junho 05, 2015

FRAGILIDADES DEMOCRÁTICAS

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(pormenor da exposição Inside-Outside de José Barrias e Bárbara Fonte) 


 


GEOGRAFIAS - O mundo está num processo de mudança complexo e um dos sinais disso mesmo é a percepção de que a democracia liberal se está a tornar num regime geograficamente limitado, e progressivamente mais minoritário. A noção ocidental de regime democrático é um conceito que países como a China, a Rússia, grande parte dos países árabes (para não falar do Estado Islâmico e da Coreia do Norte) não pratica. A chamada democracia liberal está confinada geograficamente a uma porção da Europa e à maioria do continente Americano - mas é muito frágil ou inexistente em vastas regiões da Ásia, de África e da Europa Central e Oriental. Hoje em dia é cada vez mais frequente observar que líderes de alguns países não hesitam em proclamar o seu autoritarismo - um contraste significativo com uma época, recente, em que por todo o mundo novos líderes políticos diziam rever-se no retrato das democracias liberais. A crise económica, conflitos, o fracasso das reformas e a quebra de desenvolvimento de muitas dessas democracias e a proliferação de conflitos abriram campo para o ressurgir dos nacionalismos e dos autoritarismos, assim como de novos fenómenos como o jihadismo - bons pretextos para, em nome da segurança, alguns estados limitarem a democracia. Mesmo em países onde o regime democrático existe assiste-se a uma crise latente no modo de funcionamento do sistema político. O sistema apodreceu e o mais perigoso de tudo é não o perceber a tempo.


 


SEMANADA - Rui Rio atacou os jornalistas que noticiaram que ele pretendia ser candidato à Presidência da República; Segundo a newsletter “Confidencial” Rui Rio já começou a contactar potenciais financiadores da sua campanha às presidenciais; Jorge Jesus passou do Benfica para o Sporting quinze dias depois de se sagrar campeão; quatro dias depois de ter insistido na realização do congresso que o reelegeu, Blatter demitiu-se de Presidente da FIFA; a posição das empresas patrocinadoras dos eventos da FIFA, que ameaçaram retirar todos os patrocínios perante os escândalos revelados, terá sido a razão para o recuo de Blatter; as apostas ilegais nos resultados da I Liga portuguesa devem representar 30 milhões de ano por ano e estima-se que três milhões de euros sejam destinados a subornos para manipulação de resultados - revela um estudo do Parlamento Europeu; os ratings dos bancos nacionais foram cortados 60 vezes desde 2011; segundo o Bareme Imprensa Crossmedia 2015, da Marktest, 82.1% dos portugueses contactam com a imprensa, quer seja em papel ou no meio digital; Miguel Relvas vai lançar um livro intitulado “O Outro Lado da Governação” que será apresentado por Durão Barroso; polícias da PSP queixaram-se da Ministra da Administração Interna ao Primeiro Ministro; num debate sobre políticas culturais a vocalista dos Óquestrada disse a  Sampaio da Nóvoa que ele tinha”uns olhos muito bonitos para colocar em outdoors”.


 


ARCO DA VELHA - As celebrações do Dia Mundial da Criança organizadas pela Câmara Municipal de Portalegre, com o apoio da PSP, incluíram a simulação  de um motim por crianças em idade pré-escolar, e enquanto umas faziam de polícia com escudos e capacetes, outras representavam  manifestantes que lançavam “pedras” feitas de papel às autoridades.


 


FOLHEAR - “As Mulheres que fizeram Roma - 14 histórias de poder e violência”  - agrupa de uma forma aliciante outras tantas narrativas sobre a vida de mulheres que estiveram ligadas a episódios que marcaram a História do Império Romano, como Reia Sílvia, Lucrécia, Cleópatra, Valéria Messalina, Agripina ou Helena de Constantinopla. Carla Hilária Quevedo conta episódios de luta pelo poder e descreve a importância que as mulheres tiveram em diversas fases do Império, como eram encaradas, qual o seu papel na sociedade e como eram vistos temas como o casamento, a maternidade ou o adultério. Através da sucessão de episódios, e do seu permanente enquadramento na época em que ocorreram, é possível perceber como evoluíu a noção de poder imperial, como se alteraram os hábitos e costumes, como a própria lei e a moral se vão adaptando e como as religiões se cruzam com o andar dos tempos e como a nossa própria compreensão do passado se foi modificando. É sempre o poder - seja a sua conquista, seja o seu exercício - que baliza as histórias aqui contadas e, no fundo, a História ao longo dos séculos. Para quem gosta de ler os pormenores da História e os seus episódios menos conhecidos este é um livro aliciante. Edição Esfera dos Livros


 


VER - José Barrias é um importante artista português que desde 1968 vive em Milão. Utiliza o desenho, a pintura, a fotografia e a escultura, que frequentemente conjuga na criação de instalações. As suas exposições têm um acentuado cuidado na apresentação e encenação das obras, uma atenção ao detalhe e um cuidado visual, que por vezes parece quase  cinematográfico, como foi bem evidente quando apresentou “In Itinere”, na Fundação de Serralves, em 2011. Uma outra característica de José Barrias é o seu interesse em conhecer a obra de novos artistas e a vontade que tem de trabalhar em conjunto com eles, explorando as diferenças de gerações e de linguagens, mas procurando as complementaridades e os pontos de contacto. É o que acontece com a exposição “Inside Outside”, o cruzamento entre a obra de uma quase estreante, Bárbara Fonte, e o trabalho do próprio José Barrias, que inaugurou na passada semana na Plataforma Revólver. No fundo esta é, para ambos, uma exposição de desenhos, que por vezes assumem outras formas, esculturas, instalações, fotografias - mas é o imaginário do desenho que permanece como fio condutor. É aliás o próprio desenho que foi usado para criar o cenário de acolhimento nas paredes das salas do edifício onde decorre a exposição. É uma exposição surpreendente - por alguns dos desenhos de Bárbara Fonte e pelo ambiente criado pelas obras de José Barrias, marcantes, e pela própria envolvente que ele criou com numerosos pormenores e que obrigam a uma constante revisão da forma de ver o que está à vista - criando a deliberada dúvida sobre onde é o começo e o fim da exposição. Na Rua da Boavista 84, informações em www.transboavista-vpf.net .


 


OUVIR - Terence Blanchard é um dos grandes trompetistas de jazz norte-americanos e nos últimos anos tem feito algumas incursões na fusão com outros géneros musicais. Com Don Was a dirigir agora a Blue Note as experiências de fusão são encorajadas e daí esta incursão que passa também pelos rhythm’n’blues e o funk, não perdendo as referências no jazz contemporâneo. Trata-se da primeira gravação de Blanchard com o seu novo quinteto, o E-Collective. O título do álbum, segundo o próprio Blanchard, evoca as três últimas palavras pronunciadas por Eric Garner, “I can’t breathe”, quando foi imobilizado e asfixiado por um polícia em Nova Iorque num polémico caso ocorrido em Julho de 2014. O disco começa com uma surpreendente versão de “Compared To What”, um tema de Les McCann e Eddie Harris onde o trompete de Blanchard se cruza com a voz de PJ Morton (que aparece em mais faixas do disco) e as percussões de Oscar Seaton. É um inesperado começo para um disco onde o trompetista se aventura também em versões de “I Ain’t Got Nothin’ But Time” de Hank Williams ou “Midnight” dos Coldplay, que encerra o CD. A E Collective dá uma marcante sonoridade funky, capaz de inquietar quem esperava um disco mais tradicional de um trompetista de jazz da escola de Nova Orleães. A minha faixa favorita é “Everglades”, um instrumental composto pelo pianista do E Collective, Fabian Almazan, mas entre os vários originais de Terence Blanchard destacaria “Confident Selfleness” e “Tom & Jerry”. CD Blue Note, distribuído por Universal Music.


 


PROVAR - Aberto há pouco tempo, o restaurante do Hotel Porto Bay Liberdade corre o risco de se tornar num ponto incontornável na zona da Avenida. O restaurante Bistrô 4 tem uma carta preparada pelo Chefe Benoit Sinthon, um francês que vive há largos anos na Madeira e que aí ganhou uma estrela Michelin, a única do arquipélago, no restaurante Il Gallo D’Oro do Hotel Cliff Bay, que pertence ao mesmo grupo desta nova unidade que abriu em Lisboa. A sala é ampla, embora incaracterística, mas o páteo adjacente, situado entre prédios, bem protegido do vento, é verdadeiramente um local à parte no centro da cidade. A lista propõe um sortido de petiscos frios e quentes de entrada e uma carta com opções muito variadas. Na mesa estava um cesto de pão de boa qualidade, manteiga  com flor de sal e patê de atum com azeitona, a preparar a chegada das entradas escolhidas - um ceviche muito bem temperado e uma cavala marinada com legumes, ambos a exceder as expectativas. Passando a coisas mais sérias a escolha recaíu num tártaro de vitela com cebola confitada e batata frita em rodelas finíssimas rendilhadas, e num couscous chow mein, quente, com camarão, verdadeiramente surpreendente. A garrafeira tem uma ampla e cuidada selecção e a copo existem boas opções - no caso provou-se um Morgado da Calçada Branco Reserva de 2010 e um Ninfa Escolha de 2012, do enólogo Rui Reguinga, que se revelou uma opção acertada. A terminar partilhou-se a sobremesa Paris- Lisboa- Funchal, ou seja massa chou com recheio de pastel de nata, raspas e pedaços de bolo de mel. O Bistro 4 fica na Rua Rosa Araújo 6, junto à esquina com a Avenida da Liberdade, telefone 210 015 700.


 


DIXIT - “Décadas depois de Abril, alguém de direita ainda causa espanto e indignação” - Maria de Fátima Bonifácio, n’Observador


 


GOSTO - Da aplicação web opontodoparlamento.org, que permite seguir a assiduidade e tipo de trabalho desenvolvido pelos deputados - útil em ano eleitoral.


 


NÃO GOSTO -  De não poder escolher entre usar um táxi mal disposto ou um Uber atencioso.


 


BACK TO BASICS - Num regime democrático cada partido dedica o melhor das suas energias a dizer que o outro partido é incapaz de governar - e ambos têm razão e acertam de forma alternada - H.L. Mencken

maio 29, 2015

SOBRE A CAPACIDADE EDITORIAL DOS POLÌTICOS E PARLAMENTARES

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POLÍTICAS - Os parlamento anda há anos a tentar fazer uma nova lei que regule a cobertura das eleições. Num curto espaço de tempo tivemos uma troika de deputados eméritos do PP, PSD e PS a proporem uma comissão de visto prévio à metodologia de cobertura do acto eleitoral por cada redacção. Depois evoluíram e as águas separaram-se - PSD e PP querem privilegiar os partidos com assento parlamentar e o PS lá decidiu não se meter em mais alhadas fomentadas pela sua deputada Medeiros e  fez uma proposta que basicamente permite que sejam critérios editoriais a prevalecer. Esta não é uma questão menor. Em 1975, quando foi feita a Lei ainda em vigor,  a maior parte dos mass media estavam estatizados e o legislador quis impôr normas iguais para todos - a informação era ainda altamente regulada, não havia praticamente orgãos de comunicação privados, muito menos televisões, e a internet era uma coisa inimaginável. Acontece que agora é legitimo perguntar se nas próximas eleições é mais interessante, de um ponto de vista editorial, cobrir o que diz o Bloco de Esquerda, com assento parlamentar, do que o Livre, que está a concorrer pela primeira vez às legislativas - os exemplos podiam ser outros, mas num ambiente de transformação e alargamento do espectro de concorrentes (mais de 20 certamente) é utópico pensar que todos têm que ter tratamento igual - porque a audiência tem alternativas e não ficaria à espera de ver 20 auto-iluminados a debitar promessas. Arrisco dizer que é preciso ter em conta um princípio que deveria nortear toda esta discussão: quando se trata de comunicação e informação os políticos e os partidos em geral, e os orgão de soberania e os governos em particular, são péssimos editores. Não sei se os senhores dos partidos já terão percebido que, agora, há um remédio simples para os evitar: carrega-se no botão e muda-se de canal. Ou então vai-se à internet buscar o que se quer. No fundo não acreditam ainda que os eleitores saibam procurar e escolher o que querem ver - agora já não há só um canal de televisão como há 40 anos atrás. Melhor fariam se garantissem total transparência aos seus actos e se pensassem melhor no que querem propôr aos eleitores. De preferência sem mentiras.


 


SEMANADA - O Partido Democrático Republicano, de Marinho Pinto, não conseguiu proceder à eleição do seu Conselho Nacional devido a alegadas irregularidades e distúrbios internos; 55 motoristas de taxi foram condenados em 2014 por burlas a turistas no aeroporto de Lisboa; os pedidos de vistos gold de chineses caíram 20% após o caso de corrupção descoberto em Novembro passado; neste primeiro trimestre os portugueses dedicaram mais de 8 milhões de horas a sites de comércio electrónico - de viagens a livros - uma média de 1 hora e 45 minutos por utilizador; Sampaio da Nóvoa afirmou-se como “um candidato improvável” e garantiu que, sendo eleiteo Presidente da República, não seria “omisso e ausente”; o défice público desceu 31% entre de Abril de 2014 e Abril desde ano exclusivamente devido ao aumento da receita fiscal; os centros de emprego chegaram ao fim de Abril com 20 849 ofertas de emprego que estão por preencher devido a falta de interessados; o metropolitano de Lisboa realizou a sua sétima greve só este ano - uma média superior a uma por mês; desde 2010 a banca cortou 15% dos balcões e 13% do número de colaboradores; a lista dos contribuintes VIP estava a funcionar 11 dias antes de ser aprovada; existem actualmente 1111 empresas portuguesas a exportar para a China; um relatório da Inspecção Geral das Finanças obriga o Fisco a proteger dados dos contribuintes;  o Hospital de Santa Maria, o maior do país, está minado por uma teia de interesses e lealdades a partidos políticos, à maçonaria e organizações católicas como a Opus Dei, conclui um estudo que avaliou a qualidade e funcionamento de seis instituições nacionais.


 


ARCO DA VELHA - Nesta história da FIFA o que é mais surpreendente é que há uma lista de notáveis, um pouco por todo o mundo, a dizerem que não é surpresa que tenham sido presos tantos dirigentes da organização sob acusações de corrupção, encarando com naturalidade que tudo tivesse continuado na mesma durante anos.


 


FOLHEAR - A edição de Junho da revista “Monocle” é dedicada aos transportes, às novidades que surgiram no sector em todo o mundo, às tendências emergentes e à análise da qualidade de serviço dos principais operadores - desde fabricantes de bicicletas até linhas aéreas, passando por companhias de comboios ou as novas tendências dos carros auto-pilotados. Como sou fã de publicidade não resisto a registar que os primeiros anúncios desta edição, são de marcas como a Rolex, a Cadillac, os jactos privados Bombardier, o novo carro da Lexus,os relógios Panerai e a Nike. A “Monocle” atingiu o estatuto de incontornável suporte de comunicação de marcas em poucos anos graças à determinação e perseverança do seu fundador Tyler Brulé em manter o posicionamento sem cedências. Esta é talvez a maior prova de que em alguns segmentos ainda faz sentido pensar em publicações impressas em papel - a vida digital da Monocle é feita à margem da revista e baseada na rádio em streaming. A qualidade dos conteúdos, o sentido de descoberta e de comunidade que foi criado entre os leitores da revista são a chave do seu sucesso e aquilo que mês após mês me faz voltar a cada nova edição, que dedicadamente folheio ao longo de vários dias, à procura do que não conheço.


 


VER - Vamos a uma síntese do que há para ver, apontando desde já que a curiosidade me impele a descobrir o que José Barrias apresentou esta quinta.feira na Plataforma Revólver - mas a isso regressarei na próxima semana. Esta semana começo por recomendar que se afoitem até Sacavém, ao Museu da Cerâmica, na Praça Manuel Joaquim Afonso, onde poderão descobrir uma exposição sobre os Móveis Olaio, porventura a unidade industrial na área do mobiliário que mais procurou a inspiração modernista e mais se inspirou no design nórdico. Acabou por criar móveis para o Ritz, o Estoril-Sol, o Hotel Tivoli, mas também os teatros Monumental e Éden, o Capitólio e os cafés Império e a Mexicana. Eu, que cresci com móveis da Olaio em casa, e ainda guardo uma estante e um cadeirão, fico sempre entusiasmado com esta memória da marca. Outra exposição a ver , no Museu Berardo, é “O Olhar do Coleccionador”, que mostra algumas das peças da colecção pouco conhecidas, nomeademnte o telão de cena criado por Marc Chagall para a Flauta Mágica, de Mozart, ou a obra Severambia, de Frank Stella . Ainda no Museu Berardo vale a pena ver a obra”Due Ragazzi alla Fonte” de Michaelangelo Pistoletto (na imagem), no ciclo “A Escolha dos Críticos”, uma iniciativa do serviço educativo do museu, aqui comissariada por Sérgio Mah.





OUVIR - Nada melhor que um fim de tarde desta fase da Primavera para pôr a tocar um disco com os standards de Frank Sinatra. Acompanham bem qualquer cocktail, encaixam no pôr-do-sol, apreciam o tempo quente e, em havendo espaço e companhia, desafiam à dança. Sinatra faria cem anos em Dezembro, morreu aos 82 em Maio de 1998. A efeméride foi o motivo para o lançamento de uma compilação, “The Ultimate Sinatra”,  que agrupa 25 das mais importantes interpretações de Sinatra, desde “All Or Nothing At All”,. de 1939, até “New York ,New York” de 1979, passando por temas tão incontornáveis como “”Young At Heart”, “In The Wee Small Hours Of The Morning”, “I’ve Got You Under My Skin”, “The Way You Look Tonight” ou “Fly Me To The Moon” e “My Way” - além de uma versão inédita de “Just In Time”. Este ano promete muitas edições de livros e discos que assinalarão o centenário, mas o fundamental mesmo é recordar a capacidade de interpretação, a forma como pegou em grandes compositores do cancioneiro popular norte-americano e os tornou numa linguagem universal. (CD Universal na FNAC e El Corte Ingles).


 


PROVAR - Mesmo no centro de Azeitão está um daqueles segredos bem guardados que apenas os locais e frequentadores habituais conhecem - a esplanada da Casa das Tortas, coberta e cercada por vegetação. Não há muitos lugares, há mesas e bancos corridos e sobretudo há um grande cuidado com a selecção da matéria prima utilizada para a confecção dos pratos, seja de carne ou peixe. A cozinha é tradicional, de fogão e de grelha, sem concessões. Tudo se joga na frescura do que é apresentado. A comandar as operações está o Sr. Paulo, que não se faz rogado a contar as suas próprias excursões gastronómicas pelo país à demanda da lampreia ou do sável nos dias em que está de folga. Para além dos grelhados, de peixe e carne, é aqui conhecida a arte dos pratos de tacho, como o frango à bordalesa, mas, também no fogão, o peixe assado no forno, das douradas ao pargo, sempre fresquíssimo. Além disso há petiscos, tábuas de queijo e de enchidos, e, para sobremesas, a incomparável A Tarte de amêndoa ou os pastéis de moscatel- acompanhados claro por moscatel roxo. A casa está aberta do pequeno almoço ao jantar. O telefone é o 969 146 996 e a morada é  Praça da República 37, Azeitão.


 


DIXIT - “A nossa democracia está cheia de cáries e, se nada fizermos, daqui a pouco está sem dentes” - Pedro Bidarra


 


GOSTO - Dos 70 anos do Centro Nacional de Cultura, uma instituição única em Portugal.


 


NÃO GOSTO - O Parlamento continua sem conseguir legislar sobre o enriquecimento ilícito, qualquer dia está igual à FIFA.


 


BACK TO BASICS - “Quando se educa uma pessoa muda-se uma vida mas quando se educam muitas podemos mudar o mundo” - Shai Reshf, fundador da University Of The People, Tel Aviv, Israel.


 


 

maio 22, 2015

AS PROMESSAS SÃO AS VITAMINAS DOS PARTIDOS

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PROMESSAS - Daqui a menos de cinco meses teremos eleições legislativas. Todos conhecemos o nível de abstenção, que tem aumentado, da mesma forma que tem aumentado o número de partidos presentes nos boletins de voto. Em quatro décadas, desde 1974, o regime conseguiu descredibilizar-se e foi progressivamente afastando as pessoas da participação. Chegámos onde chegámos apesar de promessas mirabolantes, de programas político-partidários detalhadíssimos, de proclamações de intenções irrepreensíveis. Tornou-se um nefasto hábito prometer durante a campanha eleitoral o que se renega quando se chega ao Governo. Tomar uma decisão de voto com base nesses programas e nessas promessas tem-se revelado uma péssima opção. Melhor seria que cada um votasse avaliando o que tem sido a actuação de cada partido, quando tem poder e quando está na oposição, avaliando o comportamento dos seus dirigentes em questões como por exemplo a corrupção. Vamos eleger deputados - vigiemos então o que fizeram.  O regime de presenças e faltas faltas da Assembleia da República diz que a palavra do deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais. Acontece que, como se tem demonstrado, a palavra dos políticos não é de fiar. A palavra dos políticos faz fé de muito pouca coisa e as faltas dos deputados são caso que merecia ser investigado e divulgado em ano eleitoral. Se a palavra dos políticos fizesse fé não estávamos na crise em que estamos. Chegámos a um ponto onde o dilema é votar no mal menor - olhar para trás e ver quem perante a realidade criou problemas e quem procurou soluções.


 


SEMANADA - O Estado gasta 3,5 milhões por ano com o policiamento dos jogos da I Liga; a Câmara Municipal de Lisboa ignorou o parecer da PSP sobre os riscos das celebrações no Marquês do Pombal; a Ministra da Administração Interna manifestou-se incomodada com as acusações ao oficial da polícia que em Guimarães teve um comportamento selvagem; o próprio oficial da PSP, segundo a imprensa, está consciente que exagerou; o referido oficial da PSP utilizou um bastão de aço que só pode ser utilizado em cenários de grande violência; o mesmo oficial já foi referenciado como um dos envolvidos nos excessos policiais em S. Bento, a 14 de Novembro de 2012; o comandante distrital de Braga da PSP afirmou, já depois dos incidentes, que o oficial em causa nas agressões “é um profisssional exemplar”; existem 3204 processos disciplinares a agentes e oficiais da PSP por motivos que vão da insubordinação ao abuso de autoridade ou uso excessivo da força; Portugal tem três milhões de pensionistas; desde 2010 reformaram-se 3000 médicos e metade saíu dos centros de saúde; o Governo quer contratar até 400 médicos reformados para o Serviço Nacional de Saúde; faltam 800 médicos de família em todo o país;  90% do investimento privado nas florestas portuguesas é feito em plantações de eucaliptos; 4% da subida das exportações veio de novas empresas;; as dívidas incobráveis atingiam 418 milhões de euros no final de Maio; o grupo de trabalho do Parlamento sobre enriquecimento ilícito nunca reuniu;  Portugal é o país da União Europeia com maior aumento percentual na venda de carros novos com um aumento de 32,3% nos primeiros quatro meses do ano, contra uma média de 8,2%.


 


ARCO DA VELHA - Segundo um estudo da Entidade Reguladora da Comunicação apenas 14% dos portugueses se afirmam muito interessados em notícias de política, mas nunca estiveram registados tantos partidos como para as próximas legislativas - pelo menos 22.


 


FOLHEAR - Ansel Adams foi um dos grandes e inovadores nomes da fotografia norte-americana do século XX. Não só criou uma estética própria, como investigou e utilizou técnicas fotográficas, no alquimista tempo da película, que alteraram a maneira de muita gente trabalhar na câmara cscura, desde a revelação dos negativos até à sua impressão em papel fotográfico. Adams, que sempre teve preocupações ambientais bem antes de elas serem moda, foi um dos grandes divulgadores das paisagens americanas - as suas séries de imagens do Yosemite National Park ainda hoje são uma referência; a sua teoria das zonas, na exposição e impressão, proporcionou imagens de uma qualidade rara, baseadas na interpretação e manipulação do negativo através da impressão, em papel. A sua criatividade, paciência e a sua sensibilidade criaram momentos únicos como uma das suas mais célebres imagens, “Moonrise”, feita em 1941, em Hernandez, no Novo México. Mary Street Alinder foi sua assistente e nos últimos cinco anos de vida do fotógrafo era o seu braço direito. É dela esta biografia de Ansel Adams, originalmente lançada em 1966 e agora revista e reeditada. “Ansel Adams - a biography”, é um livro publicado pela Bloomsbury e em Portugal pode ser encontrado na FNAC ou através da Amazon.


 


VER - Aproveitando as viagens low cost aos Açores começo por uma galeria em Ponta Delgada, a Fonseca Macedo, que é um exemplo do que se pode fazer longe dos grandes centros. Os seus responsáveis cultivam uma relação próxima com os artistas que expõem e são incontornáveis na vida cultural dos Açores - até 4 de Julho lá estará a “Inquitação” de Ana Vieira. Passando para a Madeira destaque para a exposição de desenhos de Teresa Gonçalves Lobo no Museu de Arte Contemporânea do Funchal, obras feitas entre 2005 e 2015 sob o título genérico “Parte de Mim”. Regressando a Lisboa destaco na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38), “O Regresso de um Fauve” de André Derain e, na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71- r/c esq), e até 31 de Julho, duas mostras: o novo projecto SALA de Teresa Pavão (na imagem) e o lançamento da nova série de múltiplos de Pedro Calapez: "5 Espaços em OPENSPACE", 2015, cinco impressões a cores sobre papel de algodão, em formato A3, numa edição de 20. Hoje em dia as galerias são lugares vivos, pulsantes, que acolhem os artistas contemporâneos, arriscam e dão oportunidade. Mas nem sempre foi assim - quis o destino que no espaço de menos de um mês desaparecessem dois dos nomes que mais contribuíram para o que hoje achamos natural - descobrir obras novas, bem apresentadas em programações coerentes - foi o que o Luís Serpa e Maria Nobre Franco fizeram, cada um na sua galeria, a partir da segunda metade dos anos 80 - pondo em confronto artistas portugueses novos e consagrados com artistas estrangeiros. Ambos, cada um de sua maneira, desempenharam um papel único que abriu terreno a que outras galerias surgissem e a que novos artistas expusessem.


 


OUVIR - Tó Trips é hoje em dia sobretudo conhecido pela sua vertente Dead Combo - mas tem boa discografia a solo e é nela que o seu talento de guitarrista mais se faz sentir. Confesso-me fã de Tó Trips desde que, há muitos anos, o ouvi pela primeira vez. É dos poucos músicos portugueses que vindos da área do rock tem uma abordagem virtuosa e pessoal com a guitarra, primeiro a guitarra eléctrica, mas também a clássica, acústica. Não é só o facto de ser um virtuoso: o mundo está cheio de virtuosos, malabaristas sem imaginação nem talento criativo. Tó Trips tem esse talento, essa explosão de ideias que se traduz nas cordas de uma guitarra - sobretudo numa guitarra eléctrica. Em Janeiro deste ano gravou o disco que agora está em distribuição nos formatos de CD e vinil - “Guitarra Makaka - Danças A Um Deus Desconhecido”. Nas 12 faixas do disco faz questão de mostrar, em duas, que se sente tão à vontade com a guitarra clássica como com a guitarra eléctrica. Todas as composições são originais seus e permito-me destacar “Danças”, “Baía das Negras”, “Briza” ou “Makaka” - mas sei estar a ser injusto porque neste disco não há maus temas. Para quem gosta de guitarra, de a sentir tocada, este é um trabalho incontornável. Edição Mbari Música.





PROVAR - Estamos no verão, época de saladas, peixes grelhados, refeições simples e frescas. Para tudo isto se exigem vinhos leves mas coerentes, vinhos que sejam frescos mas não sejam vazios. Vinhos destes, exemplares, são os brancos e rosés da Quinta do Monte d’Oiro, vinhos da região de Lisboa, em vinhas feitas por José Bento dos Santos. Uma das marcas da casa é a Lybra, que serve de ponto de entrada na extensa gama disponível. Para estes dias quentes recomendo duas opções da colheita de 2014: o Lybra Rosé, elaborado a partir da casta Syrah, levemente rosado, seco, boa acidez e frescura com 12º; e o Lybra Branco, 13º, feito a partir das castas Viognier, Marsanne e Arinto, aromático, fresco, a acompanhar muito bem carnes brancas e peixe. A relação quaildade-preço é muito boa.


 


DIXIT - “As vítimas e os alvos dos conspiradores do Acordo Ortográfico não somos nós, são as criancinhas que não sabem defender-se. Deseducando-as sistematicamente, conseguirão enganá-las facilmente. A ignorância é a inocência. Pensarão, a partir deste ano, que só existe aquela maneira de escrever a língua portuguesa” - Miguel Esteves Cardoso


 


GOSTO - O português Cláudio Fontes foi eleito o investigador do ano por cem mil engenheiros químicos de toda a Europa.


 


NÃO GOSTO - Os taxistas de Lisboa querem estabelecer um preço fixo de 20 euros desde o aeroporto até qualquer destino no centro de Lisboa, em média o dobro do que era até aqui.


 


BACK TO BASICS - “Todos os grandes avanços no conhecimento implicaram a rejeição da autoridade estabelecida” - Thomas H. Huxley

HÁBITOS DE TV EM MUDANÇA

Em média ligeiramente mais de 40% dos telespectadores portugueses não vê nenhum dos canais generalistas – estão a ver canais de cabo, a assistir a progtramas em diferido ou a dar outras utilizações aos televisores, como jodos por exemplo. A mudança é enorme em relação há meia dúzia de anos. O canal generalist mais visto, e que tem sido a TVI, anda pelos 24-25% do total da audiência de televisão e a SIC fica-se nos 19% e a RTP1 nos 14,4%. Os novos canais de cabo cativam audiência – e um dos melhores exemplos disso mesmo é o CMTV – na semana passada, na região Sul do país, o CMTVfoi o 5º canal mais visto, à frente da RTP2, SIC Notícias, TVI 24 e RTP Informação. O resultado é ainda mais relevante quando nos lembramos que o CMTV é apenas distribuído na MEO, que grosso modo representa metade do Mercado. Vai ser curioso ver o que se passa quando o CMTV estiver em todas as plataformas.
De resto o programa mais visto foi o jogo Real Madrid-Juventus na TVI, que foi visto por quase dois milhões de pessoas – mas a SIC já não conseguiu resultados tão bons com o Fiorentina-Sevilha que foi visto por cerca de 900 mil espectadores.
Fora do desporto e da informação a SIC e TVI brilharam com as respectivas novelas. Dança com Estrelas foi o 3º programa amsi visto da TVI, e Shark Tank foi o 8º mais visto da SIC. Na RTP1 o programa mais visto fora da área de informação foi Bem-Vindos a Beirais.



(publicado hoje no SEXTA TV&LAZER do Correio da Manhã)

maio 15, 2015

UM HORIZONTE À VELOCIDADE DO CARACOL

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HORIZONTE - Passou um ano sobre a saída da troika mas não se notou ainda verdadeiramente uma mudança na questão de fundo da política dos últimos anos: desde o início desta legislatura tem sido a política externa a condicionar a política interna. Mesmo que tivéssemos conseguido evitar a presença física da troika, na situação em que o país estava, seria impossível evitar, permanecendo no Euro, que as coisas não fossem ditadas do exterior - mas podiam ter sido diferentes, como em Espanha. O desafio para a próxima legislatura é passar do domínio da política externa para o primado das políticas internas. O grande problema é que a propaganda das reformas é maior que a substância das mesmas. A grande questão é que se agiu basicamente da maneira mais fácil - o aumento da receita fiscal foi bem superior ao corte da despesa do Estado e esse é o factor crítico - a gorda máquina que suga o país e condiciona reformas estruturais através do peso que tem nos aparelhos partidários. Não temos tido políticas internas, apenas ajustes pontuais ditados pelas circunstâncias que criámos nas últimas décadas e por aquelas que nos impuseram. O resultado é um crescimento raquítico e confusões constantes sobre qual deve ser o papel do Estado, sobretudo em sectores como a saúde, a educação e a justiça.  Qual o nosso horizonte daqui a 20 anos, quando estivermos em 2035 e as mudanças na economia mundial, na tecnologia, nos hábitos e comportamentos forem diferentes a um ponto que nem imaginamos? Claro que me faz impressão pensar sequer que nas próximas eleições podemos voltar ao laxismo que nos levou à situação em que estamos. Mas a realidade é que olho para o panorama eleitoral e não vejo nada que me agrade. Não me revejo em nenhuma política e considero prudente ignorar as promessas - porque já todos percebemos que em política elas não são para cumprir. O eleitorado tem uma tarefa difícil pela frente. Muito mais difícil que a clientela dos partidos.


 


SEMANADA - Angola deixou de estar entre os cinco maiores parceiros de Portugal no primeiro trimestre deste ano; alteração da lei eleitoral continua a causar polemica entre responsáveis editoriais e responsáveis da propaganda partidária; nos primeiros três meses do ano os empréstimos para compra de casa atingiram o valor mais alto dos últimos três anos; o número de famílias com os pagamentos de crédito ao consumo e habitação em atraso aumentou no primeiro trimestre deste ano; no ano passado os encargos com as PPP subiram 60%; o PIB português cresceu 0,4% nos primeiros três meses de 2015 ; o PIB espanhol cresceu 0,9% nos mesmos três meses; as vendas de produtos portugueses para Espanha cresce a um ritmo que é o dobro do das exportações para outros países; mais de metade dos portugueses vai à igreja uma vez por semana; os despedimentos colectivos mantêm-se acima dos níveis anteriores à troika; as penhoras das Finanças duplicaram em apenas três anos graças à implementação das penhoras automáticas; cada português bebe 10,6 litros de alcoól por ano; a OCDE fez um relatório onde conclui que as mulheres com ensino superior e que têm maiores remunerações são as que consomem mais bebidas alcoólicas - e Portugal ocupa mesmo o segundo lugar do ranking dessas mulheres, atrás da Finlândia e antes da Alemanha; o acordo ortográfico tornou-se obrigatório em actos oficiais o que implicou que deixassem de existir arquitectas, que passaram a arquitetas.


 


ARCO DA VELHA - “Esta pega, feia, gorda, invejosa, nojenta, salazarenta, cretina e complexada” - termos em que Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates, se referiu no facebook a Joana Marques Vidal, procuradora geral da República.


 


FOLHEAR - Um livro interessante para ler neste ciclo eleitoral da vida política portuguesa é “A Quarta Revolução - A corrida global para reinventar o Estado”. Os seus autores são dois jornalistas, um da Bloomberg (John Micklethwait) e outro da Economist e que é um dos colunistas da imprescindível página “Schumpeter” ( Adrian Wooldridge). Os autores reflectem sobre a crise dos modelos partidários e de organização dos estados ocidentais, as respectivaas crises de governação , a ineficácia do Estado e o descrédito do sistema político. O livro não se limita a ser um inventário pessimista de problemas, traça também caminhos que são propostas de melhoria da sociedade. Muitos não serão consensuais mas a obra tem o mérito de pôr o dedo bem fundo na ferida, fazendo-a sangrar em abundância, para depois propôr vários tratamentos. O título do livro sugere que após o Estado Nação do século XVII, do Estado Liberal do secúlo XVIII e XIX e do Estado Social do século XX é inevitável que surja uma Quarta Revolução - e desta vez pode acontecer que não seja o Ocidente a traçar o caminho do futuro. (Editado pela D. Quixote/ Leya).


 


VER - Por estes dias uma das coisas que gosto mais de fazer é seguir o trabalho de algumas pessoas no Instagram. Por exemplo, o músico Legendary Tigerman (Paulo Furtado) tem uma série que evoca os lugares por onde passa em digressão em Portugal e no estrangeiro (na imagem); o americano Matt Eich vai publicando a fabulosa série que está a fazer sobre a vida e os habitantes de pequenas cidades dos Estados Unidos; David Guttenfelder, um fotógrafo da National Geographic Magazine apenas publica no Instagram imagens feitas com i Phone. Mas há também Luisa Ferreira, Pauliana Valente Pimentel, ou Clara Azevedo que vão anotando no Instagram o que vêm nos seus universos pessoais e nos locais por onde passam, ou Maria João Pavão Serra que no seu Turista Acidental nos revela o que descobre em viagem.  Ou então casos como o de Pedro Norton que no Instagram como que prolonga o trabalho que fez com o livro “As Flores do Mal”, editado no ano passado.E, finalmente, revistas como a New Yorker, a Time ou a Vanity Fair. Um mundo de imagens. Cá para mim o Instagram está para a fotografia como os graffitti para as artes plásticas há uns anos atrás.


 


OUVIR - O novo disco de Aldina Duarte tem dois discos: um preto e outro vermelho. O preto é o tradicional; o vermelho tem os mesmos fados mas não é tradicional. Tendo os mesmos fados, não são discos iguais: num e noutro os mesmos fados parecem diferentes. O negro é conservador; o vermelho é reformista. O negro é uma paixão; o vermelho é uma escapadela. Convivem bem os dois, é engraçado ouvi-los um após o outro, ficar encantado com o primeiro, ficar surpreendido pelo segundo. Os romances podem ser assim. Uns são paixão, outros ocasião. Não me lembro de um disco como este: fado tradicional de um lado, guitarra eléctrica do outro, o antes e o depois. No meio, sempre, um encanto. “Romance(s)” não é um disco, é uma aventura em dois actos. De um lado está servido por uma história construída em versos por Maria do Rosário Pedreira, cuja escrita mais uma vez surpreende; do outro lado pelo desafio das vozes, pela experimentação e pelas portas que abre. É a mesma história cantada de maneiras diferentes. Se calhar gosto mais do disco vermelho. É atrevido. Mas não tinha sido feito sem o outro. Que tem a tradição. (CD Sony Music)


 


PROVAR - Uma das coisas mais difíceis de encontrar em Lisboa é uma sanduíche feita como deve ser. A maior parte dos estabelecimentos comerciais pensa que uma sanduiche é uma carcaça aberta ao meio para dentro da qual se atira um pedaço de fiambre mal cortado ou uma transparência de queijo flamengo. Inevitavelmente no momento prévio ao lançamento do conduto surge a pergunta: “com ou sem manteiga?”. A prudência manda evitar gorduras rançosas. Há variantes: a tosta em pão alentejano, que é a mesma coisa, mas carregada de manteiga de ambos os lados das fatias, sem direito a opção, e que é impossível comer sem os dedos ficarem numa lambuzice, geralmente demasiado torradas e duras , com o flamengo a derreter e a escaldar; ou então a velha tosta mista em pão de forma da véspera, igualmente carregada de manteiga do lado de fora das fatias. Numa sanduíche de carcaça a míngua de fiambre ou de queijo é quase sempre notória, deve ser para se provar bem o pão que há muito deixou de ser estaladiço. Se falamos de presunto o caso ainda é pior porque vem geralmente mal cortado, grosso e sensaborão, com os bordos secos. Existem algumas variantes modernas da sanduíche com toque cosmopolita, mas igualmente desinspiradas - como os famosos hamburgueres do Honorato que provavelmente já terão sido bons mas agora são desinteressantes. Outro caso estranho de sucesso é o prego da peixaria, que vem num bolo de caco insípido - que poderia ter passado por uma torradeira para abrilhantar o preparo. Estou para encontrar uma sanduíche que incopore verduras frescas (folhas de espinafre, agrião, fatias finas de pepino ou mesmo alface que não tenha sido rejeitada pelos grilos), um chutney ou mostarda, um dos nossos bons queijos, presunto ou paio do lombo bem cortados, tudo em pão decente e levemente torrado. Se alguém souber onde há, agradeço.





DIXIT - “Grande parte da imprensa (que festeja sempre as vitórias da esquerda e há pouco tempo pisou o ridículo com a do Syriza na Grécia) deu pouco destaque às eleições britânicas - a maior parte fê-lo por motivos ideológicos (caso contrário seria indigência jornalística) e preconceito” - Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.


 


GOSTO - Da série de selos dos CTT com ilustrações do lince ibérico e das etiquetas postais com dinossauros que viveram no território português durante o Jurássico.


 


NÃO GOSTO - Do que aconteceu às árvores na avenida Guerra Junqueiro que ficaram reduzidas a galhos por obra de um poda que foi “longe demais” nas palavras da própria Junta de Freguesia que era responsável pela sua manutenção.


 


BACK TO BASICS - “As Universidades não gostam dos génios, tal como os conventos odeiam acolher santos” - Ralph Waldo Emerson

O PAÌS QUE VÊ TV

É interessante ver como se faz o consumo de televisão nas regiões do país – o norte é quem entrega maior número de espectadores a qualquer canal generalista. No caso da RTP1 o norte garante uma media de  97 mil espectadores, que comparam com os 73 mil da região centro, os 63 mil da Grande Lisboa e os 29 mil da região sul. Na TVI o norte garante 145 mil, o centro 120 mil, Lisboa 124 mil e o sul 48 mil. E na SIC o norte apresenta 141 mil espectadores, contra 94 mil do centro, 88 mil de Lisboa e 34 mil do sul.


Os numeros relativamente fracos de Lisboa têm uma explicação: é nessa região que existe maior número de espectadores do cabo, o que explica que seja também a região onde os canais generalistas de sinal aberto sejam mais penalizados. Uma tendência, tudo indica, que aos poucos se irá estendendo a outras zonas do país.


Esta foi uma semana TVI – programa mais visto no global (a transmissão do Juventus-Real Madrid), programa mais visto nos canais de cabo (os comentários ao Barcelona-Bayern na TVI24), vitória em acesso a prime time e em todo o horário nobre.


Nos dez programas mais vistos da semana a TVI colocou seis e a SIC quatro – qualquer um dos canais contou com a ajuda do futebol, embora em moldes bem diferentes – o Barcelona-Bayern na TVI foi o momento de televisão mais visto de toda a semana e o Juventus-Real Madrid ficou atrás embora tenha feito um bom resultado na SIC.


(Publicado na revista TV & LAZER do Correio da Manhã de Sexta)


 


 

maio 08, 2015

Políticas esquizofrénicas

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ESQUINA 617 - 6 MAIO 2015


 


ESQUIZOFRENIA - Nestes tempos que correm a vida política resume-se a isto: de um lado, numa semana coliga-se e noutra logo a seguir intriga-se; do outro lado, num dia mostram-se previsões em folhas de Excel e noutro fazem-se promessas de panfleto de campanha eleitoral. Não é o mundo que anda estranho, é a política que virou esquizofrénica. Se calhar não é novidade, mas agora nota-se mais. Na coligação passa-se o curioso fenómeno de o Primeiro Ministro se referir ao seu Vice Primeiro Ministro como líder da oposição, na mesma semana em que uma colaboradora do núcleo central do PSD publica uma biografia autorizada onde conta episódios da crise da governação - a célebre demissão irrevogável - com detalhes prontamente desmentidos pela outra parte. Tudo se passa entre sorrisos com a propagandista de Passos Coelho a menorizar as dúvidas sobre a veracidade do seu relato. Tenho cá para mim que estes episódios não dão muita confiança aos eleitores - sejam aos dos partidos do Governo, sejam aos do PS. Às vezes tenho a sensação de que toda a gente procura constantemente um motivo para fabricar uma crisezinha. Será falta de ideias? Ou apenas falta de jeito? A narrativa política está rasca - trata os eleitores como se eles fossem apenas mudar de canal, em vez de valorizarem que o sentido do voto é obter mudanças no parlamento, no Governo  e nas políticas. E, em última análise, no bem-estar das pessoas e no progresso do país.


 


SEMANADA - A Ryanair declarou-se muito satisfeita com o aumento das suas reservas e do seu negócio em Portugal, verificado em consequência da greve de alguns pilotos da TAP; outras companhias aéreas low cost viram também o seu negócio aumentar em consequência desta greve; João Cravinho afirmou que a TAP está a correr “um forte risco de inviabilidade na sua forma actual”; Portugal cria 78 novos alojamentos por dia para turistas; o bacalhau dominou a visita oficial de Cavaco Silva à Noruega; o poder de compra dos portugueses é 79% da média da União Europeia; a Câmara Municipal de Lisboa foi acusada de favorecer um projecto do GES na zona do Parque das Nações, cujo plano de pormenor foi feito pelo arquitecto Manuel Salgado, antes ainda de ser vereador, mas que depois tomou decisões sobre o processo; está a aumentar o número de juízes afastados dos tribunais; um juiz do Tribunal de Torres Novas chamou burra a uma escrivã; o Juiz Carlos Alexandre afirmou temer estar a ser espiado por uma organização secreta; em cinco anos desapareceram das igrejas e capelas portuguesas 150 peças de arte sacra; Marcelo Rebelo de Sousa considerou que Marques Mendes exerce sobre ele uma pressão  “doentia e obsessiva”  para que se candidate à Presidência da República; Sampaio da Nóvoa disse numa entrevista que se sente “preparadíssimo” para ser Presidente; Alfredo Barroso afirmou que o documento “Uma Década Para Portugal” “diz aquilo que querem ouvir tanto a actual direcção do PS como a ala mais à direita do partido”; António Costa disse que o PS não faz promessas impossíveis; António Costa prometeu esta quarta-feira mexer nos atuais escalões do IRS e com isso promover uma redução “da carga fiscal sobre o trabalho”; já são efectuadas mais pesquisas através de telemóveis do que de computadores e tablets.


 


ARCO DA VELHA - Marianne Thyssen, comissária europeia do Emprego e dos Assuntos Sociais, cancelou a visita a Portugal, para reuniões com o Ministro Mota Soares,  devido à greve na TAP.


 


FOLHEAR - António Pinto Ribeiro, recentemente afastado da Gulbenkian onde tinha criado o programa “Próximo Futuro”, tem tido uma persistente actividade de crítico e ensaísta na imprensa, procurando sempre comunicar de forma clara questões que não são simples. Fomenta o gosto pelo debate e pelo raciocínio provocador e a série de artigos que escreveu para o ”Público” entre Março de 2011 e Dezembro de  2014 é particularmente rica. 32 desses artigos foram agora publicados pelos Livros da Cotovia, na colecção Três Razões, sob o título “Miscelânea”. Passam por aqui temas que vão da política cultural aos desafios com que defrontam os museus, passando pela gastronomia e a moda. Há títulos de alguns destes artigos que são todo um programa, como “A cultura é cara? Experimentem a ignorância”, “Sem pêlos”, “Para acabar de vez com a lusofonia” ou “Ode ao conflito”, que encerra a recolha e de onde não resisto a extrair este segmento: “ Importa não confundir compromisso com consenso. O primeiro resulta de negociação cultural na mais abrangente definição do termo; o segundo - o consenso - é o adiamento de um conflito, modo cínico de enfraquecer a energia potencial e criadora que existe no conflito quando este está longe de ser guerra”.


 


VER - Miguel Justino mudou a sua Galeria da Rodrigo da Fonseca, frente ao Hotel Ritz, para um primerio andar da Rua Rodrigues Sampaio - é no 1º Esq do número 31, um prédio magnífico. Para a exposição que ficará até final de Maio, Miguel Justino convidou o crítico Miguel Matos para curador do “Projecto Sinistesia”, de Gabriel Garcia, e “Per Fummum” de Teresa Gonçalves Lobo. Gabriel Garcia aceitou o desafio de trabalhar sobre imagens que lhe foram sugeridas pelo cheiro de determinados perfumes - o ponto de partida que o curador lhe estabeleceu. Teresa Gonçalves Lobo, que tem vindo a afirmar a coerência do seu trabalho, apresenta novos desenhos, já mostrando uma evolução em relação a obras ainda recentes. Como diz Miguel Matos na apresentação da exposição, os desenhos de Teresa Gonçalves Lobo (na imagem) “são de carácter abstracto mas possuem poderes evocativos subjectivos”. O seu traço, agora progressivamente mais trabalhado com novas técnicas, cria uma noção de especial do espaço, particularmente visível nesta selecção que apresenta na Galeria Miguel Justino.


 


OUVIR - Há poucos portugueses a fazer bandas sonoras e menos ainda a editá-las. Valia a pena por exemplo editar as bandas sonoras que José Mário Branco já fez e que permanecem esquecidas da memória, mesmo daqueles que permanentemente o louvam e premeiam. Mas adiante. André Neves, com o seu disco “Soundtracks Vol 1”, é a razão de ser destas linhas. Começou a estudar Direito mas as leis foram vencidas pelo piano e, depois, pela paixão do trabalho em estúdio que o envolveu na Islândia, nos Sundlaugin Studio, construídos pelos Sigu Rós - o seu disco de estreia, “Circunstances”, foi lá finalizado. Este “Soundtracks Vol 1” recolhe trabalhos que fez em 2014 para uma dezena de filmes de realizadores de países como os Estados Unidos, Japão, Índia, Alemanha, Islândia e Espanha - entre eles a banda sonora de “Our Father”, de Linda Palmer, que ganhou o prémio de melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival. Além das bandas sonoras está incluída uma peça escrita para uma coreografia de dança contemporânea (por sinal um dos melhores momentos do disco). A destoar da qualidade geral deste registo está “Gambiarra”,  uma composição interessante infelizmente estragada por um arremedo de poesia para jogos florais, mal escrita e mal lida pelo seu autor, Valter Hugo Mãe - em suma uma foleirice pretenciosa,  que no final do CD estraga o prazer anterior.


 


PROVAR - Não gosto de frequentar restaurantes que entram de repente na moda e que são lidos em todo o lado. Prefiro casas mais simples que não recorrem aos préstimos de relações públicas para criarem nome. Por isso mesmo demorei largos meses a aventurar-me na “Casa de Pasto”, muito badalada porque o seu cozinheiro é Diogo Noronha, que ganhou nome de chef no falecido “Pedro E O Lobo”, ao Princípe Real. Voltando ao Pasto, vale a pena destacar a decoração, feita de uma mistura confortável de objectos e mobílias de várias épocas. Vale ainda a pena destacar o serviço, bom, exemplar: num restaurante, por melhor que seja a comida, um mau serviço arruína o prazer da refeição - e ainda há muita gente por aí que ignora este ponto essencial. Resolvidas as questões do conforto e do serviço, passemos ao essencial: a cozinha. As propostas são variadas, desde as entradas até aos pratos de substãncia. Há uma clara dedicação na interpretação, respeitosa e  comedida, da cozinha tradicional portuguesa - nos petiscos de entrada, nos peixes e nas carnes.. Para servir de entretém a mesa oferece azeitonas marinadas e umas deliciosas cenouras de conserva, à algarvia. O petisco inicial foi uma salada russa com puntillitas, seguido de uns filetes de peixe galo de impecável preparo e fritura e um arroz de lagostim, com açafrão, tomate e tobiko irrepreensível. Tudo foi acompanhado de um branco Quinta das Bageiras. O repasto terminou em beleza com um duchesse improvável de morangos com ruibarbo que resultou muito bem. Rua de S. Paulo 20-1º, ao Cais do Sodré. Telefone 963 739 979.


 


DIXIT - “Eu diria que onde a língua portuguesa se depara com maiores dificuldades, adversidades e pouca capacidade de luta é na Europa” - José Ribeiro e Castro.


 


GOSTO - Da sugestão de Teresa Garcia, uma professora do ISEG, para que se faça um estudo sobre a carreira contributiva dos políticos.


 


NÃO GOSTO - De dirigentes partidários que enviam SMS agressivos a jornalistas que criticaram acções políticas, dizendo que estão apenas a exercer o direito de protesto.


 


BACK TO BASICS - “Tenho por certo que durante o horário de expediente nunca se diz a verdade” - Hunter S. Thompson


 


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abril 30, 2015

TRÊS MOMENTOS DA SEMANA E SUGESTÕES AVULSAS

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REGISTO I - Ao ler uma entrevista de Pedro Mexia no sábado passado, ao “i”, dei comigo a rever-me, hoje, numa das suas afirmações: “ não tenho nenhuma relação partidária, estou a tornar-me perigosamente abstencionista”. Sindo que cada vez mais estou nesse registo. Se tivesse que escolher um partido optaria por um que fosse contra os abusos do Estado, que defendesse os cidadãos da burocracia, a favor de uma justiça célere, contra a corrupção, que desse provas de sensibilidade social e de bom senso político. 40 anos depois das eleições para a Constituinte esses referenciais esvaíram-se. Todos perdemos nestes anos - mas as maiores perdas não foram materiais, foram éticas e de cidadania. A fantochada da regulamentação sobre a informação em período eleitoral, focada exclusivamente na defesa da utilização dos mídia como veículos de propaganda dos partidos,  reforça a minha convicção de que a Assembleia da República é habitada por ovnis quem vivem de tácticas manhosas - sendo um deserto de estratégias e de ideias de mudança. Tal como está a política é um jogo rasca e com muita batota.


 


REGISTO II - António Pinto Ribeiro, que pôs de pé o conceito inicial de programção da Culturgest e que criou uma lufada de ar fresco na Gulbenkian com o programa Próximo Futuro, uma iniciativa que nos últimos anos interrompeu o cinzentismo e conformismo reinantes na vetusta instituição, decidiu apresentar a demissão do cargo de programador geral, para o qual tinha sido nomeado pelo Conselho de Administração, alegando notória falta de assuntos para coordenar, como na ocasião explicou. Mas prontificou-se a acompanhar as actividades do Próximo Futuro previstas para este ano, até 15 de Setembro. Referiu, no entanto, a existência de “episódios de autoritarismo”,  sobretudo a limitação de divulgação de uma edição da banda desenhada “Papá em África”, do sul-africano Anton Kannemeyer, um autor que integrava o próximo ciclo. As dificuldades colocadas à venda da obra na livraria da Fundação levaram à  revelação dos “episódios de autoritarismo”, atribuídos a Artur Santos Silva, razão invocada pelo Conselho de Administração da Fundação para interromper imediatamente a colaboração de António Pinto Ribeiro. O jornal editado pelo programa Próximo Futuro (na imagem) tinha por tema na sua edição 18, agora em distribuição mas anterior a tudo isto, uma frase que se aplica que nem uma luva aos efeitos perturbadores que as histórias aos quadradinhos podem criar: “Sem mutantes nem conservantes: a Banda Desenhada e o diálogo intercultural”.


 


REGISTO III -  Discretamente o “Em Órbita” fez 50 anos no passado dia 1 de Abril. Pouca gente falou do assunto e a efeméride merecia ser assinalada, como bem me sublinhou João David Nunes, uma das suas incontornáveis vozes. O “Em Órbita”  faz parte da minha vida, cresci a ouvi-lo, nas suas diversas fases, aprendi a ouvir música, músicas melhor dizendo, escutando as suas emissões. Foi uma das causas da minha paixão pela rádio, pelos programas de rádio hoje quase desaparecidos. O “Em Órbita” foi um dos raros galardoados portugueses com o prémio internacional “Ondas”, atribuído aos melhores programas de rádio europeus e o seu fundador, Jorge Gil, tornou-se numa referência para uma geração. O programa, na sua segunda fase, terminou a 31 de maio de 2001. Fazem falta programas assim.


 


SEMANADA - Desde 2007 já se registaram 55 dias de greve na TAP, que causaram à companhia um prejuízo de 343 milhões de euros - e estes números não contemplam a greve anunciada para Maio; os dez dias de greve que agora se vão realizar causarão um prejuízo adicional de 70 milhões de euros; o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, queixou-se no twitter de ser odiado pelos seus parceiros no Eurogrupo; o primeiro ministro grego Alexis Tsipras tirou poder a Varoufakis na negociação com os credores; Manuel Maria Carrilho foi condenado por difamação por ter dito que o padrasto de Bárbara Guimarães a teria violado; um vetusto proto candidato presidencial, Henrique Neto, fez-se fotografar para uma reportagem em tronco nu enquanto se barbeava com espuma e lâmina e filosofava sobre as reflexões que faz ao espelho; o Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, participou na inauguração, naquela cidade, do Palácio Maçónico do Grande Oriente Lusitano; reabriu o único cinema que existe na baixa do Porto e que agora é dedicado a filmes pornográficos; Portugal foi o país da UE com maior peso de investimento chinês em 2014; a partir de Setembro 500 alunos irão começar a aprender Mandarim em escolas portuguesas; o site da Polícia Judiciária foi atacado por hackers do grupo Anonymous e foi alterada a foto de um procurador especializado no combate ao cibercrime; o Provedor de Justiça abriu 1800 processos contra o Fisco em 2014.


 


ARCO DA VELHA - Um autarca de Olhão, com casa ilegal na ilha do Farol, recorreu a tribunal para parar as demolições na ria Formosa, alegando que os camaleões, espécie protegida, habita nas árvores e arbustos das  construções feitas sobre as dunas;


 


FOLHEAR - A edição de Maio da revista Vanity Fair é imperdível- a começar pela capa e o respectivo artigo sobre Sofia Vergara, a actriz de “Uma Familia Moderna”. Mas ha mais -  desde a evocação de como a obra de Saul Below foi fundamental para Martin Amis crescer como autor, uma história contada pelo próprio Amis, até ao artigo de Josh Karp sobre Orson Wells, “Orson’s Last Stand”, onde se conta como o realizador queria fazer um filme sem um guião escrito. Mas há muito mais nesta edição e permito-me destacar a investigação de Bryan Burroughs sobre a decadência galopante dos noticiários de prime time numa das maiores estações de televisão norte-americanas, a NBC, desde que a Comcast, um operador de cabo, a adquiriu. A tese tem a ver com a incapacidade que a Comcast tem demonstrado em gerir talentos, o que provocou que eles fossem fugindo da estação - uns por vontade própria, outros empurrados. É uma história que por aqui também vamos conhecendo. No seu sempre brilhante editorial, o director da Vanity Fair, Graydon Carter, faz uma afirmação óbvia de que muitas vezes nos esquecemos: os noticiários televisivos são umas coisas que acontecem com uns apresentadores que vão falando, sempre da mesma forma, para um grupo cada vez menor de reformados tecnologicamente pouco hábeis que se contentam com esta forma antiga de saber o que se passa pelo país e pelo mundo. Na última página o habitual questionário de Proust, desta vez com Candice Bergen a confessar que o seu lema é “começar sempre pela sobremesa”.


 


VER - Boa semana para  a fotografia. No Museu da Electricidade inaugurou a exposição deste ano do “World Press Photo” e Lisboa acolhe até 24 de Maio os premiados de 2015 logo depois da sua apresentação em Amsterdão, onde a organização está localizada. Trata-se da exposição fotográfica que consegue o maior número de visitantes em todo o mundo, através da itinerância por dezenas de cidades. Este ano o grande prémio foi para o fotojornalista dinamarquês Mads Nissen com o retrato de um momento íntimo de um casal homossexual em São Petersburgo. Foram analisadas quase 98 mil fotografias propostas por 5.692 fotógrafos de 131 países. No total, foram premiados 42 trabalhos enquadrados em oito categorias temáticas. O prémio da melhor história em imagens foi para o italiano Giulio Di Sturco com a sua série sobre os estúdios de cinema chineses de Hengdian, onde já são feitas algumas co-produções internacionais, mas há muitas imagens marcantes para ver nas séries sobre o quotidiano ou nos ensaios fotográficos - uma prova da continuada relevância que a fotografia tem na comunicação. Outro destaque: no Museu do Chiado está   exposta uma selecção de 150 fotografias que mostram o Portugal do século XIX , entre 1840 e 1900 - aqui estão os pioneiros da fotografia, testemunhos da sociedade naquela época,  obras raras, outras inéditas. Há retratos, cenas do quotidiano (algumas, bem interessantes, fotografadas pela Rainha D. Maria Pia), imagens da então longínqua Madeira, como esta que aqui fica reproduzida, tirada na costa norte da ilha por João Francisco Camacho cerca de 1870. Mas também retratos de figuras da sociedade e fotografias de Alfredo Keil que ele utilizava como registos a partir dos quais elaborava depois os seus quadros a óleo. Estes Tesouros da Fotografia Portuguesa do Século XIX estarão no Museu de Arte Contemporânea do Chiado até 28 de Junho.


 


OUVIR - Steve Earle anda a fazer discos há mais de três décadas, mas este seu novo álbum, “Terraplane”, é dos mais inesperados - e interessantes - da sua longa carreira de dezena e meia de álbuns de originais. As suas canções têm sido interpretadas por nomes como Johnny Cash, Waylon Jennings, Emmylou Harris ou Travis Tritt, entre outros. Com origens no folk, Earle criou uma interessante combinação entre as guitarras rock e a forma country de construir canções e fez disso uma carreira. Mas é a sua paixão pelos blues que está na origem deste novo disco, uma assumida homenagem a Robert Johnson, uma das lendas dos blues do Delta do Mississipi que viveu na primeira metade do século passado - um dos seus temas mais famosos dá o título ao novo disco de Steve Earle. No álbum notam-se também vestígios das influências de bandas como os ZZ Top ou de clássicos como Howlin’Wolf. Aos 60 anos Steve Earle continua a mostrar-se mais interessado em trabalhar o detalhe e o virtuosismo do que em fogos de artifício sonoros fáceis. Muito bem acompanhado pelos Dukes, a sua banda de digressão, Earle surge  num tema ao lado da  violinista e cantora Eleanor Whitmore - "Baby's Just as Mean as Me".  “Better Off Alone”, “Acquainted with the Wind”,  “Baby’s Just as Mean as Me” e “The Tennessee Kid” são os meus temas preferidos (CD disponível via Spotify).


 


DIXIT - O maior inimigo da democracia e da liberdade sempre foi aquilo que el-rei D. Pedro V qualificou como canalhocracia. - JHosé Adelino Maltez, no Facebook


 


GOSTO - Do êxito alcançado pela edição deste ano dos Dias da Música, no CCB, dedicada às músicas de filmes  - e para o ano um desafio: uma volta ao mundo em 80 concertos.


 


NÃO GOSTO - Em três anos verificaram-se 2746 atropelamentos em Lisboa e os idosos representam quase 30% das vítimas.


 


BACK TO BASICS - Nunca se deve interromper o inimigo quando ele está a cometer um erro - Napoleão Bonaparte


 

abril 24, 2015

RELATOS DA SEMANA & SUGESTÕES AVULSAS

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QUALIDADE - No sábado passado a revista Monocle realizou em Lisboa a sua conferência inaugural, sob o tema  The Quality Of Life. O evento trouxe a Portugal centena e meia de participantes que vieram desde São Francisco até ao Japão, passando por Singapura e uma série de países europeus (sobretudo do centro e norte da Europa), e ainda da Coreia ou da Austrália. Era um núcleo duro de seguidores da revista,  interessados em arquitectura, design, cultura urbana, media e a vida nas cidades com tudo o que ela comporta . Dos painéis a que assisti, destaco dois: “How do media brands make our cities?” e “How the museums became the modern cultural powerhouse”. Do primeiro destes painéis retenho algumas ideias-chave: assistimos a uma evolução do chamado jornalismo isento do século XX para um jornalismo com atitude, no século XXI - e quem conseguiu evoluir neste padrão conquistou as suas audiências, que vieram procurar conteúdos diferentes; o exemplo do grupo de media Vice, nascido no digital, que está a evoluir para a televisão com a HBO, e que ganha penetração pelas suas aplicações para dispositivos móveis numa série de países, é um excelente modelo do que se pode fazer nesta área de forma inovadora e conquistando novos públicos; e finalmente o próprio exemplo da Monocle, um produto que existe sobretudo no formato de papel, de revista, que se tornou global e que conseguiu conciliar acompanhar pequenos detalhes do dia a dia com fomentar uma massa crítica de leitores suficiente para se manter, fazendo-o com estilo e sem concessões. A Monocle cresceu a criar comunidades, a unir essas comunidades com eventos, a negar-se a ceder os seus conteúdos do papel sob qualquer forma digital, a oferecer-lhes soluções relacionais novas, como a rádio que funciona em streaming com conteúdos próprios e numa aplicação para smartphones, e ainda com as suas lojas e produtos exclusivos que mostram de forma clara a sua força de marca; no ar ficou a ideia de que a morte anunciada do papel impresso ainda não é caso arrumado e de que existem sinais geracionais de uma evolução do ecrã para o suporte impresso. No outro  painel, dedicado aos museus, foi estimulante ouvir os responsáveis do Victoria & Albert, de Londres, e do Rijksmuseum, de Amsterdão, a falar das suas estratégias de captação de públicos e da forma como programam para poderem chegar a novas audiências; em comum o princípio de que os museus são apenas depositários de obras que pertencem a todos - “All Of This Belongs To You”, um dos lemas do museu britânico; mas também a forma como isto se materializa - o Rijksmuseum pegou em reproduções de algumas das suas obras e cedeu-as a uma marca de leite para figurarem em embalagens de cartão que trazem essa arte à mesa de pequeno almoço dos holandeses; em comum também a ideia de que num mundo todo digitalizado começa a desenhar-se uma tendência para o regresso aos suportes físicos e aos objectos propriamente ditos - porque quanto mais se divulga a imagem digital mais as pessoas querem ver o objecto físico verdadeiro, real;  isto é, o meio de comunicação, o suporte de transporte da imagem, não interessa, o que interessa é o conteúdo; e, finalmente, o fim da separação entre épocas: o painel defendeu que a grande arte é sempre contemporânea - desde o momento em que foi criada até ao momento em que se tornou reconhecida e o fundamental é que os artistas vivam e mostrem de forma autêntica o seu próprio tempo.


 


SEMANADA - O Partido Socialista tem um passivo de 11 milhões de euros e há sedes locais em risco de ficarem sem água e luz; António Costa garantiu que o rigor será a marca da governação do PS; o programa económico do PS propõe aumento da despesa pública e diminuição das receitas do Estado; Marcelo Rebelo de Sousa diz que a proposta apresentada pelo PS é “a mais sedutora para o eleitorado”; A ex-Ministra da Cultura Gabriela Canavilhas pediu a expulsão do PS de outro ex-Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho para que “morra para a vida pública quem agride e maltrate a mulher”; na semana passada Carrilho tinha pedido a expulsão de José Sócrates do partido Socialista; a Alemanha é o país que tem maior número de funcionários de topo nos serviços da Comunidade Europeia; a Comissão Europeia considerou que a taxa turística lançada em Lisboa por António Costa contraria a legislação europeia que proíbe a discriminação em função da nacionalidade e chama a atenção para uma proliferação excessiva de taxas com “efeitos negativos sobre a competitividade da indústria do turismo”; até final de 2015 está prevista a abertura de 58 novos hotéis em Portugal, 24 dos quais em Lisboa; o abandono escolar em Portugal continua acima da média da União Europeia; iniciou-se um programa de estágios para maiores de 31 anos; o secretário de Estado Adjunto da Administração Interna demitiu-se em divergência com a Ministra Anabela Rodrigues sobre políticas relativas ás polícias, que estavam na sua tutela; um preso a cumprir pena no Estabelecimento Prisional de Sintra saíu da prisão e decidiu ir à compras no vizinho Beloura Shopping, onde foi reconhecido por um guarda prisional;  a primeira auditoria feita ao Tribunal Constitucional colocou em causa a "fiabilidade" da prestação de contas da instituição e aponta várias irregularidades e descontrolo nas suas despesas.


ARCO DA VELHA - A tradicional broa de milho, um símbolo da gastronomia regional portuguesa, está a ser feita em parte com milho transgénico, sem que o consumidor tenha disso qualquer conhecimento e os distritos de Braga, Viana do Castelo e Porto são aqueles onde se verificam percentagens mais altas daquele cereal geneticamente modificado.


 


VER - Desde há alguns meses o Hotel Tivoli (Avenida da Liberdade 185), promove regularmente exposições de artistas contemporâneos e esta semana Pedro Calapez apresentou um conjunto de peças que intitulou “Além do Horizonte”, citando a obra de Eugene O’Neill. No hall de entrada do hotel está uma peça de grandes dimensões (na imagem), acrílico sobre alumínio, dois meios cilindros abertos, a remeter para a street art, intitulada “Half Pipe”. Dentro da Brasserie Flo, ao lado da entrada do hotel, uma sala magnífica, três quadros dominam o restaurante, visíveis de quase todas as mesas - foram feitos entre 2013 e 2015 e têm a designação genérica de “Horizontes”. As obras de Pedro Calapez vão estar no Tivoli até 22 de Julho num bom exemplo de cruzamento de um espaço que alberga públicos diversificados e cosmopolitas com a arte contemporânea. Outra exposição a ver, e também inaugurada esta semana, é “Cidades Invisíveis”, um conjunto de imagens fotográficas manipuladas, de Graça Sarsfield, que estarão na Galeria Giefarte (Rua da Arrábida 54 B) até 29 de Maio.


 


OUVIR - “Soundprints” é o disco de Joe Lovano & Dave Douglas que recupera a gravação de um concerto realizado em 2013 no Festival de jazz de Monterey. São seis temas - dois de Lovano, dois de Douglas e outros dois, novos, apresentados em público pela primeira vez nessa ocasião, de Wayne Shorter - que é assumido como uma das fontes de inspiração do quinteto. O trompete de Dave Douglas e o saxofone de Joe Lovano são acompanhados pelo piano de Lawrence Fields, o baixo de Linda Oh e a bateria de Joey Baron - e é este quinteto que tem actuado sob a designação de Soundprints, o nome da faixa inicial, e que se estreou precisamente em Monterey. O resultado é uma demonstração de ousadia musical e de entendimento entre os cinco músicos. Os meus temas preferidos são “To Sail Beyond The Sunset” , “Sprints” e “Power Ranger” - CD Blue Note.


 


PROVAR - No velho centro comercial Roma, que começou por ser Tutti-Mundi, houve obras de renovação. Agora no piso inferior há um espaço, “Cantinho do Paladar”, especializado em carne mertolenga. Os nomes dos menus são um bocado irritantes, género “Aconchego da Alma”, que signfica uma sopa de legumes e dois pastéis de massa tenra, bebida e café, tudo por 5,90 €. Os menus aliás variam até aos 7 € e os tais pastéis, que se vendem à peça a 1,50€ cada,  podem vir acompanhados por salada mista, por uns legumes estufados ou uma salada montanhesa. Os pastéis pretendem rivalizar com os da Frutalmeidas, do outro lado da rua, mas isso ainda está longe de acontecer. O recheio de carne é bom, bem temperado, mas a fritura que me calhou foi péssima - fritos demais, escurecidos e com demasiada gordura não escorrida - com a textura da massa e o seu sabor completamente aniquilados pela má fritura.  Há outras alternativas, como um inevitável hamburguer mertolengo - mas o que é bom mesmo é o prego especial, servido numa carcaça honesta, com mostarda de alcaparras e pickles - peçam-no mal passado e insitam porque a cozinha exagera no tempo de confecção. Também há bifes no prato com mandioca estaladiça, e vários menus de almoço e jantar. As mesas são sólidas e confortáveis e há algumas gulodices para rematar - desde um pudim de mel e azeite até uma torta de laranja - tudo calorias garantidas. Com muito maior cuidado na confecção talvez possa evoluir. Centro Comercial Roma, piso -2, loja 10/11., Avenida de Roma 48 B.


 


DIXIT - “Podemos dizer olhos nos olhos aos portugueses que aquilo que nos compremetermos a fazer na oposição é o que faremos no Governo. Só temos uma cara, só temos uma palavra” - António Costa


 


GOSTO - Da exposição Florestas Submersas, imaginada pelo japonês Takashi Amano para o Oceanário de Lisboa, e que conta com música ambiente de Rodrigo Leão.


 


NÃO GOSTO - Que Passos Coelho se tenha referido à morte de Mariano Gago sublinhando que o fazia “apesar de ter servido em Governos do Partido Socialista”.


 


BACK TO BASICS - É melhor saber colocar algumas perguntas do que querer ter respostas para tudo” - James Thurber


 

TELEVISÃO - O PROBLEMA DA RELEVÂNCIA

As audiências de televisão são instrumentos de estudo a vários níveis – capacidade de comunicação dos canais, capacidade de fidelização, o perfil dos espectadores, as oscilações de audiências e a sua causa. Conquistar audiências não é um papão – é uma medição da capacidade de comunicação de cada canal. Em Portugal, não só na televisão infelizmente, criou-se a perturbadora ideia de que ter pouco público pode ser bom se esse público for uma elite de compreensão superior – sendo que a definição da capacidade de compreensão é sempre um assunto terrível e perigoso. Para mim não há volta a dar a isto: ter pouco público significa que se comunica mal. Depois tem que se perceber se a razão de ser da má comunicação está na forma, ou se está no conteúdo; e por último ver se forma e conteúdo são adequados aos públicos que se quer tocar. Faz-me muita impressão que se separem as audiências da noção de relevância e que se contraponha a qualidade à massificação da comunicação. O universo da cultura contemporânea é indissociável da massificação – nas mais diversas formas de expressão da criatividade. Quem não procura audiências num qualquer órgão de comunicação é porque não entende papel dos Media na sociedade. E por mais relevância que se possa achar que os conteúdos têm, se eles não conseguirem audiências e renovação de espectadores é porque alguma coisa está mal.


 


(publicado na revista Sexta TV & Lazer do Correio da Manhã)

abril 22, 2015

ONDE ESTÁ E O QUE FAZ O IAB EM PORTUGAL?

IAB é uma sigla que quer dizer Interactive Advertising Bureau. A organização, que entretanto se espalhou por todo o mundo,  nasceu em 1996 nos Estados Unidos e agrupa empresas líder no sector da media, da tecnologia e da publicidade, que têm a responsabilidade de planear, concretizar e optimizar campanhas de publicidade e acções de marketing digitais. Nos Estados Unidos 86% da publicidade online passa por entidades associadas ao IAB – uma organização de refência que avalia e recomenda standards, métricas e procedimentos e que desenvolve investigação relacionada com a publicidade interactiva. Um dos objectivos da organização é proporcionar o desenvolvimento das empresas associadas, implementando programas de formação e estimulando a difusão do conhecimento sobre todo este universo junto de anunciantes, editores e companhias de Media, agências e toda a comunidade empresarial que tenha pontos de contacto com a publicidade online.



 


O IAB tem criado secções nacionais nos vários continentes e na Europa existe já em mais de duas dezenas de países. Em Portugal a sua formalização foi efectuada em 2013 - mas apenas no início deste ano teve o seu primeiro evento, uma Conferência inaugural – passaram portanto dois anos entre a sua constituição e o seu primeiro sinal público de vida. Infelizmente, e ao contrário do que se esperava, esse primeiro evento não teve desenvolvimentos concretos a nível de actividades que permitam que os objectivos enunciados a nível internacional pelo IAB se concretizem aqui. O contraste com a actividade do IAB Espanha é enorme – o espanhol realiza frequentemente acções de informação e de formação, tem uma actividade constante e regular de acompanhamento da indústria, obviamente através de meios digitais como o Facebook por exemplo (www.facebook.com/iabspain) .  Uma pesquisa rápida no Google e no Facebook não detecta presença online do IAB Portugal – o que é no mínimo um paradoxo: temos uma associação dedicada ao incremento da publicidade digital que não tem presença online. O IAB Portugal existe legalmente há dois anos, há cerca de seis meses foi reconhecido pelo IAB internacional mas a sua actividade prática é praticamente nula e nem sequer os seus estatutos são cumpridos - a Assembleia Geral, que se devia ter realizado até 31 de Março, ainda não foi convocada à data em que escrevo.


 


Numa época em que assistimos a enormes transformações na forma de ver televisão ou na utilização de multiecrãs, dados tão simples como os que o IAB internacional publica regularmente não são seguidos de forma sistemática em Portugal, como por exemplo este - www.iab.net/changingtv . Numa altura em que existem tantas questões relevantes – desde a compra programática até às métricas a utilizar, passando por normas de conduta, até à alteração de padrões de consumo dos Media,  a inexistência de uma actividade continuada, coerente e assertiva do IAB em Portugal é penalizadora para o desenvolvimento da indústria, quer a nível dos Media, quer das agências de meios, quer dos anunciantes. Os meus votos sinceros vão no sentido de que se consiga que o IAB em Portugal tenha num futuro próximo a actividade e a relevância que tem conseguido atingir nas mais de duas dezenas de países europeus onde também existe. Assim como está é que faz muito pouco sentido.


abril 17, 2015

O VERÃO QUENTE E O REGIME TRAVESTIDO

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TRAVESTI - Este ano assinalam-se 40 anos sobre o agitado Verão quente de 1975 e tudo indica que a temperatura política vai subir nos próximos meses em torno das concorridas pré presidenciais, da incógnita de coligação dos actuais partidos do Governo, do mistério das medidas a propôr pelo PS e dos resultados dos novos partidos e formações que se apresentarão a eleições. Não deixa de ser curioso que 40 anos volvidos sobre esse verão quente surjam tão abundantes sinais de uma situação política tumultuosa, pautada por disputas palacianas, total falta de ideias, desrespeito pelas promessas feitas aos eleitores, desinteresse dos cidadãos e sinais cada vez mais claros de um regime que está em evidente crise. Falta capacidade ao sistema para encontrar soluções governativas que garantam as mudanças necessárias, falta respeito dos partidos, dos políticos e do Estado pelas pessoas, sobra arrogância e prepotência. 40 anos depois do Verão quente a bagunça é diferente mas não é menos grave. Está é com mais maquilhagem, esborratada, como se o correr do tempo tivesse tornado o regime num travesti da política.


 


AGENDA - Neste sábado a revista “Monocle” realiza no Ritz, a sua “Quality Of Life Conference”, o primeiro evento deste género que organiza, e que vai animar o fim de semana lisboeta. Três dezenas de colaboradores da Monocle, incluindo o seu fundador e director Tyler Brulé, enquadrarão convidados de vários países que debaterão a situação dos media, da cultura, das cidades, do comércio e do urbanismo. Vai haver uma Monocle pop up shop na Entre Tanto, Rua da Escola Politécnica 42, até ao dia 26, e a conferência será transmitida em directo pela rádio em streaming da revista, a Monocle 24, disponível em app para iPhone ou iPad.


 


SEMANADA - Portugal está no 9º lugar entre os países com  maior consumo per capita de bebidas alcoólicas; está no 11º lugar na lista dos países com maiores impostos sobre os rendimentos do trabalho; seis em cada dez postos de trabalho criados em Portugal são estágios; os pilotos da TAP vão fazer uma greve de 10 dias no início de Maio quem tem um impacto estimado de 70 milhões de euros na já deficitária empresa; há três semanas o PSD e o CDS chumbaram uma proposta de reforço de meios técnicos e humanos das comissões de protecção a menores apresentada pelo PS e PCP e, depois da morte de duas crianças por maus tratos, a maioria parlamentar apresentou proposta idêntica à que reprovou; o actor português Diogo Morgado, que interpretou o papel de Jesus numa série norte-americana, desempenha agora o papel de Diabo na série “The Messengers”; o Ministro do Ambiente anunciou que a maioria da população terá um aumento nas tarifas da água; Ricardo Sá Fernandes acusou o PS de ser um partido minado pela cultura do favor e da promiscuidade e considerou que seria mau para o país o PS ter maioria absoluta; um acordão da Relação de Lisboa indica que Sócrates gastava quatro vezes mais do que ganhava como Primeiro-Ministro - no fundo foi a política que aplicou coerentemente a Portugal, gastar acima das nossas possibilidades; Manuel Maria Carrilho defendeu que António Costa devia propôr a expulsão de Sócrates do PS; a CMVM defendeu o pagamento integral do papel comercial vendido aos balcões do BES e criticou as posições defendidas pelo Banco de Portugal sobre esta matéria.


 


ARCO DA VELHA - O ministro Moreira da Silva obrigou as gasolineiras a vender combustíveis não aditivados, diminuíu a oferta anteriormente existente no mercado, não obteve uma redução dos preços de forma sensível, piorou a qualidade do combustível e proporcionou o aumento das margens das gasolineiras, tudo com a intenção anunciada de defender o consumidor que afinal sai prejudicado.


 


FOLHEAR - A edição de Abril da revista norte-americana “Fast Company” é um mimo para os fiéis da Apple. Na capa uma foto de Steve Jobs remete para a pré-publicação de uma nova biografia do criador da Apple, escrita por um dos editores da revista e que mostra uma nova faceta de Jobs. O título de capa da “Fast Company”  diz tudo: “Kind, patient, human, the Steve you didn’t know”. O livro, da autoria de Brent Schendler e Rick Tetzell, chama-se “Becoming Steve Jobs: The Evolution Of A Reckless Upstart into a Revolutionary Leader” e já está disponível como ebook. Num outro artigo Rick Tetzell escreve sobre a verdadeira herança de Steve Jobs na Apple. E, por fim, Brent Schendler e Rick Tetzell entrevistam Tim Cook sobre o momento actual e o futuro próximo da Apple. Uma edição absolutamente incontornável. Já agora experimentem a nova app da “Fast Company” para iPhone e iPad onde, mesmo sem fazerem uma assinatura, podem ler diariamente novos artigos da revista. E, claro, se quiserem esta edição da “Fast Company” basta comprá-la no Quiosque da App Store ou numa boa loja de revistas importadas.


 


VER - A nova exposição de André Gomes, inaugurada esta semana na Casa-Museu Medeiros e Almeida, representa uma evolução significativa na relação do autor com a imagem fotográfica. Durante muitos anos André Gomes explorou as potencialidades de manuseamento de Polaroids, aos poucos foi introduzindo modificações de imagem que o digital tornou possíveis , mas nesta mostra, “Vozes Interiores”, usa as potencialidades da tecnologia na criação de uma nova forma de colagens, que potencia a alteração de ambientes, de realidades e de situações. O conjunto das obras expostas (como a da imagem) retrata a casa do autor, o seu universo pessoal, que aliás tem sido recorrente na sua obra. Obsessivo por vezes, simbólico noutras ocasiões, André Gomes tem nestas “Vozes Interiores” a sua mais interessante exposição dos últimos anos, a mais inovadora, aquela que mostra mais sinais de uma adaptação da sua criatividades às novas possibilidades tecnológicas, transportando de facto a sua fotografia para outro plano. Destaque ainda para o magnífico catálogo, possível graças ao patrocínio da BlueCrow Capital. A Casa-Museu Medeiros e Almeida fica na Rua Rosa Araújo 41 e ficará patente até 27 de Junho. Se quiserem uma sugestão adicional até dia 19 ainda poderão ver a Mostra, em Alvalade (Rua do Centro Cultural nº2) e recomendo que descubram as obras propostas por Paulo Brighenti, por Teresa Segurado Pavão, por José Maçãs de Carvalho, Maria do Mar Rego, Martinho Costa e Luis Alegre, entre outros.


 


OUVIR - José James, um americano com origens familiares no Panamá, é um dos cantores de jazz contemporâneos que mais surpreendentemente mistura estilos - desde os temas vocais mais clássicos do jazz até momentos com clara inspiração no hip hop. James é um fã confesso de Billie Holiday, cujo centenário se celebra agora, e foi o produtor da compilação de Lady Day de que aqui falei na semana passada, “God Bless The Child - The Best Of Billie Holiday”. José James diz que Billie foi a sua mãe musical e neste seu CD, “Yesterday I Had The Blues”, ele interpreta nove temas tornados célebres por Billie. Fez-se acompanhar de um elenco de luxo, com Jason Moran no piano e uma secção rítmica à beira da perfeição, com John Patitucci no baixo e Eric Harland na bateria. Destaque para as interpretações de “Good Morning Headache”, “Lover Man” e “Strange Fruit” - mas a minha favorita é “What A Little Moonlight Can Do”. A produção é do competente Don Was e sente-se que este é um disco feito com paixão - desde os solos de Jason Moran, à voz de James. CD Verve, no El Corte Ingles.


 


PROVAR - Instalado na Marginal desde há décadas, mais precisamente desde 1958, à saída de Oeiras em direcção a Lisboa, o Saisa é um clássico que disfruta de uma localização única, com uma ampla varanda em cima do mar com vista para o Bugio, a barra e a praia de Santo Amaro de Oeiras. A esplanada dessa varanda é um dos melhores pontos para um almoço tardio ou para um petisco de fim de tarde. A casa é célebre pela sua paella (para duas pessoas), pela pescada à vasca e pelos filetes à Saisa, filetes de linguado de boa fritura acompanhados por batata cortada aos pequenos cubos e salteada com pedacinho de chouriço. A casa mantém a mesma gerência desde há anos, os empregados são simpáticos e o serviço é escorreito, os preços são aceitáveis. Se não arranjar lugar na esplanada perde metade do encanto mas a sala tem vidros largos e é grande. Aqui está um clássico que, no meio da modernice que anda para aí a fazer descongeladoa no micro ondas, merece respeito e visitas mais frequentes. Telefone 214 430 634.


 


DIXIT - “O pensamento de Fernando Medina é um misto de fatalismo e de branqueamento de responsabilidades” - Pedro Braz Teixeira, investigador da Nova School Of Business and Economics


 


GOSTO - Da ideia de criar um Provedor do Contribuinte


 


NÃO GOSTO - Das obras paradas na envolvente do Mercado da Ribeira


 


BACK TO BASICS - O maior mistério em qualquer Governo não é perceber como funciona, mas sim como se podem parar os seus abusos - P.J. o’Rourke

COMO VAI SER O FUTURO DA TV

Um estudo da Nielsen, efectuado nos Estados Unidos, mostra que cada vez mais pessoas abandonam o visionamento de canais de televisão tradicionais e vêem vídeo de outras formas, maioritariamente on line e em dispositivos móveis. A evolução tecnológica está a alterar a forma de ver televisão, e abrange de forma particularmente relevante os espectadores entre os 15 e os 34 anos. No final desta década é provável que já exista mais gente a ver vídeo em streaming ou por outros processos online do que através de emissões tradicionais de televisão.


Mas enquanto estamos nas condições actuais a televisão tradicional ainda ocupa um lugar relevante e em Portugal as posições relativas dos canais generalistas parecem estar perfeitamente estabilizadas, com a TVI a liderar e a reforçar a sua posição nos segmentos horários onde ainda não ganhava, com a SIC confortável no segundo lugar a fazer escolhas de conteúdos adequadas ao seu público alvo e que também garantem audiências comercialmente relevantes, e com a RTP numa encruzilhada. Se tomarmos como referência a importante área da região da Grande Lisboa a RTP1 anda nos 13% de share e a RTP2 nos 1,2%, com nove canais de cabo à sua frente. A RTP Informação nem aparece na lista dos 15 canais mais vistos na região. Resta esperar que a nova estrutura da RTP consiga mostrar que sabe conciliar o que entende ser serviço público com captação de públicos.Vai ser um ano curioso.


(Publicado a 17 de Abril na revista Correio da Manhã - SEXTA tv & lazer)