dezembro 26, 2014

SOBRE O EFEITO DA DISTRAÇÃO NA CONDUÇÃO DAS NEGOCIATAS

DISTRAÍDOS -Nos últimos tempos, em diversas ocasiões, em diversas circustâncias, tornou-se habitual ouvir responsáveis de empresas, bancos e até de organismos oficiais dizerem que não sabiam o que se passava nas estruturas que dirigiam, que não tinham conhecimento de decisões onde eram supostos terem participado. Aparentemente, apesar de estarem em postos de direcção, não detectaram o mais leve indício de que alguma coisa de menos bom se passava. É como se estivessem em lugares de responsabilidade sem, de facto, terem nenhuma responsabilidade. Como um amigo meu dizia este fim de semana, a questão é que durante anos todas estas pessoas ganharam salários aparentemente sem nada terem feito daquilo que fazia parte das suas funções enquanto responsáveis e dirigentes. Continuo a citar o meu amigo, recomendando que o melhor seria que todas estas pessoas devolvessem ops salários e prémios que ganharam, já que nada fizeram daquilo que deviam, já que confessam nada saber daquilo que se passava à sua volta. Ou, mais prosaicamente “se não sabia, se não acompanhou, devolva todos os salrários que ganhou para saber e acompanhar”.


 


SEMANADA -  No primeiro mês de detenção José Sócrates recebeu mais de duas dezenas de visitas de dirigentes e quadros do PS; o Público on line fez um título fantástico: “João Soares foi visto em Évora” ; mais de metade das receitas de empresas ligadas a Santos Silva vieram de câmaras PS e da Parque Escolar; João Perna, o motorista, confirmou ter feito viagens a Paris e disse que Carlos Santos Silva lhe entregava dinheiro para o fundo de maneio do ex Primeiro Ministro;  motorista de Sócrates passa a prisão domiciliária; segundo o “Expresso” Sócrates admitiu não saber quanto recebeu de Santos Silva; Portugal perdeu 146 mil habitantes desde o início da década; a TAP pediu um empréstimo de 250 milhões para fazer face à crise de tesouraria que atravessa; a Força Aéreia lançou o primeiro curso de pilotos de drones; as famílias portuguesas gastam uma média de 271 euros em prendas de Natal, mais do que os espanhóis, os gregos e os russos; Marques Mendes e José Maria Ricciardi são ambos administradores de uma imobiliária ligada ao BES.





ARCO DA VELHA -  Luis Filipe Menezes invocou a sua qualidade de Conselheiro de Estado do Presidente da República para classificar de devassa da sua vida privada a investigação da Judiciária aos seus sinais exteriores de riqueza.


 


FOLHEAR - Já pensaram numa aventura meio passada no futuro, entre uma Londres desolada e uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, onde nada é como agora pensamos ou esperamos que seja? A história, passada entre épocas, num labirinto de personagens e enigmas, gira em torno de viagens no tempo, armas, drogas e terrorismo. O livro, agora editado, “The Peripheral”, é a 11ª obra de William Gibson, que se tornou conhecido há 30 anos, em 1984, com “Neuromante” - o livro que mudou a ficção científica e abriu novos caminhos à imaginação, ajudando a definir a cultura da época. “The Peripheral” é um bilhete para uma viagem ao futuro, num mundo caótico, de valores invertidos e mistérios. São 480 páginas que nos projectam noutra dimensão. Como dia o Guardian, qualquer dos 11 livros de William Gibson estão entre as melhores e mais singulares novelas escritas em inglês. (à venda na Amazon)


 


VER - Temos a infeliz mania de dizer que por aqui não se passa nada. Mas é mentira. Passam-se imensas coisas boas em Portugal. Quando nos aplicamos sabemos fazer na indústria, na agricultura e nos serviços. E sabemos também juntar vontades para mostrar a nossa História. Uma visita ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota é uma belíssima surpresa. Faz-nos pensar que Portugal já teve estratégia, assente na ideia da independência e da  expansão. Que No século XV e XVI soubemos marcar fronteiras e ir além delas. Soubemos analisar os inimigos, ver quais eram os seus pontos fracos e utilizar os nossos pontos fortes.  Essa é a grande lição de Nuno Álvares Pereira, que a Fundação Batalha de Aljubarrota tão bem conta, sem nacionalismos serôdios, mas com orgulho e rigôr. A minha sugestão é que planeiem uma visita à Fundação, que passeiem no campo de batalha e vejam as indicações que lá estão, que se sentem a assistir ao espectáculo multimedia que recria a batalha. Este não é um museu morto, é uma obra bem viva. A partir do antigo museu militar que ali existia foi desenvolvida uma nova área, tecnologicamente evoluída e exemplar nos conteúdos que proporciona. Ao olhar para a obra da Fundação fico a pensar que ela merece ser mais conhecida e divulgada. Fica a uma hora e um quarto de Lisboa e permite-nos, a todos, compreender melhor o país que é o nosso. www.fundacao-aljubarrota.pt.


 


OUVIR - Se eu tivesse que escolher um disco de Natal, daquelas colectâneas que se fazem sempre nesta época, escolhia “Round Nina - A tribute to Nina Simone”. São dez das grandes canções que Nina Simone cantou, interpretadas por nomes contemporâneos, que vão de Gregory Portes e Melody Gardot a Liannne La Havass com passagem obrigatória em Camille, que faz uma excelente versão de “My Baby Just Cares For Me”. Outras hipóeteses de prendas natalícias discográficas:  se o lado clássico fôr o objectivo sugiro a belíssima nova edição da Decca para a Ópera Turandot, de Puccini, um registo de uma versão histórica, com as participações de Joan Sutherland, Luciano Pavarotti, Montserrat Caballé e Tom Krause, nume gravação do início dos anos 70 dirigida por Zubin Mehta. Se o saudosismo imperar então vale a pena redescobrir “Crime Of The Century”, dos Supertramp, que eu costume dizer que são a banda com o nome mais autocrítico da história da música popular. Finalmente, ainda nas memórias, destaco o disco que assinala os 20 anos de o álbum “Viagens”, de Pedro Abrunhosa. Se gostam de bandas sonoras, a do mais recnete “Hobbit” , “The Battle of The Five Armies” , foi composta por Howard Shore e vale a pena ser bem ouvida. E finalmente, aquele que para mim é o melhor disco prenda deste Natal, “Amália no Chiado”, que foi agora editado (e já aqui mencionado há duas semanas) e que inclui inéditos e raridades gravadas no estúdio que existia na antiga loja Valentim de Carvalho no Chiado, em 1951, tinha Amália 31 anos nessa altura. Imperdível.


 


PROVAR - Como imagino que se esteja em fase de dietas sugiro que se aproveitem estes dias entre o Natal e o Ano Novo para rumarem a Portalegre, ao restaurante Tomba Lobos. Na mesa há pão como deve ser, azeitonas das boas. Só as entradas são uma perdição: da tiborna aos peixinhos da horta, passando pelos queijinhos assados e umas inesperadas e deliciosas pétalas de toucinho. Se gosta de tutano experimente as vieiras do montado. No dia em que lá fui recentemente, um sábado, havia cozido de grão, com chouriço mouro e farinheira, boas carnes da região. Na sobremensa venceu uma boleima de maçã e uns queijinhos de ovos irresistíveis. A casa tem duas salas, fica nos limites de Portalegre, e além das duas salas do restaurante tem uma zona onde pode adquirir produtos que levam o carimbo do autor de toda esta cozinha, José Júlio Vintém. Destaque para os seus enfrascados - perdiz de escabeche, orelha de porco, salada de pato, coelho de vilão e fraca de escabeche. A acompanhar a refeição veio um vinho da região, o Herdade Porto da Bouga, tinto, reserva. feito na Serra de São Mamede. O Tomba Lobos fica no Bairro da Pedra Basta, lote 16, e o telefone é o 965416630. Se seguirem a sua página no Facebook podem ver o que o Chef Vintém vai propondo na ementa, como uma perdiz brava assada no forno á antiga que por estes dias lá tem aparecido.


 


DIXIT - “Chega o Natal e os meus amigos inundam-me de cuecas e de meias. Triste fado. Mas por que motivo eu não terei um amigo como o amigo de José Sócrates?” - João Pereira Coutinho.


 


GOSTO - Da sugestão, de Marcelo Rebelo de Sousa, dirigida a Cavaco Silva, para que ele fale sobre a TAP.


 


NÃO GOSTO - De o FMI ter responsabilidades na epidemia do Ébola, segundo um estudo da Universidade de Cambridge, devido às políticas na área da saúde que implementou na África Ocidental.


 


BACK TO BASICS - O grande problema com os tempos actuais é que o futuro já não é aquilo que costumava ser - Paul Valéry

dezembro 19, 2014

Sobre as contigências de um regime que virou quarentão

QUARENTÕES - Olhando para trás, para o início de 2013, o que me apetece dizer é que este foi um ano perdido. O Governo deixou muito por fazer e nos últimos meses as indecisões, os atrasos e a falta de capacidade de concretização tornaram-se regra. É como se a ideologia reinante fosse a procastrinação - não faças hoje o que não te apetece que aconteça amanhã. Isto aplica-se desde a gestão dos fundos comunitários a acordos de coligação para as próximas eleições, passando pela RTP ou até o novo Banco de Fomento. Este é sobretudo o ano daquilo que não aconteceu - mesmo que alguns episódios laterais, como o caso da corrupção nos vistos gold, a queda do BES e de Ricardo Salgado e a detenção de José Sócrates possam parecer indícios de mudança. Lamento muito ter opinião contrária - tudo isto foram distracções, areia lançada para a ventoinha de forma a tornar a visão menos clara e fazer esquecer a falta de mudanças de fundo. Nada do que se passou faz mudar o regime, embora até possa ser justo que algumas coisas tenham acontecido. Os corporativismos continuam, tanto na TAP como noutras greves de transportes, o preconceito ideológico voltou a ser dominante sobre o raciocínio e nada disto encerra boas notícias. Este é o ano em que se completam quatro décadas sobre a mudança de regime, em 1974. Seria curioso estudar quanto dessas  décadas foi tempo perdido, agora que temos quase tanto tempo de democracia como de ditadura. Hoje, finalmente, começamos a ter uma ideia de que em termos de país a nossa mudança foi fraca, pouco produtiva e que gerou muita corrupção e um sistema político-partidário mais do que suspeito. Não é um bom retrato de quem entra nos quarentas.


 


SEMANADA - Costa foi visitar Sócrates a Évora - mas estou a falar de Pinto da Costa; um amigo meu, a ver a cena na TV, saíu-se com esta: “les beaux esprits se rencontrent”;  os EUA declararam o fim do embargo a Cuba; no mesmo dia o rublo teve uma queda histórica; o Papa Francisco disse que a resolução das relações entre Cuba e os EUA era o melhor presente que podia ter no seu aniversário; Putin começou o ano a ameaçar e parece ir fechá-lo a meditar; num cenário próximo da deflação a Entidade Reguladora do Sector Energético efectuou, para 2015, um aumento de 3,3% nos custos da electricidade para uso doméstico; um terço do novo crédito ao consumo destinou-se à compra de automóveis; o fundo de resgate municipal já recebeu pedidos de 14 Câmaras; o Ministro Poiares Maduro escreveu num artigo de opinião que o Conselho Geral Independente da RTP “contribui para um serviço mais dinâmico e inovador”; Marques Mendes disse na SIC que o CGI “está morto e enterrado”; Nuno Morais Sarmento afirmou que o modelo proposto por Maduro para a RTP “não faz sentido”; Alberto da Ponte, Presidente da RTP, pediu “bom senso” ao Governo; Passos Coelho disse no Conselho Nacional do PSD que não precisa do CDS para ganhar eleições; escolas de diversos pontos do país abrem as suas cantinas nas férias escolares para prestarem ajuda alimentar a famílias carenciadas; 30% dos portugueses nunca utilizaram a Internet; um estudo do Ministério da Economia indica que quase 90% das reivindicações dos trabalhadores em greve são rejeitadas; o Instituto de Medicina Legal tem 57 mortos que não foram reclamados; Ricardo Salgado foi eleito o pior CEO de 2014 pela BBC; os sócios brasileiros da PT, acordados entre Lula-Dilma e Sócrates, são frescos: a Andrade Gutierrez, accionista da Oi, está a ser investigada no âmbito de um caso de corrupção de grandes dimensões no Brasil.


 


ARCO DA VELHA - O Arcebispo de Braga recusou a investigação, no Tribunal Eclesiástico da sua Arquidiocese, de acusações de pedofilia que recaem sobre um padre de Fafe, preferindo que a investigação seja desenvolvida pela congregação dos Dehoninanos, a que o padre pertencia.


 


FOLHEAR - Ainda há espaço para criar novas publicações em papel? Depois de ter reinventado o conceito de publicação mensal, a Monocle avança agora para o conceito de anuário - o novíssimo “Forecast”, assinado “by Monocle”, pretende ser lido ao longo dos próximos meses para que o possamos recordar ao longo de 2015. Dantes chamava-se a isto um almanaque - temos entre nós o belo exemplo do Borda d’Água, muito mais modesto na abrangência e no número de páginas, mas tivémos durante anos o Anuário editado pela empresa que hoje detém por exemplo o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias. Os anuários - a Bertrand edita hoje o melhor anuário português - são peças centrais de leitura porque são feitos para perdurar. A revista mensal “Monocle” ganhou relevância pela forma inovadora com que passou a tratar de alguns assuntos, como descobriu temáticas inesperadas e como fomentou diálogos e debates pouco ensaiados. O número inaugural de “Forecast” foi publicado por estes dias e tem como tema principal descobrir quais os pontos que devem ser o centro das nossas atenções em 2015. Não se trata apenas de tendências, como acontece na edição da Wired que aqui referi na semana passada, é mais que isso. Por exemplo, como deve ser a televisão quando fala de política - que leitura tão interessante para o serviço público da RTP, este artigo, quase provocatório no nosso contexto, que relata experiências de outros países, a começar pela vizinha Espanha. Do design à comida, passando pela ficção, com incursões na fotografia, na moda, nos comportamentos, o lema da “Forecast” é “A View Beyong The Horizon”: que slogan perfeito.


 


VER - Cada vez que me sinto inquieto e não sei onde hei-de descobrir coisas para ver tenho a tendência de visitar o site da Saatchi Gallery. O local físico, próximo de Sloane Square, em Londres, onde antes foi um antigo quartel militar, tornou-se um incontornável radar de arte contemporânea. Com base no acervo da colecção Saatchi, e mantendo o mesmo espírito de abertura e descoberta que marcaram aquela colecção, a Gallery, que na verdade nos poucos anos de vida já ganhou direito a ser considerada uma instituição, é um dos motivos pelos quais lamento não ir mais frequentemente a Londres. Presentemente apresenta duas exposições colectivas que, cada uma à sua maneira, se revelam novas fontes de descoberta. A primeira, “Pangea - New Art From Africa and Latin America” é um catálogo vivo daquilo que mais interessante se produz agora na arte contemporânea daquelas regiões. Ainda mais interessante é a colectiva “Post Pop: East meets West” (na imagem) onde algumas dezenas de obras artistas, de Keith Haring a Ai Wawei, passando por Jenny Holzer, são postas em confronto. Falizmente o site www.saatchigallery.com permite, mesmo à distância explorar e descobrir grande parte do que por lá se passa.


 


OUVIR - Uma das incontornáveis edições musicais deste ano é a nova colectânea, de seis discos, “The Basement Tapes”, resultado de um período, na primavera e verão de 1967, durante o qual um Bob Dylan convalescente de um acidente de moto, em conjunto com The Band, compôs e gravou cerca de 100 canções. O mais extraordinário é que além destes temas, que eram mais ou menos conhecidos, houvesse mais umas dezenas de letras escritas por Dylan, não musicadas, mas feitas nessa época, e absolutamente desconhecidas durante todos estes anos. Esta foi a matéria prima de uma outra colectânea, recente, que é outra das grandes edições de 2014,  “Lost On The River”. T. Bone Burnett, um dos mais importantes e históricos produtores discográficos norte-americanos, encarregou-se de providenciar a junção de talentos que musicou e interpretou alguns desses temas, que deu melodia às letras de Dylan, com a ajuda de nomes como Elvis Costello, Marcus Mumford, Jim James (My Morning Jacket), Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) e Taylor Goldsmith (Dawes). Esses meses de 1967 foram uma época particularmente fértil para Bob Dylan, e mesmo as canções deixadas por acabar, e que aqui se revelam, mostram a enorme criatividade do seu autor naquela época. Os convidados desempenham com esmero o que deles se esperava - que não fossem traidores à ideia original. Pela surpresa e talentos envolvidos esta é a minha colectânea do ano - “Lost on the River: The New Basement Tapes” (editado pela Harvest/Electromagnetic, comprado na Amazon)


 


PROVAR - Confesso ter uma especial tentação por figos secos nesta altura do ano. Um dia destes fui surpreendido por uns figos secos invulgares: à primeira dentada revelaram amêndoas no seu interior em vez da polpa natural. São figos especialíssimos - diria que quase vigaristas: mete-se-lhes o dente e em vez do sabor esperado fui assaltado pelo paladar da boa amêndoa algarvia. Uma curta investigação detectou a origem: www.portugalclick.com, uma loja online inspirada na qualidade, proximidade e serviço das antigas mercearias de bairro. Se quiser os figos com um acompanhamento adequado a mesma loja online  tem “A Velhinha dos Vermelhos”, nome de origens desconhecidas e certamente provocatório, que alberga um medronho artesanal suave e que é capaz, com vantagem, de bater o pé a uma qualquer grappa importada. Estes figos cheios, assim se chamam, são uma especialidade algarvia. A portugalclick.com tem ainda produtos de outras regiões, vinhos das melhores proveniências, como Flor do Tua, a Quinta da Cinchorra Reserva 2010 ou o superior Quinta do Crasto reserva 2012, além de produtos pré-cozinhados como perdizes  estufadas e de escabeche. Experimente viajar no site e veja esta montra de produtos portugueses que farão a delícia de muita gente no Natal: entregas à medida do freguês e em 24 horas.


 


DIXIT -  “Quem é que em Portugal não confiava no Dr. Ricardo Salgado?”  - José Manuel Espírito Santo


 


GOSTO - De saber que Horta Osório foi designado Chairman da Wallace Collection, uma das mais importantes instituições culturais britânicas.


 


NÃO GOSTO - Da sucessão de greves no sector dos transportes, dos interesses corporativos que recusam a mudança e prejudicam tantas pessoas.



BACK TO BASICS - Há uma grande diferença entre saber governar e ocupar um lugar no Governo - H.L. Mencken

dezembro 12, 2014

Sobre o efeito da zanga das comadres na descoberta das verdades

ALERTA - Silva Peneda, o Presidente do Conselho Económico e Social, que se tem revelado autor de algumas das mais certeiras opiniões sobre o que se passa na sociedade portuguesa, disse esta semana que “é preciso perceber que não foi o mercado que falhou, o que falhou foi o sistema político que não foi capaz de prever, fiscalizar e disciplinar o funcionamento dos sistemas financeiros”. Reivindicou que “as políticas públicas deverão penalizar a especulação”  e defendeu que “os apoios financeiros têm estar, prioritariamente, ao serviço de quem cria emprego e riqueza”. Sublinhou que “a suposta auto-regulação dos mercados é uma teoria sem qualquer adesão à realidade”  e, por isso, defendeu que “a intervenção dos poderes públicos seja decisiva”. Mas talvez o momento mais importante tenha sido quando sublinhou que não basta querer reformar o Estado, é fundamental reformar e rever o modelo de governação, que deverá ter como bases a visão a longo prazo, o diálogo estruturado e a concertação, em vez da visão a curto prazo que predomina e incentiva a disputa partidária. E não resisto a citar mais este excerto: “É costume dizer que o maior problema é o desemprego. E é verdade. É preciso ter a consciência de que a manterem-se os valores elevados de desemprego, e o fenómeno de pobreza que lhe está associado, e a debilidade do investimento, o que está verdadeiramente em causa é a perda da confiança no futuro. O que inquieta é saber que os cidadãos vítimas do desemprego correm o sério risco de, com o tempo, perderem a confiança em si próprios e nos que os rodeiam. O que assusta é sabermos que quando se perde a confiança em nós próprios já não há mais nada a perder.”


 


SEMANADA - Banqueiros e administradores do BES e do GES encontram-se entre os principais doadores da campanha de Cavaco Silva em 2011; Ricardo Salgado disse na Comissão Parlamentar que “o BES não faliu, foi forçado a desaparecer”; desde que foi preso José Sócrates já escreveu quatro cartas a orgaõs de informação; António Costa admitiu erros no governo de Sócrates e anunciou que o irá visitar à prisão de Évora mais perto do Natal; uma das primeiras propostas de António Costa depois de ser confirmado à frente do PS foi a de repôr os feriados que foram suspensos; segundo a Marktest, em Novembro de 2014, António Costa foi líder em termos de duração total das notícias nos canais generalistas de televisão - esteve em 92 notícias com um total de 4 horas e 20 minutos de duração; apenas 7% do volume de negócios da área da construção civil é proveniente da reabilitação de edifícios; o serviço Nacional de Saúde perdeu 3 mil enfermeiros em dois anos; Portugal tem a taxa de mortalidade por pneumonia mais elevada no conjunto dos países da União Europeia; no ranking das melhores unidades de saúde, os hospitais de Lisboa ficaram pior classificados do que os do Porto e do Alentejo; mais de 60% dos doentes internados chegam aos hospitais pelas urgências; 1560 médicos recém formados estão a aguardar indicação sobre onde vão fazer o internato a partir de 2 de Janeiro; as fraudes no Serviço Nacional de Saúde ascendem, no ano de 2014, a 118 milhões de euros; nas prisões portuguesas há 51 reclusos por crimes de corrupção; na bolsa portuguesa , das 47 cotadas há 22, quase metade, a valer menos de um euro;  na Europa foram criados 100 mil empregos relacionados com marcas de luxo; as empresas e lojas instaladas na Avenida da Liberdade representam um volume de negócios anual de quase 14 mil milhões de euros; na avenida há somente 11 fogos ocupados com habitação.


 


ARCO DA VELHA - O índice da economia paralela aumentou 2013 e atinge um recorde de 26,81% do PIB - as principais causas deste aumento são "o peso dos impostos diretos e indiretos e das contribuições para a segurança social, e a taxa de desemprego".


 


FOLHEAR - 2015 vai ser o ano do robot? Essa é uma das apostas da edição especial da revista “Wired”, dedicada à antevisão do próximo ano, sob o título genério de “What’s Next”. Editado pela Wired britânica este anuário explora o que pode acontecer em campos tão diversos como os negócios, a tecnologia, a medicina, a política e actuação dos governos, a evolução dos media, ambiente e lifestyle. Nas 104 páginas da publicação cabem ainda artigos de James Dyson sobre os novos robots, de Saul Klein sobre o crescimento económico das indústrias criativas e de Carlo Ratti sobre os automóveis sem condutor e as cidades do futuro - isto para além de 101 ideias que vão mudar o mundo e um catálogo de gadgets, de bicicletas a sistemas de som. Boa leitura para nos situarmos no planeta. Mas talvez o mais fascinante artigo seja o de David Hambling sobre o grande salto que pode ser proporcionado pelos novos processadores que permitem o desenvolvimento da computação neuromorfica - processadores que não só são mais eficazes como, de alguma forma, podem tornar os aparelhos que usamos no dia a dia mais humanos - porque a forma de concretizar o processamento dos dados se assemelha à forma como o cérebrocompreende e age em função de imagens ou de sons, por exemplo.


 


VER - Semana rica em possibilidades. Começo por destacar, no MUDE (Museu do Design e da Moda”, a exposição dedicada à obra de António Lagarto enquanto figurinista. Sob o título “De Matrix à Bela Adormecida” inclui cerca de 200 figurinos feitos nas últimas três décadas para o ballet Gulbenkian, para os Teatros Nacionais de São João e D. Maria II, e ainda para o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado. Finalmente é possível ter uma visão de conjunto da obra de um dos grandes cenógrafos e figurinistas portugueses contemporâneos. Até 29 de Março, de terça a domingo, entre as 10 e as 18h00. Como dia António Lagarto, “fazer figurinos é contar uma história que é paralela à história do espectáculo”. Vale a pena destacar também a exposição “Almada Negreiros - O Que Nunca Ninguém Soube Que Houve ” que na Sala Cinzeiro 8 do Museu da Electricidade, que apresenta desenhos, pinturas e livros de artista de Almada Negreiros - até 29 de Março (na imagem). Outra exposição a não perder é “Toda a Memória do Mundo, Parte Um”, da Daniel Blaufuks, no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado. Esta exposição de fotografias e video de Blaufuks nasceu em torno das obras de dois escritores, Georges Perec e de W.G. Sebald e pode ser vista até 22 de Março. Na Garagem Sul do CCB está a exposição “Homeland - News From Portugal”, organizada e produzida pela trienal de Arquitectura para a 14ª Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza. Finalmente vale a pena referir a exposição de Miguel Telles da Gama, Azul Profundo, na Casa Museu Medeiros e Almeida, até 31 de Janeiro.


OUVIR - O tempo tem destas coisas - levar-nos a esquecer onde tudo nasceu. Uma das maiores discográficas do mundo foi a EMI, de Londres, com instalações em Abbey Road, empresa que assim se chamava porque queria dizer Electric And Musical Industries, designação de que poucos se lembrarão nas Bolsas onde está cotada. Se podemos encontrar um paralelo português para este caso a escolha cai na Valentim de Carvalho, dedicada à electrónica e à música a partir de uma loja no coração de Lisboa, na Rua Nova do Almada, desde o início do século passado. Em 1951, na histórica loja do Chiado, consumida pelo incêndio de Agosto de 1988, Amália Rodrigues gravou pela primeira vez para disco. Tinha na altura 31 anos e já uma carreira asinalável no teatro e no cinema. Pela mão de Rui Valentim de Carvalho e Hugo Ribeiro, o técnico de som com quem ela sempre quis trabalhar, gravaram-se numerosas bobines de fita magnética, que a empresa sempre salvaguardou. Muitos desses registos nunca viram a luz do dia  - alguns fragmentos foram sendo usados ao longo dos anos mas nunca se teve a noção da essência do tempo - até agora. O duplo CD “Amália no Chiado” é um trabalho exemplar de recuperação de memória. Permite-nos ouvir Amália em 46 fados e canções, com uma voz fresquíssima, à vontade, a cantar aquilo de que gostava, da “Perdição” à “Libertação” - os inéditos do Chiado. No segundo disco gravações antigas, algumas já editadas, mas dispersas, ou de “la Vie en Rose “ até à “Falsa Baiana”. “Amália no Chiado”, uma belíssima edição coordenada por Frederico Santiago, tem ainda vantagem de incluir um texto original sobre a carreira de Amália escrito por Vitor Pavão dos Santos, o seu mais notável estudioso, um texto cheio de histórias de época e de memórias. Poucas edições discográficas em Portugal têm esta qualidade. É verdadeiramente um álbum exemplar que nos ajuda a entender a vida de Amália e a ouvir o seu génio. (Duplo CD, edições Valentim de Carvalho).


 


PROVAR - Um bom disco, um bom restaurante, um bom livro ou um bom vinho têm uma coisa em comum: são um trabalho de amor, talento e perseverança. Já aqui tenho louvado a obra de José Bento dos Santos na sua Quinta do Monte D’Oiro, onde introduziu castas poucos frequentes em Portugal, desde que adquiriu a propriedade em 1986. Também ganhou fama de vazer vinhos invulgares, como estes três de que hoje vos falo. Enquanto o sol dura neste Outono, começo por um branco, o Madrigal 2012, um monocasta viognier elaborado pela enóloga Graça Gonçalves, com o apoio de Grégory Viennois, a equipa que elabora os vinhos da Quinta. A casta viognier, oriunda das encostas do Rhône, que começa a aparecer com maior frequência em Portugal, permite vinhos brancos de uma grande elegância e paladar, frescos e levemente florados, de que este Madrigal é um bom exemplo; depois sugiro a prova do Têmpera 2011, um vinho feito com a portuguesa Tinta Roriz  - um tinto com toques de frutos silvestres, muito adequado para pratos tradicionais de cozinha portuguesa; e finalmente, a estrela da casa, o Syrah 24 de 2011, proveniente da parcela 24 da vinha, com apenas dois hectares e plantada em 2004 - é um vinho reserva que estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês, muito envolvente e suave, com notas de frutos pretos, chocolate e especiarias. São três vinhos sedutores e inesperados, à venda nas boas garrafeiras.


 


DIXIT - “Ricardo Salgado não lida maravilhosamente com a verdade” - Pedro Queiroz Pereira


 


GOSTO - Da ideia de viagens low cost para os Açores.


 


NÃO GOSTO -  Da ideia de que o Serviço Público de Televisão deve ser concorrencial em relação aos privados.


 


BACK TO BASICS - Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades - ditado popular


 


www.facebook.com/mfalcao


twitter: @mfalcao

dezembro 05, 2014

SOBRE A FORMA COMO UM MINISTRO SE ENSARILHOU

RTP - Os acontecimentos das últimas semanas mostram que, à primeira prova de fogo, o modelo de governação implementado este ano pelo Ministro Poiares Maduro na RTP deu em conflito insanável. Na prática o modelo proporcionou que regressássemos à época em que os Conselhos de Administração da RTP eram demitidos face às circunstâncias políticas do momento - pode dizer-se que esta coisa de demitir Conselhos de Administração da RTP era um comportamento do século passado. Quando Morais Sarmento tutelou o sector instituíu, e bem, a impossibilidade de demitir o CA, deixando-o cumprir os seus mandatos e os seus projectos. Foi isso que permitiu que a partir de 2002 a RTP tivesse traçado um percurso de reestruturação profundo, graças à estabilidade da sua administração - que, ouvindo o accionista, desenvolvia a sua estratégia. Esse percurso de 12 anos foi agora interrompido, tornando-se evidente a falência do modelo preconizado pelo actual Governo. Tenho alguma curiosidade em saber se face ao acontecido - e sobretudo face à clara existência de várias posições públicas divergentes no executivo -  o Ministro não considera a hipótese de se demitir perante os resultados da situação que criou, e que teimou em implementar apesar de numerosos avisos públicos e privados. Ao contrário daquilo que parece, o que se passou não tem a ver com o caso da Champions - que foi um pretexto -  tem a ver com a falta de coragem do accionista em apontar um caminho de serviço público, baseado na complementaridade e não concorrência em relação aos privados, um modelo de serviço público que devia fomentar o papel de regulador do sector, fomentar o papel estruturante e dinamizador que a RTP devia ter na produção audiovisual portuguesa, essencial para a defesa da nossa língua e cultura no mundo digital. A questão não é essencialmente de orçamento, é sobretudo de escolhas - talvez com menos canais, menos espalhafato, desenvolvendo competências e informação regional, fazendo programação de referência infantil, impulsionando a produção de documentários, desenvolvendo ficção e formatos nacionais e abandonando alguns conteúdos que consomem mais orçamento e cuja tipologia já existe nos canais privados. É ambicioso? Pois é, mas também o são os desafios de qualquer estação de televisão neste momento - e a RTP tem a vantagem de ter profissionais e equipas com capacidade de o fazer se forem motivadas e se existir uma ideia clara do que deve ser prestar serviço público, única razão para ter o financiamento que recebe dos portugueses.


 


SEMANADA - A Ministra das Finanças diz que a Troika não tem razão em dizer que o Governo perdeu o ímpeto reformista; o CDS afirmou querer repôr o feriado de 1 de Dezembro, retirado na reforma dos feriados abolidos em 2012; dos 1711 cargos dirigentes da administração central que deviam ser eliminados apenas foram extintos 463; o barril de petróleo desceu muito mas a diferença no preço dos combustíveis ainda não se fez sentir nos consumidores na proporção dessa descida; até Novembro foram vendidos mais 37,3% veículos do que em igual período do ano passado, um total de 156.351 unidades; os hotéis do Algarve, Madeira e Porto estão praticamente sem vagas para a passagem do ano; a Universidade de Aveiro é a preferida pelos estudantes estrangeiros que estão a fazer o Erasmus em Portugal; apenas 50,7% dos alunos do secundário dizem que em em casa é habitual lerem-se jornais, revistas ou livros; um estudo da OCDE indica que funcionários de empresas públicas são os que mais aceitam subornos internacionais; António Costa estabeleceu o objectivo de maioria absoluta para o PS, nas legislativas de 2015 e anunciou recusar coligações com PSD e CDS; no rescaldo do congresso do PS Francisco Assis disse que ali foi estabelecido “um modelo de partido que não é o meu, não me reconheço”; o antigo primeiro-ministro, José Sócrates, e o empresário Carlos Santos Silva, amigo de infância do socialista, financiaram a campanha eleitoral de António Costa às eleições primárias do Partido Socialista; José Sócrates foi medicado, no estabelecimento prisional de Évora, para regular a tensão arterial, que estava elevada.


 


ARCO DA VELHA - Um parecer de um catedrático de Direito da Universidade de Coimbra, Calvão da Silva, defende que a prenda de 14 milhões de euros, de um construtor a Ricardo Salgado, pode ser entendida como um exemplo de “espírito de solidariedade e entreajuda”.


 


FOLHEAR - Querem saber o que aconteceu a Van Gogh nos últimos dias da sua vida? A sua morte terá sido suicídio ou assassínio? - esta é a pergunta a que a Vanity Fair tenta responder na edição de Dezembro, que tem Angelina Jolie na capa, fotografada por Mario Testino. Outro dos grandes artigos desta edição é dedicado à luta entre a editora Hachette e a Amazon. Graydon Carter, o histórico editor da “Vanity Fair”, resume assim o que está em jogo: “a luta a propósito do preço é de facto uma disputa sobre como remunerar a criatividade - e, sendo assim, sobre a própria essência do valor da cultura”. Outros artigos imperdíveis: as memórias de Anjelica Houston com Jack Nicholson, a maneira como nasceu a Khan Academy no YouTube, ou a reportagem sobre o crescimento do serviço de transporte da Uber.


 


VER - Quem me dera poder estar em Madrid para ver a exposição que a arista portuguesa Cristina Ataíde ali inaugurou ontem. Chama -se “Esperando que nieve…” , inclui desenhos de grandes dimensões de 2010 (na imagem) e está no  Centro de Arte Alcobendas, na Mariano Sebastián Izuel, 9. Pondo os pés na terra e regressando a Lisboa, confesso que estou cheio de vontade de ir ver ao Museu Nacional de Arte Antiga ver as obras da colecção de Franco Maria Ricci, que uma boa fortuna trouxe até Lisboa. Se quiser variar para o desenho e colagens posso ir até à Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38) ver a exposição “Araruta”, de Ana Jotta e Manuel Caldeira. Descendo até ao nº4 da 24 de Julho podemos descobrir fotografias  do livro “A Flor do Mal”, de Pedro Norton, expostas n’a Pequena Galeria. E na Baginski (Rua Capitão Leitão 51), quatro artistas (Emilio Chapela Perez, Bruno Cidra, Jan Nálevka e Katarina Poliaciková) expõem “Truth And Void Between Realities”, interrogações sobre a natureza e os limites da imaginação humana.


 


OUVIR - António Zambujo continua a ser um caso à parte na música portuguesa contemporânea. Em primeiro lugar isso deve-se à sua capacidade de interpretação, em segundo lugar fica o seu cuidado na escolha das canções que grava e dos autores que selecciona. Em “Rua da Emenda”, o seu novo disco, estão nomes como João Monge, Samuel Úria, Miguel Araújo, Maria do Rosário Pedreira, José Eduardo Agualusa, José Fialho Gouveia, Edu Mundo e até Serge Gainsbourg com a “Chanson Du Pévert”. Zambujo canta gingão, tem voz malandra, entoação picante e quem o ouve sente-se parte da história que ele está a cantar. Confesso que de todas as canções - e não lhes chamo fados de propósito - a que mais gosto é a “Barata Tonta”, escrita por Maria do Rosário Pedreira, que se vai tornando obrigatória nos seus discos, e o próprio António Zambujo, que compôs a música. Basta isto para perceber porquê: “Ai, por um sonho dos seus/Emq ue fosse eu quem a beija/ Dava toda a minha vida”. E “O Tiro Pela Culatra”, outra canção de Maria do Rosário Pedreira, não lhe fica atrás em matéria de canções com história e que podiam dar filmes. (CD Universal/ Sons Em Trânsito).


 


PROVAR - Gosto perdidamente de romãs, esse fruto de outono, às vezes tão difícil de preparar. Gosto de o misturar em saladas, de o usar em alguns cozinhados, de reduzir o seu sumo e usá-lo nos molhos. A árvore, ainda por cima, é lindíssima. O melhor livro que conheço, onde as romãs fazem parte da acção, é “Summer At The Villa Rosa”, de Nicky Pellegrino, passado no sul de Itália, e que li há uns anos. Como frequentemente acontece nas obras de Pellegrino as receitas culinárias e a descrição das refeições são parte integrante da história. Lembrei-me disto tudo enquanto bebia a melhor alternativa que conheço à água, o Sunlover Winter Edition, precisamente feito à base de romã e, tal como a água, com zero calorias. É a bebida mais agradável e potencialmente mais saudável que já experimentei.


 


DIXIT - “O agente público que está na posse de riqueza de que não se sabe a origem põe em causa a credibilidade das instituições democráticas” - João Cravinho.


 


GOSTO - De Marcelo Rebelo de Sousa ter chamado a atenção para a maneira como os deputados seguem os trabalhos parlamentares nos ecrãs dos seus computadores observando “raparigas avantajadas”.


 


NÃO GOSTO - Da péssima tradução nas legendas do filme “Saint Laurent”, actualmente em exibição.


 


BACK TO BASICS - Odeio televisão da mesma forma que odeio amendoins - o único problema é que não consigo deixar de comer amendoins (Orson Welles)

novembro 28, 2014

Sobre a arte do comissionismo na política

COMISSIONISTAS - Ao longo de quatro décadas criou-se em Portugal uma raça a que vou chamar de comissionistas políticos. Cresceram a cobrar, sempre discretamente, comissões pela sua actividade onde quer que tivessem uma réstea de poder. Desenvolveram-se em todos os partidos e quadrantes ideológicos e foram fazendo a sua actividade em benefício das suas organizações partidárias, locais ou nacionais, de grupos de pressão, de organizações amigas a que depois ficavam ligados e, nalguns casos, em proveito próprio. As comissões tinham mil caras - desde as que estavam impressas nas notas de papel moeda até às trocas de favores ou obtenções de sinecuras futuras. A sucessão de casos foi crescendo ao longo dos anos e foi-se estendendo também na administração pública e nalgumas empresas. Mais cedo ou mais tarde as coisas começam a dar nas vistas em demasia e foi isso que agora aconteceu. Durante muito tempo proliferou o discurso que acusava a justiça de só perseguir os pobres e indefesos; mas mal o aparelho judicial começou a perseguir banqueiros, altos funcionários, políticos no activo ou na reforma, ex-governantes e dirigentes partidários, começou um imenso clamor de protesto de que havia intenções políticas detrás das acções da justiça. E assim chegamos ao ponto em que pensadores de diversos matizes se deixam envolver mais pelo sentimento do que pela razão e se tornam cegos. Fernando Sobral escreveu, aqui neste jornal, que se criaram as condições para uma pergunta assassina, em termos sociais e políticos: “és a favor ou contra Sócrates?” E acrescentava: “se a política se reduzir a isto estamos perdidos”. Mas é isso mesmo que está a acontecer, como desde quinta-feira se tornou bem patente, graças ao contributo de Mário Soares para a questão. Subjacente a tudo isto está um princípio, de que a esquerda não abdica: ela é intocável e intrinsecamente honesta, e a direita é a mãe de todos os vícios e fundamentalmente desonesta. Ou seja, a esquerda é o Bem e a direita é o mal. Este raciocínio maniqueísta tem ainda mais décadas que a existência de comissionistas políticos em Portugal - mas é o raciocínio da moda, que comanda o sentimento sobre a razão. É o raciocínio solidário:  Sócrates é de esquerda e, portanto, não pode ser desonesto; se o acusam é porque se trata de uma manobra política, obviamente desonesta e de direita. Estarmos reduzidos a isto é uma tristeza. E há ainda outra coisa: os mesmíssimos políticos que gostam de jogar com a velocidade e agilidade mediática quando estão a fazer guerrilha e chicana, são os que agora se lamentam pela excessiva atenção dada pelos media a este caso, não se recodadndo que foi a mesma atenção dada a outros recentes onde não viram nada de excessivo. No fundo não compreendem uma coisa básica: a velocidade da justiça e a velocidade do sistema mediático são coisas diferentes. E ainda bem. Talvez preferissem que não houvesse velocidade. Ou seja, que nada se movesse. Presumo que escuso de citar Galileu.


 


SEMANADA - PS e PSD juntaram-se pela primeira vez nesta legislatura para apresentarem uma proposta de reposição das subvenções aos políticos, mas passados dias os seus proponentes tiveram que a retirar; duas dezenas de deputados declararam manter colaborações regulares com orgãos de comunicação; na semana seguinte à prisão de vários altos quadros do Estado no processo dos vistos gold o ex-Primeiro Ministro José Sócrates foi detido sob a suspeita de corrupção e branquamento de capitais; o advogado que apareceu a defendê-lo já tinha pedido há um mês atrás cópias dos despachos que ordenaram a destruição das escutas dos telefonemas entre Sócrates e Armando Vara; a detenção ocorreu na noite de sexta feira e o advogado João Araújo apareceu como seu representante no dia a seguir; Mário Soares foi visitá-lo à prisão na quarta-feira e disse que ele era um homem exemplar; Pedro Silva Pereira, um dos mais próximos colaboradores de Sócrates, esteve mais de 72 horas sem se pronunciar publicamente sobre a detenção do ex-Primeiro Ministro; um grupo de jovens eborenses, alunos de arquitectura, tirou selfies à porta da prisão onde está José Sócrates logo no dia em que ele chegou; depois da visita de Mário Soares José Sócrates distribuíu um comunicado a considerar a sua detenção “um abuso”; segundo a Marktest no último fim-de-semana o nome de José Sócrates foi o mais mencionado nas redes sociais, sobrepondo-se a todos os outros assuntos, personalidades ou marcas; ainda segundo a Marktest em apenas dois dias foram divulgadas cerca de três mil notícias relacionadas com o ex-Primeiro-ministro; o investimento estrangeiro estava a subir 641% até à crise dos vistos gold; em dois anos fecharam mil lojas de compra e venda de ouro; o fisco penhorou 197 imóveis por dia desde o início do ano; há 73 queixas por dia de violência doméstica em Portugal; de 2009 até agora houve 4605 pessoas que mudaram de nome; o Estado arrecadou mais de 30 mil milhões de euros de impostos até Outubro, um aumento de mais 2 mil milhões em relação a igual período do ano passado.


 


ARCO DA VELHA - O ex-procurador Pinto Monteiro afirmou que, no almoço que teve com José Sócrates em Lisboa na semana em que o ex-Primeiro Ministro foi detido, apenas falaram de livros e de viagens.


 


FOLHEAR - Esta é a altura em que a “Monocle” chega à sua edição dupla, de Dezembro/Janeiro, que este ano tem cerca de 270 páginas. O tema da edição é o “soft power”, a capacidade de um país exercer  poder e ganhar reconhecimento  através da sua diplomacia e da sua presença no mundo. A lista de 30 países resulta do relatório de um think-tank britânico, The Institute For Government. Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Japão e França ocupam os cinco primeiros lugares de uma lista de 30 países, na qual Portugal está na 24ª posição. Nesta edição há ainda um destaque para o Top 50 dos viajantes e para Antuérpia, além da Art Basel de Miami. Finalmente, na capa, uma fotografia de um eléctrico bem lisboeta é o chamariz para um especial destacável, um guia de Portugal.  A edição deste guia resulta do esforço conjugado do Turismo de Portugal com o interesse há muito manifestado pela revista em relação ao nosso país - é rara a edição em que não se encontra alguma coisa seja sobre Lisboa ou Porto ou sobre criadores ou artesãos portugueses que estão a marcar a diferença.  O guia sobre Portugal tem 36 páginas e, como é hábito nestes guias da “Monocle”, tem recomendações sobre sítios onde ficar, onde comer e lugares a visitar, sobre lojas e pequenas indústrias, além de múltiplos dados sobre o país. Lisboa, as praias do surf, o Alentejo, o Algarve, o Porto, o Douro e o Minho são as zonas em destaque, com boas e acertadas sugestões. Já agora a revista anuncia que a 17 e 18 de Abril realizará em Lisboa a “The Monocle Quality Of Life Conference” que abordará temas desde urbanismo até ao comérico, passando pela indústria da restauração e hotelaria,  ou ainda o artesanato e ofícios criativos. E a 5 de Dezembro o grupo que edita a “Monocle” lança uma nova publicação, um almanaque anual intitulado “The Forecast”, que em 240 páginas promete ensaios fotográficos, reportagens e análises. Já falta pouco.


 


VER - Hoje recomendo-vos uma visita à Fundação Louis Vuitton, o edifício junto ao Bosque de Bolonha, no 16º Bairro de Paris, onde Frank Gehry concebeu e construíu um edifício extraordinário, encomendado por Bernard Arnault, o Presidente do grupo de produtos de luxo LMVH, para albergar um museu e centro cultural que teve um investimento de construção de perto de 150 milhões de dólares. A visita, para quem está em Lisboa e para aguçar o apetite, é fácil e barata. Basta ir a www.fondationlouisvuitton.fr e começar a percorrer o site. Aí poderão encontrar informação sobre as actividades, mas também registos de eventos recentes - desde o concerto inaugural de Lang Lang em Outubro até uma recente actuação, já em Novembro, dos Kraftwerk. Encontrarão também uma visita electrónica à obra do ponto de vista arquitectónico, que tembém pode ser vista através de uma aplicação disponível para smartphones. Ainda nesse campo existe também uma aplicação, concebida especialmente para crianças, que lhes permite fazerem uma visita virtual a esta obra de Gehry, “Archi Moi”, disponível para iPad.


OUVIR - Poucos discos me agarraram e surpreenderam tanto como “Down Where The Spirit Meets The Bone”, o álbum que a norte-americana Lucinda Williams editou em Outubro. Aos 61 anos é o seu primeiro duplo CD e inclui 18 temas originais, além de uma canção, “Compassion”, que abre o disco, feita a partir de um poema do seu pai, Miller Williams, e de uma versão de um tema de JJ Cale, “Magnolia”, que encerra o álbum. Além disso este é o disco de estreia da sua própria editora, Highway 20 Records. A produção é dela própria, de Tom Overby, seu marido, e de Greig Leisz. Entre os músicos está a secção rítmica de Elvis Costello, o trio Jackshit, ou o guitarrista Bill Frisell. A base da música de Lucinda Williams é a country, com incursões frequentes nos blues. Aliás o segundo CD do álbum é assumidamente bluesy. Eu não gosto muito de dizer coisas destas, mas ouvindo vez após vez este disco, e a diversidade e intensidade das suas canções, ocorre-me que este é uma daqueles momentos em que o título de obra de carreira se pode aplicar. Definitivamente um dos grandes discos de 2014. (Highway 20 Records, na Amazon)


 


PROVAR - No meio da proliferação das hamburguerias de todos os feitios e padrões vale a pena referir uma casa inaugurada há pouco tempo sob o nome “A Loja”. Fica perto do Liceu Maria Amália, entre a Artilharia Um e a Rua Castilho, cá para cima, do lado da Marquês da Fronteira - esta é aliás uma rua de boa memória em matéria de restauração. A Loja tem uma decoração leve e confortável, o pessoal é simpático e, como se exige numa casa destas, a carne é de boa qualidade, saborosa - e na cozinha sabem fazer o hamburguer mal passado (e é aí que se percebe que a carne que serve de base é boa). Há umas surpresas que vão variando mês a mês - em Outubro houve o hamburguer tártaro, em Novembro o de alheira com grelos salteados, vamos lá a ver que hamburguer traz o Pai Natal em Dezembro. Enquanto não se conhece o menu surpresa de Dezembro uma boa hipótese é o hamburguer da Loja, que leva cebola caramelizada e queijo gruyére. As batatas fritas são mesmo caseiras, grossas e vêm no ponto, sem óleo a escorrer. Há uma dúzia de variedades de hamburgueres, no prato ou no pão, tábuas de petiscos para uma conversa ao fim da tarde, saladas e sopas para as dietas e, nos doces, uma tentadora mousse de chocolate da casa e, se ainda não tiver esgotado a célebre e única A Tarte de amêndoa.  A Loja fica na Rua D. Francisco Manuel de Mello 26.


 


DIXIT - “Não é uma Justiça igual para todos que destrói a democracia - é a impunidade” -  Luis Rosa, no “i”.


 


GOSTO - Os turistas que visitam Lisboa descobriram as castanhas assadas e tornaram-se compradores frequentes do petisco.


 


NÃO GOSTO - Da maneira sistemática como se repetem inundações em Lisboa cada vez que a chuva é mais intensa.


 


BACK TO BASICS - “Os políticos deviam ler livros de ficção científica em vez de histórias de detectives e de crimes” - Arthur C. Clarke

novembro 21, 2014

SOBRE A ARTE DE FUGIR DE DECIDIR

 


INUTILIDADES - Uma coisa que me surpreende cada vez mais é como, neste tempo em que a propagação da informação surge instantaneamente em várias plataformas, alguns protagonistas da vida pública, seja política ou económica, persistem em achar que podem deixar para depois uma resposta. Neste tempo quem não responde, foge; quem não fala, esconde. Mesmo que não seja assim, o efeito é esse. O silêncio penaliza quem o amplifica. Os últimos meses estão cheios de casos destes - o BES, claro, mas também agora os efeitos directos e colaterais dos vistos gold, as taxas a taxinhas de Lisboa, as colocações de professores, o Citius e etc e etc. O desgaste de imagem dos protagonistas destas situações deve-se, em primeiro lugar, a uma má gestão dos tempos de resposta, à falta de capacidade de ter um discurso organizado, à falta de compreensão e previsão dos efeitos de uma medida, de um discurso, de uma decisão. Não estamos no século XIX para dizer, como ouvi por estes dias  a um ilustre académico empossado num cargo público, que só para a semana se pronunciaria sobre determinado assunto, aflito por o tutelar Ministro lhe ter passado a responsabilidade da reacção. O que sai fora de tempo, é inutil. Quem se deixa cair na inutilidade não se pode queixar de ser depois ignorado, ultrapassado, e de não ter voz activa na matéria que era suposto governar. É isto que amiúde se passa no reino.


 


SEMANADA - A posição da Galp e REN relativa à taxa extraordinária sobre o sector energético provoca um rombo de 60 milhões nas contas do Estado; o Tribunal Constitucional detectou ilegalidades em todas as candidaturas às presidenciais de 2011; as gorduras do Estado aumentaram mil milhões entre 2007 e 2015; a Assembleia da República teve prejuízos de 6,17 milhões de euros em 2013, um valor dez vezes superior ao resultado negativo de 2012, de 680 mil euros; Marques Mendes disse que achava que uma empresa, da qual é sócio, se extinguira em 2011 - por acaso a referida empresa, JMF, está ligada ao caso dos vistos dourados; Portugal registou este ano o número mais baixo de incêndios florestais dos últimos 25 anos; a GNR caçou este ano 39 incendiários em flagrante; uma empresa que assegura transportes escolares em Santa Maria da Feira deixou uma criança de 3 anos, por esquecimento, dentro do autocarro durante quatro horas; nove crianças por dia sofrem quedas graves; uma rusga da PSP num bar em Alcântara levou a que subitamente fossem deixadas no chão da pista de dança 11 armas brancas, uma soqueira e quase 200 doses de droga; Braga é a cidade portuguesa com maior número de pessoas inscritas num site destinado a promover a infidelidade nas relações afectivas - 17 mil utilizadores em Braga, 15 mil no Porto e 13 mil em Lisboa; parece que a RTP vai ficar com a transmissão dos jogos da Champions League por ter oferecido mais do que a TVI pagava por eles; no Reino Unido os jogos da Champions não são licitados pela BBC e são transmitidos pela ITV e a Sky Sports, ambas privadas, como a TVI.


 


ARCO DA VELHA - Em pouco mais de um ano os vistos gold passaram de case study para  caso de polícia e, pela primeira vez, um juiz mandou prender um director de uma das polícias do Estado.


 


FOLHEAR - Se ha coisa de que gosto é de uma edição provocadora. E poucas edições são tão atraentes, provocadoras e inesperadas como este “O Bordel das Musas ou as nove donzelas putas”, de Claude LePetit, agora lançado pela Guerra & Paz. A boa tradução é de Eugénia de Vasconcellos e as ilustrações, a condizer com o espírito libertino da obra, são de João Cutileiro. A edição é bilingue e parte do original francês, escrito no século XVII. O autor acabou na fogueira aos 23 anos - e, como diz o editor Manuel S. Fonseca no texto de apresentação, “queimaram-lhe o corpo por causa dos pecados das alma”. João Cutileiro, num curto texto recorda que “há pouco mais de 150 anos ainda na praça do Giraldo havia autos de fé e execuções com palco e tudo” E remata: “quando faço estes desenhos penso sempre nisto”. A tradutora, Eugénia de Vasconcellos, pelo seu lado,  sublinha o prazer que sentiu em “levar-lhe um verso que seja para outro país, outra língua”, recordando: “Claude Le Petit morreu muito jovem, a poesia não lhe cabe na idade; acredito que estamos diante de uma voz singular que tentou e desconseguiu romper o casulo das suas circunstâncias”.


 


VER - Uma semana com muito que observar. Começo pela Galeria Luis Serpa Projectos (Rua Tenente Raul Cascais 1B) onde abriu Skate.Exe - é a sétima exposição do ciclo “Olho Por Olho Mente Por Mente”comissariado por António Cerveira Pinto. André Sier partiu do universo do skate e esta exposição (na imagem) apresenta uma série de obras interativas multimédia, fotografia digital e esculturas 3D. Logo a seguir destaque para o novo espaço da Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12 a 16) - e para a inauguração uma colectiva, “grifo”, que reúne trabalhos de Helena Gonçalves, Teresa Gonçalves Lobo, Pauliana Valente Pimentel, Cláudia Garrudo, Jaime Vasconcelos, Joanna Latka, e Marta Ubach. Na galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 r/c esq) , duas exposições: “Fúcsia” de Jorge Molder e “A memória Viva Nasce A Cada Dia, Florescendo”, de Catarina Branco. E, finalmente, no Museu do Chiado, a começar agora e durante um ano, apresentação de trabalhos de artistas portugueses que têm vindo a desenvolver trabalho lá fora, mas sem eco em Portugal, sob o título  “Ecos On The Wall: diáspora portuguesa”. Finalmente, em “A Pequena Galeria”, (Av. 24 de Julho 4C) este é o último fim de semana de “A Fotografia Nas Redes Sociais”.


OUVIR - Neil Percival Young completou 69 anos há poucos dias. Está a tornar-se num hábito, verdadeiramente fruto dos tempos, falar de novos trabalhos de nomes da primeira linha da música popular anglo-americana que continuam a fazer bons discos com idades, digamos, avançadas. Aqui há umas semanas falei de Leonard Cohen, que vai nos 80 anos, hoje é a vez de Neil Young. A sua carreira musical começou em 1966 com os Buffalo Springfield, portanto há quase cinco décadas - e o mais engraçado é que continuo a ter um imenso prazer a ouvir os discos dos Buffalo Springfield. Depois vieram os Crazy Horse, Crosby, Stills, Nash & Young e, em 1979, esse cataclismo conhecido por “Rust Never Sleeps”, que mudou a minha vida e a maneira de ouvir música - a minha e de muitos mais. É curioso que após todos estes anos o novo disco de Young tenha uma versão acústica e outra com uma orquestra; em 78 a digressão “Rust Never Sleeps” tinha uma primeira parte acústica e outra eléctrica. Passaram-se os anos e a electricidade ficou depurada. Mas mantém-se a ideia da pureza das formas - e sobretudo a intensidade de interpretação -  que só a versão acústica (apenas com guitarra, ukelele, piano e voz) transmite. A presença da orquestra em vez dos Crazy Horse é o sinal dos tempos e da idade. Mas é também o testamento da insubordinação e imprevisibilidade que Neil Young gosta de mostrar. São dez canções novas - quase 20 de tão diferentes que parecem nas duas versões.”Storytone”, este novo disco de Young, mostra o que ele sente, o que ele pensa e, acima de tudo como continua atento a tudo à sua volta. Gosto muito de “All Those Dreams”, “Like You Used To Do”, “Plastic Flowers”, o épico “Who’s Gonna Stand Up?” ou road songs como “I Want To Drive My Car” e “Glimmer”. Ou, sempre, da maneira como canta o amor, como aparece em “I’m Glad I Found You” ou “When I Watch You Sleeping”. Nos últimos tempos, antes deste disco, começou a pintar aguarelas, separou-se, apaixonou-se e gravou um disco em sistemas primitivos de som com Jack White. A seguir, pensou numa orquestra. Faz sentido. (CD Reprise, na Amazon)


 


PROVAR - Quando se tem uma segunda estrela Michelin num restaurante, merecida, não se pode desfazer a imagem criada com o que acontece num outro restaurante a uma centena de metros do premiado. O Belcanto recebeu esta semana a segunda estrela Michelin e José Avillez está de parabéns. Mas o bem que faz no Belcanto não pode justificar o que permite e tolera ali ao lado no Mini Bar, no Teatro de S. Luiz. Avillez tem cinco restaurantes na zona do Chiado e um no Porto. Talvez já não dê a atenção devida à sua marca e isso não é bom. No Chiado, além do Belcanto, estão o inicial Cantinho do Avillez, o Café Lisboa no S. Carlos, a Pizzaria Lisboa ali ao pé e o Mini Bar no S. Luiz. Já experimentei os cinco e não recomendo a Pizzaria Lisboa nem o Mini Bar. A Pizzaria porque não tem os mínimos de qualidade e serviço, o segundo porque a confecção e qualidade são inconstantes e o serviço é pretencioso e ineficaz. Fui lá esta semana e explicaram-me que finger food, que é o nome que dão ao que servem, se chama assim porque se come com os dedos; apreciei saber. Só não percebo porque é que num sítio de tapas se esconde o vinho longe do cliente sem haver condições para existir cuidado nem atenção para o servir quando ele é preciso na mesa. Há um lado pretencioso, no contraste entre os petiscos e o serviço, que é fatal. Constatei ainda que o tempero e qualidade dos pratos são variáveis - o cornetto temaki de atum com soja picante estava bom num dia e exageradamente temperado noutro; a cavala fumada com salada de maçã e aipo com trufa era insípida; as vieiras, cozinhadas no ponto, vinham no entanto com o sabor próprio demasiado ofuscado por um duvidoso tempero thai. Salvou-se o ferrero rocher “parece que é mas não é”, que leva foie gras, manteiga de cacau, natas e avelã. E salvou-se o vinho, um belo branco feito em parceria com José Bento dos Santos, com base nas castas Arinto e Viognier - pena é que fosse preciso fazer um requerimento cada vez que se queria continuar a degustá-lo. A única coisa constante foi o empratamento, viçoso. Mas os petiscos, petiscam-se, eventualmente com os dedos, sem ser só com os olhos. Estaremos perante um daqueles momentos em que a forma pretende superar o conteúdo?


 


DIXIT - "Não menti em nenhum dos momentos em que falei neste Parlamento" - Maria Luis Albuquerque, Ministra das Finanças, na Comissão Parlamentar de inquérito ao BES.


 


GOSTO - Do novo sistema de informação de proximidade, o Tomi, instalado em estações de Metro de Lisboa, uma espécie de tablet gigante com sugestões sobre a zona e que até selfies podem fazer.


 


NÃO GOSTO - A um mês do fim do primeiro período ainda há alunos sem aulas de compensação devidas pelos atrasos nas colocações.


 


BACK TO BASICS - O preço é aquilo que se paga, o valor é aquilo que se obtém - Warren Buffet

novembro 14, 2014

TAXAS - A OUTRA EPIDEMIA

BASÓFIAS -  Por muito que eu tente assobiar para o ar é impossível fugir a este tema: António Costa aproveitou nos últimos anos todas as oportunidades que teve para criticar as medidas de austeridade, e nomeadamente os aumentos de impostos. Aproveitou os ares dos tempos, e sobretudo as indemizações do Estado, pendentes há décadas, à Câmara Municipal de Lisboa, para mascarar resultados e se armar em grande gestor das contas públicas. Depressa se esvaíram os milhões dessas indemnizações num aparelho autárquico que nunca reformou e, à primeira oportunidade, surgida agora, aumentou a colecta de taxas na cidade. Lisboa, quando a coisa fôr vista com atenção e distância daqui a uns anos, tornou-se num sorvedouro de ineficiências durante o consulado de António Costa - e esse é o seu cartão de visita para os eleitores quando se apresentar a eleições nacionais. Pelo sim pelo não já começou a recuar em questões como a reposição dos salários da Função Pública e outras promessas se esvaziarão com a suavidade própria dos vendedores de banha da cobra. Aos poucos se irá descobrindo como a basófia era maior que os ditames da realidade. Esta realidade mostrará que António Costa tem um mau currículo em Lisboa, mascarado apenas pelo efeito para o exterior, que sempre privilegiou, à defesa dos interesses dos habitantes e contribuintes da cidade que cá habitam e que no dia a dia vêem uma cidade mais agreste. Imaginem isto transposto para o país.


 


SEMANADA - Em 2013 os hospitais portugueses registaram 40462 casos de pneumonia e 8424 doentes (20%) acabaram por morrer; quase15%  das torres de refrigeração analisadas de 2010 a 2012 em todo o país tinham a bactéria legionella; a importação de bacalhau aumentou 76% em Outubro; o Presidente da República recomendou ao líder parlamentar do PS que fizesse “o trabalho de casa”; “O que andaram a fazer os accionistas e gestores” da PT - questionou Cavaco Silva numa declaração, sublinhando que essa é “uma pergunta que os portugueses têm o direito de colocar”; Cavaco Silva condecorou Zeinal Bava em 10 de Junho deste ano, com a ordem de mérito comercial; o ex-Presidente Ramalho Eanes afirmou que os portugueses não devem limitar-se a votar de quatro em quatro anos e que devem mostrar aos poderes que “não podem ultrapassar determinados limites”; uma stripper brasileira foi filmada a conduzir um alfa pendular da CP a 220 km/h e colocou o filme on line; Maria Luis Albuquerque admitiu que a classe média foi a grande sacrificada pelos planos de austeriodade, justificando esse facto por, disse, em Portugal existir um reduzido número de ricos; o BBVA fecha 43 balcões em Portugal; a banca reduz mais de 1200 colaboradores só este ano; o número de famílias que deixaram de pagar as mensalidades do crédito à habitação subiu para 150 mil; Luis Filipe Menezes diz ter sido alvo de um “tsunami psicoafectivo”, a propósito das suspeitas de corrupção e enriquecimento ilícito que o têm envolvido.


 


ARCO DA VELHA - Manuel Maria Carrilho deu uma conferência de imprensa para acusar o Governo de “apoio encapotado” a Bárbara Guimarães, sua ex-mulher, que leu um poema sobre violência doméstica num encontro promovido pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.


 


FOLHEAR - Um livro que conta histórias do quotidiano, na linguagem de agora, sem preconceitos nem pruridos, que relata façanhas e pecados, bondades e malfeitorias, é de si um facto raro. Um livro que foge ao politicamente correcto e fala da vida que existe é quase subversivo. Um livro assim, escrito em Angola, nos tempos que correm, a relatar o dia-a-dia de personagens actuais, é coisa rara e - para mim - nunca vista. “A Virgem” é uma história de amor antigo no tempo de hoje, passado na cidade do Lobito. Está escrito com expressões do país, que nos levam a aprender o que é a Angola para além das intrigas políticas e das lutas de poder - este livro é um romance sem ser em tempo de guerra. É uma história de amor, simples sem ser piegas. Divertida. Bem escrita. Não é passado em Luanda, é no Lobito; não fala de ministros nem de generais, nem de condomínios, nem de fortunas e bancos. Fala das pessoas e do que elas fazem. O seu autor assina Tempestade Celestino, mas de facto chama-se Celestino Jerónimo, estudou Relações Internacionais e é funcionário público numa empresa do Lobito, depois de ter sido repórter, jornalista, cronista. Escreve sobre pessoas, costumes e os ritmos da vida. Só posso dizer que foi uma surpresa e gostei - da diferença e da ousadia que é escrever um romance apenas para contar uma história de amor. Conheço uns rapazes e raparigas que se aborrecem com este conceito. Edição “Guerra & Paz”.


 


VER - Como o nome indica uma revista interactiva, digital,  tem que ser vista e às vezes ouvida, não pode apenas ser apenas lida ou folheada. Baseada em três vectores - artes, ciência e tecnologia, e com opção de escolha entre textos em português ou inglês, a “Luz” está disponível para download gratuito para iPad na App Store em 74 países e já tem 4500 leitores. Estão disponíveis quatro edições, focadas nos elementos Sol, Água, Ar e Terra - tudo fontes de energia. A revista, concebida para ser vista em tablets, é uma aplicação nativa para iOS e vai estar brevemente disponível também em Android. Com esta publicação digital a EDP tem claramente como objectivo mostrar como está ligada às tendências e tecnologias mais recentes. Nos números já editados é possível, por exemplo, ver os projectos de arquitectura da nova sede EDP (que pode ser visualizada em 3D) e o Centro de Artes e Tecnologias da Fundação EDP, o primeiro a funcionar já para o ano e o segundo em 2016.


OUVIR - Hoje em dia tenho um método para os discos que continuo a adquirir compulsivamente - primeiro ouço-os no carro, nas voltas da cidade ou a caminho de casa. No carro consigo saltar rapidamente de faixa para faixa, voltar atrás, ver se uma canção resiste à interrupção de um telefonema que entra no sistema - no fundo é o equivalente moderno do salta-pocinhas feito com a agulha no tempo em que se ouvia vinil (por necessidade e não por moda). Álbum que resiste a este tratamento passa para a fase seguinte que é ser ouvido várias vezes em casa, de seguida, de fio a pavio. “Nostalgia”, de Annie Lennox, resistiu aos testes e passou à fase de escuta intensiva. Aproveitando o título do álbum deixo aqui uma nota pessoal, nostálgica se quiserem: o cartaz de lançamento do “Blitz - A Música em Jornal”, feito há 30 anos, tinha um fundo amarelo vivo, com as letras Blitz a vermelho e uma fotografia a preto e branco de Lennox, nessa altura na crista da onda dos Eurythmics, o tempo de “Sweet Dreams”; ainda colei uns cartazes desses à porta do Frágil, no Bairro Alto. O título “Nostalgia” vem do facto de este disco ser feito de versões do cancioneiro popular norte-americano, como “Georgia On My Mind”, “I Put A Spell On You”, “Summertime”, “I Cover The Waterfront” ou “You Belong To Me” e “The Nearness Of You” - são 12 ao todo.  Lennox, que está à beira dos 60 anos, claramente amadureceu voz, sensibilidade e capacidade de interpretação. Nunca vai pelo caminho fácil, arrisca por vezes remar contra a tradição. E fez um disco que me deu muitíssimo prazer. (CD Island/Universal, disponível nos sítios onde ainda há discos).


 


PROVAR - O edifício do Espelho de Água data da Exposição do Mundo Português, de 1940 - foi feito para ser a cafetaria do evento. Ao longo das décadas teve várias utilizações, desde posto de turismo até restaurante, passando por um clube privado e uma discoteca que fez época nos anos 90 do século passado, o T-Club. Os últimos anos foram para esquecer, em projectos sem qualidade e que afundaram rápido. Agora ganhou novo fôlego, com um novo proprietário que pela primeira vez desde há alguns anos soube aproveitar as potencialidades arquitectónicas do edifício e a sua localização, em cima do rio - e assim foi recuperada a esplanada. A decoração é simples mas cuidada, a realçar o edifício - que teve pequenas alterações como um parte do tecto que pode abrir na zona do bar. A cafetaria, aberta desde as 10 da manhã, ocupa o espaço, amplo, de entrada, convivendo com obras de arte - já que o novo proprietário, o empresário luso-angolano Mário de Almeida, é também galerista. E assim, lá está, finalmente, à vista, o mural que o artista norte-americano Sol Lewitt pintou em finais dos anos 80. Arte à parte a cafetaria tem propostas simples, de sandes a saladas, ovos em diversas versões e pisceas, que são as boas pizzas do local, até pratos (bem) confeccionados. Ao longo de todo o dia pode passar-se por lá e dentro em breve abrirá o restaurante, na sala que tem o mural de Lewitt . Em duas visitas, uma delas numa mesa mais numerosa, o resultado foi sempre bom em qualidade e muito razoável no preço. Quando o restaurante abrir darei notícias. Espelho de Água, Avenida Brasília, 213 010 510


 


DIXIT - “Em Portugal, já não há direita e esquerda, mas só governo e oposição, isto é, os que têm de se reger pelo dinheiro que há, e os que podem fingir que não tem de ser assim” - Rui Ramos, n’ Observador.


 


GOSTO - Do vinho Têmpera, 2010, de José Bento dos Santos, feito à base de uvas da casta Tinta Roriz.


 


NÃO GOSTO - Dos croissantes simples, massudos, da Sacolinha, no Chiado.



BACK TO BASICS - Na cauda é que está o veneno - anónimo

novembro 07, 2014

SERÁ QUE O PRIMEIRO MILHO É DOS PARDAIS?

DIZERES POPULARES - A procissão, como se costuma dizer, ainda vai no adro. Esta corriqueira frase aplica-se às presidenciais, mas também ao futuro da coligação governamental, ao evoluir de António Costa no PS e, claro, ao BES, ao Novo Banco, às previsões do Orçamento do próximo ano, e, para manter um ar contemporâneo, à venda da PT - todos os dias tem aparecido novo interessado. Até parece que fica mal não querer comprar. Grupo que é grupo que se preze manifesta interesse. Afinal, a PT parece valer mais do que aquilo que se dizia - tantos são os interessados. Eu, que gosto do que a PT fez e construíu ao longo dos anos, às vezes ponho-me a falar com os meus botões e imagino o que seria se o poder anterior voltasse pela mão de um dos putativos compradores. Todos aqueles que andaram a esfregar as mãos de contentes quando Zeinal Bava saíu devem agora estar com uma considerável dor de cabeça com a possibilidade de ele poder estar ligado a quem, no fim, fôr o comprador. Ninguém sabe o que vai acontecer e acredito que muita água há-de correr nesta ponte por onde passa o negócio. E há muita gente a pensar se aqui se aplicará a frase: “o primeiro milho é dos pardais”.


 


SEMANADA - Insolvências de empresas e singulares caíram 32% entre Janeiro e Junho; a Comissão Europeia reviu em baixa as previsões de retoma da economia; a Comissão Europeia considerou irrealistas as previsões do Governo para 2015; o Banco de Portugal apresentou queixa contra Ricardo Salgado e outros ex-gestores do BES por suspeitas de burla, infidelidade e falsificação; a Câmara Municipal de Lisboa não entregou dentro do prazo estipulado o seu Orçamento para 2015; o ex-Presidente da Câmara de Vila Verde, Braga, aumentou a dívida da autarquia em mil por cento ao longo dos 12 anos do seu mandato; uma auditoria à reabilitação do Bairro do Aleixo, no Porto, aponta irregularidades à gestão de Rui Rio; a Câmara Municipal do Cartaxo, que tem uma dívida de 60 milhões de euros, pediu uma ajuda urgente de 11 milhões para cumprir o pagamento de necessidades básicas do funcionamento da autarquia; nos últimos dez anos verificaram-se 250 fugas das cadeias e há ainda 15 reclusos por apanhar; uma auditoria da Inspecção Geral da Justiça revelou que existem nas cadeias portuguesas negócios sem controlo no valor de 8,3 milhões de euros; nas cadeias estão cinco centenas de presos a cumprir penas por violência doméstica; desde 2012 a violência doméstica faz três orfãos por mês; num só ano a ASAE apreendeu 1,2 milhões de litros de vinho português adulterado; 13% dos portugueses entre os 20 e 79 anos têm diabetes; na semana passada o conjunto dos canais de cabo ultrapassou a SIC no horário nobre e está praticamente colado à TVI;  “Os Maias”, de João Botelho, é o 10º filme português mais visto de sempre.


 


ARCO DA VELHA - Xanana Gusmão não avisou Passos Coelho da expulsão de magistrados portugueses de Timor Leste invocando que “estava atrapalhado com outras atividades”. Os oito portugueses expulsos investigavam há três anos ministros do governo timorense alegadamente por corrupção..


 


FOLHEAR - Joana Stichini Vilela regressa à crónica das últimas décadas do século passado, com “LX 70 - Lisboa, do Sonho à Realidade”, uma espécie de sequela de “LX 60- A Vida em lisboa Nunca Mais Foi a Mesma”. O novo volume, dedicado à década de 70, faz a viagem pelos últimos anos do antigo regime e sobre os primeiros anos da democracia, incluindo os anos da brasa.


Aqui estão dados estatisticos de um ano, 1970, em que 63% dos partos ainda decorriam em casa, em que apenas 47% das casas tinham água canalizada e em que Portugal tinha 8,6 milhões de habitantes - e que foi o ano de estreia de “007 Ao Serviço de Sua Majestade” e o ano em que, apesar de Eusébio ter sido o melhor marcador, o campeonato foi ganho pelo Sporting. O livro prossegue a viagem pela década, pelas boites como o Stone’s, os programas de rádio e televisão, a arquitectura mais inovadora por exemplo nas igrejas, os filmes portugueses que marcaram uma época, a moda ou os grandes estaleiros de reparação naval inaugurados na altura. E depois, claro, os anos a seguir a 74 - a explosão, o regresso dos retornados, os primeiros partidos, os primeiros políticos, Carlucci, Crazy Horese, Cornelia e Capitão Roby. São 300 deliciosas páginas para quem viveu a década, aqui muito bem recordadas por escrita e imagem e com uma belíssima paginação, de Nick Mrozowski e Pedro Fernandes. A década de 80 desta equipa aparece quando? “LX70- LISBOA: DO SONHO À REALIDADE”, editado pela D.Quixote.


 


VER - Esta semana faço sugestões avulsas. Começo pelo Centro de Artes Visuais, de Coimbra, que expõe “Esta Terra É A Tua Terra - Os Anos 90 em Portugal, na colecção dos Encontros de Fotografia” (na foto) e que inclui imagens de António Júlio Duarte, José Manuel Rodrigues, Nuno Cera, Paulo Nozolino, Duarte Belo e de um conjunto de fotógrafos estrangeiros que foram convidados pelos Encontros, ao longo dos anos, a realizar trabalhos sobre Portugal. A curadoria é de Sérgio Mah.


Na Culturgest podem ser vistos cartazes de exposições desenhados pelos artistas que são expostos - é uma amostra da colecção Lempert, que tem cerca de 15 mil peças. Podem ser vistos cartazes criados por Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Richard Hamilton, Dieter Roth, Oswald Oberhuber, Sol Lewitt, Marcel Broodthaers, Lawrence Weiner, ou Günter Brus, entre outros. A exposição “permite compreender em que medida e de que maneira um objeto, cuja função é publicitar e que tem um ciclo de vida curto, foi sendo recriado e valorizado por muitos artistas”. Está na Culturgest, em Lisboa, até 15 de Março.


Na Sociedade Nacional de Belas Artes e até 5 de Dezembro mostra-se uma colectiva sob o título “Projecto Sociedade/Um Cadáver Esquisito Para o Século XXI”, apresentando um alargado conjunto de participantes, entre artistas e curadores, que foram convidados a integrar uma obra colectiva “que retoma os princípios do "cadavre-esquis", método de criação colectiva espontâneo e inconsciente, guiado pela insondável justeza do acaso, inventado e profusamente praticado nas primeiras décadas do século XX por poetas e artistas surrealistas.” Integra imagens de Julião Sarmento, Inez Teixeira, Pedro Calapez, Rui Chafes, Luis Pavão, Delfim Sardo e João Pinharanda, entre outros.


OUVIR - Nos últimos anos Cecilia Bartoli tem-se dedicado a descobrir e divulgar compositores pouco conhecidos, pegando nas suas árias e dando-lhes o seu toque muito pessoal. As respectivas edições são exemplos de investigação sobre os autores, a sua época, as circunstãncias em que a música foi composta. Agora foi editado mais um trabalho nesta linha, “St. Petersburg”. Bartoli é acompanhada pela orquestra de cãmara I Barocchisti, dirigidos por Diego Fasolis e pelo côro da Readiotelevisão Suíça, dirigido por Gianluca Capuano. As onze árias aqui incluídas, investigadas pela própria Bartoli, foram agora gravadas pela primeira vez e mostram o trabalho de compositores como Araia, Raupach, Cimarosa e Manfredini, que cultivavam a ópera italiana bem longo do deu país, na corte imperial russa das Tsarinas Anna Ioannovna, Elizaveta Petrovna e Catarina a Grande, durante o século XVIII. A meia-soprano Cecilia Bartoli continua a ser um exemplo de técnica vocal e de capacidade de interpretação. CD Decca, disponível em Portugal.


 


PROVAR - Tenho para mim que um bitoque é uma espécie de prova dos nove em qualquer restaurante. Pelo bitoque avalia-se a qualidade da carne, o cuidado no molho, a arte do ovo estrelado e a atenção às batatas. Um destes dias fui experimentar a Casa do Lago, o novo restaurante que abriu no Campo Grande, no lado dos barcos a remos. Fechado durante anos, praticamente em ruínas durante algum tempo, o edifício foi reconstruído, redecorado e funciona desde há pouco tempo. Admito que o sítio me traz boas recordações, desde os tempos da adolescência e, sobretudo, da época da faculdade - o local fica paredes mesias com a Cidade Universitária. Além do mais tem um amplo terraço que proporciona uma boa esplanada, completamente arranjada, a meio do jardim e com vista directa para o lago onde continua a ser possível alugar uns pequenos barcos a remos. Na Casa do Lago o serviço é simpático, a decoração das duas pequenas salas do interior é simpática (uma delas também tem vista para o lago). Há pratos do dia que vão variando, há petiscos como tábuas de queijos e enchidos, ovos mexidos com farinheira ou com espargos ou folhados d emarmelo caramelizado com queijo de cabra. A lista inclui dois pratos de bacalhau (confitado e à portuguesa), o salmão salteado e um risotto de camarão. Nas carnes há cinco bifes e o acima mencionado bitoque. Há vinho a copo, Vale dos Fornos, da região Tejo - honesto. Passemos ao bitoque - carne de bom corte, no ponto em que foi pedido, ovo convenientemente estrelado, gema mal passada, clara em condições; molho saboroso sem transpirar gordura, batatas aos gomos salteadas, o que foi uma boa surpresa. Balanço geral positivo. Local sem pretensões nem enganos. Há parque de estacionamento na faixa interior do lado da Universidade. Está aberto de terça a domingo das 10 às 23 e no fim de semana fecha à meia noite. O telefone é 217 574 241.





DIXIT - “O PS tem de escolher: ou quer recuperar José Sócrates ou quer recuperar o país. Os dois juntos, não dá” - João Miguel Tavares


 


GOSTO - O lucro dos CTT cresceu 16,5% com os novos serviços que começou a prestar, e esta semana anunciou um serviço de expedição de pranchas de surf para vários pontos do país com uma embalagem própria.


 


NÃO GOSTO - A Europa perdeu 421 milhões de aves nos últimos 30 anos.


 


BACK TO BASICS - “Acredito que há por aí alguém a velar por nós. Infelizmente é o Governo” - Woody Allen


 


 

outubro 31, 2014

O GOLPE AUTÀRQUICO QUE LEVOU COSTA ONDE ESTÁ (with a little help from his friend Zé)

GOLPE - O desfecho do julgamento do caso Bragaparques é um belíssimo exemplo do que tem sido a política nos últimos anos em Portugal. Advogados habilidosos e imaginativos, em concluio ideológico com agentes do Ministério Público, criaram, na última década e meia, sobretudo na sua primeira metade, um sistema de fabrico de processos jurídicos para contestar decisões políticas. Nem é bem só a judicialização da política, é o alinhamento ideológico do sistema de investigação judicial que é o mais chocante. O agora vereador José Sá Fernandes foi um dos especialistas nesse assunto e, por isso, o Bloco o recrutou sob o lema “O Zé faz falta”. Cedo se percebeu que, a ele, fazia mais falta o apoio de António Costa que o do Bloco - e  lá está o Zé a alugar a avenida para feiras e a fazer vários dislates autárquicos, sob o manto diáfano do politicamente correcto. A verdade é que este processo da Bragaparques foi o que levou à queda do executivo autárquico de Carmona Rodrigues e à oportuna convocação de eleições municipais antecipadas em Lisboa, que acabaram por colocar António Costa na linha de partida para as suas ambições, agora já perfeitamente claras. Costa deve a Sá Fernandes a construção dessa rampa de lançamento e os eleitores devem à conspiração justicialista o estado em que a cidade está - do Marquês do Pombal às inundações, passando pelas sujidades. Sobre a acusação, cito a decisão do Tribunal, que absolveu Carmona Rodrigues e os outros réus, na época afastados da Câmara:  este processo teve por base um conjunto de “suspeições, impressões, convicções não sustentadas, boatos e rumores”. Lá vai Lisboa...


SEMANADA - As empresas públicas voltaram a furar os tectos de subida de endividamento, que atingiu 5,4% em 2013 quando o limite fixado era de 4%; o número de casais em que os dois estão desempregados aumentou 688% no espaço de três anos; a meio do primeiro período lectivo ainda há 35 mil alunos sem professores e já há escolas que estão a defender o adiamento dos exames; Alberto João Jardim propôs uma revisão constitucional que estabelece um mandado único de dez anos para o Presidente da República; Rui Rio defendeu a realização de eleições primárias no PSD; apoiantes de Rui Rio, do Fórum Democracia e Sociedade,  defendem a realização de um congresso antecipado do PSD; 30 dias após vencer as primárias do PS António Costa continua sem apresentar propostas concretas; o guião para a reforma do Estado foi apresentado há um ano e continua por executar; em todo o mundo são enviados 100 milhões de emails por minuto; o primeiro “banner” publicitário na internet apareceu há 20 anos no pioneiro site da icónica revista “Wired”; a internet já é hoje o segundo meio com maior investimento publicitário em Portugal, a seguir à televisão; Mira Amaral propôs que os investigadores dos laboratórios do Estado sejam classificados em função das patentes criadas e do trabalho feito em ligação com as empresas; o Instituto Politécnico de Bragança tem 1200 alunos estrangeiros; aguarda-se que Alexandre Soares dos Santos se pronuncie sobre a compra do célebre hotel Paris Marriott Champs Elysées por uma empresa chinesa.


ARCO DA VELHA - O director do Instituto de Ciências Sociais deu instruções para que fosse retirado da circulação o mais recente número da revista daquela entidade,  “Análise Social”, justificando que a publicação continha imagens ofensivas, fotografias de graffiti nas ruas de Lisboa que ilustram a insatisfação com o governo e agentes económicos.


FOLHEAR - Tenho desde há uns anos um fascínio pelo exemplar trabalho realizado pela Aperture Foundation no campo da divulgação e estudo da fotografia - seja nas exposições e debates que promove, seja nos livros que edita ou na revista que publica quatro vezes por ano, a “Aperture Magazine”. Só há pouco tempo tive ocasião de conhecer o local onde funciona, em plena zona de Chelsea, em Nova Iorque, num andar amplo em que coexiste o espaço de exposições e a livraria - no caso a exposição era de imagens que fizeram a primeira página do “New York Times” e marcaram a História. A “Aperture Magazine” tem 132 páginas, em grande formato, é excepcionalmente bem impressa em bom papel. Cada edição é dedicada a um tema , além de conter noticiário variado e sugestões. O tema central da edição de Outono da Aperture Magazine é “Fashion” e este número tem como editores convidados a dupla Inez & Vinoodh, que há 25 anos colaboram criando imagens invulgares de moda. Aqui estão referências à célebre responsável da Vogue Francesa Emmanuelle Alt e várias reflexões, de que destaco estas duas: a fotografia de moda foi uma incubadora de inovação e reflexão culturais, especialmente nos anos 60, 70 e 90 e, depois, a seguir ao 11 de Setembro; a outra é a que explora as ligações entre o trabalho da fotografia documental e o trabalho dos fotógrafos de moda. Destaque para os portfolios de Ed van der Elsken e de Jason Evans, este último com os trabalhos para a revista japonesa Hanatsubaki - são imagens impactantes. Há também um portfolio histórico com fotografias marcantes de Richard Avedon, Guy Bourdin, Annie Leibowitz, Bruce Weber, David Bailey, Deborah Turbeville, e Hans Feurer e uma revisitação da época de ouro das revistas britânicas como a I-D e The Face. Mais uma vez, neste número especial sobre a moda, a Aperture Magazine (disponível na Amazon), consegue conciliar a descoberta com a memória e a tradição.


VER - Destaco em primeiro lugar os meticulosos e certeiros desenhos a tinta da china de Pedro Proença em “O Nu E A Fraude”( na imagem) que estão na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18-B), onde a mitologia tem uma presença forte, e que o artista descreve como “uma reflexão sobre a escultura, a pintura e o cinema que não estão lá”.. Em segundo lugar destaco a exposição “Objectos Imediatos”, que mostra 93 obras de José Pedro Croft, feitas ao longo dos 12 últimos anos, em papel e escultura, em grande parte inéditas. Estão divididas pelo espaço do Torreão Nascente da Cordoaria e pela Fundação Carmona e Costa (Rua Soeiro Pereira Gomes 1).  Na Fundação Carmona e Costa estão 52 obras - 31 gravuras, 20 desenhos e uma escultura. As restantes 41 obras, 12 gravuras, 12 desenhos e 17 esculturas, duas das quais de grandes dimensões, estão na Cordoaria. O conjunto doa trabalhos permite perceber a ligação entre o suporte de papel e a escultura na produção de José Pedro Croft.


OUVIR - Quando comecei a ouvir o novo disco de Leonard Cohen, “Popular Problems”, surgiu-me um sorriso. Aos 80 anos Cohen continua a surpreender, a jogar maravilhosamente com as palavras. É impressionante esta capacidade que continua a mostrar. Defende-se, é claro, o seu estilo está cada vez mais próximo da fala do que do canto e os arranjos de Patrick Leonard permitem dar espaço às palavras e à sua voz, aqui e ali ajudada por outras vozes femininas. Cohen grava discos há 47 anos, antes disso escrevia canções, como a que em 1966 entregou a Judy Collins e ficou célebre - “Suzanne”. Foi a escrever poesia e ficção que fez as  primeiras edições - “Let Us Compare Mythologies”, um livro de poemas. data de 1956 e foi a sua estreia editorial. Há meio século que faz canções, grava discos, escreve livros de poesia e novelas, sempre um observador atento da vida, do amor e das relações entre as pessoas. Tem 15 livros editados, 13 discos de originais, seis mais gravados ao vivo e cinco compilações.  Neste “Popular Problems”, que me acompanha por todo o lado há umas semanas, destaco os temas “Slow”, “Almost Like The Blues”, “Did I Ever Love You”, “Nevermind” e “Born In Chains”. Conjuga o humor com o retrato dos tempos actuais, como faz logo na abertura do disco, em “Open”: “ I am slowing down the tune/ I never liked it fast/ you want to get there soon/ I want to get there last”. Portanto, uma canção deste tempo.


PROVAR - Hoje vou falar de uma instituição lisboeta que é o Bar do Hotel Ritz, situado no lobby, à direita de quem entra. O sítio, como toda a arquitectura do hotel aliás, é magnífico. Quando está bom tempo pode utilizar-se o terraço, mas a zona interior é espaçosa e confortável, dominada por uma belíssima tapeçaria a evocar motivos vinícolas. Ao longo de todo o dia o bar serve refeições ligeiras, algumas até algo elaboradas - embora estas estejam só disponíveis à hora de almoço e jantar. Durante a tarde, e sobretudo ao fim da tarde, o Bar do Ritz é um ponto incontornável de encontros entre figuras bem conhecidas da actividade empresarial, da comunicação ou da política. Há mesmo quem faça do local uma espécie de escritório e agende reuniões para o local ao longo da tarde - já vi algumas pessoas ficarem á espera, num qualquer sofá, de falar com uma personbalidade porque o encontro anterior demorou mais e ela ainda está ocupada. Mas reuniões à parte o Bar do Ritz é um local excelente para petiscar durante uma conversa. Para além da inevitável, mas exemplar, salada Caesar, há um belíssimo prego em pão especial (que pode ter ovo ou não), um hamburguer com pickles e cebola confitada ou uma sanduíche de salmão com queijo Philadelphia e endro, além daquela que é talvez a melhor sanduíche club de Lisboa. Quem quiser só tapas tem uma selecção de queijos ou de enchidos de barrancos, os apreciadores de cozinha italiana têm risottos, raviolis e sobretudo um famoso fettiucine de lagosta e camarão. De 4ª a sexta há uma carta de sushi. Destaque ainda para a carta de vinhos do Porto e de vinhos e, ao fim da tarde, para os cocktails.


DIXIT - “Não é por razões fiscais que as pessoas vão ter filhos” - Rui Morais, Presidente da Comissão de Reforma do IRS


GOSTO - Do trabalho de edição de documentários e cinema português em DVD que a Cinemateca Portuguesa,mdirigida por José Manuel Costa, começou a fazer em colaboração com o Museu de Etnologia


NÃO GOSTO - Fiscalidade verde faz subir para 19 cêntimos a diferença do preço da gasolina face a Espanha.


BACK TO BASICS - O nosso destino não está nas estrelas mas sim em nós próprios - William Shakespeare


 

outubro 24, 2014

AR ABAFADO, SALGALHADAS ESCALDANTES

XADREZ - Um estranho clima percorre o país e não é só este verão de S. Martinho, abafado e antecipado. A temperatura continua quente na Justiça e na Educação, com as confusões em torno do Orçamento de Estado, com os novos abusos do Fisco, com as pequenas guerrilhas dentro da coligação. O cenário geral de actuação do Fisco merece particular atenção e não tem só a ver com o aumento da carga fiscal - tem a ver com os abusos na cobrança do IMI relatados esta semana e tem, sobretudo, a ver com a diminuição dos direitos de defesa dos contribuintes. O Fisco tem dois comportamentos e isso tornou-se política oficial neste Orçamento: limitar os direitos de quem tem poucas condições para reclamar e manter as aparências nos restantes. Quando um sorriso é permanente há boas razões para se pensar que ele pode ser falso. A Ministra das Finanças é desse género de permanente sorriso, e talvez por isso se diga que ela tem ambições políticas - a hipocrisia é uma característica necessária no sistema que temos. Se ela enveredar pela política terá muita concorrência - perfilam-se no horizonte os candidatos a protagonistas do próximo ciclo político: em dois anos vamos ter as eleições legislativas, as presidenciais e as autárquicas. Se repararem com atenção já se estão a dispôr peões para estes três tabuleiros, até para o autárquico. Os jogos começaram a desenhar-se, mas ainda ninguém consegue dizer como eles se vão desenvolver. Imagino algumas surpresas, antevejo candidatos a mudarem de tabuleiro e imagino muita gente a dar o dito por não dito em termos de disputas de cargos.


 


SEMANADA - As novas medidas do IRS foram modificadas em diversos pontos depois de apresentadas; o responsável pelo estudo sobre a reforma do IRS considerou uma “salganhada” a cláusula de salvaguarda anunciada por Passos Coelho; um estudo da Deco calcula que o Fisco esteja a cobrar 244 milhões de euros em excesso no Imposto Municipal sobre Imóveis; os contribuintes com processos no fisco até cinco mil euros ficam sem direito a recurso aos tribunais para se poderem defender; insultar funcionários do fisco vai dar multa ou prisão até 5 anos; Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças, questionou a aplicação da Fiscalidade Verde num país com baixa competitividade como Portugal; as confusões sobre a sobretaxa do IRS e na educação criaram mal estar na coligação; as negociações sobre uma eventual nova coligação só começarão no início de 2015; no momento da despedida Durão Barroso disse que a União Europeia tinha ficado mais forte depois da crise e confessou que, ao longo dos dez anos em que foi Presidente da Comissão Europeia, perdeu “as ilusões”; um docente que já estava colocado nos Açores, foi simultaneamente colocado em mais 95 escolas por todo o país e, em consequência, cerca de dois mil alunos continuaram sem aulas; Passos Coelho elogiou a determinação de Nuno Crato; os gastos em estudos e pareceres no Estado sobem 32% no orçamento para 2015, atingindo 766 milhões, contra 581 milhões este ano; os ninhos de cegonha em Portugal aumentaram 50% nos ultimos dez anos; seis em cada dez lisboetas não utilizam transportes públicos; a partir de 2015, em todas as salas de cinema da NOS, será possível consumir pipocas portuguesas feitas a partir de 400 toneladas de milho que serão compradas a 10 produtores nacionais.


 


ARCO DA VELHA - A coisa já é sobejamente conhecida mas não resisto: Os Juízes do Supremo Tribunal Administrativo reduziram a indemnização a uma mulher alegando que “aos 50 anos a actividade sexual não tem a importância que assume em idades mais jovens”. A mulher, na sequência de um erro médico numa cirurgia, nunca mais conseguiu ter relações sexuais após a operação. Não é só o Citius que não funciona na justiça portuguesa.


 


FOLHEAR - A edição de Novembro da revista “Monocle” tem a arquitectura e o design como pratos principais, mas há bastante mais para ler. Um dos artigos interessantes é sobre a divisão, ainda hoje existente, dos Ministérios do Governo federal Alemão, entre Bona e Berlim, 25 anos depois da queda do Muro. Outro curioso artigo é sobre  as mudanças que o novo adido cultural da França em Nova Iorque está a introduzir, com o objectivo de tentar fazer renascer a francofonia no outro lado do Atlântico - algo que podia ser lido pela diplomacia portuguesa, em prol da lusofonia, claro. Ainda dentro dos temas culturais destaque para o primeiro de uma série de artigos sobre a criatividade na concepção de novos espaços, no caso uma galeria de arte em Los Angeles, “The Mistake Room”, Passando para o lado das cidades um dos destaques vai para Istambul, com uma boa proposta de roteiro. No Design Directory há um destaque para o Bairro da Bouça, no Porto, um projecto de habitação social, e ainda duas referências adicionais a Portugal: uma à empresa O Editorial que produz as tábuas de cozinha e de servir tapas desenhadas por Gonçalo Prudêncio,  e a outra à cadeira Aranha, desenhada por Marco Sousa Santos e produzida pela Branca, em Paços de Ferreira. A terminar, mais dois destaques - um para o belíssimo relato de um almoço com Gay Talese em Nova Iorque, um dos mentores do New Journalism; e o outro vai para o editorial de Tyler Brulé, que reflecte de forma acertada, mas polémica, sobre a decadência da imprensa e as razões de tal situação, e os modelos de negócio seguidos por alguns jornais no digital. Atrevo-me a dizer que é leitura obrigatória para quem trabalha em qualquer disciplina da comunicação.


 


VER - Há para ver, nos próximos tempos, dois documentários sobre música bem distintos, ambos com um longo processo de gestação. Vou começar por “Uivo” (na foto), um documentário sobre o radialista, editor e produtor António Sérgio, que morreu em 31 de Outubro de 2009. No Facebook há uma página intitulada “Eu aprendi a ouvir música com António Sérgio”, que é por si só o testemunho de uma geração que descobriu faces menos óbvias da edição discográfica através dos seus programas radiofónicos, como “A Hora do Lobo”, “Som da Frente” ou “Lança Chamas”. O produtor e realizador do “Uivo”é Eduardo Morais, que já se tinha aventurado antes, noutro documentário sobre a temática do rock,  “Meio Metro de Pedra”, que traçou um panorama da produção portuguesa desde a década de 50. O “Uivo” vai ser estreado dia 1 de Novembro no Palácio Foz e ao mesmo tempo será apresentado o livro “O Uivo da Matilha”, de Ana Cristina Ferrão. mulher e colaboradora de António Sérgio, que com ele trabalhou intensamente.


O outro documentário, bem diferente, vem assinado por Bruno de Almeida, chama-se “Fado”, e foi realizado sobre o trabalho de Camané, a partir da gravação do disco “Sei de Mim”, de 2008. Depois de um documentário sobre Amália, esta é a segunda incursão de Brunco de Almeida no Fado. O documentário estreou por estes dias no Doc Lisboa e é uma viagem ao processo de criação de um disco, que, no caso, mostra também a importância do trabalho do produtor, que foi José Mário Branco.


OUVIR - Entre as Caldas da Rainha e Londres nasceram Los Waves - com uma formação mutante que passou do duo inicial ao quarteto actual. A banda tem feito uma carreira internacional desde que se estreou em Londres, em 2011 e este seu primeiro álbum é editado praticamente em simultâneo nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Portugal. Los Waves cruzam vários estilos, é possível detectar influências que vão da new wave à pop urbana, aqui e ali com uns laivos psicadélicos. Há uma coisa curiosa neste “This Is Los Waves So What?”, que é o facto dos 11 temas manterem uma qualidade homogénea ao ponto de haver quem diga que este álbum é um somatório de singles. Talvez por isso mesmo já há canções de Los Waves nas bandas sonoras de séries como”Gossip Girsl” e “Mentes Criminosas” e em filmes como “Veronica Mars”, “Enough Said”  ou “Cradle Of Storms”. “Golden Maps” foi a canção que ganhou notoriedade no festival South By Southwest e abriu-lhes as portas da América. Claro que está neste disco, que tem tanto de inesperado como de atraente.


 


PROVAR - Quando se fala em éclairs o que vem à mente são bolos, doces, uma das delícias da pastelaria francesa. Acontece que também há éclairs salgados, que podem ser acompanhados por uma salada e assim constituir uma refeição. O admirável mundo dos novos éclairs chegou a Lisboa, mais precisamente à Avenida Duque de Ávila 44. Nos dias bons há uma esplanada no passeio e a sala é espaçosa e elegante. “L´Éclair” é obra de um jovem pasteleiro francês, de 26 anos, Mathieu Croiger, que decidiu experimentar a sua arte e a sorte em Lisboa. O local é cuidado na apresentação e exemplar no serviço, muitas vezes com o próprio dono presente. E além dos éclairs doces ou salgados, há macarons que podem ser invulgares, como os de pistáchio ou de alfazema, e o clássico pain au chocolat. Logo de manhã, que a casa funciona cedo, há deliciosos crosissants bem frescos para o pequeno almoço. Está aberto de segunda a sexta das 07h30 às 20h00 e ao fim de semana das 09h30 às 19h00. Podem ser encomendados éclairs ao metro, para ocasiões especiais, num dos 15 sabores disponíveis. E volta e meia há surpresas, como o éclair de amendoim com uma pitada de flor de sal.


 


DIXIT - “Vocês aqui fazem descontos a deputados?” - parlamentar cujo nome não foi revelado em pergunta ao dono do restaurante “XL”, perto da Assembleia da República, citado pelo jornal “i”.


 


GOSTO - Da série “Os Anos 90”, transmitida às quartas-feiras pelo canal National Geographic.


 


NÃO GOSTO - Os processos judiciais de cobranças de dívidas ainda não estão no Citius.


 


BACK TO BASICS - Quanto mais se observa a política mais se tem a noção que os partidos são todos o mesmo, a única diferença é que aqueles que estão na oposição prometem sempre um mundo melhor - Will Rogers