XADREZ - Um estranho clima percorre o país e não é só este verão de S. Martinho, abafado e antecipado. A temperatura continua quente na Justiça e na Educação, com as confusões em torno do Orçamento de Estado, com os novos abusos do Fisco, com as pequenas guerrilhas dentro da coligação. O cenário geral de actuação do Fisco merece particular atenção e não tem só a ver com o aumento da carga fiscal - tem a ver com os abusos na cobrança do IMI relatados esta semana e tem, sobretudo, a ver com a diminuição dos direitos de defesa dos contribuintes. O Fisco tem dois comportamentos e isso tornou-se política oficial neste Orçamento: limitar os direitos de quem tem poucas condições para reclamar e manter as aparências nos restantes. Quando um sorriso é permanente há boas razões para se pensar que ele pode ser falso. A Ministra das Finanças é desse género de permanente sorriso, e talvez por isso se diga que ela tem ambições políticas - a hipocrisia é uma característica necessária no sistema que temos. Se ela enveredar pela política terá muita concorrência - perfilam-se no horizonte os candidatos a protagonistas do próximo ciclo político: em dois anos vamos ter as eleições legislativas, as presidenciais e as autárquicas. Se repararem com atenção já se estão a dispôr peões para estes três tabuleiros, até para o autárquico. Os jogos começaram a desenhar-se, mas ainda ninguém consegue dizer como eles se vão desenvolver. Imagino algumas surpresas, antevejo candidatos a mudarem de tabuleiro e imagino muita gente a dar o dito por não dito em termos de disputas de cargos.
SEMANADA - As novas medidas do IRS foram modificadas em diversos pontos depois de apresentadas; o responsável pelo estudo sobre a reforma do IRS considerou uma “salganhada” a cláusula de salvaguarda anunciada por Passos Coelho; um estudo da Deco calcula que o Fisco esteja a cobrar 244 milhões de euros em excesso no Imposto Municipal sobre Imóveis; os contribuintes com processos no fisco até cinco mil euros ficam sem direito a recurso aos tribunais para se poderem defender; insultar funcionários do fisco vai dar multa ou prisão até 5 anos; Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças, questionou a aplicação da Fiscalidade Verde num país com baixa competitividade como Portugal; as confusões sobre a sobretaxa do IRS e na educação criaram mal estar na coligação; as negociações sobre uma eventual nova coligação só começarão no início de 2015; no momento da despedida Durão Barroso disse que a União Europeia tinha ficado mais forte depois da crise e confessou que, ao longo dos dez anos em que foi Presidente da Comissão Europeia, perdeu “as ilusões”; um docente que já estava colocado nos Açores, foi simultaneamente colocado em mais 95 escolas por todo o país e, em consequência, cerca de dois mil alunos continuaram sem aulas; Passos Coelho elogiou a determinação de Nuno Crato; os gastos em estudos e pareceres no Estado sobem 32% no orçamento para 2015, atingindo 766 milhões, contra 581 milhões este ano; os ninhos de cegonha em Portugal aumentaram 50% nos ultimos dez anos; seis em cada dez lisboetas não utilizam transportes públicos; a partir de 2015, em todas as salas de cinema da NOS, será possível consumir pipocas portuguesas feitas a partir de 400 toneladas de milho que serão compradas a 10 produtores nacionais.
ARCO DA VELHA - A coisa já é sobejamente conhecida mas não resisto: Os Juízes do Supremo Tribunal Administrativo reduziram a indemnização a uma mulher alegando que “aos 50 anos a actividade sexual não tem a importância que assume em idades mais jovens”. A mulher, na sequência de um erro médico numa cirurgia, nunca mais conseguiu ter relações sexuais após a operação. Não é só o Citius que não funciona na justiça portuguesa.
FOLHEAR - A edição de Novembro da revista “Monocle” tem a arquitectura e o design como pratos principais, mas há bastante mais para ler. Um dos artigos interessantes é sobre a divisão, ainda hoje existente, dos Ministérios do Governo federal Alemão, entre Bona e Berlim, 25 anos depois da queda do Muro. Outro curioso artigo é sobre as mudanças que o novo adido cultural da França em Nova Iorque está a introduzir, com o objectivo de tentar fazer renascer a francofonia no outro lado do Atlântico - algo que podia ser lido pela diplomacia portuguesa, em prol da lusofonia, claro. Ainda dentro dos temas culturais destaque para o primeiro de uma série de artigos sobre a criatividade na concepção de novos espaços, no caso uma galeria de arte em Los Angeles, “The Mistake Room”, Passando para o lado das cidades um dos destaques vai para Istambul, com uma boa proposta de roteiro. No Design Directory há um destaque para o Bairro da Bouça, no Porto, um projecto de habitação social, e ainda duas referências adicionais a Portugal: uma à empresa O Editorial que produz as tábuas de cozinha e de servir tapas desenhadas por Gonçalo Prudêncio, e a outra à cadeira Aranha, desenhada por Marco Sousa Santos e produzida pela Branca, em Paços de Ferreira. A terminar, mais dois destaques - um para o belíssimo relato de um almoço com Gay Talese em Nova Iorque, um dos mentores do New Journalism; e o outro vai para o editorial de Tyler Brulé, que reflecte de forma acertada, mas polémica, sobre a decadência da imprensa e as razões de tal situação, e os modelos de negócio seguidos por alguns jornais no digital. Atrevo-me a dizer que é leitura obrigatória para quem trabalha em qualquer disciplina da comunicação.
VER - Há para ver, nos próximos tempos, dois documentários sobre música bem distintos, ambos com um longo processo de gestação. Vou começar por “Uivo” (na foto), um documentário sobre o radialista, editor e produtor António Sérgio, que morreu em 31 de Outubro de 2009. No Facebook há uma página intitulada “Eu aprendi a ouvir música com António Sérgio”, que é por si só o testemunho de uma geração que descobriu faces menos óbvias da edição discográfica através dos seus programas radiofónicos, como “A Hora do Lobo”, “Som da Frente” ou “Lança Chamas”. O produtor e realizador do “Uivo”é Eduardo Morais, que já se tinha aventurado antes, noutro documentário sobre a temática do rock, “Meio Metro de Pedra”, que traçou um panorama da produção portuguesa desde a década de 50. O “Uivo” vai ser estreado dia 1 de Novembro no Palácio Foz e ao mesmo tempo será apresentado o livro “O Uivo da Matilha”, de Ana Cristina Ferrão. mulher e colaboradora de António Sérgio, que com ele trabalhou intensamente.
O outro documentário, bem diferente, vem assinado por Bruno de Almeida, chama-se “Fado”, e foi realizado sobre o trabalho de Camané, a partir da gravação do disco “Sei de Mim”, de 2008. Depois de um documentário sobre Amália, esta é a segunda incursão de Brunco de Almeida no Fado. O documentário estreou por estes dias no Doc Lisboa e é uma viagem ao processo de criação de um disco, que, no caso, mostra também a importância do trabalho do produtor, que foi José Mário Branco.
OUVIR - Entre as Caldas da Rainha e Londres nasceram Los Waves - com uma formação mutante que passou do duo inicial ao quarteto actual. A banda tem feito uma carreira internacional desde que se estreou em Londres, em 2011 e este seu primeiro álbum é editado praticamente em simultâneo nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Portugal. Los Waves cruzam vários estilos, é possível detectar influências que vão da new wave à pop urbana, aqui e ali com uns laivos psicadélicos. Há uma coisa curiosa neste “This Is Los Waves So What?”, que é o facto dos 11 temas manterem uma qualidade homogénea ao ponto de haver quem diga que este álbum é um somatório de singles. Talvez por isso mesmo já há canções de Los Waves nas bandas sonoras de séries como”Gossip Girsl” e “Mentes Criminosas” e em filmes como “Veronica Mars”, “Enough Said” ou “Cradle Of Storms”. “Golden Maps” foi a canção que ganhou notoriedade no festival South By Southwest e abriu-lhes as portas da América. Claro que está neste disco, que tem tanto de inesperado como de atraente.
PROVAR - Quando se fala em éclairs o que vem à mente são bolos, doces, uma das delícias da pastelaria francesa. Acontece que também há éclairs salgados, que podem ser acompanhados por uma salada e assim constituir uma refeição. O admirável mundo dos novos éclairs chegou a Lisboa, mais precisamente à Avenida Duque de Ávila 44. Nos dias bons há uma esplanada no passeio e a sala é espaçosa e elegante. “L´Éclair” é obra de um jovem pasteleiro francês, de 26 anos, Mathieu Croiger, que decidiu experimentar a sua arte e a sorte em Lisboa. O local é cuidado na apresentação e exemplar no serviço, muitas vezes com o próprio dono presente. E além dos éclairs doces ou salgados, há macarons que podem ser invulgares, como os de pistáchio ou de alfazema, e o clássico pain au chocolat. Logo de manhã, que a casa funciona cedo, há deliciosos crosissants bem frescos para o pequeno almoço. Está aberto de segunda a sexta das 07h30 às 20h00 e ao fim de semana das 09h30 às 19h00. Podem ser encomendados éclairs ao metro, para ocasiões especiais, num dos 15 sabores disponíveis. E volta e meia há surpresas, como o éclair de amendoim com uma pitada de flor de sal.
DIXIT - “Vocês aqui fazem descontos a deputados?” - parlamentar cujo nome não foi revelado em pergunta ao dono do restaurante “XL”, perto da Assembleia da República, citado pelo jornal “i”.
GOSTO - Da série “Os Anos 90”, transmitida às quartas-feiras pelo canal National Geographic.
NÃO GOSTO - Os processos judiciais de cobranças de dívidas ainda não estão no Citius.
BACK TO BASICS - Quanto mais se observa a política mais se tem a noção que os partidos são todos o mesmo, a única diferença é que aqueles que estão na oposição prometem sempre um mundo melhor - Will Rogers