outubro 15, 2010

PROVAR O MATTOS

As lulas à Mattos são o prato forte da casa – forte e bem temperado, a exigir calma e sossego posteriores. Mas as ofertas de peixe e carne grelhada como os secretos de porco preto ou as costeletinhas de borrego também fazem parte dos ex-libris da casa, que fica bem perto da Avenida de Roma, junto ao teatro Maria Matos. Já agora cabe aqui elogiar as batatas fritas, cortadas em palitos fininhos, de boa batata e boa fritura, e que são um verdadeiro pecado.


 


A garrafeira é cuidada e actual, a freguesia gosta de cozinha portuguesa e de doces conventuais – que são a guloseima do local. De modo que não é invulgar ver no local alguns clientes com, digamos, algum excesso de peso – mas com ar feliz e bem disposto. Rua Bulhão pato 2ª, telefone 218483924, encerra aos Domingos.

ARCO DA VELHA

Segunda feira passada a RTP liderou as audiências, bateu SIC e TVI, e não transmitiu futebol. O bom resultado foi-lhe dado pelos resultados do «Prós e Contras» desse dia, dedicado à crise, segundo os três ex-Presidentes da República: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.


 


 Eanes foi o mais lúcido ao dizer : «Dá impressão que os Governos têm medo da sociedade civil e por isso escondem a verdade». Enfim, não é medo da sociedade civil, é mais medo de perderem votos. Mas no fundo foi o único com coragem para afirmar: «Devíamos ter tido só um PEC, ousado, arrojado e justo». De qualquer forma as boas audiências destas figuras mostram o velho sebastianismo português.


 

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A indiferença pela coisa pública leva a que sejamos governados por má gente - Platão


 


 

outubro 14, 2010

UM JOGO DE XADREZ

A situação política portuguesa está a ficar perigosamente parecida com um jogo de xadrez em que os jogadores resolveram aplicar as regras do poker e movem as peças fazendo estranhos movimentos de “bluff”.  O PSD entra com vários jogadores, que fazem movimentos dispersos, às vezes contraditórios e algumas vezes confusos. O Governo mantém a pressão e tenta não abrir brechas. Por cima, o Presidente da República sente-se irrequieto e incomodado com as complicações surgidas em cima de termo de mandato, preocupado em saber quando, no meio desta tormenta, arranjará espaço para anunciar a recandidatura que é o tabu mais idiota do país. O outro candidato presidencial já desistiu de colocar peças no tabuleiro porque a última coisa que pretende é ser chamado a comentar as medidas do PS no Governo. E, finalmente, Paulo Portas está inusitadamente sossegado, espreitando por cima dos ombros dos jogadores, para ver se surge um momento em que ele possa pegar numa peça e fazer um movimento que o coloque na posição de poder ser ele a gritar “xeque-mate”.


Os efeitos da crise na imprensa e nos comentadores também são curiosos – um jornal anunciava este fim de semana a data de demissão do primeiro Ministro, os editoriais e comentários falam todos sobre o mesmo assunto – incluindo este. O país está obcecado pela crise e Passos Coelho está enredado no seu próprio tabu – se vota contra, ou se se abstém, deixando, neste caso, passar o Orçamento.  Aposto que no seu íntimo Sócrates gostaria que o Orçamento fosse chumbado – isso permitiria que se vitimizasse, encontraria uma forma airosa de responsabilizar outros pela situação e tentaria ainda sobreviver. A ele, agora como nos últimos anos, pouco importa a situação do País. Ele conhecia os perigos que corria com as medidas que foi tomando – mas sabia que elas lhe compravam votos e apoios. Sócrates é apenas movido pelos seus objectivos pessoais, pelo Poder e pelo seu agudo instinto de sobrevivência. Se o País fosse uma preocupação para ele, há muito que teria percebido o que tinha de ser mudado.

O ALEGRE AUSENTE

Manuel Alegre foi o único candidato já anunciado às próximas eleições presidenciais que não esteve nas comemorações oficiais do Centenário da República, na Praça do Município, em Lisboa. A versão oficial diz que ele esteve em Loures e no Barreiro, onde a República terá sido proclamada ainda antes de Lisboa. A evidência no entanto é que Manuel Alegre preferiu ir para locais onde não corresse o risco de ser confrontado com a pergunta: «que acha das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo?». Se tivesse ido à Praça do Município, Manuel Alegre teria que falar aos jornais,às estações de rádio, ás estações de televisão. Seria impossível continuar com o silêncio, algo covarde, atrás do qual se tem escondido desde que Sócrates anunciou que ía mesmo ter que fazer cortes sérios. A atitude de Manuel Alegre, a forma como se esconde, diz muito sobre a sua frontalidade, sobre a sua tranaparência e, sobretudo mostra a enorme clivagem, que se há-de acentuar ainda mais, entre as medidas que o PS toma e o que o candidato propagandeia. Manuel Alegre tenta o equilíbrio entre os seus dois apoiantes – PS e Bloco de Esquerda – mas a única coisa que consegue é esconder-se.

TOLERÂNCIA REPUBLICANA

No dia das comemorações do centenário da República um grupo de simpatizantes monárquicos, na maioria alinhados com o blogue  “31 da Armada”, estava perto da Praça do Município e os participantes colocaram máscaras de Darth Vader, personagem da ”Guerra das Estrtelas” que tem sido a imagem de marca daquele blogue. O curioso é que foram abordados por polícias à paisana, vários deles de cabelos rapados e óculos escuros, que lhes quiseram tirar as máscaras, não se sabe bem por que razão nem por qual autoridade. Noutra rua ali próxima um conhecido humorista da TV, Jel, dos Homens na Luta, fazia uma das suas habituais intervenções, proclamando que na sua opinião estamos numa república das bananas - e por esse facto foi detido e levado para identificação pela polícia. Num regime que se quer expoente da Liberdade, estes comportamentos são curiosos . Mais elucidativo ainda é o relativo e dominante silêncio dos media sobre estas atitudes - e já agora também sobre as cerimónias evocativas da Monarquia que na mesma data ocorreram em Guimarães, sem dignatários do regime nem usufrutuários dos dez milhões de euros das festividades republicanas, mas com largas centenas de pessoas, que lá se deslocaram de propósito a expensas próprias, num ambiente de festa popular em contraste com o cinzentismo da Praça do Município.

RETOCAR A MÚSICA

Nestes dias outonais nada como um bom disco de jazz, feito por um trio com uma formação intocável- piano, baixo e bateria. No piano está Jason Moran, no baixo está Tarus Mateen e na bateria está Nasheet Waits. Este trio completou dez anos de existência, já que o seu disco estreia foi “Facing Left”, de 2000. Matematicamente, este novo registo chama-se ”Ten” e reafirma como o talento de Moran está em conseguir fundiar a sua sensibilidade clássica com a intensidade da inspiração afro-americana dos músicos que o acompanham. Grande parte dos temas são da autoria do próprio Jason Moran, mas vale a pena ouvir com atenção as suas versões de “Crepuscle With nellie” de Thelonius Monk e de “Big Stuff”, de Leonard Bernstein. “Ten”, CD Blue Note, na Amazon. Chama-se a isto retocar a música. Bem retocada.


AGATHA CHRISTIE DESCOBRE A SÍRIA

Agatha Christie está no nosso imaginário como a autora de numerosos policiais de trama aliciante e desfecho inesperado. Mas confesso que conhecia muito pouco da sua vida pessoal. “Na Síria” não é bem um livro de viagens no sentido tradicional do termo - é mais o relato de experiências vividas num país, recordações de uma época, recordações assumidas com prazer. Agatha Christie, e isto eu também não sabia, casou-se com um arqueólogo britânico que conheceu nas suas experições. E antes da Guerra, durante uma década a partir de 1930, acompanhou o seu marido em sucessivas explorações e investigações na Síria. Este livrirelata essas viagens, as descobertas e facetas desconhecidas da escritora. Após as expedições á Síria, ela voltou para Londres onde viveu nos anos da II Grande Guerra. E foi só com o fim do conflito que terminou este livro, agora publicado em Portugal. É um deliciso relato de uma viagem para descobrir a Agatha Christie que desconhecemos. “Na Síria”, Edição Tinta da China, na Pó dos Livros. 285 páginas.

TRABALHO COLECTIVO

A nova proposta da Plataforma Revólver é uma exposição colectiva intitulada “Tough Love, Uma Série de Promessas”, que agrupa trabalhos de 12 artistas em diferentes fases da carreira criativa e provenientes de diversos países. O objectivo é “explorar o uso da arte em fornecer complementos exteriores para a noção de amor – uma jornada pessoal efémera composta por outras emoções mais provocatórias, incluindo o ódio, o desejo, a inveja e o destino”. Destaco os trabalhos de Cecília Costa, Agathe de Bailliencourt, Samira Abbasy, K.P. Reiji, Isabel Ribeiro , Greg LeFevre Marc Bijl e Zak Ové . A exposição estará patente até 20 de Novembro na Rua da Boavista 84-1º, Lisboa.

UMA REVISTA FANTÁSTICA - EXCESSIVAMENTE ENORME

Um bom excesso, na realidade: a coisa começa logo na capa - uma fotografia que chama a atenção e um título que diz tudo - «90 anos de excessos». É a edição especial de aniversário da Vogue francesa, que assinala os 90 anos da revista que é a bíblia da moda. São 626 páginas, a maioria de publicidade deslumbrante, muita dela feita de propósito para esta edição. Só a publicidade, de facto, é por si própria um conteúdo editorial. Para além da publicidade e da moda há artigos sobre o escritor Raimond Carver, uma bela evocação de Yul Brynner, outra da super,modelo Dorian Leigh, que foi seis vezes capa da Vogue em 1946 – veja, essas imagens fascinantes. Mas há mais: um álbum com reproduções de artigos antigos sobre Brigitte Bardot, Françoise Sagan, Romy Schneider, Jeanne Moreau, Annie Girardot, Catherine Deneuve, e  Marilyn Monroe, a descrição que Richard Burton fez há anos para a a Vogue da sua vida com Elisabeth Taylor e várias páginas de fotografias de alguns das grandes modelos que posaram para a revista nestes 90 anos. Imperdível – e pode ser comprada em Portugal ou vista em iPad ou em www.vogue.fr.

PARA ALCÁCER, EM FORÇA!

Esta semana inauguro um novo género de recomendações. Assim, aqui vai – eu ainda não fui lá, estou com vontade de ir, mas dois amigos meus, de reconhecido paladar, a Ana e o Carlos já lá foram e insistem que eu não posso deixar de descobrir o local. Chama-se Porto Santana, fica em Alcácer do Sal, do lado direito depois da ponte velha, onde Dantas era a Tasca do Gino, perto do local de onde partem as embarcações de recreio para passeios no Sado. A boa reputação da casa é feita pela sopa de cação, pelo ensopado de enguias, pela canja de amêijoas, migas à alentejana, lombo de porco preto. Pratica boa cozinha a preços moderados e tem uma boa garrafeira. Encerra ao jantar de segunda-feira e toda a terça-feira. Telefone 265 613 454

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A administração é uma questão de habilidades, e não depende da técnica ou experiência. Mas é preciso antes de tudo saber o que se quer - Sócrates (469-399 a.C.)

ARCO DA VELHA

Nunca me tinha passado pela cabeça ouvir Mário Soares elogiar Cavaco Silva, mas foi isso mesmo que ouvi no dia da celebração do centenário da República. Ora aqui está a verdadeira união nacional. Quem deve ter ficado a ferver é Manuel Alegre.


 

outubro 06, 2010

REGIME

No exacto dia em que começaram as celebrações oficiais do Centenário da República a imprensa diária informa que o défice disparou, que as empresas do Estado têm a dívida descontrolada, que o preço dos medicamentos sobe e que o Estado continua sem cortar na despesa. O balanço do regime no seu centenário é o maior desemprego das últimas décadas, uma justiça que não funciona,  e problemas que se agravam na saúde e na educação. O endividamento externo de Portugal está a níveis nunca vistos, todos os dias há novos sinais de falta de confiança internacional no país, há uma crise política latente há meses - em boa parte culpada de toda a situação a que se chegou – um Presidente da República hesitante, um Governo autista, oposições oscilantes. Ao fim de cem anos de República os cidadãos desconfiam de políticos e de partidos, os números da abstenção em actos eleitorais continuam a crescer, o afastamento das pessoas da participação activa na política é cada vez maior. O país político é cada vez mais diferente do país real.


Vivemos há cem anos em República – os 16 primeiros anos foram de confusão e descalabro (com algumas semelhanças aos tempos actuais em matéria das finanças públicas), os 48 anos seguintes foram de ditadura e os 36 mais recentes foram ora de festa, ora de esperança, ora de desilusão – até aqui chegarmos. Se olharmos para o que se passava há cem anos atrás veremos que os principais males de que o país padecia continuam a existir. O regime mudou, mas não resolveu problemas nem melhorou, de facto, a vida política. O regime republicano em si poucas responsabilidades tem nos progressos que se verificaram - são fruto dos tempos, como aliás as monarquias do norte da Europa bem mostram. As comemorações a que agora iremos assistir são uma espécie de propaganda dos poderes instituídos, com gastos mais que discutíveis nos tempos que correm, e com uma alarvidade de expressões públicas que roça o indecoroso. Na realidade tudo se passa como se estes 100 anos fossem um mar de rosas, numa leitura acrítica e idílica do descalabro em que o país está a ser republicanamente governado. O descaramento é tanto que o Governo pretende aproveitar o 5 de Outubro para, nesse dia, inaugurar 100 escolas, depois de, ao longo dos últimos meses, ter imposto o encerramento de quase 4000 escolas. Mais do que uma celebração de um regime, as comemorações actuais são uma manobra de propaganda pura, que o actual Governo manipula em seu proveito, perante a complacência habitual do Chefe do Estado. A República não é uma ideologia, por muito que alguns pretendam. É apenas uma forma de organização do poder e por cá não tem dado grandes resultados.


 

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 BACK TO BASICS –  Deixe quem desejaria mudar o mundo mudar-se primeiro a si mesmo , Sócrates (469-399 a.C.)


 

ARCO DA VELHA

«O relatório da EFTA não pode ser pessimista até porque foi negociado com o Governo»  – afirmou Silva Lopes. «Um verdadeiro tratado de má economia» - foi assim que António Nogueira Leite classificou este relatório.  E sobre o carteiro mexicano que veio fazer belos  cenários para Teixeira dos Santos, nogueira Leite desabafou no Facebook: «O ex ministro do Partido Revolucionário Institucional do México veio dizer a barbaridade de que há pouca margem para cortar despesa. E o senhor até parafraseou Trotsky no comentário imbecil que fez sobre a injustiça dos juros que nos cobram os credores».

COMER NO CORTE

A decoração é insípida, a vista é boa, o serviço é muito bom e a comida é acima do razoável. Feitas as contas o balanço final é positivo. O Restaurante do El Corte Ingles (não confundir com a Cafetaria que é mauzota e tem fraco serviço), fica no último piso do edifício, o sétimo. Aviso à navegação – só serve almoços, mas acontece que é um local central e simpático para uma conversa tranquila – as mesas são amplas e espaçadas umas das outras, a cozinha é atenta, a garrafeira é simpática e há boas propostas de vinho a copo. Vale a pena reservar, frequentemente está com a lotação completa. Para além das propostas diárias e de algumas semanas dedicadas a tradições culinárias específicas, a casa orgulha-se de um arroz caldoso de lavagante que é sempre muito elogiado, de um lombo de porco ibérico com cogumelos e de um tamboril salteado com amêijoas e molho verde. Telefone 213711724.

Uma exposição, Um disco, Um livro

VER – «Desordem Comum» é o bom título da nova exposição de Pedro Calapez, na Galeria Miguel Nabinho, em Campo de Ourique, na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B. Até 16 de Novembro podem ser vistos trabalhos recentes e inéditos do autor. Cores luminosas, combinações de formas, por vezes a sugerir  meio caminho entre a pintura e a escultura, perspectivas invulgares, sugestões de movimento que nos prendem o olhar. Quadros animados, quase poderia dizer.


 


OUVIR – Aos 71 anos Mavis Staples conseguiu fazer um dos mais interessantes discos da sua já longa carreira, iniciada  nas célebres Staples Sisters que ganharam fama nos anos 50 e 60 com um repertório baseado em gospels. Há três anos Mavis Staples revisitou alguns dos espirituais do tempo das Staple Singers, da época das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Agora, neste novo disco, «You Are Not Alone», é acompanhada pelo líder dos Wilco, Jeff Tweedy, que produziu, fez arranjos e ainda compôs dois originais que Mavis aqui canta. Neste CD estão também dois originais do seu pai, Pops Staples , responsável por boa parte dos grandes êxitos das Staple Sisters – nomeadamente o arrebatador «Don’t Knock», que abre o disco. Vários tradicionais e temas de outros autores como Randy Newman ou John Fogerty (ouça-se a interpretação emocionante de «Wrote A Song For Everyone») completam este disco que tem na voz e interpretação de Mavis Staples um excelente contraponto para o tratamento que Jeff Tweedy deu aos arranjos – inventivos,   e obviamente com um ar de country contemporâneo. Curioso este cruzamento de talentos entre uma lenda dos espirituais, que chegou a trabalhar com nomes grandes do jazz, da soul e com Prince, com um dos expoentes das bandas rock independentes dos últimos anos, os Wilco. Para se perceber como a voz de Mavis Staples continua em excelente forma basta ouvir «Wonderful Savior», um tema tradicional cantado «a capella» de forma superior.


(CD Anti, via Amazon).


 


LER – Não sou propriamente um devorador dos chamados romances históricos, mas confesso que me entusiasmei com «The Thousand Autums Of Jacob de Zoet», a mais recente novela de David Mitchell, que conta a história de um jovem funcionário holandês, em busca de fortuna num entreposto comercial estabelecido pelo seu país no Japão, perto de Nagasaki, em 1799. A escrita de Mitchell é, tradicionalmente, um manual de como definir personagens, de como cruzar narrativas. Às vezes Mitchell, um britânico que viveu muitos anos no Japão, é de uma minúcia descritiva – de locais, pessoas, ambientes, tradições ou conversas - que pode parecer exasperante. Mas esta é a técnica que utiliza para – literalmente - nos fazer viver dentro das histórias que inventa. Esta é fantástica e cruza a ganância dos homens com as tradições milenares do Oriente, uma  paixão não consumada, a moral da época e formas pouco ortodoxas de compensar a vida monástica. Edição Sceptre, via Amazon.

setembro 29, 2010

PAGAR PARA ENTRAR EM CASA

(Publicado no jornal Metro de dia 28 de Setembro)


 


O discurso oficial de António Costa e de alguns seus estrategas é o de voltar a trazer moradores para Lisboa, promover a reabilitação em vez de construção e conseguir impedir a desertificação das zonas do centro histórico da cidade. A realidade é bem diferente - um regulamento de circulação e estacionamento nessas zonas históricas que penaliza os seus residentes. Um grupo de moradores da Costa do Castelo, indignados com que se está a passar, elaborou um documento, protestando contra as imposições da EMEL em matéria de estacionamento e da Câmara em matéria de circulação. Excertos (e declaro desde já que não resido no local nem lá costumo ir):


«A proposta de regulamento em discussão não mostra qualquer respeito pelas preocupações e interesses dos moradores, que assim se vêem cada vez mais isolados e onerados pelos custos de acesso ao bairro. De facto, esta proposta de regulamento baseia-se no princípio geral, que entendemos absurdo, de que todas as pessoas ou instituições com quem os moradores tenham relacionamento pessoal ou profissional, são obrigadas a comprar cartões de acesso temporário, e, no caso de necessitarem justificadamente de permanecer mais do que 30 minutos na Zona, estão sujeitas ao pagamento de tarifas de estacionamento extorsivas (30 euros por 2 horas de estacionamento, até 90 euros por 4h!) ou para a realização de cargas e descargas, sujeitarem-se a obrigações kafkianas para a prévia obtenção de cartão de acesso, deixando de lado todas as necessidades de apoio quotidiano esporádico que tantas vezes são necessárias. Permite-se (naturalmente) a quem tem garagens particulares que deixe estacionar veículos de visitantes nos seus lugares, quando os mesmos estejam disponíveis, mas obriga-se a que os mesmos sejam pagos e o interessado vá ao início da rua receber os visitantes com um cartão de acesso a garagem... Genericamente não faz sentido que paguemos para ter acesso às nossas casas, muito menos ainda ter que pagar um título de estacionamento para estacionar na nossa propriedade.»


Então Sr. Costa – isto é que é defender os lisboetas e combater a desertificação do centro histórico da cidade?


 

setembro 27, 2010

O CHÃO DE LISBOA

(Publicado no diário Metro de 21 de Setembro)


 


No dia 29 de Agosto de 2009, há cerca de um ano portanto, foram inauguradas as novas estações do metropolitano de São Sebastião e do Saldanha, depois de anos de obras e de corte de trânsito em quase toda a extensão da Avenida Duque de Ávila. A inauguração foi convenientemente feita para dar palco ao Dr. António Costa, associando-o à conclusão dos trabalhos, a mês e meio das eleições autárquicas.


Mas será que os trabalhos estão concluídos? A verdade, um ano depois das inaugurações e das eleições, é que  a Duque de Ávila continua em boa parte da sua extensão com circulação condicionada, com estaleiros ainda montados, com o pavimento ainda por reparar. Uma das principais artérias comerciais das Avenidas Novas está votada ao abandono pela Câmara, tornando-se num dramático emblema do que tem sido a actividade do executivo camarário desde que foi eleito a 11 de Outubro do ano passado. É uma vergonha – um ano depois da inauguração das estações subterrâneas, continua  à superfície o caos que durante anos ali se instalou.


O estado em que a Duque de Ávila está é a demonstração da incapacidade e do imobilismo do executivo de António Costa, é a prova do desrespeito pelos lisboetas, é a prova de como as actividades económicas da cidade não lhe interessam para nada – já para não falar do bem estar ou do conforto dos habitantes da cidade.


O estado de sujidade e de porcaria em que andam as ruas de Lisboa é de bradar aos céus – na semana passada bastou uma leva chuvinha para que os passeios se transformassem em perigosas pistas de patinagem – porque o efeito da chuva sobre a porcaria incrustada no chão é desagradavelmente escorregadio.


Desafio-vos a um passatempo – andem de olhos bem focados no chão que pisam nas ruas de Lisboa e verão se não se assustam com o que vêem, com as porcarias que estão por todo o lado, com a falta de limpeza, com a alteração da cor dos passeios por força da sujidade. Eu acho que Lisboa nunca esteve assim, nunca esteve tão mal, tão votada ao abandono.