janeiro 14, 2006

LISBOA OUTRA VEZ

Finalmente o resultado eleitoral das autárquicas em Lisboa começou a ter correspondência na gestão da autarquia. Foram precisos três meses para se chegar a um acordo natural, e cuja necessidade era evidente.
O futuro fará a história das pequenas políticas que foram metendo pauzinhos na engrenagem e que dificultaram o que era por demais evidente: a existência natural, à direita, de uma maioria segura e estável.
Como lisboeta esta era uma situação que me arreliava particularmente e não conseguia mesmo perceber a manutenção do desacordo. O que é mais importante: fazer cedências e assegurar um projecto?; ou manter rigidez e desenvolver o imobilismo?.
Uma aliança política pressupõe compromissos, mas se for transparente é melhor – bem melhor – que o governo feito apenas por uma facção. Por isso a entrada do PP e de Maria José Nogueira Pinto para o executivo camarário é uma boa notícia.
Talvez agora se possa começar a desenhar uma estratégia para a cidade, invisível até este momento, para além dos truques da pior velha política que surgiram nestes primeiros meses de mandato.
Nalgumas áreas que me são particularmente caras – como a da Cultura – vejo as declarações programáticas reduzirem-se a anúncios de intenções que apenas satisfazem alguns lóbies numa linha política de cedência a pressões que já caracterizou Amaral Lopes quando foi Secretário de Estado da Cultura. Mas, pior, e mais preocupante, é a manifesta ausência de referências à continuidade de linhas de força estratégicas que vinham dos últimos anos – como o bem sucedido África Festival, que parece ter sido já esquecido. Ainda é cedo para balanços, mas a linha geral que até agora domina é a do espontaneísmo – essa infecciosa manifestação de falta de rumo. Que a coisa se componha é o meu desejo. Sincero.

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LISBOA OUTRA VEZ

Finalmente o resultado eleitoral das autárquicas em Lisboa começou a ter correspondência na gestão da autarquia. Foram precisos três meses para se chegar a um acordo natural, e cuja necessidade era evidente.
O futuro fará a história das pequenas políticas que foram metendo pauzinhos na engrenagem e que dificultaram o que era por demais evidente: a existência natural, à direita, de uma maioria segura e estável.
Como lisboeta esta era uma situação que me arreliava particularmente e não conseguia mesmo perceber a manutenção do desacordo. O que é mais importante: fazer cedências e assegurar um projecto?; ou manter rigidez e desenvolver o imobilismo?.
Uma aliança política pressupõe compromissos, mas se for transparente é melhor – bem melhor – que o governo feito apenas por uma facção. Por isso a entrada do PP e de Maria José Nogueira Pinto para o executivo camarário é uma boa notícia.
Talvez agora se possa começar a desenhar uma estratégia para a cidade, invisível até este momento, para além dos truques da pior velha política que surgiram nestes primeiros meses de mandato.
Nalgumas áreas que me são particularmente caras – como a da Cultura – vejo as declarações programáticas reduzirem-se a anúncios de intenções que apenas satisfazem alguns lóbies numa linha política de cedência a pressões que já caracterizou Amaral Lopes quando foi Secretário de Estado da Cultura. Mas, pior, e mais preocupante, é a manifesta ausência de referências à continuidade de linhas de força estratégicas que vinham dos últimos anos – como o bem sucedido África Festival, que parece ter sido já esquecido. Ainda é cedo para balanços, mas a linha geral que até agora domina é a do espontaneísmo – essa infecciosa manifestação de falta de rumo. Que a coisa se componha é o meu desejo. Sincero.

janeiro 08, 2006

OUTRAS TELEVISÕES
Diferenças ibéricas: aqui ao lado, em Espanha, o ano que passou viu o nascimento de dois novos canais abertos – a Cuatro e a Seis. Em Portugal continua a parecer uma heresia falar-se na possibilidade de, ainda antes do lançamento da Televisão Digital Terrestre, se possibilitar a abertura de novos canais. E o mero licenciamento de canais destinados a plataformas fechadas continua a ser uma dor de cabeça. Só para termos uma ideia de como o mundo anda mais depressa do que a política permite, vejam-se estes dois casos vindos dos Estados Unidos e que irão deixar marcas na forma como a televisão é distribuída e consumida.
Boas notícias no mundo da TV por banda larga: uma empresa norte-americana, o Starz Entertainment Group (SEG), anunciou esta semana o lançamento do Vongo, um serviço de banda larga que permite distribuir filmes e diverso conteúdo vídeo a computadores baseados no sistema Windows, a alguns dispositivos portáteis compatíveis e a aparelhos de televisão. Os assinantes deste novo serviço, que custa 9.9 dolares norte americanos por mês, terão acesso à emissão do canal Starz TV, feita em streaming, e a um catáologo de mais de mil títulos, entre os quais «The Incredibles», «Pulp Fiction», «Annie Hall» e «Dances With The Wolves», entre outros. Existe uma extensa lista de títulos adicionais que podem ser vistos no sistema de pay-per-view (PPV), ao preço de 3.99 dolares cada um. A SEG estabeleceu já um acordo com a Sony para que o Vongo seja um dos parceiros privilegiados do serviço Connect Vídeo que vai ser brevemente lançado. Por outro lado a Microsoft está a trabalhar estreitamente com a SEG para assegurar que a qualidade de imagem obtida com o Vongo seja uma referência.
Do lado da Apple e do admirável mundo novo do iPod, a Walt Disney anunciou que vai alargar o pacote de oferta no iTunes Music Store. Assim passarão a estar disponíveis conteúdos desportivos dos canais ESPN e ABC Sports, assim como conteúdos dos canais ABC News e ABC Family. O ESPN (uma das maiores operações de televisão baseada em todas as formas de desporto) e a ABC Sports são os primeiros fornecedores de conteúdos de desporto a estabelecerem acordo com a iTunes. O material incluirá versões condensadas de grandes acontecimentos desportivos, nomeadamente os grandes jogos de baseball e futebol americano, assim como resumos de provas de desportos radicais, entrevistas com grandes atletas e uma série muito premiada de biografias, lançada pela ESPN sob o título «This Is Sports Center». A iTunes vai também disponibilizar séries infantis da Disney como «Kim Possible» e «The Proud Family», além de clássicos como «Os Três Porquinhos» (de 1935) e «A Tartaruga e a Lebre».. Além de tudo isto a ABC News irá fornecer um serviço de vídeo podcasts (emissão em vídeo expressamente feita para iPod’s», que será financiada por publicidade específica e que incluirá segmentos de programas como «Good Morning America» e «World News Tonight»., assim como de «Money Minute» e «Medical Minute». Recordo que este serviço já incluía o download de séries como «Desperate Housewifes», «Lost» e «Commander In Chief», entre outras, ao preço de 1.99 dolares por episódio.
Mudar a audiência de uma estação de forma radical é possível: Em poucos anos Nancy Tellem, a presidente da CBS Paramount, conseguiu transformar uma estação de público envelhecido e predominantemente rural para a estação norte-americana mais vista pelo público urbano entre os 18 e 49 anos – o segmento demográfico mais apetecido. Receitas? – Segundo Tellem, o fundamental foi permanecer fiel à estratégia traçada que era a de apresentar programas de grande qualidade, com capacidade de atracção de audiências, e construir uma grelha programa a programa, segmento a segmento e noite a noite. Nesta linha incluíram-se sitcoms como «Everybody Loves RFaymond», reality-shows como «Survivor» ou séries como «CSI», «Without A Trace» ou «Cold Case». A estação tem mais programas na lista dos 20 mais vistos nos Estados Unidos que qualquer das suas rivais. Claro que não lhe fizeram cortes de orçamento a meio do plano, claro que a deixaram ter autonomia, claro que não interferiram com o seu trabalho.
BACK TO BASICS: Cá se fazem, cá se pagam – a propósito da Iberdola, EDP e Pina Moura.

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OUTRAS TELEVISÕES
Diferenças ibéricas: aqui ao lado, em Espanha, o ano que passou viu o nascimento de dois novos canais abertos – a Cuatro e a Seis. Em Portugal continua a parecer uma heresia falar-se na possibilidade de, ainda antes do lançamento da Televisão Digital Terrestre, se possibilitar a abertura de novos canais. E o mero licenciamento de canais destinados a plataformas fechadas continua a ser uma dor de cabeça. Só para termos uma ideia de como o mundo anda mais depressa do que a política permite, vejam-se estes dois casos vindos dos Estados Unidos e que irão deixar marcas na forma como a televisão é distribuída e consumida.
Boas notícias no mundo da TV por banda larga: uma empresa norte-americana, o Starz Entertainment Group (SEG), anunciou esta semana o lançamento do Vongo, um serviço de banda larga que permite distribuir filmes e diverso conteúdo vídeo a computadores baseados no sistema Windows, a alguns dispositivos portáteis compatíveis e a aparelhos de televisão. Os assinantes deste novo serviço, que custa 9.9 dolares norte americanos por mês, terão acesso à emissão do canal Starz TV, feita em streaming, e a um catáologo de mais de mil títulos, entre os quais «The Incredibles», «Pulp Fiction», «Annie Hall» e «Dances With The Wolves», entre outros. Existe uma extensa lista de títulos adicionais que podem ser vistos no sistema de pay-per-view (PPV), ao preço de 3.99 dolares cada um. A SEG estabeleceu já um acordo com a Sony para que o Vongo seja um dos parceiros privilegiados do serviço Connect Vídeo que vai ser brevemente lançado. Por outro lado a Microsoft está a trabalhar estreitamente com a SEG para assegurar que a qualidade de imagem obtida com o Vongo seja uma referência.
Do lado da Apple e do admirável mundo novo do iPod, a Walt Disney anunciou que vai alargar o pacote de oferta no iTunes Music Store. Assim passarão a estar disponíveis conteúdos desportivos dos canais ESPN e ABC Sports, assim como conteúdos dos canais ABC News e ABC Family. O ESPN (uma das maiores operações de televisão baseada em todas as formas de desporto) e a ABC Sports são os primeiros fornecedores de conteúdos de desporto a estabelecerem acordo com a iTunes. O material incluirá versões condensadas de grandes acontecimentos desportivos, nomeadamente os grandes jogos de baseball e futebol americano, assim como resumos de provas de desportos radicais, entrevistas com grandes atletas e uma série muito premiada de biografias, lançada pela ESPN sob o título «This Is Sports Center». A iTunes vai também disponibilizar séries infantis da Disney como «Kim Possible» e «The Proud Family», além de clássicos como «Os Três Porquinhos» (de 1935) e «A Tartaruga e a Lebre».. Além de tudo isto a ABC News irá fornecer um serviço de vídeo podcasts (emissão em vídeo expressamente feita para iPod’s», que será financiada por publicidade específica e que incluirá segmentos de programas como «Good Morning America» e «World News Tonight»., assim como de «Money Minute» e «Medical Minute». Recordo que este serviço já incluía o download de séries como «Desperate Housewifes», «Lost» e «Commander In Chief», entre outras, ao preço de 1.99 dolares por episódio.
Mudar a audiência de uma estação de forma radical é possível: Em poucos anos Nancy Tellem, a presidente da CBS Paramount, conseguiu transformar uma estação de público envelhecido e predominantemente rural para a estação norte-americana mais vista pelo público urbano entre os 18 e 49 anos – o segmento demográfico mais apetecido. Receitas? – Segundo Tellem, o fundamental foi permanecer fiel à estratégia traçada que era a de apresentar programas de grande qualidade, com capacidade de atracção de audiências, e construir uma grelha programa a programa, segmento a segmento e noite a noite. Nesta linha incluíram-se sitcoms como «Everybody Loves RFaymond», reality-shows como «Survivor» ou séries como «CSI», «Without A Trace» ou «Cold Case». A estação tem mais programas na lista dos 20 mais vistos nos Estados Unidos que qualquer das suas rivais. Claro que não lhe fizeram cortes de orçamento a meio do plano, claro que a deixaram ter autonomia, claro que não interferiram com o seu trabalho.
BACK TO BASICS: Cá se fazem, cá se pagam – a propósito da Iberdola, EDP e Pina Moura.

janeiro 01, 2006

REVISÃO DA MATÉRIA DADA

Antes de entrar nas escolhas de 2005, quero deixar um voto para 2006: que em todas as áreas, em todos os sectores, quem decide possa definir de forma clara as prioridades; que a conjuntura não se sobreponha ao médio e longo prazo; que a coragem não se deixe vencer pelo populismo; que a arbitrariedade não se torne no standard da maioria absoluta. Vamos então ao ano que está a terminar.

Comecemos pela música, a portuguesa. Ano pujante, a merecer destaques variados. O primeiro vai para a banda sonora do filme «Alice», composta por Bernardo Sassetti, claramente uma das melhores edições de 2005. Saltando para a área do rock o destaque vai para os Wray Gunn com «eclesiastes 1.11», que este ano teve uma bem merecida internacionalização. No hip hop Boss AC tem a primazia com «Ritmo, Amor e Palavras», uma prova de que alguma da melhor poesia se faz no contexto da música de expressão urbana. O prémio revelação vai para Marta Hugon, com o seu «Tender Trap», um disco de standards de jazz com arranjos subtis, cantados de forma convincente e criativa pela voz de Marta Hugon. Na área da música contemporânea o destaque vai para o colectivo virtual Rocky Marsiano, com o seu «The Pyramid Sessions», que revela um vigor e modernidade que dificilmente encontra paralelo por estas paragens. Finalmente na música clássica o destaque vai inevitavelmente para «Quadros De Uma Exposição» do pianista Domingos António.

Nas músicas mais internacionais escolho momentos variados: No pop destaco o disco «I Am A Bird Now» de Antony And The Johnsons e o regresso de Fiona Apple com «Extrordinary Machine»; no rock, sublinho o segundo disco dos Franz Ferdinand, «You Could Have It So Much Better» e «Guero» de Beck; no hip hop uma chamada de atenção para o inesperado «Think Differently Music - Wu Tang Meets The Indie Culture» dos Wu Tang; na música clássica recordo a «Opera Proibita» de Cecília Bartoli; no jazz escolho colectânea «Get Happy- The Harold Arlen Centennial Celebration» e, entre as edições do ano, o «Flow» de Terence Blanchard.

Por mais voltas que se dê ao texto, um nome incontornável em 2006 é o de José Mourinho. Na edição desta semana da London Review of Books vem uma curiosa recensão de um livro que tenta analisar a razão do êxito de Mourinho como treinador do clube londrino. O livro chama-se «Mourinho: Anatomy Of A Winner», e foi escrito por Patrick Barclay, um jornalista desportivo britânico. Como é que a arrogância natural de Mourinho conseguiu sobreviver numa Grã Bretanha atavicamente pouco dada a atitudes dessas é um dos mistérios que a obra tenta explorar.. Uma pessoa que muito admiro, estimo e aprecio, tem sobre estas matérias uma opinião lapidar. «do desporto à gestão, passando pela política, há uma verdade incontornável: quanto mais se treina, mais sorte se tem».

Para mudar de ares, nas exposições, escolho a fotografia como tema e permito-me destacar três momentos: a retrospectiva de Paulo Nozolino em Serralves, a magnífica (mas mal apresentada) exposição de Joshua Benoliel no contexto da Lisboa Photo, na Cordoaria, e, ainda no contexto da Lisboa Photo, a exposição apresentada na Plataforma Revólver, «Imagens Privadas», comissariada por José Maçãs de Carvalho.

Vou passar quase por cima dos livros – porque esta é a área onde não hão-de faltar balanços. Mas para desassossegar as hostes escolho dois romances. O português, de matriz histórica, é «O Cavaleiro da Águia» de Fernando Campos, uma viagem aos séculos XI e XII da nossa História. Na literatura internacional escolho «Never Let Me Go» (edição portuguesa já disponível, «Nunca Me Deixes»), de Kazuo Ishiguro, um olhar inquieto e perturbador sobre o futuro.

Pois passemos agora à comidinha, à difícil escolha daquele que merece ser considerado como o mais regular, simpático e agradável restaurante de Lisboa durante 2005. Para fazer esta escolha há várias coisas que entram em linha de conta: em primeiro lugar a qualidade da comida, dos ingredientes à confecção; em segundo lugar a criatividade da lista; em terceiro lugar a variedade da garrafeira; em quarto lugar a qualidade do serviço, desde a marcação até à sala; em quarto lugar a relação qualidade-preço. Tendo em linha de conta todas estas variantes não tenho muitas dúvidas em indicar o Restaurante Luca como o que mais merece ser distinguido em 2005. Fica na Rua de Santa Marta 35 ( telefone 21 315 02 12) e se não fosse a dedicação posta pelo seu proprietário em todos os detalhes, a atenção e a simpatia para os clientes, tudo seria diferente. Que o Luca não se estrague é o meu sincero desejo.

Back To Basics: «As pessoas que se gabam de não terem vícios têm muito poucas virtudes» - Abraham Lincoln.

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REVISÃO DA MATÉRIA DADA

Antes de entrar nas escolhas de 2005, quero deixar um voto para 2006: que em todas as áreas, em todos os sectores, quem decide possa definir de forma clara as prioridades; que a conjuntura não se sobreponha ao médio e longo prazo; que a coragem não se deixe vencer pelo populismo; que a arbitrariedade não se torne no standard da maioria absoluta. Vamos então ao ano que está a terminar.

Comecemos pela música, a portuguesa. Ano pujante, a merecer destaques variados. O primeiro vai para a banda sonora do filme «Alice», composta por Bernardo Sassetti, claramente uma das melhores edições de 2005. Saltando para a área do rock o destaque vai para os Wray Gunn com «eclesiastes 1.11», que este ano teve uma bem merecida internacionalização. No hip hop Boss AC tem a primazia com «Ritmo, Amor e Palavras», uma prova de que alguma da melhor poesia se faz no contexto da música de expressão urbana. O prémio revelação vai para Marta Hugon, com o seu «Tender Trap», um disco de standards de jazz com arranjos subtis, cantados de forma convincente e criativa pela voz de Marta Hugon. Na área da música contemporânea o destaque vai para o colectivo virtual Rocky Marsiano, com o seu «The Pyramid Sessions», que revela um vigor e modernidade que dificilmente encontra paralelo por estas paragens. Finalmente na música clássica o destaque vai inevitavelmente para «Quadros De Uma Exposição» do pianista Domingos António.

Nas músicas mais internacionais escolho momentos variados: No pop destaco o disco «I Am A Bird Now» de Antony And The Johnsons e o regresso de Fiona Apple com «Extrordinary Machine»; no rock, sublinho o segundo disco dos Franz Ferdinand, «You Could Have It So Much Better» e «Guero» de Beck; no hip hop uma chamada de atenção para o inesperado «Think Differently Music - Wu Tang Meets The Indie Culture» dos Wu Tang; na música clássica recordo a «Opera Proibita» de Cecília Bartoli; no jazz escolho colectânea «Get Happy- The Harold Arlen Centennial Celebration» e, entre as edições do ano, o «Flow» de Terence Blanchard.

Por mais voltas que se dê ao texto, um nome incontornável em 2006 é o de José Mourinho. Na edição desta semana da London Review of Books vem uma curiosa recensão de um livro que tenta analisar a razão do êxito de Mourinho como treinador do clube londrino. O livro chama-se «Mourinho: Anatomy Of A Winner», e foi escrito por Patrick Barclay, um jornalista desportivo britânico. Como é que a arrogância natural de Mourinho conseguiu sobreviver numa Grã Bretanha atavicamente pouco dada a atitudes dessas é um dos mistérios que a obra tenta explorar.. Uma pessoa que muito admiro, estimo e aprecio, tem sobre estas matérias uma opinião lapidar. «do desporto à gestão, passando pela política, há uma verdade incontornável: quanto mais se treina, mais sorte se tem».

Para mudar de ares, nas exposições, escolho a fotografia como tema e permito-me destacar três momentos: a retrospectiva de Paulo Nozolino em Serralves, a magnífica (mas mal apresentada) exposição de Joshua Benoliel no contexto da Lisboa Photo, na Cordoaria, e, ainda no contexto da Lisboa Photo, a exposição apresentada na Plataforma Revólver, «Imagens Privadas», comissariada por José Maçãs de Carvalho.

Vou passar quase por cima dos livros – porque esta é a área onde não hão-de faltar balanços. Mas para desassossegar as hostes escolho dois romances. O português, de matriz histórica, é «O Cavaleiro da Águia» de Fernando Campos, uma viagem aos séculos XI e XII da nossa História. Na literatura internacional escolho «Never Let Me Go» (edição portuguesa já disponível, «Nunca Me Deixes»), de Kazuo Ishiguro, um olhar inquieto e perturbador sobre o futuro.

Pois passemos agora à comidinha, à difícil escolha daquele que merece ser considerado como o mais regular, simpático e agradável restaurante de Lisboa durante 2005. Para fazer esta escolha há várias coisas que entram em linha de conta: em primeiro lugar a qualidade da comida, dos ingredientes à confecção; em segundo lugar a criatividade da lista; em terceiro lugar a variedade da garrafeira; em quarto lugar a qualidade do serviço, desde a marcação até à sala; em quarto lugar a relação qualidade-preço. Tendo em linha de conta todas estas variantes não tenho muitas dúvidas em indicar o Restaurante Luca como o que mais merece ser distinguido em 2005. Fica na Rua de Santa Marta 35 ( telefone 21 315 02 12) e se não fosse a dedicação posta pelo seu proprietário em todos os detalhes, a atenção e a simpatia para os clientes, tudo seria diferente. Que o Luca não se estrague é o meu sincero desejo.

Back To Basics: «As pessoas que se gabam de não terem vícios têm muito poucas virtudes» - Abraham Lincoln.

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UMA CIDADE DESAPARECIDA

Lisboa vive no ingrato papel de ser simultaneamente a Capital e a cidade dos lisboetas. Na maior parte do tempo, os lisboetas foram derrotados pelo Estado. Existe uma quase fatal oposição entre aquilo que Lisboa deve ser como cidade, e aquilo que o Estado quer de uma Capital. O Estado olha para Lisboa como um território instrumental, parte de uma política, e não como um fim em si próprio. Quem está à frente da autarquia lisboeta deve pensar exactamente o contrário. E deve fazer afirmar a sua posição.
Nos últimos dez anos Lisboa afirmou-se e bateu o pé, ganhando identidade. No entanto, aquilo que se começa a assistir, agora, é que o Estado toma decisões que condicionam – e às vezes prejudicam – Lisboa. O caso da Ota é exemplar do ponto de vista da arbitrariedade centralista de um Ministro das Obras Públicas que tem um código genético autoritário, protegido por um Primeiro Ministro que tem tendência a ler na cartilha do despotismo iluminado.
A Ota surge em nome do «bem-comum», e aos poucos a iniciativa das questões que envolvem Lisboa passa da Praça do Município para S.Bento.
Até no negócio em torno da colecção Berardo o Primeiro Ministro viu vantagens em afastar as outras partes interessadas, chamando a si os louros da decisão, mais uma vez em nome do diáfano «bem comum».
Uma cidade como Lisboa só pode viver com uma estratégia própria, que a compense dos custos de ser Capital, do que isso traz de desconforto – e de prejuízo – aos seus habitantes. Uma cidade como Lisboa não pode ser governada em S. Bento, género alfinete de peito que se leva no fato de cerimónia para as ocasiões especiais.
Em Lisboa as águas andam demasiado paradas. Por este andar estão inquinadas lá mais para o Verão.
UMA CIDADE DESAPARECIDA

Lisboa vive no ingrato papel de ser simultaneamente a Capital e a cidade dos lisboetas. Na maior parte do tempo, os lisboetas foram derrotados pelo Estado. Existe uma quase fatal oposição entre aquilo que Lisboa deve ser como cidade, e aquilo que o Estado quer de uma Capital. O Estado olha para Lisboa como um território instrumental, parte de uma política, e não como um fim em si próprio. Quem está à frente da autarquia lisboeta deve pensar exactamente o contrário. E deve fazer afirmar a sua posição.
Nos últimos dez anos Lisboa afirmou-se e bateu o pé, ganhando identidade. No entanto, aquilo que se começa a assistir, agora, é que o Estado toma decisões que condicionam – e às vezes prejudicam – Lisboa. O caso da Ota é exemplar do ponto de vista da arbitrariedade centralista de um Ministro das Obras Públicas que tem um código genético autoritário, protegido por um Primeiro Ministro que tem tendência a ler na cartilha do despotismo iluminado.
A Ota surge em nome do «bem-comum», e aos poucos a iniciativa das questões que envolvem Lisboa passa da Praça do Município para S.Bento.
Até no negócio em torno da colecção Berardo o Primeiro Ministro viu vantagens em afastar as outras partes interessadas, chamando a si os louros da decisão, mais uma vez em nome do diáfano «bem comum».
Uma cidade como Lisboa só pode viver com uma estratégia própria, que a compense dos custos de ser Capital, do que isso traz de desconforto – e de prejuízo – aos seus habitantes. Uma cidade como Lisboa não pode ser governada em S. Bento, género alfinete de peito que se leva no fato de cerimónia para as ocasiões especiais.
Em Lisboa as águas andam demasiado paradas. Por este andar estão inquinadas lá mais para o Verão.

dezembro 27, 2005

A 2:
Estou a dias de sair da Direcção de Programas da 2:. Saio com a sensação de que cumpri objectivos e consegui que o canal fosse de facto complementar e alternativo. Sensibilizaram-me muito as pavras de Emídio Rangel que hoje, na «TV Guia», considera a Dois como a melhor estação do ano. Também por isto valeu a pena.
A Dois fechou 2004 com um share de 4,4%, e tudo indica que fechará 2005 nos 5%. De facto o nosso share de audiência aumentou 13,6% do ano passado para este.
Para o ano abrem-se boas perspectivas – até porque ao que parece a 2: será o único canal hertziano com programaçãoi infantil nas manhãs dos dias úteis.
Exibimos, produzimos, assegurámos documentários sobre nomes como Agustina Bessa Luis, Luiz Pacheco, Glicínia Quartim, Paula Rego, João Vieira, Luis Serpa, João Pedro Croft, Vieira da Silva, Paula Rego, Helena Almeida, Fernanda Botelho e Júlio Pomar.
«Gosto de Ti Como És», de Sílvia Firmino, sobre a Marcha da Bica, ganhou o prémio doclisboa Tóbis, para o melhor documentário português exibido em televisão, obviamente na 2:.
Acaba aqui uma etapa, sem falsas modéstias estou satisfeito com os objectivos atingidos. E recomendo a todos que em 2006 vejam na Dois a série «Rome», co-produzida pela HBO e a BBC. a série mais nomeada para os Globos de Ouro norte-americanos de 2005 e que a 2: assegurou em exclusivo para Portugal há três meses.

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A 2:
Estou a dias de sair da Direcção de Programas da 2:. Saio com a sensação de que cumpri objectivos e consegui que o canal fosse de facto complementar e alternativo. Sensibilizaram-me muito as pavras de Emídio Rangel que hoje, na «TV Guia», considera a Dois como a melhor estação do ano. Também por isto valeu a pena.
A Dois fechou 2004 com um share de 4,4%, e tudo indica que fechará 2005 nos 5%. De facto o nosso share de audiência aumentou 13,6% do ano passado para este.
Para o ano abrem-se boas perspectivas – até porque ao que parece a 2: será o único canal hertziano com programaçãoi infantil nas manhãs dos dias úteis.
Exibimos, produzimos, assegurámos documentários sobre nomes como Agustina Bessa Luis, Luiz Pacheco, Glicínia Quartim, Paula Rego, João Vieira, Luis Serpa, João Pedro Croft, Vieira da Silva, Paula Rego, Helena Almeida, Fernanda Botelho e Júlio Pomar.
«Gosto de Ti Como És», de Sílvia Firmino, sobre a Marcha da Bica, ganhou o prémio doclisboa Tóbis, para o melhor documentário português exibido em televisão, obviamente na 2:.
Acaba aqui uma etapa, sem falsas modéstias estou satisfeito com os objectivos atingidos. E recomendo a todos que em 2006 vejam na Dois a série «Rome», co-produzida pela HBO e a BBC. a série mais nomeada para os Globos de Ouro norte-americanos de 2005 e que a 2: assegurou em exclusivo para Portugal há três meses.

dezembro 25, 2005

PRENDAS DE NATAL

Com o Natal à porta, lembrei-me de escolher algumas prendas, dar-lhes destinatário e ver o que pode acontecer. Aqui vai.

Nada melhor que um clássico para uma figura como o Presidente da República, ainda por cima em fim de mandato. A mais recente edição em português de «Crime e Castigo» de Dostoievsky vem mesmo a calhar para alturas destas.

Para o Primeiro-Ministro tenho uma prendinha singela, muito afeiçoada ao choque tecnológico, que ninguém consegue perceber. Como o assunto passou depois de muitas peripécias para a sua tutela directa, e como não consigo compreender se ele próprio percebe o tal choque, seleccionei um didáctico livrinho para crianças, que me parece muito adequado ao senhor engenheiro: «Um Rapaz Invulgar, O Pequeno Einstein», de Don Brown.

Para o candidato Cavaco Silva encontrei a prenda adequada em «A República», de Platão. Cheira-me que, a ser eleito, lhe pode vir a ser bem útil, sobretudo o diálogo entre Sócrates e Glauco no início da «Alegoria da Caverna».

Para o candidato Mário Soares, em homenagem à rábula que tem desempenhado, proponho a colecção completa dos DVD’s dos Gatos Fedorentos. Nonsense com nonsense se paga. E sinceramente Soares deve ter sido o inspirador do célebre «eles falam, falam, mas não fazem nada».

Para Marques Mendes encontrei um livro que lhe pode ser muito útil, o mais recente lançamento de Marcelo Rebelo de Sousa, as «Crónicas da Revolução». Pode ser que assim Marques Mendes possa começar a ficar com uma ideia do que se tem passado no país e como se chegou aqui. Andei à procura de algum livro sobre «Como Fazer Oposição», mas depois pareceu-me que qualquer coisa feita pelo Professor Marcelo tem sempre alguma utilidade nessa matéria.

Para Marcelo Rebelo de Sousa juntei um pacotinho de bilhetes de cinema para ele poder ver dez vezes seguidas «O Fatalista», de Diderot, versão João Botelho. Assim sempre pode comparar um filme português sobre a obra do enciclopedista francês com as suas próprias crónicas e ver as semelhanças (que são maiores que as diferenças…)

Para o Ministro da Economia, Manuel de Pinho, não posso encontrar melhor sugestão do que «Portugal Genial», a compilação das crónicas de Carlos Coelho, publicadas no «Diário Económico», para ver se ele consegue ter alguma imagem positiva e construtiva sobre o país. A bem dizer, se pudesse, enviava o dito livrinho a todos os membros do Governo e a todos os líderes partidários – a ver se percebem que estão em Portugal e se vêem o que por cá existe.

Para o Ministro das Obras Públicas ofereço uma caixa gigante do sistema de montagens Meccano, para ver se ele se entretém a fazer as construções que quer sem chatear ninguém nem levar o país à desgraça. Complemento a coisa com uma construção da linha tecnológica da Lego para ver se ele se começa a adequar às modernices.

Para o Ministro das Finanças ofereço uma calculadora e um livro sobre os resultados do choque fiscal na Irlanda, assim como uma cópia do Orçamento de Estado daquele país para ele comparar as taxas dos impostos lá e cá, e confrontar resultados.

Para o Ministro da Justiça acho que a prenda mais adequada seria a sua participação num «reality-show» que o fizesse passar por todo o processo de uma acusação e de um julgamento. Nalguns casos ele não há nada como a experiência para se poder saber bem como as coisas são na realidade.

Para o Ministro da Administração Interna uma inscrição com lugar assegurado na próxima série da «Primeira Companhia». Ele é sempre bom poder sentir o que é o dia a dia do treino militar e um Ministro deve estar preparado para isso. E depois, sempre ganhava alguma notoriedade, que perdeu desde que está naquele lugar.

Para os Directores Gerais do Ministério da Cultura ofereço, a cada um, uma lupa para ver se descobrem a Ministra, ou sinais dos seus actos ou pensamentos. Ainda pensei em oferecer uma caixa com a primeira série do «CSI», mas depois pareceu-me que era capaz de fazer pensar demais.
A GRANDE ILUSÃO

Tornou-se lugar comum dizer que o Presidente da República não tem poderes. Um dos candidatos, Mário Soares, especializou-se em tocar nessa tecla contra um dos seus adversários, argumentando que o Presidente não governa e não pode prometer nada. Ora a questão não é bem essa: na verdade, não governando, o Presidente pode facilitar ou dificultar a governação. Mário Soares foi especialista na matéria: dissolveu uma vez o Parlamento e, depois, inventou as Presidências Abertas que foram acções de guerrilha contra o executivo na maior parte dos casos. Correram tão bem que Soares conseguiu, há dez anos, deixar Belém com o seu objectivo cumprido: colocar o PS em S. Bento. Não é coisa pouca – e o que está a fazer agora, forçando a sua candidatura sabendo que divide o PS, é a cobrança dos actos passados.
Quando se fizer o balanço do consulado Sampaio verificar-se-à como ele privilegiou determinados sectores contra outros, como não foi imparcial.
Na realidade o Presidente tem mais poder do que aquilo que se faz crer hoje em dia, mesmo que os seus poderes concretos sejam discretos. Os Presidentes têm influenciado, forçado decisões, promovido até nomeações.
Um aspecto curioso da questão é que na esmagadora maioria dos casos, nos consulados Soares e Sampaio, os Presidentes têm usado as suas prerrogativas para, sobretudo, mostrarem o que está mal e não funciona. Estão evidentemente no seu direito. Mas não deixaria de ser curioso que, para variar, pudessem também sugerir formas de progredir, apresentassem propostas para o país, trabalhassem com os Governos para melhorar o estado geral das coisas e não para o piorar. Será isto utópico?

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PRENDAS DE NATAL

Com o Natal à porta, lembrei-me de escolher algumas prendas, dar-lhes destinatário e ver o que pode acontecer. Aqui vai.

Nada melhor que um clássico para uma figura como o Presidente da República, ainda por cima em fim de mandato. A mais recente edição em português de «Crime e Castigo» de Dostoievsky vem mesmo a calhar para alturas destas.

Para o Primeiro-Ministro tenho uma prendinha singela, muito afeiçoada ao choque tecnológico, que ninguém consegue perceber. Como o assunto passou depois de muitas peripécias para a sua tutela directa, e como não consigo compreender se ele próprio percebe o tal choque, seleccionei um didáctico livrinho para crianças, que me parece muito adequado ao senhor engenheiro: «Um Rapaz Invulgar, O Pequeno Einstein», de Don Brown.

Para o candidato Cavaco Silva encontrei a prenda adequada em «A República», de Platão. Cheira-me que, a ser eleito, lhe pode vir a ser bem útil, sobretudo o diálogo entre Sócrates e Glauco no início da «Alegoria da Caverna».

Para o candidato Mário Soares, em homenagem à rábula que tem desempenhado, proponho a colecção completa dos DVD’s dos Gatos Fedorentos. Nonsense com nonsense se paga. E sinceramente Soares deve ter sido o inspirador do célebre «eles falam, falam, mas não fazem nada».

Para Marques Mendes encontrei um livro que lhe pode ser muito útil, o mais recente lançamento de Marcelo Rebelo de Sousa, as «Crónicas da Revolução». Pode ser que assim Marques Mendes possa começar a ficar com uma ideia do que se tem passado no país e como se chegou aqui. Andei à procura de algum livro sobre «Como Fazer Oposição», mas depois pareceu-me que qualquer coisa feita pelo Professor Marcelo tem sempre alguma utilidade nessa matéria.

Para Marcelo Rebelo de Sousa juntei um pacotinho de bilhetes de cinema para ele poder ver dez vezes seguidas «O Fatalista», de Diderot, versão João Botelho. Assim sempre pode comparar um filme português sobre a obra do enciclopedista francês com as suas próprias crónicas e ver as semelhanças (que são maiores que as diferenças…)

Para o Ministro da Economia, Manuel de Pinho, não posso encontrar melhor sugestão do que «Portugal Genial», a compilação das crónicas de Carlos Coelho, publicadas no «Diário Económico», para ver se ele consegue ter alguma imagem positiva e construtiva sobre o país. A bem dizer, se pudesse, enviava o dito livrinho a todos os membros do Governo e a todos os líderes partidários – a ver se percebem que estão em Portugal e se vêem o que por cá existe.

Para o Ministro das Obras Públicas ofereço uma caixa gigante do sistema de montagens Meccano, para ver se ele se entretém a fazer as construções que quer sem chatear ninguém nem levar o país à desgraça. Complemento a coisa com uma construção da linha tecnológica da Lego para ver se ele se começa a adequar às modernices.

Para o Ministro das Finanças ofereço uma calculadora e um livro sobre os resultados do choque fiscal na Irlanda, assim como uma cópia do Orçamento de Estado daquele país para ele comparar as taxas dos impostos lá e cá, e confrontar resultados.

Para o Ministro da Justiça acho que a prenda mais adequada seria a sua participação num «reality-show» que o fizesse passar por todo o processo de uma acusação e de um julgamento. Nalguns casos ele não há nada como a experiência para se poder saber bem como as coisas são na realidade.

Para o Ministro da Administração Interna uma inscrição com lugar assegurado na próxima série da «Primeira Companhia». Ele é sempre bom poder sentir o que é o dia a dia do treino militar e um Ministro deve estar preparado para isso. E depois, sempre ganhava alguma notoriedade, que perdeu desde que está naquele lugar.

Para os Directores Gerais do Ministério da Cultura ofereço, a cada um, uma lupa para ver se descobrem a Ministra, ou sinais dos seus actos ou pensamentos. Ainda pensei em oferecer uma caixa com a primeira série do «CSI», mas depois pareceu-me que era capaz de fazer pensar demais.

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A GRANDE ILUSÃO

Tornou-se lugar comum dizer que o Presidente da República não tem poderes. Um dos candidatos, Mário Soares, especializou-se em tocar nessa tecla contra um dos seus adversários, argumentando que o Presidente não governa e não pode prometer nada. Ora a questão não é bem essa: na verdade, não governando, o Presidente pode facilitar ou dificultar a governação. Mário Soares foi especialista na matéria: dissolveu uma vez o Parlamento e, depois, inventou as Presidências Abertas que foram acções de guerrilha contra o executivo na maior parte dos casos. Correram tão bem que Soares conseguiu, há dez anos, deixar Belém com o seu objectivo cumprido: colocar o PS em S. Bento. Não é coisa pouca – e o que está a fazer agora, forçando a sua candidatura sabendo que divide o PS, é a cobrança dos actos passados.
Quando se fizer o balanço do consulado Sampaio verificar-se-à como ele privilegiou determinados sectores contra outros, como não foi imparcial.
Na realidade o Presidente tem mais poder do que aquilo que se faz crer hoje em dia, mesmo que os seus poderes concretos sejam discretos. Os Presidentes têm influenciado, forçado decisões, promovido até nomeações.
Um aspecto curioso da questão é que na esmagadora maioria dos casos, nos consulados Soares e Sampaio, os Presidentes têm usado as suas prerrogativas para, sobretudo, mostrarem o que está mal e não funciona. Estão evidentemente no seu direito. Mas não deixaria de ser curioso que, para variar, pudessem também sugerir formas de progredir, apresentassem propostas para o país, trabalhassem com os Governos para melhorar o estado geral das coisas e não para o piorar. Será isto utópico?

dezembro 17, 2005

O ACIDENTAL
Queridos e queridas leitores e leitoras: tenho a honra e o prazer de anunciar que a partir desta data passei a colaborar na mais maravilhosa obra da blogosfera lusitana, O Acidental, uma criação do Paulo Pinto de Mascarenhas, que com a sua generosidade abriu as portas do seu esopaço a alguns convidados, nos quais, a partir de agora, abusivamente me incluo. Aqui, na Esquina, continuarão a ler os artigos publicados na imprensa e alguns posts mais pessoais. Mas cedo os direitos da obra bloguístuica inédita para O ACIDENTAL.Façam o favor de visitar o local.

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O ACIDENTAL
Queridos e queridas leitores e leitoras: tenho a honra e o prazer de anunciar que a partir desta data passei a colaborar na mais maravilhosa obra da blogosfera lusitana, O Acidental, uma criação do Paulo Pinto de Mascarenhas, que com a sua generosidade abriu as portas do seu esopaço a alguns convidados, nos quais, a partir de agora, abusivamente me incluo. Aqui, na Esquina, continuarão a ler os artigos publicados na imprensa e alguns posts mais pessoais. Mas cedo os direitos da obra bloguístuica inédita para O ACIDENTAL.Façam o favor de visitar o local.
SOBRE OS JORNAIS

BOAS PERGUNTAS – O editorial da edição de Novembro/Dezembro da «Columbia Journalism Review» («CJR») debruça-se sobre as razões do declínio da imprensa e deixa algumas perguntas no ar, que não resisto a citar: «Na primeira página do vosso jornal quantos títulos são novidade para o leitor? A secção de noticiário local é viva, atraente e criativa? O jornal publica opiniões fortes e controversas? Consegue contextualizar o noticiário para que o leitor vá para além do nevoeiro das aparências? É divertido? A fotografia é atraente e inesperada? O site do jornal na web é mais do que a transcrição das notícias e permite que o leitor interpele os jornalistas? Será que você quer mesmo ler um jornal como esse?».

SERVIÇO PÚBLICO – Não certamente por acaso na mesma edição da «Columbia Journalism Review» (http://www.cjr.org ) está um belo artigo sobre um jornal local norte-americano do Estado do Colorado, que conseguiu vencer a crise e está em expansão. Trata-se do «Greeley Tribune», que no último ano promoveu uma série de grandes reportagens cuja publicação se arrastou, em cada caso, por muitas edições. Reportagens longas, profundas, escritas quase como uma novela, sobre temas sociais, defendendo causas, tomando partido, revelando o que estava escondido ou esquecido. O jornal não usa a fórmula do «escândalo das estrelas, notícias curtas, agarrem os jovens» que os consultores de formatação de jornais estandardizaram e em vez disso prefere seguir os seus instintos, sublinha a «CJR». Séries sobre crianças pobres e desprotegidas, as relações com as minorias étnicas, a situação dos deficientes e uma colecção de histórias publicada ao longo de oito meses sobre o aumento do fosso entre ricos e pobres levaram a que o jornal seja este ano a publicação local com maior crescimento, segundo o U.S. Census Bureau. Na realidade o «Tribune» está a mostrar que histórias longas e profundas sobre temas sociais podem fazer vender jornais, e a realidade é que ao longo dos últimos dez anos este é um dos raros jornais do Colorado cuja circulação tem sempre vindo a subir. O editor do «Tribune», Chris Cobler, escreve um blog pessoal onde relata o que se passa à sua volta e criou um painel de aconselhamento de 850 leitores. Sem arriscar não se ganha, diz ele.

PRIORIDADES – A intervenção de Belmiro de Azevedo no almoço do Clube Português de Imprensa desta semana foi exemplar, ao sublinhar que Portugal continua sem uma orientação estratégica clara e ao criticar a prioridade dada aos investimentos na OTA e no TGV. Para Belmiro mais valia pôr a funcionar e rentabilizar ao máximo o que existe, em vez de embarcar em aventuras de rentabilidade duvidosa. E deixou uma boa piada no ar, que dá que pensar: se o TGV se vai construir para satisfazer compromissos estabelecidos com Espanha, a quem interessa um acesso fácil e rápido ao mercado português, porque não se deixa serem os espanhóis a construí-lo?

DESABAFO I - Ele há coincidências terríveis: o slogan «Sempre Presente», utilizado pela candidatura de Mário Soares, já tinha sido a palavra de ordem da campanha de Fátima Felgueiras nas recentes eleições autárquicas, depois do seu apressado regresso do Brasil.

DESABAFO II - Toda a história em volta do processo da Casa Pia é escandalosa e vergonhosa demais. Pelo andar da carruagem os miúdos que foram abusados vão ser os únicos a serem apontados a dedo na praça pública.

OUVIR – A banda sonora do elogiado e aclamado filme de Ang Lee, «Brokeback Mountain», a história do amor proibido entre dois cowboys ao longo de 30 anos, é um épico de «country music» incontornável. Esta banda sonora, em cuja concepção o próprio Ang Lee participou, foi dirigida por Gustavo Santaolalla e tem participações inéditas de nomes como Steve Earle, Willie Nelson, Emmylou Harris, Rufus Wainwright, Teddy Thompson, Jackie Green e Linda Ronstadt. Primam o botão repeat e fiquem a ouvir o disco horas a fio. CD Verve, distribuído por Universal Music.

Back To Basics –«Perdoem sempre aos vossos inimigos, nada os irrita tanto», Óscar Wilde.

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SOBRE OS JORNAIS

BOAS PERGUNTAS – O editorial da edição de Novembro/Dezembro da «Columbia Journalism Review» («CJR») debruça-se sobre as razões do declínio da imprensa e deixa algumas perguntas no ar, que não resisto a citar: «Na primeira página do vosso jornal quantos títulos são novidade para o leitor? A secção de noticiário local é viva, atraente e criativa? O jornal publica opiniões fortes e controversas? Consegue contextualizar o noticiário para que o leitor vá para além do nevoeiro das aparências? É divertido? A fotografia é atraente e inesperada? O site do jornal na web é mais do que a transcrição das notícias e permite que o leitor interpele os jornalistas? Será que você quer mesmo ler um jornal como esse?».

SERVIÇO PÚBLICO – Não certamente por acaso na mesma edição da «Columbia Journalism Review» (http://www.cjr.org ) está um belo artigo sobre um jornal local norte-americano do Estado do Colorado, que conseguiu vencer a crise e está em expansão. Trata-se do «Greeley Tribune», que no último ano promoveu uma série de grandes reportagens cuja publicação se arrastou, em cada caso, por muitas edições. Reportagens longas, profundas, escritas quase como uma novela, sobre temas sociais, defendendo causas, tomando partido, revelando o que estava escondido ou esquecido. O jornal não usa a fórmula do «escândalo das estrelas, notícias curtas, agarrem os jovens» que os consultores de formatação de jornais estandardizaram e em vez disso prefere seguir os seus instintos, sublinha a «CJR». Séries sobre crianças pobres e desprotegidas, as relações com as minorias étnicas, a situação dos deficientes e uma colecção de histórias publicada ao longo de oito meses sobre o aumento do fosso entre ricos e pobres levaram a que o jornal seja este ano a publicação local com maior crescimento, segundo o U.S. Census Bureau. Na realidade o «Tribune» está a mostrar que histórias longas e profundas sobre temas sociais podem fazer vender jornais, e a realidade é que ao longo dos últimos dez anos este é um dos raros jornais do Colorado cuja circulação tem sempre vindo a subir. O editor do «Tribune», Chris Cobler, escreve um blog pessoal onde relata o que se passa à sua volta e criou um painel de aconselhamento de 850 leitores. Sem arriscar não se ganha, diz ele.

PRIORIDADES – A intervenção de Belmiro de Azevedo no almoço do Clube Português de Imprensa desta semana foi exemplar, ao sublinhar que Portugal continua sem uma orientação estratégica clara e ao criticar a prioridade dada aos investimentos na OTA e no TGV. Para Belmiro mais valia pôr a funcionar e rentabilizar ao máximo o que existe, em vez de embarcar em aventuras de rentabilidade duvidosa. E deixou uma boa piada no ar, que dá que pensar: se o TGV se vai construir para satisfazer compromissos estabelecidos com Espanha, a quem interessa um acesso fácil e rápido ao mercado português, porque não se deixa serem os espanhóis a construí-lo?

DESABAFO I - Ele há coincidências terríveis: o slogan «Sempre Presente», utilizado pela candidatura de Mário Soares, já tinha sido a palavra de ordem da campanha de Fátima Felgueiras nas recentes eleições autárquicas, depois do seu apressado regresso do Brasil.

DESABAFO II - Toda a história em volta do processo da Casa Pia é escandalosa e vergonhosa demais. Pelo andar da carruagem os miúdos que foram abusados vão ser os únicos a serem apontados a dedo na praça pública.

OUVIR – A banda sonora do elogiado e aclamado filme de Ang Lee, «Brokeback Mountain», a história do amor proibido entre dois cowboys ao longo de 30 anos, é um épico de «country music» incontornável. Esta banda sonora, em cuja concepção o próprio Ang Lee participou, foi dirigida por Gustavo Santaolalla e tem participações inéditas de nomes como Steve Earle, Willie Nelson, Emmylou Harris, Rufus Wainwright, Teddy Thompson, Jackie Green e Linda Ronstadt. Primam o botão repeat e fiquem a ouvir o disco horas a fio. CD Verve, distribuído por Universal Music.

Back To Basics –«Perdoem sempre aos vossos inimigos, nada os irrita tanto», Óscar Wilde.
SONDADOR PROPAGANDISTA
Qualquer jornalista que trabalhe na área da política nacional sabe quem é o porta-voz de uma empresa de sondagens que gosta de confidenciar os pré resultados dos seus trabalhos de campo quer a líderes partidários, quer a directores de campanhas, quer aos próprios jornalistas.
Acresce que nestas questões devia - como em tudo na política - existir um primado de ética: quem é parte interessada não devia ser responsável de sondagens. Para chamar as coisas pelo nome, nunca se sabe se Rui Oliveira e Costa fala como dirigente partdário ou «talking head» de uma empresa de sondagens. Nunca me esquecerei que esse senhor foi quem, há uns anos atrás, era eu editor de política nacional de uma agência de notícias, me ameaçou de represálias por não publicar um comunicado, sem interesse noticioso, de uma tendência sindical a que ele estava ligado. Para mim ficou ali definido o carácter da pessoa.

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SONDADOR PROPAGANDISTA
Qualquer jornalista que trabalhe na área da política nacional sabe quem é o porta-voz de uma empresa de sondagens que gosta de confidenciar os pré resultados dos seus trabalhos de campo quer a líderes partidários, quer a directores de campanhas, quer aos próprios jornalistas.
Acresce que nestas questões devia - como em tudo na política - existir um primado de ética: quem é parte interessada não devia ser responsável de sondagens. Para chamar as coisas pelo nome, nunca se sabe se Rui Oliveira e Costa fala como dirigente partdário ou «talking head» de uma empresa de sondagens. Nunca me esquecerei que esse senhor foi quem, há uns anos atrás, era eu editor de política nacional de uma agência de notícias, me ameaçou de represálias por não publicar um comunicado, sem interesse noticioso, de uma tendência sindical a que ele estava ligado. Para mim ficou ali definido o carácter da pessoa.