversas profissões, que por uma razão ou por outra tinham uma história para contar. Na revista «Única» publicou as fotos e um texto baseado no depoimento dos entrevistados e a versão iPad do semanário lá tinha também uma versão com filme. E nos últimos dias a SIC Notícias tem passado esses pequenos filmes, que são a extensão audiovisual das reportagens que o Expresso publicou. Têm entre 2 e 4 minutos cada. Tudo – fotografia, recolha do depoimento, filme -  foi feito por Luiz Carvalho, sozinho, e com uma mesma máquina, a Canon 7D. A pós produção vídeo também foi feita por ele no iMovie da Apple, um programa simples e eficiente residente nos computadores da marca. Trata-se talvez do primeiro trabalho desta envergadura feito por um único jornalista multimédia em Portugal. O resultado é um trabalho com qualidade narrativa e técnica, pensado e feito em multiplataforma, com recurso a materiais acessíveis. Um exemplo, em suma.


 


OUVIR – Trabalhei alguns anos no jornalismo musical e na indústria discográfica. Habituei-me a pensar que quando a crise espreita surgem as grandes oportunidades para os independentes. Nestas ocasiões as editoras independentes, ágeis, criativas, entusiastas, ganham uma vida especial na descoberta de talentos e na apresentação de trabalhos que doutra forma talvez ficassem desconhecidos. Tem graça que a música popular contemporânea é das actividades onde felizmente não há subsídios do Estado e onde eles não são, por via de regra, solicitados. Até aí a independência dá outro sabor às coisas. Vem isto a propósito de um grupo que se chama Rose Blanket, um projecto musical que gira à volta de Miguel Dias desde 2003. O seu novo disco, o terceiro, chama-se « Nothing Ahead/Nothing Behind» e  é um duplo CD, editado de forma independente, e as gravações decorreram entre Dezembro de 2008 e Fevereiro de 2011, entre Barcelos e Lisboa. O projecto envolve vários outros músicos portugueses, a voz inesperada e magnífica de Filipa Caetano e duas cantoras norte-americanas, Jennifer Charles (dos Elysian Fields) e Dana Schechter (Bee and Flower, colaborações em American Music Club). O resultado é fruto de um processo criativo feito da experimentação, repetição, correcção, às vezes obsessivo, mas surpreendentemente envolvente. «Feel My Way Around» é o nome da canção que serviu de base para o vídeo, realizado por Joana Linda (vencedora do Shortcutz Maio de Lisboa com a curta metragem «Boudoir») e que pode ser visto no site www.roseblanket.net. Moral da história: vários músicos, várias cantoras, um disco editado, um vídeo feito, uma série de espectáculos que vão surgir – tudo feito de forma independente, com determinação e paixão. É isto que torna o universo da música popular tão atraente.


 


VISITAR – Todos sabemos como as empresas públicas de transporte vivem em situação deficitária. Pois a MOP, concessionária da publicidade no Metro de Lisboa, propôs à empresa a possibilidade de, nalgumas estações, associar o nome pelo qual são conhecidas, e que depende da sua localização, a um patrocinador. Chama-se a isto, em termos publicitários, «naming rights», uma acção utilizada numa série de situações por esse mundo fora, com satisfação para todas as partes envolvidas – as empresas detentoras dos espaços (que recebem dinheiro) e as patrocinadoras (que ganham notoriedade). No caso do Metro a operação foi pensada com cuidado, para não ser intrusiva, nem na estação, nem nos utilizadores, nem sequer no design das novas placas que associam o nome da estação Baixa –Chiado ao patrocinador PT. A arquitectura da estação, desenhada por Siza Vieira, impunha ela própria limitações à forma de intervenção do patrocinador. A solução encontrada pela PT foi inteligente e esteticamente conseguida, graças também à facilidade com que trabalha com novas tecnologias. Usando projecções de imagem e de luz em vários pontos da estação e sempre com recurso ao azul que é a cor identificadora da marca PT, prestam-se uma série de informações úteis aos utilizadores do Metro, mas também se propõem, no próprio espaço da estação, uma série de performances e actuações, num conjunto de actividades idealizado e programado, neste mês, pelo artista Vasco Araújo – outros se lhe seguirão nos meses seguintes. A estação ficou mais rica em animação, em informação e o Metro com mais dinheiro para a manter operacional.


ARCO DA VELHA - Se Portugal tivesse uma lei de responsabilidade fiscal que punisse os violadores das leis orçamentais com a não reelegibilidade durante 10 anos muita coisa tinha sido diferente, no continente e nas ilhas, nestas últimas duas décadas. Como afirmou esta semana Silva Lopes, precisamos de penalizações para políticos que não cumprem regras.


 


BACK TO BASICS – Parece ter-se trocado o valor das coisas pelo preço das coisas – Adriano Moreira


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 16 de Setembro)


 

setembro 13, 2011

Como tratar os culpados políticos?

Nas últimas semanas temos vindo a ser bombardeados com anúncios  de subidas de impostos, aplicação de novas taxas, impostos especiais – tudo a recair quase exclusivamente sobre os rendimentos do trabalho. O Ministro das Finanças foi claro : é mais prático lançar novos impostos muito fáceis de cobrar porque são deduzidos nos vencimentos, do que tentar outras medidas mais difíceis.


 


Bem sei que o país está num aperto, bem sei que temos que tentar endireitar as contas, bem sei que o mundo mudou e nós todos, aqui neste rectângulo, só demos por isso tarde demais.


 


Mas também sei que durante década e meia foi um fartote de asneiras governamentais, vindas de vários quadrantes partidários, que muito contribuíram para o estado em que estamos. A megalomania tomou conta do país e tornou-se linha política.


 


Mas o que também sei é que, agora, na hora de pagar a factura, ela cai em cima dos mesmos de sempre e nada acontece aos que, verdadeiramente, pelos seus actos, foram responsáveis pelo que aconteceu.


 


Dir-me-ão – perderam as eleições, o Governo mudou, foram politicamente punidos. Pois. Mas não basta – os responsáveis políticos têm que ser punidos por má gestão, por delapidação dos dinheiros públicos, por políticas desastrosas e não estou a falar só de uma punição política.


 


Alguns responsáveis políticos dirão que esta posição é populista – acontece que na realidade foram medidas populistas em excesso, desses mesmos políticos, que nos levaram onde estamos. Irresponsabilidade conjugada com impunidade produziram aquilo que estamos agora a sentir.


 


Quem aumentou o endividamento do país, quem adoptou políticas que não tinham sustentabilidade, quem colocou o Estado a gastar acima das suas possibilidades foram os políticos, quer na administração central, quer na administração local. Em nome de promessas eleitorais delapidaram-se milhões, os milhões que hoje nos estão a tirar, imposto após imposto, taxa após taxa.


 


(Publicado no diário Metro de dia 13 de Setembro)

setembro 09, 2011

Política, comunicação, cultura e a comidinha de Lula

FACILITISMO - Quando se intui que não há resposta para algumas perguntas, mais vale não ir a interrogatório – vem isto a propósito da forma como Vitor Gaspar, a meio da semana, se expôs numa série de entrevistas que tinham a intenção de melhorar a comunicação sobre o aumento de impostos e as medidas de redução da despesa. A coisa não funcionou e o resultado teve momentos penosos para o Ministro. Vitor  Gaspar é um tecnocrata puro, demasiado dogmático em matéria europeia, e tem uma assinalável falta de capacidade de comunicação. Já se percebeu que não é um político – embora alguém devesse ter pensado que a pasta das Finanças é politicamente das mais importantes. Toda a gente já percebeu o seu papel – encontrar equilíbrio nas contas, o que é um bocado diferente do anterior Ministro das Finanças que procurava esconder o desequilíbrio das contas. Nestas entrevistas, Vitor Gaspar teve uma frase que resume a sua agenda: é mais fácil e mais rápido aplicar impostos do que mudar o funcionamento do Estado. Ele disse isto de uma maneira mais suave, mas o conteúdo foi este. E, é aqui que reside o nosso problema – é sempre mais fácil ir buscar mais dinheiro ao bolso dos mesmos, que pagam sempre, do que procurar outras soluções. O Estado é preguiçoso por um lado e abusador por outro. É claro que o Ministro podia tentar fazer diminuir a evasão fiscal e assim ir buscar mais receitas; é claro que o Governo podia  tornar a justiça mais célere e assim cativar mais investimento; é certo que podia procurar dinamizar a economia, criar emprego, e assimgerar mais receitas. Eu sinceramente desejo e espero que este Governo consiga resolver o nosso problema. Mas, se vai lá pelo lado da facilidade e não ataca o problema de fundo, nem com impostos de 100% nos safamos.


 


LIVRO - Daqui a uns anos o que vai ficar das duas primeiras décadas deste século? Os políticos que nos levaram à ruína, as medidas de austeridade, ou os criadores, escritores, músicos, artistas, cuja obra perdure? Acham esta pergunta estranha? – E esta: o que é mais importante? - a cultura ou a política? Não me lembro de um político que corporativamente não diga que a política comanda a vida. Ora acontece que, como a História demonstra, não é bem assim. A nossa identidade enquanto nação é marcada pelos nossos criadores e não há vulto da política que na comparação resista ao passar dos séculos. Dito isto, que sinal se pretende dar com um hipotético aumento do IVA nos livros? Portugal já tem das mais baixas taxas de leitura da União Europeia, tem dos índices mais baixos de compras de livros na Europa. Bismark dizia que a política é a arte do possível – mas neste caso acho que esta citação deve ser remetida ao Primeiro-Ministro, que tem a responsabilidade da tutela da pasta da Cultura. É a ele que compete dizer ao seu Ministro das Finanças que aumentar o IVA no livro é impossível (além de provavelmente ter um reduzidíssimo efeito prático na receita). De alguma forma na decisão que for tomada está a pedra de toque da política cultural deste Governo. Vence o dogma, ou aceita-se a razão? Qualquer aumento, mesmo que parcial em relação à taxa máxima, agravará a nossa situação. Esta responsabilidade e esta decisão, repito, pertencem ao Primeiro-Ministro e estou com curiosidade de ver o que fará Passos Coelho depois daquilo que escreveu sobre política cultural, no seu livro «Mudar», lançado em Janeiro de 2010.


 


SEMANADA – 14 600 pessoas perdem em cada mês o direito ao subsídio de desemprego; o sector público deve a fornecedores privados mais de 4 mil milhões de euros; apenas seis das 51 cadeias portuguesas têm salas para encontros íntimos de reclusos com visitas; na última semana três polícias foram assaltados na rua; Ana Gomes apelidou Merkel de “anjinha”; Portugal tornou-se líder europeu na apreensão europeia de chifres de rinoceronte; a Porsche abriu um stand em Pequim.


 


ARCO DA VELHA – Afinal, o tumulto é no PSD - a principal oposição ao Governo, na última semana, veio de dentro do PSD: três ex-líderes e vários notáveis não pouparam críticas à política fiscal e à comunicação do executivo.




VER – Até 18 de Setembro estão em exposição, no Museu da Electricidade, em Lisboa, as obras dos nove finalistas do Prémio EDP Novos Artistas 2011. Esta iniciativa da EDP tem permitido revelar nomes como Joana Vasconcelos, Vasco Araújo, André Romão ou Gabriel Abrantes. É, talvez, o mais regular radar de reconhecimento de novos talentos nas artes plásticas. Priscilla Fernandes é a vencedora deste ano, com os dois vídeos que apresentou e a instalação de André Trindade teve uma Menção Honrosa. Os vídeos de Priscilla Fernandes fogem aos lugares comuns infelizmente frequentes deste género de suporte e remetem para um cruzamento de formas de expressão que de certa forma têm a sua raiz na pintura, como aponta o texto de Delfim Sardo sobre a obra premiada. Já André Trindade fez uma observação do quotidiano com recurso a situações e soluções inesperadas numa instalação muito conseguida – percebe-se que o Júri deve ter hesitado entre as obras destes dois artistas. Em termos mais pessoais o trabalho de João Serra, com recurso a vídeo e fotografia, num registo muito documental e minucioso de uma região mineira no norte da Rússia, constitui um outro ponto incontornável da exposição.


 


LER – Numa fase em que tanto se discute a educação em Portugal, a edição de Setembro da “Monocle” vem mesmo a calhar. A revista investiga e mostra exemplos de experiências educacionais por vezes invulgares na Colombia, Peru, Finlândia, Coreia e Itália. Além disso aborda experiências individuais de duas dezenas de professores e profissionais de várias áreas com experiência relevante no ensino e na formação. A revista privilegiou o lado prático da formação e os resultados obtidos, destaca afirmações e opiniões polémicas sobre estas matérias. É talvez um dos melhores números da “Monocle” desde há meses. Outros temas de interesse são uma entrevista com o novo CEO da Air New Zeland, que está a proceder a uma revolução na empresa, e também uma muito oportuna reportagem sobre um canal de televisão noticioso na Venezuela. Finalmente destaque para as oito páginas que constituem o guia da criatividade em Singapura. Muito para ler, bastante para descobrir, coisas para aprender.


 


OUVIR – Assim, de repente, o nome de Francisco Silva não dirá grande coisa a muita gente. Mas o nome Old Jerusalem já faz levantar umas orelhas – trata-se de um projecto musical desenvolvido por Francisco Silva e que vai agora no seu quinto disco e no décimo ano de carreira. Os primeiros discos tiveram um assinalável aplauso da crítica e permitiram também alguma carreira internacional. Aos poucos Old Jerusalem tornou-se num nome de culto e o seu mentor, Francisco Silva, que compõe, canta e toca a maioria dos seus temas ( e que acumula a carreira musical com uma vida de economista), foi ganhando reconhecimento pelo cuidado colocado sobretudo nas harmonias vocais que se tornaram a sua marca muito própria. Este quinto disco “Old Jerusalem” sai dentro de dias, retoma em parte o espírito dos registos iniciais, mas revela um aperfeiçoamento considerável, mantendo no entanto uma capacidade de surpreender que se revela em vários temas do CD – são doze, onze de Francisco Silva e um de Lou Reed, ainda do tempo dos Velvet Underground, uma versão de “Candy Says”. “Old Jerusalem” já tem distribuição assegurada em Portugal e na Alemanha.


 


PROVAR – Se quiserem conhecer o restaurante onde Pedro Passos Coelho levou Lula da Silva a jantar esta semana, A Horta dos Brunos, fiquem sabendo que fica na Rua da Ilha do Pico 27, perto da Estefânia e é reputado por ser um templo das tradições da cozinha portuguesa, com um ambiente informal e simpático e uma garrafeira de eleição. O saudoso David Lopes Ramos não poupava elogios às suas pataniscas de polvo, às «lulas à Pedro» (o dono do restaurante chama-se Pedro Filipe) e a um arroz com costelas de porco guisadas com couve. O telefone é o 213153421e a casa tem quatro dezenas de lugares.


 


BACK TO BASICS – As livrarias são das poucas provas de que ainda existem pessoas que pensam – as que lêem livros (Jerry Seinfeld)


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Setembro)


 

A ESCAVADORA

Começa a ficar claro que os vários serviços secretos portugueses têm vivido em roda livre. Os seus agentes, seguindo os filmes do género, mostram-se pouco receptivos a cumprir a Lei, acham-se acima de qualquer suspeita e não gostam de dar conta do que fazem.  Ao longo das últimas semanas vários jornais têm aprofundado a investigação do comportamento das secretas e o rol de irregularidades é considerável – passa por favores pessoais a amigos, informações a empresas passadas debaixo da mesa, trânsito de agentes entre a actividade das secretas e a actividade privada.


 


Tudo isto, vai-se sabendo, usando meios técnicos e recursos humanos do Estado para fazer uma circulação ilícita de informações, num misto de favores pessoais e negócios muito pouco claros. Face à situação, aparentemente sistemática de abusos, ainda bem que há jornais que conseguiram investigar e publicar estas informações – e no meio de um clima que se começa a gerar por aí vale a pena dizer os jornais têm feito o que devem e têm mostrado que os serviços secretos – e não os jornais -  é que têm feito asneira, e da grossa. Num tempo em que se discute muito o serviço público vem a propósito dizer que esta forma de agir dos jornais que têm investigado o caso constitui um dos mais importantes serviços públicos que os órgãos de comunicação podem fazer: denunciar abusos.


 


Escavar informação sobre abusos do Estado e dos seus agentes é um bom princípio de funcionamento da imprensa livre. Não por acaso, uma das ilegalidades que se descobriu foi a obtenção ilícita de dados de um jornalista que investigava os serviços secretos. Já se sabe que o objectivo era descobrir quais seriam as fontes de informação do jornalista, adivinha-se que para as perseguir, investigar ou pressionar . No fim de tudo isto sobra uma certeza – os nossos serviços de informação são fraquinhos, não resistem a uma investigação sumária e estão mais cheios de guerrilhas e intrigas internas que um clube de futebol.


 


(Publicado no diário Metro de 6 de Setembro)


 

setembro 05, 2011

Televisões, Espiões, Sugestões

TELEVISÃO – Quem segue os números de audiência da televisão deverá ter estranhado o súbito aumento de espectadores do universo dos canais exclusivamente de assinatura e a diminuição dos canais abertos, generalistas – RTP1 e 2, SIC e TVI. Não há grande mistério – o que aconteceu foi que o painel de audiometria começou a reflectir, desde o início do segundo semestre, a verdadeira proporção do que é a distribuição do sinal de televisão em Portugal. Efectivamente, já menos de metade dos lares acede à distribuição do sinal de televisão por antena, e a maioria utiliza cabo, satélite ou outras tecnologias de distribuição.


Os números actuais estão certamente mais próximos da realidade do que os anteriores. Na realidade, na maioria da população, os três canais generalistas comerciais concorrem com dezenas de canais das mais diversas áreas – notícias, infantis, séries, cinema, desportivos, documentários, etc. O que tem acontecido é que, desde que foram introduzidas estas alterações no painel de audiometria, o Cabo tem andado perto dos 30% de audiência, na maior parte das vezes à frente de qualquer dos canais de sinal aberto. Por exemplo, na semana passada, o Cabo registou 31% de audiência, a TVI teve 22,4, a SIC 21,4% e a RTP 20,1%. Claro que estes números preocupam os canais comerciais de sinal aberto, já que o seu impacte na captação de investimento publicitário é imediato – desde o princípio do ano os canais de sinal aberto têm vindo a perder algum investimento precisamente para os canais de cabo. E, nos canais de cabo o líder de audiências é a SIC Notícias. Na semana passada o segundo lugar ía para o Disney Channel, seguido do Hollywood, o Panda, o Fox, depois a Sport TV e a seguir o AXN. A RTP N só aparece em nono lugar e a TVI 24 em 11º. E quanto mais rigoroso for o sistema de audiometria, com a introdução de novas tecnologias de recolha de dados, mais se acentuará este fosso. É um caminho sem retorno.


 


ESPIÕES – Quando os espiões são notícia, alguma coisa vai mal. Quando um país tem serviços secretos que criam a imagem de servir mais para negócios privados que para outra coisa qualquer, está criada a confusão. Mas, quando as ilegalidades que os espiões cometem são tornadas públicas alguma coisa começa a ir bem. Percebe-se agora que os serviços secretos andam em roda livre, que o controlo sobre a sua actividade é virtual, que ilegalidades são cometidas e escondidas. Na prática percebeu-se que o Estado tem sido conivente com estas situações, que há dois pesos e duas medidas. Era bom que esta investigação não terminasse sem culpados – porque caso contrário quem perde é o regime, que se torna permissivo e conivente com ilegalidades. Tudo se passa como se o Estado se tivesse distraído e resolvesse deixar de funcionar.


 


IMPOSTOS - À medida que os aumentos se começam a fazer sentir percebe-se que as receitas que se esperavam não se cumprem. O aumento do IVA provoca uma diminuição do consumo, nas SCUT com pagamento já em vigor diminuíu o número de veículos, no estacionamento em Lisboa as novas tarifas mais altas geram receitas mais baixas. Há um ponto a partir do qual os consumidores dizem basta. E as receitas que se esperavam ver crescer arriscam-se a ficar abaixo das que existiam anteriormente. Estes aumentos agravam o problema em vez de o resolverem – com uma outra consequência – afectam toda a cadeia da produção e distribuição de bens, terão provavelmente reflexos na perca de mais postos de trabalho e na deterioração da situação económica de vários sectores. Esta semana, no Público, João Carlos Espada escreveu um belo artigo sob o título  "Impostos e Criação de Riqueza", que bem merece ser lido por quem anda com algumas ideias peregrinas no ar e por quem encontra sempre a mesma solução fácil: mais impostos. Excerto: «Não são os impostos a fonte primordial de melhoria da condição de vida do maior número. A riqueza da Europa e do Ocidente - que ainda hoje merece admiração no resto do mundo - não foi produto da redistribuição da riqueza dos ricos para os pobres através dos impostos. Foi produto da criação de riqueza num ambiente de liberdade económica, em regra associada a impostos baixos, justiça célere, e, sobretudo, à ausência de barreiras à entrada de novos competidores. Esta verdade elementar foi precocemente observada por Adam Smith, já em 1776. E foi mais facilmente corroborada depois disso.»


 


SEMANADA – Em dez semanas de governação o Governo criou onze grupos de trabalho; desde Janeiro faliram 2917 empresas; quase duas dezenas de figuras públicas de vários sectores confessaram ao “Diário de Notícias” que suspeitam estar sob escuta telefónica; na Liga, em nove pontos possíveis, o Sporting só somou dois e continua a achar que a solução é comprar mais jogadores.


 


ARCO DA VELHA – O suspeito de ter sequestrado e violado durante três dias uma turista italiana em Lisboa foi identificado pela polícia, levado a tribunal e solto com a obrigação de se apresentar na esquadra de quinze em quinze dias; deu morada falsa e nunca mais apareceu. Isto é um Estado de Direito?


 


VER – Três razões para ver o site www.artecpital.net: o artigo sobre a exposição dos candidatos ao prémio EDP Novos Artistas 2011, outro sobre a exposição de Pedro Portugal no Gabinete da Politécnica e sobretudo o artigo de Augusto M Seabra sobre a obra de arte na era digital. Muito interessante também o vídeo que explica – e mostra – o processo de trabalho de José Roca, o curador-geral da 8ª Bienal do Mercosul e o artigo sobre a exposição de João Penalva no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Mas há outros bons motivos de leitura e navegação neste site dedicado à arte contemporânea.


 


LER – A Vanity Fair deste mês tem Jennifer Lopez na capa, com um porfolio fotografado por Mario Testino. Mas além disso tem um belo artigo de Michael Lewis sobre como a Alemanha domina a Europa. Na mesma edição Annie Leibowitz fotografa o pintor John Currin e Jean Stein usa as fotos de William Eggleston num belíssimo artigo sobre o ambiente que se vivia no célebre clube Tropicana, em Havana, poucos meses antes de Fidel castro ter tomado o poder. Outro tema interessante abordado pela revista é o relato dos ataques de hackers chineses a segredos norte-americanos.


 


OUVIR – Em 1964 Count Basie e a sua orquestra fecharam-se em estúdio e gravaram Basie Land, um álbum de 10 temas compostos e orquestrados por Billy Byers. Na verdade Count Basie decidiu nessa altura refrescar o som da banda e entregou a direcção de todo o projecto a Byers – que se saíu bem da experiência, conseguindo transmitir uma energia e uma profundidade musical diferente do que acontecia até aí – os temas “Basie Land”, “Rabble Rouser” e “Gymnastics” são bom exemplo disso mesmo. Destaque ainda para “Sassie”, um blues em  homenagem a Sarah Vaughan. O disco ainda hoje alimenta alguma polémica entre os fãs do estilo tradicional de Count Basie, que olharam com desconfiança para a lufada de ar fresco que Byers imprimiu á gravação. O disco foi agora reeditado, na série Verve Orinals, pela Universal. Como diria John Lennon num célebre álbum dos Beatles, «A splendid time is guaranteed for all».


ound Dog ou Heartbreak HotelH


 


PROVAR – Alguns inocentes acham que o peixe chamado anchova se resume à tirinha deliciosa que vem acondicionada dentro de caixas de conservas – e em Portugal temos vários bons fabricantes. Eu gosto muito de conserva de filetes de anchova, mas gosto ainda mais da anchova fresca, grelhada, sem condimentos, simples e deliciosa. A anchova, da família do biqueirão, mas maior, é um peixe de sabor especial. Quem nunca o experimentou fresco nem sabe o que está a perder. Em Lisboa é difícil de encontrar mas no Algarve encontra-se com alguma paciência – embora seja um daqueles peixes a que dantes ninguém ligava e que agora toda a gente quer. Este ano deliciei-me com uma anchova muito bem grelhada – escalada mas sem estar queimada – no Restaurante Pedro, em Cabanas de Tavira. Se estiver pelo Algarve vale a pena ligar para lá e saber se têm anchova – reserve, se houver. O telefone é o 281 370 425 e a morada é Rua Capitão Batista Marçal 51, no sítio onde a marginal de Cabanas bifurca.


 


BACK TO BASICS – A força dos governos é inversamente proporcional ao peso dos impostos -  Guy de Girardin.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


(Publicado No Jornal de Negócios de 2 de Setembro) 

agosto 30, 2011

Descalabros nacionais, comunicação surreal, ERC apanhada a mentir

PAÍS - O que se vai sabendo das contas das Câmaras Municipais, assusta. Durante anos toda a gente se habituou a viver acima das posses – não foi só o Governo, foi um frenesim generalizado. Um dos mais exemplos vem do universo das empresas municipais. Era engraçado saber qual o número de trabalhadores do conjunto das empresas municipais em Janeiro de 2005 e qual o número actual. Durante anos as empresas municipais têm sido utilizadas para fazer aquilo que as autarquias não podem legalmente fazer em material de contratações de pessoas ou serviços. Muitas delas foram criadas com planos de negócio mirabolantes que garantiam que poderiam ser auto-suficientes e criar riqueza. Hoje sabe-se que nada disso aconteceu. Lisboa tem vários casos destes e conheço particularmente bem um deles, a EGEAC – que agora viu reforçada a sua esfera de actuação, passando a englobar também os museus municipais. Na prática a empresa vai gerir e absorver mais umas dezenas de trabalhadores e orçamentos já de si deficitários, o que possibilitará à CML registar menos trabalhadores e talvez menos encargos salariais. Trabalha-se para as aparências, com números de ilusionismo sem sentido. Seria particularmente curioso conhecer bem a evolução do número de trabalhadores da EGEAC na última década, assim como a evolução da despesa e a evolução das receitas. Sempre tive curiosidade em saber, por exemplo, quantos bilhetes são efectivamente vendidos nos teatros municipais, quantos são oferecidos e qual a audiência media ao longo do ano. Vão ver, quando começarem a fazer contas, as surpresas que irão ter. E talvez a realidade dos números até faça pôr em causa a utilidade social efectiva de alguns equipamentos, pelo menos da maneira como hoje estão.


 


 


COMUNICAÇÃO – No mundo contemporâneo o desprezo pela comunicação significa desprezo pelas pessoas. Os titulares de cargos públicos deviam ter sempre isto em mente: fazer menos afirmações e mais demonstrações e evitarem fazer declarações públicas à imprensa sem direito a perguntas. As conferências de imprensa transformaram-se numa farsa porque os seus promotores estão mais interessados em fazer passar frases curtas do que em explicar as suas acções ou o pensamento (até porque pode nem existir….). Mesmo o Presidente da República, num assunto tão complexo como a criação de um limite constitucional ao endividamento, preferiu deixar a sua opinião num curto post estival de cinco linhas no Facebook do que promover um debate elucidativo sobre o tema. O esforço que está a ser exigido a todos parece-me exigir mais explicações e menos slogans, mais comunicação e menos propaganda.


 


 


ERC – No site da ERC, Entidade Reguladora da Comunicação, está um parecer recente, “5/PUB- TV /2011”, da direcção deste organismo, que incide sobre a metodologia de um plano de meios publicitário, ou seja, sobre os critérios que levam a escolher determinado veículo para atingir determinados objectivos. Na cabeça de qualquer planeador está sempre o princípio de conseguir o maior retorno ao investimento publicitário, ou seja a eficácia da comunicação publicitária. É um trabalho técnico, com matrizes claras, e baseado em dados estatísticos e de research que o mercado aceita e utiliza. Não me consta que a ERC tenha capacidade técnicas básicas – nem falo em mínimas – neste domínio. Li, com espanto, o arrazoado de incorrecções e deturpações que estão nesse parecer, que é cheio de citações jurídicas e vazio de noções técnicas. Ainda com mais espanto vi que os reguladores assinaram um texto que contém mentiras factuais sobre empresas referidas, fazendo inclusive algumas insinuações inexplicáveis. A ERC tem um historial de abuso, de ingerência em assuntos que não domina e, cada vez mais, é um caso claro não só de inutilidade, como também um dos maiores exemplos do abuso que o Estado patrocina. A ERC foi criada numa negociata política que deu mau resultado, como está à vista há muito tempo. Era boa altura de o Governo mostrar que tem alguma vontade de mudança nesta área – ainda por cima porque o mandato dos actuais reguladores chegou ao fim e esta é a boa altura para ponto final ao disparate.


 


ARCO DA VELHA – Esta semana não me ocorre nada tão merecedor de estar neste parágrafo como a forma como foram pintados e descaracterizados os bancos do passeio público da Avenida da Liberdade. Uma piroseira mascarada de cosmopolitismo de trazer por casa.


 


SEMANADA – O Ministério da Justiça paga 40 milhões de euros em rendas por ano, todos os outros ministérios juntos pagam 57 milhões; As empresas públicas de imobiliário, que serviram de pano de fundo a estas engenharias financeiras de vender património para depois se alugar, perderam 15 milhões em 2010; estão a fechar cem lojas por dia em Portugal; uma casa de apostas internacional online abriu a possibilidade de se apostar se o troço português do TGV se irá fazer ou não; nos centros de saude da região de Lisboa há mais medicos do que enfermeiros; a receita fiscal começou a cair fruto da retracção do consumo; os empréstimos do Estado a empresas públicas já subiram 718 por cento este ano; o Sporting leva o mesmo numero de empates que de jogos.


 


VER – Até 4 de Setembro no Palácio Quintela, ao Chiado, de terça a domingo e entre as 10 e as 20h00, a Experimentadesign mostra “Cartografias do Processo”, uma exposição do ciclo “Welcome”, que se apresenta como um olhar da sobre a dinâmica cultural nacional e internacional, em diferentes áreas. Neste caso recebe do Porto uma exposição de design gráfico que reúne cartazes de 55 designers internacionais da AGI - Alliance Graphique International, traçando um mapa do seu processo criativo. A entrada é gratuita.


 


LER – Ao ler a edição de Verão, em formato de jornal da Monocle, e dedicada ao Mediterrâneo, veio-me à cabeça uma ideia que aqui deixo inteiramente de borla aos editores de imprensa: porque não fazer, como suplemento de um jornal, uma espécie de Monocle nacional, que nos fale das nossas regiões, das coisas exemplares em material de arquitectura, de criatividade, mas também em termos de património, de artesanato, de agricultura ou de preservação do ambiente. Em vez de visitar países do mundo, como a Monocle, visitar-se-iam cidades e regiões de Portugal, a falar dos nossos, com foco nas coisas locais e nas pessoas. Quer-me parecer que temos muita matéria prima para quem se aventure num novo almanaque português – porque, bem no fundo, a Monocle é inspirada nos velhos e deliciosos almanaques. Para rematar com esta edição da Monocle: a grande discussão é sobre se as melhores praias devem ser de areia ou de pedras. Eu, por mim, prefiro ver o mar e sem pôr os pés em areia.


 


OUVIR – Até ao momento um dos discos portugueses do ano chama-se “Chromatic” e é dos You Can’t Win Charlie Bown – uma banda que tinha gravado um EP para a série de discos da Optimus e que agora aparece com o seu primeiro album. Há aqui um misto de pop e de folk, com algumas raízes portuguesas mas com um som muito internacional. A produção, exemplar, é de Mário Feliciano e a composição das belas canções é de Afonso Cabral e Salvador Menezes, dois membros da banda. Destaque para “Over the Sun, Under the Water”, “A While can be a long time”, com a participação vocal de Márcia ou ainda “In the end we start again”. Um dos méritos do disco reside no trabalho vocal e na forma como se torna um ponto agregador de toda a música. Diferente e bem conseguido. CD Pataca Discos (www.pataca.pt).


 


PROVAR – Encontrar um restaurante de praia com bom serviço, boa cozinha e alguma critividade no Algarve não é uma coisa fácil. Mas se forem ao “Chá Com Água Salgada”, na Mantarrota, irão ter uma boa surpresa. Destaque para  as vieiras salteadas com endívias braseadas, para o arroz de lingueirão e para o polvo em tempura com o seu risotto. Bos escolha de vinhos, preços razoáveis, sala confortável. Reservas pelo telefone 281  952 856.


 


BACK TO BASICS – Nada provoca mais danos num Estado do que homens astutos a quererem passar por sábios – Francis Bacon


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 26 de Agosto


 

agosto 23, 2011

Sobre bonecos animados, serviço público e sugestões diversas















PRIORIDADES – Vitor Gaspar, o nosso estimado Ministro das Finanças, é um exemplo perfeito do burocrata europeu. Simpático (em parte graças à sua expressão de boneco animado), mas burocrata. Politicamente, o facto de o Primeiro Ministro ter escolhido um burocrata europeu para Ministro das Finanças é revelador do seu enquadramento – condicionou a política financeira às exigências da Europa e não deu abertura a nenhuma fuga ao dogma. Ora, nos tempos que correm, isto é perigoso.


Na segunda-feira o Público tinha uma entrevista com Gustavo Cudell, um empresário há anos a actuar no mercado europeu a partir de Portugal, onde ele referia, quer-me a mim parecer com razão, que a negociação portuguesa para a saída do Euro devia ser uma prioridade política. O raciocínio era simples: mais vale preparamos uma saída com tempo e em condições, do que andarmos depois à pressa a pedir migalhas.


O pior que pode acontecer a Portugal é ter no Governo quem seja tão teimoso e obstinado que não consida perceber a realidade. Já tivemos disso nos ultimos anos e eu dispenso a continuação do género politicamente autista. O que eu vejo é um Governo que defende o Euro como uma bóia de salvação, quando cada vez mais gente aparece a dizer que em vez de bóia o Euro é um pedregulho que se afunda e nos arrasta atrás dele.


Às vezes sou levado a pensar que o poder, se calhar, inibe o raciocínio. Portugal tem uma história longa nesta matéria – desde o tempo em que os velhos do Restelo remavam para o passado e tapavam os olhos ao futuro.


Dizer que o futuro do Euro é duvidoso é uma frase optimista já hoje. Se persistirmos em manter um enquadramento europeu a todo o custo e não formos capazes de analisar friamente a realidade e de agir em função disto, todos os scrifícios actuais serao perdidos. A responsabilidade de não comprometer o futuro é do Governo. Alguém devia olhar para a frente e não para trás – como Nouriel Roubini bem alertou esta semana no Wall Street Journal.


 


PONTAL – Sinto alguma dificuldade em perceber a persistência no ritual da Festa do Pontal. Sinceramente acho que existe aqui um paradoxo entre um Primeiro Ministro que deixa uma nota no Facebook, a dizer que vai de ferias e que os tempos são de sacrifício, e um dirigente partidário que usa a forma mais estafada de comunicação – um jantar-festa-comício para umas centenas de pessoas numa noite quente de Agosto. Ainda por cima Passos Coelho falou mais como Primeiro Ministro do que como dirigente partidário numa festa que era do PSD.


O Governo começa a ter um sério problema de comunicação – que esta semana foi apontado por vários observadores. Vive ainda num estado de graça invulgarmente longo, mas se persistir em fazer uma comunicação amadora e muito improvisada, esta situação irá alterar-se rapidamente. E, não havia necessidade.


 


GRUPO – Antes mesmo de a Lusa ter divulgado a constituição do Grupo de Trabalho sobre o serviço público na area da comunicação, o respectivo presidente, João Duque, anunciou a um jornal diário que não tem de haver um canal do Estado e que o serviço público pode ser contratado aos privados. O senhor, que confessa defender uma visão essencialmente económica do problema, defende igualmente que “há outros consumidores que têm anseios sobre o tipo de produtos que querem ver oferecidos”. Faço votos que o Grupo de Trabalho ora criado tenha meios para fazer estudos de opinião elucidativos sobre os desejos dos consumidores. E confesso que tenho alguma curiosidade em ver se o resultado final irá no sentido da vontade do Presidente, João Duque – até para saber quais os países onde o modelo que ele defende funciona. Continuo a defender que, em matéria de comunicação, o Serviço Público deve ter preocupações ligadas à lingua, a criadores e actividades culturais e de entretenimento portuguesas, mas também deve servir de alavanca de divulgação do empreendedorismo e da invenção. Há uma vertente cultural e uma vertente de comunicação económica no serviço público – seja na rádio, na televisão ou na agência noticiosa. Espero sinceramente, embora tenha as minhas dúvidas, que a tese de João Duque não vingue. E espero que alguém lhe explique a realidade do mercado na área da comunicação e da publicidade, que é uma coisa que, pelo que tem afirmado nos ultimos dias, ele me parece desconhecer por completo. Finalmente, não deixa de ser estranho que a Cultura, que tutela o audiovisual, esteja ausente do Grupo de Trabalho.


 


ARCO DA VELHA – Gabriela Canavilhas vai desfilar como mordoma minhota na Romaria da Senhora d’Agonia, em Viana do Castelo.


 


SEMANADA – Horas antes do início da Festa do Pontal o Presidente da Câmara de Faro, Macário Correia, defendeu que a austeridade deve ser para todos e não atingir apenas alguns; 24 horas depois Warren Buffet, criticando Obama, disse o mesmo, nos Estados Unidos; George Soros anunciou o fim do Euro a curto prazo; Nouriel Roubini alertou para o perigo de o sistema se destruir a si próprio; França e Alemanha continuam a evitar medidas claras que facilitem uma solução para a crise do euro; o General Loureiro dos Santos disse que Angela Merkel está a conseguir aquilo que Hitler não conseguiu.


 


VER – Nos últimos dias foi divulgado um video de Raul Solnado, restaurado pela Cinemateca. Feito na primeira metade dos anos 60, o divertido filme, de 15 minutos, destinado a divulgar como se deve conseguir uma imperial bem tirada, é o exemplo perfeito do trabalho que organismos como o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (Anim) e a Cinemateca fazem para preservar a memória colectiva de todos e o trabalho dos artistas portugueses. Parece que existe, por encomenda do Ministério das Finanças, um inquérito em curso para avaliar da satisfação dos utilizadores da Cinemateca sobre os serviçso que a instituição oferece. Espero que o inquérito seja pelas boas razões – para melhorar o que se faz e não para encontrar pretextos para cortar. Se forem ao YouTube e procurarem “Raul Solnado cerveja”, o video em causa aparece logo. Vale a pena ser visto – até porque mostra o grande Solnado na sua melhor forma.


 


LER – A edição especial de Verão da revista norte-americana “The Atlantic” (já disponível em Portugal), é inteiramente dedicada à publicação de pequenos contos. Sob o título “Fiction 2011”, a revista publica pequenas histórias de uma dezena de autores, todas acompanhadas por excelentes ilustrações. A escrita é boa, as histórias são deliciosas e ainda há um brinde: um pequeno ensaio de Anthony Johnston que explica porque é que a narrativa ficcional e a integridade emocional conseguem sempre transcender a verdade dos factos e a realidade. Custa 9,10 euros, contra 6,99 dolares na origem. O dobro, praticamente.


 


OUVIR – Jerome Kern foi um dos grandes compositores norte-americanos e Oscar Peterson um dos grandes pianistas – e organistas - do jazz. Em 1959 o seu trio – que incluía à época Ray Brown no baixo e Ed Thigpen na bateria, meteram mãos a gravar uma colectânea dos grandes temas de Kern, como “A Fine Romance”, “The Song Is You”, “Smoke Gets In Your Eyes” ou “Ol’ Man River”, entre outras. Peterson dedicava-se nessa época a revisitar os grandes compositores populares norte-americanos e este tributo a Jerone Kern é um dos registos desse tempo e um dos melhores trabalhos de Peterson e do seu trio. CD Verve, Universal, na FNAC.


 


PROVAR - Choco frito é uma escolha politicamente incorrecta mas deliciosamente saborosa. A península de Setúbal é a região por excelência deste petisco e das muitas casas que preparam o cefalópode com distinção, merece referência o Retiro do Gama, entre Palmela e Azeitão, em Cabanas, na Quinta do Anjo. Situado à beira da estrada, na Rua Visconde do Tojal 333, o restaurante oferece peixe sempre fresco numa grelha bem trabalhada e, em apuro de cozinha, uma massada do mar e um arroz de lingueirão que têm fama. Nas sobremeses, se não tiver esgotada, experimente a mousse de Moscatel, uma novidade. Reservas pelo telefone 965710693.


 


BACK TO BASICS - Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? – Eça de Queiroz


 


(publicado no Jornal de Negócios de 19 de Agosto)


 
















 

agosto 05, 2011

Mistérios de verão, sinecuras do exílio, sugestões avulsas e observações variadas

THRILLER – Nem Dan Brown se lembraria de uma história que consegue juntar uma guerra pessoal entre os donos de dois grupos de media, os serviços secretos e a maçonaria ,  numa teia de interesses, favores e ligações pouco claras com áreas do programa do Governo, como a privatização da RTP, em pano de fundo. Acresce que pelo meio existe uma campanha lançada no twitter, com autores desconhecidos (mas que deixaram rasto), e que atacava uma das partes – Balsemão e a Impresa -  e defendia a outra – a Ongoing e Silva Carvalho, como relatou esta semana Luis Paixão Martins na edição online da Briefing. Nunca a silly season tinha tido uma produção deste calibre.


 


DINHEIRINHO  – Vale a pena lembrar qual foi a actuação do regulador, o Banco de Portugal, quando se percebeu, há uns anos atrás, que o BPN estava com problemas: assobiou para o ar e deixou o poder político fazer o que lhe convinha, como antes tinha fechado os olhos a todas as irregularidades que levaram o Banco à situação em que ficou. Os responsáveis directos continuam por julgar, mas as suas acções já custaram milhões aos contribuintes portugueses. E quem andou a fechar os olhos ao que faziam, como sempre acontece em Portugal, foi premiado com sinecuras no estrangeiro. O custo final do BPN, pago por todos os portugueses, serviria para o Estado pagar o que deve – uma dívida que está a asfixiar a economia e que é um dos mais sérios problemas, sobre o qual, infelizmente, não se vê serem tomadas medidas. Neste assunto há infelizmente dois pesos e duas medidas: ao BPN o Estado pagou logo e aparentemente vai pagar mais agora; mas os atrasos das transferências do Estado para empresas, organismos e instituições continuam, e estão a ter repercussões terríveis.


 


SEMANADA- As falências de empresas portuguesas cresceram 71% no 2º trimestre, ultrapassando a barreira das 2000 nesse período; O BPN foi vendido por um valor que significa aproximadamente 250.000 euros por cada balcão; o Ministro da Economia foi ao Parlamento apontar objectivos mas esqueceu-se de dizer como tencionava atingi-los; não há crise no futebol: Porto, Benfica  e Sporting já gastaram mais de 80 milhões de euros em novos jogadores; os 500 primeiros exemplares do Zé Povinho a fazer um manguito à Moody’s, vendidos a 33 euros cada, esgotaram em uma semana, caso para dizer que as Faianças Bordallo Pinheiro merecem uma subida de notação.


 


CRISE – A novidade da semana é que Obama já não empolga. Bem se esforçou por mobilizar e agitar os seus concidadãos por causa da questão do tecto da dívida norte-americana, mas já não conseguiu e teve que se contentar com a velha política para resolver o problema. Nisto os Estados Unidos e a Europa estão no mesmo barco: liderança fraca, ausência de rumo, falta de criatividade, conformismo resignado.


 


PERGUNTINHA – Agora que já se percebeu que o Tratado de Lisboa foi rasgado aos bocadinhos recordem-me lá em quanto ficou a brincadeira e recordem-me a quem é que o Governo de Sócrates adjudicou as principais fatias da despesa.


 


ARCO DA VELHA – A próxima série do programa «Peso Pesado» já tem 15.000 inscritos.


 


AGENDA – O Festival dos Oceanos conseguiu convencer uma série de instituições lisboetas a, até 11 de Agosto, fazerem noitada. E assim uma trintena de locais como o MUDE, o Museu Colecção Berardo, o Museu do Oriente, O Museu das Marionetas, o Museu nacional de Arte Antiga, o Museu dos Coches e os Jerónimos, o Museu do Azulejo, o Museu do Fado e até o Museu Maçónico, estarão abertos aos visitantes até às 24h00. Todas as informações em www.festivaldosoceanos.com .


 


VER – Até 25 de Setembro o Museu Nacional de Arte Antiga apresenta a exposição «Confrontos: Bosch e o seu Círculo», que coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão, da colecção do MNAA, em confronto com o Tríptico do Juízo Final e o Tríptico das Provações de Job, ambos da colecção do museu de Bruges. A exposição debruça-se sobre as variantes e os traços comuns de processo criativo destes trípticos, com recurso também a exames laboratoriais. É a primeira vez que se juntam, em Portugal, três grandes pinturas de Bosch e do seu círculo, pretexto para uma viagem pelo universo fantástico destas obras do século XVI.


 


LER – Muito boa a edição da revista «Egoísta» de Junho. O tema é o traço que, como bem diz Mário Assis Ferreira, o seu Director, «pode ser um embrião da arte, a hesitação de um gesto um desvendar da alma». Gostei muito dos traços de João Loureiro, de Luis Alves, de Marco Mendes e Rute Reimão e muitíssimo dos de Ricardo Cabral. A revista tem também traços de nomes como Júlio Pomar, Malangatana, Joana Vasconcelos e Henrique Cayatte e surpresas traçadas por José Eduardo Agualusa – além de uma história desenhada por Rodrigo Prazeres Saias. É uma revista quase sem palavras e que usa bem as poucas que imprimiu, como esta frase de Millôr Fernandes, que está logo na primeira página: «Viver é desenhar sem borracha».


 


OUVIR – Henry Mancini foi um dos grandes compositores de bandas sonoras para filmes e séries de televisão, alguém que verdadeiramente lhes deu outro significado. Com Johnny Mercer fez canções como «Days Of Wine And Roses», «Charade» ou «Moon River» ou temas instrumentais como «The Pink Panther», «Peter Gunn», «Dreamsville» ou «Soldier In The Rain». Em 1964 Quincy Jones, então ainda um jovem músico, com 31 anos, juntou a sua banda e pegou nestes e noutros temas, fez novos arranjos e transformou por completo algumas das composições de Mancini. Fê-lo de uma forma brilhante, com o seu enorme  talento criativo concentrado em reinventar o que já era conhecido. O resultado é empolgante, deste a forma como introduziu um inesperado swing em «Moon River», até à maneira como aumenta o ritmo de «Charade» ou à forma divertida e contagiante como passa por «Pink Panther». A Verve/Universal pegou no disco original «Quincy Jones explores the music of Henry Mancini» e voltou a colocá-lo no mercado.


 


PROVAR – A Cantina LX é um bom porto onde rumar nestas noites estivais em Lisboa. Despretencioso e com comida honesta, com um serviço simpático, instalações amplas e confortáveis, é o local ideal para um jantar de amigos – de meia dúzia até duas dezenas sempre se arranja espaço, sem apertões. Na mesa hão-de estar boas azeitonas temperadas, pão fresco mas que pelo sabor parece dos tempos antigos, um prato de vários enchidos assados e uns queijinhos saborosos. A lista tem muitas possibilidades, as propostas do dia são sempre de ter em conta, mas se apanhar asa de raia não hesite. Nos pratos mais ou menos fixos as bochechas de porco preto e as almofadinhas de bacalhau com arroz de amêijoas são escolhas seguras. O vinho da casa apresenta-se bem, mas há uma lista de opções a preços módicos. Dificilmente a conta passará dos 20 euros. A Cantina LX fica em Alcântara, logo à entrada da LX Factory, do lado esquerdo e está aberta de terça a sábado. Aceita reservas no telefone 213 628 238.


 


BACK TO BASICS – A única maneira segura de prever o futuro é inventá-lo (Alan Kay)


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Agosto)


 


 


 

julho 29, 2011

Popey tinha um amigo chamado Wimpy - deixou marca em Portugal

FIADO - Todos os dias aparecem nos jornais relatos de dívidas acumuladas em todo o género de organismos públicos – da saúde à segurança, passando pelos próprios serviços centrais dos ministérios. Ao longo dos últimos anos é como se alguém se tivesse esquecido de fazer contas ou, então, tivesse decidido passar a viver fiado.  Esta estranha forma de vida depressa passou do Estado para a sociedade e o resultado está à vista. Wimpy, uma personagem das histórias de Popey, parece ter sido o inspirador da maneira de viver do Estado nos últimos anos. Uma das frases preferidas de Wimpy era : terei todo o prazer em te pagar para a semana o hambúrguer que quero comer hoje. Tirar o síndroma Wimpy da vida portuguesa, e sobretudo do Estado, vai demorar tempo mas é fundamental. Popey comia espinafres para ficar mais forte – reduzir custos no Estado todos os dias é a dose de espinafres que se recomenda ao Governo.


 


MEMÓRIA - Acho muita graça a todos os que agora aparecem cheios de pruridos em relação à Caixa Geral de Depósitos. Não me recordo de ver esses notáveis críticos de hoje muito preocupados quando a Caixa tinha Armando Vara como figura de destaque, quando a CGD financiou especuladores bolsistas, quando financiou o ataque ao BCP – para onde Santos Ferreira, então presidente da Caixa, havia de transitar, ou quando se meteu como parceira financeira de negócios mais que privados. No tempo da especulação andaram muito caladinhos, agora que se prepara o arrumar da casa apareceram logo aos gritinhos.


 


FIDELIDADES - Uma coisa extraordinária nestas recentes eleições do PS é a forma como nenhum dos candidatos ousou sequer fazer o balanço da última década do partido a cuja liderança ambicionavam ascender. De Seguro e Assis não ouvi uma palavra sobre Sócrates. Apesar das loas tecidas ao anterior Primeiro Ministro e ao seu estilo de governação no último congresso do PS, não ouvi nenhum dos candidatos a líder proclamar-se como sucessor de José Sócrates. Não ouvi nenhum dos candidatos elogiar nada do que o anterior chefe do governo tenha feito. Não ouvi nenhum dizer que quereria retomar o seu projecto para Portugal – aliás não ouvi nenhum falar de qualquer projecto que não fosse fazer oposição. Mas já ouvi, esta semana, depois de ser eleito, António José Seguro a atacar as medidas do Governo e a distanciar-se dos planos de austeridade. Pareceu-me um discurso muito parecido com os momentos de desvario, afastados da realidade , a que Sócrates nos habituou. E é sempre curioso verificar como Seguro opta por nada dizer do que Sócrates fez e estar já todo entusiasmado a atacar o que se começa a fazer. Seguro vai mostrando como prefere a politiquice à política. Nada que me espante.


 


FACILIDADES - Um dos mistérios do processo da recomposição do mapa das freguesias de Lisboa é descobrir como é que António Costa se conseguiu entender com a distrital do PSD de Lisboa, mas não conseguiu um entendimento com os seus camaradas de partido, de Loures, para a criação da necessária freguesia da Expo. Será que não a acha necessária ou esqueceu-se que aqueles que lá vivem, na sua maioria, são lisboetas que votam aqui? Tenho para mim que há uma explicação – mais vale uma negociata partidária debaixo da mesa do que uma discussão séria sobre matérias importantes. 


 


ARCO DA VELHA – Alfredo Barroso, muito enfastiado e aborrecido, considerando-se ofendido por não ser tratado por «Dr.» num debate televisivo.


 


VER – Muito interessante a exposição «New World Parkville» de Margarida Correia, que estará até 18 de Setembro no Museu da Electricidade. Através de fotografias e objectos Margarida Correia revisita a comunidade portuguesa em Parkville, Hartford,  no Connecticut. O projecto começou em 2009 como um projecto de arte pública encomendado pela Real Art Ways, uma organização alternativa de artes de Hartford. Margarida Correia mergulhou na comunidade emigrante portuguesa, fotografou-a, recolheu objectos, copiou documentos e no fim deteve-se em algumas figuras marcantes, como o locutor de uma rádio local, Manuel Gaspar, ou o filho da fadista Maria Alves. A fotografia é neste projecto apenas um parte dos meios utilizados para retratar a memória desta comunidade, numa exposição que, no fundo, mostra um dos lados da saudade.


 


LER – Quem financiou o ataque às Torres Gémeas de Nova York? A revista «Vanity Fair» de Agosto dedica 13 páginas ao assunto e explora detalhadamente as várias possibilidades, na pré-publicação do livro «The Eleventh Day» de Anthony Summers e Robbyn Swan. Os autores falam dos estados árabes que ao longo dos anos foram dando dinheiro a Bin Laden, e revelam que um relatório de 28 páginas da comissão de inquérito do senado continua a ter partes censuradas e secretas, dez anos depois do atentado. Já para não falar dos expedientes da casa Branca, nessa altura habitada por George Bush, para afastar algumas provas levantadas pelos investigadores.


 


OUVIR – Neste caso a melhor palavra seria OUVER – porque o destaque desta semana vai para um DVD que agrupa o melhor das três históricas exibições de Elvis Presley, em 1956 e 57, no célebre programa de televisão norte-americano «The Ed Sullivan Show». Foi aí que Elvis passou a ser um fenómeno – no primeiro dos programas de Ed Sullivan em que apareceu Elvis teve uma audiência de 80% do total dos espectadores, aproximadamente um em cada três americanos seguiu a apresentação. Transmitido no Domingo à noite o programa era destinado às famílias –e a sensualidade de Elvis chocou puritanos e ganhou-lhe o reconhecimento de toda uma geração. Um mês e pouco depois, a 28 de Outubro, repetiu a dose e mostrou como as suas ancas se moviam, ao som de «Hound Dog». Rebentou a escala das audiências e nos Estados mais conservadores queimaram-se retratos de Elvis. A sua derradeira presença no «The Ed Sullivan Show» foi a 6 de Janeiro de 1957 e o realizador teve o cuidado de filmar Elvis Presley apenas da cintura para cima – só não contou com os trejeitos que ele fez com a boca. «Elvis – The Ed Sullivan Show Classic Performances» agrupa ainda imagens inéditas de uma das primeiras actuações do cantor em 1955 e alguns filmes que o mostram, anos depois, com Priscilla e vários amigos.


ound Dog ou Heartbreak HotelH


 


NAVEGAR – Já imaginou o que é estar na praia, num belo banho de mar, e passar ao pé de si um carrinho de gelados anfíbio? Naqueles dias de muito calor nada como um magnum sem ter que ir ao areal, não é? Se folhearem a mais deliciosa revista portuguesa online – www.magneticamagazine.com – poderão ler o especial sobre gelados e esta geladaria anfíbia.


 


PROVAR – Numa destas noites de Agosto vale a pena ir ao Faz Gostos, o restaurante que Duval Pestana fez em Lisboa para mostrar o que é a melhor cozinha do Algarve. Baseado em peixe e mariscos fresquíssimos, o Faz Gostos, nesta época do Verão, só funciona aos jantares. Se  gostam de frituras de peixe, experimentem os filetes de peixe galo com arroz de amêijoas e peixinhos da horta, ou as lasquinhas de pescada com açorda, uma verdadeira especialidade. Nas entradas deixem-se levar por um cone de massa folhada finíssima recheado de sapateira fresca e, na sobremesa, experimentem o semi frio de alfarroba. Seguramente este é hoje em dia dos melhores sítios em Lisboa para comer bom peixe muito bem cozinhado. Serviço eficaz, sala muito confortável e bonita. Rua Nova da Trindade nº11 (frente à Cervejaria Trindade), telefone 213 472 249


 


BACK TO BASICS – Só podemos realmente ter opiniões imparciais quando se trata de coisas que não nos interessam – Oscar Wilde


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 29 de Julho)