abril 17, 2015

O VERÃO QUENTE E O REGIME TRAVESTIDO

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TRAVESTI - Este ano assinalam-se 40 anos sobre o agitado Verão quente de 1975 e tudo indica que a temperatura política vai subir nos próximos meses em torno das concorridas pré presidenciais, da incógnita de coligação dos actuais partidos do Governo, do mistério das medidas a propôr pelo PS e dos resultados dos novos partidos e formações que se apresentarão a eleições. Não deixa de ser curioso que 40 anos volvidos sobre esse verão quente surjam tão abundantes sinais de uma situação política tumultuosa, pautada por disputas palacianas, total falta de ideias, desrespeito pelas promessas feitas aos eleitores, desinteresse dos cidadãos e sinais cada vez mais claros de um regime que está em evidente crise. Falta capacidade ao sistema para encontrar soluções governativas que garantam as mudanças necessárias, falta respeito dos partidos, dos políticos e do Estado pelas pessoas, sobra arrogância e prepotência. 40 anos depois do Verão quente a bagunça é diferente mas não é menos grave. Está é com mais maquilhagem, esborratada, como se o correr do tempo tivesse tornado o regime num travesti da política.


 


AGENDA - Neste sábado a revista “Monocle” realiza no Ritz, a sua “Quality Of Life Conference”, o primeiro evento deste género que organiza, e que vai animar o fim de semana lisboeta. Três dezenas de colaboradores da Monocle, incluindo o seu fundador e director Tyler Brulé, enquadrarão convidados de vários países que debaterão a situação dos media, da cultura, das cidades, do comércio e do urbanismo. Vai haver uma Monocle pop up shop na Entre Tanto, Rua da Escola Politécnica 42, até ao dia 26, e a conferência será transmitida em directo pela rádio em streaming da revista, a Monocle 24, disponível em app para iPhone ou iPad.


 


SEMANADA - Portugal está no 9º lugar entre os países com  maior consumo per capita de bebidas alcoólicas; está no 11º lugar na lista dos países com maiores impostos sobre os rendimentos do trabalho; seis em cada dez postos de trabalho criados em Portugal são estágios; os pilotos da TAP vão fazer uma greve de 10 dias no início de Maio quem tem um impacto estimado de 70 milhões de euros na já deficitária empresa; há três semanas o PSD e o CDS chumbaram uma proposta de reforço de meios técnicos e humanos das comissões de protecção a menores apresentada pelo PS e PCP e, depois da morte de duas crianças por maus tratos, a maioria parlamentar apresentou proposta idêntica à que reprovou; o actor português Diogo Morgado, que interpretou o papel de Jesus numa série norte-americana, desempenha agora o papel de Diabo na série “The Messengers”; o Ministro do Ambiente anunciou que a maioria da população terá um aumento nas tarifas da água; Ricardo Sá Fernandes acusou o PS de ser um partido minado pela cultura do favor e da promiscuidade e considerou que seria mau para o país o PS ter maioria absoluta; um acordão da Relação de Lisboa indica que Sócrates gastava quatro vezes mais do que ganhava como Primeiro-Ministro - no fundo foi a política que aplicou coerentemente a Portugal, gastar acima das nossas possibilidades; Manuel Maria Carrilho defendeu que António Costa devia propôr a expulsão de Sócrates do PS; a CMVM defendeu o pagamento integral do papel comercial vendido aos balcões do BES e criticou as posições defendidas pelo Banco de Portugal sobre esta matéria.


 


ARCO DA VELHA - O ministro Moreira da Silva obrigou as gasolineiras a vender combustíveis não aditivados, diminuíu a oferta anteriormente existente no mercado, não obteve uma redução dos preços de forma sensível, piorou a qualidade do combustível e proporcionou o aumento das margens das gasolineiras, tudo com a intenção anunciada de defender o consumidor que afinal sai prejudicado.


 


FOLHEAR - A edição de Abril da revista norte-americana “Fast Company” é um mimo para os fiéis da Apple. Na capa uma foto de Steve Jobs remete para a pré-publicação de uma nova biografia do criador da Apple, escrita por um dos editores da revista e que mostra uma nova faceta de Jobs. O título de capa da “Fast Company”  diz tudo: “Kind, patient, human, the Steve you didn’t know”. O livro, da autoria de Brent Schendler e Rick Tetzell, chama-se “Becoming Steve Jobs: The Evolution Of A Reckless Upstart into a Revolutionary Leader” e já está disponível como ebook. Num outro artigo Rick Tetzell escreve sobre a verdadeira herança de Steve Jobs na Apple. E, por fim, Brent Schendler e Rick Tetzell entrevistam Tim Cook sobre o momento actual e o futuro próximo da Apple. Uma edição absolutamente incontornável. Já agora experimentem a nova app da “Fast Company” para iPhone e iPad onde, mesmo sem fazerem uma assinatura, podem ler diariamente novos artigos da revista. E, claro, se quiserem esta edição da “Fast Company” basta comprá-la no Quiosque da App Store ou numa boa loja de revistas importadas.


 


VER - A nova exposição de André Gomes, inaugurada esta semana na Casa-Museu Medeiros e Almeida, representa uma evolução significativa na relação do autor com a imagem fotográfica. Durante muitos anos André Gomes explorou as potencialidades de manuseamento de Polaroids, aos poucos foi introduzindo modificações de imagem que o digital tornou possíveis , mas nesta mostra, “Vozes Interiores”, usa as potencialidades da tecnologia na criação de uma nova forma de colagens, que potencia a alteração de ambientes, de realidades e de situações. O conjunto das obras expostas (como a da imagem) retrata a casa do autor, o seu universo pessoal, que aliás tem sido recorrente na sua obra. Obsessivo por vezes, simbólico noutras ocasiões, André Gomes tem nestas “Vozes Interiores” a sua mais interessante exposição dos últimos anos, a mais inovadora, aquela que mostra mais sinais de uma adaptação da sua criatividades às novas possibilidades tecnológicas, transportando de facto a sua fotografia para outro plano. Destaque ainda para o magnífico catálogo, possível graças ao patrocínio da BlueCrow Capital. A Casa-Museu Medeiros e Almeida fica na Rua Rosa Araújo 41 e ficará patente até 27 de Junho. Se quiserem uma sugestão adicional até dia 19 ainda poderão ver a Mostra, em Alvalade (Rua do Centro Cultural nº2) e recomendo que descubram as obras propostas por Paulo Brighenti, por Teresa Segurado Pavão, por José Maçãs de Carvalho, Maria do Mar Rego, Martinho Costa e Luis Alegre, entre outros.


 


OUVIR - José James, um americano com origens familiares no Panamá, é um dos cantores de jazz contemporâneos que mais surpreendentemente mistura estilos - desde os temas vocais mais clássicos do jazz até momentos com clara inspiração no hip hop. James é um fã confesso de Billie Holiday, cujo centenário se celebra agora, e foi o produtor da compilação de Lady Day de que aqui falei na semana passada, “God Bless The Child - The Best Of Billie Holiday”. José James diz que Billie foi a sua mãe musical e neste seu CD, “Yesterday I Had The Blues”, ele interpreta nove temas tornados célebres por Billie. Fez-se acompanhar de um elenco de luxo, com Jason Moran no piano e uma secção rítmica à beira da perfeição, com John Patitucci no baixo e Eric Harland na bateria. Destaque para as interpretações de “Good Morning Headache”, “Lover Man” e “Strange Fruit” - mas a minha favorita é “What A Little Moonlight Can Do”. A produção é do competente Don Was e sente-se que este é um disco feito com paixão - desde os solos de Jason Moran, à voz de James. CD Verve, no El Corte Ingles.


 


PROVAR - Instalado na Marginal desde há décadas, mais precisamente desde 1958, à saída de Oeiras em direcção a Lisboa, o Saisa é um clássico que disfruta de uma localização única, com uma ampla varanda em cima do mar com vista para o Bugio, a barra e a praia de Santo Amaro de Oeiras. A esplanada dessa varanda é um dos melhores pontos para um almoço tardio ou para um petisco de fim de tarde. A casa é célebre pela sua paella (para duas pessoas), pela pescada à vasca e pelos filetes à Saisa, filetes de linguado de boa fritura acompanhados por batata cortada aos pequenos cubos e salteada com pedacinho de chouriço. A casa mantém a mesma gerência desde há anos, os empregados são simpáticos e o serviço é escorreito, os preços são aceitáveis. Se não arranjar lugar na esplanada perde metade do encanto mas a sala tem vidros largos e é grande. Aqui está um clássico que, no meio da modernice que anda para aí a fazer descongeladoa no micro ondas, merece respeito e visitas mais frequentes. Telefone 214 430 634.


 


DIXIT - “O pensamento de Fernando Medina é um misto de fatalismo e de branqueamento de responsabilidades” - Pedro Braz Teixeira, investigador da Nova School Of Business and Economics


 


GOSTO - Da ideia de criar um Provedor do Contribuinte


 


NÃO GOSTO - Das obras paradas na envolvente do Mercado da Ribeira


 


BACK TO BASICS - O maior mistério em qualquer Governo não é perceber como funciona, mas sim como se podem parar os seus abusos - P.J. o’Rourke

COMO VAI SER O FUTURO DA TV

Um estudo da Nielsen, efectuado nos Estados Unidos, mostra que cada vez mais pessoas abandonam o visionamento de canais de televisão tradicionais e vêem vídeo de outras formas, maioritariamente on line e em dispositivos móveis. A evolução tecnológica está a alterar a forma de ver televisão, e abrange de forma particularmente relevante os espectadores entre os 15 e os 34 anos. No final desta década é provável que já exista mais gente a ver vídeo em streaming ou por outros processos online do que através de emissões tradicionais de televisão.


Mas enquanto estamos nas condições actuais a televisão tradicional ainda ocupa um lugar relevante e em Portugal as posições relativas dos canais generalistas parecem estar perfeitamente estabilizadas, com a TVI a liderar e a reforçar a sua posição nos segmentos horários onde ainda não ganhava, com a SIC confortável no segundo lugar a fazer escolhas de conteúdos adequadas ao seu público alvo e que também garantem audiências comercialmente relevantes, e com a RTP numa encruzilhada. Se tomarmos como referência a importante área da região da Grande Lisboa a RTP1 anda nos 13% de share e a RTP2 nos 1,2%, com nove canais de cabo à sua frente. A RTP Informação nem aparece na lista dos 15 canais mais vistos na região. Resta esperar que a nova estrutura da RTP consiga mostrar que sabe conciliar o que entende ser serviço público com captação de públicos.Vai ser um ano curioso.


(Publicado a 17 de Abril na revista Correio da Manhã - SEXTA tv & lazer)

abril 10, 2015

QUALQUER DIA HÀ UMA CADERNETA DE CROMOS COM OS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

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PARADOXOS - Confesso que nestes dias que correm aquilo que mais me choca é estar o país político a discutir quais serão os candidatos à Presidência e ninguém estar a discutir quais os problemas do país e quais as propostas para a sua resolução, apresentadas pelos partidos que concorrem às legislativas daqui a seis meses. Todas as semanas tem aparecido um novo proto-candidato presidencial e o país ocupa-se a discutir se  há mais divisões à esquerda ou à direita, se há mais tabus do lado de personalidades do lado PS ou do lado do PSD. A intriga fomentada em torno dos putativos candidatos presidenciais serve para esconder a ausência de ideias sobre as melhores políticas para o país. As condições estão assim criadas para uma tempestade perfeita na política. As eleições legislativas, que irão resultar num novo Governo, decorrerão entre meados de Setembro e meados de Outubro. Menos de quatro meses depois, em Janeiro, decorrerão eleições para a Presidência da República, cuja data deverá ser estabelecida com um mínimo de 60 dias de antecedência - o que quer dizer que, para os efeitos práticos, a campanha eleitoral para a Presidência começará poucos dias depois da eleição da Assembleia da República e terá o seu pico a partir de Dezembro. O que mais me espanta neste calendário eleitoral, que o actual Presidente, Cavaco Silva, poderia ter alterado se quisesse, é o facto de, mesmo na situação de crise em que estamos, se achar normal ter seis meses seguidos de campanha eleitoral, com inevitáveis paralisias políticas a nível do Governo, da Assembleia e do esfíngico Palácio de Belém. Daqui a dois meses vamos começar a ser bombardeados com propaganda partidária, com muito barulho e, até ver, muito poucas propostas concretas. Quer-me parecer que a abstenção vai ser uma coisa jeitosa - teoricamente grande parte dos nascidos em 1997, praticamente no virar do século passado, poderão votar. E será que se revêem em alguém no meio desta absurda confusão de eleições, da proliferação de candidatos e de ausência de ideias? E já nem falo do pequeno pormenor de termos uma lei eleitoral analógica quando o país já é digital. Paradoxos que servem a quem não quer mudar nada.


 


SEMANADA - Segundo a agência europeia da segurança aérea a Alemanha não respeita há vários anos as normas de controlo de segurança, em particular no seguimento médico dos pilotos; em Portugal o relatório anual de segurança interna indica um aumento de 8,1% de crimes nas escolas, um aumento de 37,2% de roubos a multibancos, de 26,1% de furtos em transportes públicos e de 8,7% em violações; desde 2008 o sector da hotelaria e restauração perdeu 44 mil postos de trabalho; mais de 60% dos hotéis e restaurantes estão em grave risco de falência, segundo um estudo da Comissão Europeia; as receitas turísticas atingiram em 2014 um novo máximo histórico de 10.394 milhões de euros; há mais de 12 mil pessoas com acesso à informação fiscal dos cidadãos, sem qualquer regra definida na lei; em 2014 foram feitas 13 553 escutas telefónicas; a Starbucks está a ser investigada pelas autoridades e governos europeus por suspeitas de fuga ao fisco; a taxa sobre sacos de plásticos já rendeu ao estado 1,6 milhões de euros apenas pelos stocks antigos declarados; o novo Código do Procedimento Administrativo prevê que atrasos da administração pública podem obrigá-la a pagar indemnizações; a venda de automóveis novos cresceu 33,1% no primeiro trimestre do ano; Portugal já tem 107 hospitais privados e existem 119 públicos; a suspensão do leilão dos quadros de Miró que pertenciam ao BPN já custou 1,9 milhões de euros aos contribuintes.


 


ARCO DA VELHA - Escutas divulgadas esta semana relativas ao caso dos vistos gold indicam que na investigação foram feitas escutas ao juiz presidente da Relação de Lisboa, que se teria disponibilizado a apoiar “em tudo o que seja necessário” o presidente do Instituto dos Registos e Notariado sobre quem existem suspeitas de corrupção.


 


FOLHEAR - Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores a editora Guerra e Paz tem vindo a publicar a colecção “o fio da memória”, basicamente conversas de José Jorge Letria com criadores de diversas áreas. Recentemente foram publicadas conversas destas com António Victorino d’Almeida, João Abel Manta e José-Augusto França. O que me agrada nesta colecção é a forma como José Jorge Letria consegue ir dentro das memórias dos seus entrevistados, fazendo-os contar histórias, recordar episódios que os marcaram, mas também dar opiniões e definir escolhas. Ao lado das conversas surgem sempre fotografias de arquivo, dos álbuns pessoais dos entrevistados, , muitas a mostrá- los no seu ambiente pessoal. ao lado de amigos ou em situações que por alguma razão os marcaram. Destas edições mais recentes destaco a de João Abel Manta, pelo tom afirmativo e pela convicção das opiniões, e a de José-Augusto França pelas pequenas hitórias que conta e que me permitem descobri-lo. O título do volume que lhe é consagrado é aliás um episódio: “Com o O’Neill falava de janela para janela”.


 


VER - Por estes dias Lisboa vai andar numa animação - a Lisbon Week, organizada por Xana Nunes, centrou a atenção em Alvalade. Desde dia 10 a dia 19 esta semana lisboeta percorre o património,  a arquitectura e mostra a fotografia, a arte e o desenho que nascem em Alvalade - esse bairro nascido nos anos 50, que marcou de forma decisiva a mudança de vivência da cidade e que albergou desde o novo cinema português até aos primórdios do pop e do rock, depois o punk, mas também as novas modas. Da Avenida de Roma ao Campo Grande, aquela parte da cidade vivia em ebulição desde o final dos anos 60, marcando os anos 70 e os anos 80. A zona viu nascer e crescer uma geração, albergou escolas emblemáticas, salas de concertos que ficaram para a história, discotecas, livrarias, mas também uma zona industrial em plena cidade nova. Há edifícios marcantes como a Biblioteca Nacional, zonas de ruptura como a Cidade Universitária, edifícios como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil ou o Instituto Superior Técnico. Porfírio Pardal Monteiro, a quem é dedicada uma exposição marcante desta Lisbon Week, deixou obra em toda a Alvalade e áreas limítrofes. Neste bem imaginado roteiro da Lisbon Week há dez pontos fundamentais a visitar, desde a Biblioteca Nacional (na imagem) aos ateliers dos Coruchéus, passando pela exposição documental, fotográfica, no Centro Comercial de Alvalade ou uma incursão na obra de Maria Keil numa estação de Metro. Existem exposições especiais, como a Mostra de Arte, dedicada à arte contemporânea, na Rua do Centro Cultural, em plena antiga zona industrial - ver www.mostradearte.com. Até uma regata de barcos a remos no lago do Campo Grande  vai acontecer por estes dias. Vejam todas as informações em lisbonweek.com. Para mim este é o melhor programa de todas a as edições que já vi da Lisbon Week. Mas a verdade é que nasci e cresci em Alvalade e quando lá passo sinto sempre saudades.


 


OUVIR - Billie Holiday teria feito 100 anos a 7 de Abril - mas morreu cedo, aos 44 anos, depois de uma carreira que havia também começado bem cedo - tinha ela pouco mais que 15 anos. Não estudou música mas ouvia o seu pai a tocar guitarra e reza a lenda que Bessie Smith foi a sua grande inspiração. Aquilo que a tornava diferente era  a sua forma de interpretar - às vezes quase uma conversa, outras vezes um lamento, por vezes uma provocação, muitas vezes a voz do desejo - como é tão evidente nas suas versões de standards como “My Man”, “Stormy Weather”, “These Foolish Things” ou “Prelude to A Kiss” - só para citar alguns. A sua grande década de gravações localizou-se nos anos 50, sobretudo na primeira metade. Assinalando o seu centenário, a editora discográfica Verve incumbiu um admirador confesso de Holiday, o cantor José James, de fazer uma compilação das grandes interpretações de Lady Day. O próprio James gravou agora um álbum seu de homenagem, “Yesterday I Had The Blues”, de que aqui falarei para a semana. O que interessa agora é esta excelente compilação, “God Bless The Child - The Best Of Billie Holiday”. Procurem-na e guardem-na bem. É um belíssimo disco - 14 temas históricos que rendem homenagem a Billie da melhor forma que há - ouvindo-a.





PROVAR - A moda é uma coisa que convive mal com a restauração. Sobretudo a moda alimentar. Num destes dias caí na esparrela de acreditar que poderia haver alguma coisa de relevante no restaurante Barrosã, em Alvalade, que se anuncia como especialista em hamburgueres feitos de carne proveniente da região que lhe dá o nome. Lá fui ao engano, saí desiludido e irritado. Em jeito de entrada pedi uma empada que se revelou abaixo da média no recheio, seco e sem graça. O hamburguer, pedido mal passado, veio compactado como um saco de cimento ao sol, cozido e sem sabor. A única coisa assinalável foi a boa fritura das finas rodelas de batata doce. O ovo a cavalo vivia da mesma falta de sabor e  mostrou que precisava de muitas aulas de equitação. A cerveja que acompanhou era espanhola, Estrella Damm, não particularmente interessante - qualquer das portuguesas a vence com facilidade. Uma coisa que me irrita é nestas casas haver pouca possibilidade de escolha de marcas de cerveja e muitas vezes só existir imperial e não cerveja de garrafa. Odeio beber o que não quero e não ter escolha possível. Acho que vou passar a escolher restaurantes que não tenham Estrella Damm. Em resumo - 13 euros por um hambuguer sem graça é caro em qualquer sítio. Com duas imperiais, a empada desconchavada e o café a conta chegou quase a 20 euros. Demasiado para a falta de qualidade. A esta Barrosã não voltarei. Rua Augusto Palmeirim 10, perto do mercado de Alvalade.


 


DIXIT - "Estamos fartos das baladas dos Scorpions que a senhora Merkel tenta impingir-nos" - Vitor Paulo Pereira, Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura


 


GOSTO - A Sogrape ocupa o quarto lugar na lista das 100 melhores empresas vitivinícolas do mundo da Associação Mundial de Críticos e Jornalistas de Vinhos.


 


NÃO GOSTO - Lisboa tem agora um Presidente da Câmara que não foi eleito para a função.


 


BACK TO BASICS - “Quando era miúdo diziam-me que qualquer pessoa podia aspirar ser Presidente; começo agora a acreditar nisso” - Clarence Darrow.


 


 

CONCURSO DIÁRIO DA TVI ROUBA ESPECTADORES À RTP

Aquilo que era inevitável finalmente aconteceu – a TVI resolveu desafiar a liderança da RTP no acesso a horário nobre com o concurso “O Preço Certo”, do até aqui invencível Fernando Mendes,  e contrapôs-lhe “Money Drop”, outro concurso do mesmo género, apresentado também ao fim da tarde, à mesma hora, por Teresa Guilherme. “O Preço Certo” que em Janeiro e Fevereiro fazia números frequentemente acima de um milhão de espectadores, caíu na semana passada para 619 mil espectadores e o concurso da TVI venceu-o com 710 mil espectadores. Este horário de fim de tarde é particularmente importante porque coincide com o momento em que mais gente chega a casa, liga a televisão e a audiência global aumenta – portanto aqui estamos a falar de números com peso nas médias de audiência, na publicidade e e, também, na forma como depois os canais entram nos jornais das 20h00. O resultado é que o Telejornal há semanas atrás garantia um milhão e cem mil espectadores, na semana passada ficou-se pelos 860 mil. Este efeito de arrasto devastou já as médias diárias e semanais do operador público – de 16,3% de share no  final de Janeiro caíu agora para os 13,5%. Neste momento, para além da informação, o único conteúdo de exibição diária que segura audiências na RTP é também a única produção de ficção da RTP1, “Bem-Vindos A Beirais”, um raro exemplo de um conteúdo original português no principal canal do operador público. Nos outros canais generalistas “Mar Salgado”, da SIC tem conseguido resistir à novela “A Única Mulher” da TVI  e nas noites de sábado o “Masterchef” da TVI aumentou a sua vantagem sobre “Shark Tank”, na SIC.


(Publicado na Sexta TV & Lazer do Correio da Manhã de 10 de Abril)

abril 02, 2015

SOBRE A TELEVISÃO ELEITORAL

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DEBATES - Cada vez que há eleições o tema dos debates na TV volta à baila e pelos pior dos motivos - a obrigatoriedade legal de emitir discussões enfadonhas e infindáveis entre todos os concorrentes,  num formato estabelecido e regulamentado há 40 anos, num período político muito particular, logo nas primeiras eleições de 75, e num universo mediático completamente diferente - apenas um operador de televisão, poucas estações de rádio, grande parte da imprensa estatizada. O predomínio do Estado na comunicação e nas audiências era total (o contrário do que hoje se passa), já para não falar da inexistência do novo mundo virtualmente infindável do digital. Desse tempo ficou apenas o espectro de uma espécie de rejeição pelo debate político e de ideias quotidiano, reduzido quase só aos períodos eleitorais. Aqui ao lado, em Espanha, o bem produzido programa de debate “La Noche”, emitido aos sábados no canal La Sexta, tem conseguido audiências acima da média e foi uma rampa de lançamento para novos políticos e novas organizações, entre as quais o Podemos - ou seja, pôs em causa a velha política e os seus envelhecidos actores. Os debates, que devem ser momentos animados em vez dos monólogos dos comentadores, que são maioritariamente ex-dirigentes partidários dos velhos partidos políticos, podem ser, se forem bem moderados e produzidos,  pólos de atracção de audiência como o La Noche tem mostrado - além de desempenharem um fundamental papel no estimular da participação cívica e no acompanhamento dos principais temas em discussão. A chave da questão, em épocas eleitorais ou não, é conseguir separar o interesse informativo do interesse partidário, ou seja, da mera propaganda.  Em ano de início de ciclo eleitoral era bom reflectir nisto tudo e no muito que nos falta para passarmos do comentário partidário fechado à discussão aberta de ideias - aqui está um dos desafios da comunicação para os próximos anos, e não apenas nas épocas eleitorais.


 


SEMANADA - António Costa contradisse o que havia prometido na sua campanha eleitoral e renunciou ao mandato de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa; dias antes, num comício no Porto, o mesmo António Costa pediu a maioria absoluta nas próximas eleições, já depois de se saber que o PS havia sofrido uma derrota assinalável na Madeira, passando para o terceiro lugar, atrás do CDS; ao fim de quase 40 anos Alberto João Jardim deixou de ser Presidente do Governo Regional da Madeira, mas mesmo sem ele o PSD venceu as eleições; a abstenção nas eleições regionais da Madeira ficou acima dos 50%; Juntos Pelo Povo, JPP, é o nome do novo partido que nas eleições da Madeira conseguiu igualar o número de deputados do Partido Socialista; a Fitch manteve o rating de Portugal no lixo; a taxa de desemprego subiu em Fevereiro para 14,1, uma subida de 0.3 em relação a Janeiro - há cerca de 720 mil desempregados; o número de furtos praticados por carteiristas aumentou 36,3% no ano passado; no mesmo período a criminalidade juvenil, praticada por jovens entre 12 e 16 anos, subiu 23,4%; a aplicação  whatsapp, que tem 700 milhões de utilizadores em todo o mundo, ultrapassou o sms em número de mensagens enviadas; Rui Tavares, do Livre, é o político português mais activo no Twitter, segundo um estudo da Universidade Católica, colocando a questão da relação da popularidade no Twitter com o peso eleitoral; Mark Zuckerberg, do Facebook, lidera a lista dos milionários mais mediáticos do mundo; um terço dos quadros médios e superiores portugueses lê notícias nos tablets; a Abelha Maia fez esta semana 40 anos.


 


ARCO DA VELHA - No centro de Lisboa, numa urbanização nova, há duas ruas sem nome desde 2012,  prédios sem morada, estacionamento caótico, o carteiro não sabe onde entregar a correspondência, ambulâncias, bombeiros e taxis não sabem onde ir - e tudo porque a Câmara Municipal ainda não agendou quando terá tempo para dar nome à morada de quem já paga imposto.





FOLHEAR - A edição de Abril da revista "Monocle" tem como temas principais a moda e o seu comércio, mas como é habitual aborda uma série de assuntos muito abrangente - desde um espreitadela ao guarda roupa e ao estilo de Varoufakis a uma deliciosa conversa com Peter Mead, uma das figuras históricas da publicidade britânica. Uma coisa muito curiosa nesta construção da "Monocle" ao longo dos seus oito anos de vida é a forma como ela evoluíu na internet. De revista em papel, com características inovadoras à época, tornou-se numa plataforma de conteúdos que tem uma estação de rádio, com programação cuidada, cheia de debates e ideias bem conjugadas com informação, com dez magazines semanais e quatro diários, uma rádio que funciona 24 horas por dia  em streaming. O site da revista oferece conteúdo exclusivo de fotografia e vídeo feitos por uma equipa própria, com uma estética cuidada e que complementam a edição impressa de uma forma rara: “we value the craft of film making”, como a revista sublinha. O curioso, e interessante, é que a "Monocle" nunca disponibilizou os seus conteúdos da edição original em papel a não ser aos seus assinantes que a recebem pelo correio, evitando aplicações abertas. No editorial desta edição, Tyler Brulé, o fundador, anuncia novos projectos, como guias de cidades e em meados deste mês, a "Monocle" lança em Lisboa um novo formato - o das conferências, com a inaugural "Quality of Life Conference", que de 17 a 19 de Abril vai trazer a Portugal um conjunto alargado de especialistas que irão debater o futuro da vida nas cidades e nas instituições que as servem. Na realidade a “Monocle” constrói um ecosistema comunicacional próprio, para um publico fiel, que vai alargando com novas iniciativas.





VER - Ana Vidigal gosta de percorrer as suas memórias com recurso a imagens datadas. Podem ser pedaços de coisas banais - como já aconteceu com banda desenhada, ou então, como agora, com capas e páginas de edições antigas das Selecções do Reader’s Digest.  A ideia é manusear estas imagens-memória, ocultando texto e realçando apenas algumas palavras, como se cada obra tivesse implícita uma mensagem, às vezes quase um slogan, outras vezes um verso solto de uma frase incompleta que fica no ar. O resultado é semelhante ao de decifrar um labirinto.  O nome da exposição é “Amuse Bouche” e fica até 24 de Abril na Galeria Diferença, Rua de São Filipe Nery 42, ao Rato. Outras sugestões para esta semana: na Galeria João Esteves de Oliveira ( Rua Ivens 38), até 30 de Abril, estão desenhos de projecto de Ricardo Bak Gordon, o terceiro arquitecto a expor nesta galeria os seus desenhos, depois de Álvaro Siza e de Eduardo Souto Moura. Estão expostos 24 esquissos de projectos que vão desde casas individuais a prédios de apartamentos, passando por peças de mobiliário; e na Vera Cortês Art Agency, uma exposição de imagens, sons e ambientes,  Restless - a partir da ideia do registo fotográfico André Romão expõe observações, faz encenações e sugere maneiras de ver e sentir - Av. 24 de Julho 54- 1º-esq até 2 de Maio.


 


OUVIR - Três mulheres norueguesas, Anna Maria Friman na voz e violino, Linn Andrea Fugiseth na voz e orgão portátil e Berit Ophein na voz e carrilhões integram o Tio Mediaeval - uma formação que busca inspiração na tradição musical antiga, com incursões por sonoridades contemporâneas. No seu disco mais recente, “Aquilonis”, interpretam temas populares tradicionais, maioritariamente de inspiração religiosa, como o “Ofício de São Thorlak”, do século XIV, e composições contemporâneas de Andrew Smith e de outros compositores, como Anders Jormin, William Brooks e de elementos do próprio trio. Há referências a melodias da música sacra italiana do século XII, a baladas inglesas do século XV, os arranjos dos temas tradicionais são das três intervenientes e a edição é da ECM. O disco é de uma serenidade avassaladora, foi considerado uma das edições a reter de 2014 pelo New York Times. John Potter, dos Hilliard Ensemble é um dos mentores do Trio Mediaeval e descreve o grupo como “uma sintese de sons e atmosferas que misturam histórias e geografias diversas”.


 


PROVAR -  A receita original é austríaca, tornou-se popular em Nova Iorque e em Lisboa tem revoadas - falo dos bagels, esse pão redondo, alto, com um furo no meio, uma espécie de donut sem ser doce. A mais recente destas revoadas aterrou pela mão de franceses em Campo de Ourique, no nº 120 da Rua Silva Carvalho, em frente ao antigo British Hospital. Vendem-se à unidade, simples, com sementes de sésamo ou papoila, para levar para casa para o pequeno almoço, a um euro cada um. Ou podem provar-se no local na versão de almoço ou de lanche. Ao almoço há bagels de atum, frango, salmão fumado, queijo cheddar ou totalmente vegetariano, servidos sempre com rúcula ou outros vegetais, muitas vezes com queijo philadelphia - e ainda há saladas mistas ou coleslaw (cebola, couve, cenoura, tudo cortado em juliana e envolvido num molho especial). Para sobremesa há muffins, cookies caseiros (bem bons) e brownies. Ao lanche o bagel pode vir com nutella, compota ou manteiga. Um bagel bem recheado fica pelos cinco euros e meio. O dono, Raphael, é de origem austríaca e tem exposto numa vitrina o livro de receitas da avó, com a receita da massa dos bagels. É do seu nome, Raphael, que vem a designação do local - Raffi’s Bagels. Tem duas mesas no interior e quatro na pequena esplanada.


 


DIXIT - Se estiver num barco a meter água no meio de uma tempestade é melhor estar ao leme” - António Horta Osório, sobre os seus primeiros tempos à frente do Lloyds Bank.


 


GOSTO - Belo programa o da Lisbon Week deste ano. Preparem-se, abre dia 10 de Abril, fica por Alvalade, vai até dia 19, e o programa está em lisbonweek.com/pt  com destaque para duas exposições dedicadas a Pardal Monteiro e a Maria Keil.


NÃO GOSTO - Da conjugação de greves simultâneas de transportes em Lisboa, como a que vai acontecer dia 10, paralisando o Metro e a Carris e deixando os utentes sem  alternativas.


 


BACK TO BASICS - “Só os simples acham que se conhecem a si próprios” - Oscar Wilde

março 27, 2015

SOBRE A PROLIFERAÇÃO DE ABUSOS DO ESTADO E A INDIFERENÇA DOS PODERES

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ABUSOS - Há uma série de países em que partidos como o português CDS-PP fazem gala em defender os direitos dos cidadãos e proteger os contribuintes dos abusos e dislates do Estado. Por cá já se percebeu, pela actuação de Paulo Núncio e da Autoridade Tributária que tutela,  que o PP desistiu desse posicionamento e passou a achar normal o princípio de que o Estado se sobrepõe aos cidadãos. Mas a culpa principal da situação a que se chegou não é dos partidos - é da falta de fiscalização de quem deve arbitrar a relação entre os vários poderes e, sobretudo, regular a relação entre quem governa e quem é governado. Se tivéssemos um Presidente da República em vez de um prefaciador talvez pudéssemos ter alguém que chamasse a atenção para a importância de o Estado ser uma pessoa de bem e não espezinhar os direitos básicos dos cidadãos. O papel regulador que o Presidente da República podia ter na defesa do equilíbrio entre o poder e os direitos não é exercido e esse é um dos maiores problemas na origem da maneira como o regime se degrada. O Presidente da República não chama a atenção para os erros do Governo, para abusos que tolera e até impulsiona, e em vez disso fica calado a prefaciar sobre as melhores características de um candidato à sua própria sucessão. Um Presidente da República interveniente não deixaria de fazer notar que um país não pode avançar quando a principal actividade económica é deixar uns abrir buracos, que outros depois tapam - uma actividade de décadas que tem originado corrupção e clientelismo. Nestes anos o Poder tem sido fértil a incentivar abusos. Talvez a resolução desta triste situação pudesse ser um dos temas das campanhas eleitorais que aí vêm.


 


SEMANADA - A Ministra das Finanças admitiu que tinham existido falhas na supervisão na queda do BES; apenas sete dos 17 candidatos iniciais entregaram propostas para compra do Novo Banco; Henrique Neto anunciou ser candidato à Presidência da República e vários notáveis do PS mostraram-se surpreendidos e criticaram a sua decisão; o candidato diz que Marcelo é quem mais receia à direita e que Rui Rio é aquele com quem mais se identifica;  interrogado sobre as eleições presidenciais Guilherme de Oliveira Martins afirmou não estar “numa fila de candidatos ou de candidatos a candidatos”; Augusto Santos Silva afirmou que “falta ao centro-esquerda um candidato forte e mobilizador”; a factura dos juros da dívida portuguesa cresceu 51% nos dois primeiros meses do ano; a Ministra das Finanças congratulou-se por ter os cofres cheios, embora parcialmente à custa de nova dívida; a Associação Académica de Coimbra recusou o convite para participar num almoço de Passos Coelho com dirigentes estudantis; o PCP propôs a instalação da Feira Popular no Parque das Nações; o advogado de José Sócrates, João Araújo, disse numa entrevista que “jornalistas e comentadores falam sobre o caso Sócrates como se fossem bêbados”; a estreia de Shark Tank na SIC ficou em 12º lugar da lista dos programas mais vistos na televisão durante a semana passada; as exportações para Angola sofreram em Janeiro a maior queda dos últimos cinco anos; quase três mil enfermeiros pediram à Ordem para emigrar no ano passado; António Ventinhas, Presidente do Sindicato dos Ministério Público, disse que o ex-procurador Geral da República, Pinto Monteiro, instaurava “processos disciplinares ou abria processos de averiguações a todos os procuradores que ousassem investigar os mais poderosos”.


 


ARCO DA VELHA - Para assinalar o segundo ano do mandato à frente do Sporting Bruno Carvalho quis resguardar-se de olhares indiscretos colocando, pela primeira vez na história do clube, película fosca nos vidros do Camarote de Honra do Estádio José de Alvalade, para que não se veja o que lá se passa. A bem da transparência, imagina-se.


 


FOLHEAR - Os presentes inesperados são os melhores e, na semana passada, tive o prazer de receber um exemplar do “Dictionnaire Amoureux du Journalisme”, escrito por Serge July - o homem que fundou o “Libération” e o dirigiu ao longo de  33 anos - uma referência para uma geração de profissionais da comunicação. Neste livro July mostra a sua visão da historia dos media, da época de ouro dos jornais aos novos media digitais, das reportagens aos ensaios que ajudam a mudar a forma de pensar dos leitores. Ao longo de cerca de 900 páginas, July percorre nomes e obras essenciais da história do Jornalismo, do clássico Heródoto a Joseph Pulitzer, de Daniel Defoe a Gabriel Garcia Marquez, de Tintim a Curzio Malaparte, de John Reed a Tom Wolfe, de Voltaire a Émile Zola, de Robert Capa a Hemigway , dos paparazzis ao new journalism. Construído em torno de pequenas histórias que evocam factos e personagens, quase uma sucessão de artigos que se vai lendo à procura de novas descobertas, este livro é apaixonante. Edição Plon, disponível na amazon.fr .


 


VER - Merece ser seguida com atenção a programação da Festa do Cinema Italiano, que decorre entre o cinema S. Jorge e a Cinemateca Nacional e que tem uma extensão especial no cinema Nimas com a exibição de uma dezena de cópias restauradas e digitais das obras de Roberto Rosselini como “Stromboli” (na imagem)  e “Viagem em Itália”. Até ao final do mês, em Lisboa, há 10 filmes para ver do grande mestre italiano e mais tarde, alguns dos filmes vão ser exibidos no Porto, Braga, Coimbra e Castelo Branco. A partir de 9 de abril, este ciclo dedicado a Rossellini estará no Teatro Municipal do Campo Alegre, no Porto e alguns dos filmes chegarão também a Braga, Coimbra e Castelo Branco.  Na programação “oficial” da Festa, destaque para série Gomorra, cujos sete episódios serão exibidos integralmente em grande ecrã e depois passarão na RTP 2 até dia 2 de Abril. Outros filmes a não perder são “Que Estranho Chamar-se Frederico”, de Ettore Scola, “Almas Negras” de Francesco Munzi, “O Rapaz Invisível” de  Gabriele Salvatores, ou “Corações Inquietos” de Saverio Constanzo


 


OUVIR - Van Morrison nasceu em Belfast há quase 70 anos. O seu primeiro disco a solo é de 1967, há 48 anos portanto, aquela que foi a sua grande revelação, “Astral Weeks”, é do ano seguinte e “Moondance”, outra referência, é de 1970. Antes disso, com os Them, já tinha gravado “Gloria”, uma canção marcante e épica que o acompanha ao longo da sua carreira. As influências musicais de Van Morrison estão claramente nos blues, muito por causa da música que ouvia em casa dos seus pais durante a adolescência. Por isso não deixa de ser curioso que agora, a chegar aos 70 anos, se dedique de novo a explorar as sonoridades dos blues, revisitando temas de toda uma carreira. Há sempre um risco enorme em fazer um disco de temas clássicos, pessoais, sob a forma de dueto entre o autor e um convidado e é  raro a coisa dar certo. Tenho para mim que a razão do equilíbrio destes “Duets - Reworking The Catalogue”, de Van Morrison, é precisamente a sua dedicação aos blues e é por isso que ele resulta tão bem, seja quando canta ao lado de Georgie Fame, seja quando está com Marvis Staple, Gregory Porter, Chris Farlowe, George Benson, ou o grande Taj Mahal, que encerra os 16 temas deste CD com uma vertiginosa versão de “How Can A Poor Boy?”, que é um manual de como se pode ter prazer a interpretar uma canção. A compilação foge ao óbvio e, como se dizia num dos meus discos preferidos, “ a splendid time is guaranteed for all”.


 


PROVAR - A Champanheria fez nome em Setúbal com as ostras do Sado, entre as quais as famosas “les Portugaises”, e em Dezembro estreou-se em Lisboa, nas Avenidas Novas, com a porta a abrir ao fim da tarde para uma happy hour em que a proposta é meia dúzia de ostras a oito euros - mais precisamente entre as 18 e as 20H. Situada na Avenida João Crisóstomo, no quarteirão entre a Avenida da República e a Defensores de Chaves, tem infelizmente a maldita mania dos menus degustação com um mínimo de quatro entradas e uma lista reduzida algo incongruente - mais vale ir à happy hour e ficar por umas ostras e tapas. Vá lá que as ostras são, com razão, a grande razão de ser do local, assim como a lista de espumantes, champagnes e cavas e ainda uma sangria de espumante que é elogiada por quem goste do preparo. Embora perceba que as origens setubalenses levem a que o espumante da casa seja o Ermelinda de Freitas , a verdade é que é uma escolha que não é entusiasmante - e em Portugal já há muitos bons espumantes na mesma gama de preços. Para rematar, a casa fica ao lado de um Bingo e tem um ecrã que passa futebol, duas coisas mais que afastam gente que queira estar sossegada e apreciar a elegância das ostras no recato. É pena, que as ostras são boas. Avenida João Crisóstomo 15.


 


DIXIT


“li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,


quando alguém morria perguntavam apenas:


tinha paixão?


quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão”


Herberto Hélder (A Faca Não Corta O Fogo)


 


GOSTO - A marca de porcelanas Vista Alegre foi distinguida com o prémio de design da revista 'Wallpaper', na categoria de 'Best coffee and cake', com o serviço de mesa 'Orquestra’.


 


NÃO GOSTO - O SIS tem um manual de 222 páginas que prevê escutas ilegais, vigilâncias a pessoas que não são suspeitas em qualquer processo crime e pagamentos a fontes de informação.


 


BACK TO BASICS - “Diz-se que o poder corrompe, mas na realidade o poder limita-se a atrair aqueles que são corruptíveis; os que são sérios são atraídos por outras coisas que não o poder” - David Brin

março 20, 2015

SOBRE O MÉTODO DE ALIMENTAR A INDIFERENÇA FACE À POLÍTICA

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POLÍTICAS - Estamos a meia dúzia de meses de eleições, no final de uma legislatura de quatro anos, e de um Governo que quando chegou se defrontou com um país à beira do colapso financeiro. Tomou as medidas que entendeu, umas melhores que outras. Mas em vez de discutir seriamente o que se vai fazer a seguir, nos próximos quatro anos, as  últimas semanas têm apenas trazido casos e casinhos, uns graves, outros gravinhos, que são o retrato de uma classe política que se apraz a fazer politiquice de hábitos e costumes em vez de estudar, debater e traçar políticas e fazer pela sua implementação. Grande parte do tempo gasto em debates entre representantes dos vários partidos não versa sobre política mas sobre pessoas e atitudes dessas pessoas.  Questões centrais como as formas de melhorar a justiça, a saúde ou a educação são esmagadas por polémicas sindicais, casos de intendência e um rotineiro hábito de fugir às responsabilidades por quem toma decisões de duvidosa legitimidade e efeito. A politiquice tem o efeito de mascarar a incapacidade de executar políticas adequadas que diagnostiquem e resolvam os problemas novos que se colocam por força da evolução social, económica e demográfica. Para agravar as coisas, em pano de fundo pairam evidências de que a possibilidade de um tratamento equitativo do Estado aos cidadãos é hoje em dia uma hipótese remota, tão cheio está o saco de situações concretas que mostram o contrário. O Estado tornou-se numa máquina  que se serve dos cidadãos em vez de os servir e que aproveita as fragilidades para abusar dos poderes que pode utilizar. Quem governa tem especiais responsabilidades em ouvir e não em ignorar; deve conseguir combinar o exercício do poder com o combate ao abuso de poder. Se não fôr assim criam-se desiquilíbrios que estão na origem da descrença nos políticos, no sistema partidário e no funcionamento da sociedade. Estamos a um passo de ser uma minoria a decidir, tal o tamanho da abstenção que se adivinha e do desinteresse criado pela ausência de discussão séria.


 


SEMANADA - O FMI passou a semana a fazer pressão mediática para forçar mais reformas; o Ministro da Economia, Pires de Lima, disse que o FMI falhava as previsões frequentemente; a Segurança Social vendeu 900 mil acções da PT com um prejuízo de 87%; Fernando Ulrich afirmou ter partilhado com Vitor Gaspar as suas preocupações em relação ao Grupo Espírito Santo um ano antes do colapso do BES, desmentindo assim afirmações feitas pelo ex-Ministro das Finanças; Fernando Ulrich acusou a troika de ter estado três anos em Portugal e não ter percebido nada do que se passava no país; Fernando Ulrich criticou a actuação do Banco de Portugal no caso do BES, afirmando que na supervisão há pessoas “muito boas a usarem o microscópio, mas não é com microsocópios que se apanham elefantes”; a defesa de José Sócrates, numa só semana, perdeu um pedido de habeas corpus, perdeu um recurso para a relação e para remate despejou a sua frustração em cima da comunicação social e dos jornalistas; o vereador José Sá Fernandes conseguiu um coro de críticas na Assembleia Municipal por um projecto de concessão a privados de espaços em Monsanto, baseado num concurso com um único concorrente, com um caderno de encargos polémico e com um enquadramento económico duvidoso; Rui Rio está inclinado a entrar na corrida à Presidência da República; O PS está inclinado a fazer Sampaio da Nóvoa entrar na mesma competição;  Portugal fechou 2014 a perder emprego e com a população activa em mínimos do século; os trabalhadores do Metro de Lisboa já fizeram greve 41 vezes desde 2011; 430 mil portugueses emigraram entre 2009 e 2013.


 


ARCO DA VELHA - Governo e Fisco desmentiram aquilo que, no dia 20 de janeiro, o chefe de serviços de auditoria da Autoridade Tributária, Vitor Lourenço,  divulgara numa acção de formação  a mais de 500 pessoas: a existência da lista de contribuintes VIP, sobretudo da área política, criada no âmbito do Fisco.





FOLHEAR - “A Síria em Pedaços” é uma colectânea de textos de Bernardo Pires de Lima, publicados em jornais, muitos com relação directa com a actualidade do momento, mas que agora, editados em livro, permitem ter uma visão de conjunto da evolução da situação naquele país e naquela região. Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa e do Centro para as Relações Transatlânticas da Universidade John Hopkins, Bernardo Pires de Lima é também colunista e comentador em jornais, na rádio e televisão. Conheci-o na saudosa revista Atlântico e tenho seguido os seus escritos, que ajudam melhor a perceber o conflito na Síria, o crescimento do radicalismo islâmico e as posições das diplomacias ocidentais. Além das análises e comentários a acontecimentos feitos ao longo de quatro anos, da primavera árabe  ao atentado ao Charlie- Hebdo, passando pelo Isis, sempre com a Síria por pano de fundo, esta edição oferece ainda um útil glossário assim como um indíce de figuras que são actores da realidade da política internacional. “A Síria em Pedaços” é uma edição Tinta da China.


 


VER - Na Fundação Carmona e Costa está patente, até 2 de Maio, uma exposição de Graça Pereira Coutinho intitulada “A Outra Mão”, baseada em desenhos, ideias e reflexões feitas num caderno em que em que a artista foi deixando anotações ao longo do tempo. É uma espécie de diário de ideias por executar - e algumas passaram do estádio de simples imaginação para a execução de facto no espaço da Galeria - desde os desenhos a videos ou a instalações, com destaque para um labirinto que reflecte a visão do trabalho e do quotidiano e que é a peça central de toda a exposição (na imagem). O próprio original do caderno está exposto e pode ser visto numa das salas, confrontando o pensamento e o processo criativo com a obra produzida. É uma exposição apaixonante e intensa. Fundação Carmona e Costa, Rua Soeiro pereira Gomes Lote 1, 6º , ao rego. Informações e horários em www.fundacaocarmonaecosta.pt .





OUVIR - Max Richter é dos casos mais interessantes da música contemporânea. Com um fascínio pelo resultado do encontro de instrumentos electrónicos com instrumentos acústicos e com a voz humana, Richter, um pianista de formação clássica que desenvolveu uma carreira de compositor, tem também experiência de trabalho sobre obras de autores como Philip Glass, Arvo Part, Brian Eno ou Steve Reich, através do seu Piano Circus, um ensemble que durante dez anos dinamizou. O mais curioso em Richter é como ele combina a sua formação clássica com a influência da música popular. “The Blue Notebooks” é o seu segundo álbum a solo, originalmente editado em 2004 e agora reeditado pela Deutsche Grammophon.  O disco tem a participação de Tilda Swimton, que lê, entre outros, textos de Kafka. Richter tem uma tendência narrativa na sua composição, que muitas vezes leva à construção de ambientes que são próximos de bandas sonoras de filmes imaginados. O resultado é admirável e esta reedição permite descobrir um disco que, uma década depois de ter sido gravado, continua intemporal.


 


PROVAR - Nas Avenidas Novas há um discreto local onde se pode comer boa comida tailandesa, convenientemente preparada, com delicadeza nos abores e intensidade no tempero. Chama-se Siam Square e fica na Avenida Luis Bivar, quase a chegar à Rua Tomás Ribeiro, num rés do chão elevado. A sala é simples mas acolhedora, o serviço é simpático e atencioso, a ementa é apelativa, a carta de vinhos é modesta mas bem escolhida. Nas entradas o destaque vai para os bolinhos de peixe, há sopas picantes e saladas de camarão, carne de porco ou galinha. Existem ainda propostas vegetarianas, pratos de caril, com destaque para o caril vermelho de pato assado com molho de coco e ananás fresco e o caril verde de camarão. Nos peixes destaca-se o robalo ao vapor com molho de limão e coentros. Outras possibilidades são o arroz de jasmim frito com galinha e o caranguejo salteado com caril em pó ou a carne de vaca salteada com molho de ostras e piri piri. Há ainda uma extensa lista de sobremesas. A experiência vale a pena e pode ser testada de segunda a sábado na Avenida Luis Bivar 7A. Telefone 213 160 529.


 


DIXIT - “Não é aceitável a atitude cada vez mais frequente como o Estado actua na cobrança de impostos de tal modo que, com frequência, os contribuintes se sentem impotentes para resolver os seus problemas com o fisco” - Manuela Ferreira Leite


 


GOSTO - Do alargamento da atribuição de vistos gold a estrangeiros que invistam na cultura, na investigação científica e na reabilitação urbana.


 


NÃO GOSTO - Há mil europeus infectados por dia com tuberculose.



BACK TO BASICS - Vivemos rodeados de mentiras, mas o pior de tudo é que metade delas são verdades - Winston Churchill

AS NOVAS TENDÊNCIAS DO DIGITAL

O festival interactivo SXSW (South By Southwest), que por estes dias teve a sua 22ª edição em Austin, no Texas, é um dos locais onde se desenha o futuro  da indústria. Segundo a Advertising Age uma das principais tendências detectada foi o incremento de dispositivos de realidade virtual. Um dos fóruns mais concorridos do festival, e uma das áreas que mais está a investir no desenvolvimento de conteúdos e dispositivos de realidade virtual é a indústria da pornografia. “The future of Porn is 3D Virtual Reality”  foi o tema de uma das mais concorridas conferências.



Mas a indústria automóvel não fica atrás e a Toyota mostrou um simulador de condução de um dos seus modelos – o que mostra o potencial da realidade aumentada fora do mundo dos jogos, do lazer e do prazer, e pode proporcionar aplicações comerciais que mais tarde ou mais cedo hão-de virar conteúdos publicitários.


 


Outra das tendências marcantes é a adopção de aplicações que proporcionam a capacidade de fazer live stream para redes sociais – o Twitter anunciou há dias ter comprado uma empresa desta área, a Periscope e algumas agências de comunicação têm usado uma ferramente idêntica, Meerkat, para fazer o live streaming de lançamento de produtos, transmitindo em directo nas redes sociais. Finalmente a terceira tendência é a utilização de plataformas como o Snapchat, particularmente o Snapchat Discover, que está rapidamente a tornar-se na coqueluche dos produtores de conteúdos, como a CNN, ESPN, Vice, Yahoo News, National Georgraphic e outras – espreite aqui www.snapchat.com .


 


Onze empresas de conteúdos colocam notícias e vídeos directamente no Snapchat e observadores da indústria consideram que estas aplicações, que conjugam a capacidade de enviar e receber mensagens com conteúdos editoriais, é uma das mais valiosas apostas do futuro. As receitas são geradas por publicidade ou patrocínios colocada nos conteúdos e a procura é grande – e os preços altos. Parece que uma das obsessões dos responsáveis de empresas editoriais e de conteúdos no SXSW foi conseguirem uma reunião com Evan Spiegel, o CEO da Snapchat . Vale a pena ver o blogue http://blog.snapchat.com/ para perceber um pouco melhor aquilo de que estamos a falar.


 


Uma das razões para toda esta azáfama em torno de aplicações que misturam mensagens com conteúdo tem a ver com umestudo recentes que apontam para o facto de a geração dos millenials ser particularmente receptiva a conteúdos online, independentemente de serem patrocinados ou pagos por marcas e anunciantes - 57% utilizam-nos. Se considerarmos o escalão entre os 18 e 24 anos o número de interessados sobe para 63%. Este estudo realizado no Reino Unido pela Adyoulike, entre pessoas dos 18 aos 33 anos mostrou que artigos escritos em forma de narrativa são o tipo de conteúdo que a maioria prefere (32 por cento), seguido de artigos construídos sobre listas focalizadas num tema ( 24 por cento) e vídeos (17 por cento). “As pessoas querem conteúdos de qualidade que lhes tragam alguma coisa de novo e não se importam se eles são patrocinados ou não”, afirmou Francis Turner, diretor da Adyoulike. Estes números confirmam o interesse crescente por aquilo que se designa “native advertising” –“ se os conteúdos forem suficientemente bons as pessoas não se importam como eles lhes aparecem” – refere Turner. 


 


Estas três tendências – dispositivos de realidade virtual, live streaming nas redes sociais e native advertising em conteúdos, vão marcar as conversas dos próximos tempos e mostram como tudo evolui tão depressa no digital.


TV: GUERRA ABERTA EM HORÁRIO NOBRE

Na semana passada 13 programas, dos três canais generalistas comerciais, conseguiram audiências acima de um milhão de espectadores – oito foram da TVI, três da SIC e dois da RTP1. Na TVI os resultados foram obtidos por novelas, desporto, reality shows e informação; na SIC por novelas e informação e na RTP por um concurso e pelo Telejornal. O programa mais visto, no global, foi a transmissão do Porto-Basileia, na TVI, que alcançou 1,8 milhões de espectadores. Logo a seguir fiou a estreia de “A Outra Mulher”, que alcançou 1,75 milhões. À mesma hora desta estreia a SIC emitiu um especial “Mar Salgado” que conseguiu milhão e meio de espectadores. A nova novela da TVI, rodada em Angola e em Portugal, promete uma disputa feroz com a SIC no horário nobre – a SIC tem liderado durante a transmissão de “Mar Salgado”, vamos ver como se desenvolve esta guerra de audiências entre novelas de produção nacional. Também no Cabo a TVI 24 dominou. graças aos programas de resumos da jornada da semana passada da Champions League. No cômputo geral do cabo nota-se que a SIC Notícias está colada á RTP2, sendo que o segundo canal do serviço público nem aparece entre os 15 canais mais vistos na região da Grande Lisboa. Vamos ver o que as alterações na estrutura da RTP trazem a médio prazo ao posicionamento e relevância dos canais públicos entre as audiências de televisão.

março 13, 2015

Qual a relação das 50 Sombras de Grey com os prefácios a discursos presidenciais?

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PREFÁCIO - Ao longo da sua vida política Cavaco Silva tem sido sempre fiel a um princípio: diz umas coisas que provocam umas explosões, que são percepcionadas fora do seu círculo de uma determinada maneira e que causam um determinado efeito político. Depois vem, todo cândido, afirmar que não disse nada do que os comuns mortais entenderam, muito menos quis dizer o que quer que fosse, e jura ter falado apenas de abelhas e passarinhos enleados num jardim. Cavaco, já se sabe, nunca erra, é apenas incompreendido. Por estes dias assistimos a mais um destes episódios, com o prefácio que escreveu para “Roteiros IX”, a nona compilação de intervenções sem grande história que faz ao longo dos meses. Já não é a primeira vez que ao vazio genérico dos textos publicados Cavaco Silva resolve adicionar picante nos prefácios onde dá a sua visão do mundo, numas análises que são uma espécie de “50 Sombras de Grey” da política. A cerca de um ano das presidenciais, resolveu pregar o que entende serem as qualidades necessárias ao desempenho, como ele o vê, da função de Presidente da República e, entre elas, destacou a experiência internacional. Da direita à esquerda,  vários candidatos a candidatos afirmaram que a descrição feita lhes assentava que nem uma luva - todos à excepção de Durão Barroso que seria porventura a figura que melhor se encaixaria no retrato robot desenhado. Não vou comentar o facto de o Presidente da República em exercício se dedicar a encontrar um herdeiro para a função mais a seu gosto, mas não resisto a citar Marcelo Rebelo de Sousa: “os portugueses precisam é de alguém que resolva os problemas cá dentro”. Que a campanha eleitoral já tinha começado, já se sabia. Mas que a direcção de campanha tinha gabinete em Belém é que é a notícia da semana.


 


SEMANADA - Um ministro demitiu-se por ter mentido no Parlamento - mas foi na Holanda; o ex-Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, agora no FMI, afirmou que só soube do que se passava no BES “pela imprensa especializada internacional”; Faria de Oliveira, Presidente da Associação Portuguesa de Bancos, disse na Comissão Parlamentar de inquérito ao caso do BES que não entendia “que se tenham esquecido questões da maior importância, como a responsabilidade de cumprir as normas da actividade bancária”; António Vitorino ocupa cargos em orgãos sociais de 12 empresas; PSD e PS continuam em queda quanto a intenções de voto nas mais recentes sondagens publicadas; António Capucho defendeu a convocação de eleições antecipadas na sequência da polémica sobre as dívidas de Passos Coelho à Segurança Social; a compra de imobiliário relacionado com vistos gold atingiu 55 milhões de euros em Fevereiro, uma subida em relação aos 46 milhões registados em Janeiro; investidores chineses lideram o acumulado de investimento desde o início do programa de vistos gold, com 1777 aquisições de imobiliário, seguidos por 74 brasileiros e 70 russos; há mais de dez mil processos parados nos tribunais desde o bloqueio do Citius; as doações feitas através da declaração de IRS a instituições de solidariedade social quadriplicaram entre 2011 e 2014, atingindo agora mais de 12 milhões de euros e envolvendo cerca de 400 mil contribuintes; o mercado mundial de obras de arte aumentou vendas em 26% em 2014, para um total de 14 mil milhões de euros, dos quais 524 milhões foram peças de Andy Warhol.


 


ARCO DA VELHA - António Costa viveu durante dois anos num apartamento duplex, na Avenida da Liberdade, cuja construção teve parecer negativo dos técnicos da Câmara Municipal de Lisboa, mas que foi autorizado pelo vereador Manuel Salgado.


 


FOLHEAR - Ao pegar na edição “As Flores do Mal”, um título roubado à obra de Baudelaire, e aqui baseado em textos de Fernando Pessoa e em fotografias de Pedro Norton, fiquei na dúvida se havia de o colocar na secção “Folhear” ou “Ver”. Esta edição, magnífica, da Guerra e Paz, com capa de madeira gravada a fogo, tanto pode ser vista como um livro que se folheia ou uma exposição que se percorre. Em “Um Livro de Vícios”, a apresentação onde o editor, Manuel S. Fonseca, aborda o critério de escolha dos textos de Pessoa e dos seus heterónimos aqui representados, ele faz notar que o verso “Dêem-me de beber que eu não tenho sede!” é a chave para a compreensão da selecção de textos de Pessoa que foi feita, todos a falar de vícios  - e “ópio tenho-o eu na alma”, é outro dos versos marcantes desta obra. Pedro Norton aventurou-se aqui a sair da sua clandestinidade fotográfica, pelos vistos um segredo bem guardado. Norton tem o bom senso de recusar o conceito de ilustrar as palavras de Pessoa - e tem razão porque as suas fotografias ensaiam uma história, pessoal, a olhar para o seu próprio universo - “só eu vejo aquilo daquela maneira”, conta Pedro Norton, um gestor há muito ligado à comunicação social. Na realidade esta história tem 51 histórias, ou, se quiserem, 51 fotografias - que vão do íntimo ao provocatório, do pensamento à acção, da descoberta ao refúgio. É uma edição exemplar baseada numa ideia original e perturbante. Deliciosamente perturbante.


 


VER - Retratos bem diferentes em duas exposições. “Mulheres na Ciência” agrupa retratos feitos por Luísa Ferreira a 20 investigadoras de diversas áreas e estará no Pavilhão do Conhecimento, durante um ano, onde receberá várias novas imagens ao longo do tempo - até se reunir todo o material para um livro que será editado em Março de 2016. Outra exposição de retratos, mas bem diferente, é a que foi feita por iniciativa da revista Máxima, reunindo imagens de homens que aceitaram o desafio de serem fotografados de saltos altos - “100 Homens Sem Preconceitos” - músicos, artistas plásticos, actores, jornalistas, desportistas (como Gonçalo Sousa Uva, na imagem), todos figuras públicas que foram retratados com stilletos propositadamente concebidos para esta série de pés masculinos por Luis Onofre. A exposição está no CCB até 2 de Abril e um livro, cujas receitas revertem para a Associação Laço, reúne as imagens que a Máxima foi produzindo e divulgando e que estão expostas.


 


OUVIR - Muita gente conhece o baterista Jack DeJohnette sobretudo pelo seu trabalho com nomes como Keith Jarrett ou Miles Davis e com a sua Special Edition Band. Mas DeJohnette começou por tocar piano em Chicago, no início dos anos 60, ao lado de saxofonistas como Henry Threadgill e Roscoe Mitchell. Foi então que conheceu  o pianista Muhal Richard Abrams, um músico que teve enorme influência no free jazz com a Association For The Advancement of Creative Musicias e com a sua Experimental Band. Mais tarde DeJohnette evoluíu para a bateria, onde ganhou fama. Foi com os músicos da fase inicial da sua carreira, e com o baixista Larry Gray, que DeJohnette se juntou de novo, em 2013, então com 71 anos, para actuar no Chicago Jazz Festival. O resultado esta em “Made In Chicago”, gravado ao vivo nessa ocasião, e que é uma espécie de viagem às origens musicais destes pioneiros. Disco intenso, por vezes pouco confortável, mas enérgico, a sua faixa final, “Ten Minutes” é um exemplo de improvisação e de energia criativa. CD ECM, na Amazon





PROVAR - Hoje dedico-me ao petisco, a propósito do monocasta Syrah, “Lybra” ,da Quinta do Monte d’Oiro. O syrah vai bem com queijos intensos e este em particular acompanha bem um Azeitão ou um queijo amarelo da Beira Baixa. Mas a minha preferência vai claramente para um Serpa bem curado, daquele que se parte em lascas fininhas. A combinação de um bom vinho tinto com um queijo artesanal, saboroso e intenso, é das melhores coisas que me podem oferecer. Substitui uma refeição mais elaborada e o corpo frutado do syrah, se esmaga queijos delicados, harmoniza bem com alguns dos nossos melhores queijos de ovelha. Este syrah “Lybra” provém de uma vindima manual. com desengace sem esmagamento e estagiou entre 12 a 14 meses em barricas de carvalho francês. É um vinho jovem e vivo que nas grandes superfícies pode ser encontrado abaixo dos 10 euros. E é companhia garantida para uma boa conversa.


 


DIXIT - “Portugal só vai dar passos grandes no sentido de reformar o Estado quando cair no próximo resgate” - Daniel Bessa, Economista, ex- Ministro


 


GOSTO - Do exemplo de persistência e força de vontade de Nelson Évora que superou lesões muito duras, recuperou, e se sagrou Campeão Europeu do triplo salto apesar de muitos o terem dado como acabado para a alta competição.


 


NÃO GOSTO - Os alunos que não escreverem segundo o novo acordo ortográfico vão perder até 25% da nota do seu exame, mesmo que escrevam correctamente na grafia portuguesa.



BACK TO BASICS - “Normalmente são necessárias três semanas de preparação para fazer um bom discurso de improviso” - Mark Twain


 


 

março 06, 2015

SOBRE MEMÓRIA E A IGNORÂNCIA

EXEMPLOS - Esta semana li numa página de Facebook que acompanho uma verdade absolutamente incontornável: nos manuais de liderança, ser o exemplo surge como uma das características mais importantes de um líder. Vivemos num tempo em que a ignorância das leis e dos regulamentos é tida por coisa de somenos importância e em que a falta de memória é assunto esperado que motiva apenas sorrisos cínicos. E é entre a ignorância e a falta de memória que se desenvolve o cepticismo do comum dos mortais sobre os políticos, sobre os que se oferecem para ter uma participação cívica, sobre quem anuncia querer contribuir para mudar o país. Se Portugal tivesse mudado, para melhor, um décimo do que andam a prometer há décadas estaríamos nos primeiros lugares de bem-estar. Odeio pingue-pongue de acusações entre políticos que vivem debaixo de telhados de vidro - os últimos anos têm mostrado como em matéria de falta de ética a coisa está bem distribuída no espectro partidário, mas também no mundo empresarial e no sector financeiro. Este ano tem sido uma galeria de horrores em matéria de revelações escabrosas e o que mais revolta é observar a forma  como as autoridades são tolerantes para os políticos incumpridores e os automatismos são inflexíveis para os vulgares cidadãos ou as instituições sem poder. Enquanto houver políticos com carreiras contributivas poluídas que tentam disfarçar, enquanto houver ex-governantes que se dedicaram a criar teias de relações para enriquecimento posterior, nada pode funcionar bem neste país. A política em Portugal não é encarada como um acto cívico. É entendida como uma oportunidade. Fica tudo dito. As boas intenções não vivem sózinhas.


 


SEMANADA - As escolas portuguesas perderam quase 40 mil professores desde 2011; há 9500 professores que, quando saírem das suas escolas, não serão substituídos; o vereador Manuel Salgado disse que a Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, tem um “raciocínio pouco atento”; o preço das casas subiu 1,2% em 2014, depois de queda de 22% em sete anos; a venda de automóveis cresceu 30,7% nos dois primeiros meses do ano face ao período homólogo de 2014; 262 mil veículos foram apanhados em 2014 pelos radares policiais em excesso de velocidade; uma mulher de 30 anos fez a ponte 25 de Abril em sentido contrário na direcção Almada-Lisboa; mais de 400 mil portugueses já foram ver as “50 Sombras de Grey”; um grupo de apoiantes do movimento “Junto Podemos” deixou de querer estar juntos e fundou o movimento “Agir”; Jardim Gonçalves aplaudiu a proposta de fusão do BPI e do BCP apresentada por Isabel dos Santos; segundo a Cáritas as situações de pobreza em Portugal aumentaram 15% em 2014; uma em cada quatro mulheres portuguesas estão desempregadas ou sub-ocupadas; o PSI 20 continua só com 18 empresas cotadas; em 2014 as empresas portuguesas desceram o seu endividamento em 19 mil milhões de euros e a maior fatia coube a microempresas que foram responsáveis por 39% do total da redução; frase esclarecida da semana: “o que é preciso agora é que os Governos desempenhem o seu papel”, tal é o pensamento do director do Think Tank Bruegel; uma vigília de apoio a Sócrates, que decorreu junto à cadeia de Évora no fim de semana, juntou 17 mulheres e quatro homens; a Turquia vai ser um dos grandes mercados de carne de coelho portuguesa a partir de meados deste ano.


 


ARCO DA VELHA - Segundo a imprensa, o fisco penhorou bens alimentares doados a uma associação que dá apoio aos sem abrigo na cidade do Porto,  o "Coração da Cidade", por dívidas em atraso relacionadas com o pagamento de portagens em antigas SCUT e a Autoridade Tributária quer penhorar  arroz, massa e bananas.


 


FOLHEAR - A revista “Monocle” fez em Fevereiro oito anos e foi fundada com uma substancial participação de capital do Japão. É frequente encontrar sugestões sobre locais, empresas, moda ou design japonês, tal como de outros países. Pela primera vez a edição de Março deste ano da “Monocle” tem o Japão por tema central, e ainda bem. É um retrato contemporâneo do império do sol nascente, desde os media mais experimentais até comunidades estrangeiras que estão a mudar os hábitos dos locais - como os brasileiros que levaram o samba para Tóquio e explicaram porque é que no Brasil se faz sushi de fusão. A coisa mais interessante da “Monocle” é proporcionar uma visão abrangente, multi-disciplinar, ajudar os seus leitores a estarem atentos às tendências e obrigar a pensar no que se está a fazer por esse mundo fora - desde livrarias a lojas de acessórios, passando por moda ou música. É um equilíbrio difícil de conseguir, mas é esse delicado equilíbrio que faz o sucesso da revista e que, mês após mês, motiva fiéis leitores, como eu, a redescobri-la. No seu editorial desta edição o fundador da revista, Tyler Brulé, exprime o desejo de que no ocidente existam escolas japonesas que possam ensinar boas maneiras e princípios básicos de civilização. Dei comigo a concordar com ele.


 


VER - Hoje proponho uma exposição virtual, no site do Museum Of Modern Art - e não estou a falar da badalada exposição de Bjork, a cançonetista preferida de algumas pessoas que gostam de se dizer atentas à música moderna. Vamos passar a coisas sérias. A exposição de que falo mostra a colecção Thomas Walther que incorpora aquilo a que se chamava exemplos de fotografia dos tempos modernos, feitas entre 1909 e 1949, com especial ênfase nos anos 20 e 30, quando a fotografia começou a ser notada, levada a sério e referenciada. O trabalho de investigação, a maneira como se relacionam locais, autores estilos e temas de forma interactiva no site da exposição é absolutamente exemplar. A galeria de imagens é deslumbrante e eu, que me gabo de conhecer muitas imagens, descobri várias que ignorava. A colecção tem 341 fotografias de 148 artistas e o site da exposição, “Object Photo”, pode ser visto aqui - http://www.moma.org/interactives/objectphoto/#home . Não percam. No site do museu existem indicações sobre como adquirir o magnífico catálogo cuja capa aqui se reproduz.


 


OUVIR - Em finais de 2014 a ECM ofereceu uma prenda aos seus fiéis - um CD com o registo, muito pouco conhecido, de um histórico concerto realizado em Hamburgo, em 1972, pelo trio que integrava o pianista Keith Jarrett, o contrabaixista Chary Haden e o baterista Paul Motian - um trio que à época da gravação tocava em conjunto há cinco anos. É supreendente a esta distância ver a consistência, a nergia e o prazer da sua música. Motian morreu em 2011 e Haden no ano passado. Mas este disco é um legado precioso da forma como entendiam a música, como cada um contribuía para um resultado excepcional. Haden e Jarrett mostram já nessa altura, há 43 anos, o entendimento que ao longo de décadas aperfeiçoaram e Motian é surpreendente nas soluções que encontra para completar este trio. CD ECM na Amazon.


 


PROVAR - O Funil é um histórico restaurante das Avenidas Novas, nascido no início dos anos 70, com o apogeu nos anos 80, e que em meados do ano passado sofreu uma mudança total - de proprietários, de gerência, de decoração, de cozinha. Agora as mesas estão apenas colocadas no piso de entrada, mas, para os saudosistas mantém-se o Bacalhau à Funil, feito no forno com molho bechamel. Na minha opinião mais interessantes ainda são o novo Bacalhau à Braz à Funil e o Arroz de Bacalhau, ambos a superar expectativas. Outro arroz que merece elogios é o arroz de pato à moda antiga, um dos melhores que tenho provado. Em matéria de aperitivo recomendo as bolinhas de alheira com puré de maçã e a tábua de queijos. Ao almoço tem um menu executivo por 12.90 euros e um outro para os comilões, com sopa e sobremesa, que custa 14.50 euros. Ambos são servidos com pão de Mafra e azeitonas bem temperadas e um copo de vinho. No tinto a casa recomenda, com razão, o Paulo Laureano Clássico e nos brancos o Álvaro de Castro Dão. Para sobremesa tem um bolo de chocolate para quem quer coisas mesmo doces e um honestíssimo leite creme de boa queima e consistência. O chef Duarte Lourenço tem também uma carta vegetariana, o novo Funil encerra aos Domingos e fica na Elias Garcia 82A, junto à esquina com a 5 de Outubro. O telefone é 210 968 912 e em www.ofunil.pt pode encontrar todas as informações.


 


DIXIT- “Uma bala é um vulgar e tradicional instrumento da política russa” - Gleb Kuznetsov, no “Moscow Times”


 


GOSTO - Em Campolide vai haver um referendo para decidir que tipo de pavimento terão os passeios para peões no bairro.


 


NÃO GOSTO - Alexis Tsipras esconde-se atrás de acusações a outros países para não reconhecer na Grécia que as suas promessas eleitorais não serão cumpridas.


 


BACK TO BASICS - É obrigação de cada um reter na memória as promessas que andou a fazer - Friederich Nietzsche


 

fevereiro 27, 2015

SOBRE UMA CAIXA DE VELOCIDADES ENCRAVADA EM MARCHA-ATRÁS

NOVELA - Alguém no Governo grego estudou guionismo e fez com que a sua política se assemelhe a uma novela, com os gregos a fazerem de heróis perseguidos e vários países a vestirem a pele do vilão. É sabido que o conceito de drama vem do teatro grego clássico, e talvez por isso, antes de assumirem medidas, os novos governantes definiram personagens, com guarda-roupa e tiques de comportamento. Sabiam que o palco se encheria de figurantes e ficaram à espera. É certo que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, e nessa medida tudo indica que a nossa Ministra Maria Luís se enganou nos camarins a escolher o guarda roupa, escolhendo um papel menor para Portugal. Ainda ninguém sabe o desfecho da novela - imagino que, seguindo as melhores práticas, decorram estudos de opinião entre os espectadores para escolher o final feliz. Pelo caminho percebeu-se que o especialista da teoria dos jogos, vestido de galã, não acertou no euromilhões e ficou-se por um modesto quarto  prémio. O facto causou frisson nas hostes de apostadores gregos e o compositor da banda sonora desta novela, Mikis Theodorakis, figura de proa do Syriza, revoltou-se contra o maestro e o galã. Nada disto é novidade - é apenas mais um partido que ganha eleições e a seguir manda o programa eleitoral às urtigas. por cá temos muita experiência disso e  há-de haver um personagem nesta novela que virá dizer: “- Meus amigos, a política é isto mesmo: fazer promessas para ganhar votos e esquecê-las a seguir”. Para já  o Governo do Syriza é um carro que ficou com a caixa de velocidades engatada na marcha atrás. A presidente do FMI, tão elegante quanto manhosa, depois de se deixar fotografar sorridente, de fato de cabedal, ao lado do galã da companhia, deixou já antever esta semana que está a ensaiar a passagem de sedutora a dominatrix. A coisa promete.


 


SEMANADA -  A Procuradora Geral da República reconheceu que a corrupção utiliza o aparelho de Estado; o presidente da EMEL, Júlio de Almeida, que tinha o seu maior apoio no vereador Manuel Salgado, foi demitido; Júlio de Almeida tem actividade privada no sector imobiliário e Manuel Salgado é o vereador com o pelouro do urbanismo; no mandato anterior Júlio de Almeida entrou em conflito com o vereador que tutelava a empresa, Nunes da Silva, e com os outros membros do conselho de administração da EMEL; neste mandato entrou em conflito com o vice-presidente da autarquia, Fernando Medina, que pretendia receber da EMEL 13 milhões de euros devidos pelas rendas de concessão que a empresa devia à Câmara de Lisboa e que Júlio de Almeida se recusava a pagar; no mandato de Júlio de Almeida as normas sobre a relação entre os residentes em Lisboa e a EMEL foram alteradas, a desfavor dos munícipes; António Costa, secretário-geral do Partido Socialista, reconheceu que o país terá superado a crise e está hoje numa situação "muito diferente" do que em 2011; em comentário o PS afirmou que o seu Secretário-Geral falou com “sentido de Estado”; 150 mil alunos chumbam por ano em Portugal; alguns dos processos judiciais mais importantes do país, entre os quais os do BPN e de José Sócrates, estão armazenados num corredor de acesso no  estacionamento subterrâneo do DCIAP; casinos e bingos perderam mais de um terço das receitas em seis anos; o endividamento das famílias portuguesas desceu e significa um rácio do PIB de 85,7%; o das empresas também desceu para um equivalente a um rácio do PIB de 142%; o do Estado aumentou ligeiramente para 128,7% do PIB; o saldo líquido do sector do Turismo em 2014 foi de 7.076 milhões de euros, com as receitas globais a ultrapassarem os dez mil milhões de euros, o que significa 14,6% das exportações globais; as remessas de Angola em Dezembro de 2014 caíram para metade do valor que tinha sido registado em Dezembro de 2013; em Janeiro os portugueses subscreveram 1.941 milhões de euros em certificados de aforro e em 2014 o valor da dívida pública subscrita por particulares subiu de 12.479 milhões de euros para 19.131 milhões de euros; o IGCP já foi ao mercado buscar 8,25 mil milhões de euros em dívida de médio e longo prazo e o montante angariado nos dois primeiros meses de 2015 é o triplo da média da dívida emitida em Janeiro e Fevereiro entre 2005 e 2011, antes da chegada da ‘troika' ; já existem 11 pré-candidatos às eleições para a Presidência da República.


 


ARCO DA VELHA - Fim de semana no Chiado, um vendedor ambulante com uma banca cheia de imitações da Burberry e com um singelo cartaz: “Cachecóis Varoufakis”.


 


FOLHEAR - A revista mensal “Wallpaper”, o primeiro grande projecto editorial de Tyler Brulé, hoje editor da “Monocle”, está a recuperar de uns anos sombrios e ganhou de novo personalidade própria. A capa da edição de Março é uma imagem manuseada pelo português Noé Sendas, que assina o portfolio de moda dessa edição, 16 páginas de belíssimas imagens fotografadas por Jan Lehner e trabalhadas por Sendas. A série tem o título “The Lady Vanishes” e vai estar até 31 de Março em exposição em Londres na Michael Hoppen Gallery. Noé Sendas, que agora vive em Madrid, depois de uma temporada em Berlim, estudou no Atelier Livre da Escola António Arroio e no Ar.CO, em Lisboa (1992), prosseguindo depois no Royal College of Arts, em Londres (1993), e no Art Institute of Chicago (1997). Sendas foi convidado a fazer o tema de capa da edição especial Style Special (W*192) pela directora criativa da Wallpaper, Sarah Douglas. A série de imagens foi fotografada por Jan Lehner em colaboração com a editora de moda Isabelle Kountoure e “apresenta o corpo como entidade que é simultaneamente teórica e material” , pretendendo que, “na imobilidade das imagens, seja a roupa e não o corpo feminino que se vê objectualizado”. Um outro momento imperdível da revista é um panorama dos talentos contemporâneos de Los Angeles, intitulado “LA stories” e onde John Baldessari e Ed Ruscha passam em revista alguns dos nomes que estão a fazer a diferença, desde escritores a músicos, passando por pintores, artesãos, escultores ou fotógrafos. São dez páginas que vão das memórias de Baldessari e Ruscha na sua LA ao futuro que se desenha todos os dias.


 


OUVIR - Benjamin Grosvenor tem 22 anos e é um caso sério no panorama dos pianistas contemporâneos.  “Dances” é o seu terceiro disco e nele Grosvenor interpreta  Bach, Chopin, Scriabine, Granados, Albéniz, e finaliza com um boogie woogie de Morton Gould. Mostra o seu virtuosismo mas ultrapassa-o demonstrando que  a interpretação é um misto de técnica com inteligência. Na verdade o repertório do disco é uma proposta de um programa de danças que passa através dos séculos. O “Guardian” dizia que ele é um “raro talento, um prodígio que está a amadurecer para se tornar numa verdadeira estrela”. A crítica nota que a sua interpretação de Bach é algo agitada, mas reconhece que a interpretação da “Polonaise” de Chopin é avassaladora, assim como a forma como interpreta as “Valses Poéticos” de Granados. Destaca ainda a sua abordagem às mazurkas de Scriabine e ao tango de Albéniz. (CD Decca, distribuído por Universal Music, no Corte Inglés).


 


VER - Esta semana destaco três exposições de fotografia em Lisboa. Começo pela mais relevante, integrada no programa Próximo Futuro, da Gulbenkian, uma iniciativa de António Pinto Ribeiro. No diálogo que procura estabelecer entre várias culturas, o Próximo Futuro propõe desta vez  quatro fotógrafos que captaram o caminho do Brasil rumo ao modernismo. Três deles eram emigrantes europeus: Thomaz Farkas era húngaro, Marcel Gautherot veio de França, e Hans Günter Flieg nasceu na Alemanha. Além deles a exposição mostra obras de José Medeiros, um dos mais marcantes fotojornalistas brasileiros, que se dedicou a mostrar o Rio de Janeiro, as suas praias, a vida da cidade - é dele a fotografia que reproduzimos. Thomas Farkas criou um olhar próprio sobre as formas da arquitectura e foi um dos fotógrafos que ajudou a mostrar Brasília ao Mundo. O outro testemunho do nascimento de Brasília,, também presente nesta exposição, foi Marcel Gaujtherot, que abordou frequentemente os rituais e as festas populares; e por último Hans Gunter Flieg que documentou fotograficamente o processo de industrialização do Brasil. A exposição chama-se “Modernidades: Fotografia Brasileira (1940-1964) e vai estar patente até 19 de Abril na Galeria de Exposições Temporárias do edifício principal da Fundação Gulbenkian. Entretanto na Fundação EDP, Museu da Electricidade, estão a partir desta semana e até 26 de Abril duas outras exposições de fotografia: “Through The Pale Dawn” mostra imagens da Coreia do Norte vista por Carlos Lobo, última parte da trilogia “Far Far East”, que antes percorreu a China e o Japão; a segunda é “Allumar”, de José Manuel Ballester,  que resulta de uma estada prolongada nas Astúrias, mostrando paisagens industriais e a natureza da região. numa linha de procurar problematizar o banal.


 


PROVAR -  A Avenida da Liberdade está cheia de novos hotéis, todos incluindo propostas de restauração que se pretendem cuidadas e com vida própria. Uma delas é o Sítio, no Hotel Valverde, um pouco abaixo do Teatro Tivoli. Fica no piso inferior do Hotel, ao lado de um belo terraço, com piscina, A localização e a envolvente são inesperadas e o ambiente é muito simpático. É um hotel pequeno, com um restaurante confortável e com um serviço adequado sem ser espalhafatoso. O couvert inclui tapenade de azeitona e de tomate e uma variedade de pães de que se destaca o  pão de tomate seco.  Na ocasião o amouse-bouche foi ovos mexidos com farinheira. O prato escolhido, que excedeu as expectativas, foi risotto na cataplana - uma solução inesperada mas que resultou bem., acompanhado por um branco do Douro, Pedra Escrita, servido a copo. No final um pudim de vinho do Porto foi uma boa surpresa. Na cozinha está Carla Sousa, que trabalhou com Henrique Sá Pessoa. Fica no 164 da Avenida da Liberdade e tem o telefone


210 910 300


 


DIXIT - “Nas sociedades contemporâneas olha-se para a cultura como um elemento de fim de linha. Só quando estão resolvidos os outros problemas da sociedade é que se fala de cultura. A cultura precisa de mais atenção” - Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura


 


GOSTO - Muito bom o “Macbeth” que o S. Carlos leva à cena com Angel Ódena no papel de Macbeth e Elisabete Matos numa interpretação explêndida de Lady Macbeth. Se arranjar bilhetes ainda pode ver esta sexta 27 às 20h00 e no Domingo 1 de Março às 16h00.


 


NÃO GOSTO - Da ausência de Portugal da Expo Universal de Milão, cujo tema é a indústria agro-alimentar, invocando os custos da participação - em 2014  Portugal exportou 5,5 mil milhões de euros de produtos agrícolas e a Feira será também uma importante mostra das capacidade de atracção turística de cada país, da qual pelos vistos estaremos ausentes.


 


BACK TO BASICS - Independentemente dos jogos que queiram fazer envolvendo-nos, temos de evitar fazer jogos connosco próprios - Ralph Waldo Emerson

TELEVISÃO - O MUNDO IDEAL PODIA SER ASSIM

Nos resultados da audimetria de Televisão há um indicador que gosto sempre de ver, que é o melhor minuto de cada canal – o resultado mais alto em termos de audiência obtido num único minuto ao longo da semana. Bem sei que as coisas não podem ser lidas como agora vou dizer, mas gosto de olhar o “melhor minuto” como o potencial máximo de audiência que cada canal poderia ter. Nesta semana o melhor minuto da RTP1 foi alcançado pelo “Preço Certo”, o que é relativamente frequente, com 30,9% de share; na RTP2 a série espanhola El Principe conseguiu 4,8%, fazendo lembrar os resultados de tempos distantes; na SIC, e como também é hábito, o melhor resultado foi para a novela Mar Salgado, com 47% de share no minuto em que foi mais vista; e na TVI esta semana o minuto com maior audiência ocorreu na transmissão do jogo Basileia – F.C. do Porto, com 37,8% de share. No mundo ideal isto era assim – mas claro que cada canal tem altos e baixos e o resultado médio é sempre mais baixo. Ao longo da semana a RTP1 teve em média cerca de 318 mil espectadores, a RTP2 esteve perto dos 38 mil, a SIC dos 377 mil e a TVI dos 486 mil. Para se ter uma ideia, no cabo, o AXN teve uma média de 36 mil, o Hollywood atingiu os 49 mil, a SIC Notícias ficou pelos 31 mil, a FOX pelos 26mil, a TVI24 pelos 23 mil, a RTP Informação pelos 16 mil e a Globo pelos 20 mil. Tudo valores médios claros. A estatística é uma coisa terrível.


 


(Publicado na revista Correio TV de dia 27 de Fevereiro)