junho 22, 2018

QUANDO A MAQUILHAGEM NÃO ESCONDE O LIXO: O CASO DE LISBOA

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LIXO -  Nos últimos anos Fernando Medina gastou milhões a fazer o que entende serem alindamentos da cidadã de Lisboa: remodelou passeios, alterou o traçado de ruas e avenidas (geralmente para piorar a vida dos lisboetas), ajardinou a eito de tal forma que aos primeiros calores as plantas murcham e secam. Tinha dinheiro e fez o que quis: obras na fachada para receber as visitas, esquecendo-se dos que cá vivem. Fruto do trabalho de muitos anos e de muitos executivos camarários, e fruto também das circunstâncias, Lisboa entrou na moda e tornou-se um destino turístico procuradíssimo. O aeroporto rebenta pelas costuras, as politiquices autárquicas e de relação com o poder central levaram a que se perdesse a  oportunidade, há uma dezena de anos, de avançar para uma solução de futuro que a esta hora já estaria construída em Alcochete. Os trânsito habituou-se a ser caótico face à inexistência de transportes públicos eficazes. Mas o pior, o mais revoltante, é a forma como a autarquia encara a limpeza da cidade. Tudo está um nojo e sobretudo no centro, por sinal na zona mais visitada pelos turistas, a lixeira é completa. No Chiado e no Cais de Sodré o espectáculo ao longo de praticamente todo o dia é deplorável. Claro que a culpa reside também nos cidadãos descuidados, nos restaurantes que deitam lixo fora de qualquer maneira, nas sobras de comida que deslizam para fora de sacos de plástico mal fechados, de falta de recipientes apropriados de recolha com capacidade para o aumento do lixo produzido no centro da cidade, para os horários de limpeza inconstantes, para o desleixo geral. Desde a falta de campanhas de sensibilização, à ausência de fiscalização de prevaricadores e à incapacidade dos serviços de limpeza camarários, as causas da porcaria em muitas ruas são variadas. Mas nada limpa a ideia de que se gastaram milhões em retoques e se continua a deixar a limpeza ao abandono. D.Medina, o maquilhador, borrou a pintura.


 


SEMANADA -Lula da Silva comenta o Mundial de Futebol para uma estação de televisão brasileira a partir da cela de prisão onde está detido; o Banco Comercial Português decidiu não emprestar mais dinheiro a clubes de futebol; Portugal tem o pior desempenho em termos de mobilidade educacional entre pais e filhos dos quinze países analisados pela OCDE, apesar de ter uma despesa em educação, em % do PIB, superior à média dos países analisados; no ano passado cada família foi em média 127 vezes às compras em supermercados com um gasto médio de 224 euros por mês; entre 2014 e 2017 a despesa anual de cada português com medicamentos foi de aproximadamente 200 euros; Portugal recusou 64% dos pedidos de asilo que lhe foram apresentados em 2017; a CMVM recebeu, em 2017, mais 24% de reclamações comparativamente com o ano anterior, 51% das reclamações recebidas foram referentes a obrigações e 27% a ações; o inquérito a obras ilegais em terrenos camarários na construção das novas torres das Picoas ficou a meio e duas direcções gerais da autarquia lisboeta recusaram-se a terminá-lo; a lei da paridade aumenta de 33,3% para 40% a percentagem mínima de cada um dos sexos nas listas eleitorais e a Comissão Nacional de Eleições avisa que esta alteração pode prejudicar a apresentação de candidaturas pela "eventual ausência ou diminuta adesão" por parte de um dos géneros; o Bloco de Esquerda anunciou que quer integrar o Governo a partir de 2019.


 


ARCO DA VELHA - Em plena crise provocada pela greve e protestos dos professores o Ministro da Educação preferiu ir à Rússia ver o Mundial do que estar no debate quinzenal do parlamento.


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FOLHEAR - Trabalhei um pouco mais de dois anos literalmente lado a lado com o Pedro Rolo Duarte no Se7e. Dividíamos a direcção, partilhávamos uma sala onde todos os dias fabricávamos ideias para fazer ressuscitar o jornal e agitar as águas, que era uma coisa que nos entretinha bastante. Foram dois anos de intensas e produtivas discussões, de muita criatividade e de várias crises - e sempre nos apoiámos mutuamente dos ataques que íamos recebendo daqueles que eram criticados nas páginas do jornal - músicos, responsáveis de editoras, actores, realizadores, enfim o universo do Se7e. Estávamos no final da segunda metade dos anos 80, uma época em que tudo parecia ser possível. No rasgar da nova década cada um seguiu o seu caminho e para trás ficaram as boas memórias dos nossos tempos em conjunto. Ao longo dos anos mantivemos com prazer encontros regulares onde íamos falando do que fazíamos e dos projectos que tínhamos. O Pedro aparecia sempre com uma ideia nova, mesmo quando profissionalmente os tempos lhe foram adversos, no início da crise da imprensa. Mas estava sempre a pensar, sempre a ter ideias - para imprensa, para rádio, para televisão, para digital. Era multimedia mesmo antes de o termo se vulgarizar. Quando soube que estava doente continuou a ter ideias, boas ideias, ideas de vida. O livro que escreveu nos seus últimos meses não é um livro sobre o fim, é um livro sobre tudo aquilo que o preenchia. Não é um livro de memórias, é um livro de ideias, de ensinamentos, de reflexões construtivas, sobre os seus amigos, sobre aquilo de que ele mais gostava e que fez até ao último dia: comunicar. “Não Respire - Tudo começou cedo demais (e quando dei por isso já era tarde)”, o seu livro de vida,  é a melhor coisa que ele nos podia ter deixado.


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VER - Que lugar melhor para ver Pop Art que um centro comercial? Na oitava edição de “A Arte Chegou ao Colombo” apresentam-se alguns dos trabalhos mais marcantes  do norte-americano Roy Lichtenstein como Crying Girl (na imagem), Whaam! e As I Opened Fire. Esta exposição, dedicada a um dos nomes maiores da Pop Art e apresenta uma seleção das obras de Roy Lichtenstein, um dos criadores deste movimento artístico, que transformou imagens da cultura popular e de massas provenientes da publicidade, da banda desenhada e do quotidiano. Até setembro no Centro Colombo. Outros destaques: dois artistas que estavam com as suas carreiras arredadas das vistas públicas há vários anos fizeram quase ao mesmo tempo exposições marcantes: na Sociedade Nacional de Belas Artes  a Fundação Carmona e Costa apresenta “Clareira”, que mostra esculturas de Manuel Rosa (cujo nome nos últimos anos foi mais conhecido pelo seu trabalho na Assírio & Alvim e na Documenta), esculturas feitas entre 1984 e 2018. Até 21 de Julho; o segundo regresso é de Patrícia Garrido, que expõe na Galeria Miguel Nabinho pinturas, desenho e escultura até 31 de Julho. No Museu da Batalha inaugurou a exposição “Gentes da Batalha”, fotografias de António Barreto.


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OUVIR - Este não é um disco fácil mas é um disco entusiasmante. Desde os primeiros segundos há uma presença dominante do saxofone, ao duelo com tuba e percussões, por vezes umas vozes. Aqui o dominante é o saxofone de Shabaka Hutchings, compositor de todas as nove faixas deste disco dos Sons Of Kemet, que ele criou e dirige. “Your Queen Is A Reptile”, um título carregado de sentido político, que exprime o sentimento da comunidade oriunda de África e das Caraíbas e que já cresceu em Londres com um olhar crítico sobre a sociedade britânica. Os heróis musicais de Hutchings são claramente John Coltrane e Pharaoh Sanders e não deixa de ser curioso que este seu disco seja editado pela renascida Impulse, uma etiqueta decisiva na afirmação do jazz nos anos 60 e 70 do século passado e que lançou aqueles músicos. Os nove temas têm no título o nome de outras tantas mulheres que tiveram um lugar proeminente na herança da cultura negra no Reino Unido. Mas considerações políticas à parte, musicalmente este é um disco arrebatador como poucos hoje em dia, com um sentido de ritmo e uma capacidade de improvisção e combinação das sonoridades dos diversos instrumentos que actualmente é muito rao encontrar. Sons Of Kemet, “Your Queen Is A Reptile”, CD Impulse, dirstribuído por Universal Music.


 


PROVAR - É milagre conseguir encontrar quase no epicentro da zona mais turística de Lisboa um restaurante fiel à cozinha portuguesa, com preços acessíveis e boa qualidade, que não se tenha deslumbrado com a invasão nem cedido à tentação de viver para os estrangeiros, de costas voltadas para os portugueses. Mas tal lugar existe, no Cais do Sodré e chama-se Solar do Kadete. Já lá jantei várias vezes, ao longo dos anos e nunca me desiludi - já lá comi boas sardinhas, posta de garoupa fresca, grelhada no ponto, devidamente acompanhada de feijão verde, ovas grelhadas como manda a tradição e da última vez deixei-me tentar, em boa hora, por um coelho desossado, grelhado. A grelha, onde peixe e carne são preparados, é a carvão e bem manobrada. Com sorte apanha-se cabeça de garoupa para os apreciadores e o bacalhau é de primeira. O serviço é acolhedor, eficaz, o patrão pertence à confraria do Moscatel de Setúbal e orgulha-se da variedade de colheitas dessa espécie que tem em casa e que serve devidamente paramentado quando é o caso. Tem esplanada que nas noites de verão é particularmente agradável. Cais do Sodré 2, telefone 213 427 255.


 


DIXIT - “A bola não queima” - Marcelo Rebelo de Sousa comentando o Portugal-Marrocos


 


GOSTO - A empresa portuguesa Critical Software foi escolhida pela BMW para desenvolver soluções de Inteligência Artificial para os carros que marcaraão o futuro da marca alemã.


 


NÃO GOSTO - Da destruição do Sporting que tem sido levada a cabo pelo que sobra da direcção de Bruno de Carvalho, num caso impressionante de abuso de poder e desfasamento da realidade.


 


BACK TO BASICS - A ilusão é o primeiro de todos os prazeres - Oscar Wilde


 


 


 

junho 15, 2018

SOBRE O ILUSIONISMO NA POLÍTICA

 


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O MÁGICO - Talvez na sequência de ter chamado o ilusionista Luís de Matos para ajudar na propaganda governamental, António Costa parece querer passar de hábil negociador a mágico ilusionista. É que Costa sabe que vai precisar de muitos golpes de magia para conseguir passar a prova do próximo Orçamento de Estado. A vantagem é que agora tem dois palcos. Num deles pode dançar com o Bloco perante o olhar crítico do PCP; e no outro palco pode ensaiar uma rábula com Rui Rio, que já se ofereceu várias vezes para o papel, sempre pronto a dar uma ajuda. A grande questão é saber o que lhe será mais interessante a médio prazo: manter o motor da geringonça a funcionar, embora com solavancos, ou dar uma facadinha na relação e provocar uma crise de ciúmes, passeando de braço dado pelo Rio. Resta um cenário ainda mais surrealista - acordos com o Bloco de um lado e com o PSD de outro, deixando de lado o PCP e o PP. Já houve casos assim noutros países europeus e Costa gosta de levar as suas experiências ao limite. A negociação e a conspiração são o oxigénio que o alimenta. No recente congresso do PS todos assistimos à forma como permitiu aos jovens turcos avançar, deixando-os tornarem-se alvos fáceis. António Costa tem prazer em imaginar cenários difíceis, estômago para alianças complicadas e habilidade para sair de becos sem saída. Vamos ver o que conseguirá agora com a ajuda da magia.





SEMANADA - A maioria dos financiamentos bancários às empresas tem valor abaixo dos 25 mil euros; o preço dos combustíveis está a subir desde 2004 apesar das variações de preço da matéria prima; o CDS vai apresentar no Parlamento uma proposta para eliminar a sobretaxa sobre os combustíveis criada em 2016 pelo actual Governo ; o imposto sobre gasóleo subiu 56% desde a liberalização; segundo dados da Comissão Europeia, na primeira semana de junho o litro do gasóleo custava em média 1,38 euros nos postos portugueses e 1,24 euros/litro nos espanhóis; 28% é a quebra estimada de empregados nas regiões de fronteira portuguesas entre 2015 e 2050, contra 13% nas suas vizinhas espanholas; em 2017 o investimento imobiliário em Portugal atingiu os 22 mil milhões de euros; nos cinco primeiros meses deste ano o número de espectadores de cinema reduziu 17,5% ; já há 23 sindicatos de professores e o mais recente é dirigido por um bloquista  cuja primeira proposta foi fazer greve aos exames; segundo a OCDE Portugal está fora dos melhores exemplos de formação e avaliação de professores; os portugueses gastaram 24,4 milhões de euros no ano passado em produtos destinados a fazer emagrecer; o sector público português demora 86 dias a pagar e é o segundo pior entre 29 países europeus; Portugal não utilizou 75% dos apoios comunitários destinados a fornecer fruta e vegetais as crianças nas refeições escolares; 32% dos portugueses já fizeram pelo menos uma vez compras online e


25% fizeram-no nos últimos 12 meses; só 133 das 1125 casas destruídas pelos incêndios do ano passado já foram reconstruídas; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou preferir a “paciência dos acordos à volúpia das rupturas, mesmo que tentadoras”.


 


ARCO DA VELHA - O  presidente da Entidade de Contas e Financiamentos Políticos alertou para o risco de prescrição de muitos processos sobre contas dos partidos e das campanhas eleitorais porque o Estado não dá meios suficientes para desempenhar a sua missão.


 


FOLHEAR - “A Rosa do Adro” é um dos romances portugueses mais populares no final do século XIX e início do século XX. A primeira edição data de 1870 Teve dezenas de edições, várias adaptações para teatro e duas versões em filme - uma de 1919, ainda no tempo do cinema mudo, realizada por Georges Pallu e outra, de 1938, com realização de Chianca de Garcia e com Maria Lalande, Costinha e Tomás de Macedo no elenco. A história é a de uma costureira, pobre, de seu nome Rosa, que vive com a avó numa aldeia minhota e se enamora por Fernando, um filho de ricos lavradores e finalista de Medicina, a estudar no Porto, mas muito ligado à sua aldeia. António, um jovem camponês, modesto, ama Rosa, que não corresponde e que está cada vez mais envolvida com Fernando, um amor contrariado pelos pais do rapaz e criticado na aldeia. Depois de muitas peripécias Fernando e Rosa casam mas a felicidade dura pouco e ambos morrem - ela de tuberculose, ele na sequência de maleitas contraídas numa emboscada armada por António. A história não acaba aqui - mas o melhor é descobrirem o livro, agora reeditado pela Guerra & Paz. O autor de “A Rosa do Adro” é Manuel Maria Rodrigues, que começou como tipógrafo no Comércio do Porto, onde depois trabalhou como jornalista na segunda metade do século XIX. Foi um dos fundadores  da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e escreveu vários outros romances. Ignorado pela crítica. que menosprezava a sua obra, ele retratou a sociedade da sua época, dos amores e desamores entre gente modesta e outra mais abastada. Vergílio Ferreira considerava intrigante como um livro ignorado por todas as histórias da literatura portuguesa “perdure para o interesse de sucessivas gerações”.


 


VER - Como pode uma fotografia de casamento surpreender? Encontra a resposta na quase clandestina e mal divulgada Galeria de Exposições da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (Rua dos Fanqueiros 170 ou Rua da Madalena 149) onde está uma exposição de fotografias de António Leitão Marques intitulada  “Jardim de Namorados - A Arte de Casar em Moçambique”. Como a galeria sublinha, “os casamentos populares em Moçambique são um ritual surpreendente e para poderem realizar esta cerimónia, muitos casais esperam anos até conseguir juntar os meios necessários para tal. Por vezes, o casamento ocorre numa fase tardia da vida fazendo-se os noivos acompanhar dos filhos ou mesmo dos netos. Mas, seja qual for a idade, a cerimónia realiza-se sempre com grande solenidade, sendo um acontecimento de grande importância para a família e para os convidados em que a fotografia, em jardins públicos ou na praia continua a ser um testemunho fundamental do evento. Outra sugestão a propósito de casamentos - na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (Jardim das Amoreiras) “O Outro Casal”, uma exposição baseada no trabalho de Helena Almeida e Artur Rosa que segue uma metodologia especial - “o processo quase sempre se inicia pelo desenho: Helena Almeida desenha primeiro as posições, os movimentos em que o seu corpo será registado e depois, em sessões a dois, faz-se fotografar pelo seu marido Artur Rosa. Mas por vezes Artur Rosa também entra na imagem. Esta exposição centra-se precisamente nesses registos em que os dois aparecem, tanto em fotografia como em vídeo.”


 


OUVIR -  Começo por avisar que “Live In Europe”, de Melody Gardot, apesar da sua capa, que aqui se reproduz, e da fama (e proveito) de algum jazz vocal, não é nenhum enfado delico-doce morninho e sem rasgo. Antes pelo contrário, é o fruto do trabalho de uma grande vocalista, especialmente talentosa e versátil, e dos músicos que escolheu para a acompanhar.  Melody Gardot navega nas águas do jazz, dos blues, do gospel e da soul e entre as suas confessadas influências estão nomes como Janis Joplin, Miles Davis ou Caetano Veloso. Melody Gardot Live In Europe recolhe num duplo CD 17 canções gravadas entre 2012 e 2016 numa série de concertos. Na realidade o álbum é o resultado da selecção de cerca de 300 gravações efectuadas em diversas ocasiões numa dezena de cidades europeias, entre as quais Lisboa. A selecção foi feita pela própria Melody Gardot e o único tema que não é da sua autoria é o clássico “Over The Rainbow”, aqui alvo de uma completa transformação para uma versão inspirada no samba, Os arranjos são bem diferentes das versões de estúdio, na maioria musicalmente inesperados e dignos de nota, sobretudo em temas como “The Rain”, “March For Mingus”, “Baby I’m A Fool” e “My One And Only Thrill”. Duplo CD Decca, distribuído por Universal Music.


 


PROVAR - O Bella Ciao é uma cantina familiar, que oferece comida caseira italiana, tradicional, com massas Cecco de boa qualidade e no ponto certo de cozedura. Até há poucos meses estava na Rua do Crucifixo e tinha uma sala bem mais pequena que nas novas instalações, ali perto, na Rua de S. Julião. O novo local é amplo, bem iluminado, mas mantém o aspecto tradicional e despretensioso que era a boa imagem de marca da casa. O vinho da casa, nomeadamente o tinto, é de boa estirpe, os preços são acessíveis. Nas entradas destaque para uma tábua de queijo pecorino de ovelha, pão e salame. O chefe Marcello manda frequentemente para a mesa um pratinho com atum temperado e uns farrapos de salada. Outra entrada apreciada é a tradicional vitella tonato - fatias finas, com um molho à base de maionese, alcaparras, atum, anchovas e salsa. Acompanhado por uma salada pode resolver uma refeição. Nas massas destaque para os penne primavera, para o linguine com salmão fumado ou os bucatini alla matriciana, tudo receitas tradicionais bem executadas. O meu prato favorito é  orechetti com brócolos, anchovas, alho e queijo grana padrano. Muito apreciados também são o risotto de cogumelos e os papardelle com funghi porcini frescos e autênticos. Nas sobremesas o tiramisú é afamado e para os viciados avisa-se que mousse é de Nutella. O serviço , a cargo do incansável Pina, é muito simpático. Restaurante Bella Ciao, Rua de S. Julião 24-26, telefone 308 803 844.


 


DIXIT - “Aprende-se muito sobre uma pessoa quando se partilha uma refeição com ela” - Anthony Bourdain.


 


GOSTO - A venda de sacos de plástico caíu 94% em três anos de taxa.


 


NÃO GOSTO - A espera média por uma primeira consulta da especialidade é superior a um ano em 20 hospitais públicos.


 


BACK TO BASICS - Seduzir é a forma de ouvir um sim, sem sequer formular uma pergunta - Albert Camus


 


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junho 08, 2018

CHEIRA A FIM DE FESTA: COSTA METE TRAVÕES, RUI RIO PERDE FLECHAS

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FLECHAS & ARQUEIROS - Sente-se no ar um ligeiro odor de fim de festa. António Costa, agora escudado na possibilidade de tomar o pequeno almoço com Rui Rio com maior frequência, começou a dar negas aos seus parceiros da geringonça. O Primeiro Ministro guia o Governo como se estivesse numa pista de ensaios de automóveis a testar os travões. Imagino-o a sorrir quando recebeu a notícia de que Rui Rio tinha retirado as setas do logotipo do PSD, pensando, com os seus botões, que já passou o perigo de uma batalha com arco e flecha lançada pelo líder da oposição. Como se viu nesta semana, com o porta voz do PCP para o ensino a clamar por auxílio de outros sectores profissionais na luta dos professores contra o Governo, a discussão sobre o próximo Orçamento de Estado para 2019 promete episódios picantes. Há uma clara marca partidária no sector escolhido para radicalizar a luta contra o Governo. O PCP decidiu voltar a posicionar-se, farto de estar nas trincheiras atrás do Bloco de Esquerda. O problema é que a pessoa que escolheu para dar cabo da vida aos alunos neste fim de ano escolar é alguém que há muito tempo não dá aulas. Chamar-lhe professor é um problema de expressão. Face à ocorrência, até agora, o Governo tem mostrado vontade de se distanciar do senhor Nogueira. Estamos politicamente na fase da dança e contra-dança. Com o Ministro da Educação a nadar em seco. 


 


SEMANADA - Há 541 anestesistas a menos nos hospitais públicos; um terço dos anestesistas formados nos últimos três anos optou por não ficar no Serviço Nacional de Saúde; há regiões, como o Algarve, que oferecem o dobro das remunerações normais para conseguirem atrair médicos; pelo segundo ano consecutivo 700 médicos não têm vaga para fazer a especialidade; no último ano e meio a administração pública contratou 13 652 pessoas e as autarquias foram responsáveis por cerca de metade do novo emprego público criado; em 2017 cada português foi responsável por criar 1,32 quilogramas de lixo por dia -  desde 2011 que não se produzia tanto lixo; segundo a União Europeia Portugal é dos países onde a população total mais vai encolher e terá a taxa de crescimento potencial mais débil da Europa; um estudo divulgado esta semana indica que quase metade dos alunos do 2º ano não consegue saltar à corda e 40% deles não conseguem dar uma cambalhota para a frente; as ajudas do Estado aos bancos nos últimos dez anos custaram o equivalente a 23 pontes Vasco da Gama; o preço das casas subiu 20% mais rápido que o rendimento das famílias; a taxa de empregabilidade dos alunos formados na rede de escolas de hotelaria e turismo subiu para 90%; o Museu da Presidência da República foi assaltado pela segunda vez; o ex~líder da Juventude Leonina foi detido; o Estádio da Luz e o Benfica foram alvo de mais uma busca da Polícia Judiciária.


 


ARCO DA VELHA - O programa Simplex apresentou no Porto o primeiro funcionário público que é um robô humanóide, chamado Lola, e contratou o mágico Luis de Matos para fazer videos sobre as novas funcionalidades. António Costa, presente na apresentação do mágico, afirmou que não trazia vacas voadoras.


Dicionario Enciclopedico de palavras Cruzadas_CAPA


FOLHEAR - Os dicionários definem cruzadismo como o gosto pela actividade de fazer ou construir palavras cruzadas. É um passatempo que muitas pessoas é a razão para escolherem o seu jornal em papel e comprarem-no regularmente. Fazer palavras cruzadas é um desafio, um vício que puxa pelos conhecimentos de vocabulário e de raciocínio. Mário Bernardo de Matos é um dos grandes especialistas portugueses nesta área e entre 1999 e 2005 foi colaborador do Jornal da Região, onde publicou problemas de palavras cruzadas de autor para todas as regiões onde o jornal foi distribuído. Em 1998 lançou o Dicionário do Cruzadismo, a primeira obra do género a ser publicada em Portugal. Agora, pela mão da editora  Guerra & Paz lançou o “Dicionário Enciclopédico de Palavras Cruzadas”, que reúne mais de 17500 entradas ao longo de cerca de 400 páginas. Para além do seu conteúdo enciclopédico e rico em sinomínia a edição oferece a possibilidade de uma busca prática: ao contrário dos dicionários tradicionais esta obra parte de uma definição para chegar a uma palavra, e não de uma palavra para chegar a uma edição.


 


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VER - É raro ver um filme português que conjugue uma qualidade técnica irrepreensível (na fotografia, no som, na montagem) com um desempenho de actores excepcional, com um elenco internacional, uma história e uma narrativa escorreita Cabaret Maxime, o novo filme de Bruno de Almeida, é um exemplo disso mesmo. Bruno de Almeida, que estudou cinema em Nova Iorque, por lá viveu e trabalhou vários anos, trouxe uma forma diferente de pensar um filme, desde o processo de produção à construção do argumento e dos diálogos. O filme é rodado em Lisboa, no Cais do Sodré, integralmente falado em inglês e a história passa-se em local não especificado. O antigo Cabaret Maxime, na Praça da Alegria, que inspirou o filme, foi gerido no final da sua existência por Manuel João Vieira (músico, artista plástico), e ele próprio é o responsável não só pela banda sonora do filme como pelas numerosas intervenções musicais que surgem ao longo da narrativa. O tema do filme é a transformação que ocorre nas cidades quando a gentrificação começa a deslocar do seu habitat os negócios tradicionais - no caso é o negócio do entretenimento. O Cabaret Maxime é habitado como um circo, por artistas que vivem como uma família. Michael Imperioli (que fez fama em os Sopranos) desempenha o papel principal e é o dono do local. Destaque para as interpretações de Ana Padrão (o seu melhor papel em cinema até agora), John Ventimiglia, Nick Sandow e Drena De Niro. No fim os bons vencem os maus, coisa que por vezes acontece nos filmes e mais raramente na realidade.


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OUVIR - José Mário Branco é conhecido por ser um dos mais importantes nomes da canção de intervenção, antes e depois de 25 de Abril de 1974. Além de autor de canções inesquecíveis e de ser um grande intérprete, José Mário Branco é também um músico excepcional e um dos melhores produtores e arranjadores da música popular portuguesa. Os seus trabalhos com José Afonso e Camané, para citar só os mais conhecidos, são provas disso. Mas a sua actividade inclui bandas sonoras de filmes e a  recuperação de temas populares e tradicionais, além de colaborações com grupos de teatro, quer como actor, quer como compositor. “Inéditos 1967-1999” é um CD duplo que inclui 26 temas seleccionados pelo próprio José Mário Branco, em vários casos restaurados a partir das bobines originais, incluindo temas que nunca foram editados em disco, singles raros e maquetes nunca antes divulgadas. Entre os temas raros destacam-se as seis “Cantigas de Amigo” editadas em EP antes ainda do álbum “Mudam-se Os Tempos Mudam-se As Vontades”, o notável tema inédito “Quantas sabedes amar, amigo (Mar de Vigo)”, que abre a colectânea, o quarteto instrumental em 3 andamentos “Fantaisie Languedocienne”, de 1987, que agora foi gravado pela primeira vez em estúdio, os cinco temas escritos para a banda sonora do filme Agosto” de Jorge Silva Melo e o arrebatador bolero “Alma Herida”, escrito para o filme “A Raiz do Coração”, de Paulo Rocha, e que encerra o segundo CD. Este segundo CD tem aliás vários motivos de interesse musical, com José Mário Branco a inspirar-se em temas de Eddy Mitchell, Adriano Celentano, Helmut Zacharias , os Conchas e The Shadows. Outros pontos saltos são a colaboração com João Loio na marcha “São João do Porto”, e temas incontornáveis como “Ronda do Soldadinho”, “Cantar da Viúva de Emigrante”, “Fuga do Mar” (baseado num poema de Alexandre O’Neil), “Remendos e Côdeas” (segundo Bertolt Brecht). Edição Warner já à venda.


 


PROVAR - Soão é o nome dado a um vento que sopra do oriente. É também o nome da  taberna asiática que pela mão do chef Luís Cardoso junta pratos oriundos da Índia, Vietname, Coreia, Taiwan, China, Tailândia e Japão. Fica no edifício do antigo cinema Alvalade, junto à praça de Santo António. No piso de entrada há meia dúzia de mesas e o balcão onde se pode ver a cozinha em acção; em baixo há o bar e quatro compartimentos reservados que podem levar entre seis a doze pessoas. A carta proporciona uma escolha ampla, que vai de diversas entradas como chamuças de cabra, algumas sopas orientais, dim sums, sushi e sashimis, além de propostas próprias do chef. A decoração é simples e confortável, o serviço é completamente informal mas funciona. A lista de vinhos é suficiente, há cervejas orientais, diversos chás, e até cocktails de whisky japonês com chás especiais. Nas comidas provou-se um dim sum de champagne, lavagante e gambas, na sopa esteve bem o Tom Yum, uma sopa temperada com erva princípe, lima kaffir, chili, cogumelos e camarão (ou frango). A rematar veio um caril de peixe com leite de côco, manjericão, pimentos, lima kaffir e arroz thai, que estava acima da média. A sobremesa foi um refrescante gelado de lemongrass, gengibre e manjericão. O Soão é propriedade do mesmo grupo que nasceu com o Sea Me e depois cresceu para o Prego da Peixaria e Barracuda. A experiência foi boa, é sítio para voltar. Avenida de Roma 100, telefone 210 554 499.


 


DIXIT - “Não há dinheiro” - António Costa, no Parlamento, sobre as reivindicações dos professores.


 


GOSTO -  O Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa colocou online os arquivos dos 50 anos de carreira de José Mário Branco.


 


NÃO GOSTO - 45% dos alunos do ensino secundário não foram capazes de situar Portugal no mapa da Europa.


 


BACK TO BASICS - Nunca ensino os meus alunos, apenas procuro que eles tenham condições para aprender - Albert Einstein

junho 01, 2018

HOJE SÃO TODOS COSTISTAS... JÁ FORAM TODOS SOCRÁTICOS

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O PODER - Um espectro assolou o Congresso do PS  - José Sócrates. Todas as intervenções sobre a necessidade de mudar o funcionamento do partido e, sobretudo, sobre o combate à corrupção ou sobre a reforma do sistema político, tinham-no como pano de fundo. Sem ter estado presente, José Sócrates esteve na primeira linha da preocupação dos socialistas. Houve dois temas centrais do Congresso: como ganhar as próximas legislativas e a sucessão de António Costa. Os problemas do país, a perda de competitividade, a degradação do PIB em termos comparativos europeus, a situação na saúde e na justiça, tudo isso passou ao lado. O que interessou aos congressistas é como conquistar mais uns lugares nas eleições e quem pode suceder a Costa quando este daqui a uns anos sair. O Bartoon, de Luis Afonso resumiu a situação: “Segundo um congressista do PS, quando Sócrates era Primeiro-Ministro, no partido eram todos socráticos. Hoje são todos costistas” - e do outro lado, detrás do balcão, sai a réplica:”O PS é um partido de tendência, tendem sempre a apoiar o líder no poder”. Costa passeou triunfalmente entre os seus, entre os apoiantes do Parlamento e entre os candidatos a apoiantes. A sua batalha é conquistar nova maioria, de preferência sem necessidade de alianças.  Mas, no PS, o que já está na ordem do dia é quem lhe pode suceder. Isto diz tudo sobre os partidos do arco do poder - já no PSD, no recente congresso, foi a mesma coisa. A estratégia para o país interessa pouco. O que conta é a estratégia para o poder.


 


SEMANADA - Entre Janeiro e Março, em 6700 casos de emergência,  o INEM não conseguiu enviar um médico para assistir pessoas em estado muito grave; apesar de existirem médicos especialistas em falta no Serviço Nacional de Saúde, os processos de reconhecimento de habilitações de médicos com diplomas de fora da União Europeia estão parados há meses; Portugal caíu para o 21º lugar na União Europeia quanto ao PIB per capita; segundo Bruxelas países como a Lituânia,  a Eslováquia e a Estónia poderão ultrapassar Portugal em 2018, que ficará mesmo em pior situação do que estava em 1999; no indíce de PIB per capita em paridades de poder de compra Portugal já foi ultrapassado por metade dos países do alargamento da UE; o preço da viagem de comboio em Alfa Pendular entre o Porto e Lisboa, em classe turística, praticamente duplicou entre 1999 e o ano passado; António Costa admitiu não ser possível limpar este ano todos os terrenos florestais; um inspector da Judiciária revelou em tribunal, perante o espanto do juiz, que a ligação de Manuel Vicente ao caso Fizz tinha sido feito com base numa pesquisa do Google sem provas adicionais; o movimento nos portos portugueses decresceu 11% no primeiro trimestre deste ano; 53% do preço do gasóleo destina-se a impostos;  o número de lojas das marcas de grande distribuição duplicou em oito anos, entre 2009 e 2017.


 


ARCO DA VELHA - O Governo criou um grupo de trabalho, que funcionará nos próximos três anos,  para apoiar e acompanhar a actividade das cabras sapadoras, que devem comer arbustos em zonas florestais, como prevenção dos incêndios.


 


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FOLHEAR - Volta e  meia sabe bem voltar a folhear uma “Monocle”. Onze anos depois de ter sido criada já raramente surpreende, mas consegue acompanhar o ar do tempo sem ser demasiado previsível e os temas de capa trazem quase sempre reflexões interessantes. A vida nas cidades é desde o início uma preocupação do seu fundador, Tyler Brulé, e esta edição de Junho dedica bastante espaço a formas de transporte com incidência nas vidas de quem vive nas grandes urbes. Que exemplos podem ser estudados - e eventualmente seguidos - por esse mundo fora no que toca a transportes públicos, sustentabilidade ou coexistência entre o transporte privado e o colectivo? Esta edição dedica-se a assuntos como o aeroporto ideal, a campanha eleitoral em São Francisco (que promete ser quente) ou a forma como o brexit está a ser acompanhado em termos informativos fora do Reino Unido.  Referências a Portugal há uma - Paraíso Escondido, um turismo rural perto da costa vicentina. Mas numa edição recente do jornal The Spring Weekly, editado também pela Monocle, havia dois interessantes destaques - um sobre o trabalho do Instituto Diplomático do nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros e outro sobre os vinhos da Quinta do Vallado.


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VER - Muitas pessoas descobriram Michael Biberstein quando viram o céu que ele imaginou, pouco tempo antes de morrer, para o tecto da Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, e que foi mostrado há cerca de dois anos. É uma obra impressionante, de fé e esperança, que na altura impressionou muita gente e que continua permanentemente a chamar a atenção de quem visita o local. Mas a maioria daqueles que o descobriram no tecto desta igreja desconhecem a obra do autor. Quem tiver curiosidade tem uma oportunidade única de ver essa obra agora, numa grande retrospectiva, na Culturgest, no edifício sede da CGD ao Campo Pequeno. Escapa ao meu entendimento como é que a instituição, que montou esta retrospectiva e nela investiu, não a associou publicamente à obra em Santa Isabel, procurando atrair quem se emocionou com a força do fresco que lá está. Aliás, depois de ver a retrospectiva, percebe-se melhor o percurso de Biberstein e como ele chegou ao céu que deixou na Igreja. A coisa é particularmente penosa quando, como constatei sábado passado, a exposição estava quase deserta, sem público. O tema devia preocupar as instituições mas vejo-as, ano após ano, a queixarem-se da falta de público sem nada fazerem para o conquistarem. “Michael Biberstein:X, uma retrospectiva” (na imagem) estará na Culturgest até 9 de Setembro - não percam a oportunidade de conhecer a obra deste artista suíço-americano que viveu mais de 30 anos em Portugal. Outra sugestão: a 14ª edição - e penúltima - das temporárias nas montras do British Bar apresenta trabalhos de Pedro Cabral Santo, de Tânia Simões e de Cristina Ataíde.


 


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OUVIR - Otis Redding gravou “(Sittin’ On) The Dock Of The Bay” em Dezembro de 1967, aos 26 anos. Poucos dias depois morreu num desastre de avião. Foi preciso quase um ano para que a canção se tornasse um êxito mundial e que “Dock Of The Bay” fosse o primeiro disco póstumo a alcançar o lugar cimeiro no top britânico. Tudo isto se passou há cinco décadas. Rezam as crónicas que Otis Redding tinha ficado impressionado com o álbum “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles e que tinha decidido criar uma sonoridade semelhante. A canção que se tornou num êxito foi composta em parceria com Steve Cropper, mas o resultado não agradou à editora Stax que queria uma sonoridade mais tradicional dentro da linha R&B. Otis achava, com razão, que a canção tinha tudo para ser um êxito e resolveu deixar uma marca no final, assobiando os últimos acordes. Nas sessões de “Dock Of The Bay” foram gravadas 12 canções, a maior parte delas editadas aos longo dos meses e anos seguintes como singles. São essas doze canções que surgem reunidas em “Dock Of The Bay Sessions”, uma colecção de canções essencial para todos os que gostam de soul music e um testemunho do enorme talento de Otis Redding. A ùnica canção que não tem a assinatura de Redding é o tradicional “Amen”, que encerra o disco. Aqui estão outros temas que venceram os tempos e tiveram muitas versões, como “Love Man”, “Hard To Handle” ou “I’ve Got Dreams to Remember”. Nestas sessões participaram nomes como Booker T. Jones ou Isaac Hayes, além de Steve Cropper na guitarra e Donald Dunn no baixo. CD Volt Records, distribuído em Portugal pela Warner.


 


PROVAR - Há uns restaurantes modernos em que os empregados de mesa têm um ar filosofal e passam o tempo a olhar para o horizonte, indiferentes ao acenar de clientes ou ao facto de estes precisarem de atenção regular ao longo da refeição. Este espírito é um bocadinho aborrecido quando falta alguma coisa, ou se pretende esclarecer uma dúvida. A consistência e regularidade da qualidade da comida confeccionada e o bom serviço são os dois atributos principais que procuro num restaurante. É mesmo a única coisa que me pode motivar a sair de casa para ir comer fora. Não chega proclamar que  é uma novidade: pode existir muita decoração, muito laboratório, muita química e muito conceito, mas se a matéria prima não fôr de qualidade, se a confecção não fôr adequada e se a refeição fôr um sofrimento de falta de atenção, não há nada a fazer. Outra coisa penosa é um restaurante vazio, permanentemente vazio e que não faz nada para contrariar isso - procurando ver qual a razão de falta de clientela. Entre os novos restaurantes encontrei recentemente vários casos assim. Felizmente calhou que nestes dias mais recentes revisitei dois locais habituais, clássicos lisboetas, de origem bem diferente, que se mantêm referências de qualidade e bom serviço: o Casa Nostra no Bairro Alto e o Salsa & Coentros em Alvalade. Ambos são exemplos de bom funcionamento, de uma relação qualidade-preço muito boa e de inovações pontuais nas cartas respectivas sem dar cabo dos seus clássicos. Há anos foram eles próprios  novidade nesta cidade. Sobreviveram bem e tornaram-se referência - é o que acontece a quem inova a sério.


 


DIXIT - “Com o seu currículo recente, é difícil imaginar um PS capaz de corrigir as causas de corrupção e de barrar os caminhos que a ela conduzem” - António Barreto.


 


GOSTO - Do resultado da votação sobre a eutanásia na Assembleia da República.


 


NÃO GOSTO - Da forma como, na maioria dos casos, decorreu o debate sobre a eutanásia.


 


BACK TO BASICS - "Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela ainda mais." - Clarice Lispector




maio 25, 2018

A IMPORTÂNCIA DO SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO NA PRODUÇÃO DE DOCUMENTÁRIOS

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DOCUMENTÁRIOS & SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO - Esta semana um acontecimento infeliz, a morte do pintor Júlio Pomar, trouxe-me ao pensamento a responsabilidade do serviço público ser o garante da preservação da memória de figuras importantes da cultura portuguesa. Tive a sorte de, durante uns anos, em diversas circunstâncias, estar ligado à produção de documentários precisamente sobre Júlio Pomar, mas também sobre Agustina-Bessa Luís, Luiz Pacheco, João Vieira, Paula Rêgo, Luís Serpa, Isabel de Castro, Bénard da Costa, David Mourão Ferreira, Amália Rodrigues, Carlos Paredes, Helena Almeida ou Fernanda Botelho, entre outros. A ideia era filmar e preservar documentários com uma forte componente biográfica, na maior parte dos casos baseados em depoimentos dos próprios, para que ficasse registado o que cada autor tinha para dizer. Este trabalho, que é frequente em muitas estações de televisão por esse mundo fora, aqui é raro e inconstante. Felizmente esta semana  a RTP estreou também um documentário sobre Eduardo Lourenço - uma raridade no meio do que tem sido a programação do canal. Se não fôr o serviço público de televisão a fazer documentários sobre estes temas, ninguém o fará. Há um dever, na matriz do serviço público, de fazer produção audiovisual que possa ser reexibida no futuro e que salvaguarde aquilo que Portugal tem de melhor. Gerir os arquivos audiovisuais não é só preservar imagens antigas, digitalizá-las e disponibilizá-las. É também alimentar esses arquivos com novos conteúdos prontos a exibir. Os custos deste tipo de produção são migalhas, comparado com muito do que é transmitido nos canais da RTP e que se esgota no minuto em que é exibido. Dirigir uma estação de televisão e vigiar o cumprimento do contrato de concessão do serviço público, penso eu, passa por aqui. (A imagem escolhida para esta página é do documentário “O Risco”, de António José de Almeida, filmado em 2005 para a 2: e que mostra Júlio Pomar a desenhar o seu próprio auto-retrato).


 


SEMANADA - A penetração do e-commerce em Portugal é de apenas 36% e na Europa Portugal está no fim da lista, apenas com a Letónia em pior situação nesta área; só 8% das PME estão preparadas para as novas regras de protecção de dados; apesar de dia 25 de Maio entrar em vigor o regulamento geral de protecção de dados europeu, a legislação portuguesa não ficará pronta nessa data; o Governo isentou os organismos públicos do cumprimento do regulamento durante um período alargado;  a dívida pública atingiu em Março 126,4% do Produto Interno Bruto (PIB), acima do valor de Dezembro de 2017; todos os dias são identificados mais 42 menores em risco; no próximo ano lectivo o 3º período vai ter apenas 30 dias de aulas; no ano passado houve condutores que se puseram em fuga em mais de mil acidentes rodoviários; o regulador do sector da saúde tem 58 pessoas para fiscalizar 27 mil entidades; Mark Zuckerberg desculpou-se 15 vezes numa década, três delas este ano - recordou um deputado no Parlamento Europeu durante a audição do criador do Facebook; numa entrevista a propósito da eutanásia Paula Teixeira da Cruz afirmou:  “defendo que a vida compreende inevitavelmente a morte. Assim sendo, todos nós temos o direito de dispor da forma como queremos terminá-la”.


 


ARCO DA VELHA - O Presidente da Câmara de Castelo Branco contratou duas vezes, por ajuste directo, uma empresa em que o seu pai, o sogro e até o tio da mulher são accionistas - e apesar de ter assinado ele próprio os contratos afirmou não se ter apercebido que tinha familiares envolvidos.


 


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FOLHEAR - Jean Tirole foi galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2014 e a sua obra “Economia do Bem Comum” foi agora editada em Portugal. É um livro de leitura acessível e por vezes até entusiasmante, destinado a um público alargado, sobre  assuntos que afectam o nosso quotidiano. Logo no prefácio Jean Tirole escreve: “ A procura do bem comum toma por critério o nosso bem-estar, do outro lado do véu da ignorância. Não conjectura soluções e não tem outro marcador que não seja o do bem-estar colectivo. Admite a utilização privada para o bem-estar da pessoa, mas não o abuso dessa situação à custa dos outros”. O livro divide-se em cinco grandes áreas: “Economia e Sociedade”, “O trabalho do investigador em Economia”, “O quadro institucional da Economia”, “Os grandes desafios macroeconómicos” e “O desafio industrial”. Ao todo há dezassete capítulos espalhados por estas cinco áreas e a boa coisa deste livro é que, como o próprio autor sublinha no prefácio,  estão escritos por forma a poderem ser lidos independentemente uns dos outros para cada leitor poder escolher os temas que lhe interessam mais. Mas Tirole aconselha a que, mesmo assim, o capítulo sobre a finança seja lido antes do capítulo sobre a crise de 2008. Questões como o desafio climático, o combate ao desemprego, a encruzilhada da Europa ou o que deve ser um Estado moderno são alguns dos temas base. A parte mais atraente, e talvez actual, é a que aborda o novo desafio industrial, passando por assuntos como a alteração da cadeia de valor pelo digital, os desafios sociais da economia digital ou ainda a inovação e a propriedade intelectual ou as novas formas de emprego do século XXI. Fascinante.


 


Omar Victor Diop - Aminata, 2013 - Courtesy galeri


VER - Se gosta de arte africana contemporânea até 25 de Agosto pode é incontornável uma passagem pelo Palácio Cadaval, em Évora, para a primeira edição do Festival Évora África, que reúne artistas contemporâneos, músicos e performers com África como ponto comum de origem. Ponto alto é a exposição “African Passions” com destaque para obras de Omar Victor Diop (na imagem), Filipe Branquinho, Malick Sidibé, Houston Maludi, Mauro Pinto ou Amadou Sanogo, entre outros. A curadoria é de André Magnin e Philippe Boutté. Magnin, que tem a sua própria galeria em Paris, vocacionada para a arte africana, já esteve ligado a exposições no Centro Pompidou, no Museu Guggenheim de Bilbao, na Tate Modern e no Smithsonian. Além da exposição central que estará durante todo o Festival Évora África, decorrerá ainda um programa de música dirigido por Alain Weber e Alcides Nascimento com nomes como a orquestra Ballaké Sissoko, Johnny Cooltrane, Irmãos Makossa, Celeste Mariposa, Congo Stars Of Vibration, Sara Tavares, Bubacar Djabaté e a Companhia Xindiro, entre outros. O Évora África sucede ao ciclo de oito anos de “Os Orientais”, também realizado no Palácio Cadaval. O Festival é dirigido por Alexandra de Cadaval, que tem estado envolvida numa série de iniciativas relacionadas com a arte africana e em particular com Moçambique. Estão ainda previstos workshops de música e dança, palestras e conferências com foco na arte, cultura e herança africanas. Mais informações em evorafrica.pt .


 


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OUVIR - O saxofone é um instrumento musical com  capacidade de exprimir emoções e ritmos ao mesmo tempo. Uma entrada de saxofone como a de “Naked Walk”, a faixa de abertura do novo álbum de Dave McMurray, é um momento arrebatador. Sim, é certo que estou mesmo entusiasmado com “Music Is Life”, o apropriado nome deste sétimo álbum de McMurray, o primeiro para a Blue Note, dirigida por Don Was com quem o saxofonista trabalha há muitos anos nos mais diversos projectos. Oriundo de Detroit,  McMurray tocou com nomes como os Rolling Stones, Bob Dylan, or Herbie Hancock, entre muitos outros. Nasceu no jazz, tocou rock, funk, soul e voltou ao jazz com uma sonoridade forte. Este novo disco tem uma série de originais de McMurray mas também inesperadas e boas versões dos White Stripes (“Seven Nation Army”), dos Parliament-Funkadelic (“Atomic Dog”) e até “Que Je T’Aime”, um dos históricos temas popularizados por Johnny Halliday, com quem McMurray tocou em numerosas digressões. Entre os originais destaque para a faixa título “Music Is Life”, para  “Paris Rain” e para a última faixa do disco, o poderoso “Detroit Theme”. CD Blue Note, distribuição Universal.


 


PROVAR -  Desde que me ofereceram uma caçarola Le Creuset no Natal passado as minhas experiências culinária têm ganho novos horizontes. A mais recente aventura combinou lulas cortadas aos bocados e gambas de bom tamanho com ervilhas, cenouras e cogumelos frescos, tudo num lento estufado. É uma excelente receita primaveril. Primeiro salteia-se gengibre cortado em lâminas finas num pouco de azeite, a seguir entram as lulas e temperam-se com sal e piri-piri moído. Tapa-se durante uns minutos e depois adicionam-se as cenouras cortadas grosseiramente. Tapa-se mais um pouco e a seguir entram os cogumelos e as ervilhas. Passados uns dez minutos, e depois de rectificado o sal, entram as gambas. Com mais uns cinco minutos deve ficar tudo pronto. A água largada pelos legumes no estufado é suficiente para que nada fique seco, o facto de a caçarola estar tapada durante todo o processo garante que o sabor se mantém -  é importante usar o lume brando. Para acompanhar escolhi o magnífico Quinta do Monte d’Oiro Lybra 2017 branco, um vinho com certificação biológica, fresco e vibrante, que casa bem com este saboroso estufado.


 


DIXIT - “Eu acho que uma tela ou um papel é sempre uma arena onde se vai passar um desafio” - Júlio Pomar


 


GOSTO - Francisco Assis, deputado do PS, afirmou que a “geringonça” foi um expediente político para superar uma derrota eleitoral.


 


NÃO GOSTO - Há mais de 70 mil doentes sem vaga nos cuidados paliativos.


 


BACK TO BASICS - “No futebol tudo se complica por causa do adversário” - Jean Paul Sartre.


 

maio 18, 2018

A MISTURA EXPLOSIVA DA IRRESPONSABILIDADE COM A IMPUNIDADE

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DESCALABRO -  A rotina portuguesa é esta: não há semana em que não surja um escândalo - seja de corrupção entre os políticos, seja em clubes de futebol. Chegámos a um ponto em que tudo parece ser permitido, em que existe um sentimento de impunidade que faz uma mistura explosiva quando aparece combinado com irresponsabilidade, como tem sido o caso. Os acontecimentos desta semana no Sporting, outros de semanas anteriores no Benfica, mostram isto mesmo. Tudo se passa como se os clubes de futebol tivessem deixado de ter direcções e passassem a ser governados por claques descontroladas.  Clubes que deviam ser uma referência inspiradora de bons comportamentos desportivos passaram a exemplo do que não pode acontecer. O que se passou no Sporting é, a esse nível, particularmente grave - trata-se de agressões a jogadores em duas ocasiões: dia 13, nas garagens do estádio, depois da chegada da Madeira, e dia 15, nas instalações da Academia, em Alcochete. Nos dois casos as agressões realizaram-se em instalações do Sporting, perante a ausência ou indiferença da segurança que aí devia existir - e que devia ser investigada por ter permitido o que se passou. Vale a pena ler estas duas citações - a primeira é de Bruno de Carvalho:  “Foi chato mas amanhã é um novo dia e temos que perceber que o crime faz parte do dia-a-dia”; e a segunda foi proferida pelo Presidente da República : “São acontecimentos graves que não podemos normalizar ou banalizar sob pena de permitirmos escaladas que são más para o desporto português e para a sociedade portuguesa no seu todo”. O desporto profissional, que devia ser uma motivação e um exemplo de fair-play, transformou-se em Portugal num vale tudo governado por arrivistas que se julgam acima da lei. Isto já não é desporto.


 


SEMANADA - Para fazer aumentar o número de alunos universitários no interior do país, o Governo vai cortar 1100 vagas em cursos superiores em Lisboa e Porto no próximo ano lectivo; menos de metade dos meios aéreos de combate a incêndios estão activos no início da fase de alerta, que começou dia 15; a carga fiscal em Portugal atingiu no ano passado o valor mais elevado desde 1995, cifrando-se em 34,7% do PIB; no primeiro trimestre o PIB português cresceu abaixo do previsto, numa travagem superior às estimativas oficiais; o decreto-lei de execução orçamental para 2018, foi publicado quarta-feira com dois meses e meio de atraso face ao prazo imposto por lei; as baixas médicas aumentaram 32% em quatro anos; há mais de 136 mil jovens e crianças sem médico de família atribuído; em 2017 os portugueses realizaram operações de multibanco - levantamentos e pagamentos - a uma média de 1,5 mil milhões de euros por dia, mais 118,3 milhões por dia que em 2016;  registam-se 992 novos registos por dia para apostas online; os processos em papel nos tribunais têm um custo de 20 milhões de euros por ano, dos quais 18 milhões são em despesas de correio; nos novos programas de ensino de História a adesão à CEE e a herança muçulmana quase desaparecem da disciplina de História.


 


ARCO DA VELHA - A associação Capazes recebeu 73 mil euros de fundos europeus para organizar cinco conferências com a duração total de sete horas e meia, num processo que decorreu ao longo de dois anos e que requereu dois funcionários a tempo inteiro.


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FOLHEAR - Manuel S. Fonseca, o editor da Guerra & Paz, iniciou uma colecção baseada em antologias de textos de Fernando Pessoa e seus heterónimos, textos que se organizam em torno de um tema. Primeiro fez “Absinto, Ópio, Tabaco e Outros Fumos”,  agora pegou nas ideias de viagem sugeridas por Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Fernando Pessoa ou Bernardo Soares e deu-lhe o título “Tenho Medo de Partir”. No fundo este livro retoma, em edição revista e acrescentada, o “Livro de Viagem”, publicado pela Guerra e Paz no final de 2009.  Esta colectânea começa pelo poema de Álvaro de Campos “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”, prossegue pela mão de Alberto Caeiro em “Para além da curva da estrada”, recorda com Ricardo Reis “Azuis os montes que estão longe param”, prossegue, pela mão do próprio Pessoa “No comboio descendente”, e com Bernardo Soares perde-se no “Devaneio entre Cascais e Lisboa”. No posfácio Manuel S. Fonseca classifica Álvaro de Campos como o viajante dramático, Alberto Caeiro como o viajante do lugar onde está, Ricardo Reis como o viajante imóvel, Bernardo Soares como o viajante nauseado e Fernando Pessoa como o viajante de si mesmo. Como dizia Bernardo Soares: “As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”


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VER - E à terceira, foi de vez. Esta é a melhor edição da ARCO Lisboa, quer pelas obras expostas, quer pela diversidade e importância dos artistas expostos, portugueses e estrangeiros, quer ainda pela ampliação do espaço consagrado a projectos individuais de artistas ou a área dedicada a novas galerias - o Opening, este ano com 12 galerias, seis nacionais e seis de fora. Ao todo estão 72 galeristas de 14 países, cerca de mil obras, e ainda um espaço dedicado a editores e livrarias que trabalham com livros de arte. A Feira de Arte Contemporânea de Lisboa pode ser visitada até Domingo (sexta e sábado das 14 às 21h00 e domingo das 12 às 18h00). Organizada pela IFEMA, que criou a original ARCO Madrid, a edição lisboeta tem um núcleo importante de galerias espanholas, além de novidades como a Krizinger (de Viena) ou a Greengrassi de Londres. Além da presença na ARCO os galeristas lisboetas desenvolvem várias iniciativas nas suas próprias galerias e a organização incentivou uma série de programas paralelos aos quais os coleccionadores e críticos de arte estrangeiros convidados são estimulados a ir. O edifício da Cordoaria, integralmente ocupado pela ARCO, conta ainda com a novidade de uma colaboração com a Trienal de Arquitectura, que através do atelier JQTS criou no pátio central do edifício um pavilhão temporário que aloja o restaurante da feira. Outra novidade este ano  é a primeira edição da JustLX, promovida pela ArtFairs, que em Madrid organiza há nove anos uma mostra alternativa à ARCO. A JustLX está no Museu da Carris, perto da Cordoaria, acolhe 43 galerias, 15 das quais portuguesas e decorre também até domingo.


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OUVIR - Nels Cline  ganhou fama como guitarrista dos Wilco, um grupo rock de Chicago que ganhou notoriedade na segunda metade dos anos 90 e na primeira década deste século. A revista Rolling Stone considerou Cline como um dos melhores guitarristas de sempre. Há uns anos começou projectos a solo mais centrados na área do jazz . primeiro o álbum “Room”, feito em parceria com o também guitarrista Julian Lage e, a seguir, a sua estreia na editora  Blue Note com o duplo-álbum “Lovers”, onde contou com uma orquestra. Agora, de novo na Blue Note, apresenta “Currents, Constellation”, com um quarteto a que deu o nome Nels Cline 4. Depois da aventura orquestral retoma a colaboração com Julian Lage e foi buscar uma secção rítmica composta pelo baixista Scott Colley e pelo baterista Tom Rainey, que acrescentam considerável energia ao diálogo, rico, entre as duas guitarras eléctricas. Se o som de guitarra eléctrica muito bem tocada vos entusiasma, este é o disco que vale a pena conhecer. Todas as composições são de Cline, à excepção de “Temporarily”, um original de Carla Bley e por sinal uma das demonstrações mais claras do trabalho deste quarteto. Há um tema que vem do álbum “Room”, “Amenette”, há uma clara homenagem a Ralph Towner em “As Close As That” e para mim o tema mais fascinante é “River Mouth”. CD Blue Note, distribuição Universal.


 


PROVAR - Ver programas sobre comida, à noite, tem efeitos terríveis. Comecei a ver a série “Ugly Delicious” na Netflix e logo no primeiro episódio aparece a pizza napolitana. O resultado óbvio disto foi que no dia a seguir fui à procura de uma pizza à hora de almoço e o local escolhido foi um restaurante recentemente aberto na Duque de Ávila, o Pátio Antico. O nome ecoava-me na memória e depressa descobri porquê: o chef Rosario Corsa é quem, há uns anos, abriu e dirigiu o restaurante de nome idêntico em Paço de Arcos onde tive vários bons momentos. Com a casa original em obras, resolveu abrir este espaço em Lisboa. Fiz três incursões até agora e todas honraram as memórias passadas. A pizza napolitana que escolhi, na senda dos desejos inspirados pela televisão, estava como se deseja na consistência da massa (fofa nos bordos, fina no centro, bem assada) e na qualidade e equilíbrio dos ingredientes. Nas outras vezes provei os pratos do dia - fettucine com pesto e burrata, umas almôndegas com recheio de mozarela e presunto, acompanhadas por raviolis de ricotta e espinafres com um toque de trufa e um spaghetti puttanesca fiel à ideia original. As massas, frescas, preparadas diariamente, vêm cozinhadas no ponto. A lista de vinhos não é extensa mas tem  propostas equilibradas e o Lambrusco da casa é uma boa escolha - há também vinhos italianos e portugueses a copo. Da lista faz parte nas entradas um bom misto de enchidos e queijos italianos, há risottos de polvo e camarão, de espargos e cogumelos e um extraordinário de caranguejo e courgette, além de diversos spaghetti (nomeadamente com tartufo negro), pizzas e propostas de carne. Serviço muito simpático. Avenida Duque de Ávila 169D, telefone 213 530 290.


 


DIXIT - "Sócrates como primeiro-ministro não se interessou pelo combate à corrupção" - João Cravinho, ex-Ministro e ex-deputado do PS.


 


GOSTO - A Gulbenkian anunciou ir apoiar com 150.000 euros projectos de investigação jornalística.


 


NÃO GOSTO - O trabalho da RTP e das equipas de produção externa que contratou foi brilhante mas o Festival da Eurovisão continua a ser uma pinderiquice musical.


 


BACK TO BASICS - “O Amor é a expressão maior da vontade de viver” - Tom Wolfe.


 

maio 11, 2018

JUSTIÇA LENTA È BASE DO ABUSO DE PODER DO ESTADO SOBRE OS CIDADÃOS

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A INJUSTIÇA - O Presidente da República tomou esta semana uma forte posição denunciando a lentidão da Justiça: “Se renunciarmos a uma Justiça em tempo, renunciamos ao Estado de direito”. Marcelo falava sobretudo dos crimes de corrupção e de colarinho branco, nas relações entre a economia e a política. Mas a lentidão na justiça, que atinge toda a sociedade, tem um lado ainda mais perverso quando envolve os direitos dos cidadãos face ao abuso de autoridade do Estado. O tempo que demora a resolver um processo entre um cidadão e o Estado é incompatível, por vezes, com o tempo de vida das pessoas. Todos sabemos o que se passa em matéria da justiça tributária, em que as decisões se arrastam anos, por vezes décadas, com evidente prejuízo para cidadãos que, por força de ausência de decisão, ficam manietados de direitos. Existe portanto um outro lado da lentidão do funcionamento dos tribunais, muito cruel, que tem a ver com a defesa dos direitos dos cidadãos que se consideram perseguidos ou injustiçados pelo Estado. O pior dos atrasos da Justiça é aquele que destrói e mina o dia-a-dia dos cidadãos anónimos. É também nesses que é preciso pensar quando se fala da necessidade de uma reforma profunda da Justiça. Em Portugal vive-se uma situação em que o Estado, directamente pelos seus organismos administrativos, ou através dos Tribunais, paralisa a sociedade, destrói empresas e prejudica a economia. Neste contexto, a Ministra da Justiça, Francisca Van Dunen veio dizer, em resposta ao Presidente,  que "na generalidade, a resposta da justiça é positiva". É uma afirmação intolerável de uma governante, uma ofensa aos cidadãos e um insulto à inteligência dos portugueses. A lentidão da justiça é uma das mais sólidas bases do abuso de poder do Estado sobre os cidadãos.


 


SEMANADA - A maioria das Câmaras Municipais não tem planos de acção contra tragédias, em particular incêndios florestais; ao contrário do previsto o Governo  não penalizou as câmaras sem planos anti fogos; desde 2006 que Portugal não tem em Maio tão poucos aviões contratados e disponíveis para combate a incêndios; o Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS), um grupo especial de ataque a fogos que foi anunciado por António Costa como a sua aposta, não tem ainda luvas, fatos, telemóveis, computadores, carros e camas de campanha para as suas brigadas; o respectivo comandante admite que será difícil este GIPS estar preparado e operacional na data definida, 1 de Junho; o presidente do INEM denunciou  que em 2017 um "número significativo" de turnos e vários meios de emergência não foram assegurados porque os trabalhadores tiveram de combater incêndios ao abrigo da lei; aumentaram as tensões entre a Autoridade Nacional da Protecção Civil e a Liga dos Bombeiros Portugueses, o que motivou a demissão do comandante da Protecção Civil; a nova Lei Orgânica da Protecção Civil continua atrasada por responsabilidade do Governo; as estruturas de gestão e o comando operacional da protecção civil já mudaram várias vezes no decurso do último ano; Marcelo Rebelo de Sousa avisou que tirará consequências se voltar a ocorrer nova tragédia nos incêndios.


 


ARCO DA VELHA - Nos últimos dias, para parte do PS, José Sócrates passou de vítima a ser considerado um carrasco que fez dos outros vítimas e entretanto apoiantes seus estão a organizar um  almoço de confraternização e desagravo que decorrerá uma semana antes do Congresso do PS.


 


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FOLHEAR - Paulo Nozolino foi o autor bem escolhido para o segundo volume de Ph., a colecção dedicada à fotografia criada pela Imprensa Nacional. Nozolino é o fotógrafo português com maior visibilidade internacional e com uma carreira feita entre várias áreas da fotografia, incluindo imprensa e a publicidade, e em diversos países. Na introdução ao livro Sérgio Mah escreve que para Nozolino “a fotografia é assumida como um meio privilegiado de exprimir e organizar a sua visão inquieta e dramática do mundo” e evoca uma frase de Nozolino: “A fotografia permitiu-me viajar e ver a diferença entre o possível e o impossível. Podia guardar sem possuir, lembrar-me sem preocupação de esquecer, sobreviver em vez de viver. Sobretudo saber que tudo tem uma história, cada história duas versões, cada versão o seu passado”. São mais de oito dezenas de imagens, desde aquela que Paulo Nozolino considera a sua primeira fotografia, feita em 1972 na Acrópole, até à mais recente, de 2013, feita em Berlim. No percurso, que no livro não é apresentado por ordem cronológica mas por opção do autor, Paulo Nozolino mostra-nos as suas histórias de dezenas de cidades e lugares, de países em vários continentes, sempre a preto e branco, com uma dimensão do equilíbrio entre intensas tonalidades e a utilização da luz que são a sua imagem de marca. Em tempos Nozolino definiu assim a sua prática fotográfica: “Eu não estou aqui para mudar o mundo mas para ver como é que ele evolui”. A colecção Ph. tem curadoria de Cláudio Garrudo.


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VER - A exposição da semana, e uma das mais marcantes que vi nos últimos tempos, é “Nowhere Fast”, que reúne três obras de Teresa Gonçalves Lobo e  uma escultura de Thomas Mendonça que é também uma fonte de sensações olfactivas do perfumista Sven Pritzkoleit. A curadoria é de Miguel Matos, fundador da revista “Umbigo”. Os três desenhos de grandes dimensões, a pastel e carvão sobre papel, de Teresa Gonçalves Lobo (na imagem) são peças intensas, a negro e vermelho, com um traço forte e incisivo bem marcado no papel, obras com um lado orgânico e visceral, que criam um ambiente especial na Ermida - até 20 de Junho (Travessa do Marta Pinto 21). Outras sugestões: "O que pode ser a arte? 50 anos de Maio de 68" é o título da exposição com curadoria de Nuno Crespo e Hugo Dinis, reunindo obras de Júlio Pomar e de Ana Vidigal, Carla Filipe, João Louro, Jorge Queiroz, Ramiro Guerreiro e Tomás da Cunha Ferreira - até 29 de setembro, no Atelier-Museu Júlio Pomar (Rua do Vale 7). Na Galeria Quadrado Azul (Rua Reinaldo Ferreira 20A, até 23 de Junho, uma evocação das obras dos anos 70 de Zulmiro de Carvalho, Ângelo de Sousa e José de Guimarães. Ângela Ferreira apresenta “Diamantes, Obelisco e Outros” na Galeria João Esteves de Oliveira até 15 de Junho (Rua Ivens 38). “For us a book is a small building” é o título da exposição que Fernanda Fragateiro apresenta na Galeria Baginski (Rua Capitão leitão 51) até 15 de Julho.


 


 


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OUVIR - O que são os Thirdstory? Um trio vocal. Ponto. São as vozes dos seus três membros, Elliott Skinner, Ben Lusher and Richard Saunders, que constituem a diferença em relação à paisagem musical contemporânea. Algures entre a pop e o folk , Thirdstory vale mais pelas harmonias das vozes que pela execução instrumental ou a composição musical. É, a nível vocal, um caso raro na música que se faz hoje em dia. Musicalmente são deste tempo, os seus ritmos são actuais, mas sozinhos passariam quase despercebidos se não fossem as vozes. Nascidos em Nova Iorque em 2014, com um EP editado em 2016, o seu álbum de estreia saíu já este ano e chama-se “Cold Heart”. Foi editado na prestigiada e histórica etiqueta de jazz Verve. Destaques para “Hit The Ceiling” e para “G Train”, que tem a colaboração de Pusha T e a correspondente influência de hip hop - os Thirdstory não são estranhos a este território, integraram a banda de digressão de Chance The Rapper. Outros bons temas deste disco de estreia: “On And On”, “Still In Love”, “Over (When We Say Goodbye)” e sobretudo “I’m Coming ‘Round”, que é o melhor de todos os exemplos da capacidade e versatilidade das vozes deste trio. Malay, um premiado com os Grammy, assina a discreta mas eficaz produção musical.


 


PROVAR - Houve um tempo, não distante, em que a maioria dos vinhos da casta Alvarinho estagiava apenas em cubas de inox. Poucos produtores se atreviam a colocar o vinho em contacto com a madeira. Aos poucos foram feitas experiências, por exemplo com uma primeiras fase de fermentação em barricas e finalização feita em inox. Daí evoluíu-se para a fermentação e estágio em barrica - e desse método nasceram alguns dos melhores vinhos brancos portugueses. É este precisamente o método que João Portugal Ramos seguiu para a sua colheita de Alvarinho feita em 2015. O resultado é um branco da casta Alvarinho, cultivada na região de Monção e Melgaço, em solos de origem granítica. A fermentação decorreu a temperatura controlada de 16º C, durante duas a três semanas, sendo que 10% do mosto fermentou em barricas novas de carvalho francês. O resultado é este Alvarinho Reserva de 2015, um vinho verde elegante, com aroma cítrico e floral que termina com um longo final de boca. O carácter fresco e exuberante da casta Alvarinho mostra-se envolto pelo toque da madeira, embora muito ligeiro, contribuindo para a personalidade inesperada deste vinho.Graduação de 13,5º.


 


DIXIT - “O mais provável é que o PS esteja a caminho do fim. Não por causa da adesão ao mercado nem pelo seu entusiasmo com a frente de esquerda. Mas sim por causa da corrupção, que o PS nunca condenou claramente, sobretudo a sua e a dos seus amigos” - António Barreto


 


GOSTO - Das palavras claras do Presidente da República sobre o combate à corrupção, sobre as demoras da justiça e sobre as condições de combate aos incêndios florestais.


 


NÃO GOSTO - O socorro urgente do INEM em zonas rurais demora o dobro do tempo do que nas zonas urbanas.


 


BACK TO BASICS -  “Dois homens espreitam pela janela; um vê lama, o outro olha para as estrelas” - Oscar Wilde.


 

maio 04, 2018

O TINDER CHEGOU À GOVERNAÇÃO

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O TINDER - Na semana passada dei com esta imagem que aqui se reproduz - um bar londrino afirma-se como o verdadeiro Tinder 3D, que proporciona prováveis acasalamentos ao vivo, em vez de ocorrerem no espaço virtual do digital. Quando vi esta divertida ideia do Tinder 3D lembrei-me de como António Costa se pode considerar o exímio Tinder a três dimensões da política portuguesa. Ao ler o que se vai sabendo sobre a moção que Costa apresentará ao seu Congresso, com uma paisagem de eventuais acordos e coligações no mínimo nebulosa, confirmei a minha ideia. António Costa posiciona-se como uma app que promove acasalamentos políticos, disponível para várias combinações. Neste contexto não deixa de ser curioso que as vésperas do Congresso do PS seja o momento escolhido para criar uma linha de demarcação, até aqui inédita em território socialista, em relação aos casos de Manuel Pinho e de  José Sócrates. Evoco mais uma vez o Tinder e imagino Costa a varrer Pinho e Sócrates para o lado esquerdo do ecrã, enquanto guarda no lado direito Rui Rio, Mariana Mortágua e Jerónimo de Sousa, a ver qual será melhor par no futuro. A favor de António Costa está o apadrinhamento de Marcelo Rebelo de Sousa e a conjuntura favorável que tem produzido resultados. Resta saber o que acontecerá no futuro - ou seja como as vontade e desejos poderão mudar quando os ventos soprarem noutras direcções. Para já Costa é, coisa inédita, o pretendente desejado por quase todo o espectro partidário português. Um campeão do Tinder.


 


SEMANADA - Arons de Carvalho, fundador do PS e mandatário nacional da terceira candidatura de António Costa a Secretário Geral do PS defendeu na semana passada que o seu partido não deve comentar os casos de Manuel Pinho e José Sócrates; logo a seguir Carlos César, o líder parlamentar e presidente do PS veio assumir que o partido sente vergonha das suspeitas de corrupção que recaem sobre Manuel Pinho e  do caso que envolve José Sócrates; um dia depois o deputado João Galamba diz que o PS se sente incomodado com os casos Sócrates e Pinho; o requerimento do PSD para ouvir o ex-ministro da Economia Manuel Pinho no Parlamento foi aprovado com o voto favorável de todas as bancadas, à excepção do BE, que se absteve; o advogado de Manuel Pinho, Ricardo Sá Fernandes, aconselhou o seu constituinte a não responder às eventuais questões dos deputados sobre a sua ligação ao universo Espírito Santo; ainda existem mais de cem milhões de euros em notas antigas de escudo nas mãos de particulares; as greves previstas para o mês de maio no sector da saúde podem afectar 18 mil cirurgias; montar sistemas de videovigilância vai deixar de ter controlo prévio; a Comissão Nacional de Protecção de Dados está “muitíssimo deficitária” de meios humanos para cumprir as suas funções de fiscalização; segundo um estudo da Marktest, desde o início do século, o número de publicações periódicas editadas no Continente baixou 28%.


 


ARCO DA VELHA - O Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, dificultou a divulgação de informação relevante sobre os incêndios de Pedrogão, nomeadamente de uma auditoria interna da Protecção Civil que afirma terem sido apagados ou destruídos documentos sobre o referido incêndio.


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 FOLHEAR - As disputas brejeiras entre Lisboa e Porto são coisas conhecidas. Futebóis à parte a rivalidade trava-se através de múltiplos duelos: por exemplo a francesinha contra o pastel de Belém, a ginjinha contra o Vinho do Porto, Serralves e o CCB, nos filmes entre A Canção de Lisboa ou Aniki-Bobó, nas festas entre Santo António ou São João. Originalmente editado há uma dezena de anos, “Porto Vs Lisboa” é um livro escrito a quatro mãos por António Eça de Queiroz pelo lado portista e António Costa Santos pelo lado lisboeta. Agora que na política a valsa se dança com o sulista António Costa e o nortenho Rui Rio, a reedição do livro torna-se particularmente oportuna. As secções do livro têm nomes sugestivos como “Bicas e Cimbalinos” e em  “Bebidas e Petiscos”, além do que já acima se escreveu, surgem os pipis de Lisboa e as tripas à moda do Porto, enquanto nas noites surge o Bairro Alto a sul e da Ribeira a norte. Mas há também partes sérias, como as histórias de Zé do Telhado e Diogo Alves, do Terramoto de 1755 e do desastre da Ponte das Barcas. No final fica um conjunto de textos bem humorados onde se reconhecem as diferenças entre as duas cidades e se mostram as suas tradições, os seus locais de eleição e também aquilo que em cada cidade mais vale a pena conhecer, ver, provar. “Porto Vs. Lisboa”, edição Guerra & Paz.


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VER - O destaque desta semana vai para a fotografia de reportagem mostrada na exposição do World Press Photo, que anualmente selecciona o  melhor do fotojornalismo que se faz em todo o mundo. Este ano a exposição mudou de sítio e foi para o lado oriental da cidade, para o Hub Criativo do Beato e até 20 de Maio pode ser vista de quinta a domingo das 10 às 19h00, com entrada livre. A fotografia vencedora, que aqui mostramos, é do venezuelano  Ronaldo Schemidt e mostra uma imagem dos confrontos que se repetem no seu país. Ao todo são centenas de imagens que fixam momentos decisivos da nossa história recente. Outros destaques: até 17 de Junho, a fotógrafa e exploradora Lorie Karnath apresenta no Centro Cultural de Cascais fotografias de viagens que realizou a Myanmar - “BURMA, Moments in Time”; na Galeria Carlos Carvalho, em Lisboa, Daniel Blaufuks apresenta “Houve um tempo em que estávamos todos vivos" com obras em fotografia e video; em, Coimbra, no Centro de Artes Visuais, José Luis Neto apresenta “Pure Emulsion”. Finalmente a 13ª edição de British Bar, uma iniciativa de Pedro Cabrita Reis, apresenta nas três montras do estabelecimento que dão para o Cais do Sodré, obras de Jorge Pinheiro, Rui Chafes e Patrícia Garrido. A terminar destaque para o Mapa das Artes, uma edição gratuita e bilingue, disponível em papel e em formato digital (www.mapadasartes.pt), e que apresenta mais de uma centena de espaços de arte contemporânea da cidade de Lisboa, entre eles 59 galerias, e 17 museus e fundações.


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OUVIR - Betty Lavette tem uma carreira longa, iniciada em 1962 - exactamente o ano em que Bob Dylan gravou o seu álbum de estreia. Dylan está prestes a fazer 77 anos, Betty Lavette tem 72. Este ano ela lembrou-se de pegar em 12 canções de Dylan, em parte originalmente gravadas pelo autor entre 1979 e 1989, muitas delas pouco conhecidas, e com arranjos bem diferentes dos originais. O disco tem o nome da faixa de abertura”Things Have Changed” que saíu no CD “Modern Times”, de 2006, mas foi gravada em 1999 e editada como single em 2000 para a banda sonora do filme “Wonder Boys”. Nessa faixa de abertura Betty Lavette diz logo ao que vai, com uma voz poderosa. Os arranjos, surpreendentes, vêm assinados por Steve Jordan, que tem parte activa em todo o disco como produtor. Há um convidado que merece destaque, Keith Richards, e que toca a sua guitarra em dois temas do disco -  “It Ain’t Me Babe” e sobretudo em “Political World”. Betty Lavette e Steve Jordan deram uma grande volta a estas canções e bastará ouvir a sua versão de “The Times They Are A Changin’” para se perceber que a soul entrou desabridamente por estas canções. CD Verve, distribuído pela Universal Music.


 


PROVAR - Como gosto de descobrir novos restaurantes um dia destes fui experimentar o Zagaia, mesmo no centro de Setúbal. O local combina um balcão de sushi, com o facto de se apresentar como marisqueira (caso raro nesssa cidade) e também por ir além do habitual peixe assado na grelha. No comando da cozinha está Luís Barradas e a opção foi trabalhar com produtos frescos comprados diariamente no Mercado do Livramento, que fica perto do restaurante. Ali se pode almoçar e jantar, mas também petiscar ao fim da tarde ou a qualquer outra hora. Para além de peixe muito fresco (que no entanto se serve também assado na grelha, com cuidado e sem exageros de calor), a lista propõe um arroz de marisco sem casca, choco à antiga panado com farinha de milho e umas afamadas pataniscas de raia seca. Na parte oriental são apresentadas uma inesperadas gyosas de camarão e nos petiscos há um prego de atum em bolo do caco. Nas entradas destaque para o cuidado posto na confecção de umas ameijôas à Bulhão Pato. O serviço é verdadeiramente acima da média, a casa é luminosa, ampla e bem decorada, espraia-se por duas salas e a garrafeira dispõe de uma oferta baseada em vinhos da região e em algumas propostas novas e curiosas de diversos produtores, sobretudo na área dos vinhos brancos e verdes. O Zagaia, nome de arma de arremesso, fica na Avenida Luísa Todi 510, Setúbal e responde pelos telefones 265404111 e 937172255.


 


DIXIT - “Os cinco maiores partidos na Assembleia da República representam hoje menos 800 mil votos que há vinte anos. Há 800 mil pessoas que deixaram de votar nestes cinco partidos e essas 800 mil pessoas já não voltam a votar nestes partidos” - Nuno Garoupa.


 


GOSTO - A taxa de desemprego recuou para os níveis de há 14 anos e está nos 7,4%.


 


NÃO GOSTO - Em 2017, em Portugal, registaram-se mais 23 432 óbitos que nascimentos.


 


BACK TO BASICS - “A censura é o reflexo da falta de confiança na sociedade por parte de quem a governa” - Potter Stewart


 




abril 27, 2018

UM CONSELHO INÚTIL

Pouca gente terá reparado que o Governo andou a fazer uma luta surda com a RTP até conseguir o que queria - ter uma palavra a dizer na composição do Conselho de Administração da empresa concessionária do serviço público de Rádio e Televisão. O caso deu-se graças a uma das maiores asneiras do ministro Poiares Maduro, no anterior Governo, a criação do Conselho Geral Independente. Maduro criou um orgão de supervisão, que ele próprio nomeou, e que integrou vários bonzos que em comum tinham o facto de pouco ou nada perceberem de comunicação e muito menos de audiovisual. O Conselho Geral Independente foi inspirado por um orgão da BBC que nessa altura já estava em desuso e debaixo de crítica. Este grupo de bonzos, que no léxico comum rapidamente se tornou conhecido por Conselho Geral Inútil,  cumpriu o caderno de encargos que recebeu, afastou Alberto da Ponte e introduziu uma nova equipa que escolheu com o óbvio agreement - senão inspiração - do Ministro Maduro. Ao longo dos anos que leva de vida conhece-se-lhe pouca obra, nenhuma recomendação inovadora e interessante. Há meses decidiu fazer prova de vida e apontou o caminho da porta a Nuno Artur Silva com base numa situação que se arrastava desde há anos e que tinha a ver com a sua participação accionista numa empresa de produção e num canal de cabo - tudo isto já existia antes de o próprio CGI o convidar a ir para a RTP. O CGI teve a ilusão de que escolhe quem quiser, esquecendo-se que, pelo menos na área do administrador com o pelouro financeiro, há que haver o acordo do Governo. Não o procurou e Centeno deixou ficar a coisa a aboborar, fazendo finca pé em ser ele a dar o nome. Foi o que agora aconteceu. Do CGI, como de costume, não se ouviu um ai. Cumpriram e calaram - na sua génese está o não fazer nada. É este espírito que mata o serviço público de rádio e televisão.


SEMANADA - Em 2017 prescreveram mais de 61 mil infracções de trânsito e o número de multas por pagar duplicou no prazo de um ano; os portugueses gastam em média 70 euros por mês em transportes; as administrações regionais de saúde gastaram 1,8 milhões de euros em táxis num ano, ou seja cerca de metade do orçamento de transportes;  o investimento público no ano passado ainda ficou 8% abaixo do registado no auge da crise, em 2013; Ana Gomes, eurodeputada socialista, afirmou  que o próximo Congresso do seu partido, que se realiza no final de maio, é uma “oportunidade para escalpelizar como [o PS] se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos”; nos últimos dias surgiram várias reportagens a demonstrar que há deputados que quase duplicam o salário parlamentar com extras de duvidosa ética; Portugal continua entre os piores países da Europa no que toca ao desemprego jovem; três em quatro desempregados jovens não estudam nem nunca trabalharam; Vieira da Silva, Ministro da Solidariedade e Segurança Social demorou quase dois anos a aprovar a auditoria à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa; “Vieira da Silva não é aquele Ministro que não deu por nada no caso das Raríssimas?” - perguntou Luis Afonso, no Bartoon.


 


ARCO DA VELHA - Na Assembleia Municipal de Lisboa o PSD votou contra uma moção que o próprio PSD apresentou.


 


FOLHEAR - Poucas publicações nascidas já neste século se podem gabar de estarem ainda vivas. Felizmente é o caso da “Egoísta”, que agora completou 18 anos, ao longo dos quais alcançou 81 prémios nacionais e internacionais - o que a torna na revista europeia mais premiada de todos os tempos. Desde o início editada por Patrícia Reis, e com um conceito gráfico original de Henrique Cayatte, a “Egoísta “ foi possível graças à vontade do seu Director, Mário Assis Ferreira, e da empresa que a lançou, o Grupo Estoril-Sol. Ao longo de toda a sua existência a “Egoísta”, editada trimestralmente, acolheu escritores, fotógrafos, políticos, artistas.  Tem sido generosa com as suas páginas. Nesta edição do 18º aniversário destaco um texto de Hélia Correia, ilustrado por Ilda David - “Mãe”, os portfolios de fotografia “Youth”, de Lena Pogrebnaya” e sobretudo o magnífico “A Dupla Vida da Gente”, de Estelle Valente. E, claro, o eterno “Cartas A Um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke, quase a encerrar este número 63: “Não tire conclusões demasiado apressadas daquilo que lhe acontece: deixe-o simplesmente acontecer”.


 


VER - Volta e meia somos surpreendidos pelo olhar que alguém de fora consegue ter sobre nós. A forma e a distância de observação do nosso mundo por quem “é de fora” leva-nos a ver o que tínhamos considerado vulgar ao ponto de não lhe darmos a importância que de facto tem. Penelope Curtis, a britânica que em 2015 deixou a Tate Britain para vir dirigir o Museu Calouste Gulbenkian e é um bom exemplo disto mesmo. A nova exposição, que ocupa a galeria principal do Museu até 10 de Setembro, chama-se “Pós-Pop, Fora do lugar comum - desvios da Pop em Portugal e Inglaterra, 1965-1975”. A exposição é baseada no período entre 1965 e 1975, e apresenta uma selecção de artistas ingleses que trabalharam fora da Pop e de artistas portugueses que no estrangeiro, e sobretudo em Londres, procuraram desenvolver o seu trabalho de uma forma livre. A curadoria foi de Ana Vasconcelos e Patrícia Rosas e inclui obras de um grande número de artistas portugueses, de Manuel Baptista a João Cutileiro, passando, entre outros, por Clara Menéres, José de Guimarães, Eduardo Batarda, Paula Rego, René Bertholo, Sérgio Pombo, João Vieira, Lourdes Castro, José Escada, Ana Hatherly, António Palolo, João Abel Manta, Maria José Aguiar,  Ruy Leitão e Teresa Magalhães (na iamgem), que, como Penelope Curtis salienta, está em destaque na exposição. Também Ana Vasconcelos e Patrícia Rosas sublinham “a qualidade do trabalho que Teresa Magalhães realizou nesses anos, fora da escola”, fazendo notar que “para a grande maioria dos professores (em Belas Artes), não existia a Pop nem nenhuma da arte realizada no pós-guerra, uma vez que o ensino artístico ecoava o hiato temporal em que o país vivia”. É, na realidade uma exposição emocionante - e não estou a exagerar nas palavras. É um olhar especial sobre uma época única e assim se percebe que, apesar do que aqui se passava, existiam artistas que procuravam acompanhar o compasso de criatividade que noutros países, com um olhar diferente sobre Portugal.


 


OUVIR -  Ao longo das suas carreiras Ella Fitzgerald e Louis Armstrong actuaram muito frequentemente ao vivo e realizaram numerosas gravações em conjunto. “Cheek To Cheek: The Complete Duet Recordings” é uma nova caixa de quatro CD’s que junta todas as suas interpretações clássicas numa só edição. Aqui estão versões remasterizadas de três álbuns originais - “Ella And Louis” (1956), “Ella And Louis Again” (1957) e “Porgy And Bess” (também gravado em 1957), oito singles (gravados entre 1946 e 1950),  gravações originais realizadas no Hollywood Bowl e diversos registos de versões que não foram utilizadas nos discos finais, alguns com divertidos diálogos entre Ella e Louis. Além disso há material inédito em disco, como a versão de “The Memphis Blues” no programa de rádio de Bing Crosby e até uma versão apenas instrumental de “Red Headed Woman”. Ao todo são 74 faixas e a caixa inclui ainda um ensaio de Ricky Riccardi, considerado um dos grandes especialistas na obra de Louis Armstrong, além de anotações detalhadas sobre as gravações, as notas de capa dos LP’s originais e imagens raras de arquivo. Como Riccardi escreveu, “A música que Louis Armstrong e Ella Fitzgerald fizeram em conjunto constitui a Bíblia do jazz vocal. Tudo o que precisa de conhecer está aqui”. A edição é da Verve/Universal e está disponível em Portugal.


 


PROVAR - Um dos mais importantes museus de Lisboa é o da Fundação Gulbenkian, que aliás nos últimos tempos tem vindo a melhorar de forma significativa a sua oferta, fazendo redescobrir muito do seu acervo. Mas um Museu com este posicionamento, ponto de atracção turístico, um dos projectos de arquitectura e de enquadramento paisagístico mais importantes de Lisboa, não devia deixar que as suas unidades de restauração - bares e restaurantes - fossem o que são. Pela sua actividade cultural facilmente se poderá comparar o Museu Calouste Gulbenkian a outros grandes museus internacionais - mas nestes últimos o cuidado posto nas zonas complementares de recepção de visitantes é muito diferente. A concessionária de espaços de restauração da Gulbenkian é uma das maiores empresas nacionais de fornecimento de refeições - a Cerjer. Depois da experiência que tive no fim de semana passado só me ocorre dizer que os responsáveis da empresa ( e já agora quem na Gulbenkian os contratou) deviam fazer uma visita de estudo a cafetarias e restaurantes noutros grandes museus internacionais (basta aliás ir aqui ao lado a Madrid). Se isso não chegar aconselho que vão trabalhar durante o verão para qualquer McDonalds, para perceberem o que é um processo de trabalho e de atendimento escorreito - e de controlo de qualidade também. Gostaria de dizer que o pessoal que estava trabalhar é muito superior à qualidade do processo do local, penoso, incompreensível. Não basta ter uma casa bonita e com muito que ver. É preciso tratar bem os visitantes - e o concessionário escolhido pela Gulbenkian decididamente não ajuda a Fundação nesta área.


 


DIXIT - “Já não são sapos, são elefantes que vocês enolem” - Miguel Albuquerque, dirigindo-se ao BE e PCP.


 


GOSTO - Duas décadas depois de ter sido extinto o eléctrico 24 voltou a ligar Campolide ao Largo Camões.


 


NÃO GOSTO - Continuam os sucessivos atrasos da Parque Escolar na aprovação e realização de obras na degradada Escola Secundária Camões.


 


BACK TO BASICS - Perseguimos os pequenos ladrões enquanto nomeamos os grandes para cargos públicos - Esopo