março 22, 2024

UM CENÁRIO SOMBRIO

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PORTUGAL AGRILHOADO - À hora que escrevo não se conhecem os resultados da contagem de votos da emigração mas tudo indica que o imbróglio saído destas eleições - uma maioria frágil - vai ser o cenário que teremos pela frente. Para além das conjecturas sobre soluções possíveis há cinco coisas que são certas: os eleitores penalizaram o desgoverno do PS nos últimos anos; penalizaram uma classe política enredada em escândalos, corrupção e sem capacidade de fazer reformas estruturais, dando e um voto de protesto claro que beneficiou o Chega; não ficaram convencidos da bondade das propostas do PSD (a AD é uma fantasia que ainda por cima fez o disparate de usar uma sigla parecida com outro partido que estava registado); e provaram que o sistema eleitoral vigente desde há quase 50 anos, baseado no método de Hondt e sem redistribuição de votos cria um resultado no Parlamento que não representa a vontade do eleitorado e despreza quase 20% dos votos válidos. Nada disto pode ser uma surpresa: a crise agravou-se na justiça, saúde, educação e habitação, os serviços públicos degradaram-se, o país caíu para a cauda da Europa em termos económicos, o populismo entrou galopante e caçou votos à esquerda e à direita e sobretudo alimentou-se da revolta daqueles que têm sido mais deprezados e ignorados nos últimos anos. O resultado de tudo isto é um país pior, um impasse político, uma espécie de regime trancado a sete chaves nas suas contradições, erros e impotências. E o pior é que não se vê, em lado algum, uma estratégia coerente e uma liderança inspiradora. O 50º aniversário do 25 de Abril não podia correr em pior cenário. Não é bonita a festa, pá.





SEMANADA - Os preços das casas em Lisboa em 2023 subiu 6,3% face ao ano anterior; um estudo publicado pelo Expresso indica que nas recentes eleições os jovens optaram por novos partidos e as mulheres votaram mais à esquerda;  outro estudo recente indica que a IL, o Livre e o Chega são os partidos mais escolhidos pelo eleitorado jovem e o PS é o que colhe menos preferências nessas faixas etárias; há 45 cargos institucionais a designar pela Assembleia da República e que necessitam de um entendimento entre PSD e PS; em 2023 quase 13% da população vivia numa casa sobrelotada e 6% vivia em situação de privação severa das condições de habitação; em relação ao tratamento de dependências do alcóol e drogas apenas 15% das unidades especializadas dão resposta aos que as procuram dentro do tempo recomendado e o número de pessoas em lista de espera para a primeira consulta ultrapassa as duas mil; Brasil, Nepal, Índia, Bangladexe e Cabo Verde são as principais origens dos imigrantes que estão a chegar a Portugal, cujo número quintuplicou nos últimos oito anos; as contribuições  pagas por imigrantes à Segurança Social representam 10 % do total enquanto em 2015 se situavam nos 2%; a hotelaria e turismo empregou 115 mil imigrantes em 2023; os alunos da escola D. Afonso Henriques, em Creixomil, Guimarães, assistem às aulas embrulhados em mantas para enganar o frio e não têm espaços para se abrigarem da chuva nos intervalos. 


 


O ARCO DA VELHA - Quase 1,2 milhões de votos nas eleições legislativas não serviram para eleger qualquer deputado, o que representa 19,5% dos votos válidos - apurou um estudo do matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico.  


 


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SOBRE O ESPAÇO - Na Galeria Fernando Santos, no Porto, Pedro Calapez apresenta até 9 de Junho uma nova exposição, “Enquanto o Espaço For”, com obras quase integralmente feitas em 2023 e já em 2024. Calapez apresenta pinturas a óleo e acrílico sobre tela, alumínio e papel. Nas salas principais apresentam-se quatro séries de trabalhos em pintura, datados de 2023 e 2024, e realizados em tela, papel ou em caixas de alumínio na linha de criação de objecto-pintura que a obra de Calapez apresenta há vários anos. Uma grande obra em alumínio recortado sobressai entre  todas as outras, contrapondo o vazio da parede à superfície da pintura e criando a noção da ocupação do espaço que o título da exposição sugere. No espaço Cubo, da Galeria Fernando Santos, dedicado a projectos especiais, Calapez apresenta “Autumn Leaves”, uma obra especificamente realizada para esse local, composta por 160 peças em chapa de alumínio, recortados a jacto de água. Composta por restos de outros cortes, material que se destinava ao lixo, foram recuperadas e preparadas pelo artista para organizar uma espécie de puzzle que ocupa completamente uma parede. Nesta exposição Pedro Calapez apresenta ainda dois outros conjuntos de trabalhos - uma série de desenhos a ponta de prata sobre fundo branco que mostram formas que posteriormente utiliza como esquemas de base para pinturas e desenhos; e dois conjuntos de impressões a jacto de tinta, algumas em grande dimensão, que são transcrição directa dos desenhos que manipula, criando de raiz em computador. É também apresentado na Galeria um vídeo com uma entrevista a Pedro Calapez, feita por Dalila Pinto de Almeida no seu atelier em Lisboa. Na imagem está a obra “Sem título #02, já de 2004, um acrílico sobre tela, de 194x286 cms, que está à venda por 32.500 euros. Galeria Fernando Santos, Rua Miguel Bombarda 526, Porto.


 


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ROTEIRO - A Fundação Gulbenkian apresenta até 15 de Abril uma exposição retrospectiva da obra de Cruz-Filipe (na imagem), pinturas realizadas desde a década de 1970, incluindo dez telas inéditas pintadas a partir de 2015, a par de um conjunto de trabalhos nos quais se conjugam pintura e fotografia, uma marca criativa e técnica desenvolvida pelo artista. A exposição é apresentada na galeria do piso inferior da Fundação e tem entrada gratuita. Na Culturgest está até 30 de Junho a exposição “Mezzocane”, de Enzo Cucchi, um artista italiano associado ao movimento  ”Transavanguardia” que emergiu naquele país nos anos 80.  “Mezzocane” reúne uma seleção alargada das pinturas, esculturas e desenhos que Cucchi realizou nas duas últimas décadas. Paralelamente a Culturgest apresenta também uma exposição baseada no arquivo do artista, “Il Libraio e L’artista”. Cucchi teve a ideia original de transformar o arquivo do seu trabalho num videojogo, que pode ser jogado através de uma App indicada na exposição. Integrado no programa Serralves Fora de Portas, o Fórum Braga apresenta a exposição “Razão Inversa”, com obras de Fernando Calhau da colecção de Serralves e de algumas colecções que lá estão em depósito. A exposição, que mostra quatro décadas do trabalho de Fernando Calhau, fica no Fórum Braga até 16 de Junho. Finalmente, em Évora, no no Centro de Arte e Cultura (CAC) da Fundação Eugénio de Almeida (FEA), Alfredo Cunha expõe até final de outubro Outubro mais uma exposição das suas obras com foco no 25 de Abril, com o título “O Tempo de Todas as Perguntas”.


 


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UM DISCO PARTILHADO  - Desafiar uma rapper a escrever poemas para melodias de fado tradicional é um desafio arriscado. Mas foi isso que Aldina Duarte fez quando convidou Capicua a escrever sobre melodias de fados da autoria de Alfredo Duarte (Marceneiro), Fontes Tocha, Raul Ferrão, Armando Machado, Júlio Proença, Joaquim Campos Silva ou José Marques. Da colaboração entre Capicua e Aldina nasceu o disco que fizeram juntando talentos e que por isso mesmo se chama “Metade-Metade”. Conta Capicua que, quando recebeu o convite, aceitou na condição de que Aldina Duarte lhe ensinasse os segredos dos poemas do fado e lhe desse lições sobre as suas regras e estruturas. Talvez por isso tenha escrito “Aprendiza”,  sobre música de Raul Ferrão. O primeiro fado do disco “Araucária” remete para o nome de uma árvore, ao mesmo tempo que marca um dos temas centrais deste álbum, a contemplação da natureza, as florestas, o correr das estações do ano, as dúvidas da vida e as suas celebrações até ao regresso às coisas básicas, bem ilustrado no tema final, “Eterno Retorno” onde um piano marca a música de Alfredo Marceneiro. São dele aliás outros fados marcantes de “Metade-Metade”, como “Tentativa”, “Duas Mãos” ou “A Dúvida”, onde a voz de Aldina se cruza com o som de uma harpa. Também a reter entre os 11 fados que estão no disco, são “Primavera”, “Majestade” e “Tentativa”. A produção do disco é da própria Aldina, cuja voz é acompanhada pela harpa de Ana Isabel Dias, a guitarra portuguesa de Bernardo Romão, a viola de Rogério Ferreira e o piano de Joana Sá. O disco será apresentado ao vivo num concerto no Coliseu de Lisboa no dia 17 de Abril.


 


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OS ANOS DA BRASA - O título do livro é “Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975” e o subtítulo é “Episódios menos conhecidos”. Fica pois aguçada a curiosidade e ela não é defraudada. Esta nova obra da historiadora Irene Flunser Pimentel está cheia de informações pouco conhecidas sobre aquele período imediatamente posterior à queda da ditadura, informações e narrativas provenientes de entrevistas que a autora fez a um conjunto alargado de intervenientes militares e civis que participaram em todo o processo. No prefácio Irene Flunser Pimentel conta como começou a investigação através de entrevistas online durante a pandemia a alguns ex-oficiais da Marinha que considerou “terem tido muita importância em vários episódios da nossa transição para a democracia, desde o 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975, mas cuja acção foi de certo modo apagada, pois alguns deles contaram-se entre os “derrotados” nesta última data”. Na sua investigação a autora recorreu ao trabalho de vários historiadores e reconhece que “nem todos estarão de acordo relativamente ao facto de o 25 de Abril ter sido uma revolução ou um golpe de Estado”. Ao longo de três partes distintas o livro aborda os últimos anos da ditadura e a guerra colonial, a polícia política, as relações externas e os aliados de Portugal antes de 1974, o 25 de Abril e o período que se seguiu, com a libertação dos presos políticos e a evolução do MFA , a acção de países como EUA, França e Alemanha, o 11 de Março e a criação do Conselho da Revolução, o verão quente de 75 e finalmente todos os acontecimentos à volta do 25 de Novembro. O livro, editado pela Temas & Debates é um precioso auxiliar para compreender melhor o que se passou há cinco décadas.


 


DIXIT - “Não se sabe qual é o Governo, nem qual é o seu programa, muito menos em que condições é formado, mas já se sabe que há quem vote contra” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Aconteça o que acontecer o país está encravado” -  anónimo



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS