julho 07, 2009

UMA CIDADE PERDULÁRIA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 7 de Julho)

 

Desde há 43 anos o festival de jazz de Montreux, na Suíça, é um marco incontornável do mês de Julho – nas quase duas semanas em que decorre atrai à cidade cerca de 200.000 visitantes. Ao longo dos anos o Festival abriu-se a outras músicas para além do jazz e teve, nomeadamente, uma enorme importância no reconhecimento de uma geração de músicos brasileiros na Europa. Montreux conseguiu, com o Festival, que uma cidade Suíça, antes conhecida apenas pelo seu lago e pelo casino, se tornasse numa das capitais da música do Verão Europeu – e a organização criou receitas com gravações, discos e programas de televisão. É uma operação exemplar.

Em tempos sonhei que Lisboa podia ter, se houvesse persistência e apoio, uma iniciativa que, com o tempo, fosse semelhante. Aquilo que eu defendia que se fizesse, e que ainda aconteceu curtos anos, era a criação de um Festival, em Lisboa, que fosse o pólo de divulgação e cruzamento da música de África com a Europeia e de outros continentes, e que, ao longo dos anos permitisse afirmar Lisboa como uma verdadeira plataforma multicultural. A estratégia era basear numa primeira fase a actividade no cruzamento com a música dos países lusófonos de África com a portuguesa, utilizando o palco da música (em Monsanto, na época reabilitado) e desenvolvendo complementarmente iniciativas no campo das artes plásticas, literatura e cinema, entre outras. Foi assim que nasceu o Afrika Festival.

Infelizmente a experiência demorou demasiado pouco tempo e a actual Câmara Municipal de Lisboa acabou com o palco da música e manteve apenas as actividades complementares, o que destruíu completamente a ideia existente. Resta sublinhar que nos anos em que o Afrika Festival se manteve, as citações sobre Lisboa na imprensa internacional ultrapassaram as de outros Festivais musicais cá realizados.

O caso infelizmente não é único : vale a pena dizer que o que aconteceu, a outro nível, com a extinção da Lisboa Photo teve exactamente os mesmos efeitos – só que Sérgio Mah, o Comissário da iniciativa, acabou por ver o seu talento reconhecido em Madrid, que o convidou para dirigir o Photo España.

Estas duas iniciativas – Afrika Festival e Lisboa Photo – podiam ser alicerces para a imagem de Lisboa, enquanto cidade aberta à modernidade e ao encontro entre culturas. Nem vou referir que, a médio prazo, o retorno do investimento, em capacidade de atracção turística, seria interessante. Mas registo que foi esta Câmara que acabou com estes projectos, que tinham público e notoriedade. É o que se chama uma política perdulária, a que nem as operações cosméticas de «cartas estratégicas» feitas por encomenda eleitoral chegam para dar qualquer sentido ou consistência. 

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Julho)

COSTA - A campanha eleitoral de António Costa já começou, com uns cartazes que dizem «Arrumámos, a Casa». O meu palpite é que eles devem ser dirigidos para quem vive fora de Lisboa e está de passagem na Capital – é que quem cá vive fica com os cabelos em pé com estes dois anos de Costa – ruas mais sujas, cidade mais esburacada, trânsito ainda mais caótico. Na verdade o mandato de Costa é feito de desarrumação, a cidade está pior e não há obra feita nem rasto de inovação. Até na relação com o Governo a Capital está a perder – vejam-se as tropelias feitas na zona ribeirinha. António Costa na Câmara pode servir bem os interesses do Governo, mas é seguro que tem feito muito pouco por Lisboa. 

 


 


ASAE - Depois de meses de acalmia a ASAE voltou a fazer das suas, desta feita em Serralves. O motivo foi a apreensão de jóias de novos desenhadores, que estavam expostas na loja do museu – as jóias, de prata não tinham o contraste de Lei e a apreensão terá sido feita por denúncia. Independentemente da questão do contraste, a verdade é que tudo isto se baseia numa Lei com décadas, em grande parte hoje em dia contrária ao Direito Comunitário, e que proíbe a venda de jóias ou peças de metais preciosos, mesmo contrastadas, fora de ourivesarias. É por isso que algumas lojas de grandes marcas internacionais não podem vender nas suas lojas peças contrastadas, de ouro ou prata, mesmo que inteiramente legais e é por isso que elas são seladas pela ASAE – que depois demora infindáveis meses a resolver o processo, criando grandes prejuízos. Mas como se sabe a missão da ASAE é criar dificuldades e prejuízos em diversas áreas da actividade económica – a novidade é que agora invadiu a esfera das artes e da criatividade (esta ida à Fundação do Porto foi a segunda num espaço de pouco tempo já que os diligentes agentes da ASAE andaram por lá no dia da Festa anual de Serralves a ver se se fumava ….). O exagero tira a razão – e a falta de bom senso é o grande pecado da ASAE. 

 


 


LER – A edição de Julho/Agosto da revista internacional «Monocle» devia ser lida por todos os candidatos autárquicos de grandes e médias cidades. É o número anual que faz o ponto de situação dos locais com melhor qualidade de vida, ordena as cidades com base nesse critério e tem uma série de artigos, opiniões e sugestões de especialistas de diversas áreas, do urbanismo ao comércio e indústria, passando pela música ou a animação de rua. No índex anual das 25 melhores cidades para viver Lisboa caíu para a última posição, o que não é estranho se percebermos como a cidade tem ficado mais caótica nestes últimos tempos. Ao longo das páginas descobrem-se evidências há muito esquecidas em Portugal – a importância do comércio de rua, de as cidades acolherem pequenas indústrias, artesanatos, de privilegiarem a recuperação em vez da nova construção, de dignificarem e aproveitarem os espaços ao ar livre. Todo um programa de bom senso. 

 


 


 


OUVIR – Bem Harper faz quarenta anos em Outubro próximo e este seu novo disco, «White Lies For Dark Times» é o seu trabalho mais maduro, surpreendente e conseguido – e absolutamente nada chato. Com uma enorme influência dos blues, apresentando em  estreia a banda texana Relentless 7 ao lado de Harper, a produção garante sólidas e frescas sonoridades. Na realidade este é um Ben Harper para quem gosta de rock, nalguns momentos com citações que parecem pescadas de Jimi Hendrix ou de Neil Young, um disco bem ritmado, a fugir a alguma monotonia demasiado presente em outros trabalhos recentes do cantor. Mas além das influências bluesy, aqui também se percebe como Ben Harper gosta de se inspirar na folk music ou no funk. Um discão. 

 


 


IR – O Estoril Jazz 2009 termina este fim de semana. Hoje, sexta dia 3, é a vez do quarteto do saxofonista David Murray; amanhã, sábado dia 4, a homenagem a Charly Mingus pelo septeto Mingus Dinasty; e  Domingo, dia 5, toca o quinteto do contrabaixista Christian McBride – sexta e sábado às 21h30, Domingo às 19h00, sempre no Centro de Congressos do Estoril, no Festival que regularmente proporciona alguns dos melhores concertos de jazz que por cá se podem ver ao longo do ano. 

 


 


DESCOBRIR – O Douro é certamente das regiões de Portugal onde vale a pena voltar sempre. Nos últimos anos as transformações, para melhor, são grandes – desde as grandes vinhas até aos museus locais, passando pela recuperação dos passeios de barco e, sobretudo por uma oferta de hotelaria e restauração que colocam a zona, em termos de qualidade, entre as melhores do país. Vem isto a propósito daquele que hoje em dia é certamente um dos melhores restaurantes de Portugal, quer em termos de espaço, quer de serviço, quer de qualidade e confecção da comida. Trata-se do DOC, situado precisamente no Douro, a meio caminho entre a Régua e o Pinhão, precisamente em Folgosa. Comecemos pelo local – construído em cima do rio, num edifício concebido para o efeito, com uma esplanada fabulosa, uma sala espaçosa, boas mesas, confortáveis cadeiras, um ecrã que mostra o que se passa dentro da cozinha. Depois, o serviço – eficaz, simpático, atento, bom conhecimento da carta, conselhos acertados e não especulativos sobre vinhos. Finalmente a comida – múltiplas escolhas, comida de inspiração regional com um toque de frescura, muito boa qualidade dos produtos, confecção absolutamente impecável, quer nos peixes, quer nas carnes. Destaques, nas entradas, para as chamuças de moura e de alheira, nos peixes para os milhos de moluscos com algas do mar e rodovalho e o cherne com ratatouille de legumes, e nas carnes para as propostas de porco bísaro, cordeiro e cabritinho. Há a possibilidade de Menu Degustação. A responsabilidade de tudo correr assim é do proprietário e Chefe, Rui Paula, que trabalhou alguns anos em Londres e que tem um belo livro editado, «Uma Cozinha no Douro». O preço é alto, mas aceitável para a qualidade. É uma pena que em Lisboa, numa cidade á beira de um rio, não exista um restaurante assim, quer em conforto, quer em qaulidade. Uma experiência absolutamente a reter. Podem antever o DOC em www.restaurantedoc.com , reservas (absolutamente indispensáveis) para o telefone 254 858 123 ou 919 314 395. 

 


 


PROVAR – Bebida do verão, a meio da tarde – um Nespresso Lungo em copo largo, com três pedras de gelo. Delicioso. 

 


 


BACK TO BASICS -   Homens de bom senso aprendem sempre alguma coisa com os seus inimigos – Aristófanes. 

 

julho 01, 2009

A TÁCTICA DO VALE TUDO

(Publicado no diário Meia Hora de dia 30 de Junho)


 

A seguir às eleições europeias todos os quadrantes políticos, a começar pelo do Governo, mostraram preocupações com o aumento da abstenção e todos garantiram que o combate ao abstencionismo era uma prioridade. Falou-se muito na necessidade de dignificar a acção política. Num repente, que lhe passou rápido, o Primeiro Ministro até deu sinal de querer mudar de estilo. Foi sol de pouca dura, escassos oito depois voltou aos seus comportamentos habituais.

O que aconteceu na semana passada foi mais um empurrão para os abstencionistas e para os votos brancos e nulos – a verdade é que o folhetim da PT-TVI foi um manual sobre a utilização da ilusão e da mentira em política, um manual de desprezo pelos accionistas de empresas privadas em nome de interesses partidários.

Nos últimos dias todos ficámos a saber pelos jornais que aquilo que um Primeiro Ministro diz no Parlamento não tem que ser verdade, que os bastidores estão cheios de arranjos e combinações, que a falsidade na política é uma forma de estar que até parece natural. Com o comportamento assumido na semana passada no caso da PT-TVI o Primeiro Ministro e o Governo deram um mau exemplo que deve ter levado muita gente a pensar que mais vale uma abstenção do que um voto numa mentira.

Ainda o assunto não tinha esfriado e logo uma fonte do PS anunciou que tinha havido uma reunião para garantir apoios de nomes de centro-direita a José Sócrates nas próximas eleições. Nem 24 horas eram corridas e soube-se que os nomes propagandeados foram não a uma iniciativa partidária, mas a um jantar privado em casa do Ministro da Economia, que convidou vários convivas para trocar impressões, e não para manifestarem apoios ou desapoios. Um dos convivas, António Carrapatoso, deu-se mesmo ao trabalho de emitir um comunicado a distanciar-se das notícias veiculadas - e imagino que alguns outros o não tenham feito porque estão em cargos de nomeação governamental. Seja como fôr, o que aqui está em causa é de novo o paradigma da mentira como forma de actuação política, pelos vistos um comportamento recorrente nos círculos próximos de Sócrates.

Se isto continuar assim as campanhas eleitorais que estão a começar e que vão durar até meados de Outubro – quatro meses – prometem ser um manual de más práticas. Está instalado no Governo o espírito do vale tudo, de não olhar a meios para atingir fins. Quando a coisa chega a este ponto o resultado não pode ser bom.

SE NÃO ESTRAGAREM, PODE SER NEGÓCIO

 (Publicado no «i» de 26 de Junho

 


No futuro como vai ser a televisão? Um bom bocado diferente daquilo que hoje conhecemos, de certeza. O ecrã tradicional vai progressivamente ser deixado de lado, substituído pelo ecrã do computador ou de vários outros dispositivos (ainda) mais móveis que um laptop. A forma de organização da programação também vai mudar – progressivamente as pessoas vão ter tendência a verem os programas que querem à hora a que estiverem disponíveis, e não à hora a que as estações os colocam em grelha de programas. A própria publicidade terá que se adaptar a estas mudanças.


Num tempo já próximo a televisão digital terrestre vai proporcionar uma experiência bem diferente daquela que temos hoje; a distribuição de sinal de televisão por fibra óptima vai complementar a oferta com uma diversidade e possibilidades de interacção que ainda nem sequer estão bem estimadas; a futura geração de telemóveis e novas redes de comunicações móveis tornarão mais fácil e acessível ver conteúdos vídeos on-demand ou simples emissões regulares de operadores de televisão. No centro de tudo isto estão os operadores de redes de comunicações: com diferenças tecnológicas quase inexistentes, com diferenças de preço mínimas, o principal critério de escolha dos clientes vai passar pelos conteúdos disponibilizados – e aqui o desporto, nomeadamente o futebol, desempenhará um papel fundamental.


É por isso que, depois de assegurar a TDT e de ter lançado o MEO, a PT voltou à necessidade de ter conteúdos audiovisuais e direitos de emissão, de preferência exclusivos, para os seus clientes. E é por isso que ter uma posição numa estação líder, que ainda por cima tem uma «fábrica» de produção própria, pode fazer sentido. Em termos de actividade e de negócio, o racional é perfeito; o pior será se a estação líder deixar de o ser, se existir a tentação de colocar interesses políticos à frente de critérios empresariais e se as mudanças efectuadas diminuírem as audiências e a qualidade dos conteúdos.  

 

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Junho)

 


TELEVISÃO - Politiquices sócratinianas à parte, o regresso da PT à área dos conteúdos só faz sentido – cada vez se torna mais claro que a chave do sucesso na exploração de novas plataformas tecnológicas tem a ver com a capacidade de garantir conteúdos, alguns em exclusivo de preferência, para garantir tráfego e gerar receitas. Não é preciso ser vidente para saber que a introdução da televisão digital terrestre, a próxima geração de telemóveis e a proliferação da fibra óptica vão alterar a forma como todos nos relacionamos com programas de televisão e com conteúdos audiovisuais. Se juntarmos a isto a importante questão da exploração dos direitos de transmissão do futebol (cada vez mais determinantes na criação de receitas directas e indirectas em televisão) estamos perante um cenário em que a PT ou abdicava de crescer ou arriscava voltar a uma área onde, no início da década, recorde-se, Zeinal Bava deu cartas e mostrou uma grande capacidade de visão. Do cenário politiqueiro, incontornável, é certo, espera-se que a tentação do poder e de exercer controlo editorial não estraguem uma estação de televisão que tem sido gerida com as audiências e a rentabilidade sempre em primeiro plano. E que, por acaso também, tem sido a que mais ficção nacional tem produzido, dando cartas ao serviço público em várias áreas.

 

ELEIÇÕES - Quando escrevo esta coluna ainda não se sabe qual a decisão presidencial quanto à data das eleições legislativas. Mas, seja qual for o calendário, é certo que tudo indica que o resultado eleitoral irá obrigar a coligações e acordos; se não for possível chegar a um acordo estável, e a probabilidade é grande, aumenta o número dos que propõem um Governo de iniciativa presidencial. O recente manifesto dos 28 contra as grandes obras públicas mostra já como alguns sectores das elites se posicionam, a marcar terreno. Apelos complementares a uma revisão constitucional – ainda por cima necessária face ao total desajustamento do sistema eleitoral e político face à realidade actual, criam campo para que o Presidente utilize os seus poderes até ao máximo. Será curioso ver quem se irá colocar em bicos dos pés nos próximos compassos desta dança.

 

CULTURA - No seu acto de contrição público transmitido pela televisão, Sócrates reconheceu que tinha errado na Cultura e que esta é uma área que precisaria de mais dinheiro. Está na cara que este será um dos sectores onde o PS vai investir – é que, com relativamente pouco dinheiro, será possível captar uma corrente de opinião de esquerda e de centro esquerda sensível a estas questões, crucial para o PS nas próximas eleições. Resta a curiosidade de ver quem o PS irá utilizar para dar corpo a esta nova política na área da cultura, já que o actual Ministro sempre disse que não era preicos mais dinheiro.... No entretanto a pobreza da direita e do centro direita em relação às questões de política cultural continua, infelizmente, a ser confrangedora – enquanto o PS tratou o assunto com os pés a coisa não se notou tanto, agora que a conjuntura eleitoral obriga Sócrates a ter mais cuidado, a diferença vai ser mais patente – e prejudicial – a menos que entretanto alguém tenha o bom senso de romper com o monopólio político da esquerda na cultura.

 

ELOGIO - É altura de aqui reconhecer que o trabalho realizado no Museu Colecção Berardo, no CCB, por Jean-François Chougnet, o director que tem sabido organizar um programa de exposições temporárias que faz descobrir áreas pouco visíveis, que possibilita que Portugal descubra a obra pouco divulgada de portugueses como Pancho Guedes, ou que tenha possibilidade de ver obras pouco divulgadas, como a de Dan Flavin. Esta semana o Museu inaugurou uma mostra sobre Art Déco e outra sobre paisagens, ao mesmo tempo que ainda se pode ver uma importação da Photoespaña ou a curiosa «Arriscar o Real», a partir de obras da própria Colecção Berardo.

 

VER - Semana grande em Coimbra – o Centro de Artes Visuais ~(CAV) inaugura dia 27, sábado, três exposições: «Notas Sobre Um Problema de Método», de Pedro Calapez; «The Night Walker And Other Works» um projecto de Ra Di Martino; e uma exposição, «Paisagem», dedicada à obra do arquitecto Carrilho da Graça com fotografias de Augusto Brázio, Edgar Martins e Frederic Bellay.

 

IR – Este é o primeiro fim-de-semana do «Estoril Jazz», numa nova «casa», o Centro de Congressos do Estoril. Sexta-feira dia 26, 21h30, o destaque vai para o quinteto James Carter; Sábado à tarde uma curiosa experiência de jovens músicos portugueses que adaptaram para português standards norte-americanos no colectivo «Jazz em Miúdos, às 16h00; à noite, ainda sábado, a voz de Roseanna Vitro (um dos novos valores do jazz vocal), com um trio que inclui o pianista Kenny Werner; finalmente no Domingo às 19 e 21 horas, em duas sessões um concerto a solo do pianista Chick Corea, sem dúvida o ponto alto destes primeiros três dias – para a semana há mais.

 

REGISTO - Mayra Andrade é uma cabo-verdeana com uma voz extraordinária e uma grande presença em palco, mas infelizmente o seu disco «stória, stória» sofre de um mal que nos últimos tempos contribui para descaracterizar e tornar pouco interessantes as gravações de intérpretes de Cabo Verde: uma produção, arranjos e músicos abrasileirados tornam tudo numa massa sonora incaracterística e pobre Resta a riqueza da voz de Mayra, infelizmente também a adoptar uma pronúncia mais brasileira que africana. A ideia será a de assegurar uma maior capacidade de internacionalização – mas o resultado é pobre e grotesco em termos musicais. CD Sony.

 

LER – Em 1973 foi feita a primeira edição de «O Mundo É A Nossa Casa», com base num texto de Júlio Moreira e em desenhos, ilustrações e grafismo de Sena da Silva, Cristina Reis e Margarida d’Orey. O livro, dedicado sobretudo às crianças, teve várias edições mas há uns anos que se encontrava esgotado. Pela mão da Guimarães Editores foi agora reeditado, numa versão actualizada que nos permite descobrir uma das obras mais interessantes sobre a nossa sociedade e o nosso planeta que se pode oferecer aos mais novos.

 

LUGAR – A esplanada da nova cafetaria do Hotel Altis Belém tem bom serviço, boa cozinha, uma grande vista e boas propostas, leves e frescas, para estes dias mais quentes. Telef. 210 400 200

  

BACK TO BASICS -  Uma obra exposta num museu ouve mais opiniões ridículas do que qualquer outra coisa no mundo – Edmond de Goncourt

 

UM CHEIRO A PODRIDÃO NO TERREIRO DO PAÇO

 


(Publicado no Diário Meia Hora de dia 23 de Junho)

 

Num destes dias passei pela primeira vez, desde que o trânsito ali reabriu, num taxi, frente ao Terreiro do Paço, a caminho do Cais do Sodré. Nem queria acreditar no que estava a ver – um misto de desolação com uns bocados de plástico pacóvios pelo meio. A coisa é indescritível - no meio das obras há uma instalação, que se situa visualmente a meio caminho entre carrinhos de choque das feiras e contentores para recolha de recicláveis, com uns arbustos de árvores raquíticos a saírem lá de dentro – numa referência ecológica bacoca. As peças, muito coloridas, estão dispersas em dois ou três sítios, sem lógica, sem dimensão para todo aquele espaço. Parecem apenas ridículas, na provocação gratuita, na ausência de sentido ou contextualização. Parece que esta intervenção terá custado 70 mil euros, pelo menos é o que leio na imprensa, a mesma onde também leio que esse o arco da Rua Augusta se degrada aceleradamente por falta de verbas para a sua recuperação.

Quando o táxi avança um bocadinho entra numa espécie de slalom entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, com faixas estreitas, na Ribeira das Naus, num traçado incompreensível, que vai de certeza dar muitos problemas – a razão do desvario e da estreiteza das faixas é o alargamento desproporcional dos jardins existentes. O taxista que me conduzia abanava a cabeça em ar de reprovação, todas as pessoas com quem tenho falado não entendem o que ali se passa, nem o seu significado, tão pouco o objectivo.

 

Para além da verborreia demagógica contra o trânsito automóvel (duplamente demagógica porque o município cobra uma bela colecta em impostos aos automobilistas que vivem na cidade), o que está a ser feito na Ribeira das Naus e no Terreiro do Paço é um espelho do poder arbitrário, da falta de bom senso e, estou em crer, de uma grande dose de incompetência.

 

Uma zona nobre da cidade de Lisboa está entregue a pinderiquices, a projectos de intervenção que causam polémica generalizada, tudo feito por obra e graça de uma Sociedade Frente do Tejo, criada pelo Governo perante a passividade de António Costa, e que, muito curiosamente, vai poder contratar empreitadas e adquirir bens e serviços por ajuste directo, sem concurso público, até 5,120 milhões de euros, um valor cinco vezes superior ao limite máximo previsto no Código dos Contratos Públicos. Não há um cheiro a podridão em tudo isto?

junho 22, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 19 de junho)

BOTOX – O PS está a fazer uma operação de recuperação estética acelerada. Primeiro Sócrates reaproxima-se de Alegre, depois decide-se a ouvir vozes divergentes, por fim admite que a maioria absoluta deixou de ser um objectivo. Preparam-se os tempos do diálogo e a nomeação de João Tiago Silveira, uma das poucas vozes sensatas do Governo, é um sinal de que a pesporrência de Vitalino Canas e a arrogância de Santos Silva estão provisoriamente guardadas debaixo do tapete. Contra ele João Silveira tem o facto de estar no Ministério da Justiça, um dos sectores onde o Governo quase nada fez, ainda por cima sendo a Justiça uma das zonas mais degradadas, ineficazes e profundamente injustas da sociedade portuguesa. Mas no meio deste face-lift acelerado fica um gato escondido com o rabo de fora – ao nomear António Vitorino para coordenador do programa eleitoral, espera-se agora que haja o bom senso de a RTP o despedir de comentador, de tão envolvido que está na principal peça que vai modular a propaganda do próximo ciclo eleitoral. Os sorrisos agora beatíficos de José Sócrates são produto de uma pesada derrota eleitoral – e nestas coisas da política, como dos tratamentos estéticos, é bom não esquecer que o botox tem duração limitada e que quando o seu efeito desaparece os defeitos ainda se acentuam mais. 

 


 


TGV – Perder o foco num debate é o pior que pode haver e na questão do TGV convém separar o essencial do acessório. O essencial é garantir que Portugal não fique isolado da rede europeia, que Lisboa fique ligada a outras capitais por uma linha de alta velocidade, nomeadamente a Madrid e a Paris e, daí, a várias outras. É uma obra cara e de retorno difícil – pois é, mas é estratégica e deve avançar. É um investimento público importante para garantir que a fronteira terrestre do país não se transforme num muro. Já outra coisa são as negociatas de política local ou de empreiteiros habilidosos que querem fazer ramais de TGV com paragens de 100 em 100 quilómetros, muitas pontes, viadutos e túneis. Estas são desnecessárias, completamente inúteis e não há razão para que as ligações Lisboa-Porto ou ao novo Aeroporto não sejam feitas por outros sistemas ferroviários rápidos modernos, mais adequados às distâncias entre cada paragem.  

 


 


VER – Maria Beatriz faz parte da geração de artistas portugueses que no final da década de 60 optou por trabalhar no estrangeiro. Uns voltaram após 1974, outros foram ficando nos países que escolheram – ela escolheu a Holanda e desde então tem vivido em Amesterdão. Em Portugal tem exposto com periodicidade irregular e esta semana abriu na Galeria Ratton uma exposição de obras inéditas, «Oisive Jeunesse, à tout asservie», uma citação de Rimbaud que dá o nome a esta série cuja preparação começou em 2007 e que integra desenhos, pinturas e azulejos, todas em torno do corpo feminino. Para além da galeria, o site da artista também merece uma visita: www.mariabeatriz.nl . A Ratton fica na Rua da Academia das Ciências 2C, junto à rua do Século. 

 


 


IR – Se têm seguido a polémica sobre a destruição do Museu de Arte Popular talvez achem interessante a proposta de uma «visita guiada» ao museu encerrado, que sob o título «O Museu Essencial E Incómodo» junta sábado dia 20, Raquel Henriques da Silva, João Leal, Rui Afonso Santos, Vera Marques Alves e Alexandre Pomar, no edifício do Museu, em Belém, pelas 16h00. 

 


 


CELEBRAR – A Bica do Sapato faz dez anos por estes dias, dos quais os primeiros foram de afirmação e resistência (no início a vida foi difícil) e estes últimos de consolidação. A Bica é daqueles restaurantes que oferecem mais que a comida (boa, óptima, diga-se): a decoração do espaço, a localização junto ao rio, a qualidade da garrafeira e das sugestões de vinhos do Chefe de Sala, o ambiente – tudo torna o local num espaço especial, que resiste a modas, simultaneamente íntimo e acolhedor para os frequentadores habituais e inusitado e excitante para quem lá vai pela primeira vez. Quanto à cozinha a inspiração é a gastronomia portuguesa, com uma interpretação contemporânea - dez anos na vida de um restaurante assim, sempre mantendo a qualidade, é uma data que merece aplauso – e é do melhor que Lisboa tem a oferecer a quem visita a cidade. Telefone 218 810 320, Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Cais da Pedra, a Santa Apolónia. 

 


 


OUVIR -  «White Works», o novo disco do pianista de jazz João Paulo, é baseado em composições de Carlos Bica e é de um despojamento e contenção notáveis. A solo, no piano, ele consegue aquele exercício extraordinário que é partilhar a solidão. (CD Universal). 

 


 


RECORDAR I – Morreu em Maputo Ricardo Rangel, um dos mais importantes fotógrafos de língua portuguesa. A sua obra, nomeadamente a que foi feita entre os finais dos anos 50 e o princípio deste século, mostra um trabalho baseado no fotojornalismo e numa minuciosa interpretação da realidade, mas sempre com um olhar próprio. Trabalhou nas mais importantes revistas e jornais de Moçambique na fase anterior à independência, aliando a reportagem ao ensaio fotográfico. A pesquisa do seu nome no Google remete para uma série de sites, com destaque para os que mostram um dos seus mais importantes testemunhos, a exposição «Iluminando Vidas», que passou por Portugal. Nos últimos anos dedicou-se ao Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que fundou e dirigiu.  

 


RECORDAR II – Morreu em Lisboa João Bafo, que fez parte de um núcleo restrito de fotojornalistas portugueses que na década de 70 se empenharam numa nova forma de fazer fotografia «contra a fotografia de salão, concurseira, contra o estilo neo-realista», como recorda outro contemporâneo, Luiz Carvalho, no seu blog. Esse núcleo fez escola e influenciou a edição fotográfica na imprensa nas décadas seguintes. Tive o prazer de trabalhar com ele quando estive no «Se7e», que nessa altura o João também ajudou a mudar. O seu trabalho era verdadeiramente bom, mas nos últimos anos estava afastado da imprensa, em boa parte porque se fartou da forma como as chefias de redacção tratavam a fotografia – foi esse o tema da nossa última conversa, há uns anos. As suas imagens de Portugal na década de 70 e 80 mereciam ser de novo mostradas – aliás é miserável a maneira como matamos a memória do nosso próprio tempo. 

 


 


BACK TO BASICS – A fotografia serve para ajudar as pessoas a ver – Berenice Abbott 

 

À PROCURA DE DIRECÇÃO

(Publicado no diário Meia Hora de 16 de Junho)

 


Apesar do título, hoje não vou falar do estado em que se encontra o PS após os resultados das eleições europeias. O assunto da conversa é bem mais prosaico e tem a ver com a maneira como está organizada a sinalética indicativa de direcções nas estradas portuguesas, sobretudo na saída das cidades.


O principal problema que surge é o de a sinalização ser feita, não em torno da direcção principal, mas de destinos secundários, certamente importantes a nível local, mas absolutamente ineficientes para visitantes que desconheçam o local e estejam de passagem. Cá para mim a resolução do problema nem é complicada e devia-se organizar, em cada região, em duas ou três direcções principais repetidas em todos os cruzamentos principais e rotundas, por forma a que ninguém se perca inadvertidamente. E se mesmo um português tem dificuldade em se orientar no puzzle de direcções das inevitáveis rotundas que cercam as nossas cidades e vilas, que dizer de um estrangeiro?


O problema agrava-se se entrarmos dentro das vilas ou cidades em vez de nos ficarmos pelas circulares. Às vezes nem no centro existem indicações concretas da forma de sair.


Nunca percebi porque é que, nas principais cidades e nós rodoviárias, não existe uma sinaléctica principal que indique a direcção sul ou norte, ou, se quisermos, Lisboa e Porto ou Lisboa e Faro. O mais frequente é encontrar uma placa, por exemplo, em Leiria, que diga Lisboa e que depois durante duas ou três rotundas deixa de aparecer, substituída por umas placas de destinos locais – é preciso ter o mapa de Portugal bem metido na cabeça para descobrir quais dos destinos assinalados se encaixam na direcção de Lisboa e quais se encaixam na direcção Porto. Também é muito frequente encontrar placas de auto-estradas – tipo A 24, sem que há indicação de qual o trajecto – o destino – que proporcionam.


Aqui há uns meses estiva no belíssimo Quinta das Lágrimas, em Coimbra, e vi-me aflito para sair de lá, de regresso a Lisboa, para apanhar a trivial A1, tal o emaranhado de indicações e ausência de direcções principais que Coimbra infelizmente apresenta.


Bem sei que estamos na época em que o GPS se tornou uma acessório trivial, mas para aqueles que o não possuem, a saída de uma cidade portuguesa – Lisboa incluída – é um verdadeiro quebra cabeças. Imagino o que será um estrangeiro a amaldiçoar o dia em que decidiu ser um turista automobilista em Portugal… 

 

junho 15, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Junho)

 


ELEIÇÕES I – Mais do que nunca o segredo da vitória nos próximos actos eleitorais vai ser conquistar o centro do espectro político – é aí que residem os medos da ingovernabilidade, é aí que está a classe média espremida e asfixiada pelo Estado; mais do que nunca vão valer coisas simples como o respeito pelas pessoas, a ausência de arrogância; mais do que nunca vai ser premiada a honestidade e penalizada a chicana e o insulto ou a insinuação. Estas eleições mostram isso – e mostram também que o eleitorado pode estar disposto a obrigar os políticos a fazerem consensos e acordos, rejeitando maiorias absolutas e forçando a inevitabilidade de acordos pós eleitorais. A ingovernabilidade fora do cenário da maioria absoluta é um papão cujo resultado prático está à vista de todos.

 

ELEIÇÕES II – As empresas de sondagens, sobretudo aquelas dirigidas por quem quer ser estrela de televisão à viva força, precisam de se reciclar; melhor, precisam de ser vigiadas e auditadas por um entidade independente, um Instituto que as certifique e garanta transparência de processos. A utilização de sondagens no período de campanha e até ao dia do voto tornou-se numa arma política, o que obriga a muitos mais cuidados já que a realidade tem mostrado que existe quem se preste a fornecer material de guerrilha em vez de estudos sérios. As sondagens, quando honestas, são obviamente úteis, e a proibição da sua divulgação nas 48 horas anteriores às eleições nem sequer é benéfica hoje em dia – mas a seriedade tem que ser premiada e as falsificações grosseiras denunciadas. Nestas eleições houve muitos erros, erros a mais, erros suspeitos, alguns deles erros recorrentes que dão que pensar. Alguém devia certificar a actividade destas empresas. E seria lógico que o funcionamento do mercado, na área das empresas de comunicação, principais clientes das sondagens, punisse quem erra tanto.

 

ELEIÇÕES III – A debandada da esquerda nas eleições europeias – na generalidade dos países e nomeadamente naqueles onde está no Governo – tem especiais reflexos, sobretudo num cenário pós-Obama, que naturalmente era suposto favorecer os inimigos naturais de Bush e louvar o seu sucessor. Mas o eleitorado europeu disse que desconfia do aumento do peso do Estado, do aumento de impostos, dos planos de salvação da crise feitos à pressa e, sobretudo, começou a desconfiar dos partidos socialistas que navegam na chamada terceira via e que perderam identidade. Os partidos de esquerda que se aproximaram do centro direita – em Portugal, Espanha e Reino Unido - são os grandes derrotados do processo. Em Portugal, boa parte dos votos reivindicados por Manuel Alegre já se percebeu que saíram do PS, para outros partidos à sua esquerda.

 

ELEIÇÕES IV – O que sobressai dos resultados das Europeias em Portugal é um atenuar da bipolarização, um ressurgimento do papel de charneira dos pequenos partidos. A consequência que isto pode ter nas próximas legislativas e autárquicas é enorme. A estas horas António Costa olha com redobrada atenção para Helena Roseta, que também deve estar a fazer contas a quanto vale o seu compromisso – tanto mais que em Lisboa-cidade foi o PSD o vencedor no Domingo passado.

 

ELEIÇÕES V – A quase duplicação dos votos em branco e a abstenção elevada são sintomas do clima que existe e merecem ser estudados – estas eleições tiveram muitos novos eleitores e o aumento dos votos em branco pode ser, nesta conjuntura, um sinal de que os mais jovens eleitores não se revêem no sistema partidário. Outro tema que tem que ser encarado com vontade política é o da actualização dos cadernos eleitorais – da maneira que estão nunca ninguém saberá qual a abstenção verdadeira – o que dá jeito a muita gente…

 

ELEIÇÕES VI – O inefável blog «Causa Nossa» onde Vital Moreira fez carreira a louvaminhar Sócrates até ser escolhido para candidato, esteve estranhamente mudo atè às 15h00 de segunda feira passada. Nem Vital, nem Ana Gomes, os dois autores deste blog que mais nele postam, deram sinais da sua graça. Esclarecedor.

 

LER – Estas alturas pós-eleitorais são boas para arrumar ideias. Nestes dias mais recentes muito se tem escrito sobre comunicação. Por isso mesmo pode ser interessante ler um livro recentemente editado em Portugal pela «Relógio D’Água» e que reúne conferências e entrevistas dadas por Marshall McLuhan, um dos grandes teóricos da comunicação na segunda metade do século XX. Esta recolha de textos data de 2003, tem uma bela introdução de Tom Wolfe. O livro começa com uma conferência sobre os efeitos revolucionários dos novos meios de comunicação, datada de 1959 e termina com a derradeira conferência de McLuhan, proferida pouco antes de morrer, em 1979, um texto notável e profético intitulado «O Homem E Os Meios». Muito do que acontece hoje no Mundo, em termos de comunicação, está explicado neste livro.

 

OUVIR – Melody Gardot não tem felizmente uma daquelas vozinhas perfeitas e cheias de melodia que se tornaram uma monótona característica do jazz vocal dos últimos anos. A sua voz é dura, a maneira de cantar é saudavelmente imperfeita, o que deixa espaço à interpretação – isso mesmo se pode ver na forma como no seu novo disco, «My One And Only Thrill» canta o clássico «Over The Rainbow». Os arranjos são saudavelmente heréticos em relação ao padrão habitual do soft jazz, neste disco com influências latinas na forma de pontuar o ritmo e em que a maior parte das composições são da própria Gardot. Destaque para «Who Will Confort Me», «Les Etoiles» e para o tema que dá o nome ao CD, «My One And Only Thrill». A produção é de Larry Klein, conhecido pelas suas colaborações com Joni Mitchell, Freddie Hubbard, Herbie Hancock e Madeleine Peyroux, entre outros.

 

BACK TO BASICS – O meu voto é sempre contra alguém – W.C. Fields

 

 

junho 05, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Junho)

ELEIÇÕES – Domingo 7 de Junho arranca o ciclo eleitoral deste ano, com as Europeias. Mais à frente, depois do Verão, vêm as Autárquicas e as Legislativas. A Lei Eleitoral, na sua essência, tem mais de 30 anos e não contempla nem os meios de comunicação electrónicos nem as possibilidades de participação política on-line, é uma lei analógica e manual, num mundo digital e automático. Cada vez mais se sente que os partidos políticos são estruturas esclerosadas, afastadas dos cidadãos durante todo o período não eleitoral, que fazem listas de candidatos que depois não vão ocupar os seus lugares. Enquanto isto não mudar é muito difícil que novos eleitores se mobilizem, que a abstenção diminua – na realidade a culpa do afastamento da participação cívica não é dos cidadãos, é dos políticos e dirigentes partidários. Por exemplo, no caso da Europa, por não quererem referendar o Tratado de Lisboa (que entretanto ficou esquecido…) e por preferirem pedir votos numas eleições onde, de facto, a discussão europeia quase não existe. 

 


 


PORTUGAL - As promessas eram muitas e saíram ao contrário – desde as reformas, aos impostos, a realidade é dura: no final destes anos de Governo do PS, Portugal tem a maior dívida externa de sempre, a maior taxa de desemprego dos últimos 25 anos e um deficit inédito. O balanço da eficácia de Sócrates é terrível e parece um cutelo sobre a cabeça dos portugueses. Da mesma maneira que a recompensa aos gestores não pode premiar o falhanço, o voto nas eleições não deve beneficiar os maus resultados dos políticos no poder. 

 


 


LISBOA – Que está a acontecer à minha cidade? Nestes dias de calor as ruas já cheiram mal, o estacionamento continua a ser desordenado, as ruas continuam estranguladas, os semáforos descomandados, as obras surgem por todo o lado e alteram o dia a dia das pessoas. Sabe-se que o Tribunal de Contas considerou o contrato da EMEL com a Street Park ilegal, mas o Presidente da EMEl diz que não. Os agentes da EMEL provocam e brincam com as pessoas, são rapidíssimos e abusadores a bloquear e lentíssimos e indiferentes a desbloquear. No meio disto tudo Lisboa não tem um Provedor do Munícipe, alguém a quem os alfacinhas se possam queixar dos abusos e atropelos da Câmara ou de empresas municipais. Desde que me lembro, nunca viver em Lisboa foi tão desagradável. 

 


 


VER – A exposição «Photo España 2009» no Museu Colecção Berardo mostra trabalhos de Mabel Palacín e de Cristóbal Hara, este último verdadeiramente surpreendente na sua interpretação dos ritos quotidianos, na forma como trabalha a cor, nos enquadramentos rigorosos, na capacidade de captar momentos únicos, na maneira de utilizar a fotografia enquanto veículo para uma interpretação da realidade. A exposição fica até 26 de Julho e é uma das boas mostras de fotografia, comissariada por Sérgio Mah, repescado por Madrid, depois de Lisboa ter deitado para o lixo o seu mês da fotografia. 

 


 


OUVIR – O novo disco de Caetano Veloso «Zii e Zie» evidencia o regresso de Caetano à sua melhor forma depois de um período de alguma confusão e banalidade. Sonoridades fortes, uma banda bem eléctrica com arranjos ousados, ritmos inesperados, canções que agarram com textos bem humorados e irónicos, como nos melhores tempos do artista. Fica feita a minha reconciliação com Caetano Veloso – agora de novo em fase bem inspirada. 

 


 


LER – Já se sabe que não perco oportunidade para recomendar a revista «Monocle» - uma revista mensal que curiosamente parece ser a grande inspiradora em termos editoriais e gráficos de um jornal diário, o «i». Na «Monocle» de Junho muitos motivos de interesse, mas permito-me sublinhar dois, do burgo: um, o destaque para os divertidos cadernos de notas da portuguesíssima Editora Serrote (eu descobri-os há uns tempos na livraria Pó dos Livros, Av. Marquês de Tomar – www.serrote.com); outro para a zona de Lisboa que a «Monocle» resolveu eleger – o Príncipe Real e a D. Pedro V, com sugestões de lojas e locais, um toque cosmopolita na variedade de nacionalidades que estão nesses locais, não esquecendo o mercado semanal do Princípe Real (Tyler Brulé, director da revista, defende que as autoridades deviam proteger e dar boas condições de instalação a estes mercados de produtos naturais). Na próxima edição a «Monocle» promete elaborar uma lista de questões urbanísticas essenciais para tornar uma cidade interessante. 

 


 


NOITES – A LX Factory, em Alcântara, onde dantes eram as instalações da Gráfica Mirandela, é agora um dos locais mais animados de Lisboa. A enorme área, onde ainda estão restos de algumas das rotativas que imprimiram gerações de jornais portugueses, é um verdadeiro oásis criativo, uma aldeia urbana movimentada com pequenas e menos pequenas agências de publicidade, gabinetes de design, ateliers de arquitectura, lojas, mas também bares, restaurantes, uma galeria de arte contemporânea e a livraria Ler Devagar. Um dos bares, Lollypop, com um terraço frente ao Tejo, ameaça tornar-se num ponto incontornável da noite lisboeta deste Verão. Antes de subir ao terraço pode sempre comer qualquer coisa na Cantina (serviço simpático) onde o espaço marcadamente industrial está ainda bem à vista. Resta saber o que irá acontecer a esta ilha de criatividade quando o plano Alcântara XXI fôr para a frente. Enquanto dura, é aproveitar – esclareça-se desde já a populaça que a transformação do local neste pólo de animação é de responsabilidade privada, do grupo imobiliário Mainside, que adquiriu os 23.000 metros quadrados da antiga instalação industrial.


 


BACK TO BASICS - Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política – Conceição Pequito.

junho 03, 2009

UMA FARSA ELEITORAL

(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Junho) 


Começo por dizer que não sou um fanático da ideia da Europa, sou crítico em relação ao funcionamento da Comunidade e tenho sérias reservas sobre o comportamento do Banco Central Europeu nos primórdios da crise. Em geral acho que um grupo restrito de grandes países condicionam políticas importantes, como a agrícola, forçando modelos que liquidam pequenos países periféricos, como Portugal. Pessoalmente acho o Parlamento Europeu um exemplo de uma instituição irrelevante que verdadeiramente ninguém leva a sério. Mas, no entanto, ele existe e vai a votos para determinar quem lá está – coisa que acontece dentro de dias.


Os partidos políticos também não fazem muito para ajudar: não sei se já repararam, mas na realidade, nestas eleições, os candidatos falam de política interna (ou de politiquice rasteira no caso de Vital Moreira), e não se lembram de falar sobre a Europa, sobre a necessidade de Portugal se bater por objectivos concretos na política agrícola, ou na política das pescas, ou ainda em apoios específicos em determinadas áreas tradicionais de actividade artesanal ou industrial.


A coisa vai a tal ponto que ainda não vi nenhum candidato falar sobre esse milagreiro Tratado de Lisboa, que foi cavalo de batalha e arma de propaganda de Sócrates na primeira metade da legislatura, e que agora está dado como desaparecido – nem o seu autor o evoca não se vá dar o caso de alguém se lembrar que ele se gabou de fazer uma coisa que afinal não foi concretizada….


Mas nestas eleições há coisas que me fazem muita confusão: se o PS permanentemente diz que é o partido mais europeísta de todos os partidos, porque é que nos lugares elegíveis para o Parlamento Europeu coloca em simultâneo duas candidatas autárquicas, a cidades tão importantes como o Porto e Sintra? Uma vez que têm eleição certa candidatam-se apenas para, depois, desistirem e cumprirem a quota da presença feminina nestas listas? Ou uma vez eleitas deixam de querer ser autarcas? Em qualquer dos casos esta dupla candidatura é uma demonstração de enorme desprezo pelo eleitorado e assemelha-se a uma farsa de mau gosto.


Num livro recente uma Professora de Ciência Política, Conceição Pequito, faz uma afirmação incontornável: «Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política». O que se passa nestas eleições é a prova disto mesmo. 

 

junho 02, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 29 de Maio)

IMPOSTOS – A mais extraordinária proposta deste ciclo eleitoral veio de Vital Moreira, que defende um novo Imposto Europeu, que permita aumentar as receitas fiscais da Comunidade para fazer face ao aumento das despesas. Vai-se a ver e este replicante eleitoral do Avô Cantigas metamorfoseou-se num cobrador de impostos transformista. Mas a coisa tem uma vantagem, a da clareza: o programa eleitoral do PS é aumentar impostos, pelo menos isso ficou claro. 


 


EUROPA – Nestas Europeias faz falta, faz muita falta mesmo, um partido anti-europeísta, alguém que contrarie a doutrina da construção europeia – até o Bloco de Esquerda agora já se instalou em Bruxelas e por lá pretende permanecer. E faz falta, sobretudo, um debate sério sobre o papel da Europa na reacção à crise, uma análise do comportamento do Banco Central Europeu, um balanço sério do que tem sido a construção europeia e o funcionamento das suas instituições. Isso é que não vejo ninguém a fazer e, sinceramente, isso era o mínimo dos mínimos. 


 


POLÍTICA – Num recente debate na TVI 24, Nuno Morais Sarmento pôs o dedo na ferida, acentuando ainda mais o que tem sido a preocupação de muita gente sobre o funcionamento do sistema político português. Resumidamente, a tese defendida por Morais Sarmento é a de que a organização política regulamentada no pós 25 de Abril, desde o funcionamento partidário até aos processos eleitorais, foi legislada há mais de 30 anos e neste tempo tudo mudou radicalmente no que toca à forma de mobilização das pessoas, à sua participação na sociedade, passando pelas transformações na comunicação e o próprio funcionamento das instituições.. O tema é actualíssimo se queremos diminuir a abstenção, aumentar a participação no debate de ideias, tornar as instituições mais próximas dos cidadãos, conseguir mobilizar mais gente, e, sobretudo, se queremos que os mais novos participem no processo, discutam os problemas, tomem posição e votem. Não querer ver a necessidade de fazer reformas radicais no sistema político e no sistema partidário é pura cegueira – ou então é intencional para que cada vez existam menos votantes. 


 


POLÍCIA - De há uns tempos para cá, aproveitando um vazio legal, alguns responsáveis da PSP têm interferido na organização de concertos, fiscalizando e até detendo quem está a controlar bilhetes e acessos. Nalguns casos - como no concerto de Lenny Kravitz - a coisa tem contornos de abuso de poder. Era bom que o secretário de Estado da Administração Interna, José Magalhães, averiguasse se algum responsável das polícias, mais sensível aos lobbies das empresas de segurança, não estará a extravasar das suas competências e funções. É que as empresas de segurança reivindicam, com a prestável e talvez abusiva ajuda da PSP, esta área de negócio, mas não têm competências nem formação em áreas como controlo de multidões e encaminhamento de espectadores. Na realidade sei de casos em que, chamadas a fazer este serviço, usam vigilantes de portaria indiferenciados para estas tarefas, pessoas sem o mínimo de formação ou sensibilidade. O Governo fazia bem em prevenir estes abusos policiais, este apadrinhamento pela PSP de reivindicações privadas - qualquer dia a falta de pessoal especializado pode provocar algum acidente e depois estou para ver quem se responsabiliza - talvez a PSP...  


 


FILM COMMISSION – Como todos sabem Nova Orleães foi vítima, em 2005, de uma violenta tempestade que arrasou a cidade e colocou em causa a até o seu equilíbrio financeiro. Passados estes anos a cidade criou forma de captar investimento da produção audiovisual norte-americana, graças a um conjunto de incentivos locais, investimento em infra-estruturas (estúdios) e um bom trabalho de apoio às produções graças à Film Commision local. Em 2005 a cidade havia atraído nove projectos de produção para cinema e televisão, e em 2008 já atraíu 21, que injectaram directamente 230 milhões de dólares na economia local. Numa altura em que este assunto volta a ser falado em Portugal – mas em que a maior parte dos projectos continua quase parado, talvez valha a pena estudar estes exemplos e, sobretudo, perceber de uma vez por todas que as Film Commissions não são departamentos turísticos que mostram bonitas paisagens e gabam a luz e o sol – são unidades de negócio que se baseiam na existência de incentivos fiscais e na disponibilização de infra-estruturas. Sem isso, tudo o resto é fantasia. 


 


NÃO COMER – Como o sol finalmente voltou esta semana a dar um ar da sua graça, resolvi um dia destes ir almoçar à esplanada do largo frente ao Teatro de São Carlos. A experiência correu muito mal: o serviço é insuportavelmente desatento, mas o pior é a falta de qualidade na confecção da comida. Para os preços praticados a oferta é fraca, muito fraca mesmo. Provou-se uma massa com salmão sem graça nem história e um risotto fora de ponto, sensaborão, que parecia banhado em corante, acompanhado por três raquíticas gambas que nem semi descascadas estavam e com uma maçã passada e disforme como ornamento. O vinho branco, pedido a copo, foi servido fora da vista dos clientes e não estava à temperatura adequada. No fim, a conta veio enganada, com uma parcela a mais, naquele velho truque de ver se ninguém repara. No meio da refeição, por duas vezes, voaram chapéus de sol com o vento – pelos vistos não estão presos com segurança. De facto deve existir uma maldição nas esplanadas lisboetas que dificulta o seu funcionamento – o Teatro de São Carlos faria bem em mudar de concessionário, o local merecia melhor. 


 


OUVIR – Se gostam de jazz, do piano de Bill Evans e da voz de Tony Bennett não podem perder uma reedição histórica acabada de lançar pela Fantasy/ Universal: «The Complete Tony Bennett/ Bill Evans Recordings». Neste duplo CD estão agrupados os dois discos gravados em 1975 e 1976 com uma cuidada selecção de standards norte-americanos e ainda registos inéditos das sessões de gravação e misturas alternativas dos mesmos tempos registadas na época. Mas só o facto de serem reeditados os discos «The Tony Bennett/ Bill Evans Álbum» (1975) e «Together Again» (1976), possibilitando que muitos os agora descubram, é por si só razão mais que suficiente para elogiar esta edição.  


 


BACK TO BASICS - Prefiro ter jornais e não ter o Governo, a ter o Governo num país onde não existam jornais - Thomas Fefferson   

maio 27, 2009

ELEIÇÕES, JUSTIÇA E VISTORIAS

 


(Publicado no diário Meia Hora de 26 de Maio)

 

Começou oficialmente esta semana o período de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. É o início de um ciclo de três eleições que se arrastam durante cinco meses e que prometem marcar o dia-a-dia do país. Em cada um dos três actos eleitorais os partidos serão aferidos pelo que têm andado a fazer – o que muito provavelmente penalizará o PS. Há quatro anos atrás Sócrates estava confiante de que conseguiria diminuir o desemprego e resolver alguns problemas estruturais do país. Em vez disso o desemprego cresceu violentamente, a situação económica deteriorou-se muito e as reformas que quis fazer foram perdendo velocidade. A repetição da maioria absoluta parece um objectivo muito difícil de alcançar – até porque o eleitorado parece ter-se cansado do estilo absolutista de Governo que o núcleo duro de Sócrates imprimiu.

 

Nestas eleições para o Parlamento Europeu uma coisa que me espanta é que ninguém põe em causa a Europa, tal como Bruxelas a desenha actualmente, as vozes contra o Tratado de Lisboa são fracas. O unanimismo na questão europeia, em Portugal, sempre me pareceu interesseiro: ninguém se quer pôr contra a Europa porque os fundos comunitários dão muito jeito – mesmo que a sua execução seja miserável e mesmo que aquilo a que eles obrigam, em termos nacionais, seja um preço muito alto. Eu gostava de ter uma posição anti-europeia ou pelo menos uma forte voz crítica – essa teria o meu voto.

 

A justiça portuguesa é extraordinária e, infelizmente, caricata: o Tribunal de Faro considerou provadas as agressões a Leonor Cipriano dentro de um edifício da PJ mas nenhum dos agentes envolvidos no caso foi condenado pela prática de tortura, apesar de o Juiz considerar que ela existiu. O polémico ex-inspector Gonçalo Amaral foi condenado por falso depoimento, outro inspector, António Cardoso, foi condenado por falsificação de documento e os outros três membros da PJ presentes no interrogatório , Leonel Marques. Paulo Pereira Cristóvão (o que quer ser dirigente do Sporting…) e Paulo Marques Bom foram – pasme-se - todos absolvidos. Na altura a Judiciária dizia que as marcas no corpo de Leonor Cipriano se deviam a uma queda – agora o Tribunal confirmou tortura, mas afinal todos os envolvidos no caso estão inocentes. Há qualquer coisa nisto tudo que anda muito mal.

 

O acidente no carrossel em Matosinhos vem chamar a atenção para a necessidade de vistorias e certificações competentes. Quando há um acidente destes ninguém assume culpas de haver fiscalizações mal feitas e licenças emitidas de ânimo leve.

 

maio 25, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de maio)

 


 


 


MUDE – O Museu do Design e da Moda abriu ontem com grande propaganda. Acontece que o que foi inaugurado é uma mostra provisória da colecção, que ficará estrategicamente exposta apenas até Outubro, coincidindo portanto com o período eleitoral. O edifício da Rua Augusta que vai acolher a colecção ainda não teve obras, há-de ter depois, e o Museu propriamente dito é apenas uma intenção por enquanto – mas já se percebeu que as coisas foram feitas tão à pressa que não está seguro qual será o programa de utilização total do edifício, ex-BNU, e da sua divisão por várias entidades – na realidade até já vieram a lume umas disputas. A exposição esta semana inaugurada foi apenas um pretexto de propaganda eleitoral de António Costa que, na realidade, não teve nenhum papel na aquisição das colecções Capelo, mas de cujo usufruto mediático rapidamente se apropriou. Os festejos incluíram a edição de uma revista de 266 páginas, distribuída em banca, e com uma tiragem de 25.000 exemplares, e que em tudo surge como umas edição essencialmente propagandística e eleiçoeira. Adiante se saberá quanto custou esta acção e quantos exemplares se venderam – que é para depois se medir o efeito prático, comunicacional, efectivo, da acção. A publicação resume-se a um catálogo das colecções marcado por dois textos – um auto-propagandístico de António Costa e outro panegírico em relação ao mesmo Costa, escrito por Francisco Capelo, o próprio. Ambos deixam de lado um pormenor histórico – que foi o de esta colecção pertencer agora à cidade de Lisboa porque em 2003 houve uma decisão nesse sentido por parte do Presidente da Câmara da época, Pedro Santana Lopes, que não aparece citado em lado algum. Recordo que ele tomou essa decisão – polémica na época -  perante a intenção manifestada por Capelo de querer levar a colecção para fora do país. Reescrever a história, apagando nomes e factos, é uma atitude pouco digna e nada séria. 




PARLAMENTO – Para memória futura: no espaço de apenas uma semana o PS quis impedir que o Parlamento ouvisse declarações do polémico Presidente do Eurojust, Lopes da Mota, e de Francisco Marcelino, o ilusionista que dirige o Instituto de Emprego e Formação Profissional e que tem artes de fazer diminuir o número de empregados graças a oportunos lapsos informáticos e metodológicos.
 

 


 


SINTOMÁTICO – Num panorama destes, Manuel Alegre decidiu reformar-se do Parlamento e desistiu de ir a votos, não integrando as próximas listas do PS. Todos aqueles que diziam que ele vale um milhão de votos ficarão agora na dúvida do peso eleitoral que ele possa de facto ter – fora da tribuna parlamentar onde durante décadas se baseou para a sua acção política, Manuel Alegre fica reduzido a bem pouco. A dúvida está em saber se saiu das listas do PS para intensificar tomadas de posição críticas, ou se perde palco e protagonismo.  

 


 


POPULAR – O fim do Museu de Arte Popular, decidido na semana passada em Conselho de Ministros, mostra como o Estado subalterniza a produção artística e artesanal de origem popular, subalternizando o seu estatuto cultural. Além da colecção e do edifício, perde-se a oportunidade de ter junto ao rio um pólo de atracção turística, que será substituído por um «Museu da Língua» que ninguém sabe bem o que será, mas que é copiado de uma instituição que alguns governantes de Sócrates viram no Brasil e acharam tecnologicamente muito interessante. Para assegurar que a delapidação do património avance chamou-se, como vem sendo hábito quando se trata de estragar a cidade, a Sociedade da Frente Ribeirinha do Tejo, igualmente incumbida por este Governo dos desmandos do Museu dos Coches e da Praça do Comércio. Disto – que afecta, e bastante, Lisboa – nada diz António Costa.  

 


 


FOTOGRAFIA – Semana rica em exposições de boa fotografia: Inês Gonçalves e Kiluange Liberdade mostram S. Tomé e Príncipe na Galeria Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes, às Amoreiras) e uma visão diferente de Luanda, esta na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-3º); na P4Photography (Rua dos Navegantes 16), o moçambicano José Cabral merece ser descoberto com a inesperada exposição «Urban Angels»; e por fim, num outro registo, Pedro Tropa, na Quadrado Azul (Largo Stephens 4) mostra os seus desenhos e fotografias sob a designação «Cahier de Cent Dessins» numa instalação intimista. 

 


 


LER – Tanta fotografia – e tanta polémica em torno da fotografia e dos critérios do prémio BES – tornam muito oportuno ler a reedição de «A Câmara Clara», de Roland Barthes, agora feita pelas edições 70. É obviamente um texto datado mas as reflexões de Barthes sobre a imagem fotográfica continuam oportunas, certeiras e sagazes – muito mais quando hoje assistimos a alguma estética baseada em verdadeiras mistificações, que ele bem localizou. 

 


 


VER – A instalação de Fernanda Fragateiro «Construir É Destruir É Construir», no Museu da Electricidade, em Lisboa é baseada em três momentos diversos, todos evocando formas de sentir paisagens, sintetizadas na frase-manifesto pintado em mural no exterior - «A Paisagem Não Tem Dono». 

 


 


PETISCAR – A Loja dos Açores abriu recentemente em Lisboa, na Avenida Elias Garcia  57, e, além de alguns produtos de artesanato oferece a possibilidade de se fazer uma petisqueira só com produtos do arquipélago – desde queijos a enchidos (como as reputadas morcelas) ou fumados, passando por doces (como o doce de Capuchos), até à carne dos afamados bovinos locais, os licores florais e até biscoitos.  

 


 


 


 


OUVIR – O novo disco da cabo-verdeana Lura, «Eclipse», mistura uma produção mais ao gosto internacional com repertório tradicional e contemporâneo de Cabo Verde, composições de B.Leza , Toy Vieira ou Orlando Pantera. Menos tropical que discos anteriores, inesperadamente surpreendente como em «Tabanka» ou «Canta um Tango», este «Eclipse» surge como um curioso ponto de redefinição na direcção da carreira de Lura. (CD Lusafrica) 

 


 


BACK TO BASICS -  As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam, Almada Negreiros   

maio 19, 2009

A ARTE POPULAR

(Publicado no diário «Meia Hora» de 19 de Maio

 


O Museu de Arte Popular, em Belém, está encerrado há cerca de três anos e o seu espólio foi transportado em caixotes para o Museu de Etnologia, onde permanece fechado em caixotes e inacessível do público. O edifício original, o único que restou da Exposição do Mundo Português, está agora ameaçado por um projecto de adaptação que o ameaça tornar irreconhecível. Inaugurado em Julho de 1948, foi projectado por Jorge Segurado e no seu interior e nas suas paredes tinha frescos e obras de nomes como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira. Durante anos reuniu uma colecção única de artesanato e arte popular que inspirou gerações de artistas e que atraía milhares de pessoas.


Apesar de tudo isto, na semana passada o Conselho de Ministros aprovou naquele local a instalação do Museu da Língua e o processo de concretização desta transformação foi entregue à Sociedade Frente do Tejo SA, uma entidade que parece estar destinada a ficar para a História como coveira de Lisboa – veja-se o caso dos contentores, da renovação da Praça do Comércio, do estapafúrdio novo Museu dos Coches e agora da destruição do Museu de Arte Popular.


A ideia do Museu da Língua, que é uma espécie de bandeira da muito coxa política cultural deste Governo, não é uma criação original – na realidade trata-se de uma cópia de um museu, muito tecnológico, com o mesmo nome que uns membros do actual governo português viram há tempos em S.Paulo e acharam muito engraçado. O facto resume uma maneira de pensar política e cultura: para fazer obra nova copia-se alguma coisa que se viu lá fora e destrói-se algo de original e nacional e que era único. Na dinamização do Museu de Arte Popular não se quis investir, mas na sua destruição e na construção do novo Museu da Língua o Estado vai colocar 2,5 milhões de euros. Isto diz tudo.


A atitude do Governo espelha o entendimento dominante dos políticos sobre a Cultura: o que é popular na origem e consegue ter público não tem estatuto. Esta forma de estar contamina tudo e prejudica o desenvolvimento de formas de expressão contemporâneas e populares. Em Portugal, ao contrário de muitos outros locais com uma criação artística florescente, a cultura popular é considerada menor. Infelizmente, a relação do Estado com a cultura popular está exemplarmente demonstrada nesta liquidação do Museu de Arte Popular. Melhor seria que quem nos governa admitisse o erro e voltasse atrás neste disparate. Para mais informações e formas de protesto vejam o blog www.museuartepopular.blogspot.com . 

 

maio 18, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 15 de Maio)

 


PROPAGANDA - Esta semana soube-se que uma empresa que se apresentava como sendo da área das energias alternativas, e que por isso era apoiada pelo Governo, afinal não cumpria os requisitos do sector. O problema não está no engano, está na pressa em arranjar pretextos de propaganda, sem cuidar exactamente do que são. O que o caso prova é que o Governo nem na propaganda estuda bem os dossiers e que, afinal, liga pouca importância à qualidade dos fornecedores de energias alternativas que escolhe como exemplos. Nisto tudo há uma novidade: começa a haver algum desgoverno na propaganda do Governo.

 

INAUGURAÇÕES - António Costa é verdadeiramente bom a inaugurar iniciativas ou obras que foram imaginadas pelos seus antecessores. Mas em dois anos de mandato ainda não apareceu com uma ideia verdadeiramente nova que esteja em andamento e que os seus sucessores possam inaugurar. Para a semana, com pompa e circunstância, António Costa inaugurará o Museu do Design e da Moda, mostrando finalmente uma colecção garantida para a cidade no tempo de Santana Lopes. Ainda bem que ela agora vê a luz do dia, ainda mal que Costa se aproveite do trabalho dos outros para fazer uma campanha na área cultural, em que a sua governação tem sido particularmente desastrosa.



DESNECESSÁRIO - Ao fim destes dois anos de mandato o tal Zé que o Bloco de Esquerda dizia que fazia falta revelou-se, politicamente, uma barriga de aluguer. A sempre errática actuação de José Sá Fernandes oscila entre ceder praças da cidade para serem montras publicitárias e proibir os partidos de aí colocarem cartazes políticos. Na realidade ele tornou-se no exemplo acabado do género de troca tintas que não fazem falta nenhuma na política.

 

PENSAMENTO OCIOSO  - Depois de a Farinha Maizena ter este mês recebido uma inesperada boleia publicitária do Ministro da Economia, Manuel Pinho, a grande dúvida é saber quais são os políticos que obtiveram os cargos que têm na Farinha Amparo. Decididamente, em tempo de crise, as farinhas estão na mó de cima. 

  

OBSERVAÇÃO ACIDENTAL- Esta semana dei comigo a pensar que o número de manchetes de jornais e revistas, com base em declarações de responsáveis judiciais, é inversamente proporcional à eficácia da justiça.  

 

LIVRO - «Luz Indecisa», um livro de poemas de José Mário Silva, é das boas novidades editoriais do ano. Com uma sensibilidade invulgar e uma utilização da escrita que tem em conta o ritmo das palavras, José Mário Silva consegue, neste seu segundo livro de poesia, tornar encantador o quotidiano com relatos de instantes e observações fugazes do que nos rodeia. Com um raro sentido de economia na utilização das palavras, sente-se que cada poema escrito é depurado na procura da simplicidade – e é a simplicidade que mais atrai neste livro. Edição «Oceanos»

 

 

OUVIR – Os Oquestrada existem há algum tempo e fizeram carreiras entre bares, festas arraiais e muitos palcos percorridos ao longo de sete anos. A receita não é muito vulgar: inspirações ciganas, um toque de fado vadio, concertina dos grupos de baile, ritmos dos Balcãs, melodias da Córsega, ventos árabes. De tudo isto se fez a música de festa dos Oquestrada, aqui retratada pela primeira vez num disco, «Tasca Beat – O Sonho Português». Quem os conhece de ouvir cantar por esse país fora ou das gravações que iam circulando, trauteia-lhes as cantigas de cor, com alegria. Nas noites de verão é bom ouvir este disco, creio que propositadamente imperfeito, com o pé a bater o compasso e o calor a invadir-nos pela energia da música. A voz podia ser melhor, a técnica mais apurada, os pastiches menos evidentes – mas é isso que faz a espontaneidade de um grupo de baile com um fundo deliciosamente cabotino. CD Sony Music.

 

PROVAR – Andei uns tempos a evitar lá ir, sabendo eu que não faço parte do clube de fãs de Luís Baena. Mas agora lá fui, levado, ao Terraço do Tivoli, que desde que reabriu é dirigido por este «chef» . A ida passou-se ao almoço e as coisas não correram bem. O buffet pode ser exótico mas é um pouco descuidado – e algo desconexo - para o espaço nobre de restauração do Hotel e, francamente, o resultado da escolha feita na lista estava muito longe do ideal, em parte graças a uma confecção pouco atenta que deixou o peixe seco, embora montado de forma muito arquitectónica no meio do prato, sobre o acompanhamento. Confirmei as minhas impressões anteriores: Baena é melhor para a vista que para o paladar. O serviço continua exemplar , a garrafeira é de eleição e a vista é fantástica. Mas isso já era assim antes das obras. No Tivoli, magnífico hotel da Avenida da Liberdade, fico-me pela Brasserie e pelos encantos renovados do seu bar de entrada, nestes fins de tarde.

 

FOLHEAR – A propósito do lançamento do novo filme sobre a saga Star Treck, a edição norte-americana da revista «Wired» fez um número especial dedicado ao fantástico, ao misterioso, ao oculto. Em destaque cientistas loucos e histórias bizarras, lugares estranhos no planeta, truques de carta, cultos e bizarrias. A direcção editorial deste número especial foi de J.J. Abrams, o realizador e /ou criador de «Lost», «Alias», «Fringe», «Missão Impossível 3» e, claro, do novo «Star Trek». O próprio Adams assina um texto inspirador, «A Magia do Mistério», que é toda uma revelação sobre a forma como ele está no mundo. Os fanáticos de David Lynch (eu sou, reconheço), apreciarão uma foto assinada por ele na página 111, e que o próprio se encarregou de divulgar no twitter. A capa da revista, «The Mistery Issue», é toda ela um programa…

 

BACK TO BASICS – Mesmo nesta idade de imediatismos poucas coisas são melhores do que descobrir e descodificar as alegrias escondidas que a vida nos proporciona – JJ Abrams.

maio 13, 2009

O COSTA DA CULTURA

(Publicado no diário Meia Hora de 12 de Maio)


Esta semana li, algo surpreendido, um texto de propaganda sobre o que seria a política cultural da Câmara Municipal de Lisboa, protagonizada por António Costa. Publicada no sábado no «Público», a reportagem mostra um António Costa – pela primeira vez no seu mandato – preocupado com as questões da política cultural.


Presidente de uma vereação onde a Cultura é actividade acessória, confinada a estudos estratégicos de programa pré-definido e universo estreito, António Costa pouco mais fez do que mostrar como é presa de preconceitos e de lugares comuns, evitando falar de coisas concretas.


A estratégia de António Costa nesta matéria é curiosa: em vez de fazer uma política para a cidade, fez uma política e desenvolveu uma estratégia para querer seduzir pessoas, organizações e instituições ligadas às actividades culturais, dentro de um círculo razoavelmente restrito e com elevada dose de fidelidade política – na prática desprezou os públicos. O resultado é que a cidade perdeu aura, embora algumas pessoas tenham ganho ocupação subsidiada.


As iniciativas populares e o entretenimento – áreas marcantes da cultura popular contemporânea – têm-lhe merecido desprezo, substituídas por apoios avulsos a iniciativas muito especializadas e demasiado sectoriais. Mesmo num dos seus cavalos de batalha – a multiculturalidade, o seu mandato fica marcado pela extinção do África Festival, substituído por uma África.cont. que ainda ninguém sabe bem o que será e que, a bem dizer, não existe além do papel.


Mas o pior do curto mandato de António Costa em Lisboa tem sido a sua submissão ao Governo: foi assim com a Colecção Berardo, em que a Câmara devia ter imposto a solução do pavilhão de Portugal, na Expo, como equipamento receptor; foi assim no caso do inconcebível projecto do Museu dos Coches; foi assim na discutível transformação do Pavilhão dos Desportos num Museu do Desporto que ninguém sabe bem o que será e para que servirá.


O facto de em Lisboa conviverem instituições culturais nacionais com locais faz com que a Câmara deva ter voz activa nos equipamentos que estão na cidade. Mas como António Costa se demitiu desse assunto para não afrontar o Governo, Lisboa está no marasmo em que se encontra – à procura da fonte milagreira de onde brote o elixir que num instante transforme Lisboa numa cidade criativa – difícil quando se quer regulamentar e planificar a criatividade em vez de a deixar fluir. 

 

maio 11, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Maio)

 


BERLIM - No último fim-de-semana estive em Berlim, onde já não ía há uns 18 anos, pouco tempo depois da queda do Muro, portanto. A minha primeira ida a Berlim tinha sido ainda no tempo da divisão e a parte ocidental da cidade tinha então uma vida fantástica e um ambiente especial, comparada com o ar macambúzio da parte oriental. Uns anos mais tarde, já sem Muro, Berlim era uma cidade confusa, atípica, sem nenhuma da graça nem da aura que antes tinha. Agora, renasceu. Este ano completam-se 20 anos da queda do Muro e a transformação é total. A parte oriental é a mais animada, com melhor arquitectura contemporânea, cheia de vida e movimento e no entanto sossegada nas pequenas ruas por detrás das grandes avenidas. É uma cidade acolhedora, simpática e onde – apesar da barreira do idioma – qualquer turista se sente bem. Faz muita impressão pensar em como Lisboa era há 20 anos e é agora – está pior; e uma cidade que há 20 anos estava dividida e destroçada, cheias de zonas áridas, é agora um verdadeiro paraíso urbano. Alguém por cá devia aprender com o que se fez em Berlim.

 

BURACOS - Quando penso na Avenida da República e nas Avenidas Novas, no que eram e no que são agora, é impossível não me revoltar contra os sucessivos poderes autárquicos que parecem conjugados em destruir Lisboa, em favorecer demolições e construções novas em vez de recuperações, numa Câmara apostada em proteger especuladores imobiliários e em desprezar os habitantes da Cidade. Boa prova desse desprezo está no caos de toda a zona do Saldanha, esventrada por obras do Metro que há anos se atrasam no prazo de conclusão sem que ninguém seja responsabilizado, de novo adiadas para o fim do ano.

 

INCÚRIA - Mesmo ao pé do meu local de trabalho está há umas semanas em demolição um prédio de gaveto, daqueles que foi deixado apodrecer ao longo dos anos para não ter recuperação possível e permitir a construção de algum novo edifício. Esta semana, à hora de almoço, aconteceu um acidente – caiu no meio da rua parte da fachada, por incúria de quem estava a fazer a demolição. Quem dá alvarás a empresas de demolição? Quem as fiscaliza? Quem vai punir este acidente? – Só por acaso os escombros não atingiram alguém.

 

LER - Dois artigos magníficos na «Vanity Fair» de Maio. O primeiro, sobre o roubo da «Mona Lisa» do Louvre, ocorrido em 1911 – ao que parece o roubo terá servido para uma quadrilha de falsificadores venderem a coleccionadores norte-americanos com poucos escrúpulos pelo menos seis cópias perfeitas do quadro de Da Vinci, obviamente cada um convencido de que estava a comprar a obra roubada. O original acabou por ser localizado ano e meio mais tarde, já todo o negócio estava feito e a intenção dos ladrões nunca foi vendê-lo, mas sim aproveitar o momento – muito mais lucrativo vender seis que apenas um… O outro artigo é sobre a crise que começa a assolar o «New York Times», tido como um exemplo do bom jornalismo e um case study de uma boa transição para o on line. O artigo, magnífico, devia ser dado a todos os gestores de empresas jornalísticas, para que percebam quais as questões fundamentais do negócio onde estão envolvidos.

 

PROIBIR - Parece que a cadeia de supermercados «Jumbo» se recusou a vender a reedição da obra «A Casa dos Budas Ditosos» de João Ubaldo Ribeiro (autor brasileiro que ganhou o Prémio Camões em 2008), por considerar a obra pornográfica. É um bocadinho assustador que um qualquer responsável de compras de uma mercearia gigante se arme em censor e guardião dos bons costumes, mas a verdade é que um dia destes, ao entrar no Jumbo das Amoreiras com um livro que andava a ler debaixo do braço, um dos seguranças de serviço me queria colocar um autocolante por cima da capa do livro, estragando-o. Quando os funcionários tratam assim os livros não é de admirar que outros se armem em censores. No meio disto li uma ridícula declaração de alguém do «Jumbo» sobre o livro censurado que é um perfeito manual de incompetência em matéria de relações públicas e comunicação.



 

RECORDAR – A minha geração foi a primeira que cresceu a ouvir os Xutos – eu tinha vinte e poucos anos quando os vi pela primeira vez e foi com muita alegria que há uns 17 anos li «Conta-me Histórias», um livro sobre a vida da banda escrito por Ana Critina Ferrão. Esse livro – o relato de um encantamento, como escrevi na altura - foi agora reeditado, revisto e aumentado, numa magnífica nova edição, mais uma vez com a chancela da Assírio e Alvim. É uma bela e indispensável peça na celebração dos 30 anos dos Xutos.

 

OUVIR – O disco que me acompanha nestes dias é o novo de Bob Dylan, «Together Through Life». As suas dez canções (nove escritas por Dylan e pelo ex-Grateful Dead Robert Hunter), são retratos cáusticos destes tempos que correm, com uma instrumentação dura mas simples, com laivos de blues e bayou, misturando acordeão com banjo e bandolim, tudo produzido de forma crua e eficaz pelo próprio Dylan sob o seu habitual pseudónimo musical de Jack Frost. Cito um dos temas mais marcantes, «Forgetful Heart»: "All night long/I lay awake and listen to the sound of pain/The door has closed forevermore/If indeed there ever was a door." E termino com outra canção arrebatadora, «It’s All Good»: "Big politician telling lies/Restaurant kitchen, all full of flies/Don't make a bit of difference".

 

PROVAR – Se de repente estiver com vontade de experimentar boa comida oriental descubra um restaurante tailandês chamado «Sete Pecados» - boa qualidade de produtos, muito boa confecção, tempero adequado, serviço amigável e familiar. Os petisquinhos do couvert são deliciosos e se gosta de cerveja experimente a tailandesa «Singha», de sabor invulgar mas muito interessante. Av. Luís Bívar 7ª, telefone 213160529.

 

BACK TO BASICS – Uma notícia é aquilo que alguém desejaria que não fosse publicado; publicidade é todo o resto do conteúdo dos jornais - William Randolph Hearst2008)

 

maio 07, 2009

UMA OUTRA FRENTE

(Publicado no diário Meia Hora de 5 de Maio)


 


O que eu gostava para Lisboa era que fosse constituída uma Frente Para a Qualidade de Vida dos lisboetas. O que eu gostava para Lisboa era que a autarquia se empenhasse em manter o que está bem, recuperar o que precisa de obras e preservar o que merece ser estimado. O que eu gostava era de ver menos prédios derrubados, mais prédios recuperados, menos fúria de nova construção. E gostava muito de ver ruas limpas, bem tratadas, com árvores, passeios largos, esplanadas – o que se vê em outras cidades de pior clima e em Lisboa é uma raridade.

A Avenida da República e as avenidas novas são um exemplo do mal que foi feito à cidade ao longo dos anos. Belos edifícios foram demolidos só para que novos e geralmente desinteressantes prédios fossem erguidos. Em Portugal privilegia-se infelizmente a demolição e a construção em vez da preservação. Ao lado do local onde trabalho, um centenário e elegante edifício de gaveto foi apodrecido para ser demolido. Perdeu-se a mercearia que fornecia produtos rurais de boa qualidade e a alternativa única de compra está nos supermercados, todos iguais. Tudo isto vais descaracterizando a cidade, tornando-a mais incómoda para quem nela vive, tudo isto diminui a qualidade de vida, a possibilidade de escolha e, também, a diversidade das actividades económicas.

Outro exemplo? - Quem manda em Lisboa não se preocupa em resolver os incómodos, só isso explica que as obras do Metropolitano, que esventram toda a área do Saldanha, tenham sucessivos prazos de conclusão, cada vez mais longos. Estes atrasos não são penalizados? Quem manda no Metro?

Em ano de eleições lá aparece a recuperação dos quiosques – o que é uma boa medida, por sinal entregue e alguém que tem cuidado da tradição dos produtos portugueses – Catarina Portas. Mas mesmo a maneira como a Câmara tratou do assunto cheira mais a propaganda do que a estratégia, e o contraste com o abandono a que outros espaços são votados e à falta de medidas integradas (a Avenida da Liberdade é o exemplo mais gritante), provoca a maior desconfiança.

O que eu gostava era que espaços como o jardim do Campo Grande fossem bem cuidados, não fossem deixados quase ao abandono, que tivessem bons locais de encontro, esplanadas simpáticas e bom serviço. O estado em que o Campo Grande está é uma ofensa à cidade – simbolicamente em frente a um edifício onde estão alojados muitos dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa.

 

maio 04, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 30 de Abril

 


PRIORIDADES - Leio com atenção o artigo de Mário Soares no «Diário de Notícias» sobre o 25 de Abril e uma estratégia para Portugal. Soares fala em quatro quintos do artigo sobre memórias do tempo em que foi protagonista e diz que o país está à beira de uma nova era «política, financeira, económica, ambiental, energética e, sobretudo, de valores». Muito sintomaticamente não fala da maior crise da sociedade portuguesa – que é o não funcionamento da justiça, com o que ela traz – o implícito benefício de quem não a cumpre e o não reconhecimento de quem faz as coisas como deve. Uma geração de políticos, mairotariamente advogados e juristas, como Mário Soares, deixaram como legado um país onde a Justiça não funciona. E fazer com que funcione é um imperativo estratégico – senão, não há nem economia, nem valores que resistam. O artigo acaba por ser a confissão de que, para os políticos, a justiça não é uma prioridade.

 

LISBOA - Cá para mim António Costa pode bem ser o mentor escondido da Frente de Esquerda. É ele quem tem a ganhar politicamente se a Frente surgir, a acção em si é típica de políticos à antiga como ele (que evocam com saudade a época do frentismo e gostam da táctica da unidade para expurgarem o campo em que se movem), e claramente esvaziaria de sentido as aventuras de Helena Roseta e deixaria o Bloco encurralado – sendo que com o PCP, como antes já aconteceu, pode sempre fazer-se um acordozito. Acho que a coisa já esteve mais longe de poder acontecer do que está na realidade e a pressão sobre quem ficar de fora vai ser enorme – de cisionistas a aliados da reacção vão ouvir de tudo. Com o inefável José Sá Fernandes na primeira linha do combate frentista, aposto.

 

CAPILÉ - Na terça feira de manhã escrevi isto no Twitter e no Facebook: «Tanta conversa sobre os quiosques de refrescos já aborrece - fazem mais falta esplanadas decentes na Av. da Liberdade que hinos ao capilé». Esta afirmação desencadeou uma guerra de opiniões, coisa boa e que é aliás o que me anima a lançar frases fortes – que de qualquer maneira correspondem ao que eu sinto, quando há uma desproporção entre a promoção e o seu objecto – como é o caso.

 

LER – Eis um bom exemplo de como um livro de ensaios, e para mais sobre cultura contemporânea, pode ser um estimulante exercício para o pensamento – mesmo quando se percebe que o autor, como é compreensível, valoriza o seu ponto de vista e subalterniza o dos outros – o que proporciona aliás alguns momentos divertidos, por serem tão assertivos. Mas, divertimentos à parte, «À Procura de Escala», de António Pinto Ribeiro (não, não é o Ministro, que esse não pensa nem age sobre Cultura) é um conjunto de cinco textos que faz bem o ponto de situação de uma determinada lógica de pensar a política e a actividade cultural no sentido da criação de um gosto – desse ponto de vista é talvez o mais sólido resumo do que foi o verdadeiro fundamento da política a que Carrilho quis chamar de sua. («À Procura da Escala», de António Ponto Ribeiro, Livros Cotovia).

 

VER - Uma sugestão para todos os que gostaram de ver e ouvir o maestro venezuelano Gustavo Dudamel no Coliseu de Lisboa no passado fim de semana: existe no mercado português um óptimo DVD onde Dudamel dirige a Orquestra Juvenil Simon Bolívar, gravado em 2007. O repertório é bem diferente do que ele aqui interpretou e inclui a «Eroica» de Beethoven, a «Danza Final» do argentino Alberto Ginastera e «Huapango» do mexicano José Pablo Moncayo. Atractivo suplementar, um documentário sobre como foi criada e funciona esta orquestra que impressiona tanta gente. DVD Deutsche Grammophon, distribuído pela Universal.

 

OUVIR – J.P. Simões é um dos mais interessantes e polifacetados músicos contemporâneos portugueses. Ao longo da sua carreira esteve com os Pop Dell Arte, fundou os Bellechase Hotel e criou o Quinteto Tati antes de iniciar a sua carreira a solo, que já leva dois discos editados. Pelo meio escreveu em jornais, fez bandas sonoras para filmes, escreveu um livro de contos, e tem dado concertos um pouco por onde calha, muitas vezes sozinho em palco com a sua viola. Admirador confesso de Chico Buarque, de quem as influências até na forma de cantar se notam, J.P. Simões é um compositor de invulgar talento e um intérprete notável. Eu acho que não é exagero considerá-lo o melhor da sua geração e o novo disco, acabado de editar e gravado maioritariamente ao vivo, «Boato», é prova disso mesmo. Não são só as canções, é o ambiente, a forma de tocar, o que está escrito e como é cantado – tudo tem aquele raro toque de génio que volta e meia nos faz parar a corrida para ouvir o que se passa à nossa volta.

 

DESCOBRIR - Nesta época de crise da imprensa é bom ver como no sector das revistas há alguma coisa diferente. O grupo editorial norte-americano Condé Nast decidiu acabar com a sua revista de economia e negócios, «Portfolio», mas ao mesmo tempo decidiu lançar a «Wired» no Reino Unido. Neste número inaugural da edição europeia surgiram novos temas e novas formas de abordagem relativamente à americana, com o futuro como tema de capa.

 

PETISCAR – Podia ser uma barra espanhola bem fornecida, como o Luciano em Ayamonte, mas é uma boa taberna portuguesa em Setúbal. Chama-se Taberna Grande, fica na Rua das Fontainhas 30 e apresenta um conjunto de propostas para petiscar com fartura e qualidade, de pataniscas a torresmos, passando por polvo à galega, presunto, requeijão e doce de abóbora a condizer. Recomenda-se apenas maior atenção na fritura – por vezes imperfeita e pesada. A garrafeira tem boas propostas regionais e o espaço é confortável, mesmo quando está cheio. Telefone 309847226.

 

BACK TO BASICS – A justiça deve ser mantida viva pelo espírito e não pela forma da Lei – Earl Warren