abril 24, 2025

REFRESCAR A MEMÓRIA, REVER A REALIDADE

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OS PARADOXOS DA RTP - Sugiro que nos dias 25 e 26 de Abril vejam o novo documentário de António Barreto, “Rumo à Liberdade”, que está dividido em duas partes e que será emitido na RTP Memória nesses dias. O documentário mostra a visão de Barreto sobre o balanço do que aconteceu desde o 25 de Abril de 1974, uma ideia incómoda para muita gente que entende que “falta cumprir Abril”. António Barreto é claro sobre essa ideia: “É uma tolice absoluta. O que Abril tinha para dar está dado: democracia, liberdade, libertação dos presos políticos… tudo o resto é o processo social normal, são as nossas escolhas.” Esta ideia atrapalha muita gente, sobretudo à esquerda do PS, no Livre, no Bloco de Esquerda e no PCP. Dito isto convém elogiar o trabalho de dois quadros da RTP que permitiram, com o seu trabalho num caso, e a sua decisão noutro, que o documentário existisse: António Faria, um especialista na pesquisa dos arquivos da RTP desencantou as imagens que constituíram o alicerce do trabalho depois desenvolvido por António Barreto; e Gonçalo Madaíl, porventura o mais ousado e criativo dos responsáveis de programas da RTP, convidou António Barreto a fazer o documentário e encomendou-o, assumindo os custos da produção no magro orçamento do canal que dirige, o RTP Memória. Aqui começa outra história. Se a RTP fosse uma empresa onde as produções fossem coordenadas e não existisse uma guerra de capelinhas, a pesquisa de António Faria e a visão de Gonçalo Madaíl seriam utilizadas para dar outra difusão à peça mais importante que a RTP tem para transmitir em mais este aniversário do 25 de Abril. Mas não, o documentário será estreado na RTP Memória, claro que ficará disponível na plataforma digital RTP Play e será transmitido, obviamente em data ainda não decidida, nessa aberração de programação  que é a RTP3, que já é o menos visto de todos os canais informativos nacionais. Deixem-me enquadrar a coisa: a RTP produziu um documentário que dá uma nova visão, politicamente incómoda para alguns, e vai estreá-lo num canal que praticamente não tem audiências, a RTP Memória: 0,1% de share médio de audiência desde o início do ano. O perfil demográfico do canal indica que ele é visto por 12% de pessoas abaixo dos 54 anos, precisamente aqueles que mais tinham a ganhar em conhecer a tese de Barreto sobre o 25 de Abril, por cerca de 50% entre os 55 e os 74 anos e os restantes 38% acima dos 75 anos. Acham que isto faz sentido? Os segmentos etários que mais tinham a ganhar em saber o que aconteceu estão longe do canal onde vai ser exibido. Será isto serviço público de televisão?


 


SEMANADA - Desde 2006 as parcerias de universidades portuguesas com universidades norte-americanas, agora postas em causa pela administração Trump, já implicaram gastos para Portugal de mais de 300 milhões de euros “num processo deficientemente avaliado”, segundo o Professor  Carlos Fiolhais; em Março os portugueses fizeram mais  de 14 milhões de downloads de podcasts, uma média de 3,4 milhões por semana, o que significa um aumento de 10,9%face ao mês anterior, indica a Marktest; em 2024, segundo o Estado Maior General das Forças Armadas,  9.843 jovens candidataram-se às Forças Armadas portuguesas, um aumento de 23,8% face a 2023; em março 2342 pessoas continuavam internadas no Serviço Nacional de Saúde por falta de sítio para onde irem, mais 8% do que no ano passado e, em média, ficam nos hospitais cinco meses após a alta clínica;  maus tratos ou discriminação afectam 44% das crianças com necessidades específicas; segundo a APAV registaram-se 5100 crimes sexuais contra menores nos últimos três anos, um aumento de 48% nesse período; o fime “Minecraft”, baseado no jogo com o mesmo nome, já teve cerca de 300 mil espectadores em Portugal em pouco mais que duas semanas; em 2024 registaram-se 600 vítimas mortais em acidentes rodoviários, das quais 100 em atropelamentos; em 2024 os autocarros da Carris, em Lisboa circularam à mais baixa velocidade de sempre, 13,71 khs/h e as interrupções por estacionamento indevido aumentaram 21,2%.


 


O ARCO DA VELHA - No recente  congresso do Livre um militante sugeriu dar cidadania portuguesa a todos os bebés nascidos em Olivença.


 


4. Jeff Wall After Invisible Man by Ralph Ellison


PARA ALÉM DA REALIDADE -   O MAAT apresenta, pela primeira vez em Portugal, uma exposição do fotógrafo norte-americano Jeff Wall, com 63 das suas obras, realizadas entre 1980 e 2023 e que ocupam totalmente o espaço MAAT Gallery. Jeff Wall, actualmente com 78 anos, foi o precursor daquilo que ele próprio intitulou como “cinematografia”: ele procura reproduzir cenas quotidianas mas também situações imaginárias construídas em estúdio num processo laborioso e que envolve uma equipa considerável, desde iluminadores a cenógrafos, passando por figurinistas. De certa forma Wall vai buscar a sua ideia de fotografia ao cinema, mas  usando actores não profissionais que recriam cenas do quotidiano em cenários minuciosamente concebidos. Ao longo dos tempos a fotografia tem sido utilizada para mostrar instantâneos e a realidade, ou para servir de suporte à captação de imagens encenadas ou totalmente criadas expressamente para serem fotografadas, como as que estão nesta exposição. Jeff Wall é um dos fotógrafos cuja obra tem sido mais exposta internacionalmente e cujos preços de venda em leilão atingem maiores valores. Ao mesmo tempo que imaginava estas imagens Wall fez também fotografia documental e, a partir dos anos 90, trabalhou igualmente com preto e branco, além das fotografias coloridas, em transparências retroiluminadas ou impressas em papel, sempre em grandes dimensões, como esta aqui reproduzida,  e que na exposição é apresentada como uma transparência montada numa caixa de luz de 174x257 cms. A obra de Jeff Wall obriga-nos a repensar o que é a fotografia, quais os seus limites e possibilidades enquanto ferramenta criativa, que não tem de se cingir à realidade. Esta exposição do MAAT, “Jeff Wall. Time Stands Still. Fotografias, 1980–2023”, é comissariada por Sérgio Mah e pode ser visitada até 1 de Setembro.


 


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ROTEIRO - O Arquivo Ephemera e a Câmara Municipal do Porto apresentam até 30 de Junho, nos Paços do Concelho da cidade, a exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia Portuguesa”. O grosso dos materiais expostos são do espólio de Francisco Sá Carneiro, mas também dos espólios de Nuno Rodrigues dos Santos, Vítor Crespo, Mário Brochado Coelho e dos acervos e colecções de Conceição Monteiro, do Arquivo Ephemera, e de muitos militantes do PPD/PSD. Ali são apresentados em conjunto, pela primeira vez, centenas de documentos, manuscritos, fotografias, imagens, objectos, correspondência, livros, e periódicos que permitem compreender o papel de Sá Carneiro na luta pela democracia e na definição das bases programáticas do PPD. Outra exposição a não perder está até 31 de Maio na Sociedade Nacional de Belas Artes “Bonecos Para o Povo” que apresenta material relacionado com o trabalho gráfico de João Abel Manta nos anos de 1974 e 1975, e também ao longo de diversas fases da sua carreira, incluindo vários trabalhos nunca expostos. João Abel Manta teve sempre uma importante colaboração com a imprensa e orgulhava-se de os quiosques de jornais com os seus desenhos nas primeiras páginas e os muros e paredes com os cartazes que fez, serem o local onde o seu trabalho podia ser visto. 


 


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HAVERÁ VIDA FORA DA TERRA? - “Neste livro acompanho o leitor numa viagem excitante e surpreendente em busca da vida no cosmos” - é assim que nas palavras da própria autora, a geofísica Lisa Kaltenegger, é apresentado “À Descoberta pela Vida no Cosmos”. Segundo ela este é um guia para saber “o que os cientistas estão a aprender acerca da história do nosso planeta e da sua surpreendente biosfera” mas também a investigação sobre a possibilidade de vida noutros planetas. “ Os meus dias são passados a tentar perceber como encontrar vida em mundos extraterrestres, em colaboração com equipas de cientistas tenazes”, conta. A autora explica como ela e a sua equipa procuram vida no cosmos, qual o limiar do conhecimento, o que é a definição de vida. Com  uma escrita clara a autora discute os melhores candidatos a planetas habitáveis e mostra-nos como a ficção científica se aproxima cada vez mais da realidade. Lisa Kaltenegger é astrofísica e diretora fundadora do Instituto Carl Sagan, na Universidade de Cornell. O livro é editado pela Casa das Letras.


 


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A GUITARRA VAGABUNDA - A minha banda sonora desta semana tem sido “Dissidente”, o novo disco do guitarrista Tó Trips que com Pedro Gonçalves  moldou o som dos Dead Combo. Agora a sua guitarra é acompanhada pela bateria de Alexandre Frazão, o contrabaixo  de António Quintino e o violoncelo de Helena Espvall. Mas, como sempre, o que se evidencia, nos quase 50 minutos e 18 temas deste novo disco, é a sonoridade muito especial que Tó Trips consegue extrair da sua guitarra, percorrendo composições originais, muitas vezes inspiradas em tangos, fados ou mornas. É uma música quente, frequentemente visceral, com um ritmo contagiante. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Até 9 de Junho quem fôr a Amsterdão poderá ver a maior exposição de sempre de um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos, o escultor e pintor alemão Anselm Kiefer. Intitulada Sag mir wo die Blumen sind“ (Diz-me onde é que estão as flores) a exposição está no  Stedelijk Museum Amsterdam, que cedo começou a comprar obras de Kiefer, ajudando-o a ganhar notoriedade, uma colecção que agora é  apresentada em conjunto pela primeira vez, ao lado de outras obras provenientes de diversos empréstimos e de novos trabalhos de Kiefer feitos propositadamente para o Museu e para esta mostra. A exposição prolonga-se pelo vizinho Museu Van Gogh, um artista que Kiefer refere como uma das inspirações para a sua obra e, ali, algumas das mais célebres obras de Van Gogh são apresentadas ao lado de pinturas de Kiefer.


 


DIXIT  -  “Dispensamos demagogia e sonhos de um amanhã luminoso e de grande prosperidade quando o que cada um de nós prevê são dias cheios de dificuldades e de problemas, alguns dos quais nem temos dados para poder formular” -  Eduardo Marçal Grilo, sobre a campanha eleitoral em curso



BACK TO BASICS -  “Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação” -  Fernando Pessoa 


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS