outubro 03, 2014

BATALHAS FLORAIS NO HORIZONTE POLÍTICO

FLORES - Durante o próximo ano vamos assistir a um despique curioso. De um lado está António Costa, que, aposto, permanecerá até ao limite do possível na autarquia lisboeta, e que vai usar a sua função de Presidente da Câmara para fazer umas flores de sedução eleitoral, tentando dar uma ideia do que poderá vir a praticar no país, se chegar a Primeiro-Ministro; do outro estará Passos Coelho, a ver se consegue fazer crescer algumas flores no território devastado que é Portugal. Tenho a tentação de dizer que ambos se vão dedicar à jardinagem, para que os eleitores possam escolher entre os respectivos arranjos florais. A coisa seria divertida se não fosse trágica: de um lado um recém eleito líder da oposição que foge de dizer que medidas e políticas quer implementar; do outro um Primeiro Ministro desgastado pela obediência cega à Europa e que desistiu de criar um projecto para o país. Ambos têm em comum a actividade política continuada desde a adolescência, ambos dedicaram o essencial da sua vida adulta à actividade nos respectivos partidos, ambos são um exemplo daquilo que esses partidos produzem no seu interior. Olhando para o que têm feito, olhando para como se têm comportado, não se pode dizer que sejam um exemplo estimulante para gerações futuras. Ambos pertencem à mesma geração, têm em comum a persistência, a teimosia, uma agenda própria que ultrapassa a do respectivo partido e alguma indiferença pelo que os outros dizem. Ambos vão ter que olhar para o mesmo sítio no próximo ano: para o eleitorado do centro que, mais uma vez, será o decisivo. António Costa vai procurar federar a esquerda que lhe quiser dar boleia, como aconteceu já em Lisboa - mas não se pode arriscar a perder o centro; e Passos vai ter que manter apoios à direita sem perder de vista o eleitorado que está à sua esquerda. Vai ser um ano interessante - cheio de batalhas florais.


 


SEMANADA - Domingo, no início das votações para as primárias do PS, a candidatura de António Costa enviou um SMS apelando ao voto e, mais tarde, depois de reclamações e protestos, afirmou que se tratava de um erro processual, opinião que foi partilhada por Jorge Coelho, que dirigia o processo eleitoral; Enquanto António José Seguro ficou na sede do PS, no Largo do Rato, António Costa preferiu utilizar a sede da Assembleia Municipal de Lisboa, um edifício que é propriedade da Câmara que dirige; nas eleições para as federações distritais do PS realizadas no início de Setembro, e onde só votaram militantes inscritos, António José Seguro recolheu 51,2% dos votos contra 48,8% dos candidatos apoiados por António Costa, mas nas eleições primárias de Domingo passado, abertas a militantes e simpatizantes, António Costa ganhou com larga vantagem ao obter 67,88% dos votos, contra 31,65% registados a favor de António José Seguro; António Costa “tem predisposição e vontade” para envolver apoiantes de Seguro, disse fonte próxima do novo líder; António Costa nomeou Ferro Rodrigues líder da bancada parlamentar do PS; Jerónimo de Sousa disse que “o PS mudou as caras mas não apresentou alternativa” ; alguns jornais indianos festejaram a vitória de António Costa e dizem que ele é conhecido por “Gandhi de Lisboa devido ao seu estilo de vida espartano”; o salário mínimo aumentou para 505 euros a 1 de Outubro; 78% dos pensionistas têm pensões de velhice inferiores ao salário mínimo;  apenas metade das pessoas entre os 55 e 64 anos estão activas e a trabalhar; a família Espírito Santo terá recebido cinco dos cerca de 30 milhões de euros pagos à Escom por serviços de consultoria no caso da compra dos submarinos; um artesão de Barcelos, Joaquim Esteves, provocou o caso parlamentar da semana com a exposição, no Parlamento, de bustos de barro de todos os Presidentes da República, incluindo os do período da ditadura - a exposição foi proposta à Assembleia da República pela autarquia de Barcelos, do PS.


 


ARCO DA VELHA - Em Santo Tirso a autarquia, governada pelo PS, entregou por ajuste directo, no valor de 33 mil euros, a produção de uma revista municipal a uma empresa de fabrico de mobiliário.


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da revista Wallpaper tem a capa desenhada por Frank Gehry e lá dentro tem fotografias do novo edifício da Fundação Louis Vuitton, em Paris,  desenhado por Gehry que são uma espécie de injecção de ciúmes para aquilo que Lisboa perdeu por obra e graça do então inquilino de Belém, Jorge Sampaio - para os mais distraídos recordo que o projecto de Gehry para o Parque Mayer foi vetado pelo Presidente da República da época. Frank Gehry é aliás um dos editores desta edição da revista, ao lado de Jean Nouvel - um número de luxo. Enquanto Gehry mostra o seu espectacular edifício novo, em Paris, Nouvel mostra alguns dos monumentos que criou ao longo das duas últimas décadas e também alguns dos seus projectos futuros. Outros destaques são o top 100 de peças de design, um portfolio sobre as aventuras no rock’n’roll de Heidi Slimane (onde ela sugere apenas o que nunca mostra) e a short list dos melhores novos hotéis de cidade, onde figura o lisboeta Memmo Alfama. É precioso este número da Wallpaper. Uma coisa de coleccionadores.


 


VER - Sandra Vásquez de la Horra é chilena, vive há anos na Alemanha, tem um sentido de observação que  propulsiona uma imaginação furiosa e desenha com um traço vigoroso que consegue reproduzir o que lhe vai no pensamento. Não é coisa pouca. O seu trabalho tem raízes na tradição popular e na literatura fantástica da América do Sul, o imaginário chileno está presente, a figura feminina assume o papel principal na sua obra, com as personagens a criarem permanentes manifestos de afirmação do seu corpo, entre a provocação e o recolhimento. A exposição, na Galeria João Esteves de Oliveira, “Todas íbamos a ser reinas” inclui 30 desenhos e uma série de 9 gravuras, de uma edição de 25. Sandra Vásquez de la Horra foi vencedora do prémio Fundação Guerlain em 2009 e o seu trabalho estará na Galeria João Esteves de Oliveira, até 21 de Novembro - Rua Ivens 38, às segundas-feiras entre as 15h00 e as 19h30 e de terça a sábado das 11 às 19h30.


OUVIR - Os Boo Radley tiveram mais um fogacho de fama nos anos 90 graças a canções como “Wake Up Boo”. O grupo tornou-se um precursor do renascimento do britpop. Não é de estranhar que Martin Carr, então autor das canções e guitarrista da banda, seja um assumido seguidor dos cânones pop, com um grau de ecletismo que neste seu álbum a solo, “The Breaks”, lhe permite revisitar desde Style Council a Eagles, passando por Smiths ou Elvis Costello por exemplo. A revisitação faz-se pela forma de sugestão de uns acordes, uns truques de vocalizações e de construção de letras, de que o melhor exemplo será “St. Peter in Chains”. “The Breaks” é basicamente uma operação de revivalismo do britpop em que os Boo Radleys se inseriam. Digamos que este é um disco de variedades, feito com grande know how e apurada execução. As pilhagens de inspiração são feitas em bons sítios e o resultado tem sido elogiado. Quem quer recordar o pop antigo encontra motivos de satisfação, mesmo quen passageira. Como dizia o outro, “ a splendid time is guaranteed for all” - desde que queiram passar por lá. Se ouvirem com atenção o tema “I Don’t Think I’ll Make It” ficarão convencidos.


 


PROVAR - Os grandes apreciadores de atum dizem que  a ventresca é a parte mais apreciada do peixe. Há quem diga que a ventresca está para o atum como os secretos estão para o porco preto. E o que é afinal a ventresca? - trata-se da parte muscular que forra a cavidade abdominal do peixe. Tem um sabor intenso e uma textura irregular. Prová-la bem fresca é experimentar um manjar único - mas é difícil de encontrar. Felizmente há quem faça belíssimas conservas de ventresca de atum, como a açoreana fábrica Corretora. Experimente abrir uma lata, partir a ventresca aos pedaços e servi-la com quadrados de requeijão bem fresco aromatizado com cebolimho. É uma entrada magnífica, mais ainda se deixar ao acaso umas finíssimas fatias de pepino cortadas em mandolina. Vai ver que ninguém resiste. É uma entrada simples e barata. O pepino encontra em qualquer lado, as conservas da Corretora estão no gourmet do Corte Inglés e um bom requeijáo também por lá existe. Duas latas, um requeijão e meio pepino fazem a festa para quatro. A Corretora é uma fábrica de conservas localizada nos Açores, em Ponta Delgada e existe desde 1913, há mais de cem anos portanto. 


 


DIXIT - “É o estilo missionário, mais do que as suas origens indianas, que fizeram Costa ganhar a alcunha de Gandhi de Lisboa” - Andrée-Marie-Dussault, “Outlook India”.


 


GOSTO - Da nova imagem gráfica da Câmara Municipal do Porto


 


NÃO GOSTO - Por causa dos problemas informáticos os distritos judiciais de Lisboa e do porto optaram por deixar de lado os julgamentos dos crimes mais graves.


 


BACK TO BASICS - “O grande problema da vida dos políticos é que alguém está sempre a querer interromper com uma eleição o que eles fazem ” - Will Rogers


 

setembro 26, 2014

SOBRE A INFLUÊNCIA DO VAZIO POLÍTICO NAS AUDIÊNCIAS TELEVISIVAS

VAZIO - Segundo a opinião da generalidade dos analistas, os debates entre Seguro e Costa foram vazios de conteúdo político e a coisa piorou para o final, quando a conversa entre ambos endureceu e, da troca de ideias, se passou para a troca de galhardetes pessoais e, depois, para quase insultos. Rezam ainda os analistas que o primeiro debate, na TVI, terá sido ganho por Seguro, que nesse dia teve pela frente um pachorrento Costa que replicou a imagem diletante que apresenta na sua descansada “Quadratura do Círculo”. Acontece no entanto que esse debate, na TVI, foi o que teve maior número de espectadores em relação aos outros dois. Os números são estes: o debate final, realizado terça 23 de Setembro na RTP1, registou um share médio de audiência de 20,5%; o debate  que tinha sido realizado na SIC no dia 10 de Setembro obteve um share de 25,1% e o debate de estreia, na TVI, a 9 de Setembro, registou 32,8% de share. Para além da evidência que é o facto de a TVI ser a líder de audiências, neste particular faço notar que o share do primeiro debate esteve acima do share médio da estação naquele horário - o que legitimamente deixa pensar que havia alguma expectativa. A expectativa saíu furada e nos debates seguintes a coisa foi sempre a cair. A narrativa da novela da política nunca foi suficiente para bater a intriga das telenovelas de ficção que concorreram nesse horário. O caso dá duplamente que pensar - pela indiferença relativa das audiências e pela fraca qualidade dos debates - para não falar já da ausência de conteúdo programático e político. Vamos então ter primárias, nas quais os eleitores socialistas votarão gostos pessoais e a capacidade de insultar o adversário - porque ideias políticas não existem. Numas eleições para escolher o candidato do principal partido da oposição a Primeiro Ministro a ausência de estratégias para o país é, pelo menos, estranha.


 


SEMANADA  - “Há três anos que o País tem uma greve a cada cinco dias”; “Notas de dez euros ainda não circulavam e já havia burlas”; “Quanto valem as cagarras das Selvagens?”; “Ministério público valida acusações contra Meneses”; “Passos pede à PGR que investigue factos de que não se recorda”; “Ministra diz que já não há juízes a olhar para o ar”; “Salário mínimo sobe um café por dia”; “Menezes paga 72 mil euros por livro”; “Último debate marcado por insultos e populismo”; “No debate mais duro de todos quase não se falou de governação”; ”Comerciantes da baixa dizem que um dia ainda serão engolidos pelo rio”; “Forte chuva deixou meia Lisboa submersa e a Câmara queixa-se de falta de aviso”;  “Bloco de Esquerda leva piropo ao Parlamento com punição até três anos”; “Bloco de Esquerda repensa liderança bicéfala”; “Bloco de Esquerda volta a levar ao Parlamento adopção por casais do mesmo sexo”; “Deputados ganham mais do que médicos, juízes e professores”; “Há 2100 polícias que têm direito a dispensa sindical, é evidente que há esquadras que não têm capacidade de assegurar serviços mínimos”; “Calotes nas Ex-Scut entopem finanças”; “Madeira extinguiu departamentos investigados por ocultação de dívidas”; “Lisboa não aguenta uma chuvada”; “Prostituta agride cliente que só pagou cinco euros”; “É difícil conseguir autorização para grafitar”; “Castro Marim tem menos habitantes do que camas turísticas aprovadas”; “Fernando Santos não estará no banco, mas já montou engenharia”. (Todas estas frases são extraídas de títulos de jornais dos últimos dias)


 


ARCO DA VELHA - A polícia do Vaticano prendeu o arcebispo Józef Wesolowski,acusado de pedofilia enquanto representante papal na República Dominicana.É a primeira vez que uma medida deste género é tomada contra alguém com um alto cargo na Santa Sé.


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da “Monocle” é dedicada à diplomacia e aos seus enredos e o artigo de entrada é obviamente sobre as Nações Unidas, o seu Conselho de Segurança e as suas ligações por todo o planeta. Na secção internacional há um artigo curioso sobre o rebranding das Ilhas Canárias, particularmente em foco nestes dias, as quais adoptaram agora o slogan “European Business Hub To Africa”. Um dos destaques da edição é o indíce das 25 melhores cadeias de lojas internacionais. A Suécia sai ganhadora e ocupa as cinco primeiras posições, com o 1º lugar para a Ikea, o 2º para a H&M e o 4ª para a COS (que recentemente abiu na Avenida da Liberdade). Um dos outros artigos interessantes tem a ver com a forma de gerir uma galeria de arte, no caso uma conversa com o londrino Stephen Friedman. Este mês a “Monocle” dedica-se também a fazer um ponto de situação das tendências do jornalismo contemporâneo. Passando para outra realidade, o Turismo de Espanha investiu em quatro páginas, duas sobre os “paradores” e duas sobre Madrid, no género daquilo a que chama publi-reportagens. Na secção de recomendações estão duas belas páginas cheias de elogios à nossa Vista Alegre. Sabe bem lê-las.


 


VER - Os azulejos são peças que sempre me encantaram. Permitem geometrias, são um suporte de desenho, de cores, de formas. Em Lisboa existe uma galeria, a Ratton, que desde 1987 se especializou na criação de séries limitadas de azulejos desenhados por artistas contemporâneos. Para além destas séries assegurou a produção de painéis de azulejo presentes em diversas instituições, em prédios de habitação, em estações de caminhos de ferro e de metropolitano ou em escolas e mercados, entre outras localizações. Até 3 de Outubro está a decorrer na Galeria Ratton uma exposição apropriadamente chamada “Puzzle” em que os visitantes são desafiados a escolher e combinar entre si azulejos de 14x14 cms, de diversos autores, que ali estão expostos. Ali estão peças de Júlio Pomar, Paula Rego, Menez, Lourdes Castro, Graça Morais, Bartolomeu dos Santos, Jorge Martins, Andreas Stöcklein, Josephine King, Luisa Correia Pereira, Irene Buarque, René Bertholo, Costa Pinheiro e João Vieira, entre outros autores. Vale a pena conhecer estas pequenas peças, imaginando-as sózinhas ou agrupadas. A Galeria Ratton está aberta ao público de segunda a sexta das 15 às 19h30, na Rua da Academia das Ciências 2 C (à Rua do Século).





OUVIR -  Não é muito comum encontrar uma banda portuguesa tão original e com um disco tão inesperado como os Brass Wires Orchestra (BWO). A origem da música que praticam está na folk, mas felizmente têm uma abordagem criativa do assunto - embora não escapem a comparações com os Beirut, muito por acção do vocalista. O timbre da voz, a maneira como interpreta as canções e o espaço que os arranjos dão às palavras são relativamente pouco usuais em Portugal. A Brass Wires Orchestra remonta a 2011 e tem feito carreira ao vivo tocando nas ruas, em estações de metro, mas também em salas como o Olga Cadaval, há poucos dias. Mas também já passaram pelo Festival de Paredes de Coura, foram escolhidos para o Hard Rock Calling em Londres, e passaram pelo Vodafone Mexefest. O álbum de estreia agora editado, “Cornerstone” desperta a curiosidade e, entre as dez canções do CD, os temas “Tears Of Liberty” e “Wash My Soul” são uma amostra das potencialidades da banda. Os BWO integram Miguel da Bernarda, Hugo Medeiros, Afonso Lagarto, Rui Gil, Luís Grade Ferreira, Zé Valério, Nuno Faria e Zé Guilherme Vasconcelos são e o disco foi  gravado nos Black Sheep Studios ( a sala de ensaios da banda em Mem Martins), por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim (ambos dos PAUS), e masterizado nos Abbey Road Studios (Londres), por Frank Arkwright (que trabalhou com Arcade Fire).


 


PROVAR - Hoje vou falar de petiscos lusitanos e de locais onde gosto de os provar, em Lisboa. Começo por um petisco bem português de entrada - peixinhos da horta. Para mim os melhores de Lisboa sāo os do Guarda Mor ( Rua do Guarda Mor 8, tel 213 978 663) - fritos na perfeiçāo, sem gordura a mais, o feijāo verde al dente e a polme estaladiça; no mesmo sítio também merecem destaque os filetes de peixe galo, um assunto que mais à frente retomarei. Passemos ao seguinte - os pastéis de bacalhau do Apuradinho sāo do melhor e vêm servidos com um bom arroz de pimentos ou de tomate; ainda no Apuradinho sou fā dos pivetes (rabo de boi) com puré de batata, e do cozido à portuguesa (Rua de Campolide 209, tel. 213 880 501). Em matéria de cozinha portuguesa também é preciso falar da Bica do Sapato, onde a escolha recai muitas vezes nos belíssimos pastéis de massa tenra ou, em alternativa, no bacalhau fresco escalfado em azeite virgem ou no polvo grelhado com batata a murro e grelos salteados. Regressemos ao peixe e aos filetes - n’ O Polícia (Rua Marquês Sá da Bandeira 112, tel 217 963 505) há também uns excelentes filetes de peixe galo e uma pescada de anzol, cozida, com todos, que é de chorar por mais. Se quiser filetes de garoupa procure A Paz (Largo da Paz 22, à Ajuda, 213 641 503), onde também pode ter a sorte de encontrar a cabeça do animal bem cozida. E termino, na lista dos meus restaurantes do coração, com A Primavera, no Bairro Alto, onde já tantas vezes jantei, entre bons amigos e com belas conversas, que acompanharam excelentes escalopes panados ou primorosas lulas recheadas (Travessa da Espera 34, tel. 213 420 477).


 


DIXIT -  "Já se desconfiava, veio a confirmação: os Antónios detestam-se. Os Antónios magoam-se. Os Antónios não divergem nas ideias, divergem no caráter e no ego. Perdeu a política, perdeu sobretudo o PS" - José Manuel Fernandes n’o “Observador”, sobre o último debate Seguro-Costa


 


GOSTO - Portugal será representado com uma exposição sobre 14 autores e apresentação de obras no festival de banda desenhada e ilustração de Treviso, Itália.


NÃO GOSTO - Nos próximos 12 meses mais de meio milhão de portugueses prevê emigrar e ir trabalhar para fora do país, indicam os dados de um novo estudo da Marktest.


BACK TO BASICS - "Antes não se imaginava aquilo que agora é provado" - William Blake


 

setembro 19, 2014

O ESTRANHO EFEITO DO PODER NAS IDEIAS LIBERAIS SOBRE O PAPEL DO ESTADO

LIBERAIS? - Ás vezes tenho a sensação que o dia a dia se está a tornar numa sucessão de absurdos. Explico: nos últimos meses comprei uma dúzia de livros e discos, em versão digital, nas várias lojas virtuais autorizadas para o efeito; assino alguns jornais e revistas também nas edições digitais. E portanto, apesar de pagar por todos estes conteúdos e assegurar que os respectivos autores são remunerados e que não os estou a piratear, o Estado quer agora impôr-me uma nova taxa, que se aplica sobre os aparelhos que utilizo para os guardar, ouvir ou ler, argumentando que assim protege os autores e editores a quem já estou a pagar. Ainda não estava bem refeito desta situação quando leio que o mesmo Estado se propõe impôr, entre outras coisas a que chama “Compromisso Para O Crescimento Verde”, uma taxa de entrada de automóveis nas grandes cidades, apesar de o acesso, por exemplo a Lisboa, ser já quase impossível sem pagar uma portagem numa das pontes ou auto-estradas que conduzem à capital. Desta feita a razão da taxa prende-se com um contributo para o que algum sucedâneo de trazer por casa de Al Gore apelidou de “economia verde”. Alguns membros do Governo, cujos principais responsáveis, antes de serem eleitos, se afirmaram como liberais e defensores da redução do papel do Estado, fazem no dia a dia exactamente o contrário. Nestes dois casos, dos direitos de autor e da ecologia, fazem a coisa com um cinismo especial: usam finalidades que são politicamente correctas para estender o polvo da extorsão, sob a forma de taxas pagas sempre pelo consumidor. De repente vem-me à memória, ainda sobre o “Compromisso Para o Crescimento Verde”,  que ao longo dos anos o ambiente tem sido pretexto e motivo de grandes negociatas. Não há-de ser por acaso que o ofício dos protagonistas da série “Os Sopranos” tinha a ver com a reciclagem e a sucata. Por cá já se viu onde leva a convivência de sucateiros com políticos e um dia ainda se há-de fazer a história das transferências de direcções partidárias para empresas com interesses na exploração da tal economia verde. Chamo a isto paradoxos liberais.


 


SEMANADA - O sistema informático dos Tribunais, Citius, continua com graves problemas de funcionamento e só está a aceitar novos processos, enquanto os antigos continuam bloqueados; há 3,5 milhões de processos, anteriores a 15 de Setembro, que se encontram inacessíveis; a Ministra da Justiça pediu desculpa pela situação na quarta-feira passada, semana e meia depois de o problema surgir; 60% dos médicos dizem ter doentes que interrompem tratamentos por falta de dinheiro; a prescrição de antibióticos em Portugal é o dobro da que é feita em países moderados e está entre as dez maiores da Europa; em Portugal existe meio milhão de pessoas que precisa de ajuda alimentar das organizações de solidariedade que prestam esse apoio; mais de 80% das crianças que foram atropeladas em Lisboa entre 2010 e 2012 estavam a 500 metros ou menos da escola que frequentavam; as dívidas fiscais atingem cerca de 14 mil milhões de euros e 81% deste valor é da responsabilidade de empresas; o fisco já avançou com 2,3 milhões de ordens de penhora este ano; em 2004 existiam 694 livrarias e o volume de negócios destas era de 140,1 milhões de euros - mas em 2012, já só se registavam 562 livrarias com um volume de negócio de 126,2 milhões de euros; Marinho e Pinto, fugaz deputado europeu, ex-putativo líder do MPT e anunciado líder de um futuro partido que terá como princípio da sua actuação “voltar às bases da República e do republicanismo”, afirmou que um ordenado líquido de 4800 euros não lhe chega para viver condignamente em Lisboa.


 


ARCO DA VELHA - Vítor Bento, José Honório e Moreira Rato não avisaram os  outros administradores do Novo Banco que se tinham demitido e estes só souberam pelos jornais o que estava a acontecer ao seu lado.


 


FOLHEAR - Agora que se inicia um novo ciclo de exposições nas diversas galerias é boa altura para percorrer a colectânea de entrevistas a artistas portugueses que Miguel Matos, jornalista e crítico de arte, fez ao longo dos últimos anos. A colectânea, “Artistas Portugueses em Discurso Directo” recolhe três dezenas de entrevistas  e dezena e meia de críticas e ensaios sobre obras ou exposições de outros tantos artistas. Miguel Matos, que fundou e dirige a revista “Umbigo” e edita a secção de arte da “Time Out”, é dos poucos praticantes da crítica escrita sobre artes visuais, como Eduardo Nery salientou numa nota sobre esta edição. De Adriana Molder a Teresa Gonçalves Lobo, passando por Ana Vidigal, Paula Rego, Cabrita Reis, Maria Beatriz ou José Pedro Croft, entre outros, o livro  permite fazer um retrato sobre um apreciável número de artistas portugueses contemporâneos, dando a conhecer um pouco do seu pensamento para além da obra. A edição é da “Guerra e Paz”.


 


VER - “Os Gatos Não Têm Vertigens”, o filme de António Pedro Vasconcelos que estreia quinta-feira da próxima semana semana, é das melhores obras do cinema português das últimas décadas e é talvez o melhor filme do realizador. É um filme de vida - nesse sentido quase que arrisco dizer que é a sua obra-prima. Inovador no argumento, na abordagem, no retrato que proporciona da nossa sociedade, o filme mostra a capacidade técnica do realizador, mas sobretudo a sua sensibilidade e a forme envolvente como chama os espectadores à história, cativando-os como é suposto o cinema fazer. Este é um filme sobre o abandono, sobre o luto, sobre a velhice, sobre a deliquência, mas também sobre a ternura, o amor, a esperança e, no fim, sobre a razão da vida. Não resisto a destacar o extraordinário trabalho realizado com actores como Maria do Céu Guerra e João Jesus, o cuidado posto no guião, na fotografia, na edição, e na banda sonora. E é também merecido destacar a produção, de Tino Navarro, que criou condições para que todas estas peças se juntassem da melhor maneira. É um filme emocionante - como só os grandes filmes conseguem ser.


 


OUVIR - “All Rise” é um belo título para o novo disco de Jason Moran, uma homenagem a esse génio muitas vezes ignorado que foi Fats Waller. Logo desde o princípio do CD apetece levantarmo-nos e há como que um formigueiro que nos obriga a acompanhar o ritmo com os pés. Este é um disco de dança e é tudo menos uma homenagem acinzentada. Não admira: a produção tem a mão de Don Was, coadjuvado por Meshell Ndegeocello, uma vocalista que passou pelo rap e que tem influências do funk, soul, hip hop e jazz. Moran, um pianista de jazz de créditos reconhecidos, toca aqui com frequência outros teclados, como um Wurlitzer e um Fender Rhodes, que eram instrumentos preferidos de Waller. Destaco as versões de “Ain’t Misbehavin’”, “Ain’t Nobody’s Business”, “Lulu’s Back In Town”, “Handful Of Keys” e o medley “Sheik Of Araby/I Found A New baby”. Fats Waller merecia uma homenangem assim, surpreendente e diferente de tudo o que o autor fez. (CD Blue Note/ Universal).


 


PROVAR - As memórias dos sabores são uma coisa incontornável. Cada vez que como gelados lembro-me do sabor único das cassatas que o meu pai comprava numa fábrica de gelados que existia na Avenida de Berna, criada nos anos 40 por uma família italiana que tinha vindo viver para Lisboa. Era esta fábrica que abastecia A Veneziana, nos Restauradores e outras geladarias ligadas à família. A fábrica da Avenida de Berna existiu até ao início dos anos 90, e tinha junto ao balcão onde se fazia a venda ao público um pátio com pequenos bancos onde, à sombra, se podia ficar a debicar os gelados de cone, feitos com a fruta e os ovos que se viam junto à entrada, em caixotes. Um dos descendentes da família, Arcangelo Sala, abriu agora perto do Jardim do Arco do Cego, na Rua Dona Filipa de Vilhena 14, a “La Fabbrica  - Antiga Fábrica de Gelados da Avenida de Berna”. Ali estão, entre outros, os clássicos sabores do morango e do limão, mas também a amêndoa e, claro a cassata. E foi a prová-la que me deparei com um solavanco de memória que me deixou sorridente.


 


DIXIT - “Esta questão informática, ao contrário do que alguns quiseram fazer crer, não instalou o caos nos Tribunais “ - Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça


 


GOSTO - O azeite Oliveira da Serra, Frutado Verde Ligeiro 2014 do Lagar do Marmelo, foi considerado o melhor azeite do mundo na sua categoria no prémio Mário Solinas, o mais importante concurso internacional, organizado pelo Conselho Oleícola Internacional.


NÃO GOSTO - Portugal apresentou o quinto maior défice comercial da União Europeia entre Janeiro e Junho deste ano, com um aumento de 25% em relação a igual período do ano passado.


 


BACK TO BASICS - “As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem” - Chico Buarque


 


www.facebook.com/mfalcao


twitter: @mfalcao









setembro 12, 2014

SOBRE O PAPEL DO BITOQUE NA COMUNICAÇÃO

UM ECRÃ E UM BITOQUE - Aqui há uns anos entrava num restaurante, café ou snack-bar para almoçar e via, em meia dúzia de mesas, pessoas a ler jornais e, com sorte, alguém a ler um livro enquanto esperava pelo bitoque. Hoje em dia o único papel que existe na mesa das casas de pasto é o das toalhas e dos guardanapos. Está toda a gente de smartphone na mão, aposto que a maioria nas redes sociais, e uns poucos a ler informação em sites ou aplicações. Já não me espanto quando vejo um casal de mão dada, cada um do seu lado da mesa, ambos a olharem para o seu ecrã particular, encaixado na palma da mão deixada livre pela ternura, e accionado pelo polegar. A bela conversa diminuíu e foi substituída pela observação do mundo virtual. Esta semana a Marktest divulgou um estudo que revela que já existem quatro milhões de portugueses que utilizam smartphones, praticamente metade do total de telemóveis existentes. As previsões apontam para que até final do ano existam mais dois milhões em funcionamento. Nos cafés e restaurantes passou a existir uma placa que diz “wifi gratuita” e, aqueles que a têm, conseguem ter mais clientes que aqueles que passam ao lado do admirável mundo novo. Para ter sucesso uma casa de pasto contemporânea tem que ter internet disponível, já não basta ter uma boa bifana ou uma merendinha bem aviada. O sumo de laranja natural, durante anos campeão dos anúncios de balcão, foi relegado para segundo plano pelas tecnologias wireless. A conversa foi substituída pela observação. Já não lemos, espreitamos. Somos todos voyeurs de pequenos ecrãs - essa é que é a verdade dos dias que correm.


 


SEMANADA - O edifício do posto da GNR de Pernes foi penhorado pelas Finanças por dívidas ao Fisco da empresa imobiliária proprietária do prédio, que o cedeu à autarquia, que por sua vez o cedeu à Guarda; quase 17% da população até aos 29 anos não tem qualquer actividade, nem escolar, nem laboral; Portugal é dos países da União Europeia que tem mais adultos sem o 12º ano; Portugal é o terceiro país com mais recém licenciados desempregados, a seguir à Grécia e Espanha; a directora-geral do FMI afirmou ter sido a “Espanha o único país a progredir na zona euro”; nos primeiros quatro meses do ano registaram-se 294 suicídios em Portugal; dos 611 mil desempregados apenas 323 mil recebem subsídio de desemprego; em Julho o crédito malparado das famílias e empresas atingiu o valor mais alto de sempre, quase 18 mil milhões de euros; nos últimos 38 anos PS e PSD tiveram 88,5% dos mandatos autárquicos das câmaras que hoje têm maiores dívidas; o médico da selecção de futebol demitiu-se;após o Portugal-Albânia Paulo Bento saíu-se com esta tirada:  “Se no final da primeira jornada colocamos já tudo em causa, não me parece que seja o melhor caminho”; o Presidente da República levantou dúvidas sobre a informação que recebeu do Governo no caso BES, depois de ter garantido que os portugueses podiam confiar no banco, afirmação proferida nove dias antes da apresentação de prejuízos recorde; um autarca de uma junta de freguesia de Guimarães, Gonça, aproveitou a audiência der uma missa para fazer uma sessão de angariação de simpatizantes do PS; os debates entre Costa e Seguro fizerem boas audiências de televisão, ao nível de um jogo de futebol de segundo plano; há um espectro que assola as primárias do PS e chama-se Sócrates - o seu nome raramente é citado mas está em todo o lado, mesmo onde menos se espera.


 


ARCO DA VELHA - Marinho Pinto foi um dos 12 eleitos para o Parlamento Europeu que falhou a entrega, no prazo legal, da declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional. Entretanto anunciou a sua saída do MPT, partido pelo qual foi eleito e disse querer criar nova organização política.


 


 


 


 


OUVIR - A canadiana Molly Johnson começou a sua carreira musical como vocalista de bandas rock e pop e marginalmente manteve sempre alguma actividade como cantora de jazz. Esta sua vertente jazzística apenas ganhou maior dimensão já ela estava na sua quarta década de vida, no início do actual século. Alguns dos seus discos receberam bom acolhimento, as suas digressões e concertos obtiveram assinalável êxito, sobretudo no Canadá em em França. Ao longo da sua carreira a solo, que entrou agora no seu sexto disco, Molly Johnson tem sido comparada a Billie Holiday. E o sexto disco é exactamente a sua homenagem a Billie - gravado quase live on tape, em apenas quatro dias, com a sua banda de seis músicos. São 14 canções, clásicos do repertório de Billie Holiday, algumas escritas por ela própria, como “Don’t Explain”, “Fine And Mellow” ou “Now or Never”. Mas aqui também estão “Body and Soul”, “God Bless The Child”, “How Deep Is The Ocean” ou “They Can’t Take That Away From Me”. A melhor parte do disco é que embora Johnson  considere Billie uma fonte de inspiração, estas interpretações fogem à tentação da simples imitação e chegam a ser surpreendentes na forma como dão nova vida a alguns destes clássicos - parte deve-se aos músicos e aos arranjos, parte deve-se, claro, à própria Molly Johnson. (CD Universal, disponível em Portugal).


 


VER - A partir da próxima semana começa em Braga uma nova edição dos Encontros da Imagem, que vão de 18 de Setembro a 31 de Outubro. Os Encontros vão na sua 24ª edição e do programa deste ano, feito sob o lema “Hope & Faith”, destaco uma mostra de trabalhos do espanhol Joan Fontcuberta, uma colectiva no Mosteiro de Tibães que inclui Luisa Ferreira, Alexandre Almeida, Inês d’Orey e Valter Vinagre, entre outros, o Photobook Market, e uma exposição de autores emergentes. Ao todo são quase duas dezenas de iniciativas, de exposições a workshops, em diversos espaços da cidade, desde montras de lojas do centro da cidade a edifícios que são referências patrimoniais. Os Encontros têm também actividade em Guimarães e no Porto e há ainda, de novo este ano, uma extensão lisboeta, a partir de 27 de Setembro, que engloba exposições de Marcelo Buainaim, Helena Gonçalves, Marcelo Costa e Mário Macilau, entre outros. O programa pode ser consultado emwww.encontrosdaimagem.com


 


FOLHEAR  - Agora que o Cinema Ideal está de novo a funcionar, graças ao entendimento entre a Casa da Imprensa e a distribuidora Midas, desse militante do cinema que é Pedro Borges, é boa ocasião para percorrer um pouco da história da histórica e pioneira sala. Há coisa de dois meses a editora “Guerra & Paz” publicou um belíssimo livro de Maria do Carmo Piçarra, “O Cinema Ideal E A Casa da Imprensa - 110 Anos de Filmes”. As 130 páginas do livro contam as origens do Ideal, quem em 1904 se afirmava o primeiro salão de cinema do país. No tempo do cinema mudo, quando se utilizavam vozes atrás do ecrã para sonorizar a acção, António Silva (então ainda bombeiro) foi uma dessas vozes utilizadas pelo Ideal e era considerado na imprensa da época “um ás do falado”. A partir de 1931 a sala começou a projectar filmes sonoros, e o primeiro foi “Sob Os Telhados de Paris”, de René Clair. O livro percorre estas e outras histórias, desde os ciclos de cinema e festivais organizados pela Casa da Imprensa nos anos 60, até à decadência da sala, já nos anos 80 e 90, transformada em exibidora de pornografia e filmes de acção. O livro inclui ainda duas dezenas de fotografias e reproduções de ilustrações, que mostram diversos momentos da vida do Ideal. É um pequeno grande livro sobre histórias da História de Lisboa e do papel que o cinema tem tido na cidade. Uma belíssima leitura, à venda nas livrarias e no próprio cinema Ideal por 14 euros.


 


PROVAR - No mesmo sítio onde até há um ano existiu o restaurante “Galo D’Ouro”, na Avenida Marquês de Tomar 83, em Lisboa, está agora o Xangai, um restaurante chinês que pratica uma cozinha bem diferente da que é habitual  nos estabelecimentos do género em Lisboa. Não é por acaso que a cozinha da cidade de  Xangai é considerada como das mais elaboradas da China, recorrendo a ingredientes e a uma confecção que é pouco divulgada em Portugal. Este restaurante propõe resolver essa falta de conhecimento e apresenta uma escolha alargada de sugestões, com sabores - e por vezes ingredientes - inesperados. As minhas duas visitas correram bem e confesso que ainda estou a descobrir coisas novas na lista. Uma das dificuldades é que o pessoal do restaurante fala português com dificuldade e apesar de a lista estar traduzida o diálogo nem sempre é fácil. A maioria dos clientes são chineses, os preços são convidativos. A garrafeira tem alguns vinhos portugueses inesperados, e bem escolhidos. Numa próxima ocasião hei-de arranjar forma de sentar vários convivas à mesa, para ir experimentando vários pratos ao mesmo tempo, desde as saladas confeccionadas com algas até ao tofu picante ou os raviolis com carne de porco - que já provei e são fantásticos. Mas a lista é grande e tenho ainda muito para descobrir. Por coincidência, ou talvez não, o restaurante está bem perto da associação de conterrâneos de Xangai, que fica ali ao lado, na Miguel Bombarda 46.


 


DIXIT - “Eu tenho-te ouvido com evangélica paciência” - António Costa para António José Seguro num dos debates televisivos.


 


GOSTO - A Junta de Freguesia de Belém está disposta a garantir a manutenção dos brasões do Jardim do Império, salvando-os das diabruras de Sá Fernandes.


 


NÃO GOSTO - Portugal foi o país da União Europeia que mais desinvestiu na educação.


 


BACK TO BASICS - “Entre dois pecados escolho sempre aquele que ainda não experimentei” - Mae West


 

setembro 05, 2014

VERÃO MORNO COM TEMAS ESCALDANTES

TEMPERATURA - Este Verão foi pouco dado a temperaturas altas e noites envolventes, mas em compensação foi abundante em temas escaldantes. Nem o argumentista mais imaginativo conseguiria desenvolver um plot em que tanta mudança acontecesse em meia dúzia de semanas - o banco do regime esborou-se, um dos grupos familiares mais poderosos com enorme peso financeiro desfez-se num repente. Quanto mais penso nisto mais fico com a impressão que a história está muito longe de estar toda bem contada. Todas as semanas se vai descobrindo mais umas coisinhas, desde falhas dos auditores até pequenas e grandes conspirações, desde atitudes do Banco de Portugal a declarações de responsáveis políticos ao mais alto nível. Vai-se a ver e todos, do Presidente da República aos Ministros mais envolvidos, desde o Banco de Portugal à CMVM, juraram em falso e induziram em erro muita gente. A responsabilidade não é só de quem urdiu e mal geriu - é também de quem tolerou o que se passou e, mesmo sabendo, continuou a dizer que tudo estava no melhor dos mundos. Com a derrocada das últimas semanas não foi só um Banco e uma família que sofreram - foi todo o sistema de controlo que fica posto em causa, foi a confiança em declarações de políticos e técnicos que levou forte machadada. O Banco Espírito Santo caíu (o que até pode dar jeito a alguns) - mas a sua queda ainda vai arrastar mais gente do que aquilo que hoje se vislumbra.


 


SEMANADA -  Entre 1 de Janeiro e 31 de Agosto morreram 295 pessoas em acidentes de viação, menos 32 que em igual período do ano passado; entre Janeiro de 2013 e Julho deste ano registaram-se 256 acidentes com tractores e outras máquinas agrícolas, que provocaram 115 mortos e 83 feridos graves; entre 1 de Maio e 31 de Agosto perderam a vida nas praias quatro pessoas, contra 11 no mesmo período do ano passado; a praia urbana do Torel, em Lisboa, recebeu 80 mil visitantes em Agosto; um terço dos fogos e meio milhão de hectares, representando  41,5% da área ardida em incêndios florestais nos últimos 13 anos, devem-se à acção premeditada de incendiários; a TAP registou, em cinco dias,  cinco casos de incidentes com aviões da companhia mas a empresa nega aumento de problemas com voos; metade do aumento da receita de impostos deve-se ao combate à fuga e fraude fiscal; diversas estimativas apontam para uma receita diária do Estado Islâmico de entre dois a três milhões de dolares por dia, dinheiro proveviente da extorsão, de petróleo e de impostos; no segundo dia do mapa judiciário os problemas informáticos obrigaram advogados a recorrer ao tradicional correio em papel para evitar o risco de falhar prazos; CP, Metro de Lisboa e Metro do Porto registaram aumento de tráfego no primeiro semestre, com mais 3,2 milhões de passageiros transportados; os trabalhos na Praça do Areeiro, que duram há seis anos, que dificultam a circulação de peões e automóveis na zona, e que causam prejuízo aos comerciantes locais, estão suspensos desde o ano passado e sem data anunciada de conclusão devido a um litígio entre o Metro de Lisboa e a construtora; António Costa ainda não se declarou surpreendido por esta situação.





ARCO DA VELHA - A idade média dos quatro novos apoiantes de António Costa divulgados esta semana - Almeida Santos, Manuel Alegre, Vera Jardim e Jorge Sampaio - é de 78,7 anos.


 


FOLHEAR - Os leitores destas páginas sabem quanto aprecio, desde o início, a revista “Monocle”. Esta semana, o seu fundador, Tyler Brulé, vendeu uma participação minoritária por um valor estimado de dez milhões de dólares, permanecendo ainda com 80 por cento do capital da empresa que publica a revista. Segundo o “Financial Times” a “Monocle” significou um investimento de dez milhões de dólares quando foi lançada em 2007 e estará agora avaliada em cerca de 110 milhões de dólares. No primeiro semestre deste ano a circulação da revista cresceu 4% e é agora de perto de 80 mil exemplares, vendidos em todo o mundo, a um preço de capa de 12 dólares e a mais recente edição da revista conseguiu vender espaço publicitário no valor de meio milhão de dólares. O comprador da posição minoritária foi o grupo japonês Nikkei, que edita o jornal com maior circulação do mundo, o Nihon Keizai Shimbun, para além de deter 40 revistas, canais de TV, e estações de rádio. A edição de Setembro da “Monocle”, já disponível em Portugal, é dedicada aos negócios dos novos empreendedores e inclui o guia de empreendedorismo para 2014, que analisa vários casos de sucesso, entre os quais o do chef português José Avillez - cujo percurso empresarial conta com algum detalhe. Esta é uma daquelas edições para guardar e ir consultando, vendo os exemplos de companhias recentes que tiveram sucesso, um manual de como a criatividade e um sólido plano acrescentam valor aos negócios.


 


VER - Até 18 de Outubro ainda podem visitar no Museu do Caramulo a exposição “Lendas da Competição” , dedicadas a automóveis de corrida que fizeram história - e que desde meados de Junho já recebeu mais de 5 000 visitantes. Esta exposição conta com quase duas dezenas de automóveis de competição, abrangendo oito décadas de história, desde os anos 30. Entre eles contam-se lendas como o Bugatti 35B de 1930, o automóvel com mais vitórias de sempre na história da competição, até ao Lancia Delta HF Integrale 16V de 1991, com o qual Didier Auriol venceu o Campeonato do Mundo. A exposição inclui também veteranos das 24 Horas de


Le Mans, assim como automóveis fabricados em Portugal e que participaram na era dourada das


corridas nacionais nos anos 50, além dos monolugares dos anos 60 e 70 e automóveis de Rali


desde os anos 60 até à actualidade. Uma das grandes novidades da exposição, a partir desta semana,  é o Mercedes MGP W02, o Fórmula 1 original com o qual Michael Schumacher e Nico Rosberg correram na temporada de 2011.


 


OUVIR - A carreira de Al Jarreau vem desde meados dos anos 70 mas foi nos anos 80 que verdadeiramente ele se tornou popular com álbuns como “Breakin’ Away” e, nos anos 90, com “Heaven And Earth”. É assíduo vencedor dos Grammy Awards nas categorias Rhythm & Blues e Jazz Vocal. Tem um estilo peculiar, procura usar a voz como um instrumento, com frequente recurso a onomatopeias e às vezes fica um bocadinho repetitivo. Ganhou notoriedade antes do ressurgimento dos cantores de jazz do final dos anos 90, e hoje em dia já não tem muito para demonstrar. Um dos seus ídolos é George Duke, a quem deve aliás o início da sua carreira musical. Duke, que morreu em 2013, foi um dos mais multifacetados músicos norte-americanos e trabalhou com nomes como Frank Zappa, Miles Davis, Cannonball Adderley, Jean Luc Ponty, Milton Nascimento, Airto Moreira ou Flora Purim, entre outros. Além de instrumentista e produtor tornou-se conhecido como compositor e este disco de Al Jarreau é uma homenagem a essa sua faceta, com versões de nove temas célebres de Duke. Além de Al Jarreau, colaboram nomes como o baixista Marcus Miller, o saxofonista Boney James,  e as vozes de  Dr. John, Diane Reeves ou Lalah Hathaway, entre outros. CD Concorde, disponível em Portugal.


 


PROVAR - O antigo Eurotel de Tavira sofreu obras profundas nos últimos meses e uma completa remodelação num projecto do arquitecto Pedro Campos Costa. Agora responde pelo nome de Ozadi e inclui o restaurante Orangea, localizado numa área construída de novo, que inclui uma ampla esplanada coberta, de madeira, confortável e acolhedora. Ao almoço, tarde e ao fim da noite funciona como bar e serve petiscos e refeições leves,  vocacionadas para quem está na piscina do hotel, tendo ainda uma simpática carta de “tapas & wine”. Ao jantar o caso muda de figura e apura-se o trabalho da cozinha, com clara inspiração mediterrânica. Numa recente visita provaram-se, com sucesso, umas belíssimas pataniscas de estupeta de atum e supremos de dourada grelhada, com puré de cenoura e abóbora e grelos salteados. A carta de vinhos é razoável e tem uma boa escolha de produtores do Algarve, que cada vez vale mais a pena conhecer - peça indicações ao chefe de sala que aconselha bem os vinhos ideais para as escolhas que tiver feito. Se quiser rematar a refeição com um digestivo experimente o licor Orangea, à base de laranja, produzido em exclusivo para o hotel. Quinta das Oliveiras, Tavira, Telefone 281 324 324.


 


DIXIT - “Alguém devia informar a criatura que apagar a história material que o país foi construindo desde 1143 implica escavacar Portugal inteiro e todos os símbolos que poluem a paisagem com vícios e ganância, segundo o alarve anacronismo do vereador” - João Pereira Coutinho sobre a decisão de José Sá Fernandes de destruir os brasões das ex colónias no Jardim do Império.


 


GOSTO - O investimento de empresas inovadoras atingiu nos primeiros seis meses do ano um total de 11 milhões de euros, um valor próximo do total do ano passado.


 


NÃO GOSTO - No processo de pagamentos de quotas do PS Lisboa verificou-se que há 17 militantes registados como vivendo na mesma casa, sem serem da mesma família.


 


BACK TO BASICS - “Aprender sem pensar é trabalho perdido; pensar sem aprender é perigoso” - Confúcio

agosto 31, 2014

A ESQUINA SEMPRE ALERTA DESDE 2003

Hoje, que é dia dos blogues, aqui estou a recordar que me ando a passear nesta esquina do rio desde 2003. E obrigado a todos que me seguem.

agosto 29, 2014

SOBRE OS DRONES, A POLÍTICA E MANEIRAS DE VER UMA CIDADE

DRONES  - Chega agora aquela altura do ano em que os partidos criam uns acontecimentos a que chamam universidade de verão, ou qualquer outra coisa do género, para dar um ar de trabalho e respeitabilidade. No geral é perpetuamente convidado o mesmo conjunto de notáveis, em cada partido há o cuidado de ir buscar um notável do partido ao lado, e todos ficam felizes repetindo quase todos os anos os mesmos relatos das suas experiências passadas. Poucos são no entanto os que falam das realidade presentes e dos desafios futuros - o maior dos quais é a reforma do sistema político e partidário, assunto declarado tabu apesar de todas as iniciativas não partidárias em curso sobre essa matéria. Toca-se ao de leve no tema mas verdadeiramente a reforma do sistema não é interiorizada como uma prioridade - se o fosse o arco parlamentar provavelmente mudaria. É interessante como os partidos são incapazes de reflectir sobre si próprios - por exemplo sobre esse “case study” de conspiração interna em que se tornou o PS ou sobre a aliança entre negócios e política que toca todo o arco da governação de forma mais ou menos acentuada. Mas não os ouço a reflectir sobre as expectativas dos eleitores, sobre as possibilidades que a análise dos dados digitais hoje possibilitam a nível da acção política, sobre a importância da adopção de estudos de opinião à marcação da agenda política ou sobre a importância de saber comunicar de forma efectiva, em relação aos eleitores, por forma a mobilizá-los e não apenas aos militantes com o objectivo de os entreter, que é a prática corrente. Há quem demonize o marketing político, mas ninguém assume uma discussão séria sobre esta questão: é mau fazer marketing na política? Ou é preferível criar drones de falatório e politiquice, de que Marques Mendes deve ser o mais genuíno exemplo?


 


SEMANADA - Em Portugal registam.se, por ano, dez mil incêndios urbanos que provocam 60 mortes; a Provedoria de Justiça deu razão a queixas contra a CRESAP, uma comissão criada pelo Governo e liderada por João Bilhim para escolher dirigentes no Estado, e aponta violações da lei, critérios "arbitrários" e "conceitos indeterminados" na seleção e nos concursos; João Bilhim referiu que a Cresap “é um sonho do senhor primeiro-ministro”, acrescentando que “numa cultura da Europa do Sul, ou seja, do azeite, não é fácil aceitar a lei do mérito e a intervenção de uma entidade administrativa independente”;  Antonio José Seguro admitiu não poder garantir que vá baixar impostos se fôr primeiro-ministro; António Costa quer debater menos que Seguro - Costa propõe debates televisivos de 25 minutos e Seguro propõe 45 minutos; a hotelaria algarvia registou, no primeiro semestre deste ano, 6,5 milhões de dormidas, mais 13,1 por cento do que no período homólogo; a dívida da Câmara de Lisboa ultrapassa os 500 milhões de euros, mais do dobro da dívida do Porto; Vila Nova de Poiares, Portimão, Aveiro e Nazaré são municípios que estão com a corda na garganta e já mostraram interesse em recorrer a uma linha de emergência do Governo para pagar salários, transportes escolares e outros pagamentos essenciais mais urgentes; o Museu do Brinquedo, em Sintra, vai encerrar Domingo por falta de apoios.


ARCO DA VELHA - A KPMG, auditora do BES, recusou-se a assinar as contas do banco relativas ao primeiro semestre deste ano.


 


FOLHEAR - O número de Setembro da revista “Vanity Fair” é a edição anualmente dedicada ao Estilo, e que inclui a escolha dos que são considerados como os mais elegantes e mais bem vestidos - aqui fotografados por Mario Testino. Mas as principais matérias de interesse da revista têm a ver com outros estilos. Destaco o artigo sobre o projecto criado pelo arquitecto Frank Gehry em Paris, no Bois de Boulogne, para albergar a Fundação Louis Vuitton - descrito pela revista como um edifício diferente de qualquer coisa que antes se tenha conhecido, “um casamento de ambição cultural com empreendedorismo” . Faço questão de recordar que Lisboa não tem um projecto de Frank Gehry - por sinal fantástico (tive ocasião de o conhecer) -  paredes meias com a Avenida da Liberdade, por culpa principal desse nefasto Presidente da República chamado Jorge Sampaio, que vetou a utilização de verbas do Casino e do Jogo para a sua construção. O projecto de Gehry para Lisboa seria construído, se Sampaio não o tivesse impedido, no local onde continuam apenas a existir os destroços do Parque Mayer, que António Costa e Sá Fernandes persistem inabalavelmente em manter - mais um sinal da actuação de Costa na cidade que desgoverna, em estágio para querer fazer o mesmo ao país. Eu gostava que em Portugal volta e meia se fizesse a memória de algumas coisas e se investigasse, numa boa reportagem, o que levou um Presidente da República a impedir aquilo que seria uma obra de arquitectura marcante para Lisboa, com um enorme impacte no seu posicionamento internacional. Talvez nessa altura tivéssemos umas páginas da “Vanity Fair” a olhar para Lisboa.


 


VER -  O Sundance Channel foi criado por iniciativa de Robert Redford em 1996 com o objectivo de exibir filmes de autor, documentários, séries, curtas metragens e reportagens. O projecto cresceu, criou um festival de audiovisual - o Sundance Film Festival - que depressa se tornou uma referência. Na Europa o canal Sundance apenas tem uma versão na Holanda, por sinal o primeiro país a ter televisão privada num continente dominado por um serviço público cada vez mais arteroesclerótico. O Sundance é uma iniciativa privada, que além de Redford, contou com a CBS e a Universal, até ser comprado em 2008 pela Rainbow Media. Apesar de não poder ser visto em Portugal, uma pesquisa no YouTube revela muitos dos seus programas e, sobretudo, permite aceder a uma das suas séries documentais de referência, “Iconoclasts”  , exibida entre 2005 e 2012, e sempre patrocinada por uma marca de vodka premium. O conceito é simples - colocar duas personagens criativas e conhecidas, de áreas diferentes ou não, a falarem uma com a outra  sobre o que fazem.. No YouTube encontra os episódios do músico Eddie Vedder com o surfista Lair Hamilton, da cantora Fiona Aplle com o realizador Quentin Tarantino, da designer e estilista Stella McCartney com o artista plástico e fotógrafo Ed Ruscha, de Paul Smith com Jamie Oliver (na foto) e, sobretudo, os episódios do próprio Robert Redford a conversar com Paul Newman. Imperdível - e qualquer destes programas, aposto, é mais barato de produzir que uma transmissão de um jogo de futebol desses que passam a todaa hora no serviço público. É isso que me chateia.


 


OUVIR - Lana Del Rey é uma provocadora que agora se apresenta como guardiã de memórias do passado na música pop de hoje. Só assim se compreende a forma como ela evoca filmes antigos, como percorre a estética de imagem e até da música dos anos 60 e 70. A canção que dá nome ao álbum, “Ultraviolence”, repete a frase ““He Hit Me (And It Felt Like a Kiss)”, que era o título de um original de Carole King e Gerry Goffin, gravada pelos Cristals e Phil Spector nos anos 60. Muita da força deste disco, ao nível dos arranjos, da intensidasde das guitarras e da sonoridade criada deve-se  a Dan Auerbach, dos Black Keys, que exerceu a função de produtor. É sabido que os Black Keys gostam dos anos 70, mas este disco é mais que uma ida ao passado, é como um perverso exercício de nostalgia, nas letras e na música. Os temas mais marcantes são“West Coast”, “Brooklyn Baby”, “Money Power Glory”, “Old Money” e claro  “Fucked My Way Up To The Top” e “Cruel World”, a faixa de abertura. Em todos se nota o mesmo recado - um mundo que se foi tornando num museu confuso, em que a cultura se repete e em que todos copiam todos e imitam quem podem. Aqui está um álbum intrigante e sedutor.


 


PROVAR - Jorge Rodrigues é um dos chefs de cozinha algarvios que mais se tem destacado nos últimos anos. Combina a fidelidade às tradições gastronómicas da sua região com uma assinalável capacidade criativa e posiciona-se numa cozinha de inspiração mediterrãnica - um dos seus prémios diz respeito à forma como elaborou um tamboril em molho de carabineiro suado na cataplana. É ele o responsável pelo restaurante “O Convento”, localizado no Convento das Bernardas, em Tavira, reconstruído em 2010 pelo arquitecto Souto Moura, e que era o maior convento do Algarve. O restaurante fica numa sala ampla e tem uma lista tentadora. Nas entradas destaco as ostras da Ria Formosa ao natural, fresquíssimas, e um carpaccio de polvo com saladinha montanheira e vinagrete de coentros. Na parte mais substancial, quem quis as ostras de entrada avançou para  o polvo de Tavira confitado sobre esmagada de batata doce e misto de legumes e quem começou pelo carpaccio escolheu os filetes de cavala na chapa com açorda  de ostras e aroma a poejo. Do princípio ao fim tudo excedeu as expectativas - desde a manteiga de amendoa no couvert, até á troliogia de amendoa, alfarroba e figo na sobremenesa, acompanhada por um shot de medronho. A lista ds vinhos é assumidamente algarvia e o destaque da casa vai para a produção da Quinta do Barranco Longo. Na ocasião bebeu-se o branco, que esteve à altura da refeição servida. É sem nehuma dúvida o melhor restaurante do Algarve a que fui nos últimos tempos. O Convento, Rua Dom Paio Peres Correia, Tavira, telefone 281 329 040.





DIXIT -  “Sou uma carta fora do baralho” - Marcelo Rebelo de Sousa   


 


GOSTO - Depois de quatro anos de protestos dos utilizadores dos parques naturais do país, o Governo aboliu a polémica portaria que implicava o pagamento de uma taxa de 152 euros para a realização de uma simples caminhada.


 


NÃO GOSTO - O Jardim da Graça, prometido pelo executivo de António Costa para 2009 primeiro e para 2013 depois, continua com as obras paradadas desde há meses mas José Sá Fernandes arranjou tempo e recursos mandar retirar do Jardim da Praça do Império os brasões das ex-colónias.


 


BACK TO BASICS - “Não posso fazer mudar a direcçlão do vento, mas posso ajustar as velas do meu barco de maneira a conseguir chegar ao meu destino” - James Dean


 

agosto 27, 2014

TEMPOS DESFASADOS

VIVER - Lembram-se de como era a vida antes da internet? Qualquer dia ninguém que seja profissionalmente activo se vai recordar do que era a vida antes  dos emails, dos motores de busca, das redes sociais, dos smartphones e dos tablets. Hoje podemos comunicar, trabalhar, estudar, escrever, ter música, imagem e texto em qualquer local num pequeno aparelho. Podemos ouvir uma selecção de canções em streaming ou numa rádio on line, ou percorrer a nossa própria colecção de discos na cloud do iTunes. Podemos fotografar e partilhar instantaneamente a imagem em diversos sistemas, a começar pelo Instagram. Temos livros digitais e podemos viajar com uns quilos a menos. Podemos ler a nossa revista preferida mesmo num local recôndito sem ir à procura de um quiosque bem fornecido de imprensa internacional. Podemos percorrer de forma virtual uma exposição num dos grandes museus internacionais. Tudo isto faz diferença na maneira como trabalhamos mas também como vivemos os nossos períodos de descanso e como procuramos aprofundar o nosso conhecimento. Em 1994, há 20 anos, a Internet dava os primeiros passos, não havia Google, nem iPhone, nem Dropbox, nem muitas das outras coisas com que hoje convivemos em tablets e smartphones. Mas enquanto tudo mudou nas nossas vidas, na nossa aprendizagem, no nosso trabalho e no nosso lazer, pouco - muito pouco - mudou na forma de os políticos fazerem política, de os partidos funcionarem e do sistema político organizar e mediar o exercício do poder. Estamos numa época em que coexistem dois mundos diferentes - um que faz parte do nosso dia a dia e outro, antigo, que nos governa. Ou, como dramaticamente se tem visto, nos desgoverna.

SEMANADA - A nova proposta de Lei da Cópia Privada está feita de tal forma que penaliza os criadores  que utilizem sistemas digitais, taxando o equivalente de hoje em dia do papel, das telas, da película fotográfica ou dos instrumentos musicais; a Apple lançou uma campanha de publicidade nalgumas revistas norte-americanas, como a New Yorker, que exemplifica o potencial e a utilização do iPad no processo criativo de músicos, realizadores, coreógrafos e artistas plásticos; o valor dos empréstimos sem garantias feitos pelo Montepio ascende a dois mil milhões de euros; o número de vítimas mortais de acidentes de viação que consumiram estupefacientes aumentou nos últimos dois anos; Portugal tem o quinto maior défice comercial da Uniao Europeia; a crise provocou um rombo de 14% no PIB português; o PS tem menos simpatizantes que militantes - de acordo com os numeros divulgados após um mês de angariação o número de simpatizantes do PS não ultrapassa um terço do número de militantes; na distrital de Braga do PS verificou-se um surto de pagamentos de quotas em atraso que até pagou as quotas de pessoas entretanto já falecidas;
uma mulher de 64 anos, de uma povoação perto de Ferreira do Zêzere, recebeu uma carta do Ministério da Defesa a convocá-la para o dia da Defesa Nacional, o equivalente à antiga inspecção militar; o Ministério da Educação colocou nos seus quadros uma professora que completa 70 anos no dia do arranque das aulas, o mesmo em que por força da sua idade terá obrigatoriamente que se reformar; dois em cada três portugueses aposta na lotaria e em jogos de sorte, revela um estudo da Marktest; no primeiro semestre de 2014 mais de três milhões de portugueses acederam a sites de rádio a partir de computadores pessoais.

ARCO DA VELHA - Um doente do Hospital de Tomar que, por recomendaçāo do médico de família, pediu em Junho uma consulta urgente de cardiologia, recebeu em casa uma carta a marcá-la para Fevereiro de 2016.

OUVIR - A “Intima Fracção” começou por ser um programa de rádio, evoluíu a certa altura para um podcast que vivia no site do semanário “Expresso” e hoje em dia pode ser encontrada em alguns locais virtuais, indicados no Facebook (www.facebook.com/IntimaFraccao). Francisco Amaral, o seu criador e autor, diz que hoje em dia os arquivos de som que vai publicando se assemelham mais a uma banda sonora de estados de espírito que à forma original de programa de rádio, baseado numa playlist muito especial, com uma apurada selecção. Na “Íntima Fracção” as palavras têm um peso relevante, directamente ligado à música. Um dia destes, avisa Francisco Aamaral, as imagens, como esta que aqui reproduzo, e que foi retirada do seu Facebook, hão-de fazer parte do conceito. A “Íntima Fracção“ é um espaço de bom gosto, descoberta e serenidade musical num mundo em que os sons se tornam, na maior parte das vezes, numa amálgama desconexa. Aborrece-me que nenhum site informativo a aloje e divulgue como ela merece.

PROVAR - Graças à revista “Time” fiquei a saber que comer manteiga afinal não é um risco para o coração - e assim a torrada matinal com manteiga passou a saber ainda melhor. Vem isto a propósito da variação que ao longo dos últimos meses tem surgido sobre o que se deve e não deve comer. Algumas gorduras, em tempos amaldiçoadas, são agora toleradas. Dietas que exigiam sacrifícios gigantescos e recomendavam alimentos exóticos vão sendo substituídas por recomendações mais racionais. Vejo um número apreciável de artigos recentes e fico baralhado - o que ontem fazia mal hoje em dia pode ser ingerido e aquilo que dantes era recomendado afinal pode ter riscos. Eu compreendo que a indústria agro-alimentar movimenta milhões, mas gostava que não existissem tantos cientistas a criarem confusão e a promoverem estudos contraditórios de ano para ano, conforme os intersses de quem financia os seus estudos - que por vezes me parecem inúteis. Isto deixou de poder ser tratado como ciência, passou a ser roleta russa.

VER - Graças ao meu iPad estou a escrever esta crónica em férias, bem a sul, perto de Tavira, e ao mesmo tempo estou a visitar o magnífico site do MoMA - o Museum of Modern Art, de Nova Iorque. Destaco a exemplar exposição virtual dedicada à obra de Louise Bourgeois, que está em contínua construção, e que, quando ficar concluída, terá 3500 imagens do trabalho da artista - só por si vale a pena visitar esta secção do site do MoMA, acessível através da homepage do museu, entrando na área "explore". Delicio-me com o que vejo da exposição, inaugurada há poucos dias, “The Paris Of  Touluse-Lautrec: Prints and Posters”, que nos permite imaginar como seria Paris no final do século XIX. Noutro local do site do mesmo museu vejo que quem fôr a Nova Iorque até 1 de Setembro ainda poderá visitar no MoMA a exposição de Jasper Johns, e quem lá fôr a partir de 12 de Outubro poderá já visitar a exposição de colagens de Henri Matisse. O MoMA é um Museu sempre surpreendente e o seu site é um exemplo de referência da adaptação de uma instituição à vida no tempo digital - www.moma.org.

FOLHEAR - A revista "The New Yorker" é um caso sério de estudo para quem se interessa pela capacidade de adaptação de um título de imprensa, mantendo no entanto sempre o essencial das suas características e nunca desiludindo o núcleo duro dos seus leitores. Como o nome deixa antever a revista é uma espécie de manual de sobrevivência para os nova-iorquinos que prezam um estilo de vida cosmopolita, informado e ligado às artes. A Wikipedia descreve-a como uma revista dedicada à reportagem, comentários, crítica, ensaio, ficção, sátira, cartoons e poesia. É publicada desde 1925 pela Condé Nast 47 vezes por ano (há cinco números duplos). Destaque ainda para a qualidade gráfica da capa, baseada sempre em obras inéditas encomendadas a artistas - entre os quais o português Jorge Colombo. Mesmo para quem está longe de Nova Iorque, a New Yorker tem pelo menos dois terços de matérias que podem interessar a quem a quiser ler em qualquer ponto do mundo. E se dantes a revista chegava tarde e cara a Portugal, agora, na sua nova e muito boa edição para iPad, é possível fazer uma assinatura mensal por 5,49 euros. Irresistível.

DIXIT - “Ou os administradores do BES eram nabos e incompetentes ou eram mentirosos” - Domingos Azevedo, Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas e ex-deputado do PS.

GOSTO - Da divulgação da Acta da Reunião Extraordinária do Banco de Portugal que criou o Novo Banco pelo advogado Miguel Reis, que a obteve utilizando apenas informação disponível na net.

NÃO GOSTO - O horror criado pelo chamado Estado Islâmico é um exemplo de barbárie pura, que aproveita a destruição da vida humana de forma selvática para fazer propaganda.

BACK TO BASICS - A velocidade a que os rios desembocam nos oceanos não é tão veloz como a rapidez com que os homens cometem erros - Voltaire

agosto 14, 2014

VOTAR SEM SABER EM QUÊ

FUGA - Quando se vai a votos espera-se que os votantes escolham entre propostas diferentes, entre programas e ideias concretas, entre estratégias políticas e sociais diversas, certo? Quando há umas eleições, seja numa associação, numa agremiação desportiva, numa autarquia, num partido ou no país, o lógico é que os eleitores possam decidir com base no que os candidatos opinaram sobre as principais questões que, no cargo a que se candidatam, se lhes colocarão, não é? No entanto, quem seguir o que tem estado a acontecer nas primárias do PS dificilmente poderá seguir este raciocínio. Nas primárias do PS levou-se a fulanização da política ao extremo. Os eleitores, sejam militantes ou simpatizantes, não têm por onde escolher entre programas diferentes ou propostas diversas porque pura e simplesmente elas não se encontram explicitadas. Os dois candidatos, mas António Costa principalmente, fogem de tomar posição sobre os temas mais quentes e decisivos que se podem colocar a um primeiro ministro português nos próximos anos - e, no entanto, estas eleições são, teoricamente, para escolher quem será o candidato do PS a tal cargo nas próximas legislativas. Aos eleitores, face à fuga a dar resposta a questões concretas e à realidade, resta escolherem entre duas pessoas, entre dois estilos, entre duas imagens, entre duas retóricas. Quando a política se resume a estilo o resultado nunca é bom.


 


SEMANADA - Devido à falta de alunos as reduções de preços nas universidades privadas chegam aos 80%; quase metade dos desempregados estão sem trabalho há dois anos; uma mulher em Felgueiras prostituía a filha de doze anos a troco de carregamentos de telemóvel; em Portugal, nos últimos três anos, a percentagem de divórcios em relação aos casamentos realizados é de 70%; este ano os deputados tiveram mais 17% de faltas às sessões do Parlamento que no ano anterior - um total de 1634 faltas, uma média de 16 faltas por sessão; o número de jovens entre os 15 e os 29 anos em Portugal caíu em quase meio milhão de pessoas na última década; uma sondagem desta semana aponta que a maioria dos portugueses não acredita no sucesso das investigações da justiça no caso BES; Jorge Silva Carvalho, conhecido como o espião que foi para a Ongoing, foi designado director científico do MBA em Gestão do  Conhecimento e Inteligência Competitiva, na Coimbra Business School; segundo o Tribunal de Contas a receita do IVA desceu 3,3% de 2012 para 2013 em vez de ter aumentado 3,5% como dizia o Governo; o Tribunal de Contas considerou que as medidas de austeridade dos últimos três anos são precárias, centradas no curto prazo e foram insuficientes para conter a despesa do Estado com pensões; o sector da construção e obras públicas continua a ser aquele em que se verifica maior numero de insolvências de empresas; em Junho deste ano registou se uma queda de 20% no numero de empresas que declararam insolvência; depois da crise do BES a Bolsa de Lisboa, cujos resultados a colocavam entre as dez melhores a nível mundial, passou a ser a terceira pior do mundo, apenas à frente do Gana e da Venezuela.


 


ARCO DA VELHA - Sete dias depois de chegar a Bruxelas o eurodeputado Marinho Pinto anunciou que irá abandonar o Parlamento Europeu daqui a um ano para se candidatar à Assembleia da República, diz que o vencimento do novo cargo é “vergonhoso” mas afirmou não tencionar abdicar dele porque “sou pobre, preciso do dinheiro”. Anunciou também a sua disponibilidade para se candidatar à Presidência da República depois das eleições legislativas.


 


FOLHEAR - Cada vez vale a mais a pena folhear o British Journal Of Photography - seja em papel, seja na boa edição digital para iPad. Depois de em Julho ter feito uma edição dedicada à nova fotografia espanhola - desde fotógrafos a editores e curadores de exposições, passando pelo clássico Juan Fontcuberta, a edição de Agosto é dedicada à fotografia de guerra. O pretexto da edição é o centenário da I Grande Guerra, mas quis o destino que as imagens mais contemporâneas calhassem numa altura em que em várias zonas se reacendem conflitos violentos. A acompanhar  fotografias duras e explícitas de várias guerras em várias épocas e diversas zonas do globo, estão textos de enquadramento e de análise sobre o que tem sido o poder e o papel da fotografia nestes conflitos.


 


VER -  O Centro Português de Fotografia funciona na antiga Cadeia da Relação, no Porto, e desenvolve, com poucos meios, um trabalho exemplar quer na salvaguarda do património fotográfico que lhe está confiado, quer na apresentação de diversas exposições temporárias. Actualmente, e até finais de Setembro, destaco três exposições: “Prostituição, retratos de uma vida na rua",  do espanhol Ruben Garcia (na imagem), “A Pose e a Presa” que mostra um outro olhar sobre o universo da Caça e que ganhou a bolsa atribuída em 2013 pela Estação Imagem de Mora, e finalmente o trabalho de Mário Cruz, o vencedor do prémio de fotojornalismo 2014, também da Estação Imagem de Mora, com a reportagem “Cegueira Recente” que mostra a vida no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos sobre pessoas que perderam a visāo. Finalmente vale a pena recordar a exposição permanente, que mostra a evolução do aparelho fotográfico ao longo dos tempos. Por último destaque para o Projecto 14 que reúne trabalhos de fim de curso de alunos de várias instituições de ensino que abordam a fotografia.  O CPF funciona terça a sexta das 10h00 às 12h30  e das 14h00 às18h00, e aos  sábados, domingos e feriados entre as 15h00 e as 19h00.


 


OUVIR - Em 1987 Dolly Parton, Emmylou Harris e Linda Ronstadt fizeram um álbum apropriadamente designado por “Trio”. Venderam para cima de quatro milhões de discos, ganharam dois Grammys e em 1999 reincidiram com “Trio II” que não teve metade do sucesso. A ideia de colaborações entre músicos de origens diversas é sempre um desafio. Felizmente que a nova aventura a três, e que envolve Norah Jones, Sasha Dobson e Catherine Porter, corre bem. Entre os blues e o jazz de Norah e Sasha, e o rock que sustenta a carreira de Catherine Porter, desenha-se um disco com surpresas como a versão de “Jesus,Etc” de Wilco, uma abordagem clássica mas entusiasmante de “Down By The River” de Neil Diamond, e um arisco “Sex Degrees Of Separation” da própria Dobson. Estas três meninas formaram as Puss N Boots em 2008 quando Norah Jones começou a tocar guitarra nalguns bares de Brooklin, cedo acompanhada por Sasha Dobson e depois por Catherine Porter. Durante este tempo tocaram sobretudo para amigos, nos intervalos das respectivas digressões individuais. Quando se entenderam a tocar guitarra já tinham ganho reputação como uma banda country e daí a gravarem este disco para a Blue Note foi um passo. Constituído em partes iguais por versões e originais cabe destacar, além das já referidas, as interpretações de “Leaving London” um tema de Tom Paxton  e “Bull Rider”, um clássico de Johnny Cash.“No Fools, No Fun”, Puss N Boots, CD já à venda.


 


PROVAR - Ele há dias em que mais valia não me sentar num restaurante para almoçar. Foi o que me aconteceu, nas Avenidas Novas, no Laurentina, apelidado, sabe-se lá porquê, o Rei do Bacalhau. Sentado na esplanada, iludido pela vontade de bacalhau com grão, depressa me arrependi. Saíu-me um daqueles empregados espertalhões que servem para iludir turistas e acham que podem fazer o mesmo a clientes nacionais. Primeiro quis impingir-me uma meia garrafa do que lhe apetecia, nome falado entre dentes para eu não perceber bem, em vez de me mostrar a lista. Saíu-se com uma Duas Quintas que não era bem o que me apetecia, por muito bom que fosse. Chegou morno de temperatura e quente de preço. Passemos então ao bacalhau: ao fim de algum tempo, chegou a meia posta pedida, cozida demais e já esfriada. O grão, que bem podia ser de lata de sensaborão que estava, vinha igualmente friozote e em reduzida quantidade, partilhando o espaço com umas batatas que foram para dentro como chegaram. Lá apareceu a  salsa e a cebola mas não veio o alho. O azeite era abaixo de mediano. A pimenta, pedida, era em pó, envelhecida e mortiça, em vez de ser fresca e em moinho. No entretanto um empregado entretinha-se a colocar pedaços de batata cozida no chão para alimentar a praga de pombos junto à esplanada. No fim paguei praticamente 30 euros por mau serviço e comida mal confeccionada e mal servida. Ao meu lado uma cliente que almoçava com um estrangeiro e pediu factura com número de contribuinte levou como resposta que a conta já estava fechada e que teria de passar depois porque o patrão não estava e só ele podia tratar dessa engenharia - tudo isto se passa a meia centena de metros da ASAE. Esta Laurentina já não se recomenda e até me arrepio do que aconteça aos turistas que por ali passeiam na Conde de Valbom.


 


DIXIT - “A reforma do Estado não é possível com estes actores políticos” - Luis Palha da Silva


 


GOSTO - Produção da Auto Europa aumentou 12,3% no primeiro semestre deste ano


 


NÃO GOSTO - Sete em cada dez novos casos em Tribunal são devidos a dívidas.


 


BACK TO BASICS - “Não teria nenhum problema em estar de acordo contigo, se tu tivesses razão.” - Robin Williams

agosto 08, 2014

ISTO ANDA TUDO LIGADO

POTENCIAL - O meu ponto de partida numa conversa de café é sempre complicado - desprezo o futebol, que acho um jogo menor. Não me distrai, não me encanta e aborrece-me. Não sei falar sobre o assunto. Esteticamente acho-o medonho. Perturba-me a importância que lhe é dada. Perturba-me ainda mais que ele sirva de desculpa ou escape para muita coisa. O rol de denúncias de falcatruas diversas, os erros de arbitragem, a corrupção, as ligações suspeitas, o crónico endividamente de clubes geridos a proveito de quem lá manda, tudo isto transformou o futebol num jogo de sorte ou azar, em vez de um desporto. Vivemos num país onde mais depressa os desabafos de Jorge Jesus sobre o estado do Benfica motivam mobilização do que a situação no BES cria movimentações. Isto não é propriamente novidade e por alguma razão o serviço público de televisão prefere investir em futebol de mediano interesse do que em programas de referência, como documentários ou ficção. Mas não me quero meter nisso, há muito que se percebeu que mesmo este Governo prefere distrair com o futebol a investir na criatividade e num audiovisual sustentável. Maduro, que entrou cheio de prosápia,  amadureceu tanto que pelos vistos apodreceu. Limita-se a ser um vendedor de ilusões sobre a Europa. Como dizem - e demonstram - livros recentes de Lino Fernandes (“Portugal 2015 - Uma segunda oportunidade?”)ou de Felix Ribeiro (“A Economia de Uma Nação Rebelde”), se houvesse estratégia no país em vez de manobras tácticas, muita coisa podia ser diferente.. Estas obras mostram dois dos melhores pensadores sobre Portugal das ultimas décadas e demonstram que o país tem potencial, mas desprezou sempre seguir um plano que potenciasse esse potencial. Os seus livros, publicados este ano, mereciam ser estudados por quem Governa. Não me parece, infelizmente, que tal suceda. Fazer o que propõem dá trabalho e só tem efeitos de médio prazo - coisa desinteressante numa política que vive de eleições e arranjos.


 


SEMANADA - Um país em festa: o estudo TGI da Marktest contabiliza cerca de 1,5 milhões de indivíduos que refere ter ido a uma discoteca nos últimos 12 meses; existem 20 mil cães perigosos registados em Portugal; em Junho de 2011 a população activa portuguesa era 5,5 milhões de pessoas e em Junho deste ano tinha descido para 5,24 milhões; novas admissões na Função Pública representam um terço dos 90 mil empregos criados no segundo trimestre deste ano; seis em cada dez empregos gerados no segundo trimestre foram para trabalhadores com mais de 45 anos; a Feira do Livro de Lisboa deste ano passou pela primeira vez na história do evento a barreira do meio milhão de visitantes; 270 reuniões de comissões de inquérito parlamentares resultaram em nada em termos de procedimentos subsequentes; a recém recuperada Ribeira das Naus, em Lisboa, tem água poluída e uma quantidade anormal de mosquitos; o Provedor de Justiça recomendou que os fiscais da EMEL esperem “um tempo razoável” antes de aplicarem multas, para dar tempo aos automobilistas para trocarem moedas e afixarem o comprovativo; a EMEL passou uma multa a um cidadão que estava morto e nunca teve carro; as empresas de transporte público de Lisboa e do Porto perderam desde 2010 mais de 145 milhões de passageiros, tendo apenas o Metro do Porto conquistado clientes; no ano passado registaram-se quase três milhões de falsas urgências nos hospitais; faltam cerca de 25 mil enfermeiros no sistema hospitalar; o Benfica registou seis derrotas nos jogos de pré-epoca das últimas semanas; Julho deste ano foi o mais chuvoso deste século; o Ministro Pires de Lima classificou de “desfaçatez” o comportamento da PT em relação do BES.


 


ARCO DA VELHA - Um terço dos professores que realizaram as provas do Ministério da Educação fez três ou mais erros ortográficos e apenas 37% tiveram a prova limpa sem erros.


 


FOLHEAR - Estamos naquela altura do ano em que a “Monocle” abandona o formato revista e passa a ser jornal. Surge a “Monocle Mediterraneo”: Mais à frente aparece a “Monocle Alpes”, no Inverno, para quem gosta de neve: Mas, por agora, fiquemos a sul, no Mediterrâneo, Esta é uma edição sempre dedicada às praias, a barcos, ao mar. Aqui há receitas de boas saladas (como uma de lentilhas com atum fresco, fantástica, que experimentámos em casa neste fim de semana), há indicações dos melhores bares, de excelentes locais para ficar. E, por cima disto tudo, Portugal - que não costuma aparecer nesta edição - surge com uma reportagem de duas páginas sobre o trabalho da Força Aérea, na base do Montijo, do esquadrão 751 heli-transportado, que já fez mais de três mil salvamentos no mar. É uma história muito bem contada sobre as missões, ambições e acções de um conjunto de homens que garantem a segurança na costa portuguesa. Só por isto já valia ler esta edição veraneante da “Monocle”.


 


VER -  Duas sugestões algarvias : Uma, em Tavira, na Casa das Artes - a exposição dos fotógrafos de “A Pequena Galeria” (na imagem). Ali estão até 22 de Agosto cerca de três dezenas de fotografias de Ágata Xavier, António Luiz Sousa, Carlos Gonçalves, Carlos Oliveira Cruz, Guilherme Godinho e Luis Pereira, trabalhos seleccionados a partir do que os autores  apresentaram em “A Pequena Galeria” ao longo de 2013 e 2014. A segunda tem a ver com o trabalho da fotógrafa Luisa Ferreira, decorre em São Brás de Alportel e chama-se “À Procura de Um Outro Corpo”. As fotografias de Luísa Ferreira estão Museu do Traje e na Antiga Farmácia Passos,  e podem ser vistas até final de Outubro.


 


OUVIR - Dois dos maiores êxitos da carreira a solo de Eric Clapton têm a assinatura de J.J. Cale - “Cocaine” e “After Midnight”. Nessa época Clapton saía da ressaca do fim dos Cream e dos Blind Faith e as canções de Cale deram-lhe uma confiança e segurança de que ele precisava na altura. “The Raod To Escondido”, um disco de 2006, permitiu a Eric Clapton retribuir a ajuda de Cale. A ideia deste novo álbum de homenagem nasceu depois da morte de JJ Cale e o título vem de uma das suas canções mais conhecidas, “Call Me The Breeze”, popularizada pelos Lynyrd Skynyrd. Neste “The Breeze” encontram logo na abertura a faixa que inspira o nome do disco, mas não encontrarão nenhum dos tema sque Clapton popularizou. Os melhores momentos do disco vêm da participação de Tom Petty em “Rock And Roll Records”, de Mark Knopfler em “Train To Nowhere”, de Willie Nelson em “Starbound” e de Don White em “I’Lll Be There”. Eric Clapton & Friends, “The Breeze - An Appreciation of JJ Cale”, edição Universal, à venda onde ainda há discos.


 


PROVAR - Até fico com pena de dizer isto, mas o Dell Anima, um novo restaurante italiano da Duque de Ávila, é uma boa ideia mal conseguida. Comecemos pelo espaço, que é muito bom, - esplanada no passeio da renovada avenida, sala interior bem climatizada, e esplanada no pátio das traseiras, arejada, com vegetação e uma fonte que ajuda à sensação de frescura. Mesas grandes corridas onde as pessoas se podem sentar com desconhecidos - mas onde há o risco de calhar ao lado de uma brasileira guinchante, que foi o que me aconteceu. Depois a lista: grande demais, complexa demais, parece uma proposta de infindável degustação e eu embirro com degustações. No geral até poderia dizer que há boas propostas, em quase todos os items, mas de facto a extensão não ajuda a um restaurante que se quer informal e o resultado é que se vai para o óbvio de uma pizzeria - a pizza. Da massa das pizzas só tenho a dizer bem, e dos conteúdos de uma Calabrese que pedi também só tenho que elogiar. O mesmo se aplica à focaccia de entrada, mas não aos gressinos, que não eram frescos. A lista de vinhos volta a ser despropositada nas escolhas, nos preços propostos e na ausência de mais vinhos frescos - brancos e rosés. Também se lamenta a inexistência de um vinho da casa, nas várias variantes possíveis, a um preço que estimule as pessoas a beberem um copo sem terem que beber uma garrafa. O serviço tem muito a melhorar, sobretudo na atenção às mesas, na atenção e rapidez do pedido da conta. Pretencioso na lista de comidas, esquizofrénico na lista dos vinhos, distraído no serviço. Salva-se a pizza. Já não é mau, espero que com o tempo melhore o resto, que o sítio merece. Ristorante Dell’Anima, Av. Duque de Ávila 42 B, telef 215 926 346.


 


DIXIT - “A falta de dinheiro no Estado abre espaço à iniciativa privada na Cultura” - Álvaro Covões


 


GOSTO - Portugal ganhou 16 prémios no World Travel Awards Europe e o Turismo de Portugal foi considerado o melhor organismo oficial de Turismo na Europa.


 


NÃO GOSTO - O Estado pagou desde 2007 mais de 22 milhões de euros por horas de vôo que nunca existiram dos helicópteros Kamov de combate a incêndios


 


BACK TO BASICS - A inveja é a úlcera da alma - Sócrates, filósofo grego

agosto 01, 2014

O SISTEMA JUDICIAL TEM UMA AGENDA MEDIÁTICA?

ILUSÃO - Continua a haver qualquer coisa que me desagrada no funcionamento da justiça portuguesa e já não estou a falar só da lentidão. Peguemos no caso do BES - avolumam-se indícios de que os últimos seis meses foram um contínuo lançar de petróleo sobre a fogueira ou, se quiserem, um constante deitar dinheiro a rodos do BES para cima do GES, literalmente lançando à rua milhões e milhões de euros que se desvaneceram nesse poço sem fundo em que se tornaram as holdings familiares do grupo. Mas numa altura destas, em que é flagrante, pelo menos, que as instruções do Banco de Portugal não foram cumpridas e que foram até contrariadas, a investigação sobre os líderes do grupo Espírito Santo que gerou mediatismo (a detenção, para interrogatório, de Ricardo Salgado) é assente num facto com uns anos e já muito conhecido. Não é que o tema não tenha que ser investigado - é que da maneira que as coisas foram feitas fica a impressão de que se pegou num caso antigo que estava mais ou menos estudado (e a ver vamos como) para criar um efeito mediático, dando impressão que o Ministério Público estava em cima do processo actual. O expediente, em matéria de comunicação, fez capas e deu notícias e imagens nos telejornais - ir prender um banqueiro dá sempre audiência. Mas quando se percebeu o que estava em cima da mesa logo surgiu a dúvida sobre o momento e a oportunidade. E, mais grave, sobre se a acção da justiça, neste caso, não será um exercício de atirar poeira para os olhos, com o objectivo de criar a percepção pública de que ela estaria em cima de um acontecimento de onde, afinal, como agora bem se percebe, está longíssimo. O caso não faz ter mais respeito pela justiça - provoca o contrário porque se avoluma o sentimento de que as investigações só avançam quando os investigados perdem poder e estatuto. No meio disto fica uma desagradável dúvida: o sistema judicial tem uma agenda que passa por iludir a opinião pública, ou de facto segue o que se passa no país?


 


SEMANADA - As dívidas fiscais nos tribunais já atingem 7,57 mil milhões de euros, mais 700 milhões que em 2011; uma auditoria à Câmara Municipal de Braga encontrou indícios de gestão ruinosa por parte do anterior presidente da Câmara, Mesquita Machado, eleito pelo PS, que esteve 37 anos no poder; segundo a mesma auditoria à gestão anterior o passivo da Câmara Municipal de Braga ultrapassa os 252 milhões de euros; o tráfego nas autoestradas da Brisa aumentou 4,6% no primeiro semestre deste ano e apenas do segundo trimestre teve um aumento de 7,1% em relação a iguais períodos de 2013; este ano já foram detidas sete mulheres por levarem droga escondida no corpo em visitas a familiares detidos em cadeias; o numero de estudantes estrangeiros em universidades portuguesas passou de 19 mil para 31 mil em três anos;os helicópteros que combatem os incêndios florestais estão sem seguro desde 2011; na campanha do PS tanto Seguro como Costa prometem desmantelar legado de Passos Coelho; em Lisboa a piscina do Campo Grande devia estar aberta há 2 anos mas as obras ainda não recomeçaram; António José Seguro disse em entrevista que “o PS associado aos negócios e interesses é apoiante de António Costa”; a Procuradoria Geral da República desmente que Sócrates esteja a ser investigado e o antigo primeiro-ministro nega qualquer envolvimento no caso Monte Branco, dizendo-se vítima “de uma canalhice”.


 


ARCO DA VELHA - O BES financiou a a actividade de vários grupos empresariais na condição de estes contraírem outros empréstimos junto do Banco para aplicarem em dívida e acções do Grupo Espírito Santo.


 


FOLHEAR - Todos sabemos que uma apresentação pode ser um momento mágico mas, na maioria das vezes, é um momento de enorme aborrecimento. Já nos aconteceu a todos ver um powerpoint em que o orador lê linha após linha a escrita intrincada que aparece no ecrã com gráficos e quadros impossíveis de apreender a mais de um metro de distância. Existe uma empresa, de origem brasileira mas que em Portugal está estabelecida há uns anos, a Soap, que se especializou em fazer boas apresentações: olham pra cada caso como se se tratasse de um filme e constroem um guião. Eu hoje em dia não gosto de usar a palavra “narrativa”, mas reconheço que uma apresentação como deve ser vive de um boa narrativa ou, se quiserem, de uma história bem contada. E uma história, se fôr bem contada, sem demasiado palavreado, pode cativar a audiência. Eu costumo dizer que um dos problemas dos filmes não americanos é que os diálogos são demasiado longos e desnecessários; aplique-se o mesmo às apresentações - eis o princípio que a Soap segue. O melhor de tudo é que querem partilhar connosco o seu método e fizeram um livro chamado “Super Apresentações - como vender ideias e conquistar audiências”, que minuciosamente descreve o processo que usam. Editado há uns anos no Brasil, teve agora edição portuguesa, adaptada a esta realidade e aos clientes locais, feita pela mão de Artur Ferreira, que foi quem trouxe o conceito para Portugal, onde dirige a Soap. O livro saíu por estes dias e lê-lo vale bem a pena- pode ser que ganhem um cliente se seguirem os conselhos que aqui vêem na próxima apresentação que fizerem.


 


VER -  Hoje recomendo um site. O site novo da revista “The New Yorker”, que em Fevereiro do próximo ano fará 90 anos. Sou um devorador da revista, seja em papel que vou comprando uma vez por outra, seja no seu site. Gosto das capas (algumas desenhadas por Jorge Colombo), gosto dos artigos, das biografias, das investigações, das short-stories, dos números especiais. O novo site tem também novidades a nível do acesso - durante os próximos três meses todo o conteúdo fica disponível à borla, incluindo o arquivo inteiro - normalmente até aqui apenas um terço da edição era disponibilizada on line a menos que se fosse assinante. Daqui a três meses entra em vigor outra modalidade, com preços diferenciados conforme o indíce de utilização, como acontece no New York Times ou Wall Street Journal - e existirão tabelas para leitores no estrangeiro. 2013 foi o ano  mais lucrativo desta publicação do grupo Condé Nast nas últimas décadas - The New Yorker tem um milhão de assinantes da edição em papel e 12 milhões de visitantes na internet. O novo site será mais fácil de manusear em dispositivos móveis, é feito a partir da plataforma wordpress, e sugiro que o descubram e utilizem em www.newyorker.com . E já agora termino com uma citação do editorial que apresenta o novo website: “Publishing the best work possible remains our aim. Advances in design and technology are tools in that effort.”. Óbvio, não é?


 


OUVIR - Jack White toca blues. É certo que algumas vezes não são blues muito ortodoxos - mas lá que são mesmo blues não há dúvida - logo desde a primeira canção deste seu novo disco, “Three Women”, uma adaptação livre de um clássico dos blues do final da década de 20 (do século passado, claro). Aqui há de tudo: a batida, o piano, a guitarra, as pausas, o brincar com as palavras. Desde o seu trabalho com The White Stripes, Jack White tem participado em dezenas de discos, apadrinhado desconhecidos ou feito heresias com conhecidos, como Neil Young, tudo através da sua editora Third Man. Há neste disco um lote de influências, que vão dos blues primitivos aos Rolling Stones, passando por brincadeiras que evocam Beach Boys, Ramones ou Queen e algum hip-hop aqui e ali. White gosta de brincar com as palavras e o título do álbum, “Lazaretto”, evoca leprosarias e hospitais de quarentena - como se tudo isto fosse um exercício de isolamento do mundo - certamente relacionado com o que se passou na sua vida e relações nos tempos mais recentes. Autobiográfico, intimista, sentido (All Alone In My Home Nobody Can Touch Me), este disco mostra uma dimensão próxima de um diário onde se vai escrevendo o que se sente de forma muito visceral. Apetece ouvir este disco e estas canções vez após vez. Em repeat, no iPhone para onde copiei o disco que comprei, o mesmo aparelho que agora querem taxar. Jack White havia de escrever sobre isto - “every single bone in my brain is electric”.


 


PROVAR - Comer um peixe assado na brasa em Lisboa não é uma das coisas mais simples do mundo. Primeiro, há muitos grelhadores mas poucas brasas; depois há muita gente a grelhar mas pouca a fazê-lo como deve ser; e finalmente, se passarmos para o ponto sério da questão, que nesta época do ano se resume às derradeiras e frágeis sardinhas, então a coisa torna-se mesmo complicada. A sardinha é um peixe delicado - precisa de ser fresco senão fica uma papa; precisa de ser bem assado, para não ficar desfeito; é pequeno e não quer exageros de calor nem de chama. Não é fácil assar bem sardinhas e em Lisboa nem sempre é fácil encontrar as melhores e mais frescas, como por exemplo as que se provam em Setúbal. Mas há um sítio lisboeta onde isso é possível. Chama-se “Último Porto” e faz da assadura na brase uma arte e da frescura e qualidade do peixe um princípio. É módico nos preços, divertido e despachado no serviço. A dose de sardinhas custa 11,50 euros, o jarro de vinho branco da casa, muito aceitável, fica pelos três euros. Chega-se lá indo até ao fundo da estrada da Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos ou, pelo outro lado, até ao parque perto do Speakeasy, atravessando-se depois a ponte pedonal. Convém marcar que a esplanada enche com rapidez. O telefone é o 213979498.


 


DIXIT - “26 mil milhões de euros é uma pipa de massa, devem ser bem aplicados. E que se calem aqueles que dizem que a UE não é solidária com Portugal” - Durão Barroso sobre os novos fundos europeus para Portugal.


 


GOSTO - A revista francesa “Les Inrockuptibles” fez um rasgado elogio à música portuguesa contemporânea, afirmando que em termos musicais Portugal é a California da Europa com “uma cena musical riquíssima”.


 


NÃO GOSTO - Da criação de uma taxa sobre tablets, telemóveis e dispositivos de gravação sem ter em conta os utilizadores que pagam os conteúdos que consomem.


 


BACK TO BASICS - “Se quiserem testar o verdadeiro carácter de um homem, dêem-lhe poder e esperem para ver o que faz” - Abraham Lincoln