maio 10, 2024

A LINHA VERMELHA MUDOU DE CÔR

 


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A LINHA COR DE ROSA - De repente Pedro Nuno Santos e André Ventura deram as mãos e, obviamente por mero acaso, desataram a aprovar em conjunto propostas que contrariam as intenções e planos do Governo. Estão no seu direito e nada impede que se juntem.  No entanto, convirá recordar que para Pedro Nuno Santos,  durante a campanha eleitoral, havia uma linha vermelha em relação ao Chega. Agora, feitas as eleições,  no quadro parlamentar, a linha vermelha deixou de existir e PS e Chega convivem num mapa cor de rosa. Ora isto quer dizer que a partir daqui as críticas de Pedro Nuno Santos a quaisquer entendimentos parlamentares com o Chega soam a falso. Ficamos a saber que aquilo que é vermelho para os outros, é cor de rosa para o PS. Mas este entendimento com o Chega em relação às SCUT mostra uma outra coisa: sem sobressaltos Pedro Nuno Santos passou de líder do regresso da ferrovia para mentor de maior utilização do automóvel. Estes singelos episódios parlamentares entram naquele crescente rol de coisas que levam as pessoas normais a não acreditar no que os políticos dizem. Se não conseguem ser coerentes no que afirmam, como se pode ter confiança no que dizem querer fazer? Pedro Nuno Santos até já sugeriu que, mesmo estando na oposição, consegue tomar mais medidas que o actual Governo. Talvez ele se possa recordar que o PS, ao fim de oito anos de governo, deixou  por resolver as reivindicações de recuperação do tempo de serviço dos professores, o pagamento de suplementos de risco para as forças de segurança, a revisão salarial dos guardas prisionais, os suplementos e horas extraordinárias dos funcionários judiciais e os aumentos e revisão da carga horária de médicos e enfermeiros. Será que se esqueceu disto tudo?


 


SEMANADA - Para que seja possível, nas eleições  europeias de 9 de Junho, votar em qualquer lado o Estado adquiriu 29 mil computadores para os quais são necessários 12.000 técnicos, mas ainda falta contratar 2600 para que exista um em cada mesa de voto, como é obrigatório;  os pagamentos feitos no retalho durante 2023 alcançaram uma média diária de 11,6 milhões de euros; o excedente orçamental do Estado que existia em fevereiro transformou-se em saldo negativo no final de Março, segundo a Direcção Geral do Orçamento; um estudo divulgado na semana passada indica que o futebol contribui para a economia portuguesa com 667 milhões de euros, ou seja 0,26% do PIB; em 2023 as duas ligas profissionais de futebol pagaram 228 milhões de euros entre impostos e segurança social; segundo o INE o sector cultural no seu todo gera um volume de negócios anual superior a 8 mil milhões de euros num universo de 75 mil empresas que empregam quase 200 mil trabalhadores; uma em cada cinco autarquias cobra o valor máximo de IMI; a Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial está parada há seis meses e não tem sequer enquadramento legal para exercer as suas funções; Portugal é o 3º país da UE  com mais infecções hospitalares; apenas 8% dos doentes em hemodiálise  são tratados em hospitais do SNS; mais de 60% dos trabalhadores portugueses por conta de outrem ganham no máximo um salário-base até mil euros, de acordo com os valores declarados à Segurança Social; mais de metade dos crimes sexuais contra menores investigados pela Polícia Judiciária em 2023 foram cometidos no seio da família.


 


O ARCO DA VELHA - A agência para a migração tem 400 mil pedidos pendentes, é alvo de 7600 processos e gera 52 queixas judiciais por dia pelos atrasos na legalização dos migrantes.


 


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VER A SURPRESA  - Arte que não desafia nem surpreende pode ser agradável à vista mas fica-lhe a faltar uma parte importante da sua razão de ser. Quando numa exposição vejo uma obra inesperada, o meu primeiro reflexo é procurar pensar o caminho criativo que culminou naquele trabalho. Nalguns casos não se descortina a razão, noutros percebe-se o pensamento. A exposição que Patrícia Garrido inaugurou esta semana na Sociedade Nacional de Belas Artes, uma peça única que enche por completo o salão nobre do edifício, e que a fotografia aqui publicada mostra parcialmente, é um desafio que nos obriga a procurar as suas origens e é  uma afirmação pessoal de revisitação de memórias, que repetidamente surge na carreira da artista. Numa peça desta dimensão, que só pode ser vista de fora, o visitante é remetido ao papel de espectador  da evocação dessas memórias. Com o título “11 Casas (2024)” esta escultura, feita integralmente em cantoneira metálica, remete para a história de vida da artista, revisitando um tema que lhe tem sido frequente: os espaços que habitou. Aqui, Patrícia Garrido evoca onze das casas onde viveu, recriando os seus espaços  à escala real, misturando-os e fundindo-os num exercício de geometria variável, inspirado em memórias de uma vida, e que parte do desenho para a criação de formas e estruturas que se cruzam e sobrepõem num labirinto. A obra agora apresentada foi construída expressamente para o Salão Nobre da SNBA,  será depois desmontada e pode ser vista só até 1 de Junho. Este é um projecto da Fundação Carmona e Costa, coordenado por Patrícia Garrido e Manuel Costa Cabral.


 


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ROTEIRO - A Galeria Ratton, dedica-se à criação de obras de artistas contemporâneos em azulejo e tem ao longo dos anos mantido colaboração com uma grande diversidade deles. Agora apresenta painéis e azulejos inéditos de Manuel João Vieira e Pedro Proença, sob o título genérico “O Que Faz Falta e a Falta que Faz - 25 de Abril 50 anos” (na imagem). Apresenta também uma selecção de painéis de azulejo de de Bartolomeu Cid dos Santos, João Vieira, René Bertholo e Josephine King. A exposição fica patente até 6 de Setembro na Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C, Lisboa. No MAAT, até 26 de Agosto, pode ser vista no uma mostra de fotografias, vídeos e peças escultóricas do fotógrafo francês Nicolas Floc’h, incluindo uma série que realizou no estuário do Tejo e nos Açores. O MAAT proporcionou a Floc’h  a residência que deu origem ao  mural “A Cor da Água – Rio Tejo”, composto por 408 fotografias das cores da água deste rio – no troço entre Castanheira do Ribatejo e Bugio –, e foi parceiro (com o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, Açores) da campanha que lhe permitiu registar as fontes termais subaquáticas ao largo da ilha de São Miguel. Na galeria Sá da Costa, ao Chiado, Catarina Pinto Leite apresenta até 26 de Maio a exposição “Palimpsesto”, um trabalho de colagens baseadas na recuperação de obras da artista danificadas numa inundação. E em Coimbra prossegue até 30 de Junho a 5ª Bienal com o título “Fantasma da Liberdade”.


 


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UM LIVRO QUE SE COME - Jim Harrison tem uma extensa obra literária, da poesia à ficção, passando pelo ensaio, mas aquilo que o tornou mais popular foi escrever sobre comida. A imprensa norte-americana, onde tanto escreveu sobre restaurantes e gastronomia, chamava-lhe “o poeta laureado do apetite.”Uma Grande Almoçarada” é o livro, agora editado entre nós, que reúne alguns dos seus melhores textos sobre comida, vinhos, e também a felicidade da partilha de uma refeição. Aqui, neste livro, está o relato de um almoço francês que tinha 37 pratos - e que dá o título ao livro - até um texto divertidíssimo sobre as colunas e os críticos de vinhos, as rivalidades entre o vinho branco e o vinho tinto, passando por recordações do seu convívio com outros apreciadores de comida como Orson Welles, Jack Nicholson e Anthony Bourdain. Jim Harrison, que morreu em 2016 aos 79 anos, é autor de três dúzias de livros, além disso escreveu argumentos de cinema, foi crítico literário e fez artigos sobre desporto, viagens e comida - que é o tema que nos traz aqui hoje. Com uma tradução exemplar de Isabel Lucas, o livro inclui 47 dos seus textos mais célebres. Pego no divertido “Apontamentos sobre vinho”, de onde roubo estas linhas: “A prova de vinhos presta-se a comédia, mas o mesmo acontece noutras profissões de grande valor intrínseco, desde cientistas loucos a strippers virtuosas e políticos cheios de boas intenções”. Num outro texto sublinha: “Nunca me contenho à mesa porque é mais divertido comer do que não comer”.E, um pouco mais à frente: “a invenção do supermercado tem sido, de um modo geral, desastrosa para a saúde humana”, para logo a seguir defender os mercados locais, as lojas que vendem boa charcutaria artesanal ou queijos de produtor em vez de pastas fabris - e declara, peremptório, que em Paris preferia os mercados locais às catedrais e museus. A descrição da infelicidade sentida num restaurante com estrelas Michelin, onde lhe serviram um frango sem as respectivas pernas, é outro monumento. Edição Quetzal.


 


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JAZZ COM HARMÓNICA - Se, como eu, são fãs da música que Ennio Morricone compôs para filmes, então aconselho que procurem “Ennio”, um álbum que reinterpreta alguns dos seus temas mais conhecidos, aqui interpretado pela harmónica de Grégoire Maret e o piano de Romain Collin. O primeiro dos 12  temas é o clássico “Once Upon a Time in America”, bem acompanhado por “ A Few Dollars More”, “The Good, The Bad And The Ugly”, “Once Upon a Time in the West”, “ Cinema Paradiso”, “ The Sicilian Clan” ou “Man With a Harmonica”, entre outros. Maret é um discípulo de Toots Thielemans, o músico que levou uma instrumento muitas vezes considerado um brinquedo, como a harmónica, para a primeira linha do jazz. Grégoire Maret trabalha regularmente com o pianista Romain Collin, com quem já havia gravado um outro álbum de versões, em 2020, “Americana”. No novo trabalho Maret e Collin percorrem repertório de Ennio Morricone, com temas das numerosas bandas sonoras que compôs. É muito curioso ouvir como os dois músicos dialogam entre a harmónica e o piano, desenhando versões que não são cópias dos originais, antes criam um universo sonoro distinto do ambiente orquestral criado por Morricone. Num dos temas, “Se Telefonando”, surge um dueto vocal entre Cassandra Wilson e Gregory Porter. E em todo o disco é patente a forma como Grégoire Maret e Roaming Collin transportaram para o jazz o trabalho de um compositor que admiram. Disponível nas plataformas de streaming.



DIXIT - “Qualquer fiscalista dirá que a tributação empresarial é o maior obstáculo ao crescimento económico e ao aumento dos salários em Portugal” - Manuela Ferreira Leite



BACK TO BASICS - “Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.” —  Albert Camus



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

maio 03, 2024

E SE OLHÁSSEMOS PARA O FUTURO?

 


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TRUQUES & FALSIDADES - A próxima campanha eleitoral já começou. A arrancada pré-eleitoral é notória na forma de actuação quer de governo quer da oposição. Qualquer situação transforma-se num caso, o que ontem se disse esquece-se hoje e amanhã é contrariado. Trabalha-se para a urna de voto , o que é bem diferente de trabalhar para o futuro do país e dos portugueses. Vivemos demais em função da propaganda e de menos em função dos resultados. Este país é avesso a reformas e sobressaltos quando se mexe na situação instalada. As reivindicações, por mais justas que sejam, fazem ressaltar o que ficou por fazer para trás - o eterno adiar de resolução de problemas e ausência de planos de futuro. Empurrar com a barriga foi o mantra de António Costa e do seu executivo durante a quase década em que brincou aos governos. Fez um primeiro ciclo de reversão de medidas do Governo anterior - o que é sempre uma característica dos anti-reformistas - e um segundo de inacção, outra marca genética do exercício de poder pelo PS. Resultado: noves fora nada. As sondagens feitas a propósito dos 50 anos do 25 de Abril mostram preocupações de grande parte dos portugueses sobre a situação em que estamos e as perspectivas de futuro. E mostram uma ainda maior preocupação pelo comportamento dos políticos, a corrupção que permitem, a mentira que praticam, o cinismo que ostentam, a falsidade que mostram, a vaidade e a presunção  que exibem- enfim o leque de características que infelizmente se tornou no emblema de boa parte da classe política e que é o alimento dos populistas. Pensar no futuro é um programa que ninguém quer, entretidos que andam na futura caça ao voto.


 


SEMANADA - A oferta de casas novas só cobre 17% da procura e essa é uma das razões dos preços do imobiliário; em 130 dos 308 concelhos portugueses o preço das casas aumentou mais de 10% em 2023; o Relatório Anual de Segurança Interna de 2023 registou uma subida de 67% nas queixas do crime de furto e uso abusivo de cartões bancários de débito e crédito, com um total de 10 386 ocorrências, face às 6219 de 202; na criminalidade escolar registou-se uma subida de 16% face a 2022, tendo sido registadas 5380 ocorrências; a violência praticada por gangues juvenis teve  6756 ocorrências e 2048 detenções, os números mais altos da última década; no ano passado o número de portugueses que viajou para o estrangeiro cresceu 21,5% e ao todo foram feitos por portugueses noutros países  pagamentos com cartões bancários  no valor de 6,4 mil milhões de euros; 35% do milhão de estrangeiros residentes em Portugal são brasileiros, o que os torna na principal comunidade imigrante; no indicador da OCDE que tem como referência a carga fiscal aplicada a um trabalhador solteiro e sem filhos, a ganhar o salário médio, Portugal subiu um lugar e ocupa agora a oitava posição nas três dezenas dos países da lista; as exportações portuguesas no primeiro trimestre caíram 4,2% em termos homólogos; em fevereiro os proveitos gerados pelo turismo em Portugal aumentaram 13% face ao mesmo período do ano passado, atingindo 276,4 milhões de euros; em 2023 Portugal foi o país que perdeu mais área de cultivo de vinha, uma diminuição de 11 mil hectares, tendo agora 182 mil hectares de área vitícola.





O ARCO DA VELHA - A segurança social tem 50 inspectores para fiscalizar 2606 lares de idosos registados, e existem para realizar as inspecções 22 viaturas, das quais 17 têm uma média de 24 anos de utilização e nunca estão todas operacionais.


 


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O OLHAR DE PAULA REGO - Até 6 de Outubro a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, apresenta “Manifesto”, uma exposição que evoca a primeira mostra individual de Paula Rego, realizada em 1965 na SNBA. O título da exposição baseia-se na obra “Manifesto (for a lost cause)”, que era reproduzida na capa do desdobrável dessa primeira exposição individual da artista (e na imagem nestas páginas). A exposição original incluía 19 obras, criadas entre 1961 e 1965, mas agora estão apenas expostas 18, porque uma das pinturas, "Cães de Barcelona", pintada em 1964, uma peça preferida da artista, fazia parte da colecção pessoal de João Rendeiro e está desaparecida desde 2008 - mas na exposição está patente uma reprodução dessa obra. Para além da peça que dá o título à exposição são apresentadas outras obras de referência da exposição original, como “Cães famintos” (1963), "Alegoria Britânica" (1962-63), "Tarde de Verão" (1961) e "Fevereiro 1907 (O Regicídio)” (1965). A exposição“Paula Rego: Manifesto” tem curadoria de Catarina Alfaro e Leonor de Oliveira e, para ressaltar a importância daquela exposição no panorama cultural português da época, integra documentos daquele período relacionados com a organização e a recepção crítica da mostra de 1965. Algumas das obras desta exposição foram localizadas apenas recentemente, depois de anos em paradeiro incerto. As obras em empréstimo são provenientes das coleções de instituições nacionais como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação de Serralves, além de coleções particulares portuguesas, inglesas e francesas. A recriação da exposição original ocupa apenas 1 das 8 salas da Casa das Histórias Paula Rego e a segunda parte da exposição apresenta cerca de 60 obras que mostram o olhar de Paula Rego, sobre temas como o contexto pós-revolucionário, assim como a intervenção cívica da artista no seu país de origem. 


 


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ROTEIRO - O Padrão dos Descobrimentos tem produzido interessantes exposições, suportadas em trabalhos de investigação. Até 30 de Novembro poderá agora ver Álbuns de Família: fotografias da Diáspora Africana na Grande Lisboa”, com curadoria científica de Filipa Lowndes Vicente e Inocência Mata (na imagem). São “álbuns de família” com as imagens que os portugueses afrodescendentes e os africanos registaram de si próprios e das suas comunidades desde 1975, data das independências dos países africanos de colonização portuguesa. No edifício do Antigo Recolhimento das Merceeiras, na rua Augusto Rosa, 15, em Lisboa, o fotojornalista Mário Cruz, duas vezes premiado no World Press Photo e fundador da galeria Narrativa, apresenta “Roof” que resulta de uma investigação feita ao longo últimos dez anos, em que fotografou com regularidade prédios, fábricas, escolas que têm em comum o facto de estarem devolutos há muito tempo e que por vezes servem de abrigo a pessoas num contexto de falta de habitação condigna. Este trabalho deu origem a um livro e a esta exposição. Em Setúbal e até final de Maio a Casa da Cultura em Setúbal apresenta uma exposição de pinturas de Pedro Chorão. E por fim, por convite das Galerias Municipais de Lisboa e do Atelier-Museu Júlio Pomar, a artista Luisa Cunha realizou uma peça de som para as entradas dos seis Espaços de Arte Contemporânea da EGEAC: Galeria Avenida da Índia, Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, Galeria da Boavista, Galeria Quadrum, Pavilhão Branco e Atelier Museu Júlio Pomar. A instalação desenvolve-se em seis andamentos, e o usufruto completo da obra só é possível com a deslocação aos seis espaços onde se encontra instalada.


 


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POLÍTICA MODERNA - Rui Calafate deu os primeiros passos no jornalismo em 1995, começou a comentar a actualidade no extinto “Semanário”, a cuja redacção pertenceu, em 1996. Depois criou e dirigiu a revista “Política Moderna” entre 1998 e 2001. Mais recentemente fez comentário político, escrito, no jornal digital “ECO”, escreve actualmente no semanário “Económico” e, em televisão, é comentador na CNN desde o início de 2021. Além disso é um dos pioneiros de podcasts com  “Maquiavel para Principantes”, que continua a gravar. O seu primeiro livro foi publicado no final do mês passado, “10 Mandamentos da Política”. Nas palavras do autor o livro é sobre “luzes e sombras, verdade e mentiras, mitos e caricaturas” e aborda “casos lapidares sobre imagem, comunicação e poder”. Ao longo do livro combinam-se as observações sobre política, com evocações de filmes ou livros, mostrando o fascínio que o autor tem pelo cinema  e pela literatura. Não é por acaso que Calafate evoca uma cena de “Pedro, o Louco”, de Godard, na qual Samuel Fuller afirma: “O cinema é como um campo de batalha. Amor, ódio, acção, violência, morte. Numa palavra: emoção”. E Calafate acrescenta: “Troquem a palavra emoção por política e vão ver que é exactamente a mesma coisa”. Neste tempo em que o comentário político é omnipresente (segundo um estudo do Media Lab do ISCTE o número dos comentadores políticos nas televisões aumentou 47% nos últimos oito anos, de 53 para 78) , os “10 Mandamentos da Política” mostram como “o poder e a política continuam a ser fascinantes demais para impedir a ambição humana”. Uma leitura especialmente recomendável nestes atribulados tempos que vivemos. Muitos dos políticos no activo fariam bem em ler com atenção o que vem nestas páginas. Edição Oficina do Livro.


 


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UM OUTRO PIANO  - “Silent Listening”, o primeiro álbum a solo do pianista Fred Hersch para a editora ECM, foi gravado em Maio do ano passado e publicado já neste mês. Ao longo de 50 minutos e 11 temas, Hersch percorre um repertório diversificado de originais seus mas também de versões de clássicos, que mostram uma vontade de experimentar novas sonoridades e de estender os limites do piano solo. Entre os temas clássicos estão logo a faixa de entrada, popularizada por Duke Ellington, “Star Crossed Lovers”, The Wind” de Russ Freeman, “Winter of my Discontent” de Alec Wilder e, sobretudo, “Softly as in a Morning Sunrise”, uma balada escrita para a opereta “New Moon” e que teve dezenas de interpretações de nomes que vão de John Coltrane a Miles Davis, passando por Sonny Rollins, Chet Baker ou o Modern Jazz Quartet. A interpretação de Hersch desta balada é um exemplo de como se pode recriar um tema clássico sem o trair. As sete composições originais mostram o interesse que o pianista tem na improvisação, que se ouve na faixa-título “Silent, Listening”, mas também contida dentro de um conceito pré-estabelecido, como é tão bem mostrado na deliciosa “Little Song” que já tinha gravado anteriormente com o trompetista Enrico Rava. O álbum está disponível em CD, vinil e streaming. 


 


DIXIT - “Quem quer julgar, hoje, os reis e os escravos de há séculos, quer hoje qualquer coisa. E não se trata apenas de bons sentimentos; quer poder, bens e poleiro” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Saber esperar só custa a primeira vez” - Miguel Esteves Cardoso



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abril 26, 2024

LIBERDADE E JUSTIÇA - TEMOS UMA, FALTA A OUTRA

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A INJUSTIÇA - Antes de 1974 a justiça serviu descaradamente o poder político, protegendo o Governo e combatendo a oposição. Nos últimos 50 anos a situação foi-se invertendo progressivamente, até se chegar ao actual estado das coisas, em que a justiça tenta - e por vezes consegue - competir com o poder político,  querendo ultrapassar a legitimidade do voto. Justiça e política andam de mãos dadas em Portugal há muitas décadas, mesmo que por vezes a posição relativa de ambas se inverta. Aquilo a que assistimos hoje é a um misto de arrogância, incapacidade e ineficácia, com abuso de direitos por quem os devia defender. O equilíbrio entre a defesa e os direitos dos magistrados e dos cidadãos deixa estes últimos à mercê do subjectivo. Decisões contraditórias, prazos rebentados, sentenças polémicas, o rol é extenso. Como António Barreto sublinhou há dias: “De todas as suas decisões, os magistrados deveriam esclarecer, argumentar e prestar contas. Mas não o fazem. Julgam ser seu direito não o fazer. Consideram que as sentenças e os acórdãos bastam – o que não é verdade.” Os magistrados confundem demasiadas vezes independência com autogestão e desresponsabilização. Há uns que cultivam o estrelato e a sua mediatização. Assistimos regularmente a operações que são mais perseguições que investigações, situações criadas para mostrar nas televisões buscas em directo. Insinuam-se acusações, não se faz depois o balanço do que aconteceu para que os processos ruíssem. Aos poucos vamos desacreditando dos tribunais, desconfiando dos juízes. Ao fim de 50 anos de democracia, muita coisa melhorou, excepto uma - continuamos a ter uma justiça que levanta suspeita. Não é bom sinal e é o problema estrutural mais sério da nossa democracia.


 


SEMANADA - Um estudo recente indica que o 25 de Abril de 1974 é considerado o dia mais importante da História de Portugal para 65% dos portugueses; no mesmo estudo, promovido pelo ICS/ISCTE ,  56% dos inquiridos consideram que se devem celebrar as datas de 25 de Abril e 25 de Novembro; Salazar, Salgueiro Maia, Mário Soares, Otelo e Ramalho Eanes são, por esta ordem os cinco nomes de figuras públicas que os portugueses mais associam à época do 25 de Abril; um em cada três empréstimos à habitação tem risco de incumprimento; desde 2021 já se verificaram 127 mortos em acidentes de tractor; nos últimos cinco anos foram registados 5600 processos de contraordenação por crimes ambientais; desde o início da Legislatura (que começou a 26 de março), já deram entrada nos serviços parlamentares 122 iniciativas legislativas; a Iniciativa Liberal (IL) é o partido que mais projetos de lei produziu (21), seguido pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP; a procura de estabelecimentos de ensino privados tem vindo a aumentar e as principais razões apontadas pelos encarregados de educação para não quererem as escolas públicas são falta de professores, más condições físicas dos edifícios  e sentimento de insegurança nos recreios por falta de assistentes operacionais; a agência anticorrupção, criada em 2023, tem menos de metade do seu quadro preenchido, só executou 37% do orçamento que lhe foi atribuído e até agora não aplicou qualquer multa; uma sondagem recente indica que a  ausência de resultados no combate à corrupção constitui a maior desilusão dos portugueses com a política.


 


ARCO DA VELHA - O pior retrato da evolução do regime e da opinião que os cidadãos têm sobre ele é o estudo do ISCSP que indica que, hoje em dia, 47% dos portugueses apoiariam um “governo de um líder forte, que não tenha de se preocupar com eleições”.


 


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HÁ FESTA NA CENTRAL  - “Hoje soube-me a pouco”, título de uma canção de Sérgio Godinho,  foi o nome escolhido para uma exposição que assinala os 50 anos do 25 de Abril de 1974, e que está patente no edifício da Central Tejo, do MAAT, até 26 de Agosto. A exposição reúne os trabalhos de cerca de 40 artistas, a maioria provenientes da colecção da Fundação EDP, outros de colecções privadas e institucionais, além de duas obras inéditas feitas propositadamente para esta ocasião: uma escultura de Inês Botelho, intitulada  “A revolucionada estática e a revolucionada revolucionária”, e uma pintura de Pedro Cabrita Reis, “Prometheus V”, um óleo sobre tela de grandes dimensões, pintado já em Abril deste ano (na imagem). Prometheus, um dos gigantes Titãs da mitologia grega, é um símbolo de revolta e liberdade. A exposição inclui várias das principais figuras da arte contemporânea portuguesa dos anos 1970 e 80, cruzando gerações, com nomes que vão de Ana Jotta a Gabriel Abrantes, passando por Maria Beatriz, Carlos Bunga, Fernando Calhau, Alberto Carneiro, Pedro Casqueiro, Lourdes Castro, Rui Chafes, Patrícia Garrido, Álvaro Lapa, José Loureiro, Paulo Nozolino, António Palolo, Paula Rego, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa e Xana, entre muitos outros. Na parede de entrada os visitantes são acolhidos por uma montagem livre de obras de desenho, aguarela, pintura, colagem e vídeo, todas produzidas num período curto que abarca o antes e o depois do 25 de Abril de 1974. Nessa parede, que inclui trabalhos de Júlio Pomar, José Escada, António Sena, Eduardo Batarda, Jorge Martins e Ana Hatherly, entre outros, algumas obras fazem referência directa ao golpe de estado que derrubou a ditadura, outras surgem como comentários e outras ainda são testemunhos de alegria e esperança. A curadoria da exposição é de João Pinharanda e Sérgio Mah.


 


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ROTEIRO - Até 20 de Dezembro poderá ver no Palácio Anjos, em Algés, a maior exposição da obra de João Abel Manta, um dos maiores cartoonistas portugueses que antes e depois de 1974 publicou regularmente trabalhos emblemáticos da situação político-social portuguesa em jornais como o “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “O Jornal”. Aqui reproduzimos um desses trabalhos, “Um Problema Difícil”, no qual um grupo de figuras, de Marx a Lenine, passando por Gandhi ou Sartre se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. Arquitecto de formação, cartoonista por paixão, João Abel Manta desenvolveu ao longo dos anos um trabalho pluridisciplinar  que englobou pintura, desenho, ilustração, design gráfico, concepção de painéis de azulejos e tapeçarias, cenografia e figurinismo para teatro. A exposição mostra muitos trabalhos inéditos do arquivo pessoal do artista. Em Coimbra, até 30 de Junho, no Convento de Santa Clara A Nova e noutros espaços da cidade, decorre a 5ª edição da Bienal, este ano sob o título “Fantasma da Liberdade”. Com curadoria de  Ángel Calvo Ulloa e Marta Mestre a Bienal decorre em torno da ideia de liberdade e as estratégias da arte contemporânea para a desafiar. Finalmente, de regresso a Lisboa, “Amor I Love You” é o título da exposição que reúne quatro dezenas de trabalhos de 13 artistas, entre os quais Sara Bichão, Nádia Duvall, Daniela Krtsch e Carla Cubanas, entre outros, que ficará exposta até 8 de Junho na Galeria P28, Pavilhão 31 do complexo do Hospital Júlio de Matos.


 


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O POETA DE PORTUGAL  - Esta é uma boa semana para falar da indiferença com que o Estado português tem encarado o quinto centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões, o grande poeta da epopeia dos descobrimentos, uma das maiores figuras da literatura portuguesa e um dos grandes poetas da tradição ocidental. O vento de reescrita da História que varre muitos bens pensantes leva-os a querer ignorar Camões. Boa altura portanto para ler o que sobre Camões escreveu  uma das maiores figuras intelectuais do Portugal do século XX, insuspeito de ser simpatizante do regime anterior. Jorge de Sena fez vários ensaios sobre o poeta, agora reunidos num livro intitulado “O Pensamento de Camões”. O Camões que Jorge de Sena nos oferece é um Camões oposto ao das leituras dos políticos. O que Jorge de Sena faz, como se tivesse previsto o que iria acontecer em 2024, é resgatar Camões da actual perseguição ideológica, para mostrar aos leitores um poeta de uma grande erudição, «o maior poeta em português». No livro “O Pensamento de Camões”, que recupera quatro textos de Sena ele afirma que a lírica camoniana «transcende em muito o âmbito nacional de um destino histórico não-cumprido do seu mais alto sentido, para ser, na verdade, um aviso e um apelo que se dirige a toda a Humanidade». Jorge de Sena ensina-nos que Camões «deve ser lido nas entrelinhas e como um nosso contemporâneo»  e mostra-nos  um Camões  acima da pequenez de orgulhos nacionalistas e piedade cristã. Um Camões que nos fala «como só grandes poetas falam, acerca de angústias, esperanças e desesperos muito parecidos com os de hoje». Edição Guerra & Paz, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.


 


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A MUDANÇA - Hoje trago um disco de 1971, reeditado em 2017, actualmente disponível nas plataformas de streaming, que foi um marco na música popular portuguesa. Trata-se do álbum “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco. O nome é inspirado num poema de Camões, mote para uma canção que é a última faixa do disco. Álbum de estreia de José Mário Branco, então exilado em França, conta com poemas de Natália Correia (“Queixa Das Almas Jovens Censuradas”), de Alexandre OŃeill (“Perfilados de Medo”), do já citado poema de Camões, dois do próprio José Mário Branco (destaco “Nevoeiro”) e de quatro de Sérgio Godinho (dos quais destaco “O Charlatão”). Pelas palavras cantadas neste disco respirava-se o desejo de mudança, o diferente correr dos tempos, conjugando a lírica de Camões com um país que já estava sobressaltado. Musicalmente o disco era uma revolução, arranjos completamente diferentes do que era usual, na época, na música portuguesa. Não por acaso, no mesmo ano, coube a José Mário Branco fazer a produção e os arranjos de “Cantigas de Maio”, de José Afonso, no mesmo estúdio francês, em Hérouville, onde tinha sido também gravado “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades”. E era neste “Cantigas de Maio” que estava “Grândola Vila Morena”, um arranjo igualmente inesperado, canção que para sempre havia de ficar ligada ao 25 de Abril. José Mário Branco gravou muitos outros discos (destaco “Ser Solidário” e essa canção extraordinária que é “Inquietação”), fez bandas sonoras para teatro e cinema, foi um dos mais importantes produtores responsáveis pela reformulação do fado, nomeadamente graças ao seu trabalho com Camané. 


 


DIXIT - “Em Portugal somos excelentes a respeitar todas as liberdades e garantias, menos esta: que se faça justiça em tempo útil para quem é rico e poderoso” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos.” —  Charles Louis Montesquieu 


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abril 19, 2024

PARA QUE SERVE A LIBERDADE?

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DESIGUALDADES - Todos o país prepara as comemorações do golpe de estado que derrubou a ditadura há 50 anos. É uma data importante para todos os que prezam a Liberdade. Mas isto acontece numa altura em que cada vez mais gente mostra desagrado por algumas opiniões e há até quem diga sem rodeios que o melhor seria silenciar algumas. Ora, o que o 25 de Abril trouxe foi liberdade de expressão, liberdade de opinião, cada um poder dizer o que lhe vai na cabeça sem temer por isso ser perseguido, desde que respeite a liberdade dos demais. Na realidade antes de Abril de 1974 liberdade de pensamento existia, dependia de cada um o que com ela fazia. Uns mostravam o que pensavam e eram perseguidos. Outros calavam-se e eram tolerados. Tenho reparado que muitos dos que hoje mais gritam contra as opiniões dos outros nunca souberam o que era dantes arriscar dizer o que pensavam. Os que se intitulam agora guardiões do templo têm da liberdade uma noção de posse exclusiva, não respeitam a diferença, fomentam a desigualdade como se a Liberdade fosse exclusiva de alguns. Uma das grandes mistificações nascidas, muito por obra e graça do PCP, é  confundir o exercício da liberdade com a defesa do socialismo. De tal maneira que ainda hoje se considera que os que pugnam pelo socialismo, nas suas diversas formas, são os únicos defensores  da liberdade, enquanto os que são contra a ideia do socialismo são classificados de inimigos da liberdade e, para alguns, são até considerados fascistas. Ora acontece que não se pode defender a liberdade pretendendo que deve ser total para uns e limitada para outros. E tão pouco é coerente celebrar a  democracia agitando no ar o espectro da censura de ideias. 50 anos depois de 25 de Abril de 74 a última coisa que precisamos é de polícias do pensamento e da liberdade de expressão.


 


SEMANADA - Em Portugal estão vagas 723 mil casas e há 1,1 milhões de residências secundárias; segundo o FMI, entre os estados da zona Euro, Portugal foi o país onde o custo dos empréstimos à habitação mais aumentou; em 2023 o montante angariado por startups portuguesas caíu 76%; no ano passado, foram apresentados 904 pedidos de patente de invenção, 35,9% dos pedidos  tiveram origem na região Norte e a Universidade de Aveiro liderou a lista com 34 patentes apresentadas; Portugal é o terceiro país da União Europeia com menos homens por cada 100 mulheres, a par da Estónia, e apenas ultrapassado pela Letónia e Lituânia; o Alentejo e o Algarve são as duas regiões onde se verificam maior número de reprovações dos alunos do 1º ciclo e nessas regiões 8%  reprovaram nos primeiros quatro anos de escola; este ano registam-se 54.454 vagas nos cursos do ensino superior, um novo máximo histórico; com mais de meio ano lectivo corrido há cerca de 32 525 alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina e Lisboa, Setúbal e Faro lideram listas de horários por preencher; no ano passado desapareceram 4501 veículos em Portugal; metade do poder de compra dos 278 municípios de Portugal continental está concentrado em 26 concelhos, que representam apenas 6% da área total do continente, mas concentram 48% da sua população residente, 28% do parque habitacional, 42% das dependências bancárias, 48% da atividade do Multibanco, 46% dos estabelecimentos comerciais, 60% dos registos de automóveis e 44% do consumo de eletricidade.


 


O ARCO DA VELHA - Entre os dias 12 e 14 de abril, a Autoridade Marítima Nacional registou o salvamento de 249 pessoas e só na primeira quinzena deste mês, já se contam 17 vítimas mortais por afogamento. 


 


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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - Até 29 de Setembro o Museu de Serralves apresenta “Yayoi Kusama: 1945 -hoje”, uma mostra que celebra o 95º aniversário da célebre artista japonesa e que é a maior retrospectiva da sua obra jamais realizada. A exposição foi concebida e organizada pelo M+, de Hong Kong, em colaboração com a Fundação de Serralves e o Museu Guggenheim de Bilbau. Yayoi Kusama tornou-se uma referência da arte contemporânea e ao longo das últimas sete décadas refinou uma singular estética pessoal, a par de uma filosofia de vida muito própria e de um posicionamento vanguardista. A obra de Kusama mostra aquilo que no seu entendimento é o espaço ilimitado, associando reflexões sobre os ciclos naturais de regeneração. “Yayoi Kusama: 1945 — Hoje” narra a história da vida e obra da artista, destacando o seu desejo de interconexão e as interrogações sobre a existência que orienta a sua criatividade. Com cerca de 160 trabalhos, incluindo pinturas, desenhos, esculturas, instalações e materiais de arquivo, esta exposição explora a carreira de Kusama desde os seus primeiros desenhos, feitos na adolescência durante a Segunda Guerra Mundial, às suas obras de arte imersivas mais recentes. Organizada cronologicamente e por temas, a exposição percorre toda a carreira da artista, dividida por grandes tópicos: Infinito, Acumulação, Conectividade Radical, Biocósmico, Morte e Força de Vida. “Yayoi Kusama: 1945 -hoje” tem curadoria de Doryun Chong e Mika Yoshitake, com a colaboração de Isabella Tam e a sua apresentação em Serralves contou com o acompanhamento e apoio da curadora Filipa Loureiro.


 


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ROTEIRO - Em Setúbal, na Casa da Avenida (Avenida Luísa Todi 286) pode ver até 26 de Maio “Intimidade”, uma exposição de fotografias de Luísa Ferreira (na imagem); na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27), até 4 de Maio, fotografias de António Júlio Duarte, sob o título genérico “Rumble Fish”;  no espaço Avenidas (Rua Alberto de Sousa 10A) pode ver até final de Maio a exposição "Rua da Beneficência, 175" que recorda os concertos realizados no Rock Rendez Vous, com fotografias de  Rui Vasco, Peter Machado, Pedro Lopes, José Faísca, Fred Somsen, Céu Guarda, e Álvaro Rosendo e que são a base para o livro “Rock Rendez-Vous, Uma História em Imagens”, coordenado por Luís Amaro e com textos de Ana Cristina Ferrão e Pedro Félix;  na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C), até 8 de Junho, “Lisboa, dez fotógrafos- uma escolha improvável” mostra trabalhos de nomes como António Homem Cardoso, Fernando Ricardo, Marc Sarkis Gulbenkian, José Manuel Costa Alves ou Luís Pavão, entre outros, e ainda fotografias vintage da cidade; até sábado  20 de Abril,  ainda pode ver uma  exposição de obras de Rui Sanches, “Espaços & Corpos”, no Arquivo Aires Mateus, (Rua Silva Carvalho 175). Rui Sanches baseou-se em plantas de espaços que de alguma forma lhe são familiares e em desenhos anatómicos de quando estudou Medicina. As obras, desenhos, pinturas e uma escultura foram feitas entre 2018 e 2023.


 


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UM ROMANCE PARA ESTES TEMPOS - Leram algum escritor turco recentemente? Pois eu também não tinha lido até encontrar “Pedra e Sombra”, de Burhan Sönmez, que é considerado como um dos mais inovadores autores da literatura turca e curda actual. Algumas das análises sobre a sua obra apontam para comparações de Burhan com realistas mágicos como Borges e García Márquez. Outros, como o diário parisiense “Le Figaro” , escrevem que “Pedra e Sombra”  “põe em cena, através de uma arte narrativa estrondosa, personagens cujos destinos se enlaçam com a tumultuosa história da Turquia do século XX.” Na realidade “Pedra e Sombra”  é um romance épico que traça o retrato de uma sociedade complexa, fruto do legado de cristãos, muçulmanos sunitas, dervixes, turcos, curdos, arménios e gregos. Neste romance Burhan Sönmez elabora uma construção narrativa com solavancos temporais de séculos, décadas e até mesmo de horas dentro de um único dia, imprimindo um ritmo e um mistério invulgares. «Quem não tem memória da sua infância não pode conhecer-se a si mesmo … Perder a própria terra quer dizer perder a memória», lamenta-se o protagonista desta história, homem simples, mas de profundo entendimento da condição humana. São dele também estas palavras, tão actuais hoje em dia: «A guerra vira a vida de pernas para o ar. Dá cabo das famílias, das cidades e dos estados. Depois, um dia acaba, mas nessa altura já nada é como antes». Esta proximidade geográfica e histórica aos mais recentes acontecimentos no médio oriente são uma razão suplementar para ler este romance. A tradução é de  J. Teixeira de Aguilar e a edição é da Livros do Brasil.


 


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UM TRIO INESPERADO - Fui ouvir “Owl Song” graças a um elogio que li sobre o disco. Já tinha ouvido alguma coisa de Ambrose Akinmusire, um trompetista e compositor americano nascido em 1982. Os seus primeiros passos no Berkeley High School Jazz Ensemble despertaram a curiosidade do saxofonista Steve Coleman que o convidou a integrar o seu grupo Five Elements numa digressão europeia. No regresso dedicou-se a aperfeiçoar os seus conhecimentos em algumas das maiores escolas de jazz nos Estados Unidos, em Nova Iorque e Los Angeles. Em 2008 gravou o seu primeiro disco e regressou a Nova Iorque onde tocou com alguns dos mais importantes nomes do jazz contemporâneo - Vijay Iyer, Aaron Parks, Esperanza Spalding ou Jason Moran. “Owl Song” é o seu oitavo disco em nome próprio e aqui escolheu dois nomes incontornáveis para o acompanhar: Bill Frisell na guitarra e Herlin Riley na bateria. É um trio absolutamente fora de série, os músicos dialogam uns com os outros com uma naturalidade impressionante e o trompete de Ambrose Akinmusire cria uma atmosfera musical única, demonstrando a razão pela qual, há já alguns anos, foi premiado e reconhecido como um dos mais relevantes trompetistas actuais. A guitarra de Frisell une-se ao trompete numa combinação inesperada , com o suporte certeiro da bateria de Riley. o tema título, “Owl Song”, nas suas duas versões, mostra isso mesmo, a fusão das sonoridades da bateria, guitarra e trompete, criando uma música comovente, empolgante e na realidade inesquecível. É um dos melhores discos que ouvi nos últimos meses. Um obrigado a Miguel Esteves Cardoso, que numa recente crónica me fez descobrir este trabalho. Edição Nonesuch, disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Sem profundas mudanças nas oligarquias partidárias, do PSD e PS, não se vai a lado nenhum e essas mudanças nos partidos não se dão porque não existem forças endógenas para o conseguir. Quem mais precisa dessa força é o centro político, e o partido onde ela é mais necessária é o PSD.” - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “A desobediência, aos olhos de quem estudou História, é a virtude original do homem. É através da desobediência e da rebelião que se tem construído o progresso” - Oscar Wilde.


 


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abril 12, 2024

CONTEÚDOS RIGOROSAMENTE VIGIADOS

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A COMUNICAÇÃO - Num curioso regresso ao passado o novo Governo retirou a comunicação social da tutela do Ministério da Cultura e passou-a para o centro político do executivo, na dependência do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Pedro Duarte, um dos pesos pesados do núcleo duro de Luís Montenegro. Esta área passa a tutelar directamente a RTP, a Agência Lusa, e o enquadramento regulamentar e legal de um sector que é maioritariamente privado. Os argumentos para a mudança, ainda não enunciados publicamente, podem surgir como bondosos - por exemplo criar mecanismos que ajudem os mídia a ultrapassar a crise existente; mas podem também querer dizer uma maior interferência política - e não só económica - no sector, nomeadamente nas duas empresas acima referidas, de que o Estado é accionista. Creio que a actuação do Estado nesta área devia dar prioridade à nossa presença num mundo digital fortemente audiovisual, garantindo a existência de conteúdos que proporcionem a salvaguarda do peso da língua e cultura portuguesas nesse mundo, em clara ligação com o Instituto do Cinema e Audiovisual, ICA e com os privados do sector. E sinceramente, creio que se for dada importância a esses conteúdos, faz mais sentido a localização desta área na Cultura que nos Assuntos Parlamentares. As eventuais medidas de apoio aos privados têm mais a ver com uma política de incentivos fiscais do que com negociatas entre partidos na Assembleia da República e, na minha opinião, não devem passar por criar uma política de atribuição de subsídios que coloque os privados na dependência do Estado - e tão pouco na utilização geral e gratuita do serviço da Lusa que assim seria rebaixada a um canal de transmissão, sujeita ainda mais a todas as pressões. Mas faria sentido que um dos apoios ao sector tivesse a ver com incentivos à leitura e à compreensão digital, por exemplo, o que nos faz voltar à Cultura. Não me canso de dizer que o accionista Estado deve definir o que quer do serviço público audiovisual - nomeadamente se pretende que ele seja concorrente dos canais privados e que continue a investir mais em transmissões desportivas e concursos variados do que na criação de conteúdos estruturantes, em programas  que fiquem para o futuro e não se esgotem no momento em que são emitidos. 


 


SEMANADA - A concessão de crédito para habitação a famílias de menores rendimentos passou de 32% em 2018 para 3% em 2023; segundo o Eurostat o preço das casas na UE caíu pela primeira vez desde 2013 mas em Portugal continua a subir e regista o terceiro maior aumento da zona euro; as pensões médias encolheram 15% nos últimos 15 anos; 26,% dos pensionistas portugueses optaram por reforma antecipada; o mercado automóvel cresceu 13% no primeiro trimestre do ano em Portugal, para um total de 68.520 novos veículos e os carros com motor eléctrico representaram 16% dos automóveis ligeiros; em Fevereiro foram registados mais 7,2 mil desempregados no país; Em termos de PIB per capita expresso em paridades de poder de compra Portugal está no 18º lugar dos 27 países da UE, já foi ultrapassado pela Eslovénia, República Checa, Estónia e Lituânia e atrás de si tem países como a Polónia, a Hungria e a Roménia; mais de 65% dos jovens portugueses abaixo dos 30 anos recebem menos de mil euros líquidos mensais;  o SNS só presta tratamento adequado de reabilitação a 30% dos doentes que sofreram um  AVC.


 


O ARCO DA VELHA -  Um relatório do Tribunal de Contas acusou o anterior Governo de não ter seguido as suas recomendações em relação ao controlo de falhas nas matrículas dos alunos e na detecção de situações de risco de abandono escolar precoce.


 


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UM VELÁZQUEZ - Na Galeria Principal do Museu Gulbenkian pode ver até 9 de Setembro uma das mais importantes obras do pintor espanhol Diego Velázquez, integrada no programa Obra Visitante, desta vez proveniente da Frick Collection. A pintura do Rei Filipe IV de Espanha era uma das obras favoritas do grande colecionador americano Henry Frick e foi realizada na primavera de 1644, altura em que Velázquez acompanhou o monarca na sua incursão militar na Catalunha. Velázquez terá realizado esta pintura num curto espaço de tempo, em condições pouco habituais, num ateliê improvisado, em Fraga, quartel-general das tropas espanholas. Filipe IV é representado  no papel de chefe militar vitorioso após a reconquista da cidade de Lérida. Uma vez terminada, a pintura foi enviada para Madrid, a fim de representar simbolicamente o rei numa missa na Igreja de San Martín, que celebrou o acontecimento. Calouste Gulbenkian era um grande admirador da obra Velázquez - em 1919, adquiriu uma sua obra, Retrato de D. Mariana de Áustria, quadro que viria a ser doado ao Museu Nacional de Arte Antiga. O  ciclo Obra Visitante do Museu Calouste Gulbenkian, foi inaugurado há dois anos, com outra obra-prima da pintura europeia, o Autorretrato com Boina e Duas Correntes, de Rembrandt, então cedido pelo Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madrid. 


 


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ROTEIRO -  Uma boa surpresa é a exposição “Escavar Uma Nuvem” (na foto), que apresenta trabalhos de Rui Horta Pereira, desenhos e esculturas feitas a partir de materiais recolhidos no Parque Natural da Arrábida,  mostrando vestígios d a acção da Natureza ao longo de anos, que pode ser vista até 24 de Maio na Galeria das Salgadeiras (Avenida dos Estados Unidos da América 53D). No MAAT pode ver “Shining Indifference” com pinturas de Luísa Jacinto e “Mar Aberto”, com fotografias, vídeos e peças escultóricas de Nicholas Floc’h.  De 12 a 27 de Abril Alfredo Cunha apresenta “Viva a Liberdade”, uma exposição de fotografias datadas de 1975 que mostram as paredes ocupadas por cartazes e pinturas de palavras de ordem (Rua Franciso Palha,  56 em Marvila). Se for a Paris poderá ver  até 9 de Setembro, no Centre Pompidou, a exposição “Amadeo de Souza-Cardoso/Sonia et Robert Delaunay- Correspondances”, com curadoria de Sophie Goetzmann, Helena de Freitas e Angela Lampe. Em Algés, no Palácio Anjos, pode ver uma exposição sobre a obra de João Abel Manta, nomeadamente com com pintura, cartoon, ilustração e design gráfico, além de outras áreas que o artista praticou. Em Castelo Branco abriu uma nova Galeria, Castra Leuca Arte Contemporânea, que até 21 de Abril apresenta a exposição “4 Elementos” com obras da ceramista Yola Vale (Rua de Santa Marta 129). E na Galeria Santa Maria Maior, o repórter fotográfico João Marques Valentim apresenta, numa dupla exposição,  imagens que recolheu em 1974, sob o título “ E Depois do Adeus” e “O Insubmisso” (Rua da Madalena 147).


 


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O ANTES E O DEPOIS - Estes dois livros, que hoje vos trago, entram na categoria de auxiliares de memória.  O “Era Proibido”,  de António Costa Santos, recorda o Portugal de antes do 25 de Abril numa nova edição revista e aumentada . Como o seu autor escreve, “os leitores nascidos em democracia poderão duvidar da realidade dos factos que aqui são narrados (...) quem viveu sempre em liberdade terá dificuldade em imaginar um país onde os filmes eram cortados aos bocadinhos para defender os bons costumes e se ía parar à cadeia por ouvir a BBC ou ler um determinado livro. Foi um tempo caricato, mas sem graça. Um tempo que convém reconhecer e recordar, porque, como dizia o filósofo espanhol George Santayana, os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo”, o que não se deseja. O outro livro, “No Princípio Era O Verbo” recolhe alguns dos lemas, pinturas de parede e palavras de ordem, das mais diversas proveniências políticas, que invadiram as ruas depois do 25 de Abril de 1974, com texto de Manuel S. Fonseca e ilustrações de Nuno Saraiva. Manuel S. Fonseca começa por um preâmbulo onde visita e descreve, hora a hora, os incidentes e o suspense da noite de 24 de Abril, da madrugada de dia 25 e e da manhã e da tarde desse dia onde os militares de Abril derrotaram o estado a que isto chegara. A seguir, na segunda parte, saltam as ilustrações de Nuno Saraiva, a mostrar frases, palavras de ordem, diálogos que hoje podem parecer inacreditáveis, mostrando como da direita à esquerda, reacionários e  revolucionários, sociais -democratas e socialistas, comunistas, maoístas e anarquistas cruzaram com palavras a paisagem de Portugal. Os dois livros são editados pela Guerra & Paz.


 


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UM QUARTETO DE EXCELÊNCIA - O saxofonista e flautista Charles Lloyd é um dos nomes de referência do jazz norte-americano. Tinha nove anos quando recebeu o seu primeiro saxofone e já adolescente tocou com músicos de blues como Howlin’ Wolf e B.B. King. Aos 18 anos foi estudar música na Universidade da Califórnia e depois das aulas tocava em clubes de jazz com nomes como Ornette Coleman, Don Cherry, Charlie Haden ou Eric Dolphy.  No início dos anos 60 tocou ao lado de grandes nomes do jazz, mas também de bandas como os Beach Boys. Em 1966, aos 28 anos, formou o seu quarteto com músicos como o baterista Jack DeJohnette, o pianista Keith Jarrett e o baixista Cecil McBee, grupo que fez uma actuação histórica no festival de Monterey desse anos, registada no álbum “Forest Flower”.  Hoje com 86 anos Charles Lloyd continua a tocar e acabou de lançar um novo disco, “The” Sky Will Be There Tomorrow”, que recupera temas antigos que interpretou ao longo da sua carreira e também alguns inéditos e foi buscar para o seu lado músicos como o pianista Jason Moran, o baixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade.  Ao longo de 15 temas e hora a meia o novo álbum mostra como Lloyd é um saxofonista notável, capaz quer de improvisações, quer de seguir as melodias sugeridas pelo piano de Moran, como acontece em “Monk’s Dance”, um tema de homenagem a Thelonious Monk, ou na faixa de abertura, “Defiant, Tender Warrior”. Sugiro que ouçam com atenção o seu saxofone em “The Lonely One” e  a flauta em “Late Bloom”. “The Ghost Of Lady Day” é uma homenagem a Billie Holiday que nasce com o baixo de Grenadier, pontuado pela delicadeza de apontamentos rítmicos de Brian Blade, até o piano de Moran e o sax de Lloyd começarem a dialogar. Este tema é um bom exemplo da qualidade e entendimento dos membros deste quarteto que se juntou para esta merecida homenagem a Charles Lloyd. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “A qualidade do debate político aproxima-se a grande velocidade do mais perfeito cafarnaum” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti” - Vergílio Ferreira


 


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abril 05, 2024

AS MUITAS MANEIRAS DE VER TELEVISÃO

 


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RETRATO MEDIÁTICO - Nos últimos 20 anos as mudanças no panorama de consumo dos media em Portugal sofreram mudanças enormes, propulsionadas pelo crescimento do acesso à internet e do desenvolvimento das redes sociais - recordo que o Facebook nasceu em 2004. Um dos sectores onde se registaram maiores mudanças foi na televisão tradicional, aquele que mais sofreu com o crescimento da internet. No início deste século, os canais generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) captavam a maioria dos espectadores, os canais de cabo eram ainda minoritários e streaming nem vê-lo. Hoje em dia a situação é completamente diferente. Na semana passada apenas 40% dos espectadores de televisão viram canais generalistas, os outros 60 por cento dividiram-se pelo cabo e pelas plataformas digitais, que englobam as gravações automáticas das boxes dos operadores, os videojogos e as plataformas de streaming como o YouTube ou a Netflix. Quer isto dizer que dos cerca de oito milhões que viram televisão apenas cerca de 3,2 milhões viram RTP1, RTP2, SIC ou TVI. No primeiro trimestre as preferências dos espectadores deram o primeiro lugar de audiências à TVI, seguida da SIC, RTP1 e CMTV - o indiscutível líder dos canais de cabo, com mais do dobro da audiência do seu rival mais directo, a CNN. No serviço público a RTP3 aparece no fim da tabela dos 20 canais mais vistos e a RTP2 já nem nos vinte mais aparece. A TDT revela-se a extravagância mais cara do sector, não chega a ser vista por 1% da audiência total o que dá o custo por espectador mais caro do mercado. 


 


SEMANADA - O número de pessoas em casas sobrelotadas aumentou quase 40% em 2023, o maior salto em 20 anos;  a renda mediana das casas fixou-se em 7,71 euros por metro quadrado no último trimestre de 2023, mais 11,6% que no mesmo período de 2022; infiltrações de água, humidade e mau isolamento térmico são problemas que afectam cerca de 30% das casas dos portugueses; pelo menos 30% dos terrenos rústicos estão em nome de defuntos; segundo o Relatório Anual de Segurança a criminalidade atingiu em 2023 o valor mais elevado dos últimos 10 anos; em 2023 foram denunciados 1020 crimes por dia, 42 a cada hora; os crimes com maior expressão são violência doméstica, condução com taxa-crime de álcool, agressões e burla; as agressões a profissionais de saúde quase duplicaram em 2023; segundo o Eurostat Portugal ultrapassou Espanha e Itália e tornou-se no ano passado o segundo país da União Europeia com mais peso de contratos precário; em 2023 registou-se um aumento de 8,2% do tráfego automóvel face a 2022; os gastos das famílias portuguesas durante o período da Páscoa com um cabaz de bens alimentares essenciais registaram, no espaço de um ano, uma subida de cinco euros e, face a 2022, uma subida de mais de 30 euros; os centros comerciais registaram um aumento do volume de vendas em dezembro do ano passado, com um crescimento de 15,9% face a 2019.


 


O ARCO DA VELHA - Em seis anos ficaram por reclamar prémios no valor de quase 68 milhões de euros nos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.


 


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IDEIAS RECICLADAS - O artista plástico Yonamine nasceu em Luanda em 1975, vive na Grécia e trabalha entre Atenas, Luanda, Lisboa e Berlim. O seu trabalho utiliza nomeadamente a pintura, desenho, graffiti, fotografia e vídeo e as suas instalações multimédia assumem-se como diários pessoais e reflexões sobre a História de África e da sua política. Nas suas obras o artista utiliza uma grande variedade de trabalhos que vão desde páginas e fragmentos de jornais, serigrafias, desenhos e colagens reaproveitando materiais como cartazes relativos à cultura popular, cartazes de filmes, retratos de personalidades, de artistas populares e figuras políticas, passando ainda pelo reaproveitamento de material tecnológico de diversas proveniências. Até 11 de Maio pode ser vista na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, a exposição “ ETC - Extraction/Trade/Cashtration” . Esta exposição é também uma evocação e homenagem da obra de Paulo Kapela, um artista congolês que nos anos 90 se fixou em Luanda e que trabalhou com base “na ideia da reciclagem - não só de materiais mas também de pessoas e palavras”, como escreveu Alicia Knock, curadora do Centre Pompidou. Por isso, sublinha, o que Yonamine apresenta  é um novo Kapelismo, ou, nas palavras de Yonamine, “uma fusão de ideias, tendências e temporalidades”. A exposição inclui 15 obras, incluindo uma homenagem a Kapela em coexistência com fontes sonoras e painéis nas paredes. ETC ficará até 11 de Maio na Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33. 


 


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ROTEIRO - Começo este roteiro por recomendar um passeio no Jardim das Amoreiras onde, desde a semana passada, pode ser vista a escultura que Cristina Ataíde criou para assinalar a homenagem à Vigília da Capela do Rato. A partir de duas grandes peças de mármore, unidas entre si por um jogo de peças metálicas que as mantêm em equilíbrio, a obra simboliza um dos marcos mais importantes da resistência dos sectores católicos à ditadura. A escultura prossegue a paixão de Cristina Ataíde pela pedra, aproveita o seu conhecimento na forma de trabalhar o mármore e proporciona um diálogo com o aqueduto das águas livres, que marca aquele local (na fotografia). Outros destaques: no Mercado do Forno do Tijolo, em Arroios, José Pacheco Pereira apresenta a exposição documental “10 Dias que Abalaram Portugal”, a partir do arquivo da Ephemera. Até 26 de Abril Ângela Ferreira apresenta “Campo Experimental”, um trabalho feito em colaboração com Alda Costa na Galeria Rialto (Rua do Conde Redondo 6, apenas às sextas entre as 15 e as 19h30). Em Coimbra, no Centro de Arte Contemporânea, pode ser vista a exposição “Do Lado Mais Visível das Imagens”, que agrupa obras da colecção Norlinda e José Lima e também da Colecção de Arte Contemporânea do Estado com obras de artistas como Ana Cardoso, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Marisa Ferreira e Sandra Baía, entre outros. Na galeria No-No (Rua de Santo António à Estrela 39, pode ver até 25 de Maio “ST#17641”, uma exposição de cinco novas obras de Rui Neiva. Finalmente, na Galeria das Salgadeiras (Avenida dos Estados Unidos da América 53D), está patente até 24 de Maio “Escavar Uma Nuvem”, de Rui Horta Pereira, que agrupa desenhos e esculturas feitas  a partir de materiais recolhidos no Parque Natural da Arrábida.


 


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UM LIVRO ESPECIAL - Depois de ter frequentado a Escola de Belas Artes, em Lisboa, Rui Chafes aprofundou os seus estudos, de 1990 a 1992, na Kunstakademie Düsseldorf com Gerhard Merz onde desenvolveu a sua pesquisa sobre a cultura e arte alemãs. Foi nessa época que traduziu de alemão para português os “Fragmentos de Novalis", que foi editado originalmente em 1992 pela Assírio & Alvim. Há muito tempo esgotado, mesmo depois de  uma segunda edição em 2000, a tradução que Chafes fez de “Fragmentos de Novalis” teve agora nova edição, também bilingue e com 25 dos seus desenhos. Os fragmentos de Novalis seleccionados por Rui Chafes vêm de oito textos diferentes, escritos entre 1797 e 1800 e, citando Chafes, “espalhando fragmentos de ideias, fragmentos de pensamentos, instaura-.se a possibilidade de eles florescerem algures.”  Novalis é o  pseudónimo de Philipp Friedrich von Hardenberg, que viveu entre 1772 e 1801, no tempo do esplendor do idealismo alemão, dos poetas e filósofos do romantismo. Os idealistas e  pensamento estético do Romantismo Alemão tem sido uma das bases de trabalho de Rui Chafes. Na tradução, sempre que possível, Chafes tentou manter “o jogo musical e conceptual das palavras, procurando guardar a limpidez cristalina das palavras de Novalis”. E são também dele estas palavras: «Não sou escritor nem tradutor. Nem tenho essa pretensão. Esta é uma tradução de escultor, não de escritor. Este livro é um projecto completo, pois compreende a tradução de fragmentos de Novalis, por mim seleccionados, acompanhada de um bloco de desenhos que não são, de modo algum, uma forma de ilustração dos textos: eles existem em simultâneo com a tradução. Ambas as coisas se interpenetram aqui, fazendo que este objecto, este livro, tenha o estatuto de escultura.» Termino com um dos escritos de Novalis incluídos no livro: “Toda a ciência se torna poesia - depois de se ter tornado filosofia”.


 


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IMPERDÍVEL  - Rezam as más línguas do mundo pop que Beyoncé terá decidido fazer um álbum baseado no universo da country music depois de, em 2016, ter sido vaiada na gala dos prémios da Country Music Association. Uma cantora negra entrar no terreno da country music, sulista, branca de nascimento, pode parecer algo de estranho - apesar de grande parte dos músicos mais procurados para acompanharem as gravações nos estúdios de Nashville, a capital da música country, serem de origem afro-americana. A country, recordo, é o terreno de origem de Taylor Swift, onde ela cresceu e se fez uma estrela. No fundo Beyoncé entrou a pés juntos nesse mundo da música branca tal como Eminem tinha entrado a pés juntos no terreno do rap, na época dominado por negros. Do ponto de vista de produção este “Cowboy Carter” vai buscar influências a muitos lados e do ponto de vista de distribuição de royalties vai ter uma factura pesada - ela foi buscar inspiração a nomes como Dolly Parton, Willie Nelson, Chuck Berry, Lee Hazelwood, Beach Boys, Hank Cochran e até Beatles. As suas versões de “Blackbird” dos Beatles e “Jolene” de Dolly Parton vão ficar para a história da pop. Mais que fazer um disco country, Beyoncé trabalhou sobretudo a partir da tradição da música cajun, do Louisiana, envolvendo-se aqui e ali nos blues. Nas 27 faixas que se desenrolam em 80 minutos, na versão disponível nas plataformas de streaming, mais longa que as versões editadas em formato físico em CD e LP.  Temas como “16 Carriages” ou “Daughter”, com o pano de fundo de guitarras sobre as quais surge a incontornável voz de Beyoncé são também imagens sonoras do seu enorme talento , assim como o hip hop de “Spaghetti” é o contraponto do country de “Texas Hold’Em”. Este “Cowboy Carter” é um marco da música popular norte-americana. Não o percam - está nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “ O Parlamento está refém de um irresponsável. Esse irresponsável chama-se André Ventura” - Rui Rocha


 


BACK TO BASICS - “A obra precisa do espectador para ganhar existência”- Rui Chafes


 


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março 29, 2024

AS TRANSFORMAÇÕES NO PANORAMA DOS MEDIA

 


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A situação de diversos media, o aperto de tesouraria de alguns dos grandes grupos e as movimentações surgidas nos últimos meses trazem cada vez mais a necessidade de saber quais as áreas onde navegamos. A publicidade é, na minha opinião, o suporte de uma imprensa livre, e não o Estado, com as suas interferências. Basta olhar para os órgãos que têm um grande peso do Estado, como a RTP ou a LUSA, para perceber que não é esse o caminho a seguir.


Neste início de ano em que a publicidade está felizmente a crescer, olhemos para o sector. É com agrado que se constata que, pela primeira vez desde há vários anos, todos os meios estão a crescer em receitas publicitárias, em comparação com o ano anterior. Mas há alguns dados que vale a pena ter em conta, sobretudo se tivermos sempre em conta que o valor da publicidade depende das audiências obtidas, quantitativa e qualitativamente.  Até há muito pouco tempo as estações de televisão generalistas captavam mais de 50% do total do investimento. Os primeiros números deste ano indicam que os canais generalistas captaram 31,6% do investimento publicitário, quase o mesmo da publicidade em meios digitais - e que é de 31,4%. Pelo seu lado os canais de cabo captam 13,1%, e são ultrapassados pelo meio que mais tem crescido, a publicidade de exterior, onde estão os mupis e os suportes de maior dimensão e que atingem já 15% dos investimento, sendo agora claramente o terceiro meio mais valorizado pelos anunciantes. O panorama completa-se com a rádio, que vale 6,5%, o total d a imprensa com apenas 1,8% (já foi o segundo meio mais valioso, logo a seguir à TV) e o cinema com 0,6%.


O crescimento da publicidade no outdoor e no digital tem a ver com a sua eficácia, por razões diferentes. O outdoor porque consegue uma cobertura larga, tocando de forma abrangente  quem anda nas ruas, e o digital porque permite alcançar de forma precisa públicos específicos.  Bastaram duas décadas para virar o universo dos media de pernas para o ar. E é esta a situação em que nos encontramos. O grande problema, sobretudo da imprensa, é que o modelo de negócio antigo, virado para receitas mistas de venda de jornais e revistas e de receitas publicitárias alterou-se radicalmente com o digital. Não é um exclusivo de Portugal, o mundo inteiro anda à procura de um modelo de negócio alternativo.


Mas vamos a mais alguns dados que nos permitem avaliar a complexidade do mundo actual dos media e a alteração dos padrões de comportamento e o surgimento de novos meios que alteram o padrão de consumo de media. Por exemplo, vamos espreitar o que indica o estudo da Marktest sobre rádio relativo a 2023: o auto-rádio é o principal suporte de escuta de emissões de rádio, seguido do telemóvel, depois o computador pessoal enquanto os tradicionais rádios portáteis e aparelhagens de som vêm em último lugar. Outro dado muito interessante é o crescimento dos podcasts, um fenómeno novo que mostra na prática um novo meio. Um estudo da Gfk Metris, feito para o grupo Impresa, indica que o consumo de podcasts cresceu 33% em seis meses. O estudo indica ainda que os consumidores de podcasts gastam em média 1h10 minutos por dia.  Em média cada inquirido no estudo ouve cinco podcasts diferentes, o dispositivo mais utilizado (83%) para ouvir podcasts é o telemóvel, e é em casa (69%) ou no carro (42%) o local onde mais ouvem.  Quase dois terços (65%) ouve podcasts nacionais,  com o humor, atualidade e entrevistas no top das preferências. Segundo as opiniões recolhidas pela Gfk, o que “mais influencia na escolha de um podcast é o tema, seguido do apresentador/autor, sendo que Ricardo Araújo Pereira é a figura pública que mais gostam de ouvir, depois surgem Nuno Markl e Joana Marques”. Por último deixo aqui este registo: em 2023 cerca de 70% dos portugueses usaram redes sociais, um valor acima da média da União Europeia. 


 


Texto originalmente publicado a 29 de Março na derradeira edição em papel do semanário NOVO.


 


 




março 28, 2024

UM EMBLEMA DO PAÍS

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E A CULTURA? - Semanas antes das eleições de 10 de Março fiz nestas páginas uma abordagem às propostas existentes sobre cultura nos programas dos principais partidos. Confirmei o que intuía: a cultura foi uma área geralmente menosprezada, nos programas partidários, onde apenas surgiam ideias gerais e muito poucas propostas concretas. Quis o acaso que esta semana o livro que andei a ler, e de que falo nestas páginas, fosse a biografia de Francisco Lucas Pires. Para quem não sabe, ou não se recorda, ele foi, entre 1982 e 1983, o Ministro da Cultura do VIII Governo Constitucional, presidido por Francisco Pinto Balsemão. Relembro que essa foi a primeira vez que foi criado um Ministério da Cultura, área que até aí fora enquadrada a nível governamental por Secretarias de Estado. Ao ler a parte da biografia que aborda a actuação de Francisco Lucas Pires como Ministro da Cultura constatei que ele defendia, já em 1981, estas prioridades: atingir 1% do Orçamento de Estado a médio prazo (tinha 0,26% nessa altura - na proposta de orçamento de 2024  tinha 0,27% da despesa da administração central); em segundo lugar preconizava o investimento na criação de novos equipamentos que fossem instrumentos necessários para a fruição da cultura pelos públicos; em terceiro lugar defendia “a formação, estatuto e segurança das gentes da Cultura”, tema que deu passos mas ainda está por finalizar passados mais de 40 anos; em quarto lugar propunha uma política cultural especialmente assente na preservação e divulgação do património; em quanto lugar “a resolução das carências respeitantes às grandes infra-estruturas legislativas e administrativas”, onde muito continua por fazer, nomeadamente na autonomia de gestão de instituições e na Lei do Mecenato. Já então Lucas Pires falava do passe cultural ou da previdência social dos artistas e da importância da língua portuguesa no mundo globalizado do audiovisual que estava a surgir. São suas, em 1981, estas palavras, referindo-se à então jovem democracia portuguesa : “A cultura é um emblema extremamente importante da vitalidade e da crença num regime, e eu acho que isso continua por fazer”. Na realidade, mais de quatro décadas depois de Francisco Lucas Pires ter proferido essas palavras, muito continua por fazer. A sua agenda continua actual. Era boa ideia que o futuro Ministro da Cultura a seguisse. 


 


SEMANADA - Ao longo de cinco anos registaram-se 18 casos de fugas de hospitais de doentes com demência, quatro dos quais morreram e dois nunca foram encontrados; desde o início de 2023 a Força Aérea perdeu 19 pilotos-aviadores que pediram para sair das fileiras; o segundo período escolar terminou e existem ainda turmas sem aulas desde o início do ano lectivo a algumas disciplinas; quase 70% dos portugueses usaram redes sociais em 2023, um valor acima da média europeia; nos últimos seis meses de 2023 o consumo de podcast subiu 33%; no espaço de uma década a despesa com medicamentos nos hospitais aumentou 92% e no ano passado ascendeu a cerca de dois mil milhões de euros;  um estudo promovido por uma empresa imobiliária internacional indica que a Quinta do Lago tem preços mais altos por metro quadrado construído que Barcelona ou o Lago de Como; em 2023 os estrangeiros compraram mais de 7% das casas vendidas em Portugal e no Algarve esse número chega aos 30%; a Procuradoria Europeia está a investigar 15 suspeitas de fraude nos financiamentos comunitários, três das quais já do PRR; os números mais recentes indicam que há mais de cinco mil casais em Portugal em que ambos os membros estão no desemprego; Portugal é o oitavo país com maior taxa de emigração e 26% da população portuguesa já reside no estrangeiro; um terço dos portugueses entre os 15 e 39 anos vive fora do país; entre 2020 e 2023 a PSP registou mais de 15 mil furtos por carteiristas; quase metade dos 230 deputados eleitos a 10 de março são estreantes no parlamento; o cabaz alimentar da DECO, que avalia 63 produtos, aumentou 12 euros dessde março do ano passado.


 


O ARCO DA VELHA - Foi o poder do povo, através do voto, que deu 50 deputados ao Chega no ano do 50º aniversário do 25 de Abril. É o resultado da impotência do sistema para resolver os problemas de muita gente. Aqui está algo que devia fazer pensar os responsáveis políticos de todas as áreas. 


 


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UM EXERCÍCIO  - “Idos de Março” é porventura a mais ambiciosa exposição de André Gomes, um conjunto de quase três dezenas de obras construídas em torno de vários capítulos de uma mesma narrativa,  que evoca a sua própria vida e os seus sentimentos, assim como uma evocação da História clássica e da mitologia, explorando as linhas de tempo onde tudo se cruza. A base do seu trabalho continua a ser o registo fotográfico, manipulado e alterado, com combinações de imagens de várias momentos, localizações e épocas, na construção de um universo ficcionado que propositadamente quer manter uma aparência de realidade, que vai da auto-representação a imagens fortuitas, outras encenadas e outras construídas num processo criativo que combina a imaginação com o rigor técnico. Ponte de Lima, Quarteira, Pompeia e Nápoles são os locais que se cruzam e que servem de cenários para os vários capítulos. A expressão “ Idos de Março” designa o dia 15 do mês de Março do ano 44 A.C. , dia em que Júlio César foi assassinado no Senado de Roma, mas evoca também um momento trágico na vida do autor. A morte é aliás o fio condutor de toda a exposição, nomeadamente na evocação de Calpúrnia, a mulher de César que pressagiou a tragédia, assim como o adivinho Espurina, que avisou César dos perigos que o esperavam no Senado. O assassinato de Caio César abriu caminho a uma guerra e a tempos difíceis, como os que hoje vivemos. “Idos de Março” decorre até 17 de Abril na Galeria Diferença, Rua Filipe Neri 42 - e saliente-se que André Gomes refez para esta exposição o interior da sala principal, construindo uma nova parede que possibilita uma montagem com maior visibilidade. Foi editado um catálogo que reproduz todas as obras da exposição, um texto do autor e outros de Rui Bertrand Romão.


 


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ROTEIRO - Ana Jotta volta a utilizar ecrãs de projecção como suporte para as suas obras em “Next Song We Will Sing…”, a exposição que estará até 6 de Maio na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Embora cada uma das 12 obras expostas (na imagem Untitled #6) possua uma identidade própria, a utilização dos ecrãs como suporte cria uma sensação de continuidade de imagem que remete necessariamente para um mundo de fantasia onde se cruza o cinema de animação com as sensações visuais que Ana Jotta cria a partir da observação do seu quotidiano diário. Outros destaques da semana: o MAC/CCB apresenta até 15 de Setembro o projecto “Evidence”, que junta o trabalho sonoro dos Soundwalk Collective com desenhos e obras de Patti Smith. Na galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76), até 20 de Abril uma nova exposição de esculturas de Pedro Paiva,  “Em Frente da Porta, do Lado de Fora”. Na Casa da Cerca, em Almada, Isabel Cordovil apresenta até 16 de Junho a exposição “A vaidade praga-me”. Em Coimbra, na Galeria Sete (Avenida Elísio Moura 53), Rui Matos apresenta as suas esculturas até 4 de Maio. No Clube Fenianos Portuenses,  em colaboração com a associação CC11, são apresentadas 19 exposições de fotografia e uma exposição de cartoons em parceria com a Casa da Imprensa.



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MANUAL DE POLÍTICA  - Francisco Lucas Pires morreu aos 53 anos, em 1988, e a sua acção marcou a política portuguesa, nomeadamente na fundação do CDS, na definição das ideias de uma direita liberal, na constituição da primeira Aliança Democrática e no Ministério da Cultura e Coordenação Científica, onde esteve entre 1982 e 1983, num Governo presidido por Francisco Pinto Balsemão. Europeísta convicto era deputado europeu, eleito pelo PSD, quando morreu. Finalmente chega agora uma biografia de Francisco Lucas Pires, num tempo em que felizmente se escrevem muitas biografias em Portugal. Mas esta, “O Príncipe da Democracia”, escrita por Nuno Gonçalo Poças numa investigação de dois anos e meio, além de falar de Lucas Pires e da sua obra, permite perceber melhor tudo o que se passou no campo da direita em Portugal,  na primeira década e meia depois do 25 de Abril em que ainda viveu. Nestes tempos conturbados que estamos a passar, este é um livro que contribui para conhecer melhor a história recente do país. O autor sublinha que Lucas Pires esteve à frente do  seu tempo, recorda o programa para uma sociedade aberta que elaborou enquanto presidiu ao CDS e posteriormente, depois de se desfiliar do partido que ajudou a fundar e de ter aderido ao PSD, o seu papel no Parlamento Europeu e nomeadamente na ligação do PSD ao Partido Popular Europeu,  que defendeu, promoveu e concretizou. A biografia está dividida em quatro partes e a primeira vai dos seus anos de juventude e formação em Coimbra e posteriormente a sua aproximação às ideias liberais quando estudou na Alemanha. A segunda parte vai de 1974 a 1983 e relata o seu papel na elaboração da Constituição e na formação da AD e o seu trabalho enquanto Ministro da Cultura. E a terceira parte relata os últimos anos, a forma como exerceu a presidência do CDS e o seu papel na moção de censura que fez cair o governo do bloco central e desencadear as eleições de onde saíu o primeiro governo de Cavaco Silva. Finalmente a quarta parte é focada no papel que Lucas Pires teve no processo de adesão à então CEE e a sua actividade enquanto deputado europeu. Nuno Gonçalo Poças sublinha que todo o percurso de Francisco Lucas Pires é atravessado por essa ideia de que “a luta política nasce da lealdade de reconhecer nos outros a mesma capacidade que se reconhece em nós”, e de isso estar no centro da sua ideia liberal. Edição D. Quixote.


 


DIXIT - “Existe uma bizarra tolerância em Portugal para com as pessoas que cometem as maiores vilezas nos bastidores desde que mantenham as boas maneiras nos salões…A não eleição de Santos Silva é uma grande vitória da democracia . E um justo adeus com 13 anos de atraso“ - João Miguel Tavares.


 


BACK TO BASICS -  “Sim, há esquerda e direita. Só que nem uma nem outra têm o monopólio da verdade, da honradez e da liberdade “- António Barreto



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS


 

março 22, 2024

UM CENÁRIO SOMBRIO

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PORTUGAL AGRILHOADO - À hora que escrevo não se conhecem os resultados da contagem de votos da emigração mas tudo indica que o imbróglio saído destas eleições - uma maioria frágil - vai ser o cenário que teremos pela frente. Para além das conjecturas sobre soluções possíveis há cinco coisas que são certas: os eleitores penalizaram o desgoverno do PS nos últimos anos; penalizaram uma classe política enredada em escândalos, corrupção e sem capacidade de fazer reformas estruturais, dando e um voto de protesto claro que beneficiou o Chega; não ficaram convencidos da bondade das propostas do PSD (a AD é uma fantasia que ainda por cima fez o disparate de usar uma sigla parecida com outro partido que estava registado); e provaram que o sistema eleitoral vigente desde há quase 50 anos, baseado no método de Hondt e sem redistribuição de votos cria um resultado no Parlamento que não representa a vontade do eleitorado e despreza quase 20% dos votos válidos. Nada disto pode ser uma surpresa: a crise agravou-se na justiça, saúde, educação e habitação, os serviços públicos degradaram-se, o país caíu para a cauda da Europa em termos económicos, o populismo entrou galopante e caçou votos à esquerda e à direita e sobretudo alimentou-se da revolta daqueles que têm sido mais deprezados e ignorados nos últimos anos. O resultado de tudo isto é um país pior, um impasse político, uma espécie de regime trancado a sete chaves nas suas contradições, erros e impotências. E o pior é que não se vê, em lado algum, uma estratégia coerente e uma liderança inspiradora. O 50º aniversário do 25 de Abril não podia correr em pior cenário. Não é bonita a festa, pá.





SEMANADA - Os preços das casas em Lisboa em 2023 subiu 6,3% face ao ano anterior; um estudo publicado pelo Expresso indica que nas recentes eleições os jovens optaram por novos partidos e as mulheres votaram mais à esquerda;  outro estudo recente indica que a IL, o Livre e o Chega são os partidos mais escolhidos pelo eleitorado jovem e o PS é o que colhe menos preferências nessas faixas etárias; há 45 cargos institucionais a designar pela Assembleia da República e que necessitam de um entendimento entre PSD e PS; em 2023 quase 13% da população vivia numa casa sobrelotada e 6% vivia em situação de privação severa das condições de habitação; em relação ao tratamento de dependências do alcóol e drogas apenas 15% das unidades especializadas dão resposta aos que as procuram dentro do tempo recomendado e o número de pessoas em lista de espera para a primeira consulta ultrapassa as duas mil; Brasil, Nepal, Índia, Bangladexe e Cabo Verde são as principais origens dos imigrantes que estão a chegar a Portugal, cujo número quintuplicou nos últimos oito anos; as contribuições  pagas por imigrantes à Segurança Social representam 10 % do total enquanto em 2015 se situavam nos 2%; a hotelaria e turismo empregou 115 mil imigrantes em 2023; os alunos da escola D. Afonso Henriques, em Creixomil, Guimarães, assistem às aulas embrulhados em mantas para enganar o frio e não têm espaços para se abrigarem da chuva nos intervalos. 


 


O ARCO DA VELHA - Quase 1,2 milhões de votos nas eleições legislativas não serviram para eleger qualquer deputado, o que representa 19,5% dos votos válidos - apurou um estudo do matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico.  


 


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SOBRE O ESPAÇO - Na Galeria Fernando Santos, no Porto, Pedro Calapez apresenta até 9 de Junho uma nova exposição, “Enquanto o Espaço For”, com obras quase integralmente feitas em 2023 e já em 2024. Calapez apresenta pinturas a óleo e acrílico sobre tela, alumínio e papel. Nas salas principais apresentam-se quatro séries de trabalhos em pintura, datados de 2023 e 2024, e realizados em tela, papel ou em caixas de alumínio na linha de criação de objecto-pintura que a obra de Calapez apresenta há vários anos. Uma grande obra em alumínio recortado sobressai entre  todas as outras, contrapondo o vazio da parede à superfície da pintura e criando a noção da ocupação do espaço que o título da exposição sugere. No espaço Cubo, da Galeria Fernando Santos, dedicado a projectos especiais, Calapez apresenta “Autumn Leaves”, uma obra especificamente realizada para esse local, composta por 160 peças em chapa de alumínio, recortados a jacto de água. Composta por restos de outros cortes, material que se destinava ao lixo, foram recuperadas e preparadas pelo artista para organizar uma espécie de puzzle que ocupa completamente uma parede. Nesta exposição Pedro Calapez apresenta ainda dois outros conjuntos de trabalhos - uma série de desenhos a ponta de prata sobre fundo branco que mostram formas que posteriormente utiliza como esquemas de base para pinturas e desenhos; e dois conjuntos de impressões a jacto de tinta, algumas em grande dimensão, que são transcrição directa dos desenhos que manipula, criando de raiz em computador. É também apresentado na Galeria um vídeo com uma entrevista a Pedro Calapez, feita por Dalila Pinto de Almeida no seu atelier em Lisboa. Na imagem está a obra “Sem título #02, já de 2004, um acrílico sobre tela, de 194x286 cms, que está à venda por 32.500 euros. Galeria Fernando Santos, Rua Miguel Bombarda 526, Porto.


 


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ROTEIRO - A Fundação Gulbenkian apresenta até 15 de Abril uma exposição retrospectiva da obra de Cruz-Filipe (na imagem), pinturas realizadas desde a década de 1970, incluindo dez telas inéditas pintadas a partir de 2015, a par de um conjunto de trabalhos nos quais se conjugam pintura e fotografia, uma marca criativa e técnica desenvolvida pelo artista. A exposição é apresentada na galeria do piso inferior da Fundação e tem entrada gratuita. Na Culturgest está até 30 de Junho a exposição “Mezzocane”, de Enzo Cucchi, um artista italiano associado ao movimento  ”Transavanguardia” que emergiu naquele país nos anos 80.  “Mezzocane” reúne uma seleção alargada das pinturas, esculturas e desenhos que Cucchi realizou nas duas últimas décadas. Paralelamente a Culturgest apresenta também uma exposição baseada no arquivo do artista, “Il Libraio e L’artista”. Cucchi teve a ideia original de transformar o arquivo do seu trabalho num videojogo, que pode ser jogado através de uma App indicada na exposição. Integrado no programa Serralves Fora de Portas, o Fórum Braga apresenta a exposição “Razão Inversa”, com obras de Fernando Calhau da colecção de Serralves e de algumas colecções que lá estão em depósito. A exposição, que mostra quatro décadas do trabalho de Fernando Calhau, fica no Fórum Braga até 16 de Junho. Finalmente, em Évora, no no Centro de Arte e Cultura (CAC) da Fundação Eugénio de Almeida (FEA), Alfredo Cunha expõe até final de outubro Outubro mais uma exposição das suas obras com foco no 25 de Abril, com o título “O Tempo de Todas as Perguntas”.


 


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UM DISCO PARTILHADO  - Desafiar uma rapper a escrever poemas para melodias de fado tradicional é um desafio arriscado. Mas foi isso que Aldina Duarte fez quando convidou Capicua a escrever sobre melodias de fados da autoria de Alfredo Duarte (Marceneiro), Fontes Tocha, Raul Ferrão, Armando Machado, Júlio Proença, Joaquim Campos Silva ou José Marques. Da colaboração entre Capicua e Aldina nasceu o disco que fizeram juntando talentos e que por isso mesmo se chama “Metade-Metade”. Conta Capicua que, quando recebeu o convite, aceitou na condição de que Aldina Duarte lhe ensinasse os segredos dos poemas do fado e lhe desse lições sobre as suas regras e estruturas. Talvez por isso tenha escrito “Aprendiza”,  sobre música de Raul Ferrão. O primeiro fado do disco “Araucária” remete para o nome de uma árvore, ao mesmo tempo que marca um dos temas centrais deste álbum, a contemplação da natureza, as florestas, o correr das estações do ano, as dúvidas da vida e as suas celebrações até ao regresso às coisas básicas, bem ilustrado no tema final, “Eterno Retorno” onde um piano marca a música de Alfredo Marceneiro. São dele aliás outros fados marcantes de “Metade-Metade”, como “Tentativa”, “Duas Mãos” ou “A Dúvida”, onde a voz de Aldina se cruza com o som de uma harpa. Também a reter entre os 11 fados que estão no disco, são “Primavera”, “Majestade” e “Tentativa”. A produção do disco é da própria Aldina, cuja voz é acompanhada pela harpa de Ana Isabel Dias, a guitarra portuguesa de Bernardo Romão, a viola de Rogério Ferreira e o piano de Joana Sá. O disco será apresentado ao vivo num concerto no Coliseu de Lisboa no dia 17 de Abril.


 


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OS ANOS DA BRASA - O título do livro é “Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975” e o subtítulo é “Episódios menos conhecidos”. Fica pois aguçada a curiosidade e ela não é defraudada. Esta nova obra da historiadora Irene Flunser Pimentel está cheia de informações pouco conhecidas sobre aquele período imediatamente posterior à queda da ditadura, informações e narrativas provenientes de entrevistas que a autora fez a um conjunto alargado de intervenientes militares e civis que participaram em todo o processo. No prefácio Irene Flunser Pimentel conta como começou a investigação através de entrevistas online durante a pandemia a alguns ex-oficiais da Marinha que considerou “terem tido muita importância em vários episódios da nossa transição para a democracia, desde o 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975, mas cuja acção foi de certo modo apagada, pois alguns deles contaram-se entre os “derrotados” nesta última data”. Na sua investigação a autora recorreu ao trabalho de vários historiadores e reconhece que “nem todos estarão de acordo relativamente ao facto de o 25 de Abril ter sido uma revolução ou um golpe de Estado”. Ao longo de três partes distintas o livro aborda os últimos anos da ditadura e a guerra colonial, a polícia política, as relações externas e os aliados de Portugal antes de 1974, o 25 de Abril e o período que se seguiu, com a libertação dos presos políticos e a evolução do MFA , a acção de países como EUA, França e Alemanha, o 11 de Março e a criação do Conselho da Revolução, o verão quente de 75 e finalmente todos os acontecimentos à volta do 25 de Novembro. O livro, editado pela Temas & Debates é um precioso auxiliar para compreender melhor o que se passou há cinco décadas.


 


DIXIT - “Não se sabe qual é o Governo, nem qual é o seu programa, muito menos em que condições é formado, mas já se sabe que há quem vote contra” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Aconteça o que acontecer o país está encravado” -  anónimo



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS