O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
março 10, 2009
LISBOA E O RIO
(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Março
março 06, 2009
TOTALITARISMO ABSOLUTO
(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Março)
março 02, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 27 de Fevereiro)
ESTADO DA NAÇÃO - A situação política está a ficar parecida com a situação das instituições financeiras: muito volátil. A grande dúvida está em saber se o órgão de supervisão – que no caso da política é o Presidente da República – consegue fazer melhor o seu trabalho que o Banco de Portugal tem feito na sua área. De entre os rumores que circulam na política lusitana, eis alguns: Belém estuda um cenário de um governo de iniciativa presidencial para o caso de Sócrates se demitir querendo forçar alteração de calendário eleitoral; o PS procura levar António Vitorino a aceitar ser candidato a Primeiro Ministro, mantendo-se José Sócrates como Secretário-Geral; no PSD, com o temor de um péssimo resultado (abaixo dos 30%) de Manuela Ferreira Leite nas eleições para o Parlamento Europeu, há quem queira empurrar Rui Rio para liderar a campanha das legislativas. De qualquer forma o ano promete vir a ser fértil em situações inesperadas- os constitucionalistas vão ter muito que fazer este ano.
ABUSOS DE AUTORIDADE - Na semana passada dois incidentes, um com o poder judicial e outro com a polícia, envolveram tentativas de condicionamento da liberdade de expressão em nome de conceitos de um puritanismo fundamentalista, que rapidamente passaram para abusos de poder. Deixemos de lado o primeiro caso, ridículo, de uma ordem judicial de retirar fotos de corpos nus de um ecrã satirizando o computador «Magalhães» num corso carnavalesco. O segundo, protagonizado pela PSP de Braga, sendo do mesmo género irracional, é mais grave. Neste caso de Braga é fundamental saber quem, na PSP local, deu a ordem de apreensão de um livro que reproduzia na capa um quadro clássico de Gustave Courbet «A Origem do Mundo», que reproduz o corpo nu de uma mulher. O grave da intervenção policial em Braga é a sua arbitrariedade total, baseada apenas na vontade de quem deu a ordem e de quem a executou, sem nenhuma cobertura legal para a acção. Teria sido muito útil ouvir alguma posição do Ministro da Administração Interna sobre o assunto – é que na ausência de posição fico a pensar se ele não entenderá ser legítimo que a PSP assim actue. Neste caso o Ministro tem o dever cívico e político de inquirir, apresentar culpados e atribuir punições – sob pena de legitimar arbitrariedades futuras. Na realidade não se entende que anda este Ministro a fazer para defender os direitos e garantias dos cidadãos – o que é uma das suas funções.
PERGUNTA DA SEMANA - A PSP tem livro de reclamações? Onde é que ele está?
OUVIR – Eu gosto de discos gravados ao vivo e, nomeadamente, de jazz gravado ao vivo. Dito isto esclareço que gosto bastante de Stan Getz e que aprecio formações clássicas – e nada de mais clássico que um quarteto (enfim, um trio nalguns casos pode ser uma boa ideia…). Bom, o caso é que o saxofonista Stan Getz deu de caras com três músicos de excepção num clube parisiense no Verão de 1970 (Eddy Louise no órgão, René Thomas na guitarra e Bernard Lubat na bateria) e não descansou enquanto não conseguiu juntar todos. O registo desse encontro, gravado no histórico clube Ronni Scott’s em Londres, em Março de 1971, pode ser ouvido em «Dynasty», um disco marcante na carreira de Getz, agora reeditado remasterizado na colecção «Originals» da Verve. É um duplo CD absolutamente de excepção, que combina o lado melodioso de Getz com improvisações enérgicas apenas possíveis num registo ao vivo. Imperdível – a reedição de «Dynasty» está já disponível no mercado nacional.
LER - Há relativamente poucos anos dei comigo a descobrir o universo da banda desenhada japonesa, a Manga, e o seu equivalente em filmes de animação, Anime. A Manga baseia-se na tradição do desenho oriental, assume pouco diálogo, bastante acção ilustrada graficamente. Como as melhores coisas da vida tem o seu culto, tem autores de referência, criou uma espécie de universo paralelo que o ocidente foi descobrindo aos poucos. A revista «Monocle», de que aqui falo com frequência, inclui desde o seu primeiro número um pequeno fascículo de Manga, que pode ter contribuído para este género ganhar algum reconhecimento acrescido. A Manga é o produto pop por excelência do Japão e é assim que merece ser entendido. Peter Carey, um escritor australiano que vive nos Estados Unidos e que ganhou duas vezes o prestigiado Booker Prize, fez uma espécie de reportagem sobre a descoberta da cultura japonesa contemporânea e chamou-lhe «O Japão É Um Lugar Estranho» (feliz tradução do original «Wrong About Japan»). A forma da escrita é notável, a descrição das experiências e vivências de um ocidental no Japão moderno é absolutamente empolgante. Resta dizer que o livro foi editado em Portugal pela «Tinta da China», uma editora cuidadosa com as obras que publica, e está numa belíssima colecção sobre viagens muito bem dirigida por Carlos Vaz Marques.
VISITAR – A Livraria Sá da Costa, em pleno Chiado, está aberta até tarde e merece muito mais uma visita que a incaracterística, desarrumada e caótica FNAC, cada vez menos interessante, cada vez mais supermercado. A Sá da Costa, pelo contrário, respira história, tem belas reedições de clássicos, empregados que sabem de livros, que gostam de livros, é um local que se pode ir descobrindo, com prateleiras que dá gosto explorar, com bancadas onde está praticamente a História da Literatura. Fica no Cjiado, mesmo ao lado de «A Brasileira», mais precisamente no número 100 da Rua Garrett. Óptimo local para fazer horas para um jantar e descobrir preciosidades.
VER – Fotos de Victor Palla, em impressões originais, na Galeria P4 Photography, Rua dos Navegantes 16, à Lapa, Lisboa.
BACK TO BASICS – Nenhum Governo se pode sentir seguro se não tiver uma oposição competente, Benjamin Disraeli.
fevereiro 25, 2009
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 20 de Fevereiro
fevereiro 18, 2009
QUEREMOS LISBOA TRANSFORMADA NUM ENORME BURACO?
(Publicado no diário «Meia Hora» de 17 de Fevereiro)
fevereiro 16, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 13 de Fevereiro)
INSPIRAÇÕES - O Primeiro Ministro abriu a época eleitoral com uma campanha alinhada à esquerda e virada para o interior do PS. Levanta esse velho desígnio da esquerda que é castigar a riqueza e penalizar o sucesso e fez passar a mensagem de que encarna o espírito de Robin Hood, mas como Fernando Sobral bem recordou neste jornal, Robin tinha por missão recuperar o dinheiro da excessiva cobrança de impostos que o xerife de Nottingham exercia contra o povo…Sócrates, se é parecido com alguém nesta história, é com o explorador de impostos e não com o justiceiro. Adiante: na realidade o Primeiro Ministro foi recuperar um curioso slogan datado de 1975 e que era a palavra de ordem programática da UDP nesse ano: «Os Ricos Que Paguem A Crise». A origem e modernidade ideológica da moção de Sócrates ao Congresso socialista está pois localizada.
PRÉMIO «VAI CHATEAR OUTRO» – Atribuído por unanimidade a Mário Lino, o Ministro que mais perguntas de deputados deixa por responder. O homem continua a aplicar «jamais» - neste caso ás respostas. Talvez seja mais fácil aproveitar um dos seus descontraídos momentos de final de almoço no Solar dos Presuntos para lhe fazer umas perguntas…
GERAÇÃO NULA - Estes meses têm mostrado uma coisa – muitos dos grandes bancos mundiais estão em péssima situação, cheios de activos tóxicos, muitas empresas financeiras que pareciam donas do Universo esboroaram-se que nem neve em dia de sol, grande número de consultores enganaram-se nas contas, nas previsões, nas estimativas e nos modelos de negócio. É caso para dizer que uma geração de gestores implacáveis, a repletos de MBA’s e de arrogância caiu à primeira dificuldade, depois de esbarrar nos acontecimentos e mostrou que não sabia aplicar conhecimentos nem trabalhar no mundo real.
ABSURDO - Nunca hei-de conseguir perceber as circunstâncias muito particulares em que se movimentam as empresas de futebol, antigamente chamadas clubes. No mundo real quem trabalha mal e falha resultados é despedido com justa causa – no mundo do futebol é dispensado com grandes indemnizações, fruto de contratos feitos por gestores que acreditam em milagres, na sorte, no carisma e noutros subjectivismos diversos. Em qualquer outro ramo de actividade seriam crucificados, no futebol são levados em ombros. O caso de Scolari é paradigmático: o vendedor de ilusões pode continuar a rir-se: a equipa que era suposta treinar não tem bons resultados, ele confirmou ser fraco líder, mas mesmo assim fez um belo encaixe financeiro.
DÉFICIT - A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, anunciou uma iniciativa aberta a independentes, intitulada «Fórum Portugal», e que abordará uma larga série de temáticas. Mais uma vez a Cultura fica de fora do leque de preocupações, o que é um aborrecido deficit recorrente na política portuguesa e pode vir a ser um grande disparate. Na semana passada já tive oportunidade de lembrar que foi nos anos entre 1929 e 1939, a seguir à Grande Depressão, e graças a programas massivos de apoios, que o talento criativo nos Estados Unidos floresceu como em nenhuma outra época do século passado e ajudou o país a ganhar outro impulso. Já agora recordo, a este propósito, um artigo que Guta Moura Guedes escreveu no «Público» do passado dia 7, intitulado «Da importância da cultura em tempos de crise». Faço minhas as palavras da autora e, sobretudo este pedaço: «enquanto as prioridades não se centrarem nos conteúdos e nos recursos humanos, deixando para segundo lugar as construções mais visíveis, estaremos longe de fazer o necessário nesta área».
VER –A «Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea», fica em Almada e está situada no alto da parte velha da cidade, tem jardins magníficos e uma vista espantosa sobre Lisboa. Até 17 de Maio apresenta uma bela exposição baseada na colecção de gravuras do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (com obras de Almada, Mário Botas, Lourdes Castro, Man Ray, Matisse e Moore entre muitos outros) e duas exposições de fotografia - «Wall», de Rita Barros, e «De Passagem», de Graça Sarsfield, esta, de ambas, a mais interessante. Todos os dias menos segundas até às 18h00.
PROVAR - Na zona das Avenidas Novas lá vão abrindo alguns novos restaurantes como o «La Finestra», uma casa de comida italiana localizado onde em tempos foi o «Café Creme». As pizzas são a especialidade da casa – massa fina, pouco tomate, queijo QB sem abundâncias desnecessárias e boas combinações de outros ingredientes. Preços acessíveis, decoração luminosa e colorida, mesas confortáveis. Em matéria de pizzas fica no top 5 lisboeta. La Finestra – Av Conde de Valbom 52-A, tel 217 613 580.
LER – Num ano em que o país convidado da Arco de Madrid é a Índia vem a calhar ler o magnífico «Uma Ideia da Índia», um conjunto de crónicas de viagem de Alberto Morávia escritas no início da década de 60 para o «Corriere della Será». A descrição dos locais, do funcionamento da sociedade indiana e da filosofia oriental são muito bem feitas, muito bem observadas. O livro, agora reeditado entre nós, está incluído numa nova colecção da editora «Tinta da China», dedicada a viagens, bem organizada e seleccionada por Carlos Vaz Marques. Boas capas, bom papel, bom grafismo – um exemplo raro nos dias de hoje.
OUVIR - Benny Golson é um dos mais importatntes saxofonistas da fase do bepop e tocou com alguns dos maiores músicos da sua época. «The Best of Benny Golson» agrupa gravações feitas entre 1957 e 2004 e é uma compilação verdadeiramente preciosa para descobrir o talento de Golson, aqui ao lado de nomes como Art Blakey, Paul Chambers ou Art Farmer e Tommy Flannagan, entre outros.
BACK TO BASICS - A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes – Fernando Pessoa
fevereiro 11, 2009
O DÉSPOTA ACIDENTAL
(Publicado no diário «Meia Hora» de 10 de Fevereiro)
fevereiro 09, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Fevereiro)
fevereiro 06, 2009
UMA NOVA AMBIçÃO
Muito bom o artigo de Pedro Passos Coelho publicado hoje no Jornal de Negócios - uma análise aberta e realista da crise, das medidas que têm sido tomadas e de alguns caminhos que deveriam ser seguidos. Espreitem http://tinyurl.com/b8z2hs
fevereiro 04, 2009
COSTA CONTRA OS ALFACINHAS
fevereiro 02, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Janeiro)
CURIOSIDADE – Gostava de ver um estudo que avaliasse, em termos económicos, o impacto negativo que Lisboa sofrerá se o alargamento do terminal de contentores fôr para a frente e se, em consequência disso, diminuírem brutalmente o número de cruzeiros que escolhem Lisboa como porto de passagem. É que as cidades que apostam num porto de carga invariavelmente deixam de ser porto de turismo e os muros de contentores fazem perder muitos cruzeiros – muitos milhares de turistas por ano que deixarão de entrar em Lisboa, fazer compras, visitar museus e dinamizar a economia da cidade. Será que tudo isto foi avaliado?
PERGUNTAS QUE ME OCORREM - Como é que PS, PSD e PP se conseguem abster numa proposta do BE e do PCP que visa geminar Lisboa com a cidade de Gaza no meio de considerandos pró-palestinianos e de condenação a Israel? O que é que o Ministro das Finanças terá dito em Londres numa reunião com a Standard & Poor’s para esta instituição baixar o rating de Portugal dias depois? Como é que se encaixa a entrega de parte da colecção Berardo como garantia colateral da dívida do empresário aos Bancos com o contrato existente com o Estado sobre aquelas obras de Arte?
QUINTO CANAL – O novo canal de televisão, o célebre quinto canal, se vier a existir, tem que contribuir para a diversidade da paisagem audiovisual e, necessariamente, terá que dinamizar a produção independente, encomendando produção no mercado português – cumprindo aliás directivas europeias e leis nacionais, o que quer dizer que não pode ser uma estrutura auto-suficiente que não dinamiza a economia do sector. Espero que quem decide tenha bem presente este lado da questão e analise a viabilidade das propostas com os pés assentes na terra.
VER – Vale a pena ir a Elvas descobrir o Museu de Arte Contemporânea local (MACE), que alberga a colecção de António Cachola. Há dias o Museu abriu uma extensão destinada a exposição temporárias, no Paiol de Nossa Senhora da Conceição, inaugurado com a exposição «(Im)permanências» de Cristina Ataíde, e que ficará no local até ao Verão. É uma instalação que junta escultura com fotografia e o resultado surpreende.
OUVIR – Jóias e raridades do arquivo da Tamla Motown numa edição disponível apenas com a revista britânica de música «Mojo». O CD que acompanha a edição de Fevereiro da revista inclui alguns singles históricos de nomes como Martha & The Vandellas, Supremes, Marvin Gaye, Four Tops, The Miracles, Temptations ou Gladys Knight & The Pips. A mesma edição da revista traz um belo conjunto de artigos sobre a história da Motown e uma lista das cem melhores faixas que ela editou, escolhidas por vários músicos. A publicação com o CD incluído como oferta custa cerca de oito euros e está disponível nas boas lojas de revistas.
LER – A mais recente edição da «Monocle», de Fevereiro, é dedicada à crise actual e, depois, de forma mais particular, à forma como ela atingiu a Islândia e o que o país está a fazer para tentar salvar-se. Mas para além disto esta edição tem numerosos pontos de interesse na área do design, dos negócios, da cultura e da actualidade. Começa a ser repetitivo dizer isto, mas de facto a «Monocle» é mesmo uma revista a não perder.
CRISE – Começa a notar-se que a crise afecta os restaurantes – embora também se veja que não afecta todos por igual. De qualquer forma os restaurantes com preços mais elevados começam a ter menos reservas e mais mesas disponíveis. No actual clima económico é compreensível que assim seja e a situação cria um desafio para que os bons restaurantes consigam sobreviver a um período de possível diminuição de receitas. A espiral de pânico que se instalou leva a que as pessoas pensem duas vezes antes de gastar dinheiro e faz com que, nas empresas, haja maior cuidado na escolha de locais para almoços ou jantares de negócios. Tudo isto vai obrigar os restauradores a terem muita imaginação e a refazerem bem as contas, para verem como podem ter uma oferta mais competitiva e que não afaste a clientela habitual. Duas refeições ao almoço por 70/80 euros pode ser aceitável, duas refeições por 120 euros pode começar a ser questionável. Basta ir a dois ou três locais de Lisboa à hora de almoço e sentir a deslocação de uns locais para outros, vendo os mais caros um pouco desertos e os de preços médios mais cheios e com novos clientes. Também neste sector as mudanças vão ser inevitáveis.
PROVAR – Situado no alto do Parque Eduardo VII o restaurante Eleven partiu de uma aposta ousada: um edifício de restaurante construído de raiz, projecto do arquitecto João Correia, com a sala de refeições orientada para o parque, a Avenida da Liberdade e o Tejo, ladeado pelas colinas, Alfama e o Castelo de um lado, o Bairro Alto do outro. Esta é provavelmente a melhor vista disponível nos restaurantes lisboetas e como os olhos também comem fora do prato o trunfo é considerável. Mas o «Eleven», para ser justo, tem a sua principal vantagem na qualidade da cozinha, na criatividade dos seus pratos e no serviço, que é verdadeiramente exemplar. Dirigido pelo chefe Joachim Koerper, um alemão convertido aos sabores mediterrânicos, o «Eleven» propõe menus de almoço de negócios a preços mais reduzidos que o menu habitual, com a particularidade de incluir vinhos muito criteriosamente escolhidos para os pratos propostos e que vão variando. Telefone 213862211.
BACK TO BASICS – Nunca pode existir total confiança num poder que parece excessivo – Cornelius Tacitus
janeiro 29, 2009
A IMPORTÂNCIA DA CREDIBILIDADE
(Publicado no diário «Meia Hora» de 27 de Janeiro)
janeiro 24, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Janeiro)
RESUMO DA SEMANA – Lá vamos cantando e revendo o orçamento ( o tal que estava óptimo há um mês atrás…); já se sabe que este ano a despesa do Estado cresce 10 por cento; Vitor Constâncio reconheceu ter-se enganado mais uma vez, o que o torna candidato a recordista de erros no campeonato dos Governadores de Bancos Centrais; já se percebeu que José Sócrates iniciou a sua viragem à esquerda para consumo interno do PS e não me espanto se um dia destes ele disser que o Governo veio em ajuda do Banco Privado Português para defender a classe média…
ANDA NO AR – No cenário de uma maioria relativa do PS começam a correr pelo ar vários cenários: uma revisitação de um acordo PS-PP, desta vez uma coisa à séria e sem queijo Limiano; uma tentativa de cisão no PSD que desse consistência a um bloco central de partilha do poder; e um governo patrocinado pelo Presidente da República, que juntasse figuras do PS e PSD, sem Sócrates. Os cenários começaram a ser feitos – daqui até ao fim do ano cenógrafos e carpinteiros vão ter muito que fazer.
RECORDISTA – A cerimónia de tomada de posse de Barack Obama foi recordista de audiências – bateu todos os recordes anteriores, pertencentes a manifestações desportivas – Jogos Olímpicos em audiências globais no mundo inteiro e o Super Bowl dentro das audiências internas do mercado dos Estados Unidos. As primeiras estimativas apontam para uma audiência televisiva total superior a 100 milhões de espectadores só nos Estados Unidos. Já se sabe que o vencedor da batalha de audiências foi a dupla CNN- Facebook, que possibilitou que os espectadores comentassem em tempo real e inter-agissem uns com os outros ao mesmo tempo que assistiam à cerimónia. Este acordo CNN-Facebook foi por si só um marco na comunicação e na maneira de ver as transmissões em directo – algo que fará História.
VER – «Lá Fora» reúne obras de 67 artistas portugueses que desenvolveram grande parte da sua obra no estrangeiro, no caso em 21 cidades, e é uma iniciativa conjunta da Fundação EDP e do Museu da Presidência da República, originalmente criada por ocasião do 10 de Junho do ano passado e que agora chegou a Lisboa, ao Museu da Electricidade. Aqui estão, por exemplo, peças feitas por José Barrias em Milão, por Paula Rego em Londres, por Isabel Pavão em Nova Iorque ou por Alvess em Paris – acreditem que para muitos esta diversidade vai ser uma surpresa. Até 15 de Março.
OUVIR – Eu pessoalmente gosto de trios – esclareço que estou a falar de jazz nesta instância: piano, baixo e bateria fazem a minha felicidade. Aqui há uns anos descobri a obra do trio do belga Jef Neve com o disco «Nobody Is Illegal». Agora redescobri-a com o novo disco, «Soul In A Picture», um dos melhores discos de jazz de músicos europeus que ouvi nos últimos anos. Vou corrigir: um dos melhores discos de jazz que ouvi nos últimos anos.
LER – José Sarmento de Matos é um estudioso de Lisboa e da sua História e, reza a lenda, terá sido ele o primeiro a sugerir a Mega Ferreira a zona oriental de Lisboa como local ideal para a requalificação que a EXPO 98 queria fazer. Adiante: «A Invenção de Lisboa» é um trabalho extraordinário, cujo primeiro volume acaba agora de sair, editado pela «Temas e Debates». Esta História começa nos tempos dos fenícios e dos romanos e o primeiro volume centra-se na conquista de Lisboa aos Mouros e nas três décadas imediatamente a seguir que moldam a cidade como capital do país. É um livro delicioso em que a História se mistura com relatos de aventura, um registo da evolução de Lisboa em que se juntam contribuições de história política, económica, social e cultural. É um prazer começar o ano a ler um livro assim.
COISAS DE QUE EU GOSTO – Gosto muito de passear nas Avenidas Novas. Anda-se bem a pé, há comércio, muita restauração, cafés, até a excelente livraria «Pó dos Livros» (Av. Marquês de Tomar 89ª). Ao longo dos tempos os restaurantes mudam, a bem dizer, de «alma». Por exemplo, o «City Café» (Av Miguel Bombarda 133), que aqui em tempos elogiei, transformou-se num templo de fumo ( e eu não sou anti-tabagista), com um género de serviço que gosta de ver os clientes a saírem, com mesas guardadas sem estarem reservadas, num estilo algo ganancioso de funcionamento que a mim me irrita bastante. Em contraste, o «Magnólia» (também Av. Miguel Bombarda nº 48) melhorou muito desde que abriu e agora a sua sala de restaurante é um local agradável, com, bom serviço e preços equilibrados, zona de fumadores e não fumadores, ambas confortáveis. Enquanto ao Magnólia volto agora com gosto, do City Café fujo sem desgosto.
PERGUNTAS QUE ME OCORREM – Onde anda o «Compromisso Portugal»? Que actividades desenvolve depois de ter feito em Julho do ano passado uma avaliação do desempenho do Governo? Que análise faz da crise, do que aconteceu nestes últimos meses, do que se passa nalguma banca, como avalia o desempenho do sistema político face à situação? Lembrei-me de tudo isto quando, na semana passada, vi o Dr. António Carrapatoso e o Dr. António Costa numa conversa de almoço. Sei lá –ainda existe, o «Compromisso Portugal»?
TESOURINHO DA SEMANA – « Da parte do meu Governo pode contar com uma firme vontade em trabalhar em conjunto com os Estados Unidos» - José Sócrates, felicitando Barack Obama no dia da sua posse. E que terá Obama pensado? - «Cool Man, I really was wainting for that – send me the rescue plans for that Banco Privado of yours)…
BACK TO BASICS – «O Verão tem muito mais graça» - D.P.A.
janeiro 22, 2009
CARTA ABERTA SOBRE O PATRIMÓNIO
janeiro 19, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios do dia 16 de Janeiro)
SERVIÇO CÍVICO
janeiro 12, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 9 de Janeiro)
TRAPALHADAS - Primeiro foi José Sócrates a admitir que podia, afinal, existir recessão. Como por milagre, no dia seguinte, Vítor Constâncio, o Governador do Banco de Portugal que se está a especializar em desdizer-se, confirmou o cenário de recessão. Depois o Ministro das Finanças apareceu a dizer que o Orçamento de Estado necessitava de ser actualizado e corrigido, confirmando as dúvidas levantadas pelo Presidente da República, mas contradizendo declarações oficiais do Governo e do Grupo Parlamentar do PS sobre esta matéria. Pelo meio José Sócrates admitiu que antecipar as legislativas podia ser uma boa ideia de ajuste do Calendário Eleitoral aos seus interesses, contrariando também o enorme sururu que uma análise feita nesse sentido, há semanas, por Pedro Santana Lopes, levantou nas hostes socialistas. Afinal o país está em recessão, afinal o PS quer eleições legislativas mais cedo, afinal o Orçamento de Estado contém erros e é insuficiente. Quer dizer – tudo o que o PS e o Governo andaram a dizer no último mês e meio que não existia veio a confirmar-se verdadeiro. É um cenário de enormes trabalhadas, mentiras e grande impreparação. Se Jorge Sampaio fosse ainda Presidente da República se calhar Sócrates era despedido.
COMPADRIOS - A decisão do Governo de permitir obras públicas até cinco milhões de euros sem concurso público, por simples ajuste directo, é um escândalo, sobretudo num ano de eleições legislativas e autárquicas. São medidas destas, que favorecem compadrios, que tornam o Estado menos transparente, são medidas destas que fazem crescer a desconfiança nos Partidos e nos políticos, são medidas destas que delapidam o erário público em obras de fachada. João Cravinho, que aqui queria combater a corrupção, que dirá deste assunto sentado no gabinete para onde foi despachado, em Londres?
GERAÇÃO - Há uma geração, que situo entre os vinte e muitos e os trinta e poucos anos, nascida e criada depois de 1974, que tem uma posição de enorme pragmatismo sobre a sociedade, a política, a participação cívica, os partidos, a ética e a responsabilidade. No geral são individualistas em extremo, sem ideologias nem causas, e desejam apenas que «isto ande». São a grande base eleitoral de José Sócrates, algures entre a social-democracia e o liberalismo, definitivamente longe da esquerda e da direita tradicionais. Este é o novo centrão, que olha para Sócrates como um dos seus e espera que ele se mantenha no seu posto. Não é uma imagem tranquilizadora…
CITAÇÃO 1 - «Para não dar azo a muitas especulações vou sintetizar: quero que Israel ganhe a guerra contra o Hamas, o Hezbollah, o Irão e os fundamentalistas árabes. Que os palestinianos tenham uma pátria. Que em Israel e na Palestina os moderados consigam impor uma negociação.» (Luís Januário, blogue «A Natureza do Mal»).
CITAÇÃO 2 - «Sócrates é uma melancia nascida no jardim de Maquiavel, de todas as cores por fora desde que o centro seja comestível» - Fernando Sobral, neste «Jornal de Negócios».
CITAÇÃO 3 - «Eu não me dou com ninguém que tenha apontado uma arma de plástico a um professor, mas quase toda a gente que conheço já fez comentários desagradáveis, ou até insultuosos, sobre o Primeiro-Ministro. Se os primeiros são os brincalhões e os segundos os delinquentes, está claro que preciso de arranjar urgentemente novos amigos» - Ricardo Araújo Pereira, na «Visão», comentando a posição da Directora Regional de Educação do Norte, que há meses suspendeu um professor por ter tido graçolas sobre o Chefe do Governo mas considerou uma brincadeira de mau gosto a ameaça a um professor com uma arama de plástico por um grupo de alunos que exigiam melhores notas.
MEDIA - Neste ano que agora começa vai surgir um novo jornal diário, vai ser escolhido (enfim, designado, melhor dizendo) o novo operador de um canal nacional generalista de televisão, as guerras de audiências entre os três canais comerciais já existentes vão aquecer e no meio de um cenário de quebra de publicidade na imprensa o Estado decidiu que as publicidades obrigatórias – fonte de preciosas receitas em jornais nacionais e sobretudo locais e regionais – iria desaparecer para passar imediatamente para a internet. Não houve sequer o cuidado de propor uma diminuição faseada, ainda por cima num ano em que o mercado publicitário vai sofrer as inevitáveis ondas de choque da crise económica.
OBRA – Insensível à crise continua o jornal «Lux Frágil», de distribuição gratuita e fruto da iniciativa nocturna e privada. Sob o lema «A Vida É Toda Para Diante», o jornal é um oásis de humor e de negação do pessismismo reinante, desta vez com a reprodução de uma bela gravura de Ana Jotta na capa, muito oportuna nos tempos que correm, construída à volta da frase: « La gente dice que me paso el dia de compras, pêro intento trabajar». Esta edição e números anteriores felizmente disponíveis em www.blog.luxfragil.com .
CLÁSSICO – Um restaurante a que se volta sempre é «A Isaura», Avenida de Paris, 4B, telef 218480838. As opções de pratos do dia são frequentemente fantásticas e muito bem confeccionadas, a lista de vinhos é um manual de como escolher o melhor vinho para a refeição e uma fonte de sabedoria. O serviço é um pouco «deixa lá que a comida é boa e o preço dos vinhos não é mau e eles acabam sempre por cá voltar». Mas a minha lebre com feijão branco estava bem boa.
BACK TO BASICS – Deus criou os homens mas são eles que se escolhem uns aos outros – Maquiavel.
janeiro 08, 2009
política reality show
Trazer para uma lista eleitoral um nome como o do ex-inspector Gonçalo Amaral é reduzir a política a uma espécie de reality show que vai a votos. A escolha do PSD para Olhão vai ao contrário do que os partidos precisam para conseguirem ser credíveis.