novembro 18, 2011

O Grupo de Trabalho, o Sr. Duque e sugestões avulsas

O GRUPO – Foi finalmente conhecido o relatório do Grupo de Trabalho sobre o serviço público de comunicação. Dedica mais atenção à televisão do que à rádio e agência noticiosa, mas isso reflecte o peso das audiências nas decisões políticas. De uma forma geral a primeira constatação é que o estudo é muito marcado pela conjuntura e é bastante mais pródigo em recomendações tácticas do que numa reflexão estratégica assente no estudo comparado de vários modelos e virada para o futuro. Embora use muito palavreado digital, a nova realidade dos media é de facto pouco analisada e, de uma forma geral, a repercussão desta realidade no futuro da comunicação é vista de passagem. É pena, porque se isto é para ser aplicado depois de 2012, como já disse o Ministro Miguel Relvas, este seria o caminho mais interessante a explorar, porque o resto já se encontra decidido pelo Governo – talvez por saber isto mesmo o estudo faz recomendações para o curto prazo, numa espécie de afirmação de demarcação do executivo. O melhor do estudo é apontar um caminho de não concorrência do serviço público aos operadores privados; o pior do estudo é uma sugestão de interferência demasiado grande nas políticas de programação e editoriais, algo que não se esperava. Para resumir de outra maneira, o estudo preocupa-se mais com a forma de distribuição dos conteúdos do que com os conteúdos em si – e essa é a sua maior falha.




SEMANADA – A propósito da audiência com Obama, o “Washington Post” fez esta tradução fonética do nome do Presidente português Anibal Cavaco Silva: ah-NEE’-bal ca-va-COO’ SEEL’-vuh; terça feira de manhã o Ministro Santos Pereira anunciou o fim da crise; no mesmo dia, já depois de almoço, anunciou que afinal era apenas o início do fim da crise;  segundo o Eurostat Portugal é o único país da zona Euro em recessão técnica; em Viseu a PSP não conseguiu efectuar uma perseguição porque todos os seus carros estavam avariados.


 


ARCO DA VELHA –  O coordenador e porta-voz do grupo de trabalho sobre o serviço público de televisão preconizou, na TSF, que  a informação emitida pela RTP Internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” pelo Governo, sublinhando que esse tratamento “não deve ser questionado” e tudo isto, como salientou, «a bem da nação».


 


VER – «Sangue do Meu Sangue», de João Canijo, é um dos mais brilhantes filmes portugueses que me lembro de ter visto. É uma crónica contemporânea do que se passa ao lado das grandes cidades. Eça de Queiroz escrevia sobre os conflitos na burguesia da província, mais de um século depois Canijo filma a tensão nos bairros periféricos. Mas, em épocas e com meios diferentes, ambos acabam por ter pontos comuns, fruto da condição humana e da persistência dos comportamentos. Este não é um filme passadista, é muito actual e real. Canijo é dos realizadores portugueses que mais filmou, graças aos anos em que trabalhou como assistente de realização de Manoel de Oliveira e isso sente-se no domínio da técnica, algo que, no cinema, só vem com o tempo. Mas sente-se nele também a influência da cultura popular urbana, que apareceu em filmes e na música inglesa nos anos 90, e cujos exemplo e linguagem visual João Canijo assume. A ideia do argumento funciona e os diálogos – escritos num processo colaborativo com os actores – são quase perfeitos e, mesmo nas cenas mais duras, são naturais. No filme é muito curiosa a opção, em diversos momentos, por fazer decorrer duas acções diferentes em simultâneo, com recurso a soluções de enquadramento ou de cenário que são uma mais valia da realização. A produção – exemplar, assinada por Pedro Borges – acompanha este esforço de realização ao garantir meios para uma captação sonora que facilitou a criação de ambientes diferentes, ou, ainda, pelo cuidado posto no guarda roupa. E, claro, o filme vive também da intensidade e qualidade da interpretação de Rita Blanco, Cleia Almeida, Rafael Morais, Anabela Moreira, Fernando Luís ou Nuno Lopes. E, também, deve muito à fotografia de Mário Castanheira. «Sangue do Meu Sangue» foge a moralismos fáceis ou cartilhas de encomenda. É um retrato do que se passa à nossa volta e que por vezes muitos não querem ver.


 


OUVIR – Jorge Palma é um dos maiores talentos da música portuguesa e um dos compositores que melhor sabe usar a língua portuguesa, uma fonética nem sempre fácil para canções. Muita gente considera que os melhores poetas dos tempos que correm são os que escrevem grandes canções. Se isso é assim – e eu acho que sim – Jorge Palma é um desses grandes poetas modernos da língua portuguesa. Mas neste disco fez questão de cantar outras escritas, como a de José Luis Peixoto em «Pensámos em nada», ou o marcante «Uma Alma Caridosa» de Carlos Tê, que começa logo assim: “Recebi um postal com carimbo do Estado/ Sem razão para tal senti-me logo culpado/fui a quem de direito pedir explicações/ninguém sabia do meu caso nas repartições.” Haverá melhor retrato do nosso Estado do que este? Este novo disco de Jorge Palma, «Com Todo o Respeito», é também surpreendente do ponto de vista musical, na mistura de gerações e influências, de Flak (ex Rádio Macau), que produziu, aos jazzmen Carlos Bica e Carlos Barreto, ao Gabriel Gomes e o seu acordeão, a voz fadista de Cristina Branco e o sólido rock d’Os Demitidos. Tenho o disco há uma semana e é raro o dia em que não o oiço. Destaques: «Página em Branco», «Tudo por Um Beijo», «Anjos de Berlim», «Pensámos em Nada», «Uma Alma Caridosa» e «Soltos do Chão». Aos 55 anos de idade Jorge Palma faz um dos seus melhores discos – e leva dezena e meia no activo.


 


LER – «Cartas do Meu Magrebe», de Ernesto de Sousa, é um livro que de início me aborreceu  – parecia a descrição de alguém encantado com os bons selvagens e irritado com o som dos transístores nas ruas de Marrocos e da Argélia. Depois a coisa suaviza, mas nunca se perde o sentimento do ocidental que foi ver uma revolução anti-colonial no terceiro mundo num estado de algum encantamento. O interessante da história é que tudo isto se passa no início dos anos 60, em crónicas de viagem ao estilo de curtas reportagens, enviadas para o «Jornal de Notícias» - que publicou 17 e guardou outras seis na gaveta porque entretanto começou a Guerra Colonial e a Argélia tinha uma posição contrária a Portugal. As crónicas mais interessantes são as menos políticas, as que derivam mais da observação e de conversas do que de reflexões. Mas na realidade o ponto alto do livro são algumas das fotografias do próprio Ernesto de Sousa, nomeadamente a da página 26, «o amigo marroquino». “Nunca fui um bom turista”, escreve Ernesto de Sousa numa das crónicas deste livro – não esperem por isso encontrar aqui o tradicional livro de viagens. No regresso a Portugal Ernesto de Sousa enveredou decididamente pelo cinema (nessa altura já tinha feito “Dom Roberto”), pela fotografia e pela vídeo arte, de que foi um precursor. Este é apenas um episódio curioso na sua vida.  Edição Tinta da China.


 


PROVAR – O SoulFood Café é aquilo a que se poderia chamar uma cafetaria moderna. Também serve cafés, umas boas empadas e uns apreciáveis pastéis de nata, mas basicamente é um belo sítio para almoçar, comer umas tapas ao fim da tarde e eventualmente fazer um sossegado jantar de amigos. Há sugestões de pratos do dia ao almoço e também uma lista com sanduíches, tostas, massas e saladas, além de hambúrgueres (bons, caseiros, bem temperados) e um honestíssimo pica-pau. Os pratos da lista podem ser pedidos a qualquer hora, das 11 às 23. Ao almoço há sopa de legumes sempre fresca e  nos pratos do dia o campeão das preferências é o Bacalhau SoulFood mas, para mim, o mais surpreendente é o arroz de pato, invulgar e cativante. Todos os dias há sobremesas diferentes, e do bar, além do trivial engarrafado,  pode pedir um smoothie ou um sumo natural, ou uma das boas sugestões de vinho a copo. O serviço é muito simpático, o trabalho da cozinha é atento e criativo e a matéria prima é boa. Os preços são adequados à crise. Falta dizer que a música ambiente é basicamente soul e jazz e que no ecrã de plasma passa muitas vezes a Fashion TV. O ambiente é agradável e confortável – a sala é comandada por Joana Costa e Pedro Pereira e a cozinha por Luísa Sousa. Av. Miguel Bombarda 133 B, telefone 213 161 163


 


BACK TO BASICS – O primeiro sinal da decadência de uma sociedade é fazer crer que os fins justificam os meios – Georges Bernanos


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 18 de Novembro)


 

novembro 15, 2011

Os transportes que temos e os tempos que vivemos

Se é utilizador de transportes públicos, provavelmente as greves recentes afectaram o seu conforto e prejudicaram o seu trabalho. Também se sente afectado pelas medidas de austeridade, e agora está na dúvida entre as medidas e os protestos contra essas medidas. Provavelmente já percebeu que a vida de todos nós está a mudar e que muito pouca coisa continuará como dantes.


 


Usando uma expressão popular, acabaram os anos das vacas gordas - só que essas vacas engordaram à custa de uma ilusão, de empréstimos atrás de empréstimos, para pagar despesas que nunca deviam ter sido criadas, encargos absurdos.


 


Os transportes públicos – comboios, metro, autocarros, estão todos numa situação próxima da falência. Se nada for feito o risco é que eles deixem de poder funcionar ou que funcionem em moldes muito mais reduzidos.


 


Os sindicatos também têm uma quota de responsabilidade na situação criada – aqui, como noutros sectores da esfera pública, reivindicaram remunerações, prémios, bonificações e subsídios que tornaram os custos de pessoal num pesadelo – nalgumas empresas de transportes, e nalgumas categorias profissionais operacionais, existe um prémio por comparecer ao trabalho, para além da remuneração normal. Além de poder ter havido má gestão, houve também uma total falta de noção da realidade. A recusa da realidade tem custos e são eles que aí estão agora, a pôr em causa um sistema e a comodidade dos passageiros.


 


Durante anos o Estado recusou-se a encarar o facto de os preços dos bilhetes e dos passes estar desactualizado face ao aumento dos custos de pessoal, de combustível e de exploração das redes existentes. Os prejuízos acumulados criaram esta situação insustentável. Uma parte dos impostos de todos é consumida a subsidiar estas empresas de transportes, que mesmo assim foram acumulando elevados prejuízos. Não é preciso ser vidente para perceber que as coisas não podem continuar assim. Os tempos mudaram e todos temos que nos adaptar a eles.


 


(Publicado no jornal Metro de hoje)


 


 

novembro 11, 2011

Sobre deveres, uma geração e sugestões avulsas

DEVERES – Cada vez que se fala em direitos lembro-me logo do pouco que se fala em deveres. Os direitos não são coisas abstractas – têm consequências práticas e fazem parte daquilo que deve ser o comportamento de cada um na sociedade – por isso mesmo não são imutáveis porque existem num conceito sujeito a mudanças. Muitas vezes não se pensa nisto, mas os direitos têm também muitas vezes repercussão económica - e devia ser um dever ter em consideração se eles são ou não suportáveis e sustentáveis.


 


Nos últimos dias assistimos a acções, no sector dos transportes, que me parecem carecer de algumas notas: muitos trabalhadores destes sectores acumularam ao longo dos anos uma série de prémios e bonificações, para além da sua remuneração contratada, que manifestamente os beneficia em relação a outros cidadãos; há casos em que existem prémios simplesmente por se comparecer ao trabalho – como no caso do Metro de Lisboa em algumas funções -  e, de uma forma geral, foi montado um sistema complexo de adicionais que contribuíu para levar as empresas de transportes ao estado de falência técnica em que se encontram, com custos fixos de pessoal incomportáveis.


 


O que me parece claro é que os direitos que alguns reclamam não vão de certeza existir se estas empresas falirem e fecharem. Os sindicatos, que patrocinaram e instigaram as reivindicações que levaram a esta situação ajudaram a pôr em causa o equilíbrio destas empresas e em boa lógica devem também ser responsabilizados por isso. E agora, sabendo perfeitamente o que se passa nessas empresas, no sector público e no país, alguns sindicatos estão a reproduzir o modelo clássico de oposição, persistindo em reivindicar o que já é utópico e com o mesmo método de sempre: greves em sectores críticos para agravar o descontentamento popular, preparando terreno para uma greve geral, anunciada para dia 24. Este esquema, tradicional, tem o objectivo de conseguir uma grande mobilização – daí as greves sectoriais, para criarem efeito bola de neve.


 


Acontece que  a evolução demográfica, o agravamento do desemprego, o progressivo afastamento das organizações sindicais das novas formas de trabalho e das novas profissões pode começar também a criar um efeito paradoxal – aumentar o número daqueles que são contra a greve geral e contra a ausência de perspectiva de realidade nas reivindicações apresentadas. Estou com curiosidade de ver como isto evolui – e de observar como fora dos sectores tradicionais, da órbita do Estado e das empresas públicas, a adesão à greve se concretiza. Os sindicatos estão a conduzir muitos cidadãos a desconfiarem cada vez mais de quem trabalha no sector público – e esse não é um bom serviço que estão a prestar a esses trabalhadores.



GERAÇÃO – Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, Jorge Moreira da Silva, Pedro Pinto e alguns outros menos conhecidos fazem parte de uma das primeiras gerações de quadros da JSD que têm uma coisa em comum: há muitos anos atrás participaram em acções de formação política patrocinadas e orientadas por parceiros internacionais do PSD e por organismos ligados aos social-democratas em Portugal.


 


No decurso desse período criaram sólidos laços uns com os outros, desenvolveram um corpo de pensamento, aperfeiçoaram um método de de actuação política e estabeleceram convicções ideológicas que hoje moldam de forma clara o posicionamento do PSD, mais do que na generalidade das anteriores direcções dos social-democratas.


 


De certa maneira quase se poderia dizer que esta é a direcção mais ideológica que o PSD tem, aquela que ensaia a ruptura com as questões paroquiais para se posicionar de uma forma mais globalizada. A minha dúvida é se esta ruptura e este posicionamento não vêm tarde, quando globalmente o posicionamento já é outro.


 


De qualquer forma é interessante seguir este percurso, observar como as formas de actuação são diferentes de anteriores Governos e como no PSD existe um posicionamento ideológico mais vincado e pouco tradicional no partido, por natureza eclético e muito mais táctico que estratégico. Será interessante também perceber como o PP conseguirá manter o seu terreno próprio, bem demarcado nos últimos anos, no meio desta nova forma de intervenção do PSD.


 


SEMANADA – Realizou-se a cimeira do G20; o primeiro ministro grego saíu de cena; os juros da dívida pública italiana continuaram a subir; o primeiro-ministro italiano anunciou ir sair de cena; a Espanha está em vias de mudar de Governo; o euro acentuou perdas face ao dólar; Armando Vara admitiu em tribunal ter recebido robalos e pão de ló de Manuel Godinho, que no anterior regime fez fortuna a comprar sucatas.


 


ARCO DA VELHA – Angela Merkel disse quarta-feira passada num discurso, em Berlim, que a Europa deve agir rapidamente para travar a crise.


 


VER – A pintora mexicana Frida Khalo é uma lenda – confunde-se às vezes o seu génio com a sua saga pessoal. No Museu da Cidade, ao Campo Grande, até 29 de Janeiro está patente uma exposição constituída por 250 fotografias do arquivo da Casa Azul/Museu Frida Kahlo, no México e que permite ter uma visão mais alargada da intimidade da artista. A exposição mostra ainda a forma como alguns fotógrafos viram a pintora – de Man Ray a Manuel Alvarez Bravo, passando por Edward Weston ou Brassai.


 


OUVIR – Isto é que nos faz velhos: perceber que um disco de que gostámos muito quando saíu, e que continua fresco na memória, afinal já foi editado há 20 anos. É isso que se passa com «Achtung Baby» dos U2, na minha opinião o seu melhor trabalho e o pico de uma carreira que a partir daí se centrou mais na glorificação de Bono e na criação de uma máquina bem oleada, mas bem menos criativa. Por ocasião deste 20º aniversário foi feita uma edição especial com dois CD’s, o primeiro a reproduzir os 12 temas da edição original e o segundo com lados B dos singles da época e misturas alternativas. Uma peça de colecção.


 


LER – A revista Monocle do mês de Novembro é muito oportunamente dedicada aos prazeres da comida – quase sem falar de restaurantes, mas abordando o aparecimento de lojas onde estão disponíveis produtos de qualidade, de produção local e biológicos, onde o serviço é um elemento diferenciador e onde a criatividade pode ser decisiva para captar clientes. De certa forma é o reverso da globalização encarnada pelos hipermercados onde existe tudo mas nada tem sabor. É parte do movimento do aproximar a produção de quem a consome. Para além deste tema de capa, a nova edição da revista tem outros pontos de interesse como o nascimento de novos negócios no Egipto, novas formas de trabalho e novas atitudes dos diplomatas (um artigo que seria muito útil para muitos embaixadores portugueses) e uma estimulante reportagem sobre a criação artística contemporânea em Los Angeles. Como a Monocle é essencialmente um sinalizador de tendências, vale a pena destacar a nova aventura dos editores da revista: depois da edição em papel e na internet, eis que surge uma aplicação para iPhone e iPad que permite ouvir a rádio Monocle, uma estação digital que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Consultem detalhes no site da revista, www.monocle.com, através do qual também podem ouvir as emissões.


 


PROVAR – O Tamarind (Rua da Glória 43) é um dos mais interessantes e peculiares restaurantes de gastronomia indiana em Lisboa, já aqui elogiado. É um espaço pequeno, que foi construindo a fama ao longo dos anos e que é dirigido pelo chef Hardev Walia, nascido na Tanzânia e com formação e experiência adquiridas em Londres. Há uns anos atrás rumou a Lisboa e abriu o Tamarind, que cedo deu que falar. Até dia 15, no âmbito da semana gastronómica da Índia, Hardev Walia mudou-se de armas e bagagens para o Restaurante Terraço, no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. Ao almoço funciona um buffet e ao jantar a lista é quem mais ordena – estimulada por danças indianas ao longo da noite. São já célebres as entradas vegetarianas, ou de carne e marisco, os papadums com molho de tamarindo, iogurte e chutney de manga, assim como o caril de camarão malai ou a galinha tikka masala. Podem ser feitas reservas para o Terraço do Tivoli para o telefone 213 198 934.


 


BACK TO BASICS – A forte convicção de que em todas as circunstâncias alguma coisa tem que ser feita, está na origem de muitas más decisões (Daniel Webster)


 


(Publicado dia 11 do 11 de 2011 no Jornal de Negócios)

novembro 08, 2011

SOBRE A RESPONSABILIDADE

Começo com uma citação, extraída de um artigo de opinião de Manuel Maria Carrilho, publicado na semana passada, sob o título “Opções Inadiáveis”.  Carrilho, que foi dirigente do PS e Ministro no Governo de Guterres, chama a atenção para a necessidade de os políticos assumirem as suas responsabilidades, “não tanto a responsabilidade pela assinatura do Memorando com a troika, mas a responsabilidade pelas opções que o tornaram incontornável e inegociável para Portugal”.


 


E sublinha: “A prolongada negação da crise e das suas consequências, em 2008, e a total desvalorização do endividamento do País e dos seus efeitos, em 2009 e 2010, fizeram o País perder tempo precioso. Foram erros nacionais, que a crise internacional não explica. E os portugueses não esquecerão tão cedo estas opções - nem o líder que as tomou, nem o Partido em nome do qual governava. Não há como contornar ou relativizar esta questão. Ela exige um sério exame de consciência e uma tão humilde como clara assunção de responsabilidades perante o País.”


 


Muitas vezes discordo de Carrilho, mas nisto ele tem toda a razão – no texto refere-se obviamente aos Governos de Sócrates, cuja actuação aliás criticou, mas eu tomo como boas as suas palavras em relação a todos os que tiveram responsabilidades políticas.


 


E é por achar estas palavras tão certeiras que fico chocado com a atitude daqueles que dentro do PS, como José Lello e outros, vieram apelar ao voto dos socialistas contra o orçamento, um voto que teria um duplo significado: em primeiro lugar sinaliza que o PS não quer cumprir o acordo com a troika; e em segundo lugar, e isso é que é mais interessante, mostra que aqueles que preferiam votar contra não vêem motivos de censura naquilo que o Governo do PS andou a fazer ao longo dos anos em que negou a realidade e permitiu que as coisas se degradassem ao ponto onde chegaram. Sabe-se que o próprio José Sócrates andou a instigar esta posição do voto contra, entre recados e encontros, mostrando assim que assumir responsabilidades é coisa que o continua a incomodar .


 


 (publicado no Metro de 8 de Novembro)

outubro 28, 2011

Sobre a reestruturação da RTP

TELEVISÕES - Que a RTP precisa de ser reestruturada – e muito – ninguém duvida. Que a reestruturação tem que ser feita por forma a não provocar danos irreversíveis no sector dos Media em Portugal é que é o ponto da questão, e esse é o tema que o Ministro Miguel Relvas persiste em iludir. A solução apresentada no início da semana pelo Presidente da RTP, Guilherme Costa, e que foi anunciada como tendo luz verde do Governo, é, a ser executada, uma bomba que deixará marcas em todas as áreas – provavelmente com maior intensidade na imprensa e na redução da diversidade dos orgãos de informação actualmente existentes.


 


Existem neste momento duas questões diferentes: a alienação da concessão de um canal e a forma como a RTP passará a viver e que tipo de serviço público prestará. Em relação à primeira, e se o Governo não puxar uns cordelinhos ou estimular uns accionistas, não se vislumbra grupo de media em Portugal interessado em correr o risco; em relação à segunda uma questão fulcral desde o início é libertar de vez o Serviço Público de publicidade, afastando-o do espectro de concorrência de audiências e da concorrência com os privados no mercado publicitário – basta aliás ver que as estações de rádio de serviço público não têm publicidade e que crescentemente as estações de televisão de serviço público de diversos países têm abandonado a venda de espaço publicitário, exactamente para evitar a concorrência com os privados e ajudar a manter a diversidade dos órgãos de informação.


 


Em termos de publicidade a questão é simples: actualmente a oferta de mercado é de 30 minutos por hora nos três canais (12 minutos na TVI e outros tantos na SIC e seis na RTP). Com a alienação de um canal, ele terá acesso aos 12 minutos que os outros privados também têm – e o lógico seria a RTP abandonar o mercado. Mas com a anunciada intenção de continuar com os seis minutos, a oferta total de espaço publicitário em canais de sinal aberto cresce dos actuais 30 minutos para 42, ou seja, um aumento de oferta de 40%. Não é preciso ser génio para perceber que quando a oferta aumenta desta maneira, o preço inevitavelmente cai. Acontece que o preço da publicidade de TV em sinal aberto já está tão baixo que a diferença em relação a outros Media, como a imprensa e a rádio, é menor que na generalidade dos mercados europeus – o que quer dizer que os canais portugueses de sinal aberto, que já captam 50% do total do investimento publicitário (o valor mais elevado da Europa), irão tendencialmente aumentar a sua quota de captação do investimento publicitário - mas paradoxalmente sem aumentar as suas receitas, já que o preço baixará (e já nem falo que muito provavelmente nem serão ocupados os 42 minutos disponíveis, porque na maior parte deste ano nem os 30 actuais têm sido integralmente utilizados). Convém aqui recordar que o investimento publicitário está a cair de forma acentuada há três anos seguidos, o que só por si deveria fazer pensar os responsáveis governamentais por estas medidas.


 


Tudo isto tem duas consequências – menos dinheiro nas estações para investir em conteúdos, que são a base de captação de audiências - o que provocará menor  eficácia das campanhas publicitárias e iniciará uma espiral de degradação de consequências imprevisíveis; e um desvio ainda mais acentuado do investimento publicitário da imprensa para a televisão, o que terá consequências na sobrevivência de uma série de títulos e na qualidade e diversidade dos títulos que ficarem. Por isso mesmo é que Francisco Balsemão se referia esta semana aos efeitos nefastos que esta medida, a ser cumprida, poderá ter em termos do pluralismo da informação e da qualidade da nossa democracia. Mas com um panorama destes também os anunciantes ficarão pior servidos – com queda de qualidade de conteúdos, a saída dos públicos dos media tradicionais para outros acentuar-se-à e nenhum, no imediato, lhes dará a cobertura e eficácia que as televisões de sinal aberto proporcionam quando têm boas audiências (qualitativas e quantitativas).


 


Aliás é o próprio Guilherme Costa, Presidente da RTP, quem faz um retrato certeiro do futuro ao admitir que, com o cenário de reestruturação do grupo RTP que anunciou, o impacte nas receitas de publicidade atingirá os 50% - e eu acho que este é um cenário optimista.


Só para sabermos do que estamos a falar, o total do investimento publicitário em Portugal deverá cair este ano na casa dos 10%, depois de ter caído 3% no ano passado e cerca de 15% em 2009. Mas este ano as televisões de sinal aberto já vão, nesta altura, a perder 11,5% e a imprensa vai a perder 15% .


 


Por tudo isto as decisões parecem ter sido tomadas à pressa, com pouca preparação e reflexão, apenas para fechar mais um dossier e, talvez, favorecer algum grupo interessado em entrar no mercado mesmo com os riscos que isso comporta. Será que o Governo está a levar ao colo algum potencial comprador?


 


Mas existe um outro aspecto do plano de reestruturação que é também, a outro nível, bastante inquietante. Daquilo que já foi revelado, o potencial comprador do canal da RTP que for alienado, terá que utilizar meios de produção da própria RTP, ficando mesmo obrigado a ser sócio de uma unidade autónoma que será criada para o efeito. Esta situação ataca directamente os produtores independentes de audiovisuais, que assim verão o mercado limitado – é um pouco paradoxal que o Governo utilize o argumento da concorrência nuns casos e que em outros o meta na gaveta. De qualquer forma, a confirmar-se esta situação, existirá um eventual incumprimento das normas europeias sobre as percentagens de produção independente que devem existir no mercado de produção audiovisual. A questão da produção independente é relevante porque ela já está a ser comprimida face aos cortes no investimento em conteúdos das televisões, e com este modelo de negócio previsto para a RTP e o eventual novo operador, o seu mercado ficará ainda mais limitado. Recordo apenas que a produção independente de audiovisual é fundamental para o crescimento de uma industria multimédia, a única forma de garantir que o português continue uma língua viva no novo mundo digital e que a nossa História e Cultura sejam salvaguardadas. Eu acho que o Governo nunca pensa nestas coisas – mas faz mal e vai deixar uma péssima herança se continuar nesta via.


 


SEMANADA – Business as usual:  Cavaco atacou as medidas do Governo; Cavaco reuniu o Conselho de Estado e de lá saiu um esfíngico comunicado a apelar ao diálogo; o PS entendeu logo isto como um puxão de orelhas ao Governo e elogiou Cavaco; Merkel vetou mais algumas propostas; Teixeira dos Santos anunciou que no início de 2010 esteve prestes a demitir-se; descobriu-se que há roupa de hospitais a ser vendida em feiras.


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, o deputado que roubou gravadores a jornalistas da “Sábado” quando foi confrontado com perguntas que não lhe agradavam, e que está por isso acusado, foi o escolhido pelo PS para seu representante no Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários. Quem diz que o crime não compensa?


 


VER – No Museu Berardo, CCB, a exposição “A Arte da Guerra”, que apresenta uma extraordinária colecção de cartazes e outras formas de propaganda, criadas em vários países durante a segunda guerra mundial. Como se recorda no catálogo, as obras ali expostas “cumprem com o objectivo de qualquer outra obra de arte: provocar emoções nas pessoas e mudar o mundo”.


 


OUVIR – “Biophilia”, o novo disco da islandesa Bjork, é um trabalho multidisciplinar, onde o CD convive com uma aplicação (fabulosa, aliás) para iPad. É um trabalho inesperado, ousado por um lado, complexo por outro, mas delicado e encantador no final. Há algum tempo que Bjork não mostrava de forma tão clara como consegue combinar sensibilidade com inovação.


 


PROVAR – As delícias da Castella do Paulo, uma casa de chá luso-japonesa, na Rua da Alfandega 120 em Lisboa, que também serve almoços. A sugestão é roubada ao  magnífico blogue Mesa Marcada que recomenda o Kare-paan, um salgado de brioche crocante recheado com caril japonês de vaca e legumes. O telefone é  218880019.


 


BACK TO BASICS – Com o tempo descobrirão que o Estado é o tipo de organização que, para além de fazer disparates nos grandes assuntos, também faz erros sucessivos nas mais pequenas coisas – John Kenneth Galbraith.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Outubro)


 

outubro 25, 2011

CRÓNICA DE UMA CIDADE ENCERRADA

Quando não chove, as ruas de Lisboa cheiram mal; em paradoxo, às primeiras chuvas, começam as inundações. Há muito tempo que a cidade não era tão maltratada no dia-a-dia como desde que António Costa se tornou Presidente da Câmara. Neste Outono quente, antes de chegarem as chuvas, havia ruas pestilentas, passeios sujos, detritos por todo o lado. Percebeu-se agora que as sarjetas, mais uma vez, não foram mantidas limpas.


Graças à forma como está organizada a recolha selectiva de lixo, há contentores cheios, dias seguidos,  a exalar maus cheiros e muitas vezes a derramar lixo. A Câmara Municipal trata Lisboa seguindo aquele velho truque dos meninos rabinos que não gostam de lavar as mãos: para quê lavar as ruas se elas se sujam a seguir? Tudo isto penaliza quem vive em Lisboa. Penaliza quem cá fica depois das sete da noite, quem persiste em viver numa cidade que se desabita ao fim de cada dia de trabalho.


 


 


 


 


Numa das noites quentes da semana passada, quem passeasse no Chiado via as esplanadas cheias – de estrangeiros. Mal se ouvia português. É claro que isto é simpático – embora as ruas estivessem sujas e alguns dos turistas comentassem isso. O que me custa é ver tão poucos lisboetas na rua a aproveitar o que a cidade lhes podia oferecer. À medida que a cidade se foi desertificando o comércio de rua foi fechando portas cada vez mais cedo – sem clientes, para quê estar aberto? O investimento e o trabalho de base para garantir conforto, limpeza e segurança foi sendo substituído por ciclovias, hortas e outras obras do regime. O essencial foi-se desleixando.


 


 


 


Cuidar de uma Câmara Municipal exige que se goste da cidade, exige que se goste dos seus habitantes. O Presidente de qualquer Câmara Municipal não pode olhar para os cidadãos apenas como eleitores – tem que os olhar como clientes, que efectivamente pagam, nos impostos e nas taxas, um serviço que, infelizmente, muitas vezes não lhes é dado. Suspeito que António Costa não gosta de servir clientes, prefere manipular eleitores.  (Publicado no diário Metro)


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

outubro 23, 2011

Com esta semana de chuva é que vamos ver se António Costa fez o trabalho de casa e limpou as sarjetas

outubro 21, 2011

INDIGNAÇÃO, RESPONSABILIDADE, SUGESTÕES; CITAÇÕES

INDIGNADO – Eu sinto-me indignado cada vez que estou a ver um telejornal e vejo uma série de pessoas, que agora se afirmam muitíssimo indignadas e chocadas, mas  que, nos últimos anos, no Governo ou em outras funções, na política ou nos sindicatos, contribuíram para o descontrolo orçamental, para a diminuição da produtividade, pessoas que anos a fio defenderam só direitos sem confirmarem deveres, que arquitectaram um sistema laboral onde o objectivo era trabalhar menos horas, produzir menos e ganhar e consumir mais. Estamos a viver a prova de que distribuir o que nāo temos ė uma pėssima ideia com catastróficos resultados.


Agora é preciso pôr um ponto final na fantasia e está a ser doloroso. Vai ser ainda mais doloroso e ninguém em seu perfeito juízo poderá dizer quanto tempo vai durar esta austeridade. Muitos dos protestos que se anunciam parecem ignorar a realidade em que estamos. Parecem nāo ter em conta a necessidade de mudar. Persistem em perseguir objectivos que têm pouco a ver com a realidade. Uma coisa é ter uma utopia, outra é fazer dela um programa político e convencer os cidadãos que essa utopia pode ser alcançada e é o milagre que nos pode salvar. Acontece que essa utopia é que nos levou até onde estamos. Brincar com os sentimentos das pessoas é sempre reprovável. Em política produz resultados péssimos.


 


 


RESPONSABILIDADE - Nos últimos dias tem-se falado muito na necessidade de averiguar responsabilidades pelo estado a que as finanças do país chegou. Algumas pessoas insurgem-se contra isso e, paradoxalmente, algumas sāo as mesmas que há meses atrás apontavam a Islândia como exemplo por ter julgado alguns dos responsáveis pela derrocada do sistema financeiro do país. É de facto importante avaliar quem fez o quê, atribuir responsabilidades políticas e, nalguns casos, eventualmente, responsabilidade civil. Investigar estas situações é um dever do regime - não por vingança, mas por dever de conhecimento e obrigação cívica. Para nāo repetirmos os mesmos erros e nāo permitirmos os mesmos comportamentos é fundamental sabermos o que de facto se passou. Retardar o encontro com a realidade, como durante meses o anterior Governo de Sócrates andou a fazer, é uma forma perigosa - e criminosa - de manipulaçāo. Ao longo dos anos Sócrates desempenhou um papel, criou ele próprio um personagem, uma espécie de avatar da modernidade, das reformas em causas fracturantes e politicamente correctas, ao mesmo tempo que evitava reformar o regime e fechava os olhos ao que se passava em nome da concretizaçāo dos seus projectos. Pessoas que entendem do assunto dizem que o comportamento de Sócrates tem pontos de contacto com a esquizofrenia. Seja como fôr, ele e o seu Governo nāo melhoraram a situaçāo em que encontraram Portugal. Entregaram-se a comprometer o futuro de todos para gáudio de alguns. E esse balanço tem que ser rigorosamente feito.


 


 


SEMANADA – Cavaco Silva teceu críticas ao orçamento de Estado; João César das Neves teceu duras críticas ao OE; António José Seguro teceu fortes críticas ao OE; Sarkozy e Merkel encontram-se a sós uma vez por semana; subsídios políticos às energias renováveis já representam 50% da despesa mensal da electricidade ; a Câmara de Lisboa não sabe quantos inquilinos tem; o número de desempregados ultrapassou os 700.000; Rui Rio defendeu reforma profunda e urgente do regime político; militares preparam protestos contra a austeridade.


 


ARCO DA VELHA – No Brasil, a equipa de Dilma Rousseff vai a caminho de perder o sexto ministro, em menos de um ano, por suspeita de corrupção.


 


LER – O tema de capa do número especial da Egoísta, com a data de capa de Setembro, não podia ser mais actual: “Juízo” – uma coisa que notoriamente nos tem faltado ao longo das últimas duas décadas . Logo no início da edição está uma “Tabuada de Multiplicar”, onde Rui Zink resume assim o estado da nação: “Se fores casto e mui cauto/E esperares sempre a tua vez/Não voarás talvez mui alto/ Mas serás um bom português”. Em termos de imagens o portfolio de Mark Laita é excepcional e o de Augusto Brázio uma colecção de preciosidades. Também gostei do “esta noite” de Maria Manuel Viana e de “A Bolsa E A Vista” de Ricardo Costa. Uma bela edição especial, esta da “Egoísta”.


 


VER – No Museu da Electricidade a Fundação EDP inaugurou na semana passada três exposições muito diferentes entre si e que se prolongam até Dezembro. José Loureiro apresenta uma gigantesca instalação pictórica – não encontro outro nome - com base em 162 fragmentos de tela pintada a óleo, que exploram as sensações de cor e de luz numa enorme parede. Julião Sarmento apresenta um muito curioso trabalho, “What Makes a Writer Great”, em que imagens, originais ou replicadas, privadas ou públicas, se combinam com frases e palavras, na construção de uma narrativa que faz lembrar por vezes o conceito de edição cinematográfica – diálogos curtos, constante mutação de planos. Finalmente Edgar Martins apresenta um trabalho de fotografia, encomendado pela própria EDP (bem encomendado, de resto), que tem o título “The Time Machine” e que faz uma viagem ao universo das barragens, mostrando o que se esconde para além da banalidade das máquinas, do cimento, dos espaços. É uma visão própria, cuidada, exemplarmente encenada e talvez uma das melhores exposições de fotografia, de autor português, dos últimos anos.


 


OUVIR – Quando ouço dizer que meia dúzia de nomes sonantes se juntam para fazer um super-grupo tenho uma tendência para ficar de cabelos arrepiados e esperar o pior – algo de chato, excessivo, uma feira de egoísmos. Foi um pouco de pé atrás que me meti a ouvir “SuperHeavy”, o disco que resulta da reunião de Mick Jagger com Dave Stewart, Joss Stone, Damian Marley e A.R. Rahman. Que esperar da junção de um Rolling Stone, com um Eurythmic, mais uma estrela britpop-soul, um herdeiro de reggae e o recordista indiano de composição de bandas sonoras? Mick Jagger disse numa recente entrevista que alinhou neste projecto porque queria juntar estilos musicais diferentes – e isso garantidamente conseguiu. O mais incrível é que o disco é divertido, tem meia dúzia de boas canções, sente-se que deu gôzo aos músicos gravarem, e o mais engraçado é que dá bastante gôzo ouvi-las – como o single “Miracle Worker”, a influência indiana em “Satyameva Jayathe”, o lado da mística rock de “One Day. One Night” ou a suavidade de”Never Gonna Change”. Boas canções, muito bem tocadas e interpretadas, ritmos inesperados e sonoridades supresa – há muito tempo que não encontrava isto tudo num só disco.


 


PROVAR – Vou confessar um dos meus pequenos vícios: enguias de conserva. Gosto delas sozinhas, como aperitivo, ou então numa salada de alface fresca ripada. Também vão bem com um pão escuro cortado fininho ou então acompanhadas de pickles. Aquelas de que gosto mais são as enguias em molho de escabeche da Murtosa, fabricadas pela Comur, orgulho da nossa indústria conserveira. A mesma fábrica tem uma proposta alternativa interessante: filetes de enguias fumados, em caixas um pouco maiores, e que ficam particularmente bem numa salada. As latas pequenas de enguias de escabeche também estão disponíveis numa versão picante, mas eu prefiro a normal. Se juntar muitos apreciadores de enguias também pode adquirir uma réplica dos antigos barris, com 1,250 kgs. Um festim!


 


BACK TO BASICSÉ absolutamente impossível ter uma nova crise na próxima semana, a minha agenda está completamente cheia – Henry Kissinger


 

outubro 18, 2011

Ai Lisboa...

António Costa é o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa há quatro anos, desde 2007. É o tempo de um mandato inteiro. Todos os autarcas gostam de dizer que quatro anos é o tempo para apresentar obra. O período dos quatro anos de um mandato costuma ser o horizonte temporal que os políticos gostam de usar para fazer uma apreciação da sua obra.


 


Olhemos então para Lisboa ao fim destes quatro anos e para estes mandatos presididos por António Costa. Conseguiu trazer população de volta para a cidade? Conseguiu criar um sistema de recuperação de imóveis degradados? Tem uma política de reabilitação urbana? Conseguiu fazer obras estruturantes? Conseguiu reanimar o comércio de rua? Conseguiu acabar com o estacionamento em dupla fila? Conseguiu reduzir custos?


Não me podem acusar de má vontade se disser que a resposta a estas perguntas é, em todas, um triste NÃO.


 


Mas olhemos de outro ponto de vista: Aumentou as taxas em Lisboa? Reforçou os poderes e a prepotência da EMEL? A cidade está mais suja? Há mais comércio fechado?  A cidade está mais incómoda para os seus habitantes? A cidade está mais insegura? Aqui, em todos os casos, a resposta é SIM.


 


Os mais optimistas dirão: no entanto a gestão de Costa faz parques hortícolas e ciclovias. E eu acrescento: essas obras decorrem  à mesma velocidade a que Lisboa perde munícipes. António Costa encara a cidade como uma rampa de lançamento político para  as suas ambições no PS  - o discurso que proferiu no 5 de Outubro foi o de um líder da oposição e não o de um autarca.


 


Pessoalmente simpatizo com António Costa, mas acho que ele tem sido um mau presidente da Câmara, muitas vezes a colocar interesses partidários à frente dos interesses da cidade. Por isso mesmo tem vivido politicamente graças a alianças espúrias e a compromissos muitas vezes incompreensíveis. António Costa é um honesto político à moda antiga: primeiro os seus objectivos, só depois o serviço aos cidadãos - esta é a razão de fundo para a cidade estar como está.


 


(Publicado no diário Metro de 18 de Outubro)

outubro 11, 2011

POLITIQUICES

Este mês de Outubro tem sido fértil em solavancos políticos. A celebração da intentona que instaurou a confusão republicana foi o pretexto para os primeiros dislates. Na ocasião o Presidente da República apelou ao fim do consumo fácil – mas esqueceu-se que o consumo fácil nasceu enquanto ele próprio era Primeiro Ministro. Também foi nesse tempo que a política do betão, da auto-estrada e da rotundomania se tornou a prioridade nacional e se começaram a liquidar as pescas e a agricultura.


 


Quem não se lembra das campanhas de arranque de vinha, de olival e até de sobreiros? Quem não se lembra das cedências em matéria de pescas a Bruxelas, em troca de dinheiro para o betão? O mesmo Cavaco Silva que se baseou numa estratégia de obras públicas, é o que agora vem falar da necessidade de desenvolver a agricultura e as pescas. Se isto não fosse dramático passava por anedota – ou por arrependimento de circustância, como há dias li numa bem humorada nota no Facebook.


 


Na mesma ocasião, em plena praça do Município, António Costa, em nome da cidade de Lisboa, fez o discurso de líder da oposição. Quem assistisse a isto tudo ficava siderado pela troca dos papéis, pela pinderiquice da cerimónia e pelo retrato de inconstância dos políticos. Ele há cerimónias que só agravam a má imagem que os políticos têm.


 


Dias depois, dos Açores veio a notícia que Carlos César não se recandidata nas próximas eleições regionais. Fico na dúvida se o faz por querer candidatar-se à liderança do PS nacional ou por ter em mente voos mais altos – sei lá, a Presidência da República. Esta decisão de Carlos César, palpita-me, é das que terá mais repercussões na política deste nosso pequeno rectângulo à beira-mar plantado.


 


Finalmente, a semana findou com a Madeira – com a descida de Jardim e a subida do PP, com a queda do PS, com o desaparecimento eleitoral do Bloco de Esquerda e com os resultados de pequenos partidos fora do núcleo tradicional da política à portuguesa. Aposto que também estas eleições deixam muitas pistas para o futuro – em todo o país.


 

outubro 04, 2011

LISBOA, UMA CÂMARA NOSTÁLGICA

Na semana passada fui ver o novo filme de Woody Allen, “Meia Noite em Paris”. O filme foi rodado na capital francesa,  com diversos apoios oficiais e a presença, num simbólico papel de guia, de Carla Bruni. Como se sabe Woody Allen anda há uns anos a realizar bilhetes postais sobre cidades europeias, aproveitando de forma hábil os financiamentos que as respectivas “film commissions” e outras entidades lhe prestam.


 


O filme não tem grande interesse e parte de uma situação de regresso ao passado. O personagem principal é um escritor norte-americano em crise criativa, farto de fazer guiões para Hollywwod, actividade que lhe dá sucesso e dinheiro mas de que ele não gosta. Num passe de mágica, ao bater da meia noite, ele é apanhado para dentro de um clássico modelo de carro francês dos anos 20, que o leva de volta a essa época – cruzando-se em ambientes boémios com nomes como Hemingway, Gertrude Stein, Cole Porter, Picasso, Dali e vários outros.


 


O ponto curioso de tudo isto é que o personagem principal, o tal escritor, é um apaixonado por aquilo a que chama “Lojas da Nostalgia” – onde pode viver como se estivesse no passado, rodeado de objectos de época, num universo de fantasia que lhe permite escapar da realidade.


Este Woody Allen tem no entanto um mérito: fez-me ver que vereadores lisboetas como José Sá Fernandes, Nunes da Silva ou Manuel Salgado, vivem com o objectivo de transformar Lisboa numa “Loja de Nostalgia”. Uma série de medidas que tomam parecem inspiradas no regresso ao passado, sem carros, com poucas pessoas, a forçar as suas obsessões pessoais no mundo contemporâneo, num delirante regresso ao passado que é a principal linha política da vereação de António Costa, em Lisboa.


 


É engraçado como um sector que se afirma de esquerda acaba por ser essencialmente conservador, incapaz de pensar em soluções contemporâneas, preferindo a ilusão romântica dos bons selvagens. Em Lisboa, tal como no filme, vamos comprovando que quando vivemos para mundos que já não existem, a coisa sai furada.


 


(publicado no diário Metro de 4 de Outubro)


 



setembro 30, 2011

Balanço centenário

GOVERNO – Nestes cem dias de governação ficou saliente um problema do regime: continua a existir uma grande contradição entre a energia na obtenção da receita, que a legitimidade dos votos proporciona, e a quebra das promessas que proporcionaram esses mesmos votos. Foram cem dias intensos – três aumentos de impostos, as primeiras decisões de redução do peso do Estado, o cumprimento do calendário do acordo com a troika. Cem dias que foram focados em criar uma imagem diferente, em termos internacionais, da governação de Portugal – espera-se agora que os próximos cem dias sejam dedicados a dar aos portugueses provas de que o país pode mudar para melhor. Observadores atentos de diversas áreas não se cansam de dizer que os próximos cem dias serão decisivos – o Governo tem sabido usar a palavra mudança, todos esperamos que possa começar a conjugá-la com a palavra esperança. Mais – é fundamental conseguir conciliar a austeridade, que tem de ser uma nova regra de vida, com o crescimento económico, sem o qual não há nem confiança nem esperança. Esta semana gostei de ouvir, numa conferência do «Jornal de Negócios», o Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, a dizer preto no branco que a energia tem que estar ao serviço da economia e não a economia ao serviço da energia. A frase sintetiza uma alteração de comportamento – esperemos que efectiva. E gostei de ouvir o mesmo Ministro defender um reforço da competitividade das exportações portuguesas com recurso a portos marítimos mais eficazes e a linhas ferroviárias de bitola europeia, pensadas para transporte de mercadorias, a norte e a sul. Foi a primeira hipótese alternativa ao TGV que me pareceu interessante e possível. O próximo desafio do Governo – e não é pequeno - é concretizar os planos que elaborou nestes 100 dias.



OPOSIÇÃO – Nestes cem dias de Governo o PS fez um Congresso e mudou de direcção. O Congresso foi uma espécie de reciclagem dos pecadores, sem o ritual da confissão. Bastou a presença  no templo e passaram de pecadores a perdoados sem necessidade de arrependimento. A nova direcção do PS está a caracterizar-se por um vazio ideológico total e tácticas surpreendentes – negativas, entre a falta de noção da realidade e a mais baixa demagogia. Em jeito de balanço dos cem primeiros dias da Governação, António José Seguro resumiu desta forma o Estado da Nação: «O Governo passou os 100 primeiros dias a discutir a tutela do AICEP». No Congresso, o PS recusou-se a olhar para a realidade, para as más políticas que implementou no país. Agora o seu novo líder recusa-se a olhar para aquilo que, concorde-se ou não, tem sido feito pelo actual Governo. A desonestidade intelectual não é um bom programa político para nenhum partido de oposição.


 


ASAE – Esta semana soube-se que uma multa imposta pela ASAE à Livraria Barata tinha sido anulada pelo Tribunal. Há muito que não se ouvia falar da ASAE, esse símbolo dos primeiros anos do Governo Sócrates. A acção contra a livraria Barata é exemplar da forma abusiva como a ASAE actuou e como criou uma imagem de intolerância e prepotência. António Nunes foi o rosto desses abusos, o rosto de uma forma de funcionar que visava criar o medo, mais que prevenir ou esclarecer. A ASAE que foi derrotada em Tribunal é um dos resquícios que temos da forma de agir de Sócrates – os fins justificam os meios. Também aqui há muita coisa para mudar.


 


TV – Cada vez que se pensa na definição e competências do serviço público de televisão deve-se ter em conta os dados do novo relatório da Anacom, relativo à evolução do serviço de televisão por subscrição no segundo trimestre deste ano mostra um crescimento de 7,4% no número de assinantes, em relação ao período homólogo de 2010. O total de assinantes é agora de 2,848 milhões, o que significa aproximadamente 70% das famílias. O grande motor do crescimento do mercado tem sido a instalação de fibra óptica - o número de utilizadores de fibra óptica mais que duplicou entre o segundo trimestre do ano passado e o segundo trimestre deste ano, com o MEO a ser o único operador a crescer em quota de mercado. O operador com maior número de clientes continua a ser a Zon, com 55,8% do total, seguida da PT/MEO com 32,3% e da Cabovisão com 9%. Actualmente mais de metade dos assinantes dispõe de acesso a mais de 80 canais. O mundo já mudou, o serviço público é que não.


 


ARCO DA VELHA – Joe Berardo revelou esta semana que, há uns anos atrás, quis contratar Pinto da Costa para dirigir o Benfica oferecendo-lhe  500.000 contos pela transferência das Antas para a Luz.


 


SEMANADA – Foi extinta a Fundação para as Comunicações, a gestora do projecto Magalhães, que terminou com 70 milhões de euros de dívidas; o número de particulares que pediram insolvência aumentou 156% em relação a 2010; o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu arquivar a queixa contra o Director da Revista Sábado, acusado pelo Ministério Público de ofensa à honra do Presidente da República por ter criticado o seu discurso de posse do segundo mandato; o homem mais rico da China, um industrial da Construção, está na lista para entrar no Comité Central do Partido Comunista Chinês; a frase da semana pertence a Augusto Mateus: «a Europa não pode continuar a ser uma fotografia de grupo de 27 pessoas sorridentes que, face a uma emergência, prometem uma solução para daqui a três meses».

LER – A «Wallpaper» assinalou a sua edição 150 com um número especial que revisita algumas das melhores escolhas da revista nos últimos 15 anos e a lista de 150 personalidades que marcaram a época. Fundada por Tyler Brulé, que depois a vendeu e, anos mais tarde, criou a «Monocle», a «Wallpaper» foi a partir do final dos anos 90 do século passado um guia sobre cidades, criadores, moda, designers – enfim, um manual de cultura urbana. Nesta edição destaco a reportagem dedicada ao renascimento de Roma, o clube privado concebido por David Lynch em Paris, um artigo sobre os directores de arte das grandes campanhas de moda dos últimos anos e. para terminar, as duas páginas sobre o L’And Vineyards, um projecto do arquitecto brasileiro Marcio Kogan, a quem o proprietário das vinhas, José Cunhal Sendim, encomendou o projecto, que fica perto de Montemor-o-Novo.


 


VER – Em termos de exposições a rentrée lisboeta está animada. No Museu Berardo (CCB) está uma exposição retrospectiva do brasileiro Vic Muniz, um cartão de visita á actividade deste artista que integra uma centena de obras; Rui Chafes mostra desenhos inéditos na Galeria João Esteves de Oliveira, ao Chiado; no espaço BES ARTE, no Marqu~es de Pombal, está uma exposição fantástica de fotografas de Gérad castello Lopes – absolutamente imprescindível;  e por vários locais da cidade, do MUDE ao Convento da Trindade, passando pelo antigo Tribunal da Boa Hora decorrem actividades da Experimenta Design, agora na sua semana inaugural – todas as informações em www.experimentadesign.pt .


 


OUVIR – Os Nirvana fizeram o histórico CD «Nevermind» há 20 anos. Canções como «Smells Like Teen Spirit», «Come As You Are» ou «Lithium» integravam os 12 originais que ajudaram a fazer de Kurt Cobain um mito. Para assinalar o 20º aniversário da edição  a Universal preparou uma edição com dois CD’s que reúne, para além do álbum original, nove temas que constituíram os lados B de outros tantos singles da banda. Além disso esta edição inclui registos antes nunca editados que passam por concertos ao vivo, actuações em programas de rádio, gravações de ensaios e demos de trabalho. Para encerrar, o booklet que acompanha esta edição inclui fotografias inéditas e diverso novo material gráfico. É uma edição magnífica, à venda na FNAC e El Corte Ingles.


 


PETISCAR  – Em Espanha, os presuntos 5J são sinónimo de qualidade. A marca remonta a 1879, e tem aberto alguns espaços de petiscar em locais seleccionados. O primeiro desses locais em Portugal abriu há uns meses no sétimo andar do El Corte Ingles, em Lisboa. Ali se pode provar o presunto, com um corte impecável  - já agora, porque é que por cá se corta tão mal o presunto? Mas também há outros petiscos, como lombo ibérico,  achovas de santona com queijo de cabra e beterraba, e ovos estrelados ou em tortilla, com várias possibilidades de ingredientes. Em suma uma casa de tapas onde não faltam uns deliciosos croquetes de presunto que por si só valiam uma deslocação. A carta de vinhos espanhóis é simpática e a cerveja de pressão é a magnífica Mahou. Aqui está um grande sítio para petiscar


 


BACK TO BASICS – Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo - Victor Hugo


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de setembro)


 

setembro 29, 2011

QUEM VÊ TV?

Cada vez mais portugueses vêem televisão através de serviços de subscrição – cabo, satélite, fibra, etc. Na realidade o número de clientes destes serviços não pára de aumentar – no primeiro semestre deste ano o número de assinantes cresceu 7,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O total de casas que compram o acesso a serviços de TV atinge já os 2,85 milhões, o que quer dizer que 70% das famílias tem acesso a pelo menos meia centena de canais. Apenas 30% da população vê TV através das velhas antenas – e sobretudo em zonas do interior do país.


 


Os espectadores estão cada vez mais divididos. Na semana passada cerca de 29% optaram por ver canais de cabo em detrimento dos canais de sinal aberto (RTP 1 e 2, SIC e TVI). A TVI, que continua a liderar obteve 26% de audiência, contra 22,5% da SIC e 18,9% da RTP 1 e 3,9% da RTP 2.


 


Secret Story, jogos de futebol, as novelas Remédio Santo e Laços de Sangue, telejornais e a entrevista a Pedro Passos Coelho ocuparam a lista dos dez programas mais visto, numa semana em que 80% dos portugueses seguiram nalgum momento emissões de televisão.


 


E no cabo, o que se passa? – A SIC Notícias é sistematicamente o canal mais visto – os outros canais de informação estão longe – a RTP N vem em 8º lugar no top do cabo e a TVI 24 surge em 10º lugar.


 


A seguir à SIC Notícias os mais vistos na semana passada foram AXN, Hollywood, Sport TV e Fox – os cinco magníficos do cabo que conquistam a atenção de mais portugueses – o sexto é o Panda, para os mais miúdos.


 


Há 20 anos ainda não existiam canais privados – a SIC nasceu em 1992, a TVI em 1993 e a TV Cabo surgiu em 1994. Em menos de duas décadas os hábitos de consumo de televisão e as exigências dos espectadores por mais oferta não pararam de aumentar. E hoje há canais para todos os gostos. A qualquer hora.


 


Quando se fala de serviço público e da reestruturação da RTP é bom ter estes números presentes. O mundo mudou muito em 20 anos – até que ponto faz sentido o Estado hoje deter estações de televisão?


 


 


(publicado no diário Metro de dia 25 de Setembro)

setembro 23, 2011

Entre o bailinho da Madeira e a criatividade no TGV

MADEIRA – Existe uma criativa empresa em Lisboa que se dedica a estampar tshirts com frases relativas à actualidade. Esta semana colocou no mercado uma novidade que fez furor no Facebook: estampado sobre um fundo azul intenso, com letras abertas a branco, pode ler-se: “Escavadoras Jardim, a cavar buracos desde 1978”. A frase é mortífera e encerra o sentimento que o resto do país tem em relação à Madeira – todos andamos a pagar uma despesa que está descontrolada. Manda a verdade que se diga que os primeiros anos da governação de Jardim produziram obra a nível das infra-estruturas sociais – desde escolas a centros de saúde, passando por habitação social. Mas a partir de certa altura as grandes construtoras tomaram conta da ilha como, em geral, quiseram tomar conta do país. O mito das obras públicas como motor de desenvolvimento produziu os resultados que todos sabemos e a Madeira não escapou. Construíram-se estradas talvez não fundamentais e desencadeou-se um corrupio de grandes obras, mas, infelizmente, soube-se há dois anos, não se fez nada que pudesse prevenir a situação de catástrofe que a ilha da Madeira sofreu com as inundações. Alberto João Jardim, de há uns anos a esta parte, deixou de ser um político com obra para mostrar e passou a ser um político com obras para adjudicar – e sem dinheiro para as pagar. Falando depressa, Jardim passou o seu prazo de validade e não teve a honestidade política de se retirar no auge da obra útil que também fez; pior, no seu partido, todos temeram contrariá-lo e permitiram que ele agravasse os erros – políticos e económicos. Jardim foi fazendo afirmações cada vez mais estranhas do ponto de vista político, ameaçando com uma independência que não sobreviveria sem o dinheiro que o Governo da República lhe foi entregando. Percebe-se agora que as entidades supostas fiscalizar as contas da região andaram a dormir na forma durante muito tempo e o próprio Presidente da República se deixou ficar no engano porque lhe dava jeito - e Passos Coelho fez bem em se demarcar. O que eu sei é que Alberto João Jardim anda a fazer uma média de 1,5 inaugurações por dia na sua actual campanha eleitoral. Se ganhar, como é provável, fica-se com a certeza que, em política, o crime compensa.

TGV- Eu sou dos que acha que a única linha de TGV que faz sentido é a  Lisboa-Madrid. Quando o actual Primeiro Ministro, então ainda apenas líder da oposição, começou a pôr em causa a possibilidade da sua construção nesta altura achei que ele dizia coisas com sentido e presumi que provavelmente os seus assessores teriam estudado as implicações de uma suspensão da obra. Vai-se percebendo que os estudos, se existiram, foram atabalhoados – pelos vistos não tiveram em conta acordos firmados com Espanha nem a possibilidade de manter os financiamentos comunitários para a obra. Desde há cerca de um mês que se intui que o discurso do Governo sobre o TGV está em processo de permanente evolução e a ideia mais recente é que talvez se avance só com uma única via, em vez da dupla via normal. Voz amiga, ao saber da novidade, exclamou logo: «só se for de sentido único para nos pirarmos daqui para fora». Coloquei a frase no Facebook e foi um sucesso. Eu sobre esta matéria não tenho mesmo certezas – mas tenho muitas dúvidas e as maiores delas, nesta questão da via única, é a de saber se, no longo prazo esta solução não encarecerá ainda mais a conclusão da obra a duas vias e se, por outro lado, em matéria de segurança não existem dúvidas. Com o que o passado recente trouxe em matéria de falta de estudo eu cá por mim limito-me a recomendar prudência, bom senso e humildade no estudo da situação.

ARCO DA VELHA – Devido à falta de material circulante, sapadores bombeiros de Braga começaram a utilizar ambulâncias funerárias como veículos de apoio no combate a incêndios.

SEMANADA – A Espanha anunciou que prepara restrições a novos parques eólicos; Lisboa viu as receitas municipais diminuírem 37,5% milhões de euros devido à quebra da actividade económica e diminuição da derrama; virou moda esconder números - confirmou-se que no Instituto do Desporto existiam 635 facturas por processar no valor superior a seis milhões de euros; em várias cidades a iluminação pública foi reduzida e nalguns casos anulada para conter os novos custos que decorrem do aumento do IVA na electricidade; 85% dos portugueses acham que os sacrifícios não estão a ser repartidos de forma

LER – Quando folheei a edição da Monocle, de Outubro, fiquei com vontade de a enviar a diversos responsáveis por alguns grupos de comunicação em Portugal. O tema central é “O Novo Modelo dos Media”, com exemplos analisados em diversos países. No texto de introdução, Tyler Brulé, o director da “Monocle” enfatiza a necessidade sublinhar os exemplos em que o investimento em boas práticas de jornalismo, em talento e em imaginação são aqueles que fazem ganhar audiência. O ponto central é este: é o conteúdo que dita a audiência e não apenas as plataformas de distribuição ou as formas como os conteúdos são empacotados nos vários serviços possíveis. Esta abordagem “back to basics” pode parecer estranha nestes dias, mas os exemplos relatados dão que pensar – e dar que pensar é de qualquer forma o objectivo de qualquer revista que se preze.

VER – Uma coisa que cada vez se torna mais saliente na obra de Ana Vidigal é o seu sentido de humor, que molda as peças, a escolha das técnicas e das cores, os desafios que nascem dos nomes das obras, escolhidos como parte da própria criação artística. «Estilo Queen Anne», um título que por si só é um programa, é a sua nova exposição, que ocupa, em contextos diferentes, as duas salas da Galeria Baginski com duas dezenas de trabalhos, entre a pintura, a colagem e desenho, com incursões pela pop art e pelo imaginário da banda desenhada - aqui usando autocolantes da BD bem comportada e personagens da BD mais marginal. Na outra sala da exposição Ana Vidigal ensaia suportes e técnicas gráficas de impacto visual, simulando o universo das imagens fotográficas e ambientes de fantasia. Depois da sua mostra antológica no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, em 2010, esta exposição mostra os novos e  curiosos percursos que Ana Vidigal está a ensaiar, claramente em ruptura com o status quo instalado. Galeria Baginski, Rua Capitão Leitão 51-53, de 22 de Setembro até 5 de Novembro.

OUVIR – Em Abril deste ano Wynton Marsalis e Eric Clapton gravaram um disco de blues no Lincoln Center, em New York. À partida o desafio era aliciante – combinar a sonoridade do trompete com a da guitarra eléctrica, enquanto solistas numa formação clássica de jazz que combinava mais três metais, teclas, baixo, banjo e bateria. A boa notícia é que o resultado é magnífico – recorrendo a arranjos típicos das formações de jazz de New Orleans. Mantendo uma fidelidade absoluta ao espírito dos blues, Marsalis e Clapton fizeram uma reinterpretação inovadora de clássicos como “Ice Cream”, “Joe Turner’s Blues” ou “Corrine, Corrina”, já para não falar de temas do próprio Clapton, como “Layla”, aqui numa das suas melhores versões de sempre. As vozes são as de Marsalis e de Clapton, com a participação especial do grande Taj Mahal em três. Vale a pena ter a edição especial, que combina o CD áudio com o DVD do concerto. Numa recente entrevista à “Vanity Fair”, Marsalis dizia que os blues eram o grande amor da sua vida – “It cost a lot to find and much more to maintain”. Este disco é prova disso mesmo. CD Reprise, via Amazon UK.

PETISCAR – Ao fundo da Guerra Junqueiro, do lado esquerdo de quem desce, há uma pequena loja que se chama “Mercearia Criativa” que vale a pena ser visitada. Não é uma loja gourmet, como os seus proprietários gostam de sublinhar, é uma mercearia com produtos portugueses bem escolhidos, desde as batatas doces de Aljezur a queijo Monte da Vinha, passando por pão de Castro Verde, conservas tradicionais, os deliciosos croquetes de figo algarvios  e vinhos escolhidos. A Mercearia Criativa tem uma pequena esplanada onde se realizam degustações e se pode provar um petisco dos vários disponíveis no local. Se seguirem a sua página no Facebook irão tendo informação sobre as actividades. A Mercearia Criativa fica no nº 4A da Guerra Junqueiro, já perto da Alameda, e está aberta de segunda a sábado entre as 10 e as 20h00.

BACK TO BASICS – O desenvolvimento da economia é a coisa mais importante de um país e o crescimento da dívida pública o maior dos perigos – Thomas Jefferson


 


(publicado no Jornal de Negócios de 23 de Setembro)

UMA ESTAÇÃO AZUL

Já devem ter reparado que vai para aí uma polémica sobre a estação da Baixa Chiado e o seu novo nome. Confesso que é uma polémica que não entendo. Como se sabe, nas estações de Metro existe publicidade, cujas receitas ajudam às contas da empresa e a evitar que os bilhetes sejam mais caros. Da mesma forma, a extensão da comercialização de espaço ao nome das estações cria novas oportunidades de receitas, mas, também, proporciona um valor adicional – como está a acontecer na estação Baixa-Chiado, em Lisboa. O que o metropolitano fez foi dar o direito a uma outra empresa a figurar no nome da estação – neste caso à PT. A estação passou a contar com o logótipo da operadora telefónica na sua designação e também com a expressão “blue station”, em alusão ao azul que é a cor da PT. A este tipo de negócio chama-se “Naming Rights” , ou direito de utilização do nome. É algo de vulgar por esse mundo fora em grandes espaços públicos, como por exemplo estádios desportivos ou prestigiadas  salas de espectáculo.


 


No caso do Metropolitano, a associação da PT à “blue station” da Baixa Chiado trouxe algo mais: os utentes da estação passaram a poder usufruir de conteúdos do SAPO, com informações sobre actividades diversas, informações para crianças e actualizações noticiosas, além de uma agenda cultural da cidade de Lisboa com um enfoque especial na zona da estação, o Chiado. Além disso a PT disponibilizou ligação Wi Fi gratuita a todos os utilizadores dentro do espaço da estação.


 


Finalmente a PT promove ainda uma série de eventos na própria estação em áreas como a Literatura, a Arte, a Moda, o design ou a Música. Ao longo de um ano 12 pessoas vão pensar as programações para cada mês – a promeira, já em curso, é da autoria do artsita Vasco Araújo. A estação ficou mais rica em animação, em informação e em serviços e o Metro com mais dinheiro para a manter operacional. Para os utilizadores da estação, esta foi uma boa ideia.


 


(publicado no Metro de 19 de Setembro)

setembro 16, 2011

Coisas que funcionam bem

AVISO – Dedico a coluna desta semana a boas ideias, coisas bem sucedidas, exemplos a seguir – um modesto contributo para gerar um pouco de optimismo, mostrando que existe quem reaja e faça coisas, quem não fique de braços cruzados a lamentar-se. Esta semana estive num debate no Instituto Superior Autónomo de Estudos Politécnicos, sobre os problemas que existem na ligação entre o ensino e as empresas, e a maioria dos participantes apontou como principais questões a falta de desenvolvimento de espírito empreendedor e a ideia generalizada de que um diploma deve gerar automaticamente um emprego. A ideia de que a sociedade deve providenciar tudo foi uma curta ilusão nascida no pós-guerra, nos anos 50, e que se começou a desmoronar menos de 50 anos depois. É escusado pensarmos que a sociedade vai fazer alguma coisa por nós, se não nos esforçarmos por fazer alguma coisa pela sociedade. A melhor coisa que podemos fazer a nós próprios é esforçarmo-nos por conseguir acrescentar valor da forma que pudermos. É de casos destes que hoje vou tentar falar.


 


 POLÍTICA - A Universidade de Verão do PSD é um caso raro na política nacional e, este ano, de lá saíram interessantes declarações de vários dos oradores convidados, de vários quadrantes políticos, aliás. De uma forma geral, ano após ano, a Universidade de Verão do PSD tem sido mais interessante que qualquer congresso partidário, tem feito mais debate e criado mais formação entre jovens aspirantes a uma participação cívica que qualquer outra iniciativa. O seu grande impulsionador tem sido Carlos Coelho, deputado social-democrata, que ano após ano tem criado, durante uma semana, um espaço de debate, de experimentação e de troca de experiências – num país onde estas actividades em, matéria de política, são quase um deserto. Interrogo-me aliás se a chamada “rentrée” política do PSD não devia passar a ter a Universidade de Verão como referência, em vez do decadente jantar do Pontal.


 


LER – A Magnética Magazine é uma publicação digital que já vai no seu número 34. Em termos de uma revista exclusivamente digital é um produto particularmente bem cuidado do ponto de vista de conteúdos, nos textos e nas fotografias, e também no design gráfico. Esta iniciativa, que tem um sustentáculo em publicidade na área da moda, é fruto de uma equipa de cerca de 30 colaboradores, das mais diversas áreas, dirigida por Bruno Pereira. É um exemplo de uma equipa que procura fazer coisas diferentes, escolhe temas interessantes, estimula a curiosidade dos leitores e presta informações úteis através de um site com actualizações regulares de agenda. A edição de Setembro é dedicada ao Oriente e tem como destaque um trabalho com Bi Feiyu, um escritor chinês, autor do livro «Three Sisters», galardoado com o Man Asia Literary Prize de 2010.  Estranho? – Não, revelador de que se pode sempre descobrir algo de novo para mostrar. Comunicação é isto mesmo, não é?


 


VER - Luiz Carvalho é um dos jornalistas que há uns meses, num processo de redução de quadros, saíu do Expresso. Não cruzou os braços, começou a fazer workshops onde ensina técnicas de fotojornalismo e, ao mesmo tempo, foi desenvolvendo uma actividade de freelancer. Durante o Verão, Luiz Carvalho publicou no «Expresso», com quem mantém uma boa relação, uma série de reportagens com o título genérico «Portugueses» (revisitando um trabalho que já tinha sido feito sob a forma de livro em 1985). 26 anos depois Luiz Carvalho foi à procura destes novos Portugueses e encontrou 18, das mais diversas profissões, que por uma razão ou por outra tinham uma história para contar. Na revista «Única» publicou as fotos e um texto baseado no depoimento dos entrevistados e a versão iPad do semanário lá tinha também uma versão com filme. E nos últimos dias a SIC Notícias tem passado esses pequenos filmes, que são a extensão audiovisual das reportagens que o Expresso publicou. Têm entre 2 e 4 minutos cada. Tudo – fotografia, recolha do depoimento, filme -  foi feito por Luiz Carvalho, sozinho, e com uma mesma máquina, a Canon 7D. A pós produção vídeo também foi feita por ele no iMovie da Apple, um programa simples e eficiente residente nos computadores da marca. Trata-se talvez do primeiro trabalho desta envergadura feito por um único jornalista multimédia em Portugal. O resultado é um trabalho com qualidade narrativa e técnica, pensado e feito em multiplataforma, com recurso a materiais acessíveis. Um exemplo, em suma.


 


OUVIR – Trabalhei alguns anos no jornalismo musical e na indústria discográfica. Habituei-me a pensar que quando a crise espreita surgem as grandes oportunidades para os independentes. Nestas ocasiões as editoras independentes, ágeis, criativas, entusiastas, ganham uma vida especial na descoberta de talentos e na apresentação de trabalhos que doutra forma talvez ficassem desconhecidos. Tem graça que a música popular contemporânea é das actividades onde felizmente não há subsídios do Estado e onde eles não são, por via de regra, solicitados. Até aí a independência dá outro sabor às coisas. Vem isto a propósito de um grupo que se chama Rose Blanket, um projecto musical que gira à volta de Miguel Dias desde 2003. O seu novo disco, o terceiro, chama-se « Nothing Ahead/Nothing Behind» e  é um duplo CD, editado de forma independente, e as gravações decorreram entre Dezembro de 2008 e Fevereiro de 2011, entre Barcelos e Lisboa. O projecto envolve vários outros músicos portugueses, a voz inesperada e magnífica de Filipa Caetano e duas cantoras norte-americanas, Jennifer Charles (dos Elysian Fields) e Dana Schechter (Bee and Flower, colaborações em American Music Club). O resultado é fruto de um processo criativo feito da experimentação, repetição, correcção, às vezes obsessivo, mas surpreendentemente envolvente. «Feel My Way Around» é o nome da canção que serviu de base para o vídeo, realizado por Joana Linda (vencedora do Shortcutz Maio de Lisboa com a curta metragem «Boudoir») e que pode ser visto no site www.roseblanket.net. Moral da história: vários músicos, várias cantoras, um disco editado, um vídeo feito, uma série de espectáculos que vão surgir – tudo feito de forma independente, com determinação e paixão. É isto que torna o universo da música popular tão atraente.


 


VISITAR – Todos sabemos como as empresas públicas de transporte vivem em situação deficitária. Pois a MOP, concessionária da publicidade no Metro de Lisboa, propôs à empresa a possibilidade de, nalgumas estações, associar o nome pelo qual são conhecidas, e que depende da sua localização, a um patrocinador. Chama-se a isto, em termos publicitários, «naming rights», uma acção utilizada numa série de situações por esse mundo fora, com satisfação para todas as partes envolvidas – as empresas detentoras dos espaços (que recebem dinheiro) e as patrocinadoras (que ganham notoriedade). No caso do Metro a operação foi pensada com cuidado, para não ser intrusiva, nem na estação, nem nos utilizadores, nem sequer no design das novas placas que associam o nome da estação Baixa –Chiado ao patrocinador PT. A arquitectura da estação, desenhada por Siza Vieira, impunha ela própria limitações à forma de intervenção do patrocinador. A solução encontrada pela PT foi inteligente e esteticamente conseguida, graças também à facilidade com que trabalha com novas tecnologias. Usando projecções de imagem e de luz em vários pontos da estação e sempre com recurso ao azul que é a cor identificadora da marca PT, prestam-se uma série de informações úteis aos utilizadores do Metro, mas também se propõem, no próprio espaço da estação, uma série de performances e actuações, num conjunto de actividades idealizado e programado, neste mês, pelo artista Vasco Araújo – outros se lhe seguirão nos meses seguintes. A estação ficou mais rica em animação, em informação e o Metro com mais dinheiro para a manter operacional.


ARCO DA VELHA - Se Portugal tivesse uma lei de responsabilidade fiscal que punisse os violadores das leis orçamentais com a não reelegibilidade durante 10 anos muita coisa tinha sido diferente, no continente e nas ilhas, nestas últimas duas décadas. Como afirmou esta semana Silva Lopes, precisamos de penalizações para políticos que não cumprem regras.


 


BACK TO BASICS – Parece ter-se trocado o valor das coisas pelo preço das coisas – Adriano Moreira


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 16 de Setembro)


 

setembro 13, 2011

Como tratar os culpados políticos?

Nas últimas semanas temos vindo a ser bombardeados com anúncios  de subidas de impostos, aplicação de novas taxas, impostos especiais – tudo a recair quase exclusivamente sobre os rendimentos do trabalho. O Ministro das Finanças foi claro : é mais prático lançar novos impostos muito fáceis de cobrar porque são deduzidos nos vencimentos, do que tentar outras medidas mais difíceis.


 


Bem sei que o país está num aperto, bem sei que temos que tentar endireitar as contas, bem sei que o mundo mudou e nós todos, aqui neste rectângulo, só demos por isso tarde demais.


 


Mas também sei que durante década e meia foi um fartote de asneiras governamentais, vindas de vários quadrantes partidários, que muito contribuíram para o estado em que estamos. A megalomania tomou conta do país e tornou-se linha política.


 


Mas o que também sei é que, agora, na hora de pagar a factura, ela cai em cima dos mesmos de sempre e nada acontece aos que, verdadeiramente, pelos seus actos, foram responsáveis pelo que aconteceu.


 


Dir-me-ão – perderam as eleições, o Governo mudou, foram politicamente punidos. Pois. Mas não basta – os responsáveis políticos têm que ser punidos por má gestão, por delapidação dos dinheiros públicos, por políticas desastrosas e não estou a falar só de uma punição política.


 


Alguns responsáveis políticos dirão que esta posição é populista – acontece que na realidade foram medidas populistas em excesso, desses mesmos políticos, que nos levaram onde estamos. Irresponsabilidade conjugada com impunidade produziram aquilo que estamos agora a sentir.


 


Quem aumentou o endividamento do país, quem adoptou políticas que não tinham sustentabilidade, quem colocou o Estado a gastar acima das suas possibilidades foram os políticos, quer na administração central, quer na administração local. Em nome de promessas eleitorais delapidaram-se milhões, os milhões que hoje nos estão a tirar, imposto após imposto, taxa após taxa.


 


(Publicado no diário Metro de dia 13 de Setembro)

setembro 09, 2011

Política, comunicação, cultura e a comidinha de Lula

FACILITISMO - Quando se intui que não há resposta para algumas perguntas, mais vale não ir a interrogatório – vem isto a propósito da forma como Vitor Gaspar, a meio da semana, se expôs numa série de entrevistas que tinham a intenção de melhorar a comunicação sobre o aumento de impostos e as medidas de redução da despesa. A coisa não funcionou e o resultado teve momentos penosos para o Ministro. Vitor  Gaspar é um tecnocrata puro, demasiado dogmático em matéria europeia, e tem uma assinalável falta de capacidade de comunicação. Já se percebeu que não é um político – embora alguém devesse ter pensado que a pasta das Finanças é politicamente das mais importantes. Toda a gente já percebeu o seu papel – encontrar equilíbrio nas contas, o que é um bocado diferente do anterior Ministro das Finanças que procurava esconder o desequilíbrio das contas. Nestas entrevistas, Vitor Gaspar teve uma frase que resume a sua agenda: é mais fácil e mais rápido aplicar impostos do que mudar o funcionamento do Estado. Ele disse isto de uma maneira mais suave, mas o conteúdo foi este. E, é aqui que reside o nosso problema – é sempre mais fácil ir buscar mais dinheiro ao bolso dos mesmos, que pagam sempre, do que procurar outras soluções. O Estado é preguiçoso por um lado e abusador por outro. É claro que o Ministro podia tentar fazer diminuir a evasão fiscal e assim ir buscar mais receitas; é claro que o Governo podia  tornar a justiça mais célere e assim cativar mais investimento; é certo que podia procurar dinamizar a economia, criar emprego, e assimgerar mais receitas. Eu sinceramente desejo e espero que este Governo consiga resolver o nosso problema. Mas, se vai lá pelo lado da facilidade e não ataca o problema de fundo, nem com impostos de 100% nos safamos.


 


LIVRO - Daqui a uns anos o que vai ficar das duas primeiras décadas deste século? Os políticos que nos levaram à ruína, as medidas de austeridade, ou os criadores, escritores, músicos, artistas, cuja obra perdure? Acham esta pergunta estranha? – E esta: o que é mais importante? - a cultura ou a política? Não me lembro de um político que corporativamente não diga que a política comanda a vida. Ora acontece que, como a História demonstra, não é bem assim. A nossa identidade enquanto nação é marcada pelos nossos criadores e não há vulto da política que na comparação resista ao passar dos séculos. Dito isto, que sinal se pretende dar com um hipotético aumento do IVA nos livros? Portugal já tem das mais baixas taxas de leitura da União Europeia, tem dos índices mais baixos de compras de livros na Europa. Bismark dizia que a política é a arte do possível – mas neste caso acho que esta citação deve ser remetida ao Primeiro-Ministro, que tem a responsabilidade da tutela da pasta da Cultura. É a ele que compete dizer ao seu Ministro das Finanças que aumentar o IVA no livro é impossível (além de provavelmente ter um reduzidíssimo efeito prático na receita). De alguma forma na decisão que for tomada está a pedra de toque da política cultural deste Governo. Vence o dogma, ou aceita-se a razão? Qualquer aumento, mesmo que parcial em relação à taxa máxima, agravará a nossa situação. Esta responsabilidade e esta decisão, repito, pertencem ao Primeiro-Ministro e estou com curiosidade de ver o que fará Passos Coelho depois daquilo que escreveu sobre política cultural, no seu livro «Mudar», lançado em Janeiro de 2010.


 


SEMANADA – 14 600 pessoas perdem em cada mês o direito ao subsídio de desemprego; o sector público deve a fornecedores privados mais de 4 mil milhões de euros; apenas seis das 51 cadeias portuguesas têm salas para encontros íntimos de reclusos com visitas; na última semana três polícias foram assaltados na rua; Ana Gomes apelidou Merkel de “anjinha”; Portugal tornou-se líder europeu na apreensão europeia de chifres de rinoceronte; a Porsche abriu um stand em Pequim.


 


ARCO DA VELHA – Afinal, o tumulto é no PSD - a principal oposição ao Governo, na última semana, veio de dentro do PSD: três ex-líderes e vários notáveis não pouparam críticas à política fiscal e à comunicação do executivo.




VER – Até 18 de Setembro estão em exposição, no Museu da Electricidade, em Lisboa, as obras dos nove finalistas do Prémio EDP Novos Artistas 2011. Esta iniciativa da EDP tem permitido revelar nomes como Joana Vasconcelos, Vasco Araújo, André Romão ou Gabriel Abrantes. É, talvez, o mais regular radar de reconhecimento de novos talentos nas artes plásticas. Priscilla Fernandes é a vencedora deste ano, com os dois vídeos que apresentou e a instalação de André Trindade teve uma Menção Honrosa. Os vídeos de Priscilla Fernandes fogem aos lugares comuns infelizmente frequentes deste género de suporte e remetem para um cruzamento de formas de expressão que de certa forma têm a sua raiz na pintura, como aponta o texto de Delfim Sardo sobre a obra premiada. Já André Trindade fez uma observação do quotidiano com recurso a situações e soluções inesperadas numa instalação muito conseguida – percebe-se que o Júri deve ter hesitado entre as obras destes dois artistas. Em termos mais pessoais o trabalho de João Serra, com recurso a vídeo e fotografia, num registo muito documental e minucioso de uma região mineira no norte da Rússia, constitui um outro ponto incontornável da exposição.


 


LER – Numa fase em que tanto se discute a educação em Portugal, a edição de Setembro da “Monocle” vem mesmo a calhar. A revista investiga e mostra exemplos de experiências educacionais por vezes invulgares na Colombia, Peru, Finlândia, Coreia e Itália. Além disso aborda experiências individuais de duas dezenas de professores e profissionais de várias áreas com experiência relevante no ensino e na formação. A revista privilegiou o lado prático da formação e os resultados obtidos, destaca afirmações e opiniões polémicas sobre estas matérias. É talvez um dos melhores números da “Monocle” desde há meses. Outros temas de interesse são uma entrevista com o novo CEO da Air New Zeland, que está a proceder a uma revolução na empresa, e também uma muito oportuna reportagem sobre um canal de televisão noticioso na Venezuela. Finalmente destaque para as oito páginas que constituem o guia da criatividade em Singapura. Muito para ler, bastante para descobrir, coisas para aprender.


 


OUVIR – Assim, de repente, o nome de Francisco Silva não dirá grande coisa a muita gente. Mas o nome Old Jerusalem já faz levantar umas orelhas – trata-se de um projecto musical desenvolvido por Francisco Silva e que vai agora no seu quinto disco e no décimo ano de carreira. Os primeiros discos tiveram um assinalável aplauso da crítica e permitiram também alguma carreira internacional. Aos poucos Old Jerusalem tornou-se num nome de culto e o seu mentor, Francisco Silva, que compõe, canta e toca a maioria dos seus temas ( e que acumula a carreira musical com uma vida de economista), foi ganhando reconhecimento pelo cuidado colocado sobretudo nas harmonias vocais que se tornaram a sua marca muito própria. Este quinto disco “Old Jerusalem” sai dentro de dias, retoma em parte o espírito dos registos iniciais, mas revela um aperfeiçoamento considerável, mantendo no entanto uma capacidade de surpreender que se revela em vários temas do CD – são doze, onze de Francisco Silva e um de Lou Reed, ainda do tempo dos Velvet Underground, uma versão de “Candy Says”. “Old Jerusalem” já tem distribuição assegurada em Portugal e na Alemanha.


 


PROVAR – Se quiserem conhecer o restaurante onde Pedro Passos Coelho levou Lula da Silva a jantar esta semana, A Horta dos Brunos, fiquem sabendo que fica na Rua da Ilha do Pico 27, perto da Estefânia e é reputado por ser um templo das tradições da cozinha portuguesa, com um ambiente informal e simpático e uma garrafeira de eleição. O saudoso David Lopes Ramos não poupava elogios às suas pataniscas de polvo, às «lulas à Pedro» (o dono do restaurante chama-se Pedro Filipe) e a um arroz com costelas de porco guisadas com couve. O telefone é o 213153421e a casa tem quatro dezenas de lugares.


 


BACK TO BASICS – As livrarias são das poucas provas de que ainda existem pessoas que pensam – as que lêem livros (Jerry Seinfeld)


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Setembro)


 

A ESCAVADORA

Começa a ficar claro que os vários serviços secretos portugueses têm vivido em roda livre. Os seus agentes, seguindo os filmes do género, mostram-se pouco receptivos a cumprir a Lei, acham-se acima de qualquer suspeita e não gostam de dar conta do que fazem.  Ao longo das últimas semanas vários jornais têm aprofundado a investigação do comportamento das secretas e o rol de irregularidades é considerável – passa por favores pessoais a amigos, informações a empresas passadas debaixo da mesa, trânsito de agentes entre a actividade das secretas e a actividade privada.


 


Tudo isto, vai-se sabendo, usando meios técnicos e recursos humanos do Estado para fazer uma circulação ilícita de informações, num misto de favores pessoais e negócios muito pouco claros. Face à situação, aparentemente sistemática de abusos, ainda bem que há jornais que conseguiram investigar e publicar estas informações – e no meio de um clima que se começa a gerar por aí vale a pena dizer os jornais têm feito o que devem e têm mostrado que os serviços secretos – e não os jornais -  é que têm feito asneira, e da grossa. Num tempo em que se discute muito o serviço público vem a propósito dizer que esta forma de agir dos jornais que têm investigado o caso constitui um dos mais importantes serviços públicos que os órgãos de comunicação podem fazer: denunciar abusos.


 


Escavar informação sobre abusos do Estado e dos seus agentes é um bom princípio de funcionamento da imprensa livre. Não por acaso, uma das ilegalidades que se descobriu foi a obtenção ilícita de dados de um jornalista que investigava os serviços secretos. Já se sabe que o objectivo era descobrir quais seriam as fontes de informação do jornalista, adivinha-se que para as perseguir, investigar ou pressionar . No fim de tudo isto sobra uma certeza – os nossos serviços de informação são fraquinhos, não resistem a uma investigação sumária e estão mais cheios de guerrilhas e intrigas internas que um clube de futebol.


 


(Publicado no diário Metro de 6 de Setembro)


 

setembro 05, 2011

Televisões, Espiões, Sugestões

TELEVISÃO – Quem segue os números de audiência da televisão deverá ter estranhado o súbito aumento de espectadores do universo dos canais exclusivamente de assinatura e a diminuição dos canais abertos, generalistas – RTP1 e 2, SIC e TVI. Não há grande mistério – o que aconteceu foi que o painel de audiometria começou a reflectir, desde o início do segundo semestre, a verdadeira proporção do que é a distribuição do sinal de televisão em Portugal. Efectivamente, já menos de metade dos lares acede à distribuição do sinal de televisão por antena, e a maioria utiliza cabo, satélite ou outras tecnologias de distribuição.


Os números actuais estão certamente mais próximos da realidade do que os anteriores. Na realidade, na maioria da população, os três canais generalistas comerciais concorrem com dezenas de canais das mais diversas áreas – notícias, infantis, séries, cinema, desportivos, documentários, etc. O que tem acontecido é que, desde que foram introduzidas estas alterações no painel de audiometria, o Cabo tem andado perto dos 30% de audiência, na maior parte das vezes à frente de qualquer dos canais de sinal aberto. Por exemplo, na semana passada, o Cabo registou 31% de audiência, a TVI teve 22,4, a SIC 21,4% e a RTP 20,1%. Claro que estes números preocupam os canais comerciais de sinal aberto, já que o seu impacte na captação de investimento publicitário é imediato – desde o princípio do ano os canais de sinal aberto têm vindo a perder algum investimento precisamente para os canais de cabo. E, nos canais de cabo o líder de audiências é a SIC Notícias. Na semana passada o segundo lugar ía para o Disney Channel, seguido do Hollywood, o Panda, o Fox, depois a Sport TV e a seguir o AXN. A RTP N só aparece em nono lugar e a TVI 24 em 11º. E quanto mais rigoroso for o sistema de audiometria, com a introdução de novas tecnologias de recolha de dados, mais se acentuará este fosso. É um caminho sem retorno.


 


ESPIÕES – Quando os espiões são notícia, alguma coisa vai mal. Quando um país tem serviços secretos que criam a imagem de servir mais para negócios privados que para outra coisa qualquer, está criada a confusão. Mas, quando as ilegalidades que os espiões cometem são tornadas públicas alguma coisa começa a ir bem. Percebe-se agora que os serviços secretos andam em roda livre, que o controlo sobre a sua actividade é virtual, que ilegalidades são cometidas e escondidas. Na prática percebeu-se que o Estado tem sido conivente com estas situações, que há dois pesos e duas medidas. Era bom que esta investigação não terminasse sem culpados – porque caso contrário quem perde é o regime, que se torna permissivo e conivente com ilegalidades. Tudo se passa como se o Estado se tivesse distraído e resolvesse deixar de funcionar.


 


IMPOSTOS - À medida que os aumentos se começam a fazer sentir percebe-se que as receitas que se esperavam não se cumprem. O aumento do IVA provoca uma diminuição do consumo, nas SCUT com pagamento já em vigor diminuíu o número de veículos, no estacionamento em Lisboa as novas tarifas mais altas geram receitas mais baixas. Há um ponto a partir do qual os consumidores dizem basta. E as receitas que se esperavam ver crescer arriscam-se a ficar abaixo das que existiam anteriormente. Estes aumentos agravam o problema em vez de o resolverem – com uma outra consequência – afectam toda a cadeia da produção e distribuição de bens, terão provavelmente reflexos na perca de mais postos de trabalho e na deterioração da situação económica de vários sectores. Esta semana, no Público, João Carlos Espada escreveu um belo artigo sob o título  "Impostos e Criação de Riqueza", que bem merece ser lido por quem anda com algumas ideias peregrinas no ar e por quem encontra sempre a mesma solução fácil: mais impostos. Excerto: «Não são os impostos a fonte primordial de melhoria da condição de vida do maior número. A riqueza da Europa e do Ocidente - que ainda hoje merece admiração no resto do mundo - não foi produto da redistribuição da riqueza dos ricos para os pobres através dos impostos. Foi produto da criação de riqueza num ambiente de liberdade económica, em regra associada a impostos baixos, justiça célere, e, sobretudo, à ausência de barreiras à entrada de novos competidores. Esta verdade elementar foi precocemente observada por Adam Smith, já em 1776. E foi mais facilmente corroborada depois disso.»


 


SEMANADA – Em dez semanas de governação o Governo criou onze grupos de trabalho; desde Janeiro faliram 2917 empresas; quase duas dezenas de figuras públicas de vários sectores confessaram ao “Diário de Notícias” que suspeitam estar sob escuta telefónica; na Liga, em nove pontos possíveis, o Sporting só somou dois e continua a achar que a solução é comprar mais jogadores.


 


ARCO DA VELHA – O suspeito de ter sequestrado e violado durante três dias uma turista italiana em Lisboa foi identificado pela polícia, levado a tribunal e solto com a obrigação de se apresentar na esquadra de quinze em quinze dias; deu morada falsa e nunca mais apareceu. Isto é um Estado de Direito?


 


VER – Três razões para ver o site www.artecpital.net: o artigo sobre a exposição dos candidatos ao prémio EDP Novos Artistas 2011, outro sobre a exposição de Pedro Portugal no Gabinete da Politécnica e sobretudo o artigo de Augusto M Seabra sobre a obra de arte na era digital. Muito interessante também o vídeo que explica – e mostra – o processo de trabalho de José Roca, o curador-geral da 8ª Bienal do Mercosul e o artigo sobre a exposição de João Penalva no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Mas há outros bons motivos de leitura e navegação neste site dedicado à arte contemporânea.


 


LER – A Vanity Fair deste mês tem Jennifer Lopez na capa, com um porfolio fotografado por Mario Testino. Mas além disso tem um belo artigo de Michael Lewis sobre como a Alemanha domina a Europa. Na mesma edição Annie Leibowitz fotografa o pintor John Currin e Jean Stein usa as fotos de William Eggleston num belíssimo artigo sobre o ambiente que se vivia no célebre clube Tropicana, em Havana, poucos meses antes de Fidel castro ter tomado o poder. Outro tema interessante abordado pela revista é o relato dos ataques de hackers chineses a segredos norte-americanos.


 


OUVIR – Em 1964 Count Basie e a sua orquestra fecharam-se em estúdio e gravaram Basie Land, um álbum de 10 temas compostos e orquestrados por Billy Byers. Na verdade Count Basie decidiu nessa altura refrescar o som da banda e entregou a direcção de todo o projecto a Byers – que se saíu bem da experiência, conseguindo transmitir uma energia e uma profundidade musical diferente do que acontecia até aí – os temas “Basie Land”, “Rabble Rouser” e “Gymnastics” são bom exemplo disso mesmo. Destaque ainda para “Sassie”, um blues em  homenagem a Sarah Vaughan. O disco ainda hoje alimenta alguma polémica entre os fãs do estilo tradicional de Count Basie, que olharam com desconfiança para a lufada de ar fresco que Byers imprimiu á gravação. O disco foi agora reeditado, na série Verve Orinals, pela Universal. Como diria John Lennon num célebre álbum dos Beatles, «A splendid time is guaranteed for all».


ound Dog ou Heartbreak HotelH


 


PROVAR – Alguns inocentes acham que o peixe chamado anchova se resume à tirinha deliciosa que vem acondicionada dentro de caixas de conservas – e em Portugal temos vários bons fabricantes. Eu gosto muito de conserva de filetes de anchova, mas gosto ainda mais da anchova fresca, grelhada, sem condimentos, simples e deliciosa. A anchova, da família do biqueirão, mas maior, é um peixe de sabor especial. Quem nunca o experimentou fresco nem sabe o que está a perder. Em Lisboa é difícil de encontrar mas no Algarve encontra-se com alguma paciência – embora seja um daqueles peixes a que dantes ninguém ligava e que agora toda a gente quer. Este ano deliciei-me com uma anchova muito bem grelhada – escalada mas sem estar queimada – no Restaurante Pedro, em Cabanas de Tavira. Se estiver pelo Algarve vale a pena ligar para lá e saber se têm anchova – reserve, se houver. O telefone é o 281 370 425 e a morada é Rua Capitão Batista Marçal 51, no sítio onde a marginal de Cabanas bifurca.


 


BACK TO BASICS – A força dos governos é inversamente proporcional ao peso dos impostos -  Guy de Girardin.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


(Publicado No Jornal de Negócios de 2 de Setembro)