outubro 07, 2009

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ALMANAQUE – O PS perdeu a maioria absoluta e precisa de fazer coligações; logo no dia a seguir às eleições alguns escritórios de advogados foram objecto de aparatosas buscas televisionadas, relativa à compra de submarinos decidida quando o CDS tinha a pasta da defesa; o CDS é o único partido que em conjunto com o PS asseguraria uma maioria estável; o Presidente da República fez uma esfíngica declaração pública sobre o caso das escutas, que deixou o PS furioso.

 

MUNDO MEDIÁTICO - também no dia a seguir às eleições a Ongoing adquiriu uma participação importante na Media Capital (TVI) e provavelmente terá que vender a participação que detém na Impresa (SIC). Especula-se que a PT, que não comprou uma participação na Media Capital por ordem governamental, pode agora virar-se para a SIC e fazer parte de toda esta solução de nova paisagem audiovisual. O mundo às vezes é perfeito, nós é que complicamos.

 

DESAPARECIDOS – O fenómeno eleitoral mais estranho é o desaparecimento virtual da CDU e do Bloco de Esquerda na campanha eleitoral autárquica de Lisboa. O desaparecimento é tão flagrante que até parece que estão a fazer de propósito para não disputarem muitos votos ao PS. Estou bem curioso para ver como isto evolui.

 

PERGUNTA CURIOSA – Será verdade que António Costa recusou um frente –a- frente na TVI com Pedro Santana Lopes na próxima semana?

 

BOLSO – Como a crise é o que todos sabemos, a sempre inesperada revista «Egoísta» assumiu a sua quota parte deste momento difícil e fez uma edição especial, de pequeno formato, a que chamou «Crise de Bolso». Aqui está mais um número desta revista que vai ser peça de colecção - até porque, sendo pequena em tamanho, tem artigos com assinaturas de peso: Cavaco Silva, António Barreto, Eduardo Lourenço, Muhammad Yunus. Destaque para as mini-reproduções de pinturas de João Vaz de Carvalho e para as fotografias de Pedro Cláudio. Esta «Crise de Bolso» da «Egoísta» é mesmo deliciosa.

 

OUVIR – J.J. Cale não lançava um álbum de inéditos desde 2004, de modo que o lançamento, este ano, de «Roll On» é um acontecimento maior para os seguidores deste «bluesman». O novo álbum foi, na realidade, feito a partir de gravações efectuadas em 2003 e a faixa que dá o título ao álbum, «Roll On» é feita em parceria com Eric Clapton, que fez as mais célebres versões de duas canções originais de Cale, «Cocaine» e «After Midnight». Considerado um dos maiores compositores e músicos de blues norte-americanos, J.J. Cale volta a dar neste trabalho uma boa amostra de todas as suas capacidades. Destaque para as faixas «Who Knew», «Former Me», «Down to Memphis», «Old Friend» e, claro, «Roll On» .

 

VER – O edifício Transboavista (Rua da Boavista 66) continua a ser um dos mais animados e surpreendentes espaços da arte contemporânea em Lisboa. Na nova série de exposições o destaque vai para Rita Soromenho que, na Creamarte, expõe, a partir de um suporte fotográfico, novas formas de encarar naturezas mortas em «Nem Tanto Ao Mar, Nem Tanto À Terra». Na Plataforma Revólver está uma colectiva que junta trabalhos de jovens artistas de várias nacionalidades sob o título «Heimweh- Saudade», uma opção que está ligada ao início da criação de residências com artistas estrangeiros convidados a permanecer e a criar no edifício Boavista durante pequenas temporadas. Finalmente João Gonçalves apresenta na Rock Gallery «Do Subterrâneo Opaco». Todas as exposições estão patentes até 7 de Novembro. Mais detalhes em transboavista-vpf.net.

 

LER – Quer saber como pode criar e aperfeiçoar uma marca em torno de si próprio? Então leia com muita atenção «The Big Sell», o artigo que Peter York escreveu para a mais recente edição da revista «intelligent life», uma publicação trimestral da «The Economist». York dá alguns conselhos para aumentar a auto-confiança e para aplicar o marketing em proveito da própria imagem das pessoas - «personal branding». Esta é uma daquelas revistas com muito para ler e que vale bem a pena.

 

PETISCAR – Em Lisboa há vários restaurantes alentejanos, mas o D’Avis é dos mais antigos e mais reputados. Da lista fazem parte migas gatas de bacalhau, cação frito com pimentão, migas no pingo do entrecosto e pezinhos de porco de coentrada, entre várias outras sugestões. A tradição é bem seguida na confecção destas especialidades, a matéria prima é boa, o serviço é esforçado. O preço final é aceitável, a garrafeira é extensa e a casa tem uma daquelas decorações, digamos, very typical. Mas o resultado final num jantar de amigos é muitíssimo superior à média. Rua do Grilo nº96 (ao lado da Igreja do Beato), tel. 218681354

 

BACK TO BASICS – Uma ideia que não é perigosa não merece ser considerada uma ideia (Oscar Wilde)

outubro 02, 2009

(blicado no Jornal de Negócios de 25 de Setembro)

FUTURO – A próxima semana promete ser muito agitada: que maioria vai sair das eleições? Como é que o método de Hondt pode influenciar o resultado em número de deputados – quer nos pequenos partidos, quer em alguns círculos eleitorais? Qual a atitude que o Presidente da República tomará na interpretação dos resultados, depois da forma como agiu antes das eleições? 


 


RECORDAR – As eleições servem para fazer o julgamento de quem está no Governo. Por isso vale a pena recordar que nos últimos quatro anos se assistiu a um aumento da carga fiscal; vale a pena recordar como as reformas dos trabalhadores por conta de outrem ficaram penalizadas; vale a pena recordar o clima de tensão na educação; vale a pena recordar as reformas não executadas na saúde; vale a pena recordar  os abusos de entidades tão diversas como a ASAE e a ERC; vale a pena recordar o falhanço das entidades reguladoras em sectores como a energia e a banca; vale a pena recordar que a política cultural foi inexistente; e vale a pena recordar que no ano passado Portugal foi o país que mais fundos comunitários perdeu por atrasos na sua utilização, a maioria dos quais na agricultura, um sector arruinado nestes quatro anos. 


 


ESCUTAS – Uma coisa é certa: na opinião pública ficou a ideia de que a Presidência da República armou uma tempestade, impossível de criar sem o conhecimento do próprio Presidente da República. Por isso, o seu silêncio, por vezes ruidoso, não ajuda nada a perceber o que se passa. Como se sabe, Cavaco Silva gosta de criar tabus e nem sempre se sai bem deles. Sobre a essência dos factos nada desmentiu até hoje e, antes pelo contrário, nas curtas palavras que sobre o assunto proferiu, deu a entender que tencionaria investigar o sucedido. A forma como tudo se passou vai ter custos políticos, graves. E este será certamente um dos casos de que se vai voltar a falar quando houver nova eleição presidencial, daqui a dois anos. Claro que por esclarecer fica outra coisa: como é que alguém teve acesso a correspondência interna de um jornal e a passou primeiro a um semanário e, depois, a outro diário? Se isto não é uma história de espionagem, o que é? 


 


FOTO – O momento fotográfico da semana foi a imagem que vários jornais utilizaram para ilustrar uma visita de José Sócrates aos emigrantes portugueses em Paris: Manuel Maria Carrilho e Ferro Rodrigues a acompanharem Sócrates ao TGV. O ridículo por vezes é fatal. 


 


TRÂNSITO – Há 15 dias voltei a andar de scooter pelas ruas de Lisboa, coisa que já não fazia há uns anos. No caos dos engarrafamentos constantes é a única solução para circular de um lado para o outro na cidade sem perder muito tempo. Mas constato que a mesma Câmara de António Costa e Ricardo Sá Fernandes, que faz à pressa ciclovias de estranho traçado como a de Telheiras, não tem cuidado com a segurança de quem se desloca em duas rodas: não usa tinta anti-derrapante nas marcações; nada faz para remover os carris de eléctricos que já não estão em utilização; nada faz para nivelar as tampas de esgotos – muitas autênticas armadilhas; permite que o pavimento de grande parte das ruas seja uma montanha russa de remendos e não obriga os autores dos constantes buracos que se abrem a deixar o piso em boas condições. Para garantir a segurança de quem usa veículos de duas rodas – com ou sem motor – é que não se vê nada feito em Lisboa. O resto é obra eleiçoeira. 


 


VISITAR – A Casa das Histórias Paula Rego, inaugurada a semana passada em Cascais, é um exemplo de bom equipamento cultural, construído de raiz. A arquitectura, no exterior, é uma boa surpresa e, no interior, é de uma eficácia enorme para o objectivo de mostrar artes plásticas – no caso quadros e desenhos. Depois, há muito mais pintura do que aquela que inicialmente se sabia ir existir. Paula Rego entusiasmou-se com o projecto e para além de esboços, estudos e desenhos, trouxe peças importantes da sua obra. Adicionalmente, a área de exposições temporárias da Casa, tem um conjunto de obras da artista cedidas pela Galeria Marlborough, verdadeiramente a não perder. Por último a loja da Casa das Histórias é do melhor que nesta matéria se tem feito em Portugal, graças a uma série de peças de merchandising, desde pens para computador até figuras de louça da Fábrica Bordallo, tudo inspirado na obra de Paula Rego. 


 


FOLHEAR – Muito boa a edição comemorativa do 4º aniversário da revista «N*Style». Sob o tema das tendências de moda para este Outono, a revista é um exemplo de boa fotografia, bom alinhamento editorial e boa paginação. Destaque ainda para as entrevistas com Eduarda Abondanza sobre a Moda Lisboa e com José António Tenente. 


 


PETISCAR – Confesso que iscas à portuguesa é um dos meus petiscos preferidos. Esta semana revisitei a Cave Real e provei umas magníficas iscas, temperadas no ponto certo, cortadas bem finas, como deve ser. A Cave Real é um restaurante onde a cozinha tradicional portuguesa domina, baseada em ingredientes de qualidade e numa confecção sólida e conservadora. Aqui não há grandes rasgos de imaginação, mas o serviço é acolhedor e eficaz, o ambiente é simpático (apesar da presença ocasional do Ministro das Finanças…) e as mesas são confortáveis. Cave Real, Av. 5 de Outubro 13-15 (junto à Maternidade Alfredo da Costa), tel. 213 544 065. 


 


OUVIR – Pete Yorn é um compositor e guitarrista Americano, autor de grandes canções, cuja carreira começou em 2001. Em 2006 pegou em nove canções da sua autoria e fechou-se em estúdio com a actriz Scarlett Johansson, que vai fazendo incursões na música (por exemplo gravou uma série de versões suas de canções de Tom Waits e de Jeff Buckley) . O resultado desta parceria entre Pete Yorn e Scarlett Johansson  é o álbum «Break Up», agora editado. São nove canções pop, deliciosas, num disco despretencioso e envolvente, que vai fazendo a narrativa de alguns episódios de uma relação imaginada.. Destaques para «Relator», «Search Your Heart», «Shampoo» e «Someday». Ao princípio o contraste entre a voz de Yorn e a de Johansson parece estranho, mas depois esse contraste torna-se num dos motivos de atracção deste disco. 


 


BACK TO BASICS – A moralidade é sempre o único refúgio das pessoas que não têm o menor sentido ético – Óscar Wilde

setembro 23, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 11 de Setembro)

 


RESUMO DA SEMANA – Efeito TGV: a campanha acelerou, Sócrates disse que Zapatero é o seu maior amigo na Europa, mas não falou dos problemas que temos com os espanhóis quanto ao caudal dos rios comuns. O ponto alto dos últimos dias foi a volta de helicóptero que Louçã deu por cima da Arrábida – as imagens da devastação causadas pelas pedreiras em plena zona protegida, e que segundo Louça têm tido a benção de Sócrates, são um exemplo do que nunca deveria ter podido acontecer.

 

GATO – É oficial: o esmiuçar do Gato Fedorento aos políticos atinge recordes de audiência (muito mais que os debates) e tornou-se num incontornável ponto da campanha. Mas esta invasão do humor na política mostra como tudo está a mudar. Nenhum político quer correr o risco de não estar presente, de hostilizar o capital de simpatia que o Gato Fedorento ganhou nos últimos anos. Este é o primeiro episódio de um virar de página na relação da televisão e dos media com os políticos, à semelhança do que tem acontecido, desde há muito, em outros países. Dantes os políticos aproveitavam-se dos media e das estrelas mediáticas; agora os media e as estrelas mediáticas exploram os políticos para estimularem as audiências. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

 

MUDANÇA – Esta mudança de atitudes poderia ter alguma consequência lógica no funcionamento das campanhas. Por exemplo – os tempos de antena tornaram-se momentos obsoletos em contraste com os sites das diversas campanhas, que, regra geral, são actualizadíssimos e ricos em conteúdo. Por outro lado a proibição da utilização de publicidade comercial surge hoje como uma mera fantasia, fabricada no tempo em que tudo era apenas feito com militância. Os outdoors partidários que pululam pelo país não pertencem a empresas de publicidade, mas raramente são colocados e mantidos por militantes, e sim por empresas de serviços que aproveitam este nicho de mercado. Na realidade vai dar ao mesmo – mas era mais transparente se esta lógica da compra de serviços, que existe e cresce no mercado eleitoral, fosse mais alargada e mais transparente. Muita coisa deverá ter que mudar nas leis eleitorais sob pena de, num futuro próximo, ninguém conseguir comunicar eficazmente. E as consequências disto, já se sabe, são menor esclarecimento, maior abstenção, menor participação cívica.

 

REGULADORES – O lançamento do livro de Filipe Pinhal deu uma má semana a Vítor Constâncio. O regulador da Banca ficou com as orelhas a arder – mas a situação chamou a atenção para um problema mais lato: nestes quatro anos o PS exerceu o poder como nenhum outro governo em décadas recentes. E exerceu-o provocando situações, forçando alterações, manobrando em proveito de objectivos próprios. Aconteceu assim na Banca, aconteceu assim na Comunicação, aconteceu assim no Mercado. As entidades reguladoras, como o Banco de Portugal, a ERC, e a Autoridade da Concorrência não se livram de serem consideradas cúmplices da política do Governo, surgindo umas vezes autoritárias e intervencionistas, outras cegas e amorfas, conforme as conveniências.

 

AUTÁRQUICAS – Desenganem-se: não vou falar (hoje) de Lisboa. Vou falar de Nova Iorque, onde Michael Bloomberg se candidata, excepcionalmente e graças a uma autorização especial, a um terceiro mandato, contra William Thompson, do Partido Democrata. O curioso é que, em Nova Iorque, por cada cinco democratas registados existe apenas um republicano, um rácio que não tem impedido Bloomberg de ganhar repetidamente, perante elogios e apoios face à obra feita, nomeadamente com melhores serviços municipais, melhores escolas, menos crime e mais segurança. Bloomberg, um independente apoiado pelos Republicanos, é um caso raro na política americana e é muito interessante ler o seu perfil, intitulado «The Untouchable», publicado na edição de 24 de Agosto da revista «New Yorker» e disponível na internet no site da revista.

 

PETISCAR – Miguel Castro e Silva, um dos mais famosos Chefes de Cozinha do Porto, abriu em Lisboa o pequeno restaurante De Castro. Talvez não seja bem um restaurante – é mais uma casa de petiscos: pequenas empadas de legumes, moelas picantes, morcela com puré de maçã e pratos mais substanciais como as extraordinárias amêijoas com feijão manteiga. A qualidade, quer da matéria prima, quer da confecção, é superior – aliás o próprio Miguel Castro e Silva tem estado na cozinha. Com uma boa lista de entradas e de pratos quentes, preços comedidos, curta mas boa selecção de vinhos e a particulariedade de servir almoços e petiscos non-stop até às seis da tarde (jantares só mais à frente), a casa tem tudo para funcionar. Falta-lhe apenas uma coisa, fundamental: melhor serviço, maior atenção aos clientes, maior cuidado no acompanhamento dos pedidos. A casa é pequena, tem apenas uma dúzia de mesas, não há necessidade de estragar tão boa comida com tão fraco serviço. Basta um bocadinho mais de organização e atenção: já vi restaurantes maiores funcionarem melhor com menos gente – às vezes basta que haja um responsável de sala, atento e de olhos bem abertos, que perceba o que falta em cada mesa. De Castro, Avenida Elias Garcia 180 B, telefone 217 979 214.

 

OUVIR – Estando eu um bocadinho farto da barulheira em torno da remasterização digital de uma dezena de discos dos Beatles, que já tenham em várias versões, resolvi comprar a excelente revista britânica de música «Mojo» que na edição de Outubro (já à venda em vários locais), e medinte apenas €8.10, oferecia um CD que é a versão 2009 de Abbey Road (capa replicada e tudo), com as suas canções interpretadas por músicos actuais. Assim os The Invisible fazem uma boa versão de «Come Together», Robyn Hitchcock excede-se em «I Want You», assim como se recomendam as prestações dos Broken Records («Oh! Darling»), Gomez («Sun King»), Blue Roses («Golden Slumbers»), Leisure Society («Something»), Glenn Tilbrook com os Nine Below Zero («You Never Give Me Your Money») e Karima Francis («Sher Came In Through The Bathroom Window») . Ouço-o todos os dias.

 

BACK TO BASICS – A experiência pessoal é o círculo mais vicioso e limitado – Orson Welles

 

setembro 14, 2009

A ESPANHA

As declarações de Ferreira Leite sobre Espanha feriram os ouvidos sensíveis das virgens ofendidas com o tema - mas talvez possam recordar-se que a Espanha é imensamente proteccionista, que as empresas portuguesas têm mais dificuldade em entrar no mercado espanhol que vice-versa e que a Espanha tenta sempre dar-nos uma facadazita na questão do caudal dos rios internacionais. Miguel de Vasconcelos, o aliado do domínio dos Filipes em Portugal,  tem muitos seguidores neste século XXI - talvez valha a pena recordarem-se que ele acabou defenestrado.


Alguns cómicos argumentam que tais coisas são impensa´veis em tempos de globalização - são pobres de espírito, bem entendido, que têm tendência a confundir o sonho com a realidade.


 

setembro 12, 2009

MAIS UMA DA EMEL

Alguma alma iluminada da vereação do Dr. Costa decidiu ajardinar o único local onde se podia estacionar junto dos colégios que funcionam na Rua Dr. João Soares, no Campo Grande. Agora a confusão é total e os pais não têm como estacionar. Pior: a EMEL, que faz campanhas publicitárias a dizer que existe para ajudar, põe-se à coca a partir das quatro e meia, para multar os pais quando estes vão às escolas buscar as crianças. É extraordinário como a EMEL tem as coisas bem organizadas - quando desapareceu o estacionamento pôs-se logo a multar.

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RESUMO DA SEMANA – A Ministra da Saúde inaugurou um hospital em Seia mas as camas dos doentes da unidade de cuidados continuados foram retiradas no dia seguinte porque eram apenas cenário para a fotos e tv; o preço do petróleo varia sempre mais que o respectivo reflexo no preço dos combustíveis; a política fiscal do Governo continua a privilegiar aumentar impostos a quem trabalha por conta de outrem em vez de combater a grande evasão fiscal; multiplicam-se nos últimos dias incidentes de espancamentos violentos e assassinatos em diversos pontos do país; a investigação do caso Freeport foi suspensa até às eleições; o caso Casa Pia continua sem evoluir.  


 


DEBATES - Alguma coisa está mal nos debates políticos pré-eleitorais na TV. As negociações são tão apertadas, os temas a abordar são tão escrutinados e acordados que se perde muita espontaneidade. Nem vou falar do facto de o cenário ser sempre igual em todos os cenários – por si só isso é uma coisa impositiva, autoritária – um «diktat» visual que formata tudo por igual – os canais perdem identidade e é sublinhado o estatuto de suprema autoridade dos partidos. Este é um mau método, que tem provocado debates tristes e pobres, pouco mais que maratonas de promessas e chicanas de argumentos, mas pouca discussão de ideias. Na verdade o processo que levou a estes debates é um espelho do mau funcionamento do actual sistema político e da distância dos partidos em relação à sociedade. Construíram um altar cercado por espelhos e só gostam de se ver nessa posição. 


 


TVI - O que se passou na TVI mostra duas coisas: o Primeiro-Ministro gastou bastante tempo, durante os últimos meses, a atacar a informação da TVI e sobretudo o Jornal Nacional de sexta e as suas queixas acabaram por dar efeito. Quando a dona da estação, uma empresa espanhola historicamente conotada com o PSOE, interveio exactamente nos pontos que eram a queixa principal de José Sócrates, é legítimo pensar em condicionamento político grave da informação. O resto é paisagem e o facto de o PS se querer armar em vítima de conspirações neste caso pode apenas ser entendido como a repetição das justificações, métodos e argumentos de Hugo Chávez em relação à Comunicação na Venezuela. 


 


CITAÇÃO DA SEMANA - Mário Soares continua a manter, um pouco para além do normal prazo de validade que o bom senso recomenda existir, a sua prática de opinar sobre o país. A citação da semana pertence-lhe: «José Sócartes aprendeu muito com a crise, está mais socialista». 


 


EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO - A um mês de eleições autárquicas o executivo de António Costa agendou uma maratona de votações sobre questões estratégicas para o futuro da cidade, do Parque Mayer a Alcântara. Das 32 propostas apresentadas 19 eram assinadas por Manuel Salgado, e, destas, 15, continham alterações urbanísticas importantes. Chegar a um mês de eleições com tantos projectos para apreciar e votar à pressa é muito mau sinal, numa altura em que o bom senso ético recomendaria que o executivo camarário se remetesse à gestão corrente dos assuntos da autarquia. Mas dois anos sem obra feita acabam por levar a que este episódio tenha uma sensação de desesperada procura do tempo perdido.  


 


ESTACIONAR - A EMEL, a empresa que persegue os lisboetas sem conseguir resolver os estacionamentos em segunda fila, e que se tornou um caso relevante de arrogância e ineficácia na relação com os munícipes, resolveu fazer uma campanha publicitária para assinalar os seus 15 anos de vida. O slogan, certamente criado por um humorista frustrado, é: «há 15 anos que a EMEL trabalha para que ninguém estacione a sua vida». Qualquer habitante de Lisboa, automobilista, sabe que isto não é verdade. E deixo aqui um desafio à EMEL: que consiga atingir um padrão de qualidade que garanta que no prazo máximo de 30 minutos sobre a recepção do pedido de desbloqueamento, o consiga concretizar ou indicar a hora a que poderá ser feito. É que casos de duas e mais horas de espera são vários, com um call-center ineficaz que não dá respostas aos utentes e equipas de rua que são o espelho da empresa: prepotentes e arrogantes.  


 


VISITAR - Já aqui tenho sido crítico de muitas actuações do Ministério da Cultura, mas esta semana destaco uma boa medida – a criação do Portal da Cultura (www.culturaonline.pt). Espero que mantenha a qualidade dos dias de estreia, que mantenha a informação diversificada e actualizada e, já agora, espero que os seus responsáveis saibam que não basta fazer um portal assim – é preciso fazer a sua divulgação, publicitá-lo, garantir que existam links noutros sites, e, sobretudo, utilizar a publicidade digital para chegar aos potenciais utilizadores desta boa fonte de informação. Se assim não fôr ficará pelas notícias de inauguração e perderá a oportunidade de se tornar num sítio de referência da internet em relação à agenda e notícias da área cultural. 


 


AGITAR - O pintor João Vieira, um dos nomes grandes das artes plásticas portuguesas, morreu na semana passada. Chocou-me o pouco destaque dado à notícia da sua morte nos principais jornais. João Vieira integrou , em Paris, no final da década de 50 e início da de 60, o grupo KWY, que além de alguns outros portugueses como Lourdes Castro, René Bertholo, Gonçalo Duarte e José Escada, juntava Jan Voss e Christo, o artista que nas duas últimas décadas se distinguiu por algumas instalações gigantes um pouco por todo o mundo. Mas João Vieira tinha uma outra faceta escondida que felizmente registou em 2008 – apreciador de música gravou o disco «La Vida Es Un Bolero», uma deliciosa e divertida gravação que auto-editou e distribuía pelos amigos. Há uns anos tive ocasião de o conhecer melhor e entrevistar para um documentário, «Pinto Quadros Por Letras», que dirigi e que a RTP 2 re-exibiu no dia da sua morte. Desde aí íamos mantendo algum contacto, às vezes com amigos comuns. Há uns três meses fomos almoçar, ele ofereceu-me um desses discos e, no meio de algum desgosto por não conseguir montar em Lisboa uma retrospectiva da sua obra, deu-me conta de um projecto em que andava a matutar: lançar pelas águas, aqui em Lisboa, as três letras, gigantes, da palavra MAR, que tinha em tempos feito. Como sempre, o João queria continuar a agitar as águas e permanecia deliciosamente irrequieto. 


 


BACK TO BASICS – O primeiro passo no progresso de um homem ou de uma nação é o descontentamento - Oscar Wilde

setembro 10, 2009

DOIS ANOS PERDIDOS

(Publicado no diário «Metro» de 9 de Setembro)


Quando olho para o que se passa em Lisboa desde que António Costa é Presidente da Câmara sinto uma sensação de tempo perdido, dois anos para ser exacto. Sob a desculpa de arrumar a casa, muito pura e simplesmente deixou-se a cidade ao abandono. Sob o pretexto das dificuldades financeiras deixou-se degradar a limpeza e o arranjo das ruas da cidade – mas verbas importantes foram desviadas para outros projectos, menos prioritários. Passeios sujos, asfalto com buracos, obras sem controlo que se arrastam (como na Fontes Pereira de Melo), desinvestimento nos apoios sociais aos mais idosos – este é o resumo destes últimos dois anos em Lisboa.


Para os que vivem e trabalham em Lisboa a vida está pior, mais desconfortável, mais difícil. As medidas anunciadas – a tolerância zero no estacionamento, por exemplo – ficaram no papel e não se concretizaram. O Terreiro do Paço assemelha-se a um pesadelo, num projecto sem nexo, o trânsito na baixa foi transformado num caos, com placas de indicação de sentido e direcção desactualizadas.


Largas somas foram aplicadas em obras de duvidosa prioridade e utilidade, como as ciclovias - veremos qual a utilização real que elas vão ter, porque para já é bem reduzida.


Mas em contrapartida os espaços públicos – como o jardim do Campo Grande – continuam a degradar-se e os cemitérios estão cada vez mais maltratados – sujos, descuidados.


Nestes dois anos não houve reestruturação dos serviços da Câmara, aproximação aos munícipes, diminuição da burocracia. Pelo contrário, por exemplo, a EMEL piorou a sua actuação e arrogância, e é, claramente, um caso a merecer atenção no futuro.


A qualidade de vida e o conforto de uma cidade é medido, em primeiro lugar, pelos seus habitantes – devem ser eles os destinatários da governação camarária. Mas na realidade é bem difícil encontrar o que foi feito por António Costa e pela sua equipa, mais entretidos em jogos políticos do que em servir os lisboetas. A cidade, na realidade, está mais desarrumada.

setembro 07, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios) de 4 de Setembro

RESUMO DA SEMANA – Na Universidade de Verão do PSD sucederam-se declarações críticas a Ferreira Leite; dois distintos militantes socialistas, Pina Moura e Henrique Neto, resolveram elogiar o programa do PSD em comparação com o do PS; notáveis do PSD apareceram a elogiar as vantagens do Bloco Central. E na manhã seguinte à entrevista a José Sócrates a RTP 1 conseguiu reduzir o noticiário político de véspera a três repetições, no espaço de uma hora, da peça-resumo dessa entrevista. 

 


 


BATOTA – Caroços à parte, um partido que escolhe para mandatária da juventude uma jovem que admite fazer batota para ganhar está a dar um sinal a todos. Tratar a política como uma campanha publicitária dá resultados destes. A culpa, no entanto, não é de Carolina Patrocínio, igual a si própria: é de quem a escolheu para uma função política apenas pelas formas e popularidade. Deve ser uma das tais expressões de modernidade de que Sócrates gosta de se gabar. 

 


 


METRO – A maneira como o Metropolitano trata Lisboa é um escândalo, já se sabe. Durante meia dúzia de anos, no Saldanha, esventrou o coração da cidade, desprezou residentes e comerciantes. Anuncia mais ligações futuras à periferia sem cuidar de pensar nas ligações dentro da cidade, por exemplo a ocidente ou nas novas zonas habitacionais. Quanto às estações novas, nomeadamente S. Sebastião, fica uma nota: estações enormes, muito em profundidade – mas com poucas escadas rolantes, em contraste com o que acontece noutras situações semelhantes no estrangeiro. Já na Baixa-Chiado é a mesma coisa e, em muitos casos, as escadas rolantes estão avariadas – sempre as que sobem, claro. Ora isto leva-me a perguntar: porque é que não há alguém que, quando a escada de subida avaria, se responsabilize por inverter a de descida – é que sempre é mais fácil descer que subir. No meio do enorme preço das estações não se poderá investir um pouco mais em conforto e comodidade para os utentes? 

 


 


TV – Na última semana de Agosto os três canais comerciais (RTP 1, SIC e TVI) ficaram separados por um intervalo de apenas cinco pontos entre o mais visto (TVI) e o menos visto (SIC). A guerra de audiências no último trimestre promete, ainda por cima com as mudanças entretanto verificadas na TVI. Mas o dado mais significativo vem do constante crescimento do universo do Cabo – que continua a aumentar o número de espectadores, agora já nos 20 por cento de forma estabilizada. Mais cedo ou mais tarde isto vai ter efeitos no mercado publicitário. Uma nota: em Espanha, esta semana, a TVE deixou de vender publicidade. É outra lógica de serviço público. 

 


 


OUVIR – Neste regresso de férias convém manter no ar o espírito de Verão. Um disco que tem feito as minhas delícias é a compilação de canções pop portuguesas dos anos 50 e 60, da responsabilidade do Real Combo Lisbonense, um projecto dirigido por João Paulo Feliciano e que faz parte da colecção de discos da operadora telefónica Optimus. São sete temas, uma versão de um êxito internacional da época («Oh» de Byron Gay e Arnold Johnson) e seis bem portugueses e lisboetas: «A Borracha do Rocha» do Conjunto de Mário Simões, «Sensatez» de Carlos Canelhas e António José, «Pepe Fado» de Eugénio Pepe e Francisco Nicholson, «O Fado É Bom P’ra Xuxu» de Frederico Valério e Amadeu do Vale e «Dois Estranhos» de Artur Ribeiro e Cazal Ribeiro. Nestas novas versões brilham as vozes de Mário Feliciano, Ana Brandão, Márcia Santos e Ian Mucznik, onde antes estavam Mafalda Sofia, o Thilo’s Combo, Simone ou Olivinha Carvalho, entre outros. A produção é exemplar na reconstituição do som da época e as novas interpretações são deliciosas. CD à venda na FNAC, ainda por cima a menos de cinco euros. 

 


 


SUGESTÃO  – Já que estamos nesta onda musical aqui fica uma sugestão para hoje à noite, sexta-feira dia 4 : os Irmãos Catita actuam no Cabaret Maxime pelas 23h30 (Praça da Alegria), sob a batuta de Lello Marmello, aliás Manuel João Vieira. Reservas de mesa pelo telefone 213467090, entrada a 10€. 

 


 


LER – A edição de Setembro da «Vanity Fair» vem com duas capas alternativas – Michael Jackson está numa, Farrah Fawcett noutra: Fallen King no título da primeira, Fallen Angel no título da segunda. Já se sabe que as edições de Setembro das grandes revistas são sempre apostas fortes da publicidade das grandes marcas, mas em ano de crise temia-se uma alteração à tradição – depois de um início do ano mais fraco, esta «Vanity Fair» vem recheada de publicidade, ela própria graficamente aliciante – destaco as páginas da Chanel, David Yurman, Moncler (com Bruce Weber), Calvin Klein Jeans e Guess – esta última marca estrategicamente colocada no início da tradicional lista dos mais bem vestidos em diversas áreas (muitos espanhóis referenciados a começar pela Princesa Letícia), sempre publicada na edição de Setembro. Um atractivo suplementar é uma divertida ficção de Tom Wolfe sobre as angústias dos ricos financeiros que deixaram de poder viajar em jactos privados. Delicioso. 

 


 


VER – O número de Setembro da edição britânica da revista «Esquire» é verdadeiramente um artigo de colecção que merece ser manuseado, folheado, visto por todos os ângulos. Dedicado integralmente ao tema do fato clássico para homem, tem uma capa dura, lombada de tecido e papel especial. Na capa está Quentin Tarantino e no interior numerosos artigos e, felizmente muita publicidade – como já não se via há alguns meses, um sinal de alguma retoma nestas edições da rentrée. O tema do fato de homem – a sua evolução ao longo da história e os melhores acessórios, por exemplo, ocupam boa parte da edição. O prato forte é uma entrevista com Paul Smith, o homem que reinventou a roupa de homem na Grã-Bretanha há uns anos e que é uma referência incontornável no design de moda. 

 


 


PETISCAR – Algo me diz que o Spot S. Luiz, o restaurante do Teatro S. Luiz, vai marcar esta rentrée – ao almoço está cada vez mais animado, tem agora uma pequena esplanada, um inovador hamburguer com ovo escalfado, clientela animada e a presença de Sofia Aparício na equipa da casa. A direcção culinária é do chefe Fausto Airoldi. Telefone 213430253 . 

 


 


BACK TO BASICS – «Só há um forma de saber se um homem é honesto... pergunte-o. Se ele disser 'sim', então você sabe que ele é corrupto» - Groucho Marx 

 

setembro 01, 2009

GOSTAM DA ARRUMAÇÃO FEITA EM LISBOA?

 


(Publicado no diário «Metro» de 1 de Setembro)

 

No início desta colaboração com o «Metro» gostaria de deixar claro algumas circunstâncias: sou candidato à Presidência da Assembleia Municipal de Lisboa na lista proposta por Pedro Santana Lopes; não tenho partido, não sou republicano, acho que o Estado age com excessiva frequência contra os cidadãos e entendo que o fisco comete demasiados abusos para poder ser encarado como uma entidade séria e justa.

Dito isto, e como sempre achei que a música ajuda a entender as pessoas, devo declarar que a minha pessoalíssima banda sonora deste verão foi constituída pelos mais recentes discos de Ben Harper, Sonic Youth, Regina Spektor, Nouvelle Vague e Rokia Traoré. O australiano Peter Carey é o meu escritor favorito do momento e o próximo filme que hei-de ver é «Sacanas Sem Lei!» de Quentin Tarentino. Não gosto de usar gravata, tenho 55 anos, nasci e fui criado em Lisboa, gosto desta terra, gosto desta cidade, comovo-me cada vez que regresso e irrita-me que ela esteja a ser tão maltratada como ultimamente tem sido. Se pudesse, andava sempre de «Vespa». Pronto, está feito o meu retrato.

Estou na lista da coligação «Lisboa Com Sentido» porque acho mesmo que esta cidade precisa de levar uma volta. Prefiro um candidato que queira mudar e melhorar a cidade, a outro que apenas queira ter as coisas arrumadinhas. Sobretudo, quero um Presidente da Câmara que pense mais nos munícipes que nos interesses do Governo, alguém que se preocupe mais com Lisboa do que com o seu partido, que esteja interessado em conseguir repovoar a cidade, torná-la mais confortável e agradável para quem cá vive. Quero alguém que prefira uma política de recuperação a uma política de demolição, quero alguém que melhore o Terreiro do Paço e não que o transforme numa palhaçada, quero alguém que devolva o rio à cidade, em vez de o entregar às empresas de contentores.

Se estão contentes com o estado da cidade, a sua limpeza, o estado dos seus jardins e os buracos por todo o lado, já sabem que devem votar no arrumadinho. Eu espero que prefiram mudar.

 

agosto 31, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 28 de Agosto)

ROTUNDAS – Durante as viagens de férias constatei a súbita proliferação de rotundas em vias de conclusão ou de obra recente. A rotundomania domina o país, o grande problema é que muitas das rotundas não têm indicações de direcção claras e quem não conhece os locais anda autenticamente às voltas, perdendo-se com frequência. Assim as rotundas servem para confundir e baralhar e não simplificam – a não ser para os partidos políticos: é que as rotundas parecem mesmo ser o local ideal para afixar os cartazes de propaganda eleitoral. Nos tempos que correm esta é a sua mais imediata utilidade. 

 


 


PORTUGAL – O despudor com que o Governo se desdobra em acções de propaganda não tem precedentes próximos em Portugal – todos os dias se vêem exemplos de anúncios de iniciativas ainda não concluídas, sugestões de obras futuras, tudo com um despudor inacreditável. A demagogia moderna é isto: mostrar o que ainda não existe como se estivesse feito, dizer que se vai fazer o que já se sabe ser impossível concretizar. Nesta matéria José Sócrates é de facto campeão.  

 


 


LISBOA – Regresso de férias – recomeçam os problemas no trânsito, continuam as obras de Metro do Saldanha, atrasadas quase dois anos, as avenidas novas permanecem bem sujas (parece não verem água há meses), a Fontes Pereira de Melo ainda continua com faixas reduzidas, o Campo Grande lá está triste e degradado. Ao contrário do que diz a propaganda, a casa não está arrumada, está mesmo muito desarrumada. 

 


 


DESCOBRIR – A programação Allgarve incluía este ano uma área dedicada à arte contemporânea, intitulada Art Algarve, que se espalhava por vários locais. O meu destaque vai para as exposições existentes em Loulé e, destas, sobretudo para as fotografias de Patrícia Almeida (uma das nomeadas para a próxima edição do BES Photo). Mas verdadeiramente o que achei mais interessante foi o facto de a Art Algarve ter conseguido colocar as exposições em locais como o Convento de Santo António ou na maravilhosa descoberta que é a Quinta da Fonte da Pipa, ambas em Loulé. Só para conhecer estes locais e ver como eles convivem com arte contemporânea, valeu a pena a deslocação. Destaque ainda para as exposições de Faro, quer no Museu Municipal, quer na Galeria Arco. Todas as exposições aqui referidas podem ser vistas até 27 de Setembro e estão garantidas duas tardes bem passadas. Informações complementares em www.allgarve.pt. Atenção – a sinalização dos locais por vezes é deficiente, os números de telefone indicados nalguns casos estão errados ou não dão sinal e os horários, sobretudo de abertura, são inconstantes.  


 


 


OUVIR – A formação é pouco usual: um quinteto liderado por um trompetista e que inclui ainda tuba, trombone, trompa e bateria. O grupo chama-se Brass Ecstasy e é liderado pelo trompetista Dave Douglas, um seguidor de Lester Bowie.. O resultado é invulgar, baseado no jazz mas a meio caminho entre a soul e a pop, e inclui versões de temas de Rufus Wainwright (“This Love Affair”), de Otis Redding (“Mr Pitiful”) ou de Hank Williams (“I’m So Lonesome I Could Cry”). As versões são extraordinárias, a começar pela de Wainwright, que inicia o disco, com uma sonoridade roubada às ruas de New Orleans. Noutra faixa, «Fats», Dave Douglas homenageia Fats Navarro num tema cheio de swing. Mas há originais, como «The View Of The Blue Mountains», que provam o talento de Dave Douglas naquele que é considerado um dos seus melhores trabalhos na já extensa discografia – este «Spirit Moves», agora editado entre nós pela Universal. 

 


 


LER – A edição de Setembro da Monocle» dedica 15 páginas a uma reportagem e ensaio fotográfico sobre os Jogos da Lusofonia, que decorreram em Lisboa entre 11 e 19 de Julho passado. O trabalho da revista mostra a importância que pode ter para Lisboa um papel de acolhimento de eventos que potenciem a cultura e o entretenimento populares dos vários países lusófonos, nas suas várias componentes – das quais faz parte o desporto. Independentemente do apoio que pode ser dado a opções criativas mais experimentalistas, como as que são actualmente defendidas no caso de África por este Governo, são eventos abrangentes e populares que nos permitem ganhar notoriedade e posicionamento europeu enquanto local de excelência para uma plataforma multicultural – como este exemplo da «Monocle» bem demonstra. Destaque para as fotos que John Balson fez dos Jogos e dos atletas. 

 


 


PETISCO – Nada como um bom azeite e um bom pão para iniciar uma refeição. Recentemente experimentei alguma da produção da Azal (Azeites do Alentejo) e fiquei conquistado sobretudo pelo Azal Terra e pelo Azal DOP. O primeiro foi feito através de modos de produção biológicos e o segundo é da região do norte alentejano – ambos foram já premiados e têm uma qualidade verdadeiramente invulgar. Sediada no Redondo, mas a trabalhar a partir de azeitonas recolhidas em diversas zonas do Alentejo, a Azal criou também uma Academia do Olival, que continuamente procura aconselhar o aperfeiçoamento dos olivais. 

 


 


PROVAR – O local tem vasta fama e boa reputação desde 1996. Situado perto de Albufeira e de Olhos de Água, numa pequena estrada interior, o «Retiro do Isca» é o exemplo de cozinha regional bem pensada, séria, sem truques fáceis e apego à tradição. No centro da operação está uma grande grelha a carvão, manuseada com mestria. O peixe é fresco e de qualidade como se esperaria no local, mas se a opção fôr para umas lulas grelhadas a surpresa vem do cuidado posto na sua apresentação e tempero, feito depois de saída da grelha. Na realidade estas foram, em frescura, textura e sabor, as melhores lulas grelhadas de que tenho memória desde há anos. Do outro lado da mesa estava um sério linguado, tudo aprimorado com legumes e saladas como deve ser. A rematar uma tarte de alfarroba deliciosa, acompanhada a pedido com uma especialidade local em matéria de digestivos. Preço razoável e honesto, serviço atento e simpático. A casa tem boa fama, reservar é mesmo necessário – Retiro do Isca, Vale Carro, Tel. 289502668.


 


BACK TO BASICS – Tudo o que peço aos políticos é que se contentem em mudar o mundo sem começar por mudar a verdade (Jean Paulhan) 

 

agosto 24, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 21 de Agosto)

REGISTO DE INTERESSE – Sou cabeça da lista para a Assembleias Municipal de Lisboa proposta por Pedro Santana Lopes. Espero que a coligação «Lisboa Com Sentido» vença estas eleições, na Câmara, na Assembleia Municipal e nas Juntas de Freguesia. Dito isto, se o Director quiser, continuarei a falar do que aqui sempre tenho falado – a ERC não tem muito que se lamuriar – quer Baptista-Bastos, quer Leonel Moura são rapazes para me fazerem boa oposição e alto contraditório.  

 


 


CAMPANHA – António Costa é que devia ligar um pouco às recomendações pluralistas básicas da ética republicana – pegou em 1,6 milhões de euros do orçamento camarário e montou uma festa permanente no Parque Mayer, que é uma bela oportunidade de auto-propaganda. Por um daqueles acasos do destino o programa da propaganda festeira vai exactamente até 11 de Outubro, o dia das autárquicas. Mais conveniente era difícil. 

 


 


 


DARTH VADER – A invasão da política portuguesa pela saga da Guerra das Estrelas e pela figura de Darth Vader é o caso do Verão – uma acção bem humorada, com base numa das mais activas e antigas equipa de bloggers – do 31 da Armada - conseguiu fazer com que o vereador Manuel Salgado se metesse numa embrulhada sobre a segurança, ridicularizou o aparelho da Câmara, que se apressou a chamar a polícia para prender os inssurectos  quando estes foram devolver, limpa e arranjada, a bandeira da autarquia, que havia sido substituída no varandim dos Paços do Concelho pela bandeira monárquica azul e branca –  uma outra forma de assinalar o centenário da República, mais divertida, inofensiva e barata que os atropelos cometidos no Terreiro do Paço. Para cúmulo do ridículo a máscara de Darth Vader foi apreendida pelos investigadores como importante prova do processo – a gastar energias e recursos com casos de humor, como hão-de as polícias conseguir combater os casos de crime ? 

 


 


SILLY SEASON I– Este ano PS e PSD resolveram fazer blogues partidários com as próximas legislativas na mira. Os nomes são bem humorados – «Simplex» do lado do PS (www.simplex.blogs.sapo.pt)  ,«Jamais» do lado do PSD (www.jamais.blogs.sapo.pt). Ambos reúnem nomes sonantes de um e outro lado, com José Pacheco Pereira no «Jamais» a comentar a actualidade política como há algum tempo não fazia no seu »Abrupto». De certa forma estas são as versões modernas, mais livres e desabridas, do «Acção Socialista» e do «Povo Livre» - infelizmente bastante previsíveis portanto – um diz mal do outro e por aí adiante. Tudo estava assim quando João Galamba, do «Simplex» insultou em vérnaculo puro e duro João Gonçalves do «Jamais» - o que parace comprovar que do lado do PS o exemplo do argumento chifrudo de Manuel Pinho na Assembleia da República ganhou novos adeptos. Cada um fica com os actos que pratica e ao PS já ninguém tira a fama de perder as estribeiras com facilidade. 

 


 


 


SILLY SEASON II – Sócrates reduziu a actividade política a visitar, anunciar, inaugurar e intrigar. Governar deixou de existir. Até às eleições isto promete… 

 


 


EXEMPLAR  - O New York Times dedicou um extenso artigo na sua edição de terça-feira passada às investigações de uma equipa da Universidade do Minho, liderada por Nuno de Sousa, sobre o stress e as alterações de comportamento que ele induz. O artigo do diário norte-americano reproduzia excertos do artigo de Nuno de Sousa para a revista «Science». Se quiserem ler o New York Times vão aqui: http://bit.ly/3C3Kv5 . 

 


 


PETISCAR – Quando se vai à praia o objectivo, regra geral, é descontrair e descansar. Não há portanto razão para que uma ida a um bar ou restaurante de praia seja uma canseira; não há razão, mas muita vez isso acontece mesmo. Felizmente não é o que se passa em Alfarim no restaurante Onda Azul. O Onda Azul é injustamente subalternizado pelo mais conhecido Bar do Peixe, mas cá para mim até anda melhor, sobretudo no petisco. A salada de polvo é muito melhor no Onda Azul e umas cadelinhas e uns mexilhões que experimentei estavam absolutamente irrepreensíveis. Serviço rápido., simpático, um óptimo pão de uma localidade ali perto, Caixas, bem cozido, estaladiço, miolo denso, bom para ensopar no molho dos mexilhões. Ainda por cima preços comedidos e imperial bem fresca. 

 


 


OUVIR – Banda sonora oficial do verão (ainda válida até finais de Setembro) – a nova colectânea «!Salsa! » da Putumayo, uma editora especializada em World Music dançável, assumidamente pop e divertida. Aqui estão alguns clássicos interpretados por grupos como o do colombiano Diego Galé, do mexicano Poncho Sanchez, do cubano Chico Alvarez ou do americano Eddie Palmieri, entre outros. As capas da Putumayo são sempre fantásticas e coloridas, os alinhamentos são pensados para divertir quem ouve – esta é das minhas editoras preferidas, felizmente a FNAC tem geralmente uma boa selecção das suas edições. 

 


 


LER – De Peter Carey havia lido há pouco um genial relato de uma viagem ao Japão, «O Japão é Um Lugar Estranho». Quando este novo livro apareceu aí fui eu comprá-lo e dou por muito empregue o dinheiro que paguei por  «Roubo – Uma História de Amor». A escrita de Carey, já sabia, é arrebatadora; mas um romance é muito diferente de um relato de viagem, e aqui Carey dá largas à sua imaginação delirante, com um enredo onde as situações inesperadas se sucedem. «Roubo – Uma História de Amor» é um romance divertido, com a acção a decorrer a um ritmo empolgante, com situações francamente inesperadas que se sucedem . É irresistível e prende a atenção do princípio ao fim das suas 300 e poucas páginas. 

 


 


BACK TO BASICS – A verdadeira vida de uma pessoa é, frequentemente, a que ela não comanda (Oscar Wilde). 

 

agosto 17, 2009

Untitled

Gosto de estar na lista «Lisboa Com Sentido». Porquê.? http://bit.ly/4bapyV

VOTO SANTANA LOPES

(Publicado no «i» de 15 de Agosto)


Começo por dizer que simpatizo com António Costa, mas acho que é daqueles políticos à antiga - bela retórica, práticas fracas, falta de decisão, resultados instáveis.

Por outro lado confesso-me sem partido há muitos anos e esclareço que trabalhei em diversas ocasiões com Pedro Santana Lopes – tivemos bons e maus momentos, mas o balanço é positivo e reconheço-lhe ser apaixonado pelas causas em que se mete, ter rasgo e visão e querer resultados.

Mas passemos a Lisboa e comecemos, sem receios, pela questão dos dinheiros. Quando António Costa chegou à Câmara Municipal de Lisboa, tudo somado, o passivo desta era de 1200 milhões de euros e, agora, é de 1700 milhões de euros. Ele não é mais poupado que os outros, nem melhor gestor. E, apesar deste aumento, fez menos obra. Tem tomado medidas erráticas como aconteceu no Terreiro do Paço e na Ribeira das Naus e não se opõe nem a imposições do Governo, nem a caprichos caros da sua equipa - como mostra o folclore da caríssima e, no fundo, inútil plantação de girassóis em Campolide, só para satisfazer uma mania de Sá Fernandes, o mesmo que deixa os jardins degradarem-se. Por exemplo, não teria sido melhor usar esse dinheiro na manutenção dos cemitérios, vergonhosamente degradados?

Comparemos algumas coisas: o que tem maior impacto na qualidade de vida da cidade? - A recuperação de Monsanto, que Santana Lopes fez, a sua política de recuperação urbana, o túnel do Marquês, ou as duvidosas e caríssimas ciclovias de Costa?

Depois de ter visto a sua equipa inicial desagregar-se, a nova lista de candidatos de Costa é um arranjo de conveniência em que vários protagonistas pensam coisas bem diferentes sobre aspectos decisivos do governo de uma cidade – uma garantia de paralisia certa. António Costa parece um Presidente ausente, que aparenta assumir o cargo com sacrifício e pouco entusiasmo, talvez porque a sua ambição não esteja na cidade e sim no evoluir da situação do PS e no que se passará se Sócrates sair de cena.

Pedro Santana Lopes está focado em Lisboa, vai preocupar-se com as questões que têm a ver com a qualidade de vida na capital: garantir uma cidade mais limpa (Lisboa está sujíssima), maior atenção ao trânsito e estacionamento, mas, também, maior atenção às políticas sociais que quase desapareceram com António Costa (veja-se o aumento dos sem- abrigo), e à optimização da conjugação entre a política cultural local e nacional, de forma articulada com a promoção turística de Lisboa.

Governar Lisboa é ter as pessoas em conta, combater interesses estabelecidos, bater o pé ao poder central, tornar a vida fácil a quem cá vive, conseguir trazer mais moradores para a cidade e não penalizar quem aqui paga impostos. Comparando o exercício dos mandatos, Santana Lopes fará melhor trabalho.

 

 

(publicado no Jornal de Negócios de 14 de Agosto)

 


 

TELEVISÃO – Numa só semana mudou o panorama da televisão em Portugal – José Eduardo Moniz saíu da TVI , o Cabo tem ultrapassado os 20% de share de forma regular,  e os três canais comerciais estão separados uns dos outros por poucas décimas nesta semana. Nos próximos tempos muitas mais coisas vão mudar e a saída de Moniz da TVI talvez contribua para acelerar a decadência inevitável dos canais gratuitos face à oferta e à procura. O que os números dizem é que o poder de atracção dos vários canais de Cabo já anda próximo do share médio dos canais comerciais (RTP1, SIC e TVI) e que, nas regiões onde o Cabo é predominante no país já há mais gente a ver canais alternativos que os canais abertos. A televisão digital terrestre e alguns pós de per-lim-pim-pim tecnológicos vão fazer o resto. Em cinco anos o mundo da televisão vai deixar de ser como o conhecemos e o valor das empresas de media que hoje conhecemos vai sofrer radicalmente com as transformações que estão em curso.

 

MEDIA – A propósito das directivas sobre a presença nos media das várias tendências políticas que disputam eleições, seria bom que os nossos reguladores avaliassem o que se passa nas democracias mais antigas e avançadas. Dito isto e para não lhes chamar burros, ignorantes e incompetentes, e não arriscar algum processo, resta-me dizer que se a ERC não fosse de facto perigosa em termos políticos, seria apenas ridícula. Tristemente ridícula.

 

ANIVERSÁRIO – O caso BPP leva quase um ano, os depositantes viram esta semana os seus dinheiros continuarem congelados até Dezembro e a entidade reguladora rejeitou todos os planos apresentados, quer por privados, quer pela administração que o próprio regulador nomeou e que, entretanto, farta da fantochada, se demitiu. Este é um caso para a História: como a política interfere na esfera privada e trama os pequenos investidores com a conivência do Ministério das Finanças e o seu pau mandado Banco de Portugal.

 

BANDEIRA - O facto de a Câmara Municipal de Lisboa querer processar os defensores da Monarquia, agindo em defesa da República, é um bom sinal da incongruência de quem manda nos Paços do Concelho. A acção dos bloguistas do «31 da Armada» é um exemplo da conjuugação da acção política radical tradicional com as potencialidades da blogosfera – coisa que António Costa não aguenta nem suporta. Dantes perseguia-se quem deitava panfletos ao ar; agora , persegue-se quem bloga o inconveniente É este o choque tecnológico,  republicano e fartamente corrupto – características associadas dos tempos que correm (mas podia não ser assim…)

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GIRASSÒIS – Esta semana ficámos a saber que o Zé (Sá Fernandes) Que Não Faz Falta,  gastou mais de 50.000 euros a preparar uma plantação de girassóis, aparentemente mal cuidada, que nem sabia para que serviam, no meio de Campolide. O episódio merece ser investigado e o bucólico Zé devia prestar contas pelos dislates que pratica.

 

1969 – O Verão de 1969, há 40 anos, foi dos mais marcantes na minha memória: os Beatles finalizavam o seu 12º e penúltimo álbum de originais, «Abbey Road»; na Iralanda do Norte os confrontos agravavam-se e o exército inglês enviou tropas em força; em Paris Henry Kissinger começava conversações secretas com responsáveis vietnamitas para tentar acordar o fim da guerra – e não conseguiu; perto de Nova Iorque realizava-se o festival de Woodstock; o homem tinha acabado de chegar à Lua na Apollo 11; a seita liderada por Charles Manson fez uma série de assassínios, entre os quais o de Sharon Tate; o furacão Camille matou 248 pessoas no Mississipi; o movimento gay norte-americano começa depois dos incidentes no bar Stonewall Inn em Nova Iorque; estreiam os filmes Midnight Cowboy e Easy Rider; Ghadaffi assumiu o poder na Líbia; Brian Jones, um dos fundadores dos Stones morreu; nas revistas, Norman Mailer era capa da «Life», Jerry Garcia na «Rolling Stone», John Wayne na «Time». Em Portugal preparavam-se as eleições do Outono de 1969, depois da agitada final da Taça entre o Benfica e a Académica – o país estava a mudar e isso sentia-se em todo o lado.

 

DISCO – Neste fim de semana faz 40 anos , entre 15 e 18 de Agosto, que a ideia dos grandes festivais rock e pop nasceu com Woodstock, uma quinta em Bethel, uma cidade próxima de Nova Iorque, propriedade de um Max Yasgur que ganhou fama nas gravações do evento. O Festival do Sudoeste não é muito mais longe de Lisboa, que Bethel de Nova Iorque. Nesse Agosto de 1969 juntaram-se, em três dias de chuva, lama, calor e pó, cerca de duas dezenas de bandas e artistas que eram uma boa amostra do que de melhor existia na música popular dessa época. Com meio milhão de espectadores pela frente, o festival foi um marco – na época e na música – foi aí que Jimi Hendrix verdadeiramente conquistou o espírito dos americanos com a sua versão iconoclasta de «Star Spangled Bannner», o hino dos Estados Unidos, numa versão em solo de guitarra eléctrica que é também uma prova da genialidade de Hendrix. Mas Woodstock foi sobretudo o símbolo vivo do amor livre e do poder emergente da música pop, que se havia de tornar avassalador na cultura popular das décadas seguintes. Para mim, que em Lisboa, no Bairro de S. Miguel, folheava páginas da «Life» e do «Paris Match» com as fotografias do acontecimento, o grande testemunho do festival sempre foi a edição original de três LP’s, obviamente de vinyl, muito mais interessante que os filmes ou colectâneas posteriormente editadas. Para assinalar os 40 anos de Woodstock foi feita uma edição digitalizada a partir das fitas magnéticas analógicas originais, num duplo CD que eu comprei na Amazon e que me tem acompanhado nestes dias de férias – sobretudo as actuações dos Canned Heat, Country Joe McDonald & The Fish, Crosby, Stills and Nash, os Who, Joe Cocker, Santana, Ten Years After, Jefferson Airplane, e claro, Sly & The Family Stone e The (Paul) Butterfield Blues Band.. Jimi Hendrix, que nem era para estar presente, fez uma aparição supresa no último dia e encerra esta compilação.

 

SABOR – Neste Verão de 2009 o mix ideal para cocktails frescos com Rum branco ou Vodka e muito gel é o novo Compal Vital de Romã e Chá Verde. Eu chamo-lhe o Arrabidense, em homenagem a estas minhas sossegadas férias na Arrábida.

 

BACK TO BASICS – Os deputados não suportam ouvir falar de política. Aguentam prolongados debates parlamentares porque não ouvem os seus colegas – Óscar Wilde

 

agosto 12, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 7 de Agosto)

 


 

REVANCHISMO -. Os responsáveis políticos do PSD dizem que a opção de constituição das listas de deputados foi feita com base em critérios exclusivamente políticos. Têm toda a razão – o revanchismo é uma atitude política e foi a prevalecente neste caso. Até aqui o revanchismo, a prepotência e a arrogância tinham sido pecados políticos do PS de Sócrates; depois desta semana passam a ser também património do PSD de Aguiar Branco e Ferreira Leite. Particularmente revoltante foi o cinismo pesporrento de Aguiar Branco que, bem interrogado por uma jornalista sobre a exclusão proposta de Passos Coelho e Miguel Relvas das listas de candidatos a deputados, respondeu com os resultados de exploração das contas do PSD. Em matéria de desprezo pelos eleitores este é um caso exemplar – depois dessa resposta que merecia ser excluído das listas era Aguiar Branco, mas como parece ser ele a mandar em Ferreira Leite esse cenário ficará difícil. As listas de candidatos dos partidos, mais do que indicarem as escolhas políticas, indiciam os «progrom» internos. No arco do Bloco Central os dois partidos estão bem um para o outro nesta matéria.

 

PROGRAMAS – O meu conselho aos eleitores é votarem com base nas acções passadas e não nos programas futuros. Todos os programas de eleições são magníficos – dentro da perspectiva de que é politiquês a falar politiquês para politiqueses. Mas quando chega a hora da verdade os programas vão logo às urtigas. Basta pensar naquilo que Sócrates fez em matéria de emprego, saúde, educação e justiça. A demagogia contemporânea tem pouco a ver com dotes de oratória e muito a ver com promessas eleitorais que não são supostas serem cumpridas. Estes nossos membros da classe política acham-se uns aliens superiormente inteligentes que não têm que obedecer a regras nem aparentar vergonha.

 

TVI – Que se tem passado na TVI? Entre negociações com potenciais interessados e uma história muito mal contada de pressões de José Sócrates, o desfecho deu-se esta semana. Como Sócrates desejava, José Eduardo Moniz saiu da TVI. Convém lembrar que, quando José Eduardo Moniz entrou na TVI, foi para uma estação sem dinheiro, em dificuldades financeiras, num processo complexo: Carlos Monjardino tinha falhado com estrondo, Belmiro de Azevedo veio a seguir - e foi nessa altura que Moniz foi para a TVI – mas o patrão da SONAE rapidamente saiu da operação e Miguel Pais do Amaral acabou por ser o homem que reestruturou a estação, o seu passivo e moldou o novo modelo de negócio. Nessa altura eu era administrador da Valentim de Carvalho, com o pelouro do audiovisual, e recordo-me da forma como Moniz tinha ideias claras quando encomendava programas, de muito baixo orçamento, mas que ajudaram a TVI, pouco a pouco, a sair do limbo de audiências em que estava. O processo dos primeiros anos de Moniz na TVI é um case-study daquilo que a criatividade, uma análise rigorosa de objectivos e uma gestão espartana dos recursos podem produzir.

Cá para mim este caso ainda não está encerrado – José Eduardo Moniz era um valor seguro do ponto de vista accionista, como a bolsa portuguesa mostrou logo no dia em que a notícia da sua saída foi conhecida. Sabe-se que, em Espanha, a Prisa é aliada histórica dos socialistas e que se permite moldar editorialmente os meios que controla por forma a favorecer o PSOE; em Portugal, da fama não se livra. José Eduardo Moniz saiu antes de as eleições começarem e as suas palavras de despedida não têm duas leituras possíveis: «Faço votos para que … se preserve o espírito livre, inconformista e batalhador desta Empresa, imbuída de uma cultura de independência perante os Poderes que representa um dos seus activos mais importantes».

 

COMIDAS – O verão lisbonense traz algumas coisas estranhas – este ano foi montada uma espécie de praia artificial perto de Alcântara, junto ao Kubo. A tal praia serve para beber uns copos e comer umas coisas com os pés na areia, a fazer de conta que Lisboa é como a Costa da Caparica. A grande diferença é que na Costa da Caparica há sítios onde se come bem e no Urban Beach em Lisboa se come péssimo e, ainda por cima, a um preço abusivo. Experimentem a especialidade de pastelaria da casa – uma cataplana que leva natas, tal e qual um bolo e que, obviamente é um desastre total. Será que confundiram a função de cozinheiro com a de pasteleiro quando fizeram a selecção de pessoal para a casa? De qualquer forma o resultado é mau, o preço não justifica e ainda por cima há demaisada gente horrível e feia à volta. A «Urban Beach» é um local a esquecer.

 

OUVIR –.Portugal tem destas coisas: um compositor fora de série que faz canções extraordinárias e que tem a capacidade de juntar à sua volta talentos raros, como, aqui, Stuart Staples, dos Tindersticks, entre outros. O compositor e intérprete de que falo é Rodrigo Leão, ex-Sétima Legião, ex- Madredeus, um dos músicos portugueses contemporâneos com maior sucesso além-fronteiras, sem necessidade de subsídios, apoios ou benesses estatais. Rodrigo Leão venceu sozinho em mercados difíceis e leva mais longe as nossas sonoridades. Fora de politiquices, do Estado, fora das modas, fora de «lobbies», fora de ministérios e do poder, inteiramente por mérito próprio e privado, Rodrigo Leão é um caso raro de integridade musical e este disco é a prova disso – quanto mais não seja porque quando ele faz trabalhos de encomenda , como as canções da banda sonora de «Equador», elas são tão boas como se fossem feitas para nós e não para a televisão. O CD «Mãe» é um das grandes peças da carreira de Rodrigo Leão, um grito contra o conformismo e o marasmo e ao mesmo tempo, uma obra de comunicação musical baseada na nossa identidade nacional.

 

LER – Em tempo de férias, nada como um livro proibido pelos supermercados Auchan: «A Casa dos Budas Ditosos», de João Ubaldo Ribeiro. Se é certo que não o encontram entre detergentes e compotas, também é verdade que pode ser descoberto nas livrarias, que felizmente ainda não fazem censura, ao contrário daquela cadeia de mercearias agigantada. O original tem dez anos, as Edições Nelson de Matos em boa hora se lembraram de o reeditar. (Se gostam de livros tenham uma atitude de cidadania e não os comprem onde eles são censurados, como na Auchan).

 

BACK TO BASICS – O pior lugar dos infernos está reservado para aqueles que, em tempo de grande conflito moral, permanecem neutrais – Martin Luther King

 

agosto 03, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Julho)

POLÍTICA – À medida que a campanha eleitoral avança começa a perceber-se que, com elevada probabilidade, não vai existir nenhuma maioria natural nas legislativas. Portanto vai ser preciso fazer alianças, compromissos, negociações. Não deixa de ser curioso, neste contexto, verificar que António Capucho,  Conselheiro de Estado, disse há dias, preto no branco, que «o bloco central não tem nada de pecaminoso». E não deixa de ser também curioso ver que Morais Sarmento é o número 2 da lista de Lisboa do PSD. No cenário de serem chamados ao Governo outras figuras que não os líderes partidários em exercício, é uma nomeação interessante. 

 


 


LISBOA, CONTAS – A questão das contas de Lisboa tem um pano de fundo que convém reter – com as receitas fiscais da autarquia a caírem (por numerosas razões), falar de deficit é pura demagogia. Só por ser a capital do país, Lisboa tem custos estruturais – até aqueles que advêem da entrada de milhares de pessoas/dia na cidade, vindas da periferia – superiores ao de outras autarquias. É urgente uma revisão do Código Administrativo que coloque a gestão da capital numa perspectiva realista. A Câmara Municipal de Lisboa não pode ser penalizada e é-o há anos. É de soluções de futuro que interessa falar e não apenas de problemas do passado, que aliás tocam a todos. Para termos uma cidade diferente é necessário uma atitude diferente. Velhos do Restelo nunca trouxeram nada de bom. 

 


 


LISBOA, TRÂNSITO – As decisões sobre o trânsito de Lisboa não podem andar ao sabor dos caprichos nem podem ter variações estratégicas súbitas, sob pena de causarem um enorme desconforto à cidade. Vejamos: há cerca de dez anos, João Soares, face à Expo e aos planos para Alcântara, resolveu, e provavelmente bem, que a ligação Expo-centro-Alcântara, era uma prioridade se existia a intenção de tornar a parte oriental de Lisboa num novo pólo de urbanização. Uma década depois não é justo que António Costa penalize quem lá comprou casa, impondo severas limitações ao acesso ao centro e à zona ocidental de Lisboa. Recordo: João Soares, com o apoio de Mega Ferreira na Expo, construíu uma avenida ribeirinha larga, com viadutos, que fez dinamizar toda a zona de Santa Aoplónia, Beato e Expo. António Costa, agora, estrangula tudo na Ribeira das Naus, tornando um martírio a circulação nesse eixo antes considerado prioritário. Ainda por cima passou o trânsito dos autocarros para um dos topos, o norte, do Terreiro do Paço, comprometendo a única esplanada fixa que existe na praça e que de repente ficou num corredor de «Bus» – o Martinho da Arcada. No meio disto o responsável do trânsito da Câmara diz que não fazia ideia do número de autocarros que, por via das alterações, ali iria começar a circular. Isto não é sério, nem decente e muito menos agradável para quem vive em Lisboa. Ao contrário do que se apregoa o estrangulamento atinge quem vive na cidade e não quem vem de fora. 

 


 


COMIDAS – Alguns chefes de cozinha portugueses parece que perdem a mão quando acham que já ganharam o estatuto de estrelas. Não sei se é por atingirem o Princípio de Peter, se é por se atirarem para voos e diversificações que não controlam, a verdade é que de repente as coisas começam a não correr bem. Luís Suspiro, que tem alguns pergaminhos no activo, começou em forma no Campo Pequeno, no petisqueiro «Torricado», mas das últimas vezes que lá tenho ido senti que a coisa estava a piorar. Na semana passada experimentei outro restaurante dele, que abriu no mesmo local, e a coisa correu mal. O serviço é desatento e isso é logo aflitivo – quando é que estes chefes da moda se convencem que o bom serviço, atento, é fundamental? Depois a qualidade do que se comeu não correspondeu à expectativa – na lista estavam pastéis de massa tenra acompanhados por migas e a desilusão foi grande: as migas tinham uma consistência estranha, de papa; e os pastéis de massa tenra tinha uma dose de criatividade desnecessária no recheio – tempero a mais, paladar a menos, gosto final desagradável – nada a ver com as melhores receitas tradicionais. Em resumo: tão cedo não me apanham em nenhum dos restaurantes de Luís Suspiro no Campo Pequeno. Portucalidade, Praça de Touros do Campo Pequeno, Loja 66. 

 


 


OUVIR – Regina Spektor é uma cantora russa (nascida em Moscovo em 1980), há 20  anos radicada nos Estados Unidos. Estudou música clássica, piano principalmente, e no final da adolescência começou a interessar-se pela música contemporânea, com o hip hop, o jazz e a folk no centro das preferências. Descendente de uma família judia também se interessou pela música judaica. É deste caldeirão de interesses e de formações diversas que nasceu a sua faceta de compositora, no sentido de «songwriter» – e não é exagero dizer-se que ela é actualmente das melhores autoras de canções. O seu novo disco, «Far», o quinto editado, é o mais maduro do ponto de vista musical, o mais cuidado em produção (Mike Elizondo), mas absolutamente cheio de vitalidade na força e envolvimento de canções como «The Calculation», «Blue Lips», «One More Time With Feeling» ou o divertido «Dance Anthem Of The 80’s». Este é um daqueles registos em que se percebe logo a diferença na qualidade das canções, do seu conteúdo, mas também o grande talento e criatividade, quer musical, quer vocal, de Regina Spektor. E é candidato à lista dos melhores do ano. CD «Far», Regina Spektor, Sire Records. 

 


LER – Um dos melhores artigos sobre os bastidores da política que li nos últimos anos está na edição desta semana da revista «Time», que tem a foto de George Bush e de Dick Cheney na capa. Se não a encontrarem é fácil ver o artigo na edição on line (www.time.com). Trata-se de uma investigação, feita por dois grandes jornalistas da revista, sobre a tensão crescente nos últimos dias do final do mandato  entre o Presidente Goeorge Bush e o seu vice-Presidente, George Cheney. Por detrás da progressiva ruptura entre os dois homens estava a forma como Bush encarava a revisão do precesso de Scooter Libby, que tinha sido chefe de gabinete de Cheney até ser condenado por obstruir uma investigação sobre a revelação da identidade de um agente da CIA por parte de responsáveis da Casa Branca. É um artigo revelador dos jogos de poder, dos mecanimos de influência e do funcionamento do sistema político e judicial. Exemplar. 

 


 


BACK TO BASICS – O homem que olha para o seu passado não merece ter futuro a esperar, Oscar Wilde. 

 

julho 29, 2009

(Publicado no Jornasl de Negócios de 24 de Julho)

CULTURA – Têm razão aqueles que dizem que uma boa definição, de cada partido, em relação às questões de política cultural, seria uma boa forma de ajudar muita gente a definir o seu voto. Considerada sempre como uma área menor onde não vale a pena investir nem tempo, nem dinheiro, a área das indústrias culturais e criativas é hoje encarada não só como relevante do ponto de vista económico, como importante para ajudar a decidir uma opção eleitoral. Se há coisa que, nalguns momentos, o actual Governo fez bem, foi, pela mão de Manuel Pinho, conseguir encontrar pontos de ligação entre o turismo e a cultura e desenvolver programas comuns – numa legislatura onde a Cultura foi genericamente mal tratada essa foi uma experiência a reter para o futuro, aliás quer em termos de Governo, quer em termos de autarquias. À oposição falta dar uma resposta nesta área. 

 


 


FINANÇAS – Teixeira dos Santos não foi uma figura muito simpática, cultivou alguma arrogância contra os contribuintes e, em termos políticos, não foi mais que um zeloso cumpridor de orientações. Enquanto a crise não apareceu lá foi conseguindo iludir as aparências, mas agora a falta de eficácia das suas políticas surgiu por completo. Já é impossível esconder que a despesa pública está a aumentar (pelas más razões), e tornou-se evidente que as medidas tomadas em época de crise não evitaram a brutal quebra de receitas do Estado, provocada pela enorme queda de actividade económica e do consumo. Com a despesa a subir e as receitas a cair Teixeira dos Santos vai fazer um triste fim de mandato, com resultados muito, muito fracos, que marcam o falhanço do PS na gestão das finanças públicas – uma das áreas onde Sócrates mais promessas fazia, recorde-se. 

 


 


LISBOA – Fiquei muito surpreendido por uma entrevista de Manuel Alegre onde ele, liricamente, se congratulava pelo acordo Roseta-Costa em Lisboa, dizendo estar muito satisfeito por ter sido conseguida a união da esquerda na capital. A sua megalomania habitual leva-o a considerar-se, a ele e aos seus apoiantes, como a esquerda que faltava ao PS, obviamente esquecendo que quer o Bloco, quer o PC concorrem contra a lista que ele apoia. Na realidade a lista de Costa é apenas uma lista onde se juntam as várias gerações do PS, o que como se sabe é muito diferente de ser uma lista de esquerda. Vai ser curioso ver o efectivo reflexo eleitoral de Roseta, agora que abdicou da sua independência em relação ao PS e ao resto da esquerda. 

 


 


SOCIALISTAS – Bernard-Henri Lévy deu uma curiosa entrevista sobre o estado do PS francês, mas que se aplica que nem uma luva aos partidos socialistas que por essa Europa fora seguiram a célebre terceira via de Blair, Sócrates incluído. A tese do filósofo francês é simples: o PS já não encarna a esperança, está numa situação semelhante à dos PC’s de finais dos anos 70, meados dos 80. Vai mais longe: a crise dos socialistas começou com o declínio comunista, porque os partidos socialistas sempre se posicionaram e construíram em demarcação aos partidos comunistas: quando estes se começaram a apagar perdeu-se o referencial e o PS desorientou-se e deixou-se infiltrar por ideologias reaccionárias – palavras de Lévy. 

 


 


LISTAS – A procissão das listas partidárias ainda vai no adro e já há muito burburinho – a coisa deve aumentar certamente nas próximas semanas. O principal problema tem a ver com a forma como as listas são constituídas, por jogos de influência e em resultado da relação de forças aparelhísticas dentro de cada partido. O resultado é que em muitos casos as listas são distantes do eleitorado e até dos simpatizantes de cada partido, o que é bem diferente de militantes encartados. Também esta situação contribui para a degradação do sistema político e para o alheamento da participação cívica nos processos eleitorais. Cada vez me convenço mais que devia existir um sistema próximo das primárias americanas, aplicado às legislativas, em que fora do estrito círculo das sedes bafientas dos partidos se pudessem escolher e indicar nomes para cada lista, distrito a distrito. 

 


 


PERGUNTA – O relatório do Tribunal de Contas sobre o negócio da Liscont não deveria levar a que fosse responsabilizado quem prejudicou da forma descrita o erário público? 

 


 


OUVIR – Originária do Mali, Rokia Traoré é uma das novas figuras de destaque no panorama da world music. Acompanhada pela sua guitarra, canta as suas próprias composições, acompanhada por um grupo de excelentes músicos africanos. «Tchamantché», o seu quarto disco, agrupa canções intensas, orgulhosamente africanas, envolventes e ritmadas, de tal maneira que ganhou o prémio de melhor artista na primeira edição dos prémios da revista britânica de world music «Songlines». CD Tama/Universal. 

 


 


LER – Óscar Wilde é um dos mais fascinantes escritores que conheço e, das suas obras,retiram-se algumas das mais iluminadas citações que podem ser utilizadas em várias ocasiões. Loureiro Neves compilou citações de Óscar Wilde e editou-as agora na «Casa das Letras» sob o título «A Sabedoria e o Humor de Oscar Wilde» - 140 deliciosas páginas que se juntam a outras edições de citações da mesma editora. 

 


 


PROVAR – O Castas & Pratos é um bom exemplo de um restaurante simpático, de boa comida e bom serviço, num velho edifício bem recuperado, um dos armazéns da estação de caminho de ferro da Régua. Por baixo fica um wine bar onde há uma boa escolha de vinhos da região a copo e também tapas diversas. No restaurante, numa noite luminosa, a escolha nas entradas foi laminado de presunto bísaro e crepes recheado com brunesa de legumes ; a seguir vieram um medalhão de vitela com risotto de cogumelos e uma espiral de polvo com batata grelhada recheada de grelos. A acompanhar vinhos a copo propostos pelo escanção. Para sobremesa um delicioso pudim de vinho do Porto. O restaurante, no primeiro andar, por cima do wine bar, é confortável, bom serviço e preço decente. Castas & Pratos, Rua José Vasques Osório, Estação da CP Peso da Régua, tel. 254 3232 90, www.castasepratos.com. 

 


 


BACK TO BASICS -   O progresso é a realização de utopias, Oscar Wilde 

 

julho 21, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Julho)

IMPOSTOS – Há uns meses recebi a indicação de que o fisco tinha a intenção de me penhorar por uma pequena dívida atrasada; feito o pagamento, julguei que estaria tudo resolvido. Pois esta semana a Directora Financeira da empresa onde trabalho veio dizer-me, com um ar um pouco pesaroso, que tinha recebido uma notificação do fisco para me penhorar o salário por dívidas fiscais que, verifiquei depois, eram daquela verba que já estava paga – fui conferir, o número do processo era o mesmo, a quantia era a mesma, tinha o comprovativo do pagamento, no site das Finanças o Fisco assegura-me que eu não lhe devo nada – mas mesmo assim há alguém na máquina fiscal que me quer penhorar o ordenado por algo que já está pago. Como há-de uma pessoa gostar deste Estado malfeitor ou acreditar na eficiência dos serviços? 

 


 


ROSETA – Helena Roseta decidiu deixar de continuar independente, e voltou a estar numa lista do PS. Já é público que, mais do que questões de princípio, o que Helena Roseta pretendeu garantir foram questões de poder – lugares e posicionamento nas listas, competências eventualmente a assumir. É legítimo verificar que o eventual apoio dela a António Costa não foi desinteressado, movido por um desejo de eventualmente contribuir para o resultado eleitoral, mas apenas para garantir a sua sobrevivência política dando-lhe palco e notoriedade. A notoriedade está conseguida com o segundo lugar da lista – é uma vitória para Roseta e uma considerável derrota para Manuel Salgado, sinal de alguma desagregação entre o núcleo duro de António Costa. É sempre difícil avaliar num cenário de compromissos eleitorais como reagirá o eleitorado que anteriormente votou, na prática, contra os partidos, acreditando então na bondade da ideia da independência que agora se desmorona. Será curioso ver qual a mais valia real que Roseta traz a Costa – até porque quando a campanha começar há-de ser natural que se recorde como a experiência dela enquanto Presidente da Câmara de Cascais foi um enorme falhanço. Na realidade, em matéria autárquica, estes dois anos de Lisboa incluídos, o currículo de Helena Roseta está longe de ser uma mais valia. 

 


 


ASAE – Agora que a inconstitucionalidade da ASAE está cada vez mais a ser posta em causa conviria ver se o mesmo não se passa por exemplo em relação aos poderes atribuídos à EMEL, essa vergonha de Lisboa, da responsabilidade de vários executivos camarários. Além das dúvidas sobre a legalidade de actuação da EMEL, o seu relacionamento com os munícipes e a forma como responde a reclamações é um exemplo de más práticas e de prepotência. Pôr a EMEL na ordem devia ser uma prioridade para quem quer que ganhe as próximas eleições.


 


REPÚBLICA – Continuo sem perceber porque é que as comemorações do centenário da implantação da República são o pretexto para algumas das malfeitorias que se querem fazer em Lisboa, a começar pelo Terreiro do Paço. Por mais que me esforce não vejo porque se quer apressar tudo para celebrar um século de um regime que, em mais de metade do tempo, foi preenchido por ditaduras e autoritarismos diversos, e que, no geral, tem como cartão de visita o agravar da corrupção. 

 


 


LER – Já muita gente falou disto, mas o novo livro de José Eduardo Agualusa merece elogios – na forma, na história e no conteúdo. A proposta é uma aventura passada numa Luanda situada no futuro, num país onde os interesses do Estado se confundem com interesses particulares, no meio de arranha-céus desertificados, com estrelas pop pelo meio e tráficos diversos por pano de fundo. Em conversa, recente, Fernando Sobral dizia-me que o livro tinha pontos que fazia pensar um «Blade Runner» passado em Luanda, e tem razão na analogia. Mas a escrita compassada de Agualusa ultrapassa esse enquadramento e faz um retrato do que é Angola, falando no futuro mas fazendo-nos constantemente pensar no presente. Essa dualidade, entre os tempos da acção e a realidade da nossa percepção, é um dos encantos maiores de um livro que confirma o autor como um dos grandes escritores da língua portuguesa. (Edição Dom Quixote, 342 páginas). 

 


 


VER – Aqui há uns anos, quando dirigi o canal 2: na RTP, cheguei a seguir uma proposta de um documentário sobre o papel precursor dos portugueses na globalização. A proposta era de um historiador inglês e baseava-se em investigações e ensaios universitários, então recentes. Não havia orçamento, a produção não avançou. Não é por isso de estranhar que a ideia da exposição «Encompassing The Globe – Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII» tenha partido de um norte-americano, Jay Levinson, que criou o conceito da exposição e a concretizou no Smithsonian, em Washington. Desenganem-se pois os que julgam que a exposição foi criada por iniciativa portuguesa – nada disso é verdade; mas é verdade que o facto de investigadores internacionais se preocuparem mais com a nossa história e património que nós próprios é uma prova de que, na realidade, tivemos um papel globalizante em determinada altura da História. Dito isto ainda bem que a exposição veio a Portugal, embora em versão mais reduzida que a original, ficando no Museu Nacional de Arte Antiga até 11 de Outubro. 

 


 


OUVIR – Nestas tardes de Verão, quando se chega a casa, enquanto o sol se põe, proponho que ouçam o novo disco dos Nouvelle Vague, «NV3», o terceiro álbum desta banda de origem francesa que foi buscar o seu nome ao universo do cinema francês dos anos 60. Filmes à parte os Nouvelle Vague têm no seu repertório temas marcantes como «This Is Not A Love Song» e uma série de versões de temas bem conhecidos dos Dead Kennedys, Billy Idol, Clash, Bauhaus ou Depeche Mode (com quem eram supostos ter partilhado o palco do Super Bock- Super Rock no Porto). No novo álbum surgem participações de Martin Gore dos Depeche Mode, de Ian McCulloch dos Echo And The Bunnymen e Terry Hall dos Specials. No disco, para além de vários originais, há versões envolventes de temas como «Master And Servant», «Road To Nowhere», «Parade» ou «Our Lips Are Sealed», entre outros. Em comparação com os anteriores o ambiente é, digamos, menos bossa nova e mais rock, por vezes com clara inspiração na «country» norte-americana. Não torçam o nariz, o disco vale a pena mesmo. 

 


 


BACK TO BASICS -   O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade - Aristóteles 

 

julho 14, 2009

UMA PROMISCUIDADE REVELADORA

(Publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Julho)

 


António Costa escolheu estes últimos dias para dar o pontapé de saída na sua recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa: assinou no Domingo um acordo com José Sá Fernandes, na sexta havia indicado apoiantes e mandatários, e na segunda-feira fez a apresentação formal da candidatura. São tudo actividades normais em processo eleitoral. Claramente António Costa escolheu estes quatro dias, de sexta a segunda, para marcar a agenda mediática e ganhar espaço nos «media».


No entanto António Costa não fez só isto e, de uma forma pouco elegante, no mesmo espaço de tempo, misturou por duas vezes a sua recandidatura privada e partidária com actividades da Câmara Municipal de Lisboa : sexta-feira, horas antes de José Saramago ter declarado o seu apoio a Costa, a Câmara Municipal de Lisboa, directamente pela mão do seu presidente, concedeu um subsídio de 30.000 € ao documentário "União Ibérica", sobre a relação entre Saramago e a mulher, Pilar del Rio; a seguir António Costa promoveu a publicação e distribuição, na edição de Domingo de um jornal diário, de um folheto de propaganda municipal, com 16 páginas, das quais as duas iniciais são preenchidas por um texto seu, com respectiva fotografia pessoal.


A política audiovisual de António Costa começou há poucos dias quando decidiu financiar mais um filme de João Botelho sobre Fernando Pessoa; logo a seguir surge este subsídio para um documentário sobre Saramago. O financiamento de produções audiovisuais pela autarquia surge assim de forma casuística -  mais valia que as verbas envolvidas fomentassem a criação de uma Film Commission para Lisboa. Mas, sobretudo, convinha que, nos dois últimos casos, o de Botelho e Saramago, a coisa não parecesse um estender de mão eleitoral.


O segundo caso é pior – toda a história da Carta Estratégica de Lisboa, por melhores intenções que os intervenientes tenham, serve objectivamente apenas para uma acção propagandística e de levantamento de ideias a apoios para o Programa Eleitoral de António Costa. Esta é uma daquelas iniciativas que faz sentido fazer-se logo no início de mandato, mas que em período já pré-eleitoral fica apenas como uma manobra de propaganda eticamente muito discutível.


Nestes dois temas nem falo da utilização de dinheiros públicos, sobretudo revolta-me a falta de ética política e a promiscuidade que a mistura e a coincidência entre actos partidários e actos institucionais revela. 

 

julho 13, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Julho)

INVESTIGAÇÕES – Um dos problemas, graves, que existe na justiça portuguesa é a forma como investigações da Polícia Judiciária se tornam muito rapidamente armas de arremesso político ou social. Os anos recentes estão cheios de casos destes – em que as fontes que tornam públicas investigações partem de dentro da própria polícia, como forma de provocar julgamentos na praça pública, que muitas vezes nem chegam a tribunal. O histórico da Polícia Judiciária no sucesso de investigações complexas, na resolução de crimes ou no desmantelamento de redes criminosas é muito pequeno, quando comparado com a forma como em casos políticos se deixa manipular e como é utilizada como elemento central de campanhas de opinião pública. Algo vai muito mal no funcionamento da Polícia Judiciária - e a sua reforma é uma peça essencial para que a Justiça possa melhorar. 

 


 


DÚVIDA – Às vezes fico um bocado espantado sobre a forma de comportamento dos porta-vozes partidários. Eu acho que o natural seria que um porta-voz tentasse alargar o raio de comunicação do seu partido, que falasse para os eleitores que estão nas margens, para conseguir captar eleitorado, neutralizar quem antipatiza com esse partido e sobretudo conseguir dar bons argumentos para que os militantes e simpatizantes consigam eles próprios exercer influência nos círculos onde se movem. Mas em vez disso os porta-vozes, com raras excepções, falam para dentro, para o núcleo duro, reproduzem argumentos frequentemente de forma dogmática, e parecem mais obstinados em fornecer argumentos para confrontos do que em comunicar no sentido básico do termo – fazer chegar uma mensagem a quem à partida não estaria predisposto a ouvi-la. Olhem para o espectro partidário e analisem como actuam os porta-vozes – raros ultrapassam o nível de um propagandista, teimoso mas inábil, em início de carreira. 

 


 


 


 


RESUMO DA SEMANA – A Comissão de Inquérito da Assembleia da República ao caso BPN achou que o Banco de Portugal agiu bem na fiscalização daquele banco; Cristiano Ronaldo em Madrid foi o assunto central da semana nacional; já existem três manifestos sobre obras públicas, mais uma conferência de imprensa de Jorge Coelho; dizer um palavrão na Assembleia da República não tem consequências mas exprimi-lo gestualmente dá demissão – é aquilo a que se chama o poder da imagem. 

 


 


PERGUNTA INDISCRETA – Agora que Manuel Pinho se foi embora, quem é que vai tratar dos assuntos da Cultura no Governo? 

 


 


VER – Senti o cheiro das rotativas e a emoção de ver uma história publicada, o caos das redacções e o zig-zaguear do desenvolvimento de uma reportagem em «Ligações Perigosas», um filme de Kevin Macdonald sobre a investigação jornalística da morte da amante de um político que andava a investigar negócios pouco claros na área militar. O «thriller» é bem construído, o argumento é muito bom e a interpretação de Russell Crowe é superior. 

 


 


LER – Confesso-me um leitor devoto de policiais e confesso-me amigo do Fernando Sobral, que também escreve nas páginas deste jornal. Gosto de o ler diariamente no seu certeiro «Pulo do Gato» ou nas notas sobre a semana ou sobre livros que ele publica aqui neste «Weekend». Feitas estas declarações tenho a dizer que «L.Ville», o novo livro do Fernando Sobral, um policial, é uma história fascinante de um detective que, na cidade de Lisboa, se confronta com um caso de homicídio. Não vou contar a história – que é daquelas que não se consegue parar de ler – mas direi que é um retrato contemporâneo de locais, comportamentos e atitudes. Eu li-o de seguida, a imaginar sítios, a ouvir as canções que são citadas, a sentir cheiros e aromas. «L.Ville» é um dos melhores policiais que tenho lido ultimamente e que, ainda por cima, tem a particularidade de ter frases absolutamente  geniais, como esta: «Podemos ensinar tudo; mas devemos ficar sempre com o truque definitivo». (Edição Quetzal) 

 


 


OUVIR – Ao fim de duas décadas e de uma quinzena de discos ainda há lugar para surpresas numa banda que em 1988 ganhou fama e notoriedade com o disco «Daydream Nation», que se afirmou com uma sonoridade própria na Nova York dos anos 90? Estou a falar dos Sonic Youth, esse quarteto que fez fama com canções que reproduziam os ruídos, as sensações e a criatividade dessa cidade. Ironicamente intitulado «The Eternal», o novo disco dos Sonic Youth, uma nova explosão de energia, misturada com pequenas provocações que salpicam as canções. Os Sonic Youth, que há três anos não lançavam disco novo, não inventam aqui nada – mas aperfeiçoam o seu estilo, e surpreendem pela coerência, num tempo em que esta música podia ser mais difícil para atrair novos públicos. Destaque para a forma como Kim Gordon canta, e sobretudo para a última canção do disco, verdadeiramente impressionante, «Massage The History». CD Matador. 

 


 


PROVAR – As coisas mais simples e mais tradicionais são muitas vezes as melhores. De repente um regresso a um restaurante onde já não se ía há uns tempos faz recordar a importância da boa escolha de produtos, a boa confecção, o tempero cuidado, a atenção ao pormenor – por exemplo a qualidade da preparação das azeitonas e do pão que se servem – um dos «couverts» mais simples, que ou corre muito bem ou é para esquecer. Pois correu muito bem num regresso ao «Apuradinho», em Campolide, uma noite destas onde o objectivo era comer bem, com calma, sossegado. A escolha da noite recaiu numas lulas recheadas acompanhadas de puré de batata – aqui está um prato que pode ser um desastre, mas felizmente no «Apuradinho» é um sucesso – lulas perfeitas, tenras, recheio muito bom, um puré de batata natural muito bem condimentado. A terminar, cerejas magníficas, absolutamente excepcionais – num ano, aliás, que tem sido bom em matéria de cerejas. Resumo da noite: porque é que não vou mais vezes ao «Apuradinho» - aos seus pastéis de bacalhau levíssimos, ao estufado de pivetes (rabo de boi) ou ao cozido, sempre superior? «Apuradinho», Rua de Campolide 209 A, telefone 213 880 501. 

 


 


BACK TO BASICS -  A História é pouco mais do que uma sucessão de crimes e de infortúnios - Voltaire