maio 11, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Maio)

 


BERLIM - No último fim-de-semana estive em Berlim, onde já não ía há uns 18 anos, pouco tempo depois da queda do Muro, portanto. A minha primeira ida a Berlim tinha sido ainda no tempo da divisão e a parte ocidental da cidade tinha então uma vida fantástica e um ambiente especial, comparada com o ar macambúzio da parte oriental. Uns anos mais tarde, já sem Muro, Berlim era uma cidade confusa, atípica, sem nenhuma da graça nem da aura que antes tinha. Agora, renasceu. Este ano completam-se 20 anos da queda do Muro e a transformação é total. A parte oriental é a mais animada, com melhor arquitectura contemporânea, cheia de vida e movimento e no entanto sossegada nas pequenas ruas por detrás das grandes avenidas. É uma cidade acolhedora, simpática e onde – apesar da barreira do idioma – qualquer turista se sente bem. Faz muita impressão pensar em como Lisboa era há 20 anos e é agora – está pior; e uma cidade que há 20 anos estava dividida e destroçada, cheias de zonas áridas, é agora um verdadeiro paraíso urbano. Alguém por cá devia aprender com o que se fez em Berlim.

 

BURACOS - Quando penso na Avenida da República e nas Avenidas Novas, no que eram e no que são agora, é impossível não me revoltar contra os sucessivos poderes autárquicos que parecem conjugados em destruir Lisboa, em favorecer demolições e construções novas em vez de recuperações, numa Câmara apostada em proteger especuladores imobiliários e em desprezar os habitantes da Cidade. Boa prova desse desprezo está no caos de toda a zona do Saldanha, esventrada por obras do Metro que há anos se atrasam no prazo de conclusão sem que ninguém seja responsabilizado, de novo adiadas para o fim do ano.

 

INCÚRIA - Mesmo ao pé do meu local de trabalho está há umas semanas em demolição um prédio de gaveto, daqueles que foi deixado apodrecer ao longo dos anos para não ter recuperação possível e permitir a construção de algum novo edifício. Esta semana, à hora de almoço, aconteceu um acidente – caiu no meio da rua parte da fachada, por incúria de quem estava a fazer a demolição. Quem dá alvarás a empresas de demolição? Quem as fiscaliza? Quem vai punir este acidente? – Só por acaso os escombros não atingiram alguém.

 

LER - Dois artigos magníficos na «Vanity Fair» de Maio. O primeiro, sobre o roubo da «Mona Lisa» do Louvre, ocorrido em 1911 – ao que parece o roubo terá servido para uma quadrilha de falsificadores venderem a coleccionadores norte-americanos com poucos escrúpulos pelo menos seis cópias perfeitas do quadro de Da Vinci, obviamente cada um convencido de que estava a comprar a obra roubada. O original acabou por ser localizado ano e meio mais tarde, já todo o negócio estava feito e a intenção dos ladrões nunca foi vendê-lo, mas sim aproveitar o momento – muito mais lucrativo vender seis que apenas um… O outro artigo é sobre a crise que começa a assolar o «New York Times», tido como um exemplo do bom jornalismo e um case study de uma boa transição para o on line. O artigo, magnífico, devia ser dado a todos os gestores de empresas jornalísticas, para que percebam quais as questões fundamentais do negócio onde estão envolvidos.

 

PROIBIR - Parece que a cadeia de supermercados «Jumbo» se recusou a vender a reedição da obra «A Casa dos Budas Ditosos» de João Ubaldo Ribeiro (autor brasileiro que ganhou o Prémio Camões em 2008), por considerar a obra pornográfica. É um bocadinho assustador que um qualquer responsável de compras de uma mercearia gigante se arme em censor e guardião dos bons costumes, mas a verdade é que um dia destes, ao entrar no Jumbo das Amoreiras com um livro que andava a ler debaixo do braço, um dos seguranças de serviço me queria colocar um autocolante por cima da capa do livro, estragando-o. Quando os funcionários tratam assim os livros não é de admirar que outros se armem em censores. No meio disto li uma ridícula declaração de alguém do «Jumbo» sobre o livro censurado que é um perfeito manual de incompetência em matéria de relações públicas e comunicação.



 

RECORDAR – A minha geração foi a primeira que cresceu a ouvir os Xutos – eu tinha vinte e poucos anos quando os vi pela primeira vez e foi com muita alegria que há uns 17 anos li «Conta-me Histórias», um livro sobre a vida da banda escrito por Ana Critina Ferrão. Esse livro – o relato de um encantamento, como escrevi na altura - foi agora reeditado, revisto e aumentado, numa magnífica nova edição, mais uma vez com a chancela da Assírio e Alvim. É uma bela e indispensável peça na celebração dos 30 anos dos Xutos.

 

OUVIR – O disco que me acompanha nestes dias é o novo de Bob Dylan, «Together Through Life». As suas dez canções (nove escritas por Dylan e pelo ex-Grateful Dead Robert Hunter), são retratos cáusticos destes tempos que correm, com uma instrumentação dura mas simples, com laivos de blues e bayou, misturando acordeão com banjo e bandolim, tudo produzido de forma crua e eficaz pelo próprio Dylan sob o seu habitual pseudónimo musical de Jack Frost. Cito um dos temas mais marcantes, «Forgetful Heart»: "All night long/I lay awake and listen to the sound of pain/The door has closed forevermore/If indeed there ever was a door." E termino com outra canção arrebatadora, «It’s All Good»: "Big politician telling lies/Restaurant kitchen, all full of flies/Don't make a bit of difference".

 

PROVAR – Se de repente estiver com vontade de experimentar boa comida oriental descubra um restaurante tailandês chamado «Sete Pecados» - boa qualidade de produtos, muito boa confecção, tempero adequado, serviço amigável e familiar. Os petisquinhos do couvert são deliciosos e se gosta de cerveja experimente a tailandesa «Singha», de sabor invulgar mas muito interessante. Av. Luís Bívar 7ª, telefone 213160529.

 

BACK TO BASICS – Uma notícia é aquilo que alguém desejaria que não fosse publicado; publicidade é todo o resto do conteúdo dos jornais - William Randolph Hearst2008)

 

maio 07, 2009

UMA OUTRA FRENTE

(Publicado no diário Meia Hora de 5 de Maio)


 


O que eu gostava para Lisboa era que fosse constituída uma Frente Para a Qualidade de Vida dos lisboetas. O que eu gostava para Lisboa era que a autarquia se empenhasse em manter o que está bem, recuperar o que precisa de obras e preservar o que merece ser estimado. O que eu gostava era de ver menos prédios derrubados, mais prédios recuperados, menos fúria de nova construção. E gostava muito de ver ruas limpas, bem tratadas, com árvores, passeios largos, esplanadas – o que se vê em outras cidades de pior clima e em Lisboa é uma raridade.

A Avenida da República e as avenidas novas são um exemplo do mal que foi feito à cidade ao longo dos anos. Belos edifícios foram demolidos só para que novos e geralmente desinteressantes prédios fossem erguidos. Em Portugal privilegia-se infelizmente a demolição e a construção em vez da preservação. Ao lado do local onde trabalho, um centenário e elegante edifício de gaveto foi apodrecido para ser demolido. Perdeu-se a mercearia que fornecia produtos rurais de boa qualidade e a alternativa única de compra está nos supermercados, todos iguais. Tudo isto vais descaracterizando a cidade, tornando-a mais incómoda para quem nela vive, tudo isto diminui a qualidade de vida, a possibilidade de escolha e, também, a diversidade das actividades económicas.

Outro exemplo? - Quem manda em Lisboa não se preocupa em resolver os incómodos, só isso explica que as obras do Metropolitano, que esventram toda a área do Saldanha, tenham sucessivos prazos de conclusão, cada vez mais longos. Estes atrasos não são penalizados? Quem manda no Metro?

Em ano de eleições lá aparece a recuperação dos quiosques – o que é uma boa medida, por sinal entregue e alguém que tem cuidado da tradição dos produtos portugueses – Catarina Portas. Mas mesmo a maneira como a Câmara tratou do assunto cheira mais a propaganda do que a estratégia, e o contraste com o abandono a que outros espaços são votados e à falta de medidas integradas (a Avenida da Liberdade é o exemplo mais gritante), provoca a maior desconfiança.

O que eu gostava era que espaços como o jardim do Campo Grande fossem bem cuidados, não fossem deixados quase ao abandono, que tivessem bons locais de encontro, esplanadas simpáticas e bom serviço. O estado em que o Campo Grande está é uma ofensa à cidade – simbolicamente em frente a um edifício onde estão alojados muitos dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa.

 

maio 04, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 30 de Abril

 


PRIORIDADES - Leio com atenção o artigo de Mário Soares no «Diário de Notícias» sobre o 25 de Abril e uma estratégia para Portugal. Soares fala em quatro quintos do artigo sobre memórias do tempo em que foi protagonista e diz que o país está à beira de uma nova era «política, financeira, económica, ambiental, energética e, sobretudo, de valores». Muito sintomaticamente não fala da maior crise da sociedade portuguesa – que é o não funcionamento da justiça, com o que ela traz – o implícito benefício de quem não a cumpre e o não reconhecimento de quem faz as coisas como deve. Uma geração de políticos, mairotariamente advogados e juristas, como Mário Soares, deixaram como legado um país onde a Justiça não funciona. E fazer com que funcione é um imperativo estratégico – senão, não há nem economia, nem valores que resistam. O artigo acaba por ser a confissão de que, para os políticos, a justiça não é uma prioridade.

 

LISBOA - Cá para mim António Costa pode bem ser o mentor escondido da Frente de Esquerda. É ele quem tem a ganhar politicamente se a Frente surgir, a acção em si é típica de políticos à antiga como ele (que evocam com saudade a época do frentismo e gostam da táctica da unidade para expurgarem o campo em que se movem), e claramente esvaziaria de sentido as aventuras de Helena Roseta e deixaria o Bloco encurralado – sendo que com o PCP, como antes já aconteceu, pode sempre fazer-se um acordozito. Acho que a coisa já esteve mais longe de poder acontecer do que está na realidade e a pressão sobre quem ficar de fora vai ser enorme – de cisionistas a aliados da reacção vão ouvir de tudo. Com o inefável José Sá Fernandes na primeira linha do combate frentista, aposto.

 

CAPILÉ - Na terça feira de manhã escrevi isto no Twitter e no Facebook: «Tanta conversa sobre os quiosques de refrescos já aborrece - fazem mais falta esplanadas decentes na Av. da Liberdade que hinos ao capilé». Esta afirmação desencadeou uma guerra de opiniões, coisa boa e que é aliás o que me anima a lançar frases fortes – que de qualquer maneira correspondem ao que eu sinto, quando há uma desproporção entre a promoção e o seu objecto – como é o caso.

 

LER – Eis um bom exemplo de como um livro de ensaios, e para mais sobre cultura contemporânea, pode ser um estimulante exercício para o pensamento – mesmo quando se percebe que o autor, como é compreensível, valoriza o seu ponto de vista e subalterniza o dos outros – o que proporciona aliás alguns momentos divertidos, por serem tão assertivos. Mas, divertimentos à parte, «À Procura de Escala», de António Pinto Ribeiro (não, não é o Ministro, que esse não pensa nem age sobre Cultura) é um conjunto de cinco textos que faz bem o ponto de situação de uma determinada lógica de pensar a política e a actividade cultural no sentido da criação de um gosto – desse ponto de vista é talvez o mais sólido resumo do que foi o verdadeiro fundamento da política a que Carrilho quis chamar de sua. («À Procura da Escala», de António Ponto Ribeiro, Livros Cotovia).

 

VER - Uma sugestão para todos os que gostaram de ver e ouvir o maestro venezuelano Gustavo Dudamel no Coliseu de Lisboa no passado fim de semana: existe no mercado português um óptimo DVD onde Dudamel dirige a Orquestra Juvenil Simon Bolívar, gravado em 2007. O repertório é bem diferente do que ele aqui interpretou e inclui a «Eroica» de Beethoven, a «Danza Final» do argentino Alberto Ginastera e «Huapango» do mexicano José Pablo Moncayo. Atractivo suplementar, um documentário sobre como foi criada e funciona esta orquestra que impressiona tanta gente. DVD Deutsche Grammophon, distribuído pela Universal.

 

OUVIR – J.P. Simões é um dos mais interessantes e polifacetados músicos contemporâneos portugueses. Ao longo da sua carreira esteve com os Pop Dell Arte, fundou os Bellechase Hotel e criou o Quinteto Tati antes de iniciar a sua carreira a solo, que já leva dois discos editados. Pelo meio escreveu em jornais, fez bandas sonoras para filmes, escreveu um livro de contos, e tem dado concertos um pouco por onde calha, muitas vezes sozinho em palco com a sua viola. Admirador confesso de Chico Buarque, de quem as influências até na forma de cantar se notam, J.P. Simões é um compositor de invulgar talento e um intérprete notável. Eu acho que não é exagero considerá-lo o melhor da sua geração e o novo disco, acabado de editar e gravado maioritariamente ao vivo, «Boato», é prova disso mesmo. Não são só as canções, é o ambiente, a forma de tocar, o que está escrito e como é cantado – tudo tem aquele raro toque de génio que volta e meia nos faz parar a corrida para ouvir o que se passa à nossa volta.

 

DESCOBRIR - Nesta época de crise da imprensa é bom ver como no sector das revistas há alguma coisa diferente. O grupo editorial norte-americano Condé Nast decidiu acabar com a sua revista de economia e negócios, «Portfolio», mas ao mesmo tempo decidiu lançar a «Wired» no Reino Unido. Neste número inaugural da edição europeia surgiram novos temas e novas formas de abordagem relativamente à americana, com o futuro como tema de capa.

 

PETISCAR – Podia ser uma barra espanhola bem fornecida, como o Luciano em Ayamonte, mas é uma boa taberna portuguesa em Setúbal. Chama-se Taberna Grande, fica na Rua das Fontainhas 30 e apresenta um conjunto de propostas para petiscar com fartura e qualidade, de pataniscas a torresmos, passando por polvo à galega, presunto, requeijão e doce de abóbora a condizer. Recomenda-se apenas maior atenção na fritura – por vezes imperfeita e pesada. A garrafeira tem boas propostas regionais e o espaço é confortável, mesmo quando está cheio. Telefone 309847226.

 

BACK TO BASICS – A justiça deve ser mantida viva pelo espírito e não pela forma da Lei – Earl Warren

abril 27, 2009

Publicado no «Jornal de Negócios» de 24 de Abril 2009

ALERTA – Espera-se que em relação aos polémicos investimentos públicos previstos, e contestados pela maioria dos economistas de referência da área do PS, não sejam assinados à pressa contratos que comprometam o futuro, a seis meses de eleições. O problema é que o caso Freeport chegou onde chegou porque, no mínimo, os timings em que foi aprovado proporcionam que surjam suspeitas.  

 


 


ENTREVISTA – O discurso do Primeiro-Ministro transmitido pela RTP na passada terça-feira resumiu-se a um exercício de propaganda em matéria política e económica e à afirmação de ameaças relativamente ao caso Freeport. Pelo meio ficaram verdadeiras pérolas, como a de considerar como absolutamente normal tratar as opiniões de jornalistas como calúnias passíveis de perseguição criminal. É verdade que existe uma campanha negra em Portugal – mas é a que o Primeiro-Ministro move contra quem o critica, é a campanha negra do Governo contra a liberdade de expressão e de informação, que foi levada ao extremo quando José Sócrates, no exercício do cargo de Primeiro-Ministro se armou em crítico de televisão e analista de comunicação e atacou os noticiários de um canal de televisão pelo simples facto de reportar factos que lhe são pessoalmente incómodos. Nos tempos que correm temos um Primeiro-Ministro que persegue notícias e opiniões publicadas na imprensa e persegue os seus autores, ao mesmo tempo que se veste de vítima. Hugo Chávez, com quem Sócrates tem uma boa relação, também se incomodava com uma estação de televisão e, para resolver o problema, mandou encerrá-la. A cobardia política anda sempre de mãos dadas com a intolerância.


 

 


 


 


LISBOA – A Frente que quer a união à esquerda nas eleições autárquicas da capital procura apenas a junção de interesses espúrios, de circunstância e conveniência, suficientes para assegurar a vitória duvidosa de uma esquerda sem ideias e com uma prática de direita – os dois anos que António Costa leva como Presidente da Câmara são prova disso. Curioso é que esse período de dois anos seja exactamente o mesmo tempo que Santana Lopes levou no exercício efectivo do mesmo cargo, em Lisboa. Basta comparar o que foi feito, em igual tempo, por um e por outro. Costa claramente sai a perder. A sua herança é uma cidade suja, descuidada, agreste para quem a habita. 

 


 


PERGUNTA – O que é feito do processo da Casa Pia que de repente não se ouve falar do caso? Não é estranha a forma como a justiça funciona, ao arrastar casos durante anos até que venham a cair no esquecimento? 

 


 


DESCOBRIR – Se forem ao You Tube e procurarem na barra de canais o da educação poderão aí encontrar gravações vídeos de palestras e aulas de distintos professores de Universidades tão prestigiadas como Harvard, Yale, Carnegie Mellon ou Stanford. Outro bom sítio para procurar apresentações interessantes do ponto de vista profissional e científico é o www.ted.com , neste caso divididas em áreas que vão do entretenimento ao design, passando por tecnologia ou negócios. 

 


OUVIR – Ida Maria é uma norueguesa de 24 anos que canta com raiva e energia, que canta o que lhe vai no espírito sem atender a conveniências. Seguidora dos Pogues no que toca à quantidade de álcool que ingere antes de actuar, do punk no que toca às palavras e ao estilo, e da new wave no que toca a arranjos e produção – o resultado é aliciante e diferente de tudo o que tem surgido nos últimos anos. É fresco, incómodo como só a boa música o é, e perturbante como as belas canções sabem ser. Ouçam «Oh My God», «Louie» ou «I Like You So Much Better When You Are Naked», três das canções que fazerm de «Fortress Round My Heart» um dos albums a reter para o balance deste ano. Comprado na Amazon. 

 


VER – Uma recomendação no Porto: na Galeria Quase (Rua do Vilar 54), desenhos, fotografias e esculturas de Cristina Ataíde. Os desenhos combinam a grafite com o guache e criam ambientes que se prolongam nas esculturas, que combinam árvores, tecido e chumbo. Algumas fotografias completam a visão de Cristina Ataíde, que persistentemente tem operado nesta diversidade de meios, unidos por um fio condutor balizado pela observação, como se fosse a intervenção deliciosa de um voyeur anarquista sobre o que está à sua volta. 

 


 


FOLHEAR – A revista norte-americana «Rolling Stone» diminuíu de formato e perdeu aquele tamanho invulgar que a caracterizava. Passou a gora ao formato típico das revistas americanas – provavelmente porque o seu público tradicional foi envelhecendo e já não consegue abrir os braços o suficiente para o percorrer as páginas do tamanho antigo. Seja como for, tamanhos à parte, a Rolling Stone lá vai dando conta do recado embora com um tom mais cinzento e conformista do que há uns anos atrás. A publicação ainda é boa para ir vendo o que acontece, mas deixou de ser um guia de tendências. 

 


 


EXPERIMENTAR – Sabores orientais no New Wok; Rua Capelo 24, exactamente na esquina com a Rua Anchieta, frente ao Governo Civil. Não é a  melhor das vizinhanças mas a qualidade dos noodles e a diversidade de propostas, assim como a simpatia do serviço, a decoração do local e o atrevimento de algumas combinações inesperadas tornam o New Wok num sítio a conhecer se tiver vontade de experimentar um dos restaurantes de inspiração asiática mais conseguidos de Lisboa. Experimentem o gelado de sésamo na parte das sobremeses. Telefone 213477189. 

 


 


DESCONTRAIR – Este fim de semana o CCB propõe os seus Dias da Música, este ano dedicados a Bach, com algumas incursões na obra do compositor por músicos de outras áreas, como é o caso de Bernardo Sassetti. É uma programação rica e diversificada, prova provada da falta de razão dos velhos do Restelo que se puseram aos uivos quando a velha «Festa da Música», importada de Nantes e da habilidade comercial de René Martin, foi em boa hora abandonada por Mega Ferreira que preferiu investir numa programação própria. 

 


 


BACK TO BASICS - Bota-Abaixismo é o que o Governo tem andado a fazer ao país – ouvido na rua. 

 

abril 21, 2009

UMA FRENTE SEM SENTIDO

(Publicado no Diário Meia Hora de 21 de Abril)


Na semana passada surgiu o apelo para que em Lisboa se constitua uma frente única de forças políticas de esquerda com o objectivo de evitar o regresso da direita ao poder na cidade, nas próximas autárquicas e para que António Costa continue Presidente. Valerá a pena?


Comecemos por recordar alguns factos. Após um longo período em que Lisboa foi governada pelo PS em coligação com o PCP, primeiro por Jorge Sampaio e depois por João Soares, no final de 2001 o PSD venceu as eleições e Pedro Santana Lopes exerceu a Presidência da Câmara durante perto de dois anos e meio, até ser indicado Primeiro Ministro, no Verão de 2004. Por força da queda política de Carmona Rodrigues, que venceu as eleições de 2005, foram realizadas intercalares autárquicas em Lisboa em Julho de 2007, das quais saiu vencedor António Costa, que concluirá o seu mandato no final do ano, com praticamente o mesmo tempo de exercício de poder, enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, que Pedro Santana Lopes. Portanto, ambos terão tido teoricamente as mesmas possibilidades – até porque, convém recordar, o estado das Finanças da Câmara deixado por Jorge Sampaio e João Soares não era melhor do que aquele encontrado por António Costa. O PS gosta de iludir este pormenor mas o facto é bem real.


Na verdade o balanço comparado dos mandatos de Pedro Santana Lopes e de António Costa não podia ser mais elucidativo: Lisboa agora está sem rumo, faz muitos estudos mas pouca obra, a cidade voltou a estar suja, esburacada, os problemas no urbanismo aumentam, as cedências ao Governo (como na Frente Ribeirinha e nos contentores) aumentam, a reforma do funcionamento do Município parou, a recuperação da Baixa-Chiado desapareceu das conversas, o trânsito está mais caótico e não foi lançada uma única obra infra-estruturante importante.


Para além disso convém recordar que a política de apoio social enquanto Santana Lopes foi Presidente da Câmara foi objectivamente mais à esquerda que a de António Costa e que em matéria de ambiente, cultura e recuperação urbana se fez mais do que se tem feito agora.


Por isso esta Frente é surpreendente: uma Frente que quer juntar pessoas que não conseguem fazer um plano comum, que não conseguem implementar políticas de esquerda quando chegam ao poder, e que deixam a cidade apodrecer, serve para quê?  

 

abril 20, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 17 de Abril)

 


CONCURSO – Decorre actualmente uma competição para escolha do mais horrível cartaz de propaganda política nesta fase do ano eleitoral em curso. A primeira ronda deste concurso encerra no dia das Europeias. PS e PSD estão por enquanto empatados em falta de ideias, originalidade e mau gosto gráfico.

 

ESCOLHA – A escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista ao Parlamento Europeu só pode querer dizer que o PSD resolveu subalternizar a Assembleia da República – na verdade Rangel foi o melhor líder parlamentar do PSD desde há algum tempo e seria natural que ele constituísse um trunfo precioso nas próximas legislativas – até porque, recordemos o assunto, a líder social-democrata não é actualmente deputada e as poucas despesas de oposição feitas pelo PSD têm surgido pela mão de Paulo Rangel, que já é candidato à alcunha de «O Desterrado».

 

CRISE - De um Banco Central espera-se seriedade . Não se espera que seja nem atacante cego nem defensor cerrado do Governo. Espera-se realismo nas projecções, não se espera que mude de direcção como um catavento. Em apenas seis meses a avaliação do Banco de Portugal à situação da economia portuguesa passou de excelente para perigosa. Em que altura exagerou? Constâncio perde a credibilidade à medida que a crise se instala. Era útil e certamente esclarecedor repescar as suas afirmações desde há um ano atrás.

 

LER – A mais recente edição da revista «Egoísta» assume a forma de um gigantesco desdobrável – as páginas não se folheiam apenas, estão produzidas por forma a serem um enorme fole desdobrável, quase a pedir para ser esticado numa parede para aí o podermos ver sempre. Feito sob o tema do «Sonho», este número da «Egoísta» é mais um bom desafio a todas as convenções gráficas. Destaque para o portfolio de Anne Leibowitz, para as fotos de Ana Calhau e para os textos de Pedro Mexia e José Fialho Gouveia, que se destacam entre a rotina pouco imaginativa das demais colaborações. Magnífica na forma, a «Egoísta» precisa de encontrar um ponto de equilíbrio no conteúdo, que, infelizmente, muitas vezes não acompanha o delírio e o sonho do seu grafismo.

 

VER – Abre hoje no Sintra Museu de Arte Moderna uma oportuna exposição dedicada à cerâmica de Rafel Bordalo Pinheiro – cuja fábrica esteve para fechar, e foi comprada pela Visabeira, que pretende recuperá-la – curiosamente uma operação que o Governo apresentou como sendo da sua autoria. Nestes tempos em que tudo serve para fazer propaganda, fica aqui o desejo que esta exposição sirva para publicitar o talento de Bordalo e que contribua para que a obra da fábrica com o seu nome seja mais conhecida e desejada. A exposição tem o título «Da Caricatura À Cerâmica» e pode ser vista até 14 de Junho.

 

HINO - Chegar ao fim de 30 anos de carreira numa banda de rock é obra séria. Chegar ao fim desses 30 anos e fazer uma canção como «Sem Eira Nem Beira» é ainda mais sério. A canção – agora já muita gente a ouviu – é um manifesto de revolta contra a hipocrisia dos políticos. É inevitável que na actual situação se venha a tornar num hino. Mesmo sem intenção deliberada por parte dos Xutos & Pontapés, esta canção do novo álbum da banda é a maior acção de oposição que Sócrates tem pela frente. A canção é boa, a letra é boa, vai ser um êxito, fala dos tempos que correm – tal e qual o que um tema rock é suposto fazer: mexe com as pessoas - «Senhor Engenheiro/Dê-me um pouco de atenção/…/Não tenho eira nem beira/ Mas ainda consigo ver/Quem anda na roubalheira/…». Para conhecer basta fazer busca pelo nome da canção no YouTube.

 

OUVIR – A mais recente compilação da série «Red Hot» chama-se «Dark Was The Night», um título baseado num «blues» tradicional de Blind Willie Johnson, aqui interpretado de forma inesperada pelos Kronos Quartet. A compilação tem dois CD’s, o primeiro baseado em versões de tradicionais norte-americanos – outra surpresa é a versão de Antony para «I Was Young When I Left Home», de Bob Dylan.. O segundo disco agrupa exemplos de alguns dos melhores músicos que farão a história do começo deste século XXI – Arcade Fire, Spoon, Sharon Jones ou Beirut. Outros participantes em mais esta colectânea são Feist, The National e My Brightest Diamond, entre outros. As receitas destinam-se à prevenção da SIDA, como em todas as iniciativas «Red Hot». Edição 4AD, graficamente arrebatadora, como sempre – disponível na Amazon.

 

EQUÍVOCO – O prémio Bes Photo é uma boa ideia em si. A colecção de fotografia do Banco Espírito Santo é uma certeira aposta num meio de expressão que durante muitos anos foi subalternizado. Dito isto, vem a dúvida: a forma como decorre o processo de selecção e, depois, de atribuição de prémio Bes Photo é que já suscita interrogações e, por vezes, perplexidades. O predomínio de uma utilização oportunista da fotografia enquanto muleta para outras expressões plásticas, em detrimento do que lhe é próprio e específico, é o risco que repetidamente se tem corrido - e os resultados deste ano apenas contribuem para agudizar o equívoco. Nunca é boa política que num júri esteja um dos premiados anteriores, nem parece acertado que os nomes que mais seguem a fotografia em Portugal estejam tão ausentes de todo o processo, que privilegia os críticos de artes plásticas generalistas em detrimento de uma abordagem mais especializada. Assim, parece um regresso ao tempo dos jogos florais.

 

PETISCAR – A Mad Pizza iniciou Actividades no Amoreiras Plaza e ganhou reputação graças às suas pizzas de finíssima e estaladiça massa integral – sim, integral e saborosa. A boa novidade é que já podem ser encomendas numa área de proximidade das Amoreiras (de 2ªa a sábado entre as 12 e as 22h, sábados e domingos apenas entre as 12 e as 15h30) pelo telefone 210503561. Os preços estão entre os 5.50 euros e os 11.50 euros), dependendo dos tamanos e do que se coloca na massa). O ideal é mesmo ir uma vez experimentar ao Amoreiras Plaza e ver todas as alternativas existentes.

 

BACK TO BASICS – O objectivo do Rock é fazer as pessoas agirem e reagirem – Marilyn Manson

abril 15, 2009

UM CAMBÃO VISUAL

(publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Abril)

 


As eleições para o Parlamento Europeu estão a revelar-se palco de um campeonato bem mais divertido que a Liga de Futebol: o campeonato do Cartaz Eleitoral Mais Feio. Para já, neste primeiro «round» pré-eleitoral, o PSD, o PS e o MEP estão notoriamente bem colocados para obterem a vitória. Olhando para os cartazes sou levado a pensar que deve ter havido algum conluio entre os mais altos dirigentes de cada partido para promoverem uma espécie de cambão visual – acertaram entre eles apostar na falta de imaginação, de gosto, na má escolha de cores. PS, PSD e MEP estão de facto conjugados e apostados em conseguir dar nas vistas pela má imagem.


Eu por mim até posso achar querido que tenham desistido de fazer cartazes apelativos – assim o pessoal fica mesmo horrorizado com a ideia de ir votar nas eleições Europeias e resolve-se de vez o problema da abstenção: há-de continuar a aumentar. O pior, já se sabe, é a poluição visual que estes cartazes provocam – deve ter sido para nos poupar a tão más vistas que o vereador Sá Fernandes os proibiu no Marquês do Pombal – é que não me passa pela cabeça que ele tivesse outras intenções, sendo uma pessoa tão dedicada a fazer jogo limpo, a não misturar justiça com política, a evitar manobras e malandrices. A sorte dele é que o combate aos cartazes feios ainda não tinha começado quando foi candidato…


Eu percebo a angústia dos departamentos de propaganda dos partidos: com tanta eleição este ano logo, se havia de começar pela menos interessante de todas – assim, em vez de gastarem energias e baterias para mandar uns quantos para Bruxelas e Estrasburgo, fazem a coisa pelo simples e adoptam o estilo «Quanto Pior, Melhor».


A minha curiosidade agora recai no cartaz do PP – saber como podem eles entrar neste campeonato com a equipa de candidatos que têm – todos muito mais apelativos visualmente que qualquer dos apresentados por outros partidos, todos mais elegantes e com melhores cores. Por outro lado, sei, de fonte segura, que no PSD a equipa de imagem está a fazer figas para que o candidato escolhido para o Parlamento Europeu não seja Marques Mendes – é que existe o receio de que seja adoptado o slogan « Ò tempo volta p’ra trás»… 

 

abril 13, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 9 de Abril)

 


REGIME – O comportamento recente de José Sócrates, enquanto cidadão que é Primeiro Ministro, indicia que a natureza do regime  está em mudança. Ao patrocinar processos judiciais contra jornalistas e colunistas, processos que têm por alvo opiniões e não factos, Sócrates abriu o precedente de pretender condicionar o exercício da liberdade de crítica e de opinião. Compreendo que José Sócrates não fique satisfeito com o que lê sobre si – mas mais valia pedir contenção e juízo aos seus amigos, nomeadamente do grupo de Macau do PS, com Alberto Costa à cabeça, que se envolveram em cenas muito pouco edificantes em matéria política e de cidadania.

 

NAVEGAR – Imperdível o novo blogue de Bernardo Pires de Lima e Pedro Marques Lopes – www.uniaodefacto.blogs.sapo.pt . Por exemplo: «Vital Moreira entrou na campanha em grande. Não por ter ao seu lado o Dr. Soares, antigo pró-americano e companhia habitual de Frank Carlucci em inúmeras fotografias, mas por ter colocado a posição de Sócrates e Luís Amado em causa. Ficámos baralhados. Ao nível de Estado, o apoio vai para Durão Barroso. Ao nível eleitoralista, a apoio não vai para Barroso. Vital já conseguiu um apoio entusiasta de Ana Gomes, o suficiente para que Sócrates e Amado venham a terreiro pôr um fim à brincadeira. Vital é um brincalhão. Sócrates não anda para gracinhas. Isto ainda vai dar direito a processo.»

 

DÚVIDA METÓDICA - Há um PS que apoia Barroso; há outro que não apoia. O eleitor, ao votar PS para o Parlamento Europeu está a apoiar quem? Uma coisa ou o seu contrário? (Deputado António Filipe, no Twitter)

 

LER – A renovada Guimarães Editores reorganizou as suas colecções e está a fazer um meritório trabalho de edição e reedição de obras pouco conhecidas. Recentemente voltou a colocar no mercado as «Histórias Extraordinárias» de Arthur Conan Doyle, o autor que ficou célebre pelas aventuras de Sherlock Holmes. Estes pequenos contos que compõem as «Histórias Extraordinárias» são um pouco perturbantes, belíssimas observações da sociedade da época. Na mesma editora estão também disponíveis os «Contos de Mistério» do mesmo autor. Já agora, se passarem na livraria da Guimarães (Rua da Misericórdia 68 no Chiado e na Livraria Universitária, na Biblioteca Nacional) espreitem também a colecção dedicada a Edgar Allen Põe («Contos Fantásticos» e «Contos Policiais»).

 

OUVIR – John Scofield é um guitarrista de jazz com uma longa carreira ao lado de nomes como Chick Corea, Herbie Hancock ou Charlie Mingus. Tem uma extensa discografia e não há praticamente nenhum grande músico de jazz com quem não tenha gravado ou tocado. Neste seu novo disco, «Piety Street», Scofield afasta-se do seu terreno tradicional e leva a guitarra a passear pelos blues, e, em particular, pelo território dos gospel. A aproximação que faz é, digamos, herética – mas aliciante. Scofield e os músicos que o acompanham optaram por introduzir arranjos funky, alterando por completo o ritmo e balanço tradicional dos gospel. O resultado, primeiro, estranha-se e, depois, entranha-se: redescubram clássicos como «Motherless Child», «His Eye Is On The Sparrow» «I’ll Fly Away» ou «Something’s Got A Hold On Me» nas interpretações de Scofield ou deixem-se arrastar pelo ritmo de uma das suas próprias composições – como o arrebatador «It’s A Big Army». CD Emarcy, Universal.

 

DESCUBRA AS DIFERENÇAS – Querem ver como as coisas são diferentes em Portugal e em Espanha? O Jaguar XF Diesel V6 de 3 litros, versão Luxury, vem anunciado na «Vanity Fair» espanhola pelo preço de 52.990 euros. O mesmo carro em Portugal custa 75.413 euros, 42% mais caro – a diferença do preço está nos impostos. Curioso, não é?

 

VER – Quando tiverem vontade de descobrir uma boa exposição para visitar, espreitem o site www.artecapital.net. De lá retiro três sugestões, de áreas bem diferentes: no Museu da Electricidade, os finalistas do «Prémio EDP novos artistas» (António Bolota, Bruno Cidra, Gabriel Abrantes, Gonçalo Sena, Hernâni Gil, Margarida Paiva, Mauro Cerqueira, Nuno Sousa e Sónia Almeida) – o vencedor será conhecido dia 20. Se gostam de fotografia têm oportunidade de descobrir a excelente colecção de fotografia portuguesa dos anos 50, que pertence ao Museu do Chiado, e que está reunida na exposição «Batalha de Sombras», no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira (Rua Alves Redol 45). E finalmente, um grupo de jovens artistas apresenta na Galeria Arte Contempo (Rua dos Navegantes 46 A) a colectiva «Republica ou o Teatro do Povo».

 

PETISCAR – Não se pode olhar para o «Torricado» e encará-lo como um restaurante tradicional – o mais certo é encará-lo como uma petisqueira simpática. Localizado na Praça de Touros do Campo Pequeno, no lado virado para a Avenida da República, é servido por uma boa esplanada, mas tem um espaço interior com os seus problemas, apertos e correntes de ar. Claro que o prato forte é o que lhe dá o nome, o torricado ribatejano, está presente no seu esplendor:  pão torrado em brasas, com alho e azeite, e acompanhado com uma boa posta de bacalhau assado. Mas se quiser coisa mais leve não deixe de experimentar os pastéis de massa tenra, as empadas de caldeirada de porco preto (deliciosas) e os pastéis de bacalhau à Gomes de Sá. A responsabilidade deste espaço é do Chef Luís Suspiro, e se para rematar os petiscos escolher um doce tem muito por onde picar. Telefone 217975356.

 

 

BACK TO BASICS – A liberdade de opinião só pode existir quando o Governo está completamente seguro de si próprio – Bertrand Russell

abril 07, 2009

O OBSERVATÓRIO ESCONDIDO

(publicado no diário Meia Hora de 7 de Abril)


 


Na semana passada li muitas notícias sobre as «100 Horas de Astronomia Remota», uma iniciativa que permitia, a qualquer pessoa com acesso à internet, ligar-se a um dos observatórios astronómicos que, em todo o Mundo, ofereciam a possibilidade de, via computador, ver as imagens que esses observatórios captavam do Universo. Esta bela ideia faz parte dos eventos programados para o Ano Internacional da Astronomia e inclui uma outra iniciativa que tem o aliciante nome de «Volta Ao Mundo em 80 telescópios».


É engraçado ver que cada vez mais pessoas se interessam pela astronomia e constatar que as vendas de telescópios para uso doméstico andam em bom ritmo. É um bom sinal, é sinal de curiosidade pelo Universo, de curiosidade por perceber onde estamos e quais os limites que podemos ver, é, sobretudo, um sinal de interesse pela Ciência – ainda por cima vivido como um passatempo.


Neste contexto de interesse e paixão pela Astronomia seria natural que em Portugal se estimulasse a curiosidade pelos equipamentos que temos – nomeadamente pelo belíssimo Observatório Astronómico de Lisboa, construído por iniciativa de D.Pedro V nos terrenos da Tapada da Ajuda entre 1981 e 1987. No século XIX e em boa parte do século XX o observatório ganhou reputação internacional e hoje em dia, desde 1995, está intergrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.


Para além dos equipamentos de observação, no edifício existe uma rica biblioteca, a melhor do país em temas de Astronomia e Astrofísica. Além disso o Observatório é quem mantém e fornece a hora legal de Portugal, desenvolve investigação científica, preserva e disponibiliza o acervo histórico, quer documental quer instrumental, e quer estimular e apoiar o ensino e a divulgação da Astronomia. Aliciante, portanto. E como se pode visitar?  - perguntarão. Eu gostava de lá poder ir, mas eis a realidade: visitas apenas aos dias úteis, com entrada não depois das 15h00; só são permitidas visitas em grupos, não com mais de 15 pessoas e apenas com marcação prévia junto do observatório; para entrar há que comprar a respectiva admissão – que apenas pode ser adquirida nas instalações da Faculdade de Ciências no Campo Grande, junto à Cidade Universitária, portanto na outra ponta da cidade. Se isto não é matar à nascença a vontade de conhecer a Astronomia, digam-me lá o que será… 

 

abril 06, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Abril)

 


SEXTA – Aqui há uns anos as sextas-feiras eram marcadas pelo «Independente» e as suas notícias. Agora são marcadas pelas investigações do «Jornal Nacional» da TVI, que tem vindo a colocar-se entre os dez programas de televisão mais vistos de cada semana, à frente da informação de outros canais. Deste sucesso de audiências e das investigações que revela resultou já a diabolização do Jornal e da sua apresentadora, quer pela ERC quer pelo núcleo duro do Governo e do PS.

 

TEMPOS - Em Portugal vive-se um clima semelhante ao dos últimos dias de Pompeia: lascívia do poder, promiscuidade entre política e negócios, despudorado assalto ao Estado, impunidade galopante, descrédito das instituições. A maneira como fôr resolvido o caso do Dr.Lopes da Mota, que dirige o Eurojust, será o fiel da balança. Dois procuradores dizem-se pressionados por ele; o Dr. Lopes da Mota tem desmentido ter efectuado pressões; é palavra contra palavra, uma situação onde o mais forte tem sempre vantagem; no lugar onde o Dr. Lopes da Mota está, no entanto, é certo que tinha formas de facilitar ou dificultar a troca de informações entre investigadores portugueses e britânicos sobre o caso Freeport; parece já ser consensual que, no mínimo, não as facilitou. Uma coisa é segura neste momento: a sua saída do lugar que ocupa seria um gesto, um sinal, de que se querem remover entraves à investigação. Este caso começa a tomar proporções que vão para além dos factos, já de si graves. Embora o assunto seja delicado, era bom ouvir o Presidente da República sobre este suspeito clima que se vive em Portugal neste momento.

 

COMEMORAÇÕES – Há uns meses o Ministério da Defesa recusou que uma força militar estivesse na evocação do regicídio; sabe-se agora que o Governo se dispõe a gastar dez milhões de Euros na celebração do centenário da República – ou seja, na celebração de 16 anos de balbúrdia, que levaram a 48 de ditadura e, finalmente, a estes 36 de tentativas democráticas. Não há provas – antes pelo contrário – de que o regime republicano seja mais justo, menos corrupto e mais democrático. Estes dez milhões pagos pelos contribuintes são um insulto nos tempos que correm. Mais: são um prepotente abuso.

 

VER – As mais recentes exposições de Inez Teixeira têm sido surpreendentes – uma observação das formas base da natureza, muito orgânicas. A sua forma de mostrar o mundo que a rodeia tem evoluído e, na nova mostra inaugurada na semana passada na VPF Cream Art, «De Dentro Para Fora», Inez Teixeira percorre caminhos inesperados, desta vez recorrendo a minuciosos desenhos em pequeno formato, imaginando casas envolvidas por bosques, num registo mais intimista e introspectivo. Ao mesmo tempo, nas novas pinturas que coexistem com os desenhos, adivinha-se o nascer de um novo ciclo que escapa a formas definidas.

Ainda no edifício Transboavista, onde a VPF Cream Art está instalada, pode ser vista, no espaço Plataforma Revólver, uma colectiva intitulada «A Escolha da Crítica», com curadoria de Lígia Afonso,. Destaque para a instalação de Paulo Mendes, para os desenhos a grafite de Pedro Barateiro, para os desenhos para animação de Susana Gaudêncio e para o trabalhos de João Fonte Santa. Edifício Transboavista, Rua da Boavista 84 ao Cais do Sodré, segunda a sábado das 14h00 às 19h30.

 

LER I – Na «Vanity Fair» (edição norte-americana) de Março, destaque para uma investigação detalhada sobre a forma como funcionava o esquema montado por Bernard Madoff – escrita de forma clara e simples para quem não é economista. A investigação, um exemplo de grande jornalismo, relata a forma como Madoff agia, os meios em que se movia e como neles entrou, num retrato cru do comportamento da sociedade americana nestas duas décadas mais recentes.

 

LER II – Um dos livros mais deliciosos que li nos últimos tempos é «Rhyming Life And Death», de Amos Oz, uma descrição arrebatadora de oito horas de uma noite na vida de um escritor, passadas entre a sedução e o desejo, entre a angústia e a memória, entre a realidade e o sonho. Para além de tudo o mais, esta é também uma reflexão de um homem de meia idade sobre o seu lugar no mundo.

 

OUVIR – Cristina Branco encontrou em «Kronos» um lugar próprio de que andava já à procura há tempo. Embora eu não goste da comparação, este é o fado-canção dos novos tempos - reconheça-se que melhor que o seu antecessor de há trinta e tal anos. Para este disco Cristina Branco socorreu-se de poetas como Hélia Correia, Álvaro de Campos ou Vasco da Graça Moura e de compositores e músicos como Sérgio Godinho, José Mário Branco, Carlos Bica ou Mário Laginha, entre outros. Quer nos arranjos, quer nos músicos escolhidos, quer, sobretudo, nas excelentes interpretações de Cristina Branco, este disco está destinado a constituir um marco na nova música popular portuguesa.

 

PETISCAR – O chef Michael Guerrieri tornou-.se conhecido em Lisboa graças ao restaurante Mezzaluna, mais tarde ao Bruschetta e depois aos City Sandwich. Há poucas semanas abriu um novo espaço, o Spazio Dual City Caffé, na Avenida da República 41, no mesmo local onde existe um stand da Alfa Romeo e da Lancia e onde estão instalados alguns ateliers de artistas plásticos. No piso inferior, além dos carros, estão expostas algumas obras desses artistas e, no piso superior, está o City Caffé – decoração clara, confortável, propostas simples, com muito boa matéria prima. Da lista constam cannelloni invulgares como os que levam morcela cozida a vapor ou bacalhau desfiado, um leque de boas saladas , paninis e tramezzinis numa escolha abundante de ingredientes, sempre acompanhados de saladas da época. Os preços são muito razoáveis e a proposta é ideal para escapar das tostas mistas, pastéis diversos, pregos, milanezas e outros artefactos, as mais das vezes confeccionados sem cuidado. Há vinho a copo, português e italiano, o ambiente geral é muito agradável.

 

BACK TO BASICS – O primeiro sinal de corrupção numa sociedade que aparentemente está bem é a percepção de que os poder acha que os fins podem justificar os meios – Georges Bernanos

abril 01, 2009

SFF: DEZ MILHÕES PARA QUÊ?

(Publicado no diário Meia Hora de 31 de Março)


Por muito que me esforce não consigo ver particulares vantagens no regime republicano. Não há provas de que seja mais justo, menos corrupto, mais democrático, tão pouco mais participativo. Do ponto de vista prático, a República, em Portugal, resume-se a isto:


16 anos de balbúrdia, 48 de ditadura e 36 de tentativas democráticas com os resultados que estão hoje à vista: uma maioria absoluta arrogante e autista.


Por isso mesmo fico com os cabelos em pé quando leio que, estando o País como está, se vão gastar dez milhões de euros a celebrar os 100 anos da República. Celebrar o quê? Que fase da República? O que há exactamente para celebrar em 2010 – os 36 anos do 25 de Abril de 1974? A ineficácia do Parlamento? O abuso das maiorias absolutas? A crise das maiorias relativas? A instabilidade das coligações? Os 16 anos de golpes e contra-golpes e de total ineficácia da I República?


Já imaginaram como seria simpático se estes dez milhões de euros fossem oferecidos pelos republicanos aos museus portugueses? Se fossem investido de forma reprodutiva nalgum sector? São dez milhões de euros dos contribuintes que vão ser deitados à rua em folclore de propaganda e ilusionismo histórico. E, para cúmulo, o responsável pelas comemorações, queixa-se que dez milhões de euros são um montante «austero».


O retrato do que se passa no país devia levar a que existisse o bom senso de haver contenção nestas celebrações de um regime que vive de sucessões de pequenos escândalos, de primeiros-ministros que ou se demitem ou emigram, de golpes palacianos para afastar governos nas alturas mais convenientes (como fez Jorge Sampaio) ou de fechar os olhos à inexistência de Justiça em Portugal.


O regime, hoje, vive na permanente hipocrisia, numa sucessão de escândalos ligados ao financiamento dos partidos, que depois se traduzem em obras públicas de favor ou em autorizações feitas à pressa. A situação é tal que nem aqueles que mais financiam os partidos querem ver regulamentado o financiamento partidário, de forma transparente e aberta: como poderiam depois cobrar favores se fosse público com quanto haviam contribuído para a campanha vencedora?


O regime está podre e ameaça levar o País atrás. Na celebração deste triste feito gastam-se dez milhões de euros dos contribuintes. Para quê? 

 

março 30, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 27 de Março)

CULTURA - Não sou dos que embandeira em arco com a gestão de Manuel Maria Carrilho no Ministério da Cultura. Acho que fala bem, escreve melhor, lê muito, pensa razoável, mas o balanço concreto do seu mandato, promessas e fogo de artifício à parte, é, de facto, escasso em obra feita. Mas também reconheço que o texto que colocou a debate no PS sobre política cultural, e que esta semana foi divulgado na imprensa, é uma análise lúcida da realidade e do triste estado a que o seu partido deixou chegar as coisas. Infelizmente bem sei que em matéria de política cultural o PSD é praticamente inexistente, o que somado à forma como o PS de Sócrates tem gerido a área, deixa as maiores reservas para o futuro. Quanto mais não seja o texto de Carrilho é bom, precisamente para que fora do PS se reflicta sobre o que se deve fazer nesta área. 

 


 


DESPORTO – Em Portugal deixou há muito de haver verdade desportiva no futebol e as histórias relatadas de corruptelas com árbitros sucedem-se - alguns a troco de dinheiro, outros de prendas, mais alguns a troco de favores sexuais. A única forma de devolver a moralidade ao jogo é punir os erros, porque se vamos à procura de processos judiciais e de provas acabamos naquilo a que a justiça portuguesa já nos habituou – o crime compensa. A Liga Portuguesa de Futebol tem a responsabilidade de criar um sistema que avalie o que se passa. E deve pensar, como noutras modalidades,  que o recurso ao vídeo-árbitro é melhor forma de evitar as tentações e os enganos e de identificar os erros. A partir daí a Liga só pode encarar a punição dos erros dos árbitros como a única solução para moralizar o espectáculo desportivo.  

 


 


MANIPULAÇÃO - O funcionamento da Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) levanta cada vez mais dúvidas – desde a forma como a maioria dos seus membros analisou e eliminou as propostas concorrentes ao quinto canal, passando pelo papel de putativo censor de serviço (como no caso da TVI), quase nada funciona em termos transparentes e isentos. Dotada de um orçamento generoso e excessivo, pago pelas audiências e pelos operadores do sector (excesso que se vê bem nas contas que apresenta), a ERC devia ser escrutinada com rigor e cuidado pelo Parlamento. Mal nascida de raiz, fruto de um acordo politiqueiro, a ERC é o exemplo acabado dos perigos da manipulação política e da ineficácia do Parlamento como órgão de controlo deste tipo de entidades. Na realidade o mais certo seria rever a utilidade da própria ERC tal como ela está. 

 


 


VER – No Museu Berardo, CCB, a exposição dos três finalistas da edição 2008 do BES PHOTO. O prémio tem gerado polémica ao longo dos anos, com um júri atreito mais a modas do que à abordagem da fotografia. Os três finalistas representam opções bem diversas: Luís Palma explora a contemplação, um naturalismo de inspiração pictórica algo óbvio mas muito em voga; Edgar Martins aborda a fotografia pelo lado da manipulação da imagem, com um resultado previsível, muito «arty» e politicamente correcto; e André Gomes surpreende pelo trabalho de concepção de narrativa e pela poética de «O Livro de Ângela», naquela que é, eventualmente, a mais conseguida utilização da fotografia como forma de expressão e criação patente nesta edição do BES Photo. 

 


 


VER II – De entre as exposições em galerias lisboetas destaco a individual de José Pedro Croft na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80, a Xabregas, terça a sábado entre as 10 e as 20 horas). Croft apresenta desenhos, esculturas de chão e esculturas de parece em ferro zincado, colorido.  As esculturas de parede, que são talvez a zona mais interessante da exposição, elas como que partem dos desenhos, formando um círculo de cumplicidades. É verdadeiramente uma mostra de equilíbrio e coerência. 

 


 


LER – Continuo fanático da revista mensal «Monocle», confesso que tenho pena de não ter ouvido a conferência do seu director, Tyler Brulé, quando esteve recentemente em Lisboa, numa visita pouco divulgada. Na edição de Abril da «Monocle», entre muitos outros temas, destaque para uma entrevista com Bernard-Henri Levy, um artigo sobre o maior jornal do mundo, o japonês «Yomiuri Shibun» e uma multidão de pequenas e preciosas notas sobre o que vai acontecendo por esse mundo fora – a «Monocle» nos tempos que correm é acima de tudo um remédio contra a crise: afinal há coisas boas e que funcionam. 

 


 


OUVIR – Molly Johnson é uma cantora canadiana, com uma voz de invulgar sentido rítmico. O seu novo disco, «Lucky» é uma selecção bem escolhida de standards de jazz em interpretações swingantes e cheias de energia. O quarteto que a acompanha está à altura e ajuda a fazer deste disco uma preciosidade. CD Verve/ Universal. 

 


 


PETISCAR – Há cerca de quarto anos o chefe Hardev Walia decidiu mudar-se de Londres para Lisboa e dar a conhecer aos alfacinhas prazeres desconhecidos da cozinha indiana. Mestre na arte de escolher as especiarias e fazer o tempero, chamou ao seu restaurante «Tamarind», um fruto tão exótico e delicioso como as receitas que Hardev Walia prepara. A sala é pequena, colorida e tranquilizante – à noite reservar é prudente. Existe um menu de almoço com quatro escolhas, a bom preço, e, à noite,  independentemente da carta, vale a pena perguntar ao chefe o que ele propõe. Os seus conselhos são de seguir – se acha que um caril de grão é uma coisa estranha, perca o receio e escolha chana masala; mesmo que não seja grande apreciador de borrego não hesite no rogan josh – nunca provou nada assim. O pão Nan de alho é extraordinário, os molhos de entrada são bem condimentados e para sobremesa peça o gelado de pistacchio com doce de cenoura quente ou a mousse de chocolate com queijo e natas, acompanhada de palitos de gengibre – arrebatador. Restaurante Tamarind, Rua da Glória 43-45, tel. 213 466 080. 


 


 


 


BACK TO BASICS – O desporto não serve para criar carácter, apenas para revelar o que existe  - Knute Rockne 

 

março 25, 2009

ERA UMA VEZ A BOLA

(Publicado no diário Meia Hora de 24 de Março)

 


Era uma vez um jogo tão delirante que apenas podia ser contado numa fábula. Puseram-lhe o nome de futebol. Havia quem pensasse que era um desporto – mas na realidade tornou-se  apenas num espectáculo, preparado e ensaiado como todos os espectáculos, com vários finais possíveis, com especialistas em efeitos especiais, com uma multidão de peritos no desenvolvimento do negócio, empenhados em eliminar o acaso.


Era uma vez um desafio de futebol entre duas equipas grandes. No final, quem ganhasse levava uma taça de cerveja bem recheada de notas – e sempre ficava com um prémio de consolação por outras vitórias não conseguidas.


Era uma vez um árbitro que entrou no relvado com a missão de dar a vitória a uma das equipas – a bem dizer esta era uma tradição antiga: volta e meia faziam-se umas combinações para ver como se dividiam os vários troféus entre as principais equipas daquele país. Este ano, uma delas estava necessitada. O árbitro sabia o que esperavam dele. Dias antes do jogo havia já quem dissesse o que ía suceder –  havia uma combinação e o assunto era tema de conversa


Era uma vez um especialista do equilíbrio do negócio da bola que explicou a um observador distraído como as coisas se passam: sabes, para o negócio ser rentável, para haver gente no estádio, para as televisões comprarem jogos, para se vender a publicidade dos principais desafios, é preciso manter as equipas do topo da tabela com bom astral – é bom para os adeptos, é bom para as contas dos clubes e é bom sobretudo para a máquina toda. E disse mais: sabes, isto é uma coisa que envolve muita gente, alimenta muitas famílias, não é uma brincadeira de crianças com uma bola de trapos. Aqui o que interessa – continuou o especialista – é que isto continue a ser um negócio. Como em outros negócios – finalizou peremptório – às vezes temos que perder para depois ganharmos mais.


Regresso à fábula: era uma vez um jogo que estava a dar a vitória a uma equipa, que não estava escolhida para ganhar aquela taça; era uma vez um árbitro que marcou um penalty que nunca existiu; esse penalty tirou a vitória à equipa que tinha marcado o golo limpo. A isto chama-se futebol à portuguesa. Há quem lhe chame também gamanço à antiga. 

 

março 20, 2009

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 20 de Março)

 


SILÊNCIO - O MPT, Movimento Partido da Terra, fez o seu VII Congresso no passado dia 14 de Março e escolheu a Madeira como local da reunião. Viram alguma notícia sobre o assunto? A imprensa local, no Arquipélago, cobriu a reunião – na imprensa nacional quase nada saiu. O MPT é um partido que tem dois deputados na Assembleia da República (eleitos nas listas do PSD) e que tem um programa centrado na defesa do equilíbrio ambiental, da defesa da cultura portuguesa e no desenvolvimento da participação cívica. Este silêncio da comunicação do Congresso deste partido é um exemplo dos problemas e deficiências da informação em Portugal, das insuficiências do pluralismo democrático, da indiferença a que órgãos de comunicação submetem a expressão da participação cívica.

 

CURIOSIDADE – A crítica de Mário Soares a José Sócrates, a propósito das posições tomadas pelo Primeiro Ministro sobre a manifestação da CGTP da semana passada é o mais curioso e relevante facto político dos últimos dias. Sócrates fez do PS um partido bipolar.

 

VERGONHA - A visita do Papa Bento XVI a África é um catálogo das razões que levam a igreja católica a caminhar no sentido de se tornar uma seita, da intolerância de que dá provas, da insensibilidade que manifesta em nome de dogmas hoje em dia dificilmente compreensíveis. Mais do que isso a posição do Papa é repulsiva se pensarmos na forma como o Vaticano se recusa sequer a considerar a possibilidades de limitar a proliferação de portadores de HIV , indo até ao ponto de inventar teorias pseudo-científicas sobre a eficácia dos preservativos nesta situação, em contradição com os estudos da Organização Mundial de Saúde.

 

JUSTIÇAS - A sentença de Josef Fritz será pronunciada sexta feira, ao fim de uma semana - esta rapidez de justiça parece mesmo o que se passa por cá...

 

VENEZUELA – Segundo o «El País» Hugo Chavez anunciou, como medida de combate à crise, a criação de uma rêde de restaurantes de baixo preço com o seu próprio nome – Chávez. Isto na mesma semana em que proibiu a exibição da exposição «O Corpo Humano» que esteve em Portugal há uns meses.

 

SINAL DOS TEMPOS – Os grandes placards de publicidade exterior no Times Square, de Nova Iorque, costumavam estar sempre ocupados e com fila de espera – agora há três livres há quase um mês, colocados em conjunto no mercado a 100.000 dolares por mês, e que não encontram anunciante disponível para o investimento.

 

OUVIR – Bugge Wesseltoft é um pianista e compositor norueguês que fundou a Jazzland Records, onde ele próprio edita. Ao longo da sua carreira colaborou com John Scoffield e com Jan Garbarek, entre outros. O seu novo disco, «Playing», distribuído entre nós pela Universal, é um trabalho a solo, em piano, muito envolvente, pessoalíssimo, que explora melodias e que cria uma atmosfera singular, às vezes com ritmos inesperados como em «Hands»

 

LER – Edgar Allen Poe costuma ser conhecido como um dos grandes autores da literatura fantástica, mas esta percepção tem prejudicado que ele seja reconhecido como um grande poeta. A «Tinta da China», que se tem distinguido pelo cuidado que coloca nas suas edições, lançou numa edição da obra poética de Põe, em capa dura, por ocasião do seu bicentenário do nascimento. A tradução (boa), as notas e a introdução são de Margarida Vale de Gato e as ilustrações, magníficas, algumas perturbantes, são de Filipe Abranches.

 

DESCOBRIR – A edição espanhola da revista «Vanity Fair» é o exemplo de um formato internacional bem adaptado à realidade local. Na capa do mês de Abril Penélope Cruz e Pedro Almodôvar falam deles próprios e da relação que desenvolveram ao longo dos anos.

 

COMPRAR - Duas sugestões para compras em Lisboa: produtos bem portugueses na Mercearia da Atalaia, na Rua da Atalaia. Desde as soberbas águas de colónia Lavanda, da Ach Brito, até doces regionais ou conservas, aqui pode encontrar um vasto leque de oferta. Se quer coisas mais exóticas rume à Rua da Palma 220, e no Supermercado Chen poderá encontrar muitos produtos chineses e orientais, desde chá verde até grãos de sésamo ou uns deliciosos e picantes rebuçados de gengibre.

 

PETISCAR – Hoje falo de um local que é mais que um restaurante, é um paraíso de petiscos. Fica perto de Palmela, na Quinta do Anjo, foi fundado no final dos anos 50 e responde pelo nome de «Alcanena». Pode funcionar como restaurante com lista ( e aí pode pedir a massada de peixe, genial) ou então num buffet de especialidades. Para além de uma mesa de enchidos com várias preciosidades, pode começar com várias saladas (com mexilhões ou gambas ou moelas) todas muito bem temperadas e ainda uns torresmos deliciosos. A seguir, destaque para pratos como sopa de cação, migas de bacalhau ou empadão de perdiz – um total de vinte petiscos diversos. A rematar uma tábua de queijos ( que inclui doce de abóbora e marmelada caseira), com destaque para o requeijão e ainda uma mesa de doces e de frutas onde existe uma fantástica torta de laranja. Aconselha-se a marcação ao fim de semana. Rua Venâncio Costa Lima 99, Quinta do Anjo, Palmela, 212870150.

 

BACK TO BASICS – Os jornais não deviam ter amigos – Joseph Pulitzer

março 17, 2009

O FUTURO DA RTP

(Publicado no Meia Hora de 17 de Março)


 


Num mundo ideal o serviço público de televisão não seria preciso para nada – mas como estamos longe de viver num mundo ideal, a razão de ser para que exista um serviço público de televisão tem a ver com a garantia de que os espectadores possam ter, gratuitamente, acesso a programações que dificilmente surgem num operador privado – por razões que têm a ver com interesses comerciais normais.

O serviço público ideal não deveria ter publicidade – como acontece na rádio – exactamente porque a existência de uma exploração comercial num canal de televisão pressupõe a valorização e a conquista de audiências para que o espaço publicitário vendido atinja valores de mercado relevantes. Parece óbvio que não é esta a missão de um serviço público.

O serviço público ideal deveria ser imparcial, promover uma informação de qualidade, estimular reportagens, documentários, produção de ficção, gravação de espectáculos. E devia fazer isso integrado numa estratégia de valorização audiovisual da nossa língua e da nossa cultura, apoiando o desenvolvimento e a sustentabilidade da produção independente.

O serviço público não deveria ter canais competitivos com canais comerciais privados, devia ser comedido no desenvolvimento da sua capacidade de produção instalada preferindo fomentar a indústria audiovisual em Portugal, devia ser pioneiro em tecnologias de distribuição gratuita, devia ter uma forte atenção a questões locais e regionais e devia ser um auxiliar da imagem externa do país.

Dito isto, não percebo porque é que existe um canal RTP N, não percebo porque existe a RTP Memória, não percebo porque é que existem dois canais internacionais, ambos fracos. E não percebo porque querem criar mais dois canais, um infantil e outro dedicado ao conhecimento. Uma programação coerente de serviço público organiza-se muito bem em dois canais abertos nacionais, nos dois regionais dos Açores e Madeira e em apenas mais um internacional, garantindo, de melhor forma, toda essa diversidade de conteúdos e evitando um desperdício de recursos inconsequente.

Não pensem que isto é delírio: há numerosos exemplos semelhantes por esse Mundo, de serviços públicos de televisão que seguem este modelo. Com sucesso, qualidade, respeito pelos públicos e um impacto positivo no desenvolvimento da indústria audiovisual local. Relegar informação, arquivos, documentários e programação infantil para canais sectoriais é abdicar de parte importante dos deveres de um serviço público de televisão universal e gratuito. Pode dar jeito à propaganda, mas é mau para todos nós.

 

 

março 16, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 13 de Março)

PARLAMENTO - Uma das mais evidentes provas do desprezo do regime pelos cidadãos é a forma como a Assembleia da República empata a nomeação do novo Provedor de Justiça. O Provedor cessante, Nascimento Rodrigues, interpelou a Assembleia sobre o assunto. Fazendo o favor ao Governo e aos partidos da oposição (que não acham isto prioritário), os deputados continuam a paralisar uma instituição fundamental para garantir os direitos dos cidadãos e prevenir os abusos do Estado. O respeito pelos eleitores, senhores deputados, não é coisa de que se devam lembrar só em vésperas de eleições. 

 


LISBOA I - A maior demonstração de que alguma coisa vai mal em Lisboa no que toca a segurança é a polémica entre o Presidente de Câmara António Costa, do PS, e o Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, também do PS. Já se percebeu que ambos atribuem culpas um ao outro, que a polícia atribui culpas aos dois e a realidade mostra que a cidade está mais insegura. Mais um dado a ter em conta nas próximas eleições. 

 


LISBOA II - Um estudo recente, sobre as razões para a desertificação de Lisboa, divulgado na imprensa, afirmava que a maioria dos inquiridos considera que Lisboa tem muitos espaços degradados, tem poucos espaços verdes e tem deficiente qualidade de vida. A coisa vai sempre dar ao mesmo: os habitantes de Lisboa-cidade têm custos maiores para terem menores vantagens e são sempre os mais sacrificados nos incómodos provocados pelas obras, pelos encerramentos ao trânsito, por mil e uma razões provocadas por quem usa a cidade sem se preocupar com os seus habitantes. 

 


OBRAS - Nos últimos dias surgiram duas polémicas interessantes sobre o plano de grandes obras públicas. Uma defende que obras de manutenção e recuperação absorvem mais mão de obra (e mais qualificada) que a construção de estradas, TGV’s ou grandes edifícios; a outra vai ainda mais longe e diz que num cenário em que cresce o desemprego qualificado, concentrar o investimento em áreas que não absorvem mão de obra qualificada é o mesmo que despromover a educação e desincentivar o aperfeiçoamento profissional. Sócrates, que tanto fala de qualificação, ainda não se pronunciou sobre isto – aliás evita pronunciar-se sobre qualquer coisa que tenha a ver com estratégia de futuro. 

 


PROVEDOR DO AMBIENTE - Cada vez que passo à noite no Marquês do Pombal e olho para o edifício da EDP todo iluminado recordo-me logo das campanhas ecologistas da empresa. É certo que a conta de electricidade lhes fica em conta, mas sempre podiam dar o exemplo no combate a consumos supérfluos. 

 


CITAÇÃO - «Alguém dá pela existência de um director do actual Instituto dos Museus e da Conservação? Alguém sabe quem é? As sucessivas tropelias da tutela são-lhe alheias ou desconhecidas? Mantem-se em silêncio como uma forma subtil (?) de manifestar discordância ou distância? Não seria imperioso que o responsável técnico e político (o lugar é de confiança) estivesse presente e também activo quando se discutem os Coches, a  Arqueologia, a Arte Popular, a Cordoaria (que é um monumento, mesmo sem ter a sua tutela directa), etc? Pode dispensar-se a competência quando estão em causa decisões de longo alcance, irreversíveis mesmo?» - Alexandre Pomar no seu blog. 

 


FILMES - Esta semana quis ir experimentar o reconstruído cinema Alvalade e apanhei uma desilusão. O espaço é tacanho, o edifício é feio, o cheiro a caramelo e a pipocas no ar entranha-se nos cabelos e tira qualquer prazer a estar na esplanada de entrada e a única coisa que correu bem foi a senhora da bilheteira avisar que a cópia do filme que queria ver - «Milk» - estava riscada. Poupou-me ao sacrifício e fui para outro cinema ver esta extraordinária realização de Gus Van Sant e a interpretação exemplar de Sean Penn, infelizmente em exibição já em poucas salas. 

 


LER – A mais recente edição da revista «Vanity Fair» é tanto para ser lida como para ser vista. Trata-se da célebre edição anual da revista dedicada a Hollywood e que é publicada por ocasião da atribuição dos Óscares. Este ano na capa um actor muito especial de uma outra fita – a política: na capa Barack Obama, lá dentro as estrelas do cinema, todas fotografadas por Annie Leibovitz. E – boa surpresa nos tempos que correm – a «Vanity Fair» de Março vem com muitas páginas de publicidade. Atractivo suplementar: retratos das novas caras do poder dentro da Casa Branca. 

 


OUVIR- Duas reedições do catálogo «Verve», na muito apreciada série «Originals». Dois discos de orquestras de jazz, ambos fascinantes, muito diferentes entre si. Um é de 1962, «On My Way & Shoutin’ Again!» da orquestra de Count Basie , interpretando música de Neal Hefti. O outro é o encontro de Óscar Peterson com a orquestra de Nelson Riddle, em 1963, interpretando clássicos como «Round Midnight» ou «Come Sunday».  

 


DESTAQUE – Mais uma edição da Moda Lisboa, sob a batuta de Eduarda Abbondanza. 

 


COMIDA – Receitas portuguesas, quase caseiras, boa qualidade de matéria prima, cuidado e atenção no serviço. Que se pode pedir mais de um restaurante. Eu comi umas finas postas de pregado bem fritas, acompanhadas de açorda e fiquei fã. Vinhos a preços razoáveis. Cave Real, bar-restaurante, Av. 5 de Outubro 13-15 ((ao pé da maternidade Alfredo da Costa), tel. 213 544 065. 

 


BACK TO BASICS (maior que o costume) – Quem é o «Governo»? – basicamente, sabem, somos nós todos: o Governo gasta o seu dinheiro a fornecer serviços ao público. Pedir que o Governo aperte o seu cinto é o mesmo que pedir-nos, a nós pagadores de impostos, que aceitemos receber menos serviços por aquilo que pagamos. Porque é que isto é uma boa medida ou uma boa causa, mesmo em tempos de crise como estes? – Paul Krugman em «A Consciência de Um Liberal» 

 

março 10, 2009

LISBOA E O RIO

 


(Publicado no diário Meia Hora de dia 10 de Março)

 

Poucas cidades têm a sorte de estarem num estuário como o do rio Tejo. Lisboa é uma cidade privilegiada pela localização, privilegiada pelo clima, privilegiada pela luz, privilegiada pelos sinais que a História foi deixando ao longo dos Séculos.

A zona ribeirinha de Lisboa merece especial cuidado, porque é o melhor que a cidade tem, é o seu bem mais precioso e é muito disputado. Qualquer espaço que surja é pretendido: a polémica sobre a ampliação do terminal de contentores de Alcântara é um exemplo disso. A discussão, que se adivinha começar sobre o futuro a dar ao espaço do antigo Museu de Arte Popular, em Belém, é outro sinal disso. Uma coisa é certa: não é normal que se tenha recuperado a zona ribeirinha da área oriental de Lisboa (na Expo) e que agora se comece a querer estragar a zona ocidental.

Por estes dias soube-se o crescimento que o tráfego de cruzeiros turísticos tem tido em Lisboa. Este aumento traduz-se em milhares de visitantes que vistam museus e equipamentos, que consomem nas lojas da cidade, que têm um efeito positivo na economia. A posição das cidades escolhidas como ponto de paragem de cruzeiros é sempre frágil – e a competição é enorme.

Antes de se avançar para a ampliação do terminal de contentores devia estudar-se se a vocação do Porto de Lisboa é ser um porto de carga ou um porto de turismo – as duas coisas não coexistem bem e a história das cidades portuárias tem muito exemplos disso mesmo. E qualquer nova construção deve ser bem avaliada.

Com todo o devido respeito esta decisão, estratégica, não pode pertencer nem à Administração do Porto de Lisboa (cuja história é uma sucessão de atentados à cidade…), nem à empresa concessionária que quer fazer vingar a sua pretensão à revelia inclusivamente de regras de concessão de zonas públicas. A cidade de Lisboa – a sua autarquia, os seus órgãos próprios, têm que ter uma posição e explicá-la publicamente: como querem que seja no futuro a zona ribeirinha de Lisboa? A sociedade criada há poucos anos para resolver esta questão reflectiu pouco, envolveu-se cedo em querelas que levaram à saída voluntária, ainda não cabalmente explicada, do seu responsável (José Miguel Júdice) e regra geral prima pela ausência de estudos ou actividade palpável para além da obediência cega às ordens da tutela. A maior riqueza de Lisboa não pode ser desbaratada ao sabor de favores de circunstância do Governo do momento.

 

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Março

 


UNANIMISMO - Pronto. José Sócrates fez o Congresso do PS como quis. Não teve oposição. No seu partido já conseguiu o que quer para Portugal - é muito educativo olhar para o que ele fez no PS para entender o que acha ser o seu modelo ideal de funcionamento para o país – unanimismo, oposição calada, rivais afastados. Quatro anos a polir a imagem e a manobrar a comunicação deram nisto: um partido, uma voz, uma imagem, um homem.

 

TENSÃO – A crispação entre o Governo e a Presidência vai ter tendência a subir e não me admiro se a máquina de contra-informação do Governo começar a fazer das suas depois de Cavaco Silva se recusar a fazer as eleições legislativas em conjunto com as europeias e, sobretudo, depois de vetar a lei de restrição da actividade da comunicação que o PS pretende impôr, conhecida por «Lei do Pluralismo e não concentração dos meios de comunicação social», fruto das ambições de Augusto Santos Silva.

 

DÚVIDA – Ao lado de Manuela Ferreira Leite não haverá ninguém que a impeça de dar sucessivos argumentos ao PS, como foi o caso da desastrada declaração sobre o Congresso do PS? É que foi essa declaração que deu a Sócrates o pretexto para a transformar no bombo da festa.

 

LER – A «Monocle» é cada vez mais a revista das cidades, com o mundo dividido pelas grandes urbes e não por países. Nesta nova edição de Março o destaque vai para o que há a descobrir em Berlim (com um belo guia de compras na cidade),o mercado de arte na Europa, locais para descobrir o que de melhor há para comer no Cairo e para a história do artista plástico Oscar Bronner que fundou o jornal «Der Standard» porque não encontrava nada decente para ler em Viena. Para reter fica a indicação de que a música nova que vale a pena ouvir está no programa «Morning Becomes Eclectic» de uma estação de Los Angeles que faz reganhar o gosto pela rádio – a boa novidade é que pode ser ouvida on line em www.kcrw.com (o arquivo de emissões recentes do programa indicado está disponível e indicado no site).

 

RECORDAR - Não resisto a referir a extraordinária conferência que Kjell Nordstrom proferiu na semana passada em Lisboa, por iniciativa da empresa de consultoria Strategos e deste «Jornal de Negócios». A sua intervenção foi focada nas tendências económicas e sociais e permito-me destacar o que ele apontou como uma tendência irreversível, a urbanização das sociedades, que levará as cidades a tornarem-se no principal pólo de actividade. Segundo Nordstrom, no mundo inteiro, em 2020, 75% da população viverá em cidades e em 2040 a percentagem atingirá os 90%. As consequências disto na forma de viver, de produzir e de consumir serão gigantescas – os países, defendeu o conferencista, terão tendência serem subalternizados em relação às cidades – por exemplo fará sentido falar de Lisboa, Porto, Madrid, Barcelona, Valência e Bilbao e não em Portugal ou Espanha. Dá que pensar…

 

OUVIR – A prova que Nina Simone era um caso raro de talento e de genialidade na interpretação vocal está num registo ao vivo, que a magnífica colecção «Verve Originals» agora disponibilizou. Gravado em 1987 no Vine Street Bar, em Hollywood, com Nina Simone ao piano e voz, Arthur Adams na guitarra e no baixo e Cornell McFadden na bateria, o disco inclui belíssimas versões de temas como «My Baby Just Cares For Me», «Just Like A Woman», «Stars», «Let It Be Me» ou «Sugar In My Bowl». CD Universal, disponível no mercado português.

 

COMER - Na Rua do Sacramento a Alcântara nº74 (perto do primitivo Hospital da CUF e do Ministério dos Negócios Estrangeiros) fica a Casa Toscano – Churrasqueira do Sacramento, um daqueles pequenos restaurantes, antigas casas de pasto ou mesmo tabernas, que com o andar dos anos se foram reconvertendo. Pois o local apresenta como especialidade o peixe muito bem grelhado na original brasa de carvão. A oferta diária de peixe fresco é vasta, a matéria prima é muito boa, e na sua época as sardinhas batem a concorrência de muitos outros locais. Para os apreciadores há uma raridade – cabeça de garoupa na brasa, em vez de cozida. As iscas da casa são famosas assim como a genuína «Dobrada à Porto» ou as caras de bacalhau. A casa vive de algum dialecto local – uma mesa para trinta é uma mesa para três pessoas, um viagra é um frasco de picante, meia perdiz é meio whisky, um mantorras é um peixe grelhado bem tostado no carvão e um alentejano é um queijinho de Évora. A casa está muitas vezes cheia mas a espera nunca é demorada. E a experiência vale a pena.

 

GOLPADA - Woody Allen está no meio de uma nova fase da sua carreira que se resume a isto: só faz filmes quando há Films Commissions a pagar. Depois de ter explorado o filão londrino, virou-se para Espanha com «Vicky, Cristina, Barcelona» e fez um postal ilustrado da capital catalã que é apenas salvo da vulgaridade pela presença fulgurante de Penélope Cruz, que faz Scarlett Johansson parecer uma anémica actriz amadora. Agora já se sabe que Allen vai filmar a Paris. Por este andar ainda cá chega… se entretanto alguém criar uma Film Commission que anda na calha pelo menos há quase 20 anos.

 

DEVORAR – Segunda-feira que vem é inaugurada no Museu Berardo (CCB) uma exposição fundamental para  todos os que se interessam por fotografia. Intitulada «Arquivo Universal – O documento e a utopia fotográfica» aborda a missão e a história da fotografia, a sua existência enquanto documento, testemunho e representação histórica, através de 1000 imagens de 250 autores diferentes. A exposição foi organizada pelo Museu de Arte Contemporânea de Barcelona.

 

BACK TO BASICS – Nada é mais difícil do que a arte de manobrar para alcançar uma posição de vantagem – Sun-Tzu.

março 06, 2009

TOTALITARISMO ABSOLUTO

(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Março)


 

Muito bem produzido, visualmente muito atraente, mas frustrante de conteúdo - o Congresso do PS deste fim de semana foi monótono, bastante vazio de discussão, sem oposição interna à vista, com o progressivo desaparecimento - presencial ou dos órgãos dirigentes - de figuras como Manuel Alegre, João Cravinho ou Jorge Coelho. O núcleo duro de José Sócrates reforçou-se, tudo foi pensado e cenografado para apenas Sócrates brilhar no seu papel duplo de Dr. Jekyll e Mr. Hyde: no Partido Socialista ele é a figura séria, assumidamente de esquerda e preocupada de Dr. Jekyll, no Governo é um tecnocrata implacável, que não olha a meios para atingir fins e deita a ideologia ás urtigas, tal Mr. Hyde. Se não fosse este estranho caso de dupla personalidade o congresso teria sido um enorme bocejo, ou, como ouvi dizer, se alguém transformasse a fórmula do congresso em medicamento o Xanax iria ter concorrência séria.

A única semelhança entre o filósofo Sócrates e o nosso político Sócrates reside na partilha, por ambos, da convicção de que teriam sido incumbidos pelos deuses de uma missão especial. Neste Congresso percebeu-se, de forma particularmente clara, que José Sócrates está convicto de que é um defensor do Bem contra o Mal. O Bem é obviamente personificado por ele, pelo PS e pelo seu Governo – tudo o que fazem está certo; o Mal está nos que os criticam, nos partidos da oposição, nos comentadores que não os compreendem, nos jornalistas que não vergam à propaganda e são acusados praticamente de traidores.

Este foi o Congresso da diabolização, um momento totalitário em que o resumo do conteúdo, de tudo o que se passou, é este: quem não está connosco é nosso inimigo, por isso temos que ter a maioria absoluta para derrotar todos os que não pensam como nós e impôr o que queremos fazer.

No discurso inicial do Congresso, José Sócrates invocou a defesa da decência democrática como a sua razão de lutar, recordou as célebres campanhas negras, as forças ocultas e nomeou órgãos de comunicação que não lhe agradam e que considera inimigos – qualquer outro político, em qualquer país democrático, teria que se explicar muito bem sobre estas palavras. Mas em vez de explicar o que pretende fazer, no discurso final, Sócrates apelou ao totalitarismo da maioria absoluta que tornou na sua causa de vida – não diz o que quer fazer, nem como quer fazer o que pretende, centrou tudo no poder absoluto que só uma maioria absoluta lhe pode conferir. Será para ter um argumento que lhe permita sair de cena se ela não fôr alcançada?

março 02, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 27 de Fevereiro)







ESTADO DA NAÇÃO - A situação política está a ficar parecida com a situação das instituições financeiras: muito volátil. A grande dúvida está em saber se o órgão de supervisão – que no caso da política é o Presidente da República – consegue fazer melhor o seu trabalho que o Banco de Portugal tem feito na sua área. De entre os rumores que circulam na política lusitana, eis alguns: Belém estuda um cenário de um governo de iniciativa presidencial para o caso de Sócrates se demitir querendo forçar alteração de calendário eleitoral; o PS procura levar António Vitorino a aceitar ser candidato a Primeiro Ministro, mantendo-se José Sócrates como Secretário-Geral; no PSD, com o temor de um péssimo resultado (abaixo dos 30%) de Manuela Ferreira Leite nas eleições para o Parlamento Europeu, há quem queira empurrar Rui Rio para liderar a campanha das legislativas. De qualquer forma o ano promete vir a ser fértil em situações inesperadas- os constitucionalistas vão ter muito que fazer este ano.


 


ABUSOS DE AUTORIDADE - Na semana passada dois incidentes, um com o poder judicial e outro com a polícia, envolveram tentativas de condicionamento da liberdade de expressão em nome de conceitos de um puritanismo fundamentalista, que rapidamente passaram para abusos de poder. Deixemos de lado o primeiro caso, ridículo, de uma ordem judicial de retirar fotos de corpos nus de um ecrã satirizando o computador «Magalhães» num corso carnavalesco.  O segundo, protagonizado pela PSP de Braga, sendo do mesmo género irracional, é mais grave. Neste caso de Braga é fundamental saber quem, na PSP local, deu a ordem de apreensão de um livro que reproduzia na capa um quadro clássico  de Gustave Courbet «A Origem do Mundo», que reproduz o corpo nu de uma mulher. O grave da intervenção policial em Braga é a sua arbitrariedade total, baseada apenas na vontade de quem deu a ordem e de quem a executou, sem nenhuma cobertura legal para a acção. Teria sido muito útil ouvir alguma posição do Ministro da Administração Interna sobre o assunto – é que na ausência de posição fico a pensar se ele não entenderá ser legítimo que a PSP assim actue. Neste caso o Ministro tem o dever cívico e político de inquirir, apresentar culpados e atribuir punições – sob pena de legitimar arbitrariedades futuras. Na realidade não se entende que anda este Ministro a fazer para defender os direitos e garantias dos cidadãos – o que é uma das suas funções.


 


PERGUNTA DA SEMANA - A PSP tem livro de reclamações? Onde é que ele está?


 


OUVIR – Eu gosto de discos gravados ao vivo e, nomeadamente, de jazz gravado ao vivo. Dito isto esclareço que gosto bastante de Stan Getz e que aprecio formações clássicas – e nada de mais clássico que um quarteto (enfim, um trio nalguns casos pode ser uma boa ideia…). Bom, o caso é que o saxofonista Stan Getz deu de caras com três músicos de excepção num clube parisiense no Verão de 1970 (Eddy Louise no órgão, René Thomas na guitarra e Bernard Lubat na bateria) e não descansou enquanto não conseguiu juntar todos. O registo desse encontro, gravado no histórico clube Ronni Scott’s em Londres, em Março de 1971, pode ser ouvido em «Dynasty», um disco marcante na carreira de Getz, agora reeditado remasterizado na colecção «Originals» da Verve. É um duplo CD absolutamente de excepção, que combina o lado melodioso de Getz com improvisações enérgicas apenas possíveis num registo ao vivo. Imperdível – a reedição de «Dynasty» está já disponível no mercado nacional.


 


LER - Há relativamente poucos anos dei comigo a descobrir o universo da banda desenhada japonesa, a Manga, e o seu equivalente em filmes de animação,  Anime. A Manga baseia-se na tradição do desenho oriental, assume pouco diálogo, bastante acção ilustrada graficamente. Como as melhores coisas da vida tem o seu culto, tem autores de referência, criou uma espécie de universo paralelo que o ocidente foi descobrindo aos poucos. A revista «Monocle», de que aqui falo com frequência, inclui desde o seu primeiro número um pequeno fascículo de Manga, que pode ter contribuído para este género ganhar algum reconhecimento acrescido. A Manga é o produto pop por excelência do Japão e é assim que merece ser entendido. Peter Carey, um escritor australiano que vive nos Estados Unidos e que ganhou duas vezes o prestigiado Booker Prize, fez uma espécie de reportagem sobre a descoberta da cultura japonesa contemporânea e chamou-lhe «O Japão É Um Lugar Estranho» (feliz tradução do original «Wrong About Japan»). A forma da escrita é notável, a descrição das experiências e vivências de um ocidental no Japão moderno é absolutamente empolgante. Resta dizer que o livro foi editado em Portugal pela «Tinta da China», uma editora cuidadosa com as obras que publica, e está numa belíssima colecção sobre viagens muito bem dirigida por Carlos Vaz Marques.


 


VISITAR – A Livraria Sá da Costa, em pleno Chiado, está aberta até tarde e merece muito mais uma visita que a incaracterística, desarrumada e caótica FNAC, cada vez menos interessante, cada vez mais supermercado. A Sá da Costa, pelo contrário,  respira história, tem belas reedições de clássicos, empregados que sabem de livros, que gostam de livros, é um local que se pode ir descobrindo, com prateleiras que dá gosto explorar, com bancadas onde está praticamente a História da Literatura. Fica no Cjiado, mesmo ao lado de «A Brasileira», mais precisamente no número 100 da Rua Garrett. Óptimo local para  fazer horas para um jantar e descobrir preciosidades.


 


VER – Fotos de Victor Palla, em impressões originais, na Galeria P4 Photography, Rua dos Navegantes 16, à Lapa, Lisboa.


 


BACK TO BASICS – Nenhum Governo se pode sentir seguro se não tiver uma oposição competente, Benjamin Disraeli.