maio 16, 2025

O QUE É UM VOTO ÚTIL?

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AS ELEIÇÕES - Não vale a pena fazer prognósticos antes do final de jogo - até porque a disputa eleitoral tem cada vez mais o aspecto de um confronto clubístico com muito pouco de racional. Existe a probabilidade de o resultado manter uma diferença tão pequena entre os dois principais partidos que a situação de instabilidade vivida nos últimos anos corre o risco de se manter, se não existir um acordo entre vários partidos. Nesta campanha eleitoral debateram-se muito temas marginais e muito pouco se disse sobre propostas de mudanças necessárias em áreas cruciais para que Portugal progrida. Apesar de o caminho da democracia ter já mais de meio século, o sistema político e partidário português continua avesso a coligações pós eleitorais entre partidos que garantam estabilidade. É certo, como já foi sublinhado nos últimos dias, que estes acordos só valerão a pena se tiverem por base um programa claro que defina reformas importantes: desde logo na justiça, mas também na habitação, na saúde, no ensino, na fiscalidade e, claro, na lei eleitoral - que evite que  quase 700 mil votos não sirvam para nada, como aconteceu em anteriores legislativas. O caso da justiça é particularmente importante porque mexe com os cidadãos e empresas, porque dificulta os actos mais simples, perpetua a ausência de decisões e, em especial na justiça tributária, parte do princípio que primeiro há que pagar e depois que contestar, mesmo quando o erro seja claramente do Estado. A questão da fiscalidade, sobre os cidadãos e empresas, estrangula a economia e o desenvolvimento do país e perpetua o círculo vicioso dos baixos salários e alta carga fiscal. Na hora de votar vale a pena pensar quem tem ambição reformista, quem está disposto a fazer mudanças, quem as propõe e em que termos pugna por elas nos seus programas e na sua acção quotidiana. O único voto útil é o que mostre o desejo de reformas e fortaleça quem as pode influenciar.


 


SEMANADA - A taxa de mortalidade infantil em Portugal subiu 20% em 2024 face ao ano anterior; a região da Península de Setúbal regista o valor mais elevado, com uma taxa de mortalidade infantil de 3,7 por cada mil nascimentos, acima da média europeia;  em 2024  mais 118.011 pessoas subscreveram seguros de saúde– uma média de 323 por dia – e no total já há 3,7 milhões abrangidos por esse tipo de seguro;  em 2024 cerca de 138 mil pessoas foram pelo menos cinco vezes às urgências do SNS; nos primeiros seis meses deste ano estão previstas mais de 1600 aposentações de professores; em 2024 as queixas de assédio laboral aumentaram e quase 30 % dos profissionais relatam ameaças ou abusos; quase cinco milhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido a acidentes laborais; em Dezembro de 2024 residiam em Portugal 1,5 milhões de estrangeiros;  a população empregada em Portugal chegou aos 5,18 milhões, um novo máximo histórico; em 2024 registou-se um aumento de 11% nas compras efetuadas com pagamentos electrónicos; segundo a REN o apagão de 28 de Abril cortou o consumo de 62,3 GWh de energia muito além dos 2 GWh de eletricidade que foi cortada na rede operada pela REN há 25 anos, no apagão parcial do país, devido a um incidente com uma cegonha; segundo o Instituto +Liberdade, nos últimos 10 anos, foram arquivados quase 3 mil processos de corrupção e crimes conexos e por cada 4 condenações, mais de 100 processos são arquivados.


 


O ARCO DA VELHA - Os senhorios que praticam rendas congeladas aguardam há meio ano o pagamento da compensação legislada e estão agora a ser confrontados com notas de liquidação de IMI, do qual a lei os isenta. O Fisco diz aguardar “orientações superiores” e aconselha a pagar primeiro e reclamar depois.


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A TRANSFORMAÇÃO DA MÚSICA - João Gobern é um dos mais prestigiados jornalistas da área da cultura e espectáculo, com especial foco na música. Dirigiu publicações, faz programas de rádio, escreve livros e tem um saber enciclopédico sobre a música portuguesa.  Depois de há uns anos ter escrito “Quando a TV parava o país” pegou agora no que foi descobrindo sobre a edição discográfica em Portugal e em mais algum trabalho de pesquisa e escreveu “Tira o Disco e Toca ao Vivo”. Ao longo de centena e meia de páginas conta como todo o sistema económico da música se modificou nos últimos anos e que no fundo está resumido no título: os artistas, os seus agentes e as editoras obtêm hoje maiores receitas dos concertos e digressões do que da venda dos discos, uma inversão daquilo que se passava há duas décadas. Como João Gobern sublinha, “antes, faziam-se concertos para vender discos. Agora, editam-se discos para conseguir concertos. A música mudou, até na forma como a consumimos. “O autor aborda a forma como o digital e as plataformas de streaming alteraram os hábitos de quem ouve música, provocando  o declínio das lojas, levando a novos modelos contratuais entre artistas e editoras. O efeito das transformações efetuadas e  dos avanços tecnológicos e a alteração do modelo de negócio tiveram efeitos nos criadores, instrumentistas e cantores e tiveram consequências estéticas. e muitas vezes não foram para melhor. No final, Gobern, referindo-se à situação dos músicos, sublinha: “eles têm hoje mais muros para enfrentar do que pontes para aproveitar, quando o salto tecnológico - dos meios de gravação às possibilidades de distribuição - poderia sugerir o contrário”. O livro é editado pela colecção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos.


 


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IMAGENS DO ORIENTE -   A nova exposição da Ochre Space, uma galeria dedicada à fotografia e focada no trabalho de fotógrafos do Oriente, apresenta uma dupla exposição:  To Add One Meter to An Anonymous Mountain mostra uma performance criada em 1995 por dez jovens artistas da comunidade Beijing East Village, que se deitaram, nus, em pirâmide, sobre uma montanha nos arredores de Beijing e fizeram história. A exposição mostra as três fotografias do final da performance, captadas por Lu Nan, Bagena e Robyn Beck que estão nas colecções de alguns dos mais importantes museus internacionais, o conjunto de fotografias que compõe a integralidade da performance, incluindo algumas fotografias totalmente inéditas de um anónimo que esteve no local e que nunca tinha revelado o material, e o vídeo amador original da performance, feito por Ji Dan. Na imagem está uma das fotos mais conhecidas, de Lu Nan, um dos mais importantes fotógrafos chineses que tem documentado extensamente a vida na China. Em simultâneo a Ochre mostra uma selecção de 22 imagens de RongRong, um dos mais importantes fotógrafos chineses da actualidade, e que viveu na comunidade artística Beijing East Village, documentando extensivamente o modo de vida e a actividade dos artistas dessa comunidade, que se tornou uma das mais importantes na vanguarda artística chinesa dos anos 90. A Ochre fica na Rua da Bica do Marquês 31 (à Ajuda), a exposição, que tem curadoria de João Miguel Barros, que dirige a galeria, decorre até 21 de junho de 2025 e está aberta ao público de quarta a sábado entre as 15:00 e as 18:30.


 


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ROTEIRO - Em 1988 Pedro Cabrita Reis realizou na Galeria Roma e Pavia, no Porto, a exposição “Cabeças, Árvores e Casas”. Agora aceitou o desafio do galerista Pedro Oliveira, ligado na época a essa galeria, e apresenta até 28 de Junho 20 obras inéditas  sob o título “outras cabeças, outras árvores e outras casas” (na imagem). Todos os trabalhos são mix media em papel. No texto escrito para a exposição original, em 1988, Pedro Cabrita Reis afirmava: “Vejo uma árvore e nomeio-a: árvore. E sei que é também madeira e poderei dizer casa, barco, caixão, mesa. Vejo uma árvore e nomeio-a: árvore. E sei que é também fogo e poderei dizer território, viagem, morte, festa.”. E mais adiante:  “Pertenço aos que amam na errância das aparências a possibilidade de encontrar um sentido.” A Galeria Pedro Oliveira fica na Calçada de Monchique 3, no Porto. Em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas-Artes (Rua Barata Salgueiro 36) está patente até 7 de Junho a exposição "Sombras Rosas Sombras" de Maria Capelo, com curadoria de Nuno Faria. Na CC11, Rua do Vale de Santo António 50, um espaço dedicado à fotografia, Filipe Bianchi apresenta  “Joy Bangla”, um ensaio fotográfico que retrata o quotidiano da comunidade bangladechiana no bairro do Intendente. 


 


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NOVAS CANÇÕES PORTUGUESAS - Hesitei antes de escrever, ando a ouvir este disco há umas duas semanas. Na primeira audição pensei que era apenas mais um disco de Rodrigo Leão. Sonoridades mais do mesmo. Mas depois, numa segunda audição, percebi que este “O Rapaz da Montanha” é um disco novo, de canções diferentes. A sonoridade é a de Rodrigo Leão, a sua marca própria. Mas estas canções vão buscar algo mais. Há uma influência maior da música popular portuguesa, desde a construção das melodias aos arranjos, passando pela forma de cantar, com destaque para a utilização de coros. Os temas reflectem preocupações com os tempos que vivemos. A maioria das palavras das canções foi escrita por Ana Carolina Costa, como é hábito, mas Gito Lima, Francisco Menezes e João Pedro Diniz também participam. Uma das grandes diferenças é que neste disco as canções têm uma linguagem mais directa que aborda questões concretas deste “país do “Se” que ficou por fazer”, como “Madrugada”. No disco participam Pedro Oliveira (a voz da Sétima Legião), que canta “Esperança”, escrita por outro dos Sétima Legião, Francisco Menezes, o acordeonista Gabriel Gomes, José Peixoto na guitarra clássica, Carlos Poeiras também no acordeão e Francisco Palma na voz. E, claro, como tem sido usual em trabalhos recentes de Rodrigo leão, também participam  a cantora Ana Vieira – a voz principal do disco – Viviena Tupikova (violino), Bruno Silva (viola), Celina da Piedade (acordeão), Carlos Tony Gomes (violoncelo e autor dos arranjos de cordas), João Eleutério (guitarra, baixo e sintetizador), António Quintino (contrabaixo) e Frederico Gracias (bateria e percussão). A ilustração de capa é de Tiago Manuel. Deixo-vos com o apelo de “O Rapaz da Montanha”, a canção que dá título ao disco: “Lá em baixo não há nada/ mas há tanto p’ra fazer!”. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT  - “O conservadorismo está bem presente, uma vez mais, nesta campanha eleitoral. Num país que odeia reformas, ninguém fala delas, com raras e honrosas excepções” - Luis Marques, no “Expresso”.


 


BACK TO BASICS -   “A justiça deve ser o pilar do funcionamento da sociedade” - Aristóteles


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 




maio 10, 2025

EM BUSCA DA LUZ PERDIDA

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Como é que este anjo, encontrado por acaso na entrada de um prédio, segurando uma tocha, terá vivido o apagão? Sem a tocha acesa, para que servia ele? No dia do apagão toda a gente percebeu, de repente, que este nosso mundo de hoje fica virado de pernas para o ar quando não há electricidade. Há uns anos não haver electricidade queria dizer que se ficava às escuras quando fosse noite. Agora quer dizer que se fica sem telefone, sem acesso às funções básicas da internet, como os emails, sem poder ver notícias nos “sites” dos meios de comunicação, sem poder ver um filme ou ouvir um disco em streaming, nem encomendar qualquer coisa para comer num serviço de entregas. Durante um dia os velhos aparelhos de rádio, a pilhas, esquecidos num canto da casa, foram reis e senhores e a quase única forma de ir sabendo o que se passava. De repente desejei ter ainda um walkman a pilhas para ouvir uma cassette com as canções de que gosto mais - tinha uma (já não sei onde anda) com os Joy Division, os Smith, Nick Cave, Clash, Doors e Lou Reed. Bem gostava de os ter ouvido nesse dia. Até a campanha eleitoral em curso teve um apagão, debates foram adiados e os políticos pouco falaram - até porque não tinham quem os ouvisse. Mesmo quando a electricidade voltou percebeu-se que, da maneira que as coisas estão, com ou sem electricidade, os debates já não chegam a tanta gente como dantes. Quando comparados com os números do ano passado, os debates televisivos entre os líderes dos principais partidos  registaram uma queda de 13% nas audiências do cabo e de 40% nos canais generalistas. O problema que motivou esta quebra, este desinteresse, não foi a falta de electricidade. Foi o facto de a maioria dos debates ser chato e sem assunto que interesse às pessoas. A indiferença aumenta, e isso não é nada bom sinal.





maio 09, 2025

AQUILO DE QUE NÃO SE FALA NA CAMPANHA

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O CUSTO DE VIDA - Já que se fala de imigrantes tenho aqui uma coisa para contar: um ucraniano que conheço vive em Portugal há muitos anos. Homem sério, trabalhador, tinha um equilíbrio entre o que ganhava - que não é muito - e o custo de vida. Agora diz que Portugal é um país caro. Admite que  começa a considerar se fica ou se parte. Se os emigrantes que cá estão legalmente começarem a pensar em partir, como vai reagir a economia? Mas vamos a factos concretos sobre os custos do dia a dia, tema ausente da campanha eleitoral. Este fim de semana o jornal “Público” fez um interessante trabalho sobre as preocupações dos jovens portugueses em véspera de eleições. Uma das inquiridas , que vive na Alemanha, Ana Rita Póvoas, afirma que gasta em supermercado na Alemanha o mesmo que gastava em Portugal, mas a sua renda de casa actual lá é muito mais baixa do que aqui e o seu ordenado superior. Outro caso: o jornalista Ricardo Dias Felner, que escreve regularmente no “Expresso”, está a frequentar um curso na Universidade de Viena e comparou preços de restaurantes, supermercados e habitação entre Lisboa e a capital austríaca. Vejam a comparação de preços de produtos idênticos entre supermercados em Lisboa e em Viena. Aqui vai , com a devida vénia, o que escreveu: seis ovos gama ML em Viena: €2,49,  Lisboa: €2,39;  Tomate San Marzano em Viena: €2,99,  Lisboa: €3,69;  Café solúvel em Viena: €4,99,  Lisboa: €5,19; Vinagre, em Viena: €1,99. Lisboa: €1,79;  Abacate, em Viena: €4,98/kg. Lisboa: €4,79/kg;  Limão, em Viena: €2,29/kg, Lisboa: €1,99/kg; Pernas de frango, em Viena: €7,99/kg, Lisboa: €4,79/kg.
Vinho branco bio, em Viena: €5,99, Lisboa €7,49;  Sardinhas Nuri/Pinhais, em Viena: €3,90, Lisboa: €5,10 - até as sardinhas em lata produzidas em Portugal são mais baratas em Viena. Agora  vamos aos restaurantes, seguindo mais uma vez Ricardo Dias Felner: um cachorro quente de salsicha Bratwurst num restaurante no centro de Viena, o Bitzinger, custou €6,50, menos €1,40 do que as salsichas da Wurst da Salsicharia, no Mercado de São Bento, em Lisboa. Um takumi ramen em Viena custou €15,80, exatamente o mesmo preço que o Ajitama, em Lisboa, cobra pelo seu ramen tontoksu. E um bowl de atum picante com abacate e algas, picles e arroz, custou em Viena   €13,40, e o preço nos Poke House de Lisboa é 13 euros. E remata Ricardo Dias Felner: Um T2 em Viena custa menos €600 do que em Lisboa. Portugal está caro, sendo que aqui se ganha menos que noutros países. Quem fala disto nesta campanha eleitoral? E, sobretudo, como se resolve? Aqui está a pergunta a que nenhum dos debates eleitorais tentou sequer responder.


 


SEMANADA - Este ano, até final de Abril, a média diária de autobaixas solicitadas foi de 1266, um total de 198 mil; em três distritos quase metade dos bébes são filhos de mães estrangeiras; o número de estrangeiros em Portugal mais que triplicou nos últimos oito anos; no mesmo período houve mais 250 mil pessoas com cidadania; em cinco anos o numero de cidadãos portugueses que não nasceram no país passou de 12,7% para 16%; na agricultura e pescas 41% dos trabalhadores são emigrantes, no alojamento e restauração a percentagem é de 31%, em actividades administrativas é 28% e na construção civil é de 23%; no sector da construção há uma carência de 80 mil trabalhadores; a avaliação das casas subiu 16,9% em março e atingiu novo máximo; o debate realizado na semana passada entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos teve a mais baixa audiência nos debates realizados nos últimos dez anos pelos líderes dos dois principais partidos; um estudo da Pordata indica que 34% dos trabalhadores fizeram o ensino superior, enquanto entre os empresários o número é de 28%; entre 2022 e 2024, foram denunciados à Entidade Reguladora da Saúde 319 estabelecimentos que realizaram cirurgias estéticas de forma ilegal; em Abril as vendas da Tesla em Portugal tiveram uma quebra de 33%, na Suécia 80%, nos Países baixos 73%, em França 59%; mais de 60% dos partos em hospitais privados são cesarianas, o dobro dos partos cirúrgicos feitos no SNS; o sistema informático dos tribunais, Citius, está há cerca de duas semanas com falhas graves que impedem o cumprimento de prazos legais de notificação.


 


O ARCO DA VELHA - O conselho de fiscalização dos serviços de informações, que entre outras coisas investiga ameaças de cibercrimes, alerta que tem grande dificuldade em recrutar e reter pessoal qualificado.


 


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UMA HISTÓRIA AMERICANA - “A Visita do Brutamontes”, é um romance da escritora norte-americana Jennifer Egan, vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção em 2011. O livro, considerado um dos grandes romances norte-americanos deste século,  foi originalmente editado em Portugal em 2012, e regressou agora  às livrarias nacionais, com nova capa. O romance segue a vida de Bennie Salazar, antigo punk rocker, que está a envelhecer e se torna num executivo de uma editora discográfica que fundou e obteve sucesso. Sasha é a sua assistente, uma mulher impetuosa e cleptomaníaca e, apesar de Bennie e Sasha nunca chegarem a descobrir o passado um do outro, o livro mostra-os até ao mais íntimo detalhe. Da mesma forma percorre a vida secreta de um grande leque de personagens, de guitarristas pós-punk a ditadores de pequenos países, cujos caminhos se cruzam ao longo de muitos anos e muitos lugares como Nova Iorque, São Francisco, Nápoles e África. Jennifer Egan explora neste romance a interação do tempo e da música e a capacidade de sobreviver a mudanças e transformações, de forma muitas vezes hilariante e frequentemente inesperada. Edição Quetzal.


 


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PINTAR NO AZULEJO -   “Viagens entre Lisboa e Londres no Azulejo” é o título da exposição de obras únicas e originais de azulejo pintados por Paula Rego e Bartolomeu Cid dos Santos. Os dois artistas chegaram a Londres nos anos 50 e tiveram os primeiros e intensos contactos com o meio artístico londrino na Slade School of Fine Art. A Galeria Ratton, que se especializou em edições de obras em azulejo de artistas contemporâneos, trabalhou com Paula Rego e Bartolomeu Cid dos Santos desde finais dos anos 80. A viver e trabalhar em Londres, ambos os artistas foram convidados pela Galeria Ratton para empreender novos desafios e projectos de azulejaria ao longo dos anos. As “Viagens entre Londres e Lisboa” geraram sempre novas criações. A Ratton apresenta até 31 de Julho  um conjunto de azulejos originais de 14x14cm pintados por Paula Rego e dois painéis originais executados pela artista em 1996, num trabalho para o Palácio Fronteira, em Lisboa. De Bartolomeu Cid dos Santos é apresentada uma seleção de azulejos e painéis individuais originais que há muito não eram apresentados ao público. Na imagem à esquerda está um painel de Paula Rego e à direita outro de Bartolomeu Cid dos Santos. A Galeria vai também apresentar alguns testemunhos escritos de Paula Rego e Bartolomeu Cid dos Santos numa publicação que será apresentada no dia 21 de Maio numa conversa que contará com a presença de Helder Macedo, Maria Filomena Molder e José Manuel dos Santos. A Galeria Ratton fica na Rua da Academia das Ciências nº2.


 


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ROTEIRO - O Padrão dos Descobrimentos, que recentemente teve obras de conservação e melhoria, reabriu ao público com a exposição “O Milagre da Sardinha – Memórias e Mistérios de um Ícone Nacional”, que pode ali ser vista até ao fim do ano. A exposição mostra as muitas vidas da sardinha desde a Antiguidade até hoje, a sua imagem apropriada pela cultura popular e erudita e até pela  publicidade. E procura responder a estas perguntas: como é que a sardinha se tornou um símbolo de Portugal e da cidade de Lisboa, em particular? Que acontecimentos, saberes e indústrias contribuíram para este fenómeno? Aqui está uma boa maneira de abrir o apetite depois de uma caminhada à beira do Tejo. Mais a oriente, rumando à Expo a boa notícia é que reabriu o Pavilhão de Portugal, desenhado por Siza Vieira. Agora nas mãos da Universidade de Lisboa, o Pavilhão de Portugal retoma a sua vocação inicial com a exposição “Meu Amigo e matalote Luís de Camões” que  propõe uma leitura visual e literária contemporânea do poeta, cruzando literatura, arte e património. Entre as obras de arte originais, serão apresentadas esculturas de Simões de Almeida e Canto da Maya, pinturas de José Malhoa, Columbano, Lourdes Castro ou James Ward. Entre os desenhos, contam-se obras de Domingos António de Sequeira, Luca Cambiaso e Abraham Bloemaert e entre as fotografias, obras de Candida Hoefer, Thomas Ruff, Jorge Molder, Hiroshi Sugimoto e  Luís Pavão. Na Casa Comum da Universidade do Porto a exposição “Uma viagem pelo asfalto, o rock no Porto nos anos 80” mostra documentos, objectos e fotografias que mostram a importância que a cidade tem tido na música portuguesa contemporânea.


 


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UM PIANO - Para acalmar do ruído eleitoral não há nada como um bom disco onde o piano tenha lugar de destaque. A pianista chinesa Yuja Wang, 38 anos, gravou com a Boston Symphony Orchestra, dirigida por Andris Nelsons o álbum Shostakovich: The Piano Concertos/ Solo Works” e a sua edição coincide com a evocação do 50º aniversário da morte do compositor russo Dmitri Shostakovich. A gravação foi feita no Boston Symphony Hall, uma sala com uma acústica excepcional. No disco estão incluídos os dois concertos para piano escritos por Shostakovich com uma diferença de 24 anos entre ambos e 6 peças de piano solo,  da série de 24 prelúdios e fugas, Op.87 & Op.34. Edição Deutsche Grammophon, disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - A partir de 10 de maio, após obras que demoraram dois anos,  abre ao público a renovada Sainsbury Wing da National Gallery, em Londres. O espaço acolherá uma nova selecção e montagem da colecção da instituição, com obras da Idade Média e Renascença de nomes como Leonardo da Vinci, Botticelli and Piero della Francesca. Ao mesmo tempo, a National Gallery, que celebra os seus dois séculos de existência, colocou em exibição toda a sua colecção, uma das mais importantes do Reino Unido.



DIXIT  - “A corrida insana aos supermercados (no apagão) é o retrato de um país com fraca cultura cívica. Habituados a viver em paz, não nos sabemos comportar em crise. Habituados a consumir, não sabemos como partilhar.” - João Pereira Coutinho


 


BACK TO BASICS - “Nunca encontrei um homem que fosse tão ignorante ao ponto de eu não conseguir aprender alguma coisa com ele” - Galileo Galilei


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 






maio 03, 2025

O VALOR DO DINHEIRO

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Bric-a-brac avulso e bugigangas de uma feira de velharias deve ser das poucas coisas que hoje em dia se pode comprar com um euro. Em muitos sítios até um café já custa mais que isso. A moeda bicolor não chega para comprar um jornal diário, está as mais das vezes remetida a facilitar trocos. Das moedas mais pequenas, então, nem se fala: 50 cêntimos? 20 cêntimos? 10 cêntimos? 5  cêntimos? Todas elas são material para facilitar contas ou para arredondar as gorjetas e esvaziar o peso do porta-moedas. Mas há ainda menos: para que serve um cêntimo ou dois? Por estes dias fiquei estarrecido: o ano passado Portugal importou 26 milhões de moedas de um cêntimo e 34 milhões de dois cêntimos. São 60 milhões de moedas. Se fizermos a conta por alto, cada português levou com dez moedas destas cujo valor real é das coisas mais difíceis de explicar a alguém. Quando eu era miúdo havia na aldeia dos meus pais e avós, na loja do Senhor Pereira, rebuçados de tostão. Era uma coisa importante. Com cinco tostões trazia-se, negociando, meia dúzia de rebuçados para degustar à sombra de uma qualquer árvore, contribuindo para, anos depois, proporcionar a prosperidade a um dentista onde havíamos de aterrar. E hoje em dia? Há rebuçados de cêntimo? Ou, vá, de dois cêntimos? Qualquer coisa custa mais do que isso. Os ambientalistas já pensaram nos combustíveis fósseis necessários para transportar 60 milhões destas moedas? E já nem falo do processo de fabrico, que também há-de ser alguma coisa poluente. Antes do Euro, olhávamos para uma nota de 20 escudos e dizíamos tens aí 20 paus”?  Uma nota de 20 escudos é hoje o mesmo que uma moeda de 10 cêntimos, já pensaram bem nisto? Ou seja vinte escudos, que era coisa que pagava umas imperiais, agora não dá para comprar quase nada. 


(os pensamentos ociosos são publicados semanalmente na opinião de sapo.pt)

maio 02, 2025

SOBRE A INSTABILIDADE NACIONAL

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VOTO ÚTIL? - A instabilidade governativa não é uma novidade: desde as primeiras legislativas, de 1976, apenas seis dos 24 governos concluíram o mandato. Ao longo do tempo cresceram as distorções causadas pela Lei Eleitoral, um modelo criado há 50 anos. De acordo com um estudo elaborado pelo matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico, por causa dessa Lei, nas legislativas mais recentes, do ano passado, cerca de 1,2 milhões de votos (20,4% do total) não serviram para eleger qualquer deputado. São votos que se perdem nos círculos com menor número de deputados a eleger, como acontece numa boa parte do interior do país. Nos círculos eleitorais mais pequenos do território nacional - como Portalegre e Beja e nos círculos da emigração -, quase metade dos votos válidos não elegeram nenhum mandato. Em sentido oposto, cerca de 90% dos votos de Lisboa e de 84% no Porto servem para eleger deputados. O mesmo estudo mostra que o sistema eleitoral favorece os maiores partidos, que conseguem ver 90% dos seus votos convertidos em mandatos, enquanto os pequenos não conseguem passar dos 40% a 45%. Ou seja, a Lei Eleitoral está feita para facilitar maiorias políticas, mas apesar disso assiste-se à instabilidade governativa descrita acima. Em conjunto, o PS e os partidos que formam a AD recolheram mais de dois terços do total dos votos válidos em 14 das 17 eleições legislativas realizadas desde 1976. Um dirigente do Partido Socialista, Francisco Assis, reconhece que “este modelo funcionou durante muitos anos e está esgotado,  confere demasiado poder aos aparelhos partidários e a quem os controla”. Um estudo da Pordata que recolhe dados eleitorais  e resultados das legislativas desde 1976, mostra que desde que Portugal é uma democracia, o Partido Socialista formou governo por nove vezes, e sete destes governos ocorreram nas últimas três décadas. Assim, nos últimos 30 anos, apenas pouco mais de 8 anos corresponderam a um governo liderado pelo PSD. O PS esteve à frente do governo durante mais de 21 anos: entre 28 de outubro de 1995 e 5 de abril de 2002, entre 12 de março de 2005 e 20 de junho 2011 e, também, entre 26 de novembro de 2015 e 1 de abril de 2024. Aqui chegados, fica uma pergunta: para que serve afinal  o voto útil?


 


SEMANADA - Em semana do apagão vale a pena lembrar que no sector do fornecimento de energia eléctrica registaram-se nos três primeiros meses deste ano mais 12% de queixas que no mesmo período do ano passado; um milhão de portugueses nunca vai ao dentista, 300 mil dos quais porque não têm dinheiro para pagar e o SNS só tem seis serviços de saúde oral; devido ao encerramento das urgências de obstetrícia, desde abril de 2024 nasceram cerca de meia centena de crianças em ambulâncias, em trânsito para hospitais distantes do local de habitação; segundo o INE em 2023 nasceram fora de hospitais ou de casa 302 bebés; o abandono escolar dos jovens com deficiência é o triplo dos que a não têm;  em Portugal, em 2022, apenas 1,58% do PIB foi gasto com a protecção social das pessoas com deficiência, abaixo da média europeia, que é 1,87%; ao longo do último ano a Marinha portuguesa registou 437 acções de busca e salvamento, durante as quais foram salvas 388 pessoas; a comparência no Dia da Defesa Nacional é um dever de todos os portugueses quando completam os 18 anos, mas há mais de 10 mil cidadãos que faltam todos os anos e a maioria não justifica a ausência, nem regulariza a situação militar; no primeiro trimestre deste ano o número de pedidos de registo de invenções nacionais aumentou 19,3% para 241, segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. 


 


O ARCO DA VELHA - Um problema técnico atrasou de forma significativa a emissão de certificados de óbitos por via digital aos prestadores de saúde dos sectores social e privado, dificultando a realização atempada de funerais.


 


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MANUAL DA SAUDADE - Se querem ter uma ideia como Miguel Esteves Cardoso era e escrevia antes de ser o MEC, que ficou conhecido pelo que escreve em jornais, revistas e em livros, este novo e inédito “Cartas para a Vila Berta” é a melhor forma de o descobrir. Em Outubro de 1975, data da primeira carta escrita para o seu amigo Carlos Vilela, e Setembro de 1979, data da última, Miguel Esteves Cardoso viveu em Manchester e fez na respectiva universidade o curso de Estudos Políticos. As cartas relatam a sua vida nesses tempos, dos 20 aos 24 anos. Carlos Vilela vivia em Lisboa, na Vila Berta, e nunca respondeu às muitas dezenas de cartas que Miguel lhe enviava, quase diariamente. Nessas cartas estão as suas impressões pessoais sobre a cidade para onde foi, o que lá viveu, as saudades que descobriu ter de Portugal. O Editor deste livro, Rui Couceiro,  conta que “Miguel Esteves Cardoso escreveu e organizou estas cartas “já com o intuito de um dia as publicar” e sublinha que este livro “pode ser lido tanto com um primeiro volume da autobiografia do escritor, como enquanto romance de formação”. Por aqui passam as suas impressões sobre o que se passava à sua volta, as suas emoções e confissões, muitas pessoalíssimas. Em Dezembro de 1976, estava há pouco mais de um ano em Manchester, Miguel Esteves Cardoso conta a Carlos Vilela a sua aproximação à música que invadia a cidade e que se tornou numa das suas fontes de inspiração:“iniciei também a minha aprendizagem musical, leio livros, vou a concertos”. Pelo meio crescem as saudades e escreve:  “estou tão apaixonado por Portugal”. No fim do livro, já a poucos dias de regressar a Portugal, escreve uma carta à Vila Berta basicamente com  citações de Florbela Espanca, de Camões,de António Nobre, de Teresa Horta, de Bernardim Ribeiro, de Teixeira de Pascoaes e de Almeida Garrett. E deixa desenhado um fado que lhe vai crescendo na imaginação. (Edição Bertrand).


 


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O DESAFIO DA PINTURA -   Na Galeria Sá da Costa, ao Chiado, Pedro Chorão apresenta oito pinturas inéditas, acrílicos sobre tela, realizadas em 2024 e já este ano, sob o título “Diálogos Sensíveis”. São quadros que evocam memórias do artista e que resultam sempre de um longo processo de trabalho. No catálogo da exposição é publicada uma entrevista de Pedro Chorão a José Sousa Machado, o galerista da Sá da Costa. Nessa entrevista Pedro Chorão sublinha que “um quadro nasce pelo puro prazer da aventura e da atracção pelo desconhecido, imaginando e “sentindo” – mas também pela curiosidade e vontade forte de agarrar a ideia, seja ela a propósito de uma paisagem, um bicho ou uma ventania”. Pedro Chorão afirma que esta é uma das exposições “mais coesas que tem feito”. E sublinha: “Para mim o gozo todo está na procura do que ainda não experimentei. Pintar é resolver problemas. Os problemas são inúmeros e constantes. Tem que se ir resolvendo as questões que surgem, resolvendo problemas -  é isso que é o trabalho da pintura. Trabalho para resolver problemas e o gozo é esse, é ter problemas para resolver. Cada quadro é um desafio completamente novo, sempre”. A Galeria Sá da Costa fica na Rua Serpa Pinto 19, ao Chiado e está aberta de segunda a sábado entre as 14h30 e as 19h00.


 


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ROTEIRO - A Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Neri 42) apresenta uma exposição de trabalhos pouco vistos e inéditos de Ana Hatherly, com edições póstumas certificadas,  sob o título ”A Minha Escrita Secreta” (na imagem). No dia 8 de Maio pelas 18h00 André Gomes realiza no espaço da galeria, e a propósito desta exposição, a performance “O Pavão Negro” . Na Galeria Monumental ( Campos dos Mártires da Pátria, 101) Maria Pinheiro mostra até 24 de Maio a sua nova exposição de pintura “do fogo e do mito”. Em Braga, na Zet Gallery (Rua do Raio 75) Fernão Cruz apresenta até 18 de Junho a exposição “Sentinela” que, com curadoria de Helena Mendes Pereira, reúne um conjunto de oito trabalhos pensados como uma instalação única. Nas Caldas da Rainha, no Museu Leopoldo de Almeida, Miguel Palma e João Paulo Feliciano apresentam até 2 de Junho a exposição “Olho por olho, lente por lente” As obras de João Paulo Feliciano abrangem um período de 1993 a 2015, enquanto as de Miguel Palma são essencialmente as suas mais recentes criações. E em Lisboa, no  MAC/CCB é apresentada até 28 de Setembro uma colecção de cartazes de propaganda política dos anos de 1974 e 1975 - “Cartazes sem Censura | 25 de Abril e a Revolução do «Verão Quente»” provenientes de colecções particulares.


 


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O SAXOFONE - Passei os últimos dias a ouvir “Homage”, o novo disco do saxofonista norte americano Joe Lovano, acompanhado pelo trio do pianista polaco Marcin Wasilewski e que inclui o contrabaixista Slawomir Kurkiewicz e o baterista Michal Miskiewicz . Os mesmos músicos já haviam gravado em 2020 o álbum “artic Riff”. Agora com 72 anos, Joe Lovano consegue combinar a sonoridade do jazz norte-americano tradicional, que caracteriza a sua forma de tocar saxofone, com um trio europeu inspirado pelo free jazz - o tema que dá o título ao álbum, “Homage”, é disso um bom exemplo.. O entendimento entre músicos com formações e práticas tão diversas é surpreendente, sobretudo nos diálogos entre saxofone e piano como logo na faixa de abertura, “Love In The Garden”. O disco foi gravado em estúdio no final de 2023 em Nova Iorque, no final de uma semana de actuações no Village Vanguard, é editado pela ECM e está disponível nas plataformas de streaming.





ALMANAQUE - Até 6 de Julho tem oportunidade de descobrir obras raramente vistas de Caravaggio, um dos grandes nomes do barroco, que estão expostas na Galeria Nacional de Arte Antiga, do Palazzo Barberini, em Roma. A mostra reúne, no edifício recentemente restaurado, 24 quadros que marcam a obra de Caravaggio. e inclui obras raras como “O Retrato de Maffeo Barberini”, que veio a público recentemente depois de 60 anos de sua descoberta e é um dos poucos retratos feitos pelo pintor. “Ecce Homo” é outra obra raramente vista que integra Caravaggio 2025. Redescoberta em 2021, a pintura faz parte da coleção do Museo Nacional del Prado, em Madrid. Outra obra há muito tempo não exibida na Europa é “Os Trapaceiros”, que pertence ao Kimball Art Museum de Forth Worth, nos Estados Unidos.


 


DIXIT  -  “Os sucessivos governos deixaram morrer a obstetrícia do SNS. Os hospitais públicos já não são para nascer” - Carmen Garcia


 


BACK TO BASICS -  “A tecnologia é um instrumento para proporcionar ligações entre as pessoas e não para as substituir” - Josh Fehnert.


 


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abril 25, 2025

OS MATRAQUILHOS E A CAMPANHA ELEITORAL

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Do que tenho visto a campanha eleitoral está a assemelhar-se ao monótono desenrolar de um torneio de matraquilhos. As equipas atacam-se reciprocamente no meio campo, mas cada vez marcam menos golos. A comparação com o futebol não é um devaneio. As circunstâncias ditaram que há meio século, depois do 25 de Abril, se criassem  (ou ressurgissem) uma série de partidos que durante a ditadura estavam naturalmente escondidos, por vezes adormecidos e, noutros casos, inexistentes e que entretanto foram criados. A forma rápida como tudo se desenrolou em 1974 e 1975 levou a população portuguesa, nas eleições mais participadas de sempre, a escolher o partido em que iriam votar e uma grande parte dos eleitores ficou ainda nesses tempos. 50 anos depois nem os partidos são os mesmos, nem aqueles que continuam a existir são iguais. Como dizia Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/muda-se o ser, muda-se a confiança/todo o mundo é composto de mudança/tomando sempre novas qualidades”. Só que, fruto desse entusiasmo dos primeiros tempos, a simpatia por um partido transformou-se frequentemente  em fanatismo - e o duelo político passou a ser uma luta clubística. Tudo isto, associado a uma Lei Eleitoral caduca, inexplicavelmente quase sem mudanças durante um meio século em que todos os hábitos de comunicação e dinâmica social se modificaram, levou a que hoje haja muita gente que rejeita liminarmente a possibilidade de coligações entre projectos diferentes. Lá no fundo argumentam contra uma cultura de entendimento político e em defesa de uma política de confronto, e dizem que não faz sentido arranjar um acordo entre o Sporting e o Benfica para definir quem vence o campeonato. Só que a política não é futebol e transportar a rivalidade desportiva, saudável, para a política, é um mau serviço para o país. O resultado é o fraco jogo de matraquilhos em que as campanhas eleitorais se foram transformando.


 




abril 24, 2025

REFRESCAR A MEMÓRIA, REVER A REALIDADE

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OS PARADOXOS DA RTP - Sugiro que nos dias 25 e 26 de Abril vejam o novo documentário de António Barreto, “Rumo à Liberdade”, que está dividido em duas partes e que será emitido na RTP Memória nesses dias. O documentário mostra a visão de Barreto sobre o balanço do que aconteceu desde o 25 de Abril de 1974, uma ideia incómoda para muita gente que entende que “falta cumprir Abril”. António Barreto é claro sobre essa ideia: “É uma tolice absoluta. O que Abril tinha para dar está dado: democracia, liberdade, libertação dos presos políticos… tudo o resto é o processo social normal, são as nossas escolhas.” Esta ideia atrapalha muita gente, sobretudo à esquerda do PS, no Livre, no Bloco de Esquerda e no PCP. Dito isto convém elogiar o trabalho de dois quadros da RTP que permitiram, com o seu trabalho num caso, e a sua decisão noutro, que o documentário existisse: António Faria, um especialista na pesquisa dos arquivos da RTP desencantou as imagens que constituíram o alicerce do trabalho depois desenvolvido por António Barreto; e Gonçalo Madaíl, porventura o mais ousado e criativo dos responsáveis de programas da RTP, convidou António Barreto a fazer o documentário e encomendou-o, assumindo os custos da produção no magro orçamento do canal que dirige, o RTP Memória. Aqui começa outra história. Se a RTP fosse uma empresa onde as produções fossem coordenadas e não existisse uma guerra de capelinhas, a pesquisa de António Faria e a visão de Gonçalo Madaíl seriam utilizadas para dar outra difusão à peça mais importante que a RTP tem para transmitir em mais este aniversário do 25 de Abril. Mas não, o documentário será estreado na RTP Memória, claro que ficará disponível na plataforma digital RTP Play e será transmitido, obviamente em data ainda não decidida, nessa aberração de programação  que é a RTP3, que já é o menos visto de todos os canais informativos nacionais. Deixem-me enquadrar a coisa: a RTP produziu um documentário que dá uma nova visão, politicamente incómoda para alguns, e vai estreá-lo num canal que praticamente não tem audiências, a RTP Memória: 0,1% de share médio de audiência desde o início do ano. O perfil demográfico do canal indica que ele é visto por 12% de pessoas abaixo dos 54 anos, precisamente aqueles que mais tinham a ganhar em conhecer a tese de Barreto sobre o 25 de Abril, por cerca de 50% entre os 55 e os 74 anos e os restantes 38% acima dos 75 anos. Acham que isto faz sentido? Os segmentos etários que mais tinham a ganhar em saber o que aconteceu estão longe do canal onde vai ser exibido. Será isto serviço público de televisão?


 


SEMANADA - Desde 2006 as parcerias de universidades portuguesas com universidades norte-americanas, agora postas em causa pela administração Trump, já implicaram gastos para Portugal de mais de 300 milhões de euros “num processo deficientemente avaliado”, segundo o Professor  Carlos Fiolhais; em Março os portugueses fizeram mais  de 14 milhões de downloads de podcasts, uma média de 3,4 milhões por semana, o que significa um aumento de 10,9%face ao mês anterior, indica a Marktest; em 2024, segundo o Estado Maior General das Forças Armadas,  9.843 jovens candidataram-se às Forças Armadas portuguesas, um aumento de 23,8% face a 2023; em março 2342 pessoas continuavam internadas no Serviço Nacional de Saúde por falta de sítio para onde irem, mais 8% do que no ano passado e, em média, ficam nos hospitais cinco meses após a alta clínica;  maus tratos ou discriminação afectam 44% das crianças com necessidades específicas; segundo a APAV registaram-se 5100 crimes sexuais contra menores nos últimos três anos, um aumento de 48% nesse período; o fime “Minecraft”, baseado no jogo com o mesmo nome, já teve cerca de 300 mil espectadores em Portugal em pouco mais que duas semanas; em 2024 registaram-se 600 vítimas mortais em acidentes rodoviários, das quais 100 em atropelamentos; em 2024 os autocarros da Carris, em Lisboa circularam à mais baixa velocidade de sempre, 13,71 khs/h e as interrupções por estacionamento indevido aumentaram 21,2%.


 


O ARCO DA VELHA - No recente  congresso do Livre um militante sugeriu dar cidadania portuguesa a todos os bebés nascidos em Olivença.


 


4. Jeff Wall After Invisible Man by Ralph Ellison


PARA ALÉM DA REALIDADE -   O MAAT apresenta, pela primeira vez em Portugal, uma exposição do fotógrafo norte-americano Jeff Wall, com 63 das suas obras, realizadas entre 1980 e 2023 e que ocupam totalmente o espaço MAAT Gallery. Jeff Wall, actualmente com 78 anos, foi o precursor daquilo que ele próprio intitulou como “cinematografia”: ele procura reproduzir cenas quotidianas mas também situações imaginárias construídas em estúdio num processo laborioso e que envolve uma equipa considerável, desde iluminadores a cenógrafos, passando por figurinistas. De certa forma Wall vai buscar a sua ideia de fotografia ao cinema, mas  usando actores não profissionais que recriam cenas do quotidiano em cenários minuciosamente concebidos. Ao longo dos tempos a fotografia tem sido utilizada para mostrar instantâneos e a realidade, ou para servir de suporte à captação de imagens encenadas ou totalmente criadas expressamente para serem fotografadas, como as que estão nesta exposição. Jeff Wall é um dos fotógrafos cuja obra tem sido mais exposta internacionalmente e cujos preços de venda em leilão atingem maiores valores. Ao mesmo tempo que imaginava estas imagens Wall fez também fotografia documental e, a partir dos anos 90, trabalhou igualmente com preto e branco, além das fotografias coloridas, em transparências retroiluminadas ou impressas em papel, sempre em grandes dimensões, como esta aqui reproduzida,  e que na exposição é apresentada como uma transparência montada numa caixa de luz de 174x257 cms. A obra de Jeff Wall obriga-nos a repensar o que é a fotografia, quais os seus limites e possibilidades enquanto ferramenta criativa, que não tem de se cingir à realidade. Esta exposição do MAAT, “Jeff Wall. Time Stands Still. Fotografias, 1980–2023”, é comissariada por Sérgio Mah e pode ser visitada até 1 de Setembro.


 


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ROTEIRO - O Arquivo Ephemera e a Câmara Municipal do Porto apresentam até 30 de Junho, nos Paços do Concelho da cidade, a exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia Portuguesa”. O grosso dos materiais expostos são do espólio de Francisco Sá Carneiro, mas também dos espólios de Nuno Rodrigues dos Santos, Vítor Crespo, Mário Brochado Coelho e dos acervos e colecções de Conceição Monteiro, do Arquivo Ephemera, e de muitos militantes do PPD/PSD. Ali são apresentados em conjunto, pela primeira vez, centenas de documentos, manuscritos, fotografias, imagens, objectos, correspondência, livros, e periódicos que permitem compreender o papel de Sá Carneiro na luta pela democracia e na definição das bases programáticas do PPD. Outra exposição a não perder está até 31 de Maio na Sociedade Nacional de Belas Artes “Bonecos Para o Povo” que apresenta material relacionado com o trabalho gráfico de João Abel Manta nos anos de 1974 e 1975, e também ao longo de diversas fases da sua carreira, incluindo vários trabalhos nunca expostos. João Abel Manta teve sempre uma importante colaboração com a imprensa e orgulhava-se de os quiosques de jornais com os seus desenhos nas primeiras páginas e os muros e paredes com os cartazes que fez, serem o local onde o seu trabalho podia ser visto. 


 


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HAVERÁ VIDA FORA DA TERRA? - “Neste livro acompanho o leitor numa viagem excitante e surpreendente em busca da vida no cosmos” - é assim que nas palavras da própria autora, a geofísica Lisa Kaltenegger, é apresentado “À Descoberta pela Vida no Cosmos”. Segundo ela este é um guia para saber “o que os cientistas estão a aprender acerca da história do nosso planeta e da sua surpreendente biosfera” mas também a investigação sobre a possibilidade de vida noutros planetas. “ Os meus dias são passados a tentar perceber como encontrar vida em mundos extraterrestres, em colaboração com equipas de cientistas tenazes”, conta. A autora explica como ela e a sua equipa procuram vida no cosmos, qual o limiar do conhecimento, o que é a definição de vida. Com  uma escrita clara a autora discute os melhores candidatos a planetas habitáveis e mostra-nos como a ficção científica se aproxima cada vez mais da realidade. Lisa Kaltenegger é astrofísica e diretora fundadora do Instituto Carl Sagan, na Universidade de Cornell. O livro é editado pela Casa das Letras.


 


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A GUITARRA VAGABUNDA - A minha banda sonora desta semana tem sido “Dissidente”, o novo disco do guitarrista Tó Trips que com Pedro Gonçalves  moldou o som dos Dead Combo. Agora a sua guitarra é acompanhada pela bateria de Alexandre Frazão, o contrabaixo  de António Quintino e o violoncelo de Helena Espvall. Mas, como sempre, o que se evidencia, nos quase 50 minutos e 18 temas deste novo disco, é a sonoridade muito especial que Tó Trips consegue extrair da sua guitarra, percorrendo composições originais, muitas vezes inspiradas em tangos, fados ou mornas. É uma música quente, frequentemente visceral, com um ritmo contagiante. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Até 9 de Junho quem fôr a Amsterdão poderá ver a maior exposição de sempre de um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos, o escultor e pintor alemão Anselm Kiefer. Intitulada Sag mir wo die Blumen sind“ (Diz-me onde é que estão as flores) a exposição está no  Stedelijk Museum Amsterdam, que cedo começou a comprar obras de Kiefer, ajudando-o a ganhar notoriedade, uma colecção que agora é  apresentada em conjunto pela primeira vez, ao lado de outras obras provenientes de diversos empréstimos e de novos trabalhos de Kiefer feitos propositadamente para o Museu e para esta mostra. A exposição prolonga-se pelo vizinho Museu Van Gogh, um artista que Kiefer refere como uma das inspirações para a sua obra e, ali, algumas das mais célebres obras de Van Gogh são apresentadas ao lado de pinturas de Kiefer.


 


DIXIT  -  “Dispensamos demagogia e sonhos de um amanhã luminoso e de grande prosperidade quando o que cada um de nós prevê são dias cheios de dificuldades e de problemas, alguns dos quais nem temos dados para poder formular” -  Eduardo Marçal Grilo, sobre a campanha eleitoral em curso



BACK TO BASICS -  “Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação” -  Fernando Pessoa 


 


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abril 19, 2025

UMA BARULHEIRA!

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O que eu gostava de ter num ovo da Páscoa era a certeza de que Lisboa era menos caótica em ruído.  Segundo a Organização Mundial da Saúde o ruído é o factor de risco ambiental mais subestimado e só na Europa, de acordo com dados da Agência Europeia do Meio Ambiente, são registados 48 mil novos casos de doenças cardíacas por ano, provocadas pelos níveis de stress associados ao ruído,. Segundo a Agência Portuguesa do Ambiente 20% da população está exposta a níveis sonoros causadores de perturbações no sono e 15% tem exposição a níveis associados a incomodidade moderada. As recomendações da Organização Mundial da Saúde, em termos de decibéis (db) indicam que o nível médio de ruído para o trânsito rodoviário não deve passar de 53 db durante o dia, caindo para 45 db à noite. No entanto, em algumas zonas de Lisboa o ruído associado ao trânsito automóvel intenso pode chegar aos 85db. Uma sirene, sozinha, chega aos 120 db. E os aviões? Há cerca de 400 mil pessoas, cerca de 4% da população portuguesa,  que vivem num raio de 5 km do aeroporto Humberto Delgado em Lisboa e que estão particularmente expostas ao ruído provocado pelos aviões. Há zonas da cidade, como Campolide, onde este coelhinho da fotografia passa os dias, em que nas épocas altas de turismo a frequência das passagens de aviões é insuportável e muitas vezes registam-se mais voos nocturnos que era suposto, provocando distúrbios do sono. Por isso o coelhinho da Páscoa acorda mal disposto e pior ainda fica quando não pode ir a uma esplanada sem estar sempre a ouvir aviões por cima de si, frequentemente várias vezes por minuto, impedindo qualquer conversa namoradeira. Há coisa menos romântica que tanto ruído? 


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abril 18, 2025

E OS PROGRAMAS ELEITORAIS , PARA QUE SERVEM?

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CONTRADIÇÕES - Cada vez que há eleições lá vou eu fazer uma peregrinação pelos programas dos principais partidos, procurando o que dizem sobre política cultural. Todos garantem querer o bem do mundo e que toda a gente seja muito culta. Mas na realidade, como se tem visto ao longo deste primeiro quarto do século XXI, quase nada de novo surgiu. As reformas que se fazem são orgânicas, burocráticas e por vezes têm até resultados negativos. As promessas são sempre subsídios a atribuir sobretudo para as artes performativas, mas sobre incentivos a uma maior participação dos privados nesta área muito pouco se fez. Entretanto os Museus continuam com reduzida autonomia financeira (quando a têm),  a Lei do Mecenato teve tímidas actualizações e os Primeiros Ministros, todos e sem excepção, gostam de usar a Cultura apenas como uma flor na lapela e não hesitam em ultrapassar quem dirige o sector. Na realidade quem inviabiliza reformas de fundo e de facto manda na Cultura, ao longo dos últimos anos, não é quem assume o cargo de Ministro da pasta, mas sim o Ministro das Finanças, com a cobertura do Primeiro Ministro. Todas as tentativas de incentivar privados a investir na área, alargar a Lei do Mecenato e torná-la mais atractiva, esbarram aí, nas Finanças. Agora,  em plena campanha eleitoral conheceu-se um exemplo do que é o efectivo desprezo do Governo sobre o papel da iniciativa privada na Cultura. Digo isto a propósito das galerias de arte, cuja actividade é crucial para divulgar e vender as obras de artistas plásticos, emergentes ou consagrados, sendo para muitos a principal fonte de rendimento. Além disso, várias galerias desempenham um papel de divulgação da cultura e dos artistas portugueses por esse mundo fora, nas feiras de arte contemporânea, com uma actividade mais constante e relevante que o Estado. Pois eis que, poucos dias depois de a ministra da Cultura  ter sublinhado a importância de baixar para 6% o IVA nas transações de obras de arte, indo ao encontro de uma Directiva da União Europeia, o Governo português  decidiu tornar menos competitivo este sector e publicou o Decreto-Lei n.º 33/2025 de 24/03, que eleva o IVA nas transações de obras de arte, de um valor que andava entre 11,5 e 14,5% para 23%, objectivamente aumentando o preço a pagar por quem compra arte e estreitando o mercado. E quem assina este Decreto Lei? O Primeiro Ministro, o Ministro das Finanças, o Ministro da Economia e o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Como acreditar no programa de um partido que quando está no poder legisla sobre os impactos da atividade económica na Cultura sem envolver a Ministra da tutela nas decisões que toma?


 


SEMANADA -  Os museus portugueses, públicos e privados, registaram, em 2023, 18,1 milhões de visitantes (+14,7%), dos quais 8,6 milhões de visitantes estrangeiros (+12,7%); as 75 370 empresas de atividades culturais e criativas, ativas em 2022, geraram 8,1 mil milhões de euros de volume de negócios, mais 21,5% do que em 2021; em 2023, o emprego cultural foi estimado em 201 000 pessoas, representando 4,0% do emprego total; apesar destes números o sector da Cultura representa apenas cerca de 0,4% da despesa total consolidada da administração central; em 2023, existiam 18 074 empresas do sector desportivo que geraram 2,8 mil milhões de euros de volume de negócios; em 2023, o financiamento das Câmaras Municipais às atividades e equipamentos desportivos aumentou 16,0%, para 426,5 milhões de euros: cerca de sete milhões e portugueses utilizaram a internet em 2024 e metade das pessoas entre 16 e 74 anos fizeram compras pela internet nesse ano; em 2024 cerca de 35% dos portugueses não tinham capacidade para pagar uma semana de férias fora de casa; a habitação significa cerca de 40% da despesa média das famílias; em 2023 Portugal era, a par de Espoanha, o país da União Europeia com maior proporção de pessoas sem capacidade financeira para manter a casa convenientemente aquecida.


 


O ARCO DA VELHA - Cerca de dois mil portugueses foram deportados nos últimos seis anos e em 2024 houve 387 portugueses deportados, mais 117 do que no ano anterior.


 


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UM CRIME NUMA SALA FECHADA - Manuel Vásquez Montalban é um dos grandes escritores espanhóis, criador da figura do detective galego Pepe Carvalho. Em 1981, Montalbán escreveu Assassinato no Comité Central”, uma das suas obras mais marcantes, agora reeditada com nova tradução de Manuel Seabra. O livro foi escrito na época de transição do franquismo para a democracia numa altura em que o Partido Comunista de Espanha era ainda influente, do ponto de vista eleitoral e sindical - influência entretanto desaparecida. A história é simples: numa reunião do Comité Central, realizada num hotel madrileno, ocorre uma falha de energia, a luz é cortada durante escassos três minutos, e quando se restabelece o secretário-geral do partido está caído,  esfaqueado no coração. A sala estava fechada, lá dentro apenas as dezenas de membros do Comité Central. Quem matou o Secretário-Geral? A investigação oficial foi entregue ao comissário Fonseca, um polícia franquista, o que indispõe os comunistas, que contratam um detetive privado, Pepe Carvalho, catalão de origem galega, ex-comunista, ex-agente da CIA, gastrónomo que quando não persegue iguarias, consegue desvendar mistérios com a ajuda de petiscos que vai procurando. Pepe Carvalho descobre como as convulsões ideológicas do Partido Comunista, a luta entre as  diversas sensibilidades e facções no seu interior e as clivagens na política espanhola da época se conjugam para fazer acontecer a misteriosa morte. O livro é um retrato brilhante da forma de pensar e de agir de quem dirigia os partidos comunistas e é também um policial delicioso. Edição Quetzal.


 


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AS INFINITAS POSSIBILIDADES DO PAPEL -   “Sobre Papel, 1953-2025” é o título da nova exposição na galeria Rui Freire Fine Art (Rua Serpa Pinto 1C, ao Chiado), que até 18 de Maio apresenta obras de Manuel Caldeira, Jean-Charles de Ravenel, Jorge Nesbitt, Pedro Quintas, Roberto Ruspoli, Bruno Castro Santos, Hanns Schimansky, Bela Silva, Vieira da Silva,  Loló Soldevilla e Arpad Szenes (na imagem), e também de Pedro Casqueiro, Daniela Krtsch e Cristina Lamas. Todos os trabalhos apresentados têm como suporte o papel e foram criados entre 1953 e 2025. A exposição mostra 22 obras que evidenciam as diversas possibilidades de trabalho sobre papel, desde composições geométricas, ao traço do desenho (de Roberto Ruspoli por exemplo) , passando por obras que exploram a criação de camadas e volumes (como Hanns Schimansky), mostrando a plasticidade e capacidade de adaptação do suporte. A Rui Freire Fine Art foi criada em 2018, inicialmente sob o nome da galeria Jeanne Bucher Jaeger, de Paris, onde Rui Freire exerceu funções como diretor. A galeria representa artistas nacionais e internacionais e desde 2019, colabora com a organização americana Parley For The Oceans, que desenvolve projetos de grande escala com artistas como Katharina Grosse e Vik Muniz, entre outros.


 


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ROTEIRO - O destaque da semana vai para a exposição “Caminhos da Floresta” de João Louro, na Galeria Fernando Santos (Rua Miguel Bombarda 526, Porto). A exposição mostra obras recentes, de escultura e pintura (na imagem uma das obras, fotografada por Bruno Lopes) e pode ser vista até 7 de Junho. Em Lisboa, na Gulbenkian, duas novidades. No edifício principal, e com o pretexto do encerramento temporário do Museu para requalificação, algumas das obras mais importantes foram reunidas na exposição “Coleção Gulbenkian. Grandes Obras”, com mais de trezentas peças, da arte islâmica, à arte europeia e a arte da China e do Japão, num percurso que se inicia no século XX em direção à Antiguidade. No Centro de Arte Moderna a novidade, na nave principal, é uma exposição que coloca em confronto obras de Paula Rego com a artista brasileira Adriana Varejão. Sob o título “Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes”, são apresentadas até 22 de Setembro cerca de 80 obras das artistas,  entre pintura, gravura, escultura e instalação. Para finalizar, na No-No Gallery (Rua de Santo António à Estrela 39A) está em exposição, até 31 de Maio uma exposição com fotografias de Miguel Marquês, intitulada “Echoes From a Distant Time” , baseada na sua observação de um velho edifício desocupado.


 


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MÚSICA DE HOTEL - The Los Angeles League of Musicians, também conhecido por LA LOM, é um trio constituído pelo guitarrista Zac Sokolow, o baixista Jake Faulkner e o percussionista Nicholas Baker. Começaram a tocar juntos em 2018 num hotel em Hollywood e no ano passado gravaram o seu primeiro álbum para a histórica editora Verve, LA LOM. Praticam uma  música de fusão que tanto vai buscar inspiração às guitarras da Califórnia como a ritmos sul-americanos. O disco é um apelo à dança, constituído por 13 faixas que parecem saídas da banda sonora de um filme da série B. São 40 minutos deliciosos, de música muito bem tocada, aquele género que sabe bem ficar a ouvir ao fim da tarde com um copo na mão num dia de calor. Musicalmente o disco é uma homenagem à tradição pop americana e hispânica, inteiramente instrumental. Pontualmente os três músicos são acompanhados por convidados que complementam os arranjos com um piano e uma secção de cordas. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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ALMANAQUE - O quadro aqui reproduzido chama-se “Do Remember They Can’t Cancel the Spring” e foi pintado por David Hockney durante a pandemia, em Março de 2020, quando o pintor estava em confinamento na Normandia. O nome deste quadro é o título escolhido para a grande retrospectiva da obra de Hockney que está patente na Fundação Louis Vuitton, em Paris, até 31 de Agosto e que apresenta mais de 400 obras do artista nas 11 galerias do Museu, de todas as fases da sua carreira, desde as primeiras pinturas, do início dos anos 60. Hockney, agora com 87 anos, envolveu-se na concepção e montagem da exposição que permite seguir a evolução do seu trabalho, desde os desenhos e pinturas até à recente utilização de dispositivos digitais.


 


DIXIT  - “ O conceito de accountability, ou seja, de responsabilidade objectiva, não existe para os nossos profissionais da política, que nunca fizeram nada na vida a não ser pendurados nos respectivos partidos”  - Luís Todo Bom


 


BACK TO BASICS -   Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo, esperando ser o último a ser comido - Winston Churchill


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 

abril 12, 2025

A FEIRA DAS VAIDADES

 


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Neste início de primavera surgem algumas papoilas ainda tímidas, vergadas pelo vento e as chuvas fortes. Mas o que mais se vê pelas ruas das cidades, não são flores, são os cartazes que mostram as novas tendências de imagem dos líderes partidários nas legislativas de Maio. Nos últimos anos qualidade dos cartazes políticos tem vindo a baixar de forma acentuada e transversal a todo o leque partidário e esta colheita mantém o ritmo descendente. As campanhas eleitorais são feiras de vaidades onde os líderes partidários parecem modelos nas passerelles de uma produção de moda rasca, fantasias montadas num manequim de plástico. Parece que uma das tendências actuais é o recurso a grafismo feito com ajuda de Inteligência Artificial mal formatada. Por exemplo Pedro Nuno Santos aparece num dos primeiros cartazes como uma figura de museu de cera desenhada por um especialista em cartazes de circo. Do lado de Montenegro o mantra da sua imagem é o sorriso postiço que usa permanentemente, mas estar sempre com uma máscara de riso forçado para a fotografia não dá confiança a ninguém. A Iniciativa Liberal não está muito melhor - é certo que a coisa não é fácil quando Rui Rocha é tão pouco fotogénico e a mensagem tão vazia: um pedido de confiança, depois do voto da IL na moção de confiança de Montenegro,  não é desígnio inspirador. Esperemos que este ano não voltem à asneira de enfiar nas caixas de correio imitações de intimações da Autoridade Tributária, uma das peças de propaganda política mais desajeitadas de sempre. Hoje em dia as campanhas e os seus cartazes são uma feira de vaidades onde o ridículo anda à solta e os debates são a montra onde se vendem saldos requentados. O circo começou, com devida desculpa aos verdadeiros artistas circenses.




abril 11, 2025

MANUAL DE AMEAÇAS DA POLÍTICA À PORTUGUESA

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O APARELHO - António Capucho deu uma entrevista ao “Público” no início desta semana onde sublinha a importância que tem uma solução governativa que garanta estabilidade e que permita um pacote de acordos de regime em algumas áreas essenciais, que nomeou,  como a justiça, a educação, a saúde, a legislação eleitoral, a cultura e a administração pública. Mais, Capucho defende um acordo de incidência eleitoral entre PSD e PS, escrito, que garanta estabilidade e possibilite fazer reformas nas áreas indicadas. Na realidade este é o tema central destas eleições, mas nenhum dos candidatos a Primeiro-Ministro destes dois partidos mostra o mais leve desejo de o abordar e, suspeito, ainda menos de o concretizar. Claro que a certo ponto desta apressada campanha será necessário que cada um dos líderes diga, em relação ao outro, o que está disposto a fazer se o seu partido ganhar e deixar claro, se não for o vencedor, se viabilizará um governo que não o seu e se apresentará uma moção de censura. Isto não são questões bizantinas, embora o estado a que chegou o debate político em Portugal transforme em enormes dificuldades a política propriamente dita e sobrevalorize as diferenças e rivalidades, em vez de se preocupar em apontar para uma estratégia de resolução dos mais graves problemas do país. Uma boa prova disto é a questão da formação das listas eleitorais, que suscitou problemas e polémicas em todo o leque partidário e evidenciou o habitual caciquismo que é a regra de funcionamento sobretudo dos chamados grandes partidos. A este propósito o “Correio da Manhã” reportou por estes dias que quando José Eduardo Martins foi candidato à presidência da Assembleia Municipal de Lisboa e Teresa Leal Coelho, nas mesmas eleições, foi candidata à presidência da autarquia, ambos viram com espanto que as respectivas listas de putativos deputados municipais e vereadores social-democratas não tinham ninguém que tivessem indicado, não conheciam ninguém, sendo tudo escolhas do aparelho local do PSD, que entretanto se viu envolvido na operação “Tutti-Frutti”. Na realidade, como esse artigo dizia, “O líder de um partido pouco poder tem na elaboração de listas de deputados à Assembleia da República, o mesmo acontecendo com os candidatos autárquicos. Quem manda é o chamado “aparelho”, um grupo de pessoas que trata do quotidiano.”. Assim é mais fácil compreender o estado a que isto chegou.


 


SEMANADA -  Segundo o IMT dos 37.495 motoristas de TVDE que trabalharam em Março 52% foram portugueses e 48% de outras 97 nacionalidades, com destaque para os brasileiros, indianos, paquistaneses e bangladeshianos; no último mês circularam nas estradas nacionais 34 447 veículos TVDE e o número de operadores válidos é de 11 894; as estatísticas oficiais indicam que em 2024 foram registados 16080 assaltos a casas, o que representa uma média de 44 destes crimes por dia; 497 desses assaltos foram feitos com moradores no interior das habitações; em 2024 foram registados 260 assaltos a automóveis com os condutores no seu interior, vulgo “carjackin”, quase sempre à mão armada; Ana Caldeira, uma advogada que era dirigente do Chega e vice-presidente do Conselho de Jurisdição do partido foi acusada pelos crimes de burla qualificada e falsificação de documentos, acusada de tentar burlar um ex-sócio falsificando a assinatura de uma mulher que já tinha morrido "com o objetivo de fazer sua a quantia de seis mil euros"; um estudo recente indica que, em 2024, o investimento privado em Portugal correspondeu a cerca de 16% do PIB, dois pontos percentuais abaixo da média da União Europeia, sendo o quarto nível mais baixo do grupo dos países concorrentes; no mesmo ano o volume de investimento em capital de risco representava apenas 6,8 pontos-base do PIB em 2024, um valor substancialmente abaixo da média da União Europeia (13,2 pontos-base) e muito aquém de países concorrentes como Espanha ou Estónia; há 16 municípios no país onde mais de metade da população que trabalha no setor privado ganha apenas o salário mínimo nacional; os preços das casas em Portugal subiram mais do que o dobro da média da UE no final de 2024; a Parques de Sintra estima que na sua área de actuação 98 mil árvores caíram devido à tempestade e vento causados pela depressão Martinho; foram registadas 32 mil visualizações do vídeo da violação de uma rapariga de 16 anos em Loures e nenhuma das pessoas que o viu achou que o caso fosse suficientemente grave para o denunciar.


 


O ARCO DA VELHA - Nos últimos três anos, nos centros urbanos,  morreram 757 idosos que viviam sozinhos em casa.


 


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UM ROMANCE CHINÊS - Não me canso de dizer que hoje, mais que nunca, é importante percebermos a cultura chinesa. Ora,  “No Fio Inconstante dos Dias - Memórias de Uma Vida Flutuante”, do chinês Shen Fu, uma obra que é considerada um clássico da literatura universal, foi agora editada pela primeira vez em Portugal e merece leitura. O livro foi escrito no século XIX, no auge da dinastia Qing, a última antes da proclamação da República da China em 1912. Shen Fu era um funcionário público,  secretário de um magistrado e a primeira edição conhecida deste livro, no original “Seis Relatos de Uma Vida Flutuante”, data de 1870 mas as versões que chegaram até hoje, como esta, integram apenas quatro dos seis relatos originais, já que os dois últimos se perderam. A primeira tradução ocidental, em inglês, data de 1935. O livro é uma espécie de biografia de Shen Fu, contada em torno da história de amor do autor por Yun, a sua mulher, uma mulher rara nessa época, culta e que cultivava algum grau de independência.. Em torno do  relato central por Yun, Shen Fu escreve sobre as frustrações que sente na sua profissão, a penúria financeira, o desalento que se vai estabelecendo na sua vida, mas também histórias de amor pela natureza, das artes e da poesia e da pintura, da inconstância política da época, da dependência de favores dos poderosos, mas também do universo de concubinas e cortesãs. Há um dado marcante para compreender a profundidade da escrita de Shen Fu: o funcionário público desse tempo, na China, tinha de ser alguém com um grau de instrução elevado, com um domínio da milenar tradição poética chinesa e que tinha responsabilidades práticas e éticas no seu trabalho enquanto secretário de um Magistrado. No fundo esta é uma história de amor mas também de sofrimento, de virtudes e de vícios, de generosidade e ganância, como faz notar o editor, Manuel S. Fonseca. E também uma forma de melhor perceber a tradição e a cultura milenares chinesas. Edição Guerra & Paz.


 


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A MÁQUINA DO TEMPO -   O destaque desta semana vai para  “Ra” a nova exposição de Rui Toscano, que pode ser vista até 10 de Maio na Galeria Cristina Guerra (Rua de Santo António à Estrela 33).  O título da exposição evoca a figura de Rá, uma das divindades maiores do antigo Egipto, símbolo do sol no seu zénite e que tinha uma força cósmica que regulava o ciclo da vida e da energia no universo. Na exposição destacam-se quatro desenhos projectados como imagens luminosas, compostos por figuras geométricas que se sobrepõem, explorando a capacidade de a luz ser utilizada como expressão da forma. A exposição inclui também quatro pinturas de diversos formatos, cada uma realizada numa cor primária (na imagem), evidenciando a sua intensidade. Nestas quatro pinturas surgem figuras humanas que dão uma dimensão narrativa, como se percorressem uma estrada aberta pelas formas geométricas das outras peças da exposição. Na folha de sala Luigi Fassi sublinha que as pinturas de Rui Toscano funcionam como máquinas do tempo imprevisíveis” através das quais  “explora planos temporais sobrepostos e inidentificáveis, oferecendo olhares sobre épocas culturais distantes, aspirações tecnológicas obsoletas e paradigmas científicos distintos dos actuais”.


 


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ROTEIRO - “Un antes siempre” é o título da exposição de Pedro Calapez no espaço Santa Catalina, uma antiga igreja dessacralizada, no centro histórico de Badajoz, que pode ser vista até 8 de Junho. As obras de Pedro Calapez contrastam com as paredes ocres do edifício e entram num curioso diálogo com os restos de frescos e murais que ainda se vêem nas paredes e que evocam pinturas de outras épocas (na imagem).  A disposição das obras, umas isoladas outras agrupadas, proporcionam várias leituras e permitem ver como muitas vezes estão dependentes umas das outras e como que se completam nas formas e nas cores. Bem perto, no espaço.arte, em Campo Maior, Catarina Pinto Leite expõe "Não São Só Flores", um conjunto de obras em papel  e tela, até 20 de Abril. Outro destaque vai para a exposição "Aula do Visível", que mostra obras da colecção Ilídio Pinho, uma das grandes colecções privadas de trabalhos de artistas portugueses. A exposição reúne mais de 120 obras de artistas como Vieira da Silva, Amadeo de Souza-Cardoso ou Paula Rego e pode ser vista até 31 de Maio no edifício Abel Salazar, da Universidade do Porto, junto à sua Reitoria. Duas notas finais: no Arquivo Municipal Fotográfico (Rua da Palma 246) pode ser vista até 12 de Abril “Ramot” uma exposição que mostra a importante obra de António da Costa Cabral. E na Brotéria, até 7 de Maio, pode ser vista uma exposição conjunta de Ana Jotta e Jorge Nesbitt intitulada “Conversations Pieces” na qual os dois artistas mostram objetos simples que formam um conjunto de peças em cerâmica apresentadas como personagens num palco inesperado.


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PIANO E TROMPETE - O título do novo disco de Vijay Iyer, em dueto com Wadada Leo Smith, não esconde o que se vai ouvir logo nos primeiros acordes - “Defiant Life”. O primeiro tema, “Prelude:Survival” é simultaneamente incómodo e incontornável, com o trompete de Smith a romper de forma violenta a subtileza da forma como Iyer toca piano e órgão Fender Rhodes num diálogo duro que é o espelho dos tempos que vivemos,. A tensão criada entre os dois músicos prolonga-se no segundo tema, “Sumud” e, depois, nas restantes quatro faixas do disco,  de cada vez que Leo Smith mostra a intensidade do seu trompete, somos levados num crescendo de descoberta do que pode ser a visão musical de um mundo caótico onde o próximo passo é imprevisível. Edição ECM, disponível em streaming.





DIXIT  - “As principais ameaças contra a nossa liberdade serão, no imediato, os gananciosos, os maníacos partidários e os intolerantes” - António Barreto


 


BACK TO BASICS -   “Música tocada ao jantar é um insulto quer ao cozinheiro, quer ao intérprete” - G.K. Chesterton


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




abril 05, 2025

HÁ LUZ AO FUNDO DO TÚNEL?

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Espreito por entre a nebulosa dos acontecimentos políticos dos últimos tempos e procuro vislumbrar o que se passa. Tudo me parece escuro, estranho, cheio de segredos, de manobras de oportunistas e habilidosos. Não entendo as crises artificiais. Recordo-me de uma entrevista recente de António Barreto ao “Diário de Notícias” onde faz este balanço do Governo de António Costa:“O governo socialista de António Costa tinha quase tudo de que se precisa: dinheiro, votos, apoio e expectativas sociais. E maioria parlamentar. Tinha boa reputação internacional. Tinha colaboração institucional e bom entendimento com o Presidente da República. Quase tudo se perdeu. É um dos maiores desperdícios da vida política nacional.” E é verdade, reside aqui o início de um dos períodos mais estranhos da nossa história recente - a passagem de uma maioria absoluta do PS a uma pequena maioria da Aliança Democrática ( na verdade essencialmente do PSD), o crescimento do Chega e a alteração da paisagem parlamentar. Que o Governo de Montenegro tenha durado um escasso ano (tomou posse a 2 de Abril de 2024…) mostra o desnorte dos dirigentes partidários, do PS e PSD, que no espaço de menos de menos de dois anos desencadearam duas crises políticas. Olho para as sondagens e é inevitável pensar que existe uma elevada possibilidade de das eleições de Maio próximo não sair nada de muito diferente do que existia - o que quer dizer que a instabilidade continuará. Com este comportamento, como se sentirão os eleitores, qual será o peso da abstenção? Cada vez é mais difícil ver uma luz ao fundo do túnel.

abril 04, 2025

UM PAÍS COMPROMETIDO

 


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UMA ENTREVISTA INCONTORNÁVEL - No  meio do imenso ruído dos comentários e da ocupação do espaço mediático a entrevista de António Barreto ao “Diário Notícias”, na semana passada, passou quase despercebida. E no entanto é das mais importantes e lúcidas análises do estado da sociedade, do funcionamento das instituições e do comportamento dos partidos. Barreto recorda alguns dados importantes sobre eleições recentes e os valores da abstenção, que já atingiram 45% nas autárquicas, 50% nas legislativas e 60% nas presidenciais, e sublinha que, nestas condições, é uma minoria de cidadãos e uma minoria de eleitores quem governa e decide sobre o país, enquanto a maioria dos cidadãos se desinteressa da política e democracia. Por outro lado, sublinha António Barreto, “os partidos, tal como os conhecemos há décadas, estão desajustados. Parecem ser apenas apreciados pelos seus membros. Quanto ao resto da população, são vistos como parasitas. Convém não esquecer que mais de 90% dos cidadãos e dos eleitores não são membros de partidos. As imagens e as percepções são eloquentes. Antes, eram as vanguardas ou as elites. Hoje são os oportunistas, os que não querem trabalhar, os que vivem à custa dos contribuintes.” Sobre as próximas eleições, António Barreto defende um governo de coligação nacional, com os dois maiores partidos, com um programa escrito, assinado e com validade para quatro anos“ e admite que gostaria “que aumentasse a força eleitoral da Iniciativa Liberal. Termino, citando o que António Barreto disse nessa entrevista sobre a justiça: “A legislação sobre a justiça é malfeita, complicada, obscura, pensada para agradar ora uns corpos profissionais, ora outros. Mas não tenhamos dúvidas: as culpas do mau estado em que se encontra a Justiça pertencem a ambos os lados, aos seus profissionais e aos políticos e legisladores. Tem-se a impressão de que a Justiça portuguesa evitou e resistiu à democracia.” 


 


SEMANADA - O jogo ilegal online lesa o Estado em quase 250 milhões de euros; as apostas desportivas dão apoio de 70 mihões de euros ao desporto e as federações que mais recebem são as do futebol, ténis, basquetebol e desportos de inverno; no ano passado 28 recém-nascidos ficaram retidos na maternidade Alfredo da Costa em Lisboa por não terem casa para onde ir; em quatro distritos do interior uma em cada três escolas públicas do primeiro ciclo tem menos de 20 crianças;  o preço das rendas de casa aumentou em 93% dos concelhos nacionais, subiu mais de 20% em 30 municípios e teve um aumento médio de 10,5% em todo o país; no ano passado foram reportados 543 crimes de violação, numero que compara com 494 em 2023; quase 9% dos arguidos por violação na última década são menores; em 2024 verificou-se um aumento de 30% no número de candidatos às Forças Armadas; depois de um recuo em 2023, a carga fiscal em Portugal registou durante o ano passado uma subida para 35,7% do PIB; os impostos directos, que incluem o IRS e o IRC, cresceram 3,5%, tendo os impostos indirectos, que incluem impostos como o IVA ou o ISP, subiram 7,2%, acima do ritmo de crescimento da economia; 40% dos desempregados não recebem subsídio.


 


O ARCO DA VELHA - Um homem criou um perfil falso no Tinder e marcava encontros com várias pessoas, sempre no mesmo café, e desmarcava os encontros quando as pessoas lá estavam há uma hora e já tinham consumido. Depois de recebida a desmarcação, pagavam e iam embora. O homem era o dono do café, algures no norte de Portugal, reportou a CMTV.


 


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UMA GUERRA DIFERENTE - Esta é a história de um homem que ajudou a vencer uma guerra e que perdeu um combate pelo seu direito a viver como queria. Trata-se da história de Alan Turing – o famoso criptologista que decifrou o código da Máquina Enigma e, com isso, permitiu descodificar as mensagens dos alemães e conduziu os Aliados à vitória no final da Segunda Guerra. Apesar de ter contribuído de forma ativa para o desfecho da guerra na Europa, Alan Turing foi perseguido pela sua homossexualidade, submetido a castração química e inúmeras sessões de psiquiatria que o conduziram a grandes transformações físicas e mentais e à sua morte prematura, com pouco mais de quarenta anos, apontada como provável suicídio. É esta a história que o britânico Will Eaves nos conta no livro “Murmúrio”. Escrito em forma de diário e de cartas, “Murmúrio” relata, na primeira pessoa, o período que se seguiu à prisão, julgamento e condenação do célebre matemático, precursor da revolução tecnológica e da inteligência artificial. Alec Pryor, protagonista e narrador, inspirado na figura de Alan Turing nas cartas à amiga June ou nas anotações pessoais que redige, conduz-nos através do pensamento do matemático e da análise que faz da natureza da consciência humana, com considerações também sobre a inteligência artificial. O livro é uma viagem aos bastidores do seu castigo e o caminho de vergonha e exclusão que percorre, com enorme dignidade e aceitação.  Edição Quetzal.


 


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SILHUETAS DE PRAIA -   “Entre Dois Grãos de Areia” é o título da nova exposição de José Luís Neto, patente da Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B), até 24 de Maio. José Luís Neto estudou fotografia no ARCO e depois no Royal College of Art, de Londres e, como refere na sua biografia,tem desenvolvido um trabalho de investigação sobre a apropriação da imagem e os processos e dispositivos de registo da imagem fotográfica. Começou a expôr no início dos anos 90 e ao longo da sua carreira tem explorado a investigação da linguagem e natureza da fotografia. O seu trabalho baseia-se frequentemente na manipulação de imagens de arquivos fotográficos e até de fotografias que encontra na rua. Por vezes manipula as imagens, alterando cores e formas, prefere modificar a realidade a reproduzi-la. Nesta exposição “entre dois grãos de areia”, uma frase de Clarice Lispector, expõe 14 fotografias feitas ao longo de um período alargado de tempo e que têm em comum seram imagens de pessoas fotografadas em praias, transformadas em silhuetas anónimas que por vezes pouco mais são que manchas da forma humana. Como o texto de Filipe Pinto que acompanha a exposição sublinha, as silhuetas são uma interrupção na paisagem e situam-se no estreito limiar entre o que é conhecido e o que é irreconhecível. No YouTube está uma conversa de 15 minutos com o galerista Miguel Nabinho precisamente sobre esta exposição - pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=biTyTP3XfL4


 


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ROTEIRO - O primeiro destaque da semana vai para a exposição de Sebastião Casanova na Galeria Pedro Oliveira (Calçada de Monchique 3, Porto). Esta exposição, “Ma mort sera petite, comme moi” (na imagem),  é  apresentada como uma celebração da vida, do desejo, do prazer. Oscar Faria, que comissariou a exposição, afirma que a pintura de Sebastião Casanova é um alimento para o espírito e sublinha que o artista serve refeições visuais ao espectador. Em Lisboa, na Underdogs (Rua Fernando Palha, Armazém 56), o artista português Vhils  convidou o artista francês JR  e do convite resultou a exposição “Through My Window”, que mostra 36 litografias de grande formato e estará patente  até 19 de Abril. Na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho) quatro fotógrafos (Fernando Penin Redondo, Fernando Ricardo, Francisco Prata e Marc Sarkis Gulbenkian ) expõem até 3 de Maio imagens de África. Na SNBA (Rua Barata Salgueiro 36) , até 26 de Abril Kenton Thatcher apresenta até 26 de Abril retratos feitos ao longo dos últimos 30 anos de artistas, escritores, personalidades desportivas e políticos. Por último na Galeria Imago  (Rua do Vale de Santo António 50C), está até 3 de Maio a exposição  “Fragmentos de Mim - ou a visibilidade do fotógrafo”, uma colectiva com trabalhos de 22 fotógrafos (entre os quais eu próprio, aviso já) que abordam a auto-representação, num desafio feito pela Associação Cultural CC11 e António Pedrosa, que seleccionou os trabalhos.


 


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O REGRESSO DE BRYAN FERRY - Já se passaram 53 anos desde que os Roxy Music fizeram o seu revolucionário disco de estreia e que o seu vocalista, Bryan Ferry, se tornou notado. Ferry, quase com 80 anos, seguiu uma longa carreira a solo mas há 11 anos que não editava nenhum disco até surgir este  “Loose Talk”, agora publicado. Trata-se de um disco feito em conjunto com Amelia Barratt, uma artista plástica, escritora e performer. É a primeira vez que Ferry faz música para palavras escritas por outra pessoa e o projecto começou quando Ferry e Barratt se encontraram na inauguração de uma exposição e  decidiram trabalhar em conjunto. Ferry foi ao seu arquivo buscar composições instrumentais, inéditas, que foi fazendo ao longo dos anos e voltou a estúdio para as trabalhar, em colaboração com Paul Thompson, que foi baterista dos Roxy Music e com quem trabalhou ao longo dos anos. Amelia Barratt foi recebendo os temas musicais e escreveu onze histórias ficcionadas, na realidade pequenos contos, micro-ficções. Barratt diz essas histórias com uma voz neutra. Tudo é minimalista - a composição, os arranjos, a colocação da voz como se fossem monólogos em dueto. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - A Albuquerque Foundation abriu as portas perto de Sintra em Fevereiro deste ano e alberga a importante colecção de cerâmica imperial chinesa do coleccionador brasileiro Renato de Albuquerque e é dirigida pela sua neta, Mariana Teixeira de Carvalho. A  programação conjuga mostras de longa duração das peças da Coleção Albuquerque de Cerâmica Chinesa e exposições de artistas contemporâneos que atuam no campo da cerâmica. A Albuquerque Foundation fica localizada na antiga Quinta de São João, que foi recuperada e ampliada para acolher o conjunto de atividades e que conta com uma biblioteca especializada, o acervo da Coleção Albuquerque, uma loja que expõe e comercializa obras de ceramistas portugueses, e um café com terraço com uma vista para a paisagem de Sintra. Rua António dos Reis 189, aberto de terça a domingo entre as 10 e as 18h.


 


DIXIT  - “O voto no PSD muda caras, mas não muda mais nada. Por vezes, mudar caras é suficiente. Mas Portugal está numa situação em que precisa de um pouco mais e em que até pode ter um pouco mais.” - Rui Ramos


 


BACK TO BASICS -  “O sistema eleitoral português é construído não a partir das necessidades do sistema democrático, mas foi feito pelas necessidades dos próprios partidos” - Marcelo Rebelo de Sousa, na sua tese de doutoramento.


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 




março 29, 2025

UM CAIXOTE DE LIXO CHEIO DE VOTOS

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O Bucha e o Estica ficaram assim, petrificados,  quando souberam que em Portugal vai haver novas eleições para escolher Governo, depois de apenas um ano de existência do actual e sem se perceber bem como isto aconteceu. Mais perplexos ficaram ainda quando perceberam que, assim,  nos próximos nove meses, o país vai ter três eleições - para o Parlamento, as autarquias e a Presidência da República. Três eleições - três - sem que, apesar de muitos apelos e estudos, tenha ocorrido nenhuma alteração da lei eleitoral, a qual, pelo modelo escolhido há meio século, provocou o desperdício de milhões de votos ao longo dos anos e deitou para o lixo mais de 670 mil votos só nas últimas legislativas - ou seja centenas de milhar de eleitores cuja opção não se reflectiu na composição do Parlamento. No fundo, com este sistema, há eleitores de segunda cujo voto não serve para nada, fora dos grandes centros, e outros, urbanos, que são os que contam.. Com o sistema actual os distritos de Lisboa e Porto elegem mais de um terço do total dos deputados e em outros círculos eleitorais, mais pequenos, do interior, que apenas elegem dois três ou quatro deputados, há muitos votos que não se traduzem em mandatos. A principal razão pela qual a Lei Eleitoral não é revista - apesar de existirem várias propostas que garantiriam maior representatividade dos votos expressos - é porque assim os maiores partidos garantem a continuidade do seu monopólio de poder, perpetuando a ineficácia de que têm dado mostras nos últimos anos. No fundo há também votos desperdiçados em quem os tem eleito, confiando que poderiam trabalhar para fazer reformas que tornassem o país melhor. Puro engano, como temos visto.


 


(Publicado originalmente às sextas feiras em SAPO.PT)