junho 22, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 19 de junho)

BOTOX – O PS está a fazer uma operação de recuperação estética acelerada. Primeiro Sócrates reaproxima-se de Alegre, depois decide-se a ouvir vozes divergentes, por fim admite que a maioria absoluta deixou de ser um objectivo. Preparam-se os tempos do diálogo e a nomeação de João Tiago Silveira, uma das poucas vozes sensatas do Governo, é um sinal de que a pesporrência de Vitalino Canas e a arrogância de Santos Silva estão provisoriamente guardadas debaixo do tapete. Contra ele João Silveira tem o facto de estar no Ministério da Justiça, um dos sectores onde o Governo quase nada fez, ainda por cima sendo a Justiça uma das zonas mais degradadas, ineficazes e profundamente injustas da sociedade portuguesa. Mas no meio deste face-lift acelerado fica um gato escondido com o rabo de fora – ao nomear António Vitorino para coordenador do programa eleitoral, espera-se agora que haja o bom senso de a RTP o despedir de comentador, de tão envolvido que está na principal peça que vai modular a propaganda do próximo ciclo eleitoral. Os sorrisos agora beatíficos de José Sócrates são produto de uma pesada derrota eleitoral – e nestas coisas da política, como dos tratamentos estéticos, é bom não esquecer que o botox tem duração limitada e que quando o seu efeito desaparece os defeitos ainda se acentuam mais. 

 


 


TGV – Perder o foco num debate é o pior que pode haver e na questão do TGV convém separar o essencial do acessório. O essencial é garantir que Portugal não fique isolado da rede europeia, que Lisboa fique ligada a outras capitais por uma linha de alta velocidade, nomeadamente a Madrid e a Paris e, daí, a várias outras. É uma obra cara e de retorno difícil – pois é, mas é estratégica e deve avançar. É um investimento público importante para garantir que a fronteira terrestre do país não se transforme num muro. Já outra coisa são as negociatas de política local ou de empreiteiros habilidosos que querem fazer ramais de TGV com paragens de 100 em 100 quilómetros, muitas pontes, viadutos e túneis. Estas são desnecessárias, completamente inúteis e não há razão para que as ligações Lisboa-Porto ou ao novo Aeroporto não sejam feitas por outros sistemas ferroviários rápidos modernos, mais adequados às distâncias entre cada paragem.  

 


 


VER – Maria Beatriz faz parte da geração de artistas portugueses que no final da década de 60 optou por trabalhar no estrangeiro. Uns voltaram após 1974, outros foram ficando nos países que escolheram – ela escolheu a Holanda e desde então tem vivido em Amesterdão. Em Portugal tem exposto com periodicidade irregular e esta semana abriu na Galeria Ratton uma exposição de obras inéditas, «Oisive Jeunesse, à tout asservie», uma citação de Rimbaud que dá o nome a esta série cuja preparação começou em 2007 e que integra desenhos, pinturas e azulejos, todas em torno do corpo feminino. Para além da galeria, o site da artista também merece uma visita: www.mariabeatriz.nl . A Ratton fica na Rua da Academia das Ciências 2C, junto à rua do Século. 

 


 


IR – Se têm seguido a polémica sobre a destruição do Museu de Arte Popular talvez achem interessante a proposta de uma «visita guiada» ao museu encerrado, que sob o título «O Museu Essencial E Incómodo» junta sábado dia 20, Raquel Henriques da Silva, João Leal, Rui Afonso Santos, Vera Marques Alves e Alexandre Pomar, no edifício do Museu, em Belém, pelas 16h00. 

 


 


CELEBRAR – A Bica do Sapato faz dez anos por estes dias, dos quais os primeiros foram de afirmação e resistência (no início a vida foi difícil) e estes últimos de consolidação. A Bica é daqueles restaurantes que oferecem mais que a comida (boa, óptima, diga-se): a decoração do espaço, a localização junto ao rio, a qualidade da garrafeira e das sugestões de vinhos do Chefe de Sala, o ambiente – tudo torna o local num espaço especial, que resiste a modas, simultaneamente íntimo e acolhedor para os frequentadores habituais e inusitado e excitante para quem lá vai pela primeira vez. Quanto à cozinha a inspiração é a gastronomia portuguesa, com uma interpretação contemporânea - dez anos na vida de um restaurante assim, sempre mantendo a qualidade, é uma data que merece aplauso – e é do melhor que Lisboa tem a oferecer a quem visita a cidade. Telefone 218 810 320, Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Cais da Pedra, a Santa Apolónia. 

 


 


OUVIR -  «White Works», o novo disco do pianista de jazz João Paulo, é baseado em composições de Carlos Bica e é de um despojamento e contenção notáveis. A solo, no piano, ele consegue aquele exercício extraordinário que é partilhar a solidão. (CD Universal). 

 


 


RECORDAR I – Morreu em Maputo Ricardo Rangel, um dos mais importantes fotógrafos de língua portuguesa. A sua obra, nomeadamente a que foi feita entre os finais dos anos 50 e o princípio deste século, mostra um trabalho baseado no fotojornalismo e numa minuciosa interpretação da realidade, mas sempre com um olhar próprio. Trabalhou nas mais importantes revistas e jornais de Moçambique na fase anterior à independência, aliando a reportagem ao ensaio fotográfico. A pesquisa do seu nome no Google remete para uma série de sites, com destaque para os que mostram um dos seus mais importantes testemunhos, a exposição «Iluminando Vidas», que passou por Portugal. Nos últimos anos dedicou-se ao Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que fundou e dirigiu.  

 


RECORDAR II – Morreu em Lisboa João Bafo, que fez parte de um núcleo restrito de fotojornalistas portugueses que na década de 70 se empenharam numa nova forma de fazer fotografia «contra a fotografia de salão, concurseira, contra o estilo neo-realista», como recorda outro contemporâneo, Luiz Carvalho, no seu blog. Esse núcleo fez escola e influenciou a edição fotográfica na imprensa nas décadas seguintes. Tive o prazer de trabalhar com ele quando estive no «Se7e», que nessa altura o João também ajudou a mudar. O seu trabalho era verdadeiramente bom, mas nos últimos anos estava afastado da imprensa, em boa parte porque se fartou da forma como as chefias de redacção tratavam a fotografia – foi esse o tema da nossa última conversa, há uns anos. As suas imagens de Portugal na década de 70 e 80 mereciam ser de novo mostradas – aliás é miserável a maneira como matamos a memória do nosso próprio tempo. 

 


 


BACK TO BASICS – A fotografia serve para ajudar as pessoas a ver – Berenice Abbott 

 

À PROCURA DE DIRECÇÃO

(Publicado no diário Meia Hora de 16 de Junho)

 


Apesar do título, hoje não vou falar do estado em que se encontra o PS após os resultados das eleições europeias. O assunto da conversa é bem mais prosaico e tem a ver com a maneira como está organizada a sinalética indicativa de direcções nas estradas portuguesas, sobretudo na saída das cidades.


O principal problema que surge é o de a sinalização ser feita, não em torno da direcção principal, mas de destinos secundários, certamente importantes a nível local, mas absolutamente ineficientes para visitantes que desconheçam o local e estejam de passagem. Cá para mim a resolução do problema nem é complicada e devia-se organizar, em cada região, em duas ou três direcções principais repetidas em todos os cruzamentos principais e rotundas, por forma a que ninguém se perca inadvertidamente. E se mesmo um português tem dificuldade em se orientar no puzzle de direcções das inevitáveis rotundas que cercam as nossas cidades e vilas, que dizer de um estrangeiro?


O problema agrava-se se entrarmos dentro das vilas ou cidades em vez de nos ficarmos pelas circulares. Às vezes nem no centro existem indicações concretas da forma de sair.


Nunca percebi porque é que, nas principais cidades e nós rodoviárias, não existe uma sinaléctica principal que indique a direcção sul ou norte, ou, se quisermos, Lisboa e Porto ou Lisboa e Faro. O mais frequente é encontrar uma placa, por exemplo, em Leiria, que diga Lisboa e que depois durante duas ou três rotundas deixa de aparecer, substituída por umas placas de destinos locais – é preciso ter o mapa de Portugal bem metido na cabeça para descobrir quais dos destinos assinalados se encaixam na direcção de Lisboa e quais se encaixam na direcção Porto. Também é muito frequente encontrar placas de auto-estradas – tipo A 24, sem que há indicação de qual o trajecto – o destino – que proporcionam.


Aqui há uns meses estiva no belíssimo Quinta das Lágrimas, em Coimbra, e vi-me aflito para sair de lá, de regresso a Lisboa, para apanhar a trivial A1, tal o emaranhado de indicações e ausência de direcções principais que Coimbra infelizmente apresenta.


Bem sei que estamos na época em que o GPS se tornou uma acessório trivial, mas para aqueles que o não possuem, a saída de uma cidade portuguesa – Lisboa incluída – é um verdadeiro quebra cabeças. Imagino o que será um estrangeiro a amaldiçoar o dia em que decidiu ser um turista automobilista em Portugal… 

 

junho 15, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Junho)

 


ELEIÇÕES I – Mais do que nunca o segredo da vitória nos próximos actos eleitorais vai ser conquistar o centro do espectro político – é aí que residem os medos da ingovernabilidade, é aí que está a classe média espremida e asfixiada pelo Estado; mais do que nunca vão valer coisas simples como o respeito pelas pessoas, a ausência de arrogância; mais do que nunca vai ser premiada a honestidade e penalizada a chicana e o insulto ou a insinuação. Estas eleições mostram isso – e mostram também que o eleitorado pode estar disposto a obrigar os políticos a fazerem consensos e acordos, rejeitando maiorias absolutas e forçando a inevitabilidade de acordos pós eleitorais. A ingovernabilidade fora do cenário da maioria absoluta é um papão cujo resultado prático está à vista de todos.

 

ELEIÇÕES II – As empresas de sondagens, sobretudo aquelas dirigidas por quem quer ser estrela de televisão à viva força, precisam de se reciclar; melhor, precisam de ser vigiadas e auditadas por um entidade independente, um Instituto que as certifique e garanta transparência de processos. A utilização de sondagens no período de campanha e até ao dia do voto tornou-se numa arma política, o que obriga a muitos mais cuidados já que a realidade tem mostrado que existe quem se preste a fornecer material de guerrilha em vez de estudos sérios. As sondagens, quando honestas, são obviamente úteis, e a proibição da sua divulgação nas 48 horas anteriores às eleições nem sequer é benéfica hoje em dia – mas a seriedade tem que ser premiada e as falsificações grosseiras denunciadas. Nestas eleições houve muitos erros, erros a mais, erros suspeitos, alguns deles erros recorrentes que dão que pensar. Alguém devia certificar a actividade destas empresas. E seria lógico que o funcionamento do mercado, na área das empresas de comunicação, principais clientes das sondagens, punisse quem erra tanto.

 

ELEIÇÕES III – A debandada da esquerda nas eleições europeias – na generalidade dos países e nomeadamente naqueles onde está no Governo – tem especiais reflexos, sobretudo num cenário pós-Obama, que naturalmente era suposto favorecer os inimigos naturais de Bush e louvar o seu sucessor. Mas o eleitorado europeu disse que desconfia do aumento do peso do Estado, do aumento de impostos, dos planos de salvação da crise feitos à pressa e, sobretudo, começou a desconfiar dos partidos socialistas que navegam na chamada terceira via e que perderam identidade. Os partidos de esquerda que se aproximaram do centro direita – em Portugal, Espanha e Reino Unido - são os grandes derrotados do processo. Em Portugal, boa parte dos votos reivindicados por Manuel Alegre já se percebeu que saíram do PS, para outros partidos à sua esquerda.

 

ELEIÇÕES IV – O que sobressai dos resultados das Europeias em Portugal é um atenuar da bipolarização, um ressurgimento do papel de charneira dos pequenos partidos. A consequência que isto pode ter nas próximas legislativas e autárquicas é enorme. A estas horas António Costa olha com redobrada atenção para Helena Roseta, que também deve estar a fazer contas a quanto vale o seu compromisso – tanto mais que em Lisboa-cidade foi o PSD o vencedor no Domingo passado.

 

ELEIÇÕES V – A quase duplicação dos votos em branco e a abstenção elevada são sintomas do clima que existe e merecem ser estudados – estas eleições tiveram muitos novos eleitores e o aumento dos votos em branco pode ser, nesta conjuntura, um sinal de que os mais jovens eleitores não se revêem no sistema partidário. Outro tema que tem que ser encarado com vontade política é o da actualização dos cadernos eleitorais – da maneira que estão nunca ninguém saberá qual a abstenção verdadeira – o que dá jeito a muita gente…

 

ELEIÇÕES VI – O inefável blog «Causa Nossa» onde Vital Moreira fez carreira a louvaminhar Sócrates até ser escolhido para candidato, esteve estranhamente mudo atè às 15h00 de segunda feira passada. Nem Vital, nem Ana Gomes, os dois autores deste blog que mais nele postam, deram sinais da sua graça. Esclarecedor.

 

LER – Estas alturas pós-eleitorais são boas para arrumar ideias. Nestes dias mais recentes muito se tem escrito sobre comunicação. Por isso mesmo pode ser interessante ler um livro recentemente editado em Portugal pela «Relógio D’Água» e que reúne conferências e entrevistas dadas por Marshall McLuhan, um dos grandes teóricos da comunicação na segunda metade do século XX. Esta recolha de textos data de 2003, tem uma bela introdução de Tom Wolfe. O livro começa com uma conferência sobre os efeitos revolucionários dos novos meios de comunicação, datada de 1959 e termina com a derradeira conferência de McLuhan, proferida pouco antes de morrer, em 1979, um texto notável e profético intitulado «O Homem E Os Meios». Muito do que acontece hoje no Mundo, em termos de comunicação, está explicado neste livro.

 

OUVIR – Melody Gardot não tem felizmente uma daquelas vozinhas perfeitas e cheias de melodia que se tornaram uma monótona característica do jazz vocal dos últimos anos. A sua voz é dura, a maneira de cantar é saudavelmente imperfeita, o que deixa espaço à interpretação – isso mesmo se pode ver na forma como no seu novo disco, «My One And Only Thrill» canta o clássico «Over The Rainbow». Os arranjos são saudavelmente heréticos em relação ao padrão habitual do soft jazz, neste disco com influências latinas na forma de pontuar o ritmo e em que a maior parte das composições são da própria Gardot. Destaque para «Who Will Confort Me», «Les Etoiles» e para o tema que dá o nome ao CD, «My One And Only Thrill». A produção é de Larry Klein, conhecido pelas suas colaborações com Joni Mitchell, Freddie Hubbard, Herbie Hancock e Madeleine Peyroux, entre outros.

 

BACK TO BASICS – O meu voto é sempre contra alguém – W.C. Fields

 

 

junho 05, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Junho)

ELEIÇÕES – Domingo 7 de Junho arranca o ciclo eleitoral deste ano, com as Europeias. Mais à frente, depois do Verão, vêm as Autárquicas e as Legislativas. A Lei Eleitoral, na sua essência, tem mais de 30 anos e não contempla nem os meios de comunicação electrónicos nem as possibilidades de participação política on-line, é uma lei analógica e manual, num mundo digital e automático. Cada vez mais se sente que os partidos políticos são estruturas esclerosadas, afastadas dos cidadãos durante todo o período não eleitoral, que fazem listas de candidatos que depois não vão ocupar os seus lugares. Enquanto isto não mudar é muito difícil que novos eleitores se mobilizem, que a abstenção diminua – na realidade a culpa do afastamento da participação cívica não é dos cidadãos, é dos políticos e dirigentes partidários. Por exemplo, no caso da Europa, por não quererem referendar o Tratado de Lisboa (que entretanto ficou esquecido…) e por preferirem pedir votos numas eleições onde, de facto, a discussão europeia quase não existe. 

 


 


PORTUGAL - As promessas eram muitas e saíram ao contrário – desde as reformas, aos impostos, a realidade é dura: no final destes anos de Governo do PS, Portugal tem a maior dívida externa de sempre, a maior taxa de desemprego dos últimos 25 anos e um deficit inédito. O balanço da eficácia de Sócrates é terrível e parece um cutelo sobre a cabeça dos portugueses. Da mesma maneira que a recompensa aos gestores não pode premiar o falhanço, o voto nas eleições não deve beneficiar os maus resultados dos políticos no poder. 

 


 


LISBOA – Que está a acontecer à minha cidade? Nestes dias de calor as ruas já cheiram mal, o estacionamento continua a ser desordenado, as ruas continuam estranguladas, os semáforos descomandados, as obras surgem por todo o lado e alteram o dia a dia das pessoas. Sabe-se que o Tribunal de Contas considerou o contrato da EMEL com a Street Park ilegal, mas o Presidente da EMEl diz que não. Os agentes da EMEL provocam e brincam com as pessoas, são rapidíssimos e abusadores a bloquear e lentíssimos e indiferentes a desbloquear. No meio disto tudo Lisboa não tem um Provedor do Munícipe, alguém a quem os alfacinhas se possam queixar dos abusos e atropelos da Câmara ou de empresas municipais. Desde que me lembro, nunca viver em Lisboa foi tão desagradável. 

 


 


VER – A exposição «Photo España 2009» no Museu Colecção Berardo mostra trabalhos de Mabel Palacín e de Cristóbal Hara, este último verdadeiramente surpreendente na sua interpretação dos ritos quotidianos, na forma como trabalha a cor, nos enquadramentos rigorosos, na capacidade de captar momentos únicos, na maneira de utilizar a fotografia enquanto veículo para uma interpretação da realidade. A exposição fica até 26 de Julho e é uma das boas mostras de fotografia, comissariada por Sérgio Mah, repescado por Madrid, depois de Lisboa ter deitado para o lixo o seu mês da fotografia. 

 


 


OUVIR – O novo disco de Caetano Veloso «Zii e Zie» evidencia o regresso de Caetano à sua melhor forma depois de um período de alguma confusão e banalidade. Sonoridades fortes, uma banda bem eléctrica com arranjos ousados, ritmos inesperados, canções que agarram com textos bem humorados e irónicos, como nos melhores tempos do artista. Fica feita a minha reconciliação com Caetano Veloso – agora de novo em fase bem inspirada. 

 


 


LER – Já se sabe que não perco oportunidade para recomendar a revista «Monocle» - uma revista mensal que curiosamente parece ser a grande inspiradora em termos editoriais e gráficos de um jornal diário, o «i». Na «Monocle» de Junho muitos motivos de interesse, mas permito-me sublinhar dois, do burgo: um, o destaque para os divertidos cadernos de notas da portuguesíssima Editora Serrote (eu descobri-os há uns tempos na livraria Pó dos Livros, Av. Marquês de Tomar – www.serrote.com); outro para a zona de Lisboa que a «Monocle» resolveu eleger – o Príncipe Real e a D. Pedro V, com sugestões de lojas e locais, um toque cosmopolita na variedade de nacionalidades que estão nesses locais, não esquecendo o mercado semanal do Princípe Real (Tyler Brulé, director da revista, defende que as autoridades deviam proteger e dar boas condições de instalação a estes mercados de produtos naturais). Na próxima edição a «Monocle» promete elaborar uma lista de questões urbanísticas essenciais para tornar uma cidade interessante. 

 


 


NOITES – A LX Factory, em Alcântara, onde dantes eram as instalações da Gráfica Mirandela, é agora um dos locais mais animados de Lisboa. A enorme área, onde ainda estão restos de algumas das rotativas que imprimiram gerações de jornais portugueses, é um verdadeiro oásis criativo, uma aldeia urbana movimentada com pequenas e menos pequenas agências de publicidade, gabinetes de design, ateliers de arquitectura, lojas, mas também bares, restaurantes, uma galeria de arte contemporânea e a livraria Ler Devagar. Um dos bares, Lollypop, com um terraço frente ao Tejo, ameaça tornar-se num ponto incontornável da noite lisboeta deste Verão. Antes de subir ao terraço pode sempre comer qualquer coisa na Cantina (serviço simpático) onde o espaço marcadamente industrial está ainda bem à vista. Resta saber o que irá acontecer a esta ilha de criatividade quando o plano Alcântara XXI fôr para a frente. Enquanto dura, é aproveitar – esclareça-se desde já a populaça que a transformação do local neste pólo de animação é de responsabilidade privada, do grupo imobiliário Mainside, que adquiriu os 23.000 metros quadrados da antiga instalação industrial.


 


BACK TO BASICS - Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política – Conceição Pequito.

junho 03, 2009

UMA FARSA ELEITORAL

(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Junho) 


Começo por dizer que não sou um fanático da ideia da Europa, sou crítico em relação ao funcionamento da Comunidade e tenho sérias reservas sobre o comportamento do Banco Central Europeu nos primórdios da crise. Em geral acho que um grupo restrito de grandes países condicionam políticas importantes, como a agrícola, forçando modelos que liquidam pequenos países periféricos, como Portugal. Pessoalmente acho o Parlamento Europeu um exemplo de uma instituição irrelevante que verdadeiramente ninguém leva a sério. Mas, no entanto, ele existe e vai a votos para determinar quem lá está – coisa que acontece dentro de dias.


Os partidos políticos também não fazem muito para ajudar: não sei se já repararam, mas na realidade, nestas eleições, os candidatos falam de política interna (ou de politiquice rasteira no caso de Vital Moreira), e não se lembram de falar sobre a Europa, sobre a necessidade de Portugal se bater por objectivos concretos na política agrícola, ou na política das pescas, ou ainda em apoios específicos em determinadas áreas tradicionais de actividade artesanal ou industrial.


A coisa vai a tal ponto que ainda não vi nenhum candidato falar sobre esse milagreiro Tratado de Lisboa, que foi cavalo de batalha e arma de propaganda de Sócrates na primeira metade da legislatura, e que agora está dado como desaparecido – nem o seu autor o evoca não se vá dar o caso de alguém se lembrar que ele se gabou de fazer uma coisa que afinal não foi concretizada….


Mas nestas eleições há coisas que me fazem muita confusão: se o PS permanentemente diz que é o partido mais europeísta de todos os partidos, porque é que nos lugares elegíveis para o Parlamento Europeu coloca em simultâneo duas candidatas autárquicas, a cidades tão importantes como o Porto e Sintra? Uma vez que têm eleição certa candidatam-se apenas para, depois, desistirem e cumprirem a quota da presença feminina nestas listas? Ou uma vez eleitas deixam de querer ser autarcas? Em qualquer dos casos esta dupla candidatura é uma demonstração de enorme desprezo pelo eleitorado e assemelha-se a uma farsa de mau gosto.


Num livro recente uma Professora de Ciência Política, Conceição Pequito, faz uma afirmação incontornável: «Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política». O que se passa nestas eleições é a prova disto mesmo. 

 

junho 02, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 29 de Maio)

IMPOSTOS – A mais extraordinária proposta deste ciclo eleitoral veio de Vital Moreira, que defende um novo Imposto Europeu, que permita aumentar as receitas fiscais da Comunidade para fazer face ao aumento das despesas. Vai-se a ver e este replicante eleitoral do Avô Cantigas metamorfoseou-se num cobrador de impostos transformista. Mas a coisa tem uma vantagem, a da clareza: o programa eleitoral do PS é aumentar impostos, pelo menos isso ficou claro. 


 


EUROPA – Nestas Europeias faz falta, faz muita falta mesmo, um partido anti-europeísta, alguém que contrarie a doutrina da construção europeia – até o Bloco de Esquerda agora já se instalou em Bruxelas e por lá pretende permanecer. E faz falta, sobretudo, um debate sério sobre o papel da Europa na reacção à crise, uma análise do comportamento do Banco Central Europeu, um balanço sério do que tem sido a construção europeia e o funcionamento das suas instituições. Isso é que não vejo ninguém a fazer e, sinceramente, isso era o mínimo dos mínimos. 


 


POLÍTICA – Num recente debate na TVI 24, Nuno Morais Sarmento pôs o dedo na ferida, acentuando ainda mais o que tem sido a preocupação de muita gente sobre o funcionamento do sistema político português. Resumidamente, a tese defendida por Morais Sarmento é a de que a organização política regulamentada no pós 25 de Abril, desde o funcionamento partidário até aos processos eleitorais, foi legislada há mais de 30 anos e neste tempo tudo mudou radicalmente no que toca à forma de mobilização das pessoas, à sua participação na sociedade, passando pelas transformações na comunicação e o próprio funcionamento das instituições.. O tema é actualíssimo se queremos diminuir a abstenção, aumentar a participação no debate de ideias, tornar as instituições mais próximas dos cidadãos, conseguir mobilizar mais gente, e, sobretudo, se queremos que os mais novos participem no processo, discutam os problemas, tomem posição e votem. Não querer ver a necessidade de fazer reformas radicais no sistema político e no sistema partidário é pura cegueira – ou então é intencional para que cada vez existam menos votantes. 


 


POLÍCIA - De há uns tempos para cá, aproveitando um vazio legal, alguns responsáveis da PSP têm interferido na organização de concertos, fiscalizando e até detendo quem está a controlar bilhetes e acessos. Nalguns casos - como no concerto de Lenny Kravitz - a coisa tem contornos de abuso de poder. Era bom que o secretário de Estado da Administração Interna, José Magalhães, averiguasse se algum responsável das polícias, mais sensível aos lobbies das empresas de segurança, não estará a extravasar das suas competências e funções. É que as empresas de segurança reivindicam, com a prestável e talvez abusiva ajuda da PSP, esta área de negócio, mas não têm competências nem formação em áreas como controlo de multidões e encaminhamento de espectadores. Na realidade sei de casos em que, chamadas a fazer este serviço, usam vigilantes de portaria indiferenciados para estas tarefas, pessoas sem o mínimo de formação ou sensibilidade. O Governo fazia bem em prevenir estes abusos policiais, este apadrinhamento pela PSP de reivindicações privadas - qualquer dia a falta de pessoal especializado pode provocar algum acidente e depois estou para ver quem se responsabiliza - talvez a PSP...  


 


FILM COMMISSION – Como todos sabem Nova Orleães foi vítima, em 2005, de uma violenta tempestade que arrasou a cidade e colocou em causa a até o seu equilíbrio financeiro. Passados estes anos a cidade criou forma de captar investimento da produção audiovisual norte-americana, graças a um conjunto de incentivos locais, investimento em infra-estruturas (estúdios) e um bom trabalho de apoio às produções graças à Film Commision local. Em 2005 a cidade havia atraído nove projectos de produção para cinema e televisão, e em 2008 já atraíu 21, que injectaram directamente 230 milhões de dólares na economia local. Numa altura em que este assunto volta a ser falado em Portugal – mas em que a maior parte dos projectos continua quase parado, talvez valha a pena estudar estes exemplos e, sobretudo, perceber de uma vez por todas que as Film Commissions não são departamentos turísticos que mostram bonitas paisagens e gabam a luz e o sol – são unidades de negócio que se baseiam na existência de incentivos fiscais e na disponibilização de infra-estruturas. Sem isso, tudo o resto é fantasia. 


 


NÃO COMER – Como o sol finalmente voltou esta semana a dar um ar da sua graça, resolvi um dia destes ir almoçar à esplanada do largo frente ao Teatro de São Carlos. A experiência correu muito mal: o serviço é insuportavelmente desatento, mas o pior é a falta de qualidade na confecção da comida. Para os preços praticados a oferta é fraca, muito fraca mesmo. Provou-se uma massa com salmão sem graça nem história e um risotto fora de ponto, sensaborão, que parecia banhado em corante, acompanhado por três raquíticas gambas que nem semi descascadas estavam e com uma maçã passada e disforme como ornamento. O vinho branco, pedido a copo, foi servido fora da vista dos clientes e não estava à temperatura adequada. No fim, a conta veio enganada, com uma parcela a mais, naquele velho truque de ver se ninguém repara. No meio da refeição, por duas vezes, voaram chapéus de sol com o vento – pelos vistos não estão presos com segurança. De facto deve existir uma maldição nas esplanadas lisboetas que dificulta o seu funcionamento – o Teatro de São Carlos faria bem em mudar de concessionário, o local merecia melhor. 


 


OUVIR – Se gostam de jazz, do piano de Bill Evans e da voz de Tony Bennett não podem perder uma reedição histórica acabada de lançar pela Fantasy/ Universal: «The Complete Tony Bennett/ Bill Evans Recordings». Neste duplo CD estão agrupados os dois discos gravados em 1975 e 1976 com uma cuidada selecção de standards norte-americanos e ainda registos inéditos das sessões de gravação e misturas alternativas dos mesmos tempos registadas na época. Mas só o facto de serem reeditados os discos «The Tony Bennett/ Bill Evans Álbum» (1975) e «Together Again» (1976), possibilitando que muitos os agora descubram, é por si só razão mais que suficiente para elogiar esta edição.  


 


BACK TO BASICS - Prefiro ter jornais e não ter o Governo, a ter o Governo num país onde não existam jornais - Thomas Fefferson   

maio 27, 2009

ELEIÇÕES, JUSTIÇA E VISTORIAS

 


(Publicado no diário Meia Hora de 26 de Maio)

 

Começou oficialmente esta semana o período de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. É o início de um ciclo de três eleições que se arrastam durante cinco meses e que prometem marcar o dia-a-dia do país. Em cada um dos três actos eleitorais os partidos serão aferidos pelo que têm andado a fazer – o que muito provavelmente penalizará o PS. Há quatro anos atrás Sócrates estava confiante de que conseguiria diminuir o desemprego e resolver alguns problemas estruturais do país. Em vez disso o desemprego cresceu violentamente, a situação económica deteriorou-se muito e as reformas que quis fazer foram perdendo velocidade. A repetição da maioria absoluta parece um objectivo muito difícil de alcançar – até porque o eleitorado parece ter-se cansado do estilo absolutista de Governo que o núcleo duro de Sócrates imprimiu.

 

Nestas eleições para o Parlamento Europeu uma coisa que me espanta é que ninguém põe em causa a Europa, tal como Bruxelas a desenha actualmente, as vozes contra o Tratado de Lisboa são fracas. O unanimismo na questão europeia, em Portugal, sempre me pareceu interesseiro: ninguém se quer pôr contra a Europa porque os fundos comunitários dão muito jeito – mesmo que a sua execução seja miserável e mesmo que aquilo a que eles obrigam, em termos nacionais, seja um preço muito alto. Eu gostava de ter uma posição anti-europeia ou pelo menos uma forte voz crítica – essa teria o meu voto.

 

A justiça portuguesa é extraordinária e, infelizmente, caricata: o Tribunal de Faro considerou provadas as agressões a Leonor Cipriano dentro de um edifício da PJ mas nenhum dos agentes envolvidos no caso foi condenado pela prática de tortura, apesar de o Juiz considerar que ela existiu. O polémico ex-inspector Gonçalo Amaral foi condenado por falso depoimento, outro inspector, António Cardoso, foi condenado por falsificação de documento e os outros três membros da PJ presentes no interrogatório , Leonel Marques. Paulo Pereira Cristóvão (o que quer ser dirigente do Sporting…) e Paulo Marques Bom foram – pasme-se - todos absolvidos. Na altura a Judiciária dizia que as marcas no corpo de Leonor Cipriano se deviam a uma queda – agora o Tribunal confirmou tortura, mas afinal todos os envolvidos no caso estão inocentes. Há qualquer coisa nisto tudo que anda muito mal.

 

O acidente no carrossel em Matosinhos vem chamar a atenção para a necessidade de vistorias e certificações competentes. Quando há um acidente destes ninguém assume culpas de haver fiscalizações mal feitas e licenças emitidas de ânimo leve.

 

maio 25, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de maio)

 


 


 


MUDE – O Museu do Design e da Moda abriu ontem com grande propaganda. Acontece que o que foi inaugurado é uma mostra provisória da colecção, que ficará estrategicamente exposta apenas até Outubro, coincidindo portanto com o período eleitoral. O edifício da Rua Augusta que vai acolher a colecção ainda não teve obras, há-de ter depois, e o Museu propriamente dito é apenas uma intenção por enquanto – mas já se percebeu que as coisas foram feitas tão à pressa que não está seguro qual será o programa de utilização total do edifício, ex-BNU, e da sua divisão por várias entidades – na realidade até já vieram a lume umas disputas. A exposição esta semana inaugurada foi apenas um pretexto de propaganda eleitoral de António Costa que, na realidade, não teve nenhum papel na aquisição das colecções Capelo, mas de cujo usufruto mediático rapidamente se apropriou. Os festejos incluíram a edição de uma revista de 266 páginas, distribuída em banca, e com uma tiragem de 25.000 exemplares, e que em tudo surge como umas edição essencialmente propagandística e eleiçoeira. Adiante se saberá quanto custou esta acção e quantos exemplares se venderam – que é para depois se medir o efeito prático, comunicacional, efectivo, da acção. A publicação resume-se a um catálogo das colecções marcado por dois textos – um auto-propagandístico de António Costa e outro panegírico em relação ao mesmo Costa, escrito por Francisco Capelo, o próprio. Ambos deixam de lado um pormenor histórico – que foi o de esta colecção pertencer agora à cidade de Lisboa porque em 2003 houve uma decisão nesse sentido por parte do Presidente da Câmara da época, Pedro Santana Lopes, que não aparece citado em lado algum. Recordo que ele tomou essa decisão – polémica na época -  perante a intenção manifestada por Capelo de querer levar a colecção para fora do país. Reescrever a história, apagando nomes e factos, é uma atitude pouco digna e nada séria. 




PARLAMENTO – Para memória futura: no espaço de apenas uma semana o PS quis impedir que o Parlamento ouvisse declarações do polémico Presidente do Eurojust, Lopes da Mota, e de Francisco Marcelino, o ilusionista que dirige o Instituto de Emprego e Formação Profissional e que tem artes de fazer diminuir o número de empregados graças a oportunos lapsos informáticos e metodológicos.
 

 


 


SINTOMÁTICO – Num panorama destes, Manuel Alegre decidiu reformar-se do Parlamento e desistiu de ir a votos, não integrando as próximas listas do PS. Todos aqueles que diziam que ele vale um milhão de votos ficarão agora na dúvida do peso eleitoral que ele possa de facto ter – fora da tribuna parlamentar onde durante décadas se baseou para a sua acção política, Manuel Alegre fica reduzido a bem pouco. A dúvida está em saber se saiu das listas do PS para intensificar tomadas de posição críticas, ou se perde palco e protagonismo.  

 


 


POPULAR – O fim do Museu de Arte Popular, decidido na semana passada em Conselho de Ministros, mostra como o Estado subalterniza a produção artística e artesanal de origem popular, subalternizando o seu estatuto cultural. Além da colecção e do edifício, perde-se a oportunidade de ter junto ao rio um pólo de atracção turística, que será substituído por um «Museu da Língua» que ninguém sabe bem o que será, mas que é copiado de uma instituição que alguns governantes de Sócrates viram no Brasil e acharam tecnologicamente muito interessante. Para assegurar que a delapidação do património avance chamou-se, como vem sendo hábito quando se trata de estragar a cidade, a Sociedade da Frente Ribeirinha do Tejo, igualmente incumbida por este Governo dos desmandos do Museu dos Coches e da Praça do Comércio. Disto – que afecta, e bastante, Lisboa – nada diz António Costa.  

 


 


FOTOGRAFIA – Semana rica em exposições de boa fotografia: Inês Gonçalves e Kiluange Liberdade mostram S. Tomé e Príncipe na Galeria Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes, às Amoreiras) e uma visão diferente de Luanda, esta na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-3º); na P4Photography (Rua dos Navegantes 16), o moçambicano José Cabral merece ser descoberto com a inesperada exposição «Urban Angels»; e por fim, num outro registo, Pedro Tropa, na Quadrado Azul (Largo Stephens 4) mostra os seus desenhos e fotografias sob a designação «Cahier de Cent Dessins» numa instalação intimista. 

 


 


LER – Tanta fotografia – e tanta polémica em torno da fotografia e dos critérios do prémio BES – tornam muito oportuno ler a reedição de «A Câmara Clara», de Roland Barthes, agora feita pelas edições 70. É obviamente um texto datado mas as reflexões de Barthes sobre a imagem fotográfica continuam oportunas, certeiras e sagazes – muito mais quando hoje assistimos a alguma estética baseada em verdadeiras mistificações, que ele bem localizou. 

 


 


VER – A instalação de Fernanda Fragateiro «Construir É Destruir É Construir», no Museu da Electricidade, em Lisboa é baseada em três momentos diversos, todos evocando formas de sentir paisagens, sintetizadas na frase-manifesto pintado em mural no exterior - «A Paisagem Não Tem Dono». 

 


 


PETISCAR – A Loja dos Açores abriu recentemente em Lisboa, na Avenida Elias Garcia  57, e, além de alguns produtos de artesanato oferece a possibilidade de se fazer uma petisqueira só com produtos do arquipélago – desde queijos a enchidos (como as reputadas morcelas) ou fumados, passando por doces (como o doce de Capuchos), até à carne dos afamados bovinos locais, os licores florais e até biscoitos.  

 


 


 


 


OUVIR – O novo disco da cabo-verdeana Lura, «Eclipse», mistura uma produção mais ao gosto internacional com repertório tradicional e contemporâneo de Cabo Verde, composições de B.Leza , Toy Vieira ou Orlando Pantera. Menos tropical que discos anteriores, inesperadamente surpreendente como em «Tabanka» ou «Canta um Tango», este «Eclipse» surge como um curioso ponto de redefinição na direcção da carreira de Lura. (CD Lusafrica) 

 


 


BACK TO BASICS -  As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam, Almada Negreiros   

maio 19, 2009

A ARTE POPULAR

(Publicado no diário «Meia Hora» de 19 de Maio

 


O Museu de Arte Popular, em Belém, está encerrado há cerca de três anos e o seu espólio foi transportado em caixotes para o Museu de Etnologia, onde permanece fechado em caixotes e inacessível do público. O edifício original, o único que restou da Exposição do Mundo Português, está agora ameaçado por um projecto de adaptação que o ameaça tornar irreconhecível. Inaugurado em Julho de 1948, foi projectado por Jorge Segurado e no seu interior e nas suas paredes tinha frescos e obras de nomes como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira. Durante anos reuniu uma colecção única de artesanato e arte popular que inspirou gerações de artistas e que atraía milhares de pessoas.


Apesar de tudo isto, na semana passada o Conselho de Ministros aprovou naquele local a instalação do Museu da Língua e o processo de concretização desta transformação foi entregue à Sociedade Frente do Tejo SA, uma entidade que parece estar destinada a ficar para a História como coveira de Lisboa – veja-se o caso dos contentores, da renovação da Praça do Comércio, do estapafúrdio novo Museu dos Coches e agora da destruição do Museu de Arte Popular.


A ideia do Museu da Língua, que é uma espécie de bandeira da muito coxa política cultural deste Governo, não é uma criação original – na realidade trata-se de uma cópia de um museu, muito tecnológico, com o mesmo nome que uns membros do actual governo português viram há tempos em S.Paulo e acharam muito engraçado. O facto resume uma maneira de pensar política e cultura: para fazer obra nova copia-se alguma coisa que se viu lá fora e destrói-se algo de original e nacional e que era único. Na dinamização do Museu de Arte Popular não se quis investir, mas na sua destruição e na construção do novo Museu da Língua o Estado vai colocar 2,5 milhões de euros. Isto diz tudo.


A atitude do Governo espelha o entendimento dominante dos políticos sobre a Cultura: o que é popular na origem e consegue ter público não tem estatuto. Esta forma de estar contamina tudo e prejudica o desenvolvimento de formas de expressão contemporâneas e populares. Em Portugal, ao contrário de muitos outros locais com uma criação artística florescente, a cultura popular é considerada menor. Infelizmente, a relação do Estado com a cultura popular está exemplarmente demonstrada nesta liquidação do Museu de Arte Popular. Melhor seria que quem nos governa admitisse o erro e voltasse atrás neste disparate. Para mais informações e formas de protesto vejam o blog www.museuartepopular.blogspot.com . 

 

maio 18, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 15 de Maio)

 


PROPAGANDA - Esta semana soube-se que uma empresa que se apresentava como sendo da área das energias alternativas, e que por isso era apoiada pelo Governo, afinal não cumpria os requisitos do sector. O problema não está no engano, está na pressa em arranjar pretextos de propaganda, sem cuidar exactamente do que são. O que o caso prova é que o Governo nem na propaganda estuda bem os dossiers e que, afinal, liga pouca importância à qualidade dos fornecedores de energias alternativas que escolhe como exemplos. Nisto tudo há uma novidade: começa a haver algum desgoverno na propaganda do Governo.

 

INAUGURAÇÕES - António Costa é verdadeiramente bom a inaugurar iniciativas ou obras que foram imaginadas pelos seus antecessores. Mas em dois anos de mandato ainda não apareceu com uma ideia verdadeiramente nova que esteja em andamento e que os seus sucessores possam inaugurar. Para a semana, com pompa e circunstância, António Costa inaugurará o Museu do Design e da Moda, mostrando finalmente uma colecção garantida para a cidade no tempo de Santana Lopes. Ainda bem que ela agora vê a luz do dia, ainda mal que Costa se aproveite do trabalho dos outros para fazer uma campanha na área cultural, em que a sua governação tem sido particularmente desastrosa.



DESNECESSÁRIO - Ao fim destes dois anos de mandato o tal Zé que o Bloco de Esquerda dizia que fazia falta revelou-se, politicamente, uma barriga de aluguer. A sempre errática actuação de José Sá Fernandes oscila entre ceder praças da cidade para serem montras publicitárias e proibir os partidos de aí colocarem cartazes políticos. Na realidade ele tornou-se no exemplo acabado do género de troca tintas que não fazem falta nenhuma na política.

 

PENSAMENTO OCIOSO  - Depois de a Farinha Maizena ter este mês recebido uma inesperada boleia publicitária do Ministro da Economia, Manuel Pinho, a grande dúvida é saber quais são os políticos que obtiveram os cargos que têm na Farinha Amparo. Decididamente, em tempo de crise, as farinhas estão na mó de cima. 

  

OBSERVAÇÃO ACIDENTAL- Esta semana dei comigo a pensar que o número de manchetes de jornais e revistas, com base em declarações de responsáveis judiciais, é inversamente proporcional à eficácia da justiça.  

 

LIVRO - «Luz Indecisa», um livro de poemas de José Mário Silva, é das boas novidades editoriais do ano. Com uma sensibilidade invulgar e uma utilização da escrita que tem em conta o ritmo das palavras, José Mário Silva consegue, neste seu segundo livro de poesia, tornar encantador o quotidiano com relatos de instantes e observações fugazes do que nos rodeia. Com um raro sentido de economia na utilização das palavras, sente-se que cada poema escrito é depurado na procura da simplicidade – e é a simplicidade que mais atrai neste livro. Edição «Oceanos»

 

 

OUVIR – Os Oquestrada existem há algum tempo e fizeram carreiras entre bares, festas arraiais e muitos palcos percorridos ao longo de sete anos. A receita não é muito vulgar: inspirações ciganas, um toque de fado vadio, concertina dos grupos de baile, ritmos dos Balcãs, melodias da Córsega, ventos árabes. De tudo isto se fez a música de festa dos Oquestrada, aqui retratada pela primeira vez num disco, «Tasca Beat – O Sonho Português». Quem os conhece de ouvir cantar por esse país fora ou das gravações que iam circulando, trauteia-lhes as cantigas de cor, com alegria. Nas noites de verão é bom ouvir este disco, creio que propositadamente imperfeito, com o pé a bater o compasso e o calor a invadir-nos pela energia da música. A voz podia ser melhor, a técnica mais apurada, os pastiches menos evidentes – mas é isso que faz a espontaneidade de um grupo de baile com um fundo deliciosamente cabotino. CD Sony Music.

 

PROVAR – Andei uns tempos a evitar lá ir, sabendo eu que não faço parte do clube de fãs de Luís Baena. Mas agora lá fui, levado, ao Terraço do Tivoli, que desde que reabriu é dirigido por este «chef» . A ida passou-se ao almoço e as coisas não correram bem. O buffet pode ser exótico mas é um pouco descuidado – e algo desconexo - para o espaço nobre de restauração do Hotel e, francamente, o resultado da escolha feita na lista estava muito longe do ideal, em parte graças a uma confecção pouco atenta que deixou o peixe seco, embora montado de forma muito arquitectónica no meio do prato, sobre o acompanhamento. Confirmei as minhas impressões anteriores: Baena é melhor para a vista que para o paladar. O serviço continua exemplar , a garrafeira é de eleição e a vista é fantástica. Mas isso já era assim antes das obras. No Tivoli, magnífico hotel da Avenida da Liberdade, fico-me pela Brasserie e pelos encantos renovados do seu bar de entrada, nestes fins de tarde.

 

FOLHEAR – A propósito do lançamento do novo filme sobre a saga Star Treck, a edição norte-americana da revista «Wired» fez um número especial dedicado ao fantástico, ao misterioso, ao oculto. Em destaque cientistas loucos e histórias bizarras, lugares estranhos no planeta, truques de carta, cultos e bizarrias. A direcção editorial deste número especial foi de J.J. Abrams, o realizador e /ou criador de «Lost», «Alias», «Fringe», «Missão Impossível 3» e, claro, do novo «Star Trek». O próprio Adams assina um texto inspirador, «A Magia do Mistério», que é toda uma revelação sobre a forma como ele está no mundo. Os fanáticos de David Lynch (eu sou, reconheço), apreciarão uma foto assinada por ele na página 111, e que o próprio se encarregou de divulgar no twitter. A capa da revista, «The Mistery Issue», é toda ela um programa…

 

BACK TO BASICS – Mesmo nesta idade de imediatismos poucas coisas são melhores do que descobrir e descodificar as alegrias escondidas que a vida nos proporciona – JJ Abrams.

maio 13, 2009

O COSTA DA CULTURA

(Publicado no diário Meia Hora de 12 de Maio)


Esta semana li, algo surpreendido, um texto de propaganda sobre o que seria a política cultural da Câmara Municipal de Lisboa, protagonizada por António Costa. Publicada no sábado no «Público», a reportagem mostra um António Costa – pela primeira vez no seu mandato – preocupado com as questões da política cultural.


Presidente de uma vereação onde a Cultura é actividade acessória, confinada a estudos estratégicos de programa pré-definido e universo estreito, António Costa pouco mais fez do que mostrar como é presa de preconceitos e de lugares comuns, evitando falar de coisas concretas.


A estratégia de António Costa nesta matéria é curiosa: em vez de fazer uma política para a cidade, fez uma política e desenvolveu uma estratégia para querer seduzir pessoas, organizações e instituições ligadas às actividades culturais, dentro de um círculo razoavelmente restrito e com elevada dose de fidelidade política – na prática desprezou os públicos. O resultado é que a cidade perdeu aura, embora algumas pessoas tenham ganho ocupação subsidiada.


As iniciativas populares e o entretenimento – áreas marcantes da cultura popular contemporânea – têm-lhe merecido desprezo, substituídas por apoios avulsos a iniciativas muito especializadas e demasiado sectoriais. Mesmo num dos seus cavalos de batalha – a multiculturalidade, o seu mandato fica marcado pela extinção do África Festival, substituído por uma África.cont. que ainda ninguém sabe bem o que será e que, a bem dizer, não existe além do papel.


Mas o pior do curto mandato de António Costa em Lisboa tem sido a sua submissão ao Governo: foi assim com a Colecção Berardo, em que a Câmara devia ter imposto a solução do pavilhão de Portugal, na Expo, como equipamento receptor; foi assim no caso do inconcebível projecto do Museu dos Coches; foi assim na discutível transformação do Pavilhão dos Desportos num Museu do Desporto que ninguém sabe bem o que será e para que servirá.


O facto de em Lisboa conviverem instituições culturais nacionais com locais faz com que a Câmara deva ter voz activa nos equipamentos que estão na cidade. Mas como António Costa se demitiu desse assunto para não afrontar o Governo, Lisboa está no marasmo em que se encontra – à procura da fonte milagreira de onde brote o elixir que num instante transforme Lisboa numa cidade criativa – difícil quando se quer regulamentar e planificar a criatividade em vez de a deixar fluir. 

 

maio 11, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Maio)

 


BERLIM - No último fim-de-semana estive em Berlim, onde já não ía há uns 18 anos, pouco tempo depois da queda do Muro, portanto. A minha primeira ida a Berlim tinha sido ainda no tempo da divisão e a parte ocidental da cidade tinha então uma vida fantástica e um ambiente especial, comparada com o ar macambúzio da parte oriental. Uns anos mais tarde, já sem Muro, Berlim era uma cidade confusa, atípica, sem nenhuma da graça nem da aura que antes tinha. Agora, renasceu. Este ano completam-se 20 anos da queda do Muro e a transformação é total. A parte oriental é a mais animada, com melhor arquitectura contemporânea, cheia de vida e movimento e no entanto sossegada nas pequenas ruas por detrás das grandes avenidas. É uma cidade acolhedora, simpática e onde – apesar da barreira do idioma – qualquer turista se sente bem. Faz muita impressão pensar em como Lisboa era há 20 anos e é agora – está pior; e uma cidade que há 20 anos estava dividida e destroçada, cheias de zonas áridas, é agora um verdadeiro paraíso urbano. Alguém por cá devia aprender com o que se fez em Berlim.

 

BURACOS - Quando penso na Avenida da República e nas Avenidas Novas, no que eram e no que são agora, é impossível não me revoltar contra os sucessivos poderes autárquicos que parecem conjugados em destruir Lisboa, em favorecer demolições e construções novas em vez de recuperações, numa Câmara apostada em proteger especuladores imobiliários e em desprezar os habitantes da Cidade. Boa prova desse desprezo está no caos de toda a zona do Saldanha, esventrada por obras do Metro que há anos se atrasam no prazo de conclusão sem que ninguém seja responsabilizado, de novo adiadas para o fim do ano.

 

INCÚRIA - Mesmo ao pé do meu local de trabalho está há umas semanas em demolição um prédio de gaveto, daqueles que foi deixado apodrecer ao longo dos anos para não ter recuperação possível e permitir a construção de algum novo edifício. Esta semana, à hora de almoço, aconteceu um acidente – caiu no meio da rua parte da fachada, por incúria de quem estava a fazer a demolição. Quem dá alvarás a empresas de demolição? Quem as fiscaliza? Quem vai punir este acidente? – Só por acaso os escombros não atingiram alguém.

 

LER - Dois artigos magníficos na «Vanity Fair» de Maio. O primeiro, sobre o roubo da «Mona Lisa» do Louvre, ocorrido em 1911 – ao que parece o roubo terá servido para uma quadrilha de falsificadores venderem a coleccionadores norte-americanos com poucos escrúpulos pelo menos seis cópias perfeitas do quadro de Da Vinci, obviamente cada um convencido de que estava a comprar a obra roubada. O original acabou por ser localizado ano e meio mais tarde, já todo o negócio estava feito e a intenção dos ladrões nunca foi vendê-lo, mas sim aproveitar o momento – muito mais lucrativo vender seis que apenas um… O outro artigo é sobre a crise que começa a assolar o «New York Times», tido como um exemplo do bom jornalismo e um case study de uma boa transição para o on line. O artigo, magnífico, devia ser dado a todos os gestores de empresas jornalísticas, para que percebam quais as questões fundamentais do negócio onde estão envolvidos.

 

PROIBIR - Parece que a cadeia de supermercados «Jumbo» se recusou a vender a reedição da obra «A Casa dos Budas Ditosos» de João Ubaldo Ribeiro (autor brasileiro que ganhou o Prémio Camões em 2008), por considerar a obra pornográfica. É um bocadinho assustador que um qualquer responsável de compras de uma mercearia gigante se arme em censor e guardião dos bons costumes, mas a verdade é que um dia destes, ao entrar no Jumbo das Amoreiras com um livro que andava a ler debaixo do braço, um dos seguranças de serviço me queria colocar um autocolante por cima da capa do livro, estragando-o. Quando os funcionários tratam assim os livros não é de admirar que outros se armem em censores. No meio disto li uma ridícula declaração de alguém do «Jumbo» sobre o livro censurado que é um perfeito manual de incompetência em matéria de relações públicas e comunicação.



 

RECORDAR – A minha geração foi a primeira que cresceu a ouvir os Xutos – eu tinha vinte e poucos anos quando os vi pela primeira vez e foi com muita alegria que há uns 17 anos li «Conta-me Histórias», um livro sobre a vida da banda escrito por Ana Critina Ferrão. Esse livro – o relato de um encantamento, como escrevi na altura - foi agora reeditado, revisto e aumentado, numa magnífica nova edição, mais uma vez com a chancela da Assírio e Alvim. É uma bela e indispensável peça na celebração dos 30 anos dos Xutos.

 

OUVIR – O disco que me acompanha nestes dias é o novo de Bob Dylan, «Together Through Life». As suas dez canções (nove escritas por Dylan e pelo ex-Grateful Dead Robert Hunter), são retratos cáusticos destes tempos que correm, com uma instrumentação dura mas simples, com laivos de blues e bayou, misturando acordeão com banjo e bandolim, tudo produzido de forma crua e eficaz pelo próprio Dylan sob o seu habitual pseudónimo musical de Jack Frost. Cito um dos temas mais marcantes, «Forgetful Heart»: "All night long/I lay awake and listen to the sound of pain/The door has closed forevermore/If indeed there ever was a door." E termino com outra canção arrebatadora, «It’s All Good»: "Big politician telling lies/Restaurant kitchen, all full of flies/Don't make a bit of difference".

 

PROVAR – Se de repente estiver com vontade de experimentar boa comida oriental descubra um restaurante tailandês chamado «Sete Pecados» - boa qualidade de produtos, muito boa confecção, tempero adequado, serviço amigável e familiar. Os petisquinhos do couvert são deliciosos e se gosta de cerveja experimente a tailandesa «Singha», de sabor invulgar mas muito interessante. Av. Luís Bívar 7ª, telefone 213160529.

 

BACK TO BASICS – Uma notícia é aquilo que alguém desejaria que não fosse publicado; publicidade é todo o resto do conteúdo dos jornais - William Randolph Hearst2008)

 

maio 07, 2009

UMA OUTRA FRENTE

(Publicado no diário Meia Hora de 5 de Maio)


 


O que eu gostava para Lisboa era que fosse constituída uma Frente Para a Qualidade de Vida dos lisboetas. O que eu gostava para Lisboa era que a autarquia se empenhasse em manter o que está bem, recuperar o que precisa de obras e preservar o que merece ser estimado. O que eu gostava era de ver menos prédios derrubados, mais prédios recuperados, menos fúria de nova construção. E gostava muito de ver ruas limpas, bem tratadas, com árvores, passeios largos, esplanadas – o que se vê em outras cidades de pior clima e em Lisboa é uma raridade.

A Avenida da República e as avenidas novas são um exemplo do mal que foi feito à cidade ao longo dos anos. Belos edifícios foram demolidos só para que novos e geralmente desinteressantes prédios fossem erguidos. Em Portugal privilegia-se infelizmente a demolição e a construção em vez da preservação. Ao lado do local onde trabalho, um centenário e elegante edifício de gaveto foi apodrecido para ser demolido. Perdeu-se a mercearia que fornecia produtos rurais de boa qualidade e a alternativa única de compra está nos supermercados, todos iguais. Tudo isto vais descaracterizando a cidade, tornando-a mais incómoda para quem nela vive, tudo isto diminui a qualidade de vida, a possibilidade de escolha e, também, a diversidade das actividades económicas.

Outro exemplo? - Quem manda em Lisboa não se preocupa em resolver os incómodos, só isso explica que as obras do Metropolitano, que esventram toda a área do Saldanha, tenham sucessivos prazos de conclusão, cada vez mais longos. Estes atrasos não são penalizados? Quem manda no Metro?

Em ano de eleições lá aparece a recuperação dos quiosques – o que é uma boa medida, por sinal entregue e alguém que tem cuidado da tradição dos produtos portugueses – Catarina Portas. Mas mesmo a maneira como a Câmara tratou do assunto cheira mais a propaganda do que a estratégia, e o contraste com o abandono a que outros espaços são votados e à falta de medidas integradas (a Avenida da Liberdade é o exemplo mais gritante), provoca a maior desconfiança.

O que eu gostava era que espaços como o jardim do Campo Grande fossem bem cuidados, não fossem deixados quase ao abandono, que tivessem bons locais de encontro, esplanadas simpáticas e bom serviço. O estado em que o Campo Grande está é uma ofensa à cidade – simbolicamente em frente a um edifício onde estão alojados muitos dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa.

 

maio 04, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 30 de Abril

 


PRIORIDADES - Leio com atenção o artigo de Mário Soares no «Diário de Notícias» sobre o 25 de Abril e uma estratégia para Portugal. Soares fala em quatro quintos do artigo sobre memórias do tempo em que foi protagonista e diz que o país está à beira de uma nova era «política, financeira, económica, ambiental, energética e, sobretudo, de valores». Muito sintomaticamente não fala da maior crise da sociedade portuguesa – que é o não funcionamento da justiça, com o que ela traz – o implícito benefício de quem não a cumpre e o não reconhecimento de quem faz as coisas como deve. Uma geração de políticos, mairotariamente advogados e juristas, como Mário Soares, deixaram como legado um país onde a Justiça não funciona. E fazer com que funcione é um imperativo estratégico – senão, não há nem economia, nem valores que resistam. O artigo acaba por ser a confissão de que, para os políticos, a justiça não é uma prioridade.

 

LISBOA - Cá para mim António Costa pode bem ser o mentor escondido da Frente de Esquerda. É ele quem tem a ganhar politicamente se a Frente surgir, a acção em si é típica de políticos à antiga como ele (que evocam com saudade a época do frentismo e gostam da táctica da unidade para expurgarem o campo em que se movem), e claramente esvaziaria de sentido as aventuras de Helena Roseta e deixaria o Bloco encurralado – sendo que com o PCP, como antes já aconteceu, pode sempre fazer-se um acordozito. Acho que a coisa já esteve mais longe de poder acontecer do que está na realidade e a pressão sobre quem ficar de fora vai ser enorme – de cisionistas a aliados da reacção vão ouvir de tudo. Com o inefável José Sá Fernandes na primeira linha do combate frentista, aposto.

 

CAPILÉ - Na terça feira de manhã escrevi isto no Twitter e no Facebook: «Tanta conversa sobre os quiosques de refrescos já aborrece - fazem mais falta esplanadas decentes na Av. da Liberdade que hinos ao capilé». Esta afirmação desencadeou uma guerra de opiniões, coisa boa e que é aliás o que me anima a lançar frases fortes – que de qualquer maneira correspondem ao que eu sinto, quando há uma desproporção entre a promoção e o seu objecto – como é o caso.

 

LER – Eis um bom exemplo de como um livro de ensaios, e para mais sobre cultura contemporânea, pode ser um estimulante exercício para o pensamento – mesmo quando se percebe que o autor, como é compreensível, valoriza o seu ponto de vista e subalterniza o dos outros – o que proporciona aliás alguns momentos divertidos, por serem tão assertivos. Mas, divertimentos à parte, «À Procura de Escala», de António Pinto Ribeiro (não, não é o Ministro, que esse não pensa nem age sobre Cultura) é um conjunto de cinco textos que faz bem o ponto de situação de uma determinada lógica de pensar a política e a actividade cultural no sentido da criação de um gosto – desse ponto de vista é talvez o mais sólido resumo do que foi o verdadeiro fundamento da política a que Carrilho quis chamar de sua. («À Procura da Escala», de António Ponto Ribeiro, Livros Cotovia).

 

VER - Uma sugestão para todos os que gostaram de ver e ouvir o maestro venezuelano Gustavo Dudamel no Coliseu de Lisboa no passado fim de semana: existe no mercado português um óptimo DVD onde Dudamel dirige a Orquestra Juvenil Simon Bolívar, gravado em 2007. O repertório é bem diferente do que ele aqui interpretou e inclui a «Eroica» de Beethoven, a «Danza Final» do argentino Alberto Ginastera e «Huapango» do mexicano José Pablo Moncayo. Atractivo suplementar, um documentário sobre como foi criada e funciona esta orquestra que impressiona tanta gente. DVD Deutsche Grammophon, distribuído pela Universal.

 

OUVIR – J.P. Simões é um dos mais interessantes e polifacetados músicos contemporâneos portugueses. Ao longo da sua carreira esteve com os Pop Dell Arte, fundou os Bellechase Hotel e criou o Quinteto Tati antes de iniciar a sua carreira a solo, que já leva dois discos editados. Pelo meio escreveu em jornais, fez bandas sonoras para filmes, escreveu um livro de contos, e tem dado concertos um pouco por onde calha, muitas vezes sozinho em palco com a sua viola. Admirador confesso de Chico Buarque, de quem as influências até na forma de cantar se notam, J.P. Simões é um compositor de invulgar talento e um intérprete notável. Eu acho que não é exagero considerá-lo o melhor da sua geração e o novo disco, acabado de editar e gravado maioritariamente ao vivo, «Boato», é prova disso mesmo. Não são só as canções, é o ambiente, a forma de tocar, o que está escrito e como é cantado – tudo tem aquele raro toque de génio que volta e meia nos faz parar a corrida para ouvir o que se passa à nossa volta.

 

DESCOBRIR - Nesta época de crise da imprensa é bom ver como no sector das revistas há alguma coisa diferente. O grupo editorial norte-americano Condé Nast decidiu acabar com a sua revista de economia e negócios, «Portfolio», mas ao mesmo tempo decidiu lançar a «Wired» no Reino Unido. Neste número inaugural da edição europeia surgiram novos temas e novas formas de abordagem relativamente à americana, com o futuro como tema de capa.

 

PETISCAR – Podia ser uma barra espanhola bem fornecida, como o Luciano em Ayamonte, mas é uma boa taberna portuguesa em Setúbal. Chama-se Taberna Grande, fica na Rua das Fontainhas 30 e apresenta um conjunto de propostas para petiscar com fartura e qualidade, de pataniscas a torresmos, passando por polvo à galega, presunto, requeijão e doce de abóbora a condizer. Recomenda-se apenas maior atenção na fritura – por vezes imperfeita e pesada. A garrafeira tem boas propostas regionais e o espaço é confortável, mesmo quando está cheio. Telefone 309847226.

 

BACK TO BASICS – A justiça deve ser mantida viva pelo espírito e não pela forma da Lei – Earl Warren

abril 27, 2009

Publicado no «Jornal de Negócios» de 24 de Abril 2009

ALERTA – Espera-se que em relação aos polémicos investimentos públicos previstos, e contestados pela maioria dos economistas de referência da área do PS, não sejam assinados à pressa contratos que comprometam o futuro, a seis meses de eleições. O problema é que o caso Freeport chegou onde chegou porque, no mínimo, os timings em que foi aprovado proporcionam que surjam suspeitas.  

 


 


ENTREVISTA – O discurso do Primeiro-Ministro transmitido pela RTP na passada terça-feira resumiu-se a um exercício de propaganda em matéria política e económica e à afirmação de ameaças relativamente ao caso Freeport. Pelo meio ficaram verdadeiras pérolas, como a de considerar como absolutamente normal tratar as opiniões de jornalistas como calúnias passíveis de perseguição criminal. É verdade que existe uma campanha negra em Portugal – mas é a que o Primeiro-Ministro move contra quem o critica, é a campanha negra do Governo contra a liberdade de expressão e de informação, que foi levada ao extremo quando José Sócrates, no exercício do cargo de Primeiro-Ministro se armou em crítico de televisão e analista de comunicação e atacou os noticiários de um canal de televisão pelo simples facto de reportar factos que lhe são pessoalmente incómodos. Nos tempos que correm temos um Primeiro-Ministro que persegue notícias e opiniões publicadas na imprensa e persegue os seus autores, ao mesmo tempo que se veste de vítima. Hugo Chávez, com quem Sócrates tem uma boa relação, também se incomodava com uma estação de televisão e, para resolver o problema, mandou encerrá-la. A cobardia política anda sempre de mãos dadas com a intolerância.


 

 


 


 


LISBOA – A Frente que quer a união à esquerda nas eleições autárquicas da capital procura apenas a junção de interesses espúrios, de circunstância e conveniência, suficientes para assegurar a vitória duvidosa de uma esquerda sem ideias e com uma prática de direita – os dois anos que António Costa leva como Presidente da Câmara são prova disso. Curioso é que esse período de dois anos seja exactamente o mesmo tempo que Santana Lopes levou no exercício efectivo do mesmo cargo, em Lisboa. Basta comparar o que foi feito, em igual tempo, por um e por outro. Costa claramente sai a perder. A sua herança é uma cidade suja, descuidada, agreste para quem a habita. 

 


 


PERGUNTA – O que é feito do processo da Casa Pia que de repente não se ouve falar do caso? Não é estranha a forma como a justiça funciona, ao arrastar casos durante anos até que venham a cair no esquecimento? 

 


 


DESCOBRIR – Se forem ao You Tube e procurarem na barra de canais o da educação poderão aí encontrar gravações vídeos de palestras e aulas de distintos professores de Universidades tão prestigiadas como Harvard, Yale, Carnegie Mellon ou Stanford. Outro bom sítio para procurar apresentações interessantes do ponto de vista profissional e científico é o www.ted.com , neste caso divididas em áreas que vão do entretenimento ao design, passando por tecnologia ou negócios. 

 


OUVIR – Ida Maria é uma norueguesa de 24 anos que canta com raiva e energia, que canta o que lhe vai no espírito sem atender a conveniências. Seguidora dos Pogues no que toca à quantidade de álcool que ingere antes de actuar, do punk no que toca às palavras e ao estilo, e da new wave no que toca a arranjos e produção – o resultado é aliciante e diferente de tudo o que tem surgido nos últimos anos. É fresco, incómodo como só a boa música o é, e perturbante como as belas canções sabem ser. Ouçam «Oh My God», «Louie» ou «I Like You So Much Better When You Are Naked», três das canções que fazerm de «Fortress Round My Heart» um dos albums a reter para o balance deste ano. Comprado na Amazon. 

 


VER – Uma recomendação no Porto: na Galeria Quase (Rua do Vilar 54), desenhos, fotografias e esculturas de Cristina Ataíde. Os desenhos combinam a grafite com o guache e criam ambientes que se prolongam nas esculturas, que combinam árvores, tecido e chumbo. Algumas fotografias completam a visão de Cristina Ataíde, que persistentemente tem operado nesta diversidade de meios, unidos por um fio condutor balizado pela observação, como se fosse a intervenção deliciosa de um voyeur anarquista sobre o que está à sua volta. 

 


 


FOLHEAR – A revista norte-americana «Rolling Stone» diminuíu de formato e perdeu aquele tamanho invulgar que a caracterizava. Passou a gora ao formato típico das revistas americanas – provavelmente porque o seu público tradicional foi envelhecendo e já não consegue abrir os braços o suficiente para o percorrer as páginas do tamanho antigo. Seja como for, tamanhos à parte, a Rolling Stone lá vai dando conta do recado embora com um tom mais cinzento e conformista do que há uns anos atrás. A publicação ainda é boa para ir vendo o que acontece, mas deixou de ser um guia de tendências. 

 


 


EXPERIMENTAR – Sabores orientais no New Wok; Rua Capelo 24, exactamente na esquina com a Rua Anchieta, frente ao Governo Civil. Não é a  melhor das vizinhanças mas a qualidade dos noodles e a diversidade de propostas, assim como a simpatia do serviço, a decoração do local e o atrevimento de algumas combinações inesperadas tornam o New Wok num sítio a conhecer se tiver vontade de experimentar um dos restaurantes de inspiração asiática mais conseguidos de Lisboa. Experimentem o gelado de sésamo na parte das sobremeses. Telefone 213477189. 

 


 


DESCONTRAIR – Este fim de semana o CCB propõe os seus Dias da Música, este ano dedicados a Bach, com algumas incursões na obra do compositor por músicos de outras áreas, como é o caso de Bernardo Sassetti. É uma programação rica e diversificada, prova provada da falta de razão dos velhos do Restelo que se puseram aos uivos quando a velha «Festa da Música», importada de Nantes e da habilidade comercial de René Martin, foi em boa hora abandonada por Mega Ferreira que preferiu investir numa programação própria. 

 


 


BACK TO BASICS - Bota-Abaixismo é o que o Governo tem andado a fazer ao país – ouvido na rua. 

 

abril 21, 2009

UMA FRENTE SEM SENTIDO

(Publicado no Diário Meia Hora de 21 de Abril)


Na semana passada surgiu o apelo para que em Lisboa se constitua uma frente única de forças políticas de esquerda com o objectivo de evitar o regresso da direita ao poder na cidade, nas próximas autárquicas e para que António Costa continue Presidente. Valerá a pena?


Comecemos por recordar alguns factos. Após um longo período em que Lisboa foi governada pelo PS em coligação com o PCP, primeiro por Jorge Sampaio e depois por João Soares, no final de 2001 o PSD venceu as eleições e Pedro Santana Lopes exerceu a Presidência da Câmara durante perto de dois anos e meio, até ser indicado Primeiro Ministro, no Verão de 2004. Por força da queda política de Carmona Rodrigues, que venceu as eleições de 2005, foram realizadas intercalares autárquicas em Lisboa em Julho de 2007, das quais saiu vencedor António Costa, que concluirá o seu mandato no final do ano, com praticamente o mesmo tempo de exercício de poder, enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, que Pedro Santana Lopes. Portanto, ambos terão tido teoricamente as mesmas possibilidades – até porque, convém recordar, o estado das Finanças da Câmara deixado por Jorge Sampaio e João Soares não era melhor do que aquele encontrado por António Costa. O PS gosta de iludir este pormenor mas o facto é bem real.


Na verdade o balanço comparado dos mandatos de Pedro Santana Lopes e de António Costa não podia ser mais elucidativo: Lisboa agora está sem rumo, faz muitos estudos mas pouca obra, a cidade voltou a estar suja, esburacada, os problemas no urbanismo aumentam, as cedências ao Governo (como na Frente Ribeirinha e nos contentores) aumentam, a reforma do funcionamento do Município parou, a recuperação da Baixa-Chiado desapareceu das conversas, o trânsito está mais caótico e não foi lançada uma única obra infra-estruturante importante.


Para além disso convém recordar que a política de apoio social enquanto Santana Lopes foi Presidente da Câmara foi objectivamente mais à esquerda que a de António Costa e que em matéria de ambiente, cultura e recuperação urbana se fez mais do que se tem feito agora.


Por isso esta Frente é surpreendente: uma Frente que quer juntar pessoas que não conseguem fazer um plano comum, que não conseguem implementar políticas de esquerda quando chegam ao poder, e que deixam a cidade apodrecer, serve para quê?  

 

abril 20, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 17 de Abril)

 


CONCURSO – Decorre actualmente uma competição para escolha do mais horrível cartaz de propaganda política nesta fase do ano eleitoral em curso. A primeira ronda deste concurso encerra no dia das Europeias. PS e PSD estão por enquanto empatados em falta de ideias, originalidade e mau gosto gráfico.

 

ESCOLHA – A escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista ao Parlamento Europeu só pode querer dizer que o PSD resolveu subalternizar a Assembleia da República – na verdade Rangel foi o melhor líder parlamentar do PSD desde há algum tempo e seria natural que ele constituísse um trunfo precioso nas próximas legislativas – até porque, recordemos o assunto, a líder social-democrata não é actualmente deputada e as poucas despesas de oposição feitas pelo PSD têm surgido pela mão de Paulo Rangel, que já é candidato à alcunha de «O Desterrado».

 

CRISE - De um Banco Central espera-se seriedade . Não se espera que seja nem atacante cego nem defensor cerrado do Governo. Espera-se realismo nas projecções, não se espera que mude de direcção como um catavento. Em apenas seis meses a avaliação do Banco de Portugal à situação da economia portuguesa passou de excelente para perigosa. Em que altura exagerou? Constâncio perde a credibilidade à medida que a crise se instala. Era útil e certamente esclarecedor repescar as suas afirmações desde há um ano atrás.

 

LER – A mais recente edição da revista «Egoísta» assume a forma de um gigantesco desdobrável – as páginas não se folheiam apenas, estão produzidas por forma a serem um enorme fole desdobrável, quase a pedir para ser esticado numa parede para aí o podermos ver sempre. Feito sob o tema do «Sonho», este número da «Egoísta» é mais um bom desafio a todas as convenções gráficas. Destaque para o portfolio de Anne Leibowitz, para as fotos de Ana Calhau e para os textos de Pedro Mexia e José Fialho Gouveia, que se destacam entre a rotina pouco imaginativa das demais colaborações. Magnífica na forma, a «Egoísta» precisa de encontrar um ponto de equilíbrio no conteúdo, que, infelizmente, muitas vezes não acompanha o delírio e o sonho do seu grafismo.

 

VER – Abre hoje no Sintra Museu de Arte Moderna uma oportuna exposição dedicada à cerâmica de Rafel Bordalo Pinheiro – cuja fábrica esteve para fechar, e foi comprada pela Visabeira, que pretende recuperá-la – curiosamente uma operação que o Governo apresentou como sendo da sua autoria. Nestes tempos em que tudo serve para fazer propaganda, fica aqui o desejo que esta exposição sirva para publicitar o talento de Bordalo e que contribua para que a obra da fábrica com o seu nome seja mais conhecida e desejada. A exposição tem o título «Da Caricatura À Cerâmica» e pode ser vista até 14 de Junho.

 

HINO - Chegar ao fim de 30 anos de carreira numa banda de rock é obra séria. Chegar ao fim desses 30 anos e fazer uma canção como «Sem Eira Nem Beira» é ainda mais sério. A canção – agora já muita gente a ouviu – é um manifesto de revolta contra a hipocrisia dos políticos. É inevitável que na actual situação se venha a tornar num hino. Mesmo sem intenção deliberada por parte dos Xutos & Pontapés, esta canção do novo álbum da banda é a maior acção de oposição que Sócrates tem pela frente. A canção é boa, a letra é boa, vai ser um êxito, fala dos tempos que correm – tal e qual o que um tema rock é suposto fazer: mexe com as pessoas - «Senhor Engenheiro/Dê-me um pouco de atenção/…/Não tenho eira nem beira/ Mas ainda consigo ver/Quem anda na roubalheira/…». Para conhecer basta fazer busca pelo nome da canção no YouTube.

 

OUVIR – A mais recente compilação da série «Red Hot» chama-se «Dark Was The Night», um título baseado num «blues» tradicional de Blind Willie Johnson, aqui interpretado de forma inesperada pelos Kronos Quartet. A compilação tem dois CD’s, o primeiro baseado em versões de tradicionais norte-americanos – outra surpresa é a versão de Antony para «I Was Young When I Left Home», de Bob Dylan.. O segundo disco agrupa exemplos de alguns dos melhores músicos que farão a história do começo deste século XXI – Arcade Fire, Spoon, Sharon Jones ou Beirut. Outros participantes em mais esta colectânea são Feist, The National e My Brightest Diamond, entre outros. As receitas destinam-se à prevenção da SIDA, como em todas as iniciativas «Red Hot». Edição 4AD, graficamente arrebatadora, como sempre – disponível na Amazon.

 

EQUÍVOCO – O prémio Bes Photo é uma boa ideia em si. A colecção de fotografia do Banco Espírito Santo é uma certeira aposta num meio de expressão que durante muitos anos foi subalternizado. Dito isto, vem a dúvida: a forma como decorre o processo de selecção e, depois, de atribuição de prémio Bes Photo é que já suscita interrogações e, por vezes, perplexidades. O predomínio de uma utilização oportunista da fotografia enquanto muleta para outras expressões plásticas, em detrimento do que lhe é próprio e específico, é o risco que repetidamente se tem corrido - e os resultados deste ano apenas contribuem para agudizar o equívoco. Nunca é boa política que num júri esteja um dos premiados anteriores, nem parece acertado que os nomes que mais seguem a fotografia em Portugal estejam tão ausentes de todo o processo, que privilegia os críticos de artes plásticas generalistas em detrimento de uma abordagem mais especializada. Assim, parece um regresso ao tempo dos jogos florais.

 

PETISCAR – A Mad Pizza iniciou Actividades no Amoreiras Plaza e ganhou reputação graças às suas pizzas de finíssima e estaladiça massa integral – sim, integral e saborosa. A boa novidade é que já podem ser encomendas numa área de proximidade das Amoreiras (de 2ªa a sábado entre as 12 e as 22h, sábados e domingos apenas entre as 12 e as 15h30) pelo telefone 210503561. Os preços estão entre os 5.50 euros e os 11.50 euros), dependendo dos tamanos e do que se coloca na massa). O ideal é mesmo ir uma vez experimentar ao Amoreiras Plaza e ver todas as alternativas existentes.

 

BACK TO BASICS – O objectivo do Rock é fazer as pessoas agirem e reagirem – Marilyn Manson

abril 15, 2009

UM CAMBÃO VISUAL

(publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Abril)

 


As eleições para o Parlamento Europeu estão a revelar-se palco de um campeonato bem mais divertido que a Liga de Futebol: o campeonato do Cartaz Eleitoral Mais Feio. Para já, neste primeiro «round» pré-eleitoral, o PSD, o PS e o MEP estão notoriamente bem colocados para obterem a vitória. Olhando para os cartazes sou levado a pensar que deve ter havido algum conluio entre os mais altos dirigentes de cada partido para promoverem uma espécie de cambão visual – acertaram entre eles apostar na falta de imaginação, de gosto, na má escolha de cores. PS, PSD e MEP estão de facto conjugados e apostados em conseguir dar nas vistas pela má imagem.


Eu por mim até posso achar querido que tenham desistido de fazer cartazes apelativos – assim o pessoal fica mesmo horrorizado com a ideia de ir votar nas eleições Europeias e resolve-se de vez o problema da abstenção: há-de continuar a aumentar. O pior, já se sabe, é a poluição visual que estes cartazes provocam – deve ter sido para nos poupar a tão más vistas que o vereador Sá Fernandes os proibiu no Marquês do Pombal – é que não me passa pela cabeça que ele tivesse outras intenções, sendo uma pessoa tão dedicada a fazer jogo limpo, a não misturar justiça com política, a evitar manobras e malandrices. A sorte dele é que o combate aos cartazes feios ainda não tinha começado quando foi candidato…


Eu percebo a angústia dos departamentos de propaganda dos partidos: com tanta eleição este ano logo, se havia de começar pela menos interessante de todas – assim, em vez de gastarem energias e baterias para mandar uns quantos para Bruxelas e Estrasburgo, fazem a coisa pelo simples e adoptam o estilo «Quanto Pior, Melhor».


A minha curiosidade agora recai no cartaz do PP – saber como podem eles entrar neste campeonato com a equipa de candidatos que têm – todos muito mais apelativos visualmente que qualquer dos apresentados por outros partidos, todos mais elegantes e com melhores cores. Por outro lado, sei, de fonte segura, que no PSD a equipa de imagem está a fazer figas para que o candidato escolhido para o Parlamento Europeu não seja Marques Mendes – é que existe o receio de que seja adoptado o slogan « Ò tempo volta p’ra trás»… 

 

abril 13, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 9 de Abril)

 


REGIME – O comportamento recente de José Sócrates, enquanto cidadão que é Primeiro Ministro, indicia que a natureza do regime  está em mudança. Ao patrocinar processos judiciais contra jornalistas e colunistas, processos que têm por alvo opiniões e não factos, Sócrates abriu o precedente de pretender condicionar o exercício da liberdade de crítica e de opinião. Compreendo que José Sócrates não fique satisfeito com o que lê sobre si – mas mais valia pedir contenção e juízo aos seus amigos, nomeadamente do grupo de Macau do PS, com Alberto Costa à cabeça, que se envolveram em cenas muito pouco edificantes em matéria política e de cidadania.

 

NAVEGAR – Imperdível o novo blogue de Bernardo Pires de Lima e Pedro Marques Lopes – www.uniaodefacto.blogs.sapo.pt . Por exemplo: «Vital Moreira entrou na campanha em grande. Não por ter ao seu lado o Dr. Soares, antigo pró-americano e companhia habitual de Frank Carlucci em inúmeras fotografias, mas por ter colocado a posição de Sócrates e Luís Amado em causa. Ficámos baralhados. Ao nível de Estado, o apoio vai para Durão Barroso. Ao nível eleitoralista, a apoio não vai para Barroso. Vital já conseguiu um apoio entusiasta de Ana Gomes, o suficiente para que Sócrates e Amado venham a terreiro pôr um fim à brincadeira. Vital é um brincalhão. Sócrates não anda para gracinhas. Isto ainda vai dar direito a processo.»

 

DÚVIDA METÓDICA - Há um PS que apoia Barroso; há outro que não apoia. O eleitor, ao votar PS para o Parlamento Europeu está a apoiar quem? Uma coisa ou o seu contrário? (Deputado António Filipe, no Twitter)

 

LER – A renovada Guimarães Editores reorganizou as suas colecções e está a fazer um meritório trabalho de edição e reedição de obras pouco conhecidas. Recentemente voltou a colocar no mercado as «Histórias Extraordinárias» de Arthur Conan Doyle, o autor que ficou célebre pelas aventuras de Sherlock Holmes. Estes pequenos contos que compõem as «Histórias Extraordinárias» são um pouco perturbantes, belíssimas observações da sociedade da época. Na mesma editora estão também disponíveis os «Contos de Mistério» do mesmo autor. Já agora, se passarem na livraria da Guimarães (Rua da Misericórdia 68 no Chiado e na Livraria Universitária, na Biblioteca Nacional) espreitem também a colecção dedicada a Edgar Allen Põe («Contos Fantásticos» e «Contos Policiais»).

 

OUVIR – John Scofield é um guitarrista de jazz com uma longa carreira ao lado de nomes como Chick Corea, Herbie Hancock ou Charlie Mingus. Tem uma extensa discografia e não há praticamente nenhum grande músico de jazz com quem não tenha gravado ou tocado. Neste seu novo disco, «Piety Street», Scofield afasta-se do seu terreno tradicional e leva a guitarra a passear pelos blues, e, em particular, pelo território dos gospel. A aproximação que faz é, digamos, herética – mas aliciante. Scofield e os músicos que o acompanham optaram por introduzir arranjos funky, alterando por completo o ritmo e balanço tradicional dos gospel. O resultado, primeiro, estranha-se e, depois, entranha-se: redescubram clássicos como «Motherless Child», «His Eye Is On The Sparrow» «I’ll Fly Away» ou «Something’s Got A Hold On Me» nas interpretações de Scofield ou deixem-se arrastar pelo ritmo de uma das suas próprias composições – como o arrebatador «It’s A Big Army». CD Emarcy, Universal.

 

DESCUBRA AS DIFERENÇAS – Querem ver como as coisas são diferentes em Portugal e em Espanha? O Jaguar XF Diesel V6 de 3 litros, versão Luxury, vem anunciado na «Vanity Fair» espanhola pelo preço de 52.990 euros. O mesmo carro em Portugal custa 75.413 euros, 42% mais caro – a diferença do preço está nos impostos. Curioso, não é?

 

VER – Quando tiverem vontade de descobrir uma boa exposição para visitar, espreitem o site www.artecapital.net. De lá retiro três sugestões, de áreas bem diferentes: no Museu da Electricidade, os finalistas do «Prémio EDP novos artistas» (António Bolota, Bruno Cidra, Gabriel Abrantes, Gonçalo Sena, Hernâni Gil, Margarida Paiva, Mauro Cerqueira, Nuno Sousa e Sónia Almeida) – o vencedor será conhecido dia 20. Se gostam de fotografia têm oportunidade de descobrir a excelente colecção de fotografia portuguesa dos anos 50, que pertence ao Museu do Chiado, e que está reunida na exposição «Batalha de Sombras», no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira (Rua Alves Redol 45). E finalmente, um grupo de jovens artistas apresenta na Galeria Arte Contempo (Rua dos Navegantes 46 A) a colectiva «Republica ou o Teatro do Povo».

 

PETISCAR – Não se pode olhar para o «Torricado» e encará-lo como um restaurante tradicional – o mais certo é encará-lo como uma petisqueira simpática. Localizado na Praça de Touros do Campo Pequeno, no lado virado para a Avenida da República, é servido por uma boa esplanada, mas tem um espaço interior com os seus problemas, apertos e correntes de ar. Claro que o prato forte é o que lhe dá o nome, o torricado ribatejano, está presente no seu esplendor:  pão torrado em brasas, com alho e azeite, e acompanhado com uma boa posta de bacalhau assado. Mas se quiser coisa mais leve não deixe de experimentar os pastéis de massa tenra, as empadas de caldeirada de porco preto (deliciosas) e os pastéis de bacalhau à Gomes de Sá. A responsabilidade deste espaço é do Chef Luís Suspiro, e se para rematar os petiscos escolher um doce tem muito por onde picar. Telefone 217975356.

 

 

BACK TO BASICS – A liberdade de opinião só pode existir quando o Governo está completamente seguro de si próprio – Bertrand Russell

abril 07, 2009

O OBSERVATÓRIO ESCONDIDO

(publicado no diário Meia Hora de 7 de Abril)


 


Na semana passada li muitas notícias sobre as «100 Horas de Astronomia Remota», uma iniciativa que permitia, a qualquer pessoa com acesso à internet, ligar-se a um dos observatórios astronómicos que, em todo o Mundo, ofereciam a possibilidade de, via computador, ver as imagens que esses observatórios captavam do Universo. Esta bela ideia faz parte dos eventos programados para o Ano Internacional da Astronomia e inclui uma outra iniciativa que tem o aliciante nome de «Volta Ao Mundo em 80 telescópios».


É engraçado ver que cada vez mais pessoas se interessam pela astronomia e constatar que as vendas de telescópios para uso doméstico andam em bom ritmo. É um bom sinal, é sinal de curiosidade pelo Universo, de curiosidade por perceber onde estamos e quais os limites que podemos ver, é, sobretudo, um sinal de interesse pela Ciência – ainda por cima vivido como um passatempo.


Neste contexto de interesse e paixão pela Astronomia seria natural que em Portugal se estimulasse a curiosidade pelos equipamentos que temos – nomeadamente pelo belíssimo Observatório Astronómico de Lisboa, construído por iniciativa de D.Pedro V nos terrenos da Tapada da Ajuda entre 1981 e 1987. No século XIX e em boa parte do século XX o observatório ganhou reputação internacional e hoje em dia, desde 1995, está intergrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.


Para além dos equipamentos de observação, no edifício existe uma rica biblioteca, a melhor do país em temas de Astronomia e Astrofísica. Além disso o Observatório é quem mantém e fornece a hora legal de Portugal, desenvolve investigação científica, preserva e disponibiliza o acervo histórico, quer documental quer instrumental, e quer estimular e apoiar o ensino e a divulgação da Astronomia. Aliciante, portanto. E como se pode visitar?  - perguntarão. Eu gostava de lá poder ir, mas eis a realidade: visitas apenas aos dias úteis, com entrada não depois das 15h00; só são permitidas visitas em grupos, não com mais de 15 pessoas e apenas com marcação prévia junto do observatório; para entrar há que comprar a respectiva admissão – que apenas pode ser adquirida nas instalações da Faculdade de Ciências no Campo Grande, junto à Cidade Universitária, portanto na outra ponta da cidade. Se isto não é matar à nascença a vontade de conhecer a Astronomia, digam-me lá o que será…