janeiro 26, 2024

SÃO MAGRAS AS AUDIÊNCIAS ELEITORAIS...

 


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TV POLÍTICA - A campanha eleitoral oficial ainda não começou e já tivemos três fins de semana de comícios, maquilhados de Congressos e Convenções convenientemente agendados para captar tempo de antena. Primeiro foi o PS, depois veio o Chega e por fim a AD, já para não falar de iniciativas menores de outros partidos parlamentares - desde os queixumes à la Calimero de Rui Tavares sobre a falta de atenção que lhe é dada, até aos malabarismos oratórios de outro Rui, o Rocha,  da nova IL. A seguir, já no período de campanha,  vamos ter cerca de três dezenas e meia de debates em vários canais de televisão. E, claro, teremos todos os dias comentadores, analistas, oráculos de raças diversas que farão a análise de tudo o que se passou, nos mesmos canais, repetindo-se em círculo vicioso como se analisassem um jogo de futebol. É um país a falar para o umbigo, fechado no universo da política, cada vez mais distante das pessoas. Por curiosidade andei a seguir como tinha sido o comportamento das audiências das televisões nos canais de cabo que maior acompanhamento fizeram das reuniões do PS, Chega e AD, muitas vezes com transmissões quase integrais desses eventos. Olhando para os números verifica-se que nenhum deles conseguiu audiências significativas e, nalguns casos, até ficaram abaixo dos resultados da programação habitual que tinham nos mesmos horários em fins de semana anteriores. Num panorama de  queda progressiva de audiências dos canais generalistas (SIC, TVI e RTP1) será curioso ver como esta avalanche de debates e comentários impacta , ou não, nos valores da abstenção e na evolução das tendências de voto. Já agora, o programa de televisão mais visto da semana passada foi “O Preço Certo”, de Fernando Mendes. 


 


SEMANADA - Em 2023 passaram pelo terminal de cruzeiros de Lisboa 758.328 passageiros, mais 54% do que no ano anterior; o cabaz de alimentos estudado pela DECO sofreu um aumento de 28% em dois anos, superando em 16 pontos a soma dos aumentos das taxas de inflação no mesmo período; o número de casos de doenças sexualmente transmissíveis está acima dos valores pré pandemia, nomeadamente a sífilis que aumentou 125% em três anos; no ano passado foram concedidos mais de dois mil milhões de euros de empréstimos para compras de carros usados, o maior valor de sempre; a produção intensiva de fruta e hortícolas em Alcácer do Sal já ocupa três mil hectares e usa água de 130 furos, ameaçando os recursos hídricos da região; a venda de casas caíu 17% em 2023; em doze meses de liderança de Rui Rocha a Iniciativa Liberal perdeu mais de 40 membros por divergências ideológicas, acusações de nepotismo e de falta de democracia; só 0,7% dos alunos do 5º ano sabem identificar um mapa da Península Ibérica; a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica perdeu 122 mil alunos no espaço de uma década; o número de desempregados subiu em Dezembro para 317.659 pessoas; no ano passado a Ordem dos Enfermeiros recebeu 1689 pedidos para emigrar, mais 527 do que no ano anterior, um aumento de 45%; ao longo de 2023 inscreveram-se nos centros de emprego 562 mil pessoas, num aumento de 10% em relação ao ano anterior.


 


O ARCO DA VELHA - Nas eleições de há 50 anos houve 500 mil abstenções, há 20 anos um pouco mais de três milhões e, há dois anos, perto de cinco milhões e meio.


 


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A DERROTA DOS FRANCESES - Vale sempre a pena recordar a História, neste caso as invasões francesas. E aqui está um livro mesmo bom para ler nestes tempos em que assistimos a uma nova, e por vezes desagradável, invasão francesa em algumas das nossas cidades. "Mapa Cor de Sangue", do jornalista Rui Cardoso, é uma obra sobre as lutas e tragédias vividas em Portugal no tempo das Invasões Francesas e mostra o retrato sangrento de uma época. O livro faz uma pormenorizada descrição da forma como decorreram, do ponto de vista militar, as três invasões e ajuda a compreender os movimentos das tropas em confronto. Rui Cardoso, que já anteriormente escrevera sobre as invasões francesas, salienta que “massacres como os ocorridos em Leiria, Évora e tantos outros locais estão perfeitamente documentados e não podem ser esquecidos. Pelos critérios de hoje seriam considerados genocidas e violadores dos mais elementares direitos humanos”.  Os invasores franceses fizeram reféns, executaram sumariamente guerrilheiros , saquearam localidades e cometeram horrores por onde passaram. A coisa não ficou, felizmente, sem resposta, mesmo sabendo que quem ousou rebelar-se contra os franceses seria punido. Os habitantes de Vila Viçosa, Rio Maior, Alpedrinha e Régua são brutalmente castigados pelos soldados de Napoleão, mas nada se compara aos massacres cometidos pelos franceses em Leiria e Beja. Em São João da Madeira, a retaliação pela morte de um oficial francês leva à execução de um em cada cinco homens e rapazes da Arrifana. Há duzentos anos por três vezes os generais de Napoleão invadiram Portugal e por três vezes os franceses foram derrotados pelos portugueses, com o auxílio dos nossos aliados ingleses. Às vezes é bom recordar como resistimos e vencemos os invasores. “Mapa Cor de Sangue”, de Rui Cardoso, edição Oficina do Livro.


 


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OUTRO FADO - O Estado, esse polvo sufocante, tem falta de memória e esqueceu-se das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões. Mas a fadista Lina (Lina Cardoso Rodrigues) é um dos expoentes da nova geração desse género musical e não se esqueceu e revisitou a lírica camoniana, com recurso a composições tradicionais do Fado. Na tarefa foi ajudada por Amélia Muge e sem pruridos recorreu aos talentos de Justin Adams, um produtor que já trabalhou com Brian Eno e vários nomes da World Music. A seu lado, musicalmente, estiveram Pedro Viana (guitarra portuguesa), John Baggott (teclas) e Ianina Khmelik (violino). Ou seja, Lina ousou a heresia de navegar fora de águas conhecidas e lançou-se à aventura, tal como Camões. E foi muito bem sucedida no cruzamento da lírica camoniana com a estrutura dos fados tradicionais. Para “Fado Camões”, o seu quarto disco, Lina e Amélia Muge escolheram, entre as melodias tradicionais, as que mais se coadunam aos temas dos poemas. O início faz-se com “Desamor”  e logo aí se percebe que estamos num patamar pouco habitual - do ponto de vista musical mas também vocal. São 12 poemas de Camões onde a guitarra coexiste com teclados, caixas de ritmo, guitarra eléctrica ou violino até ao final com “Pois Meus Olhos Não Cansam de Chorar”. Lina, que cantou no Círculo Portuense de Ópera e estudou canto no Conservatório do Porto,  estreou-se como compositora neste álbum e musicou dois dos poemas. Canta com uma voz limpa e intensa, emotiva sem ser piegas. Um grande disco, disponível em streaming.


 


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O FASCÍNIO DO ORIENTE -  Albano da Silva Pereira foi o criador dos Encontros de Fotografia de Coimbra, é ele próprio um fotógrafo reconhecido, um eterno viajante e um coleccionador compulsivo. “Netsuke”, é  exposição que preparava há anos e que está agora patente no Pavilhão Branco, das Galerias Municipais de Lisboa, com curadoria de Sara Antónia Matos, até 31 de Março. É a exposição de uma vida, que junta a obra fotográfica de Albano da Silva Pereira, as suas incursões no cinema (foi assistente de Manoel de Oliveira) e a sua colecção de objetos e talismãs provenientes da cultura japonesa. Inclui também uma alusão às referências principais do cinema japonês, da escrita e da estampa japonesa. O nome da exposição, netsuke,  evoca uma pequena cavilha entalhada ou esculpida, criada no Japão no século XVII, para prender pequenas bolsas aos quimonos. A construção da exposição baseia-se em dois eixos, que se cruzam entre si: o coleccionador e o artista. Do primeiro resulta a colecção de objectos, raros e preciosos da cultura japonesa e do segundo provém um conjunto de imagens em fotografia e filme que decorrem das viagens do autor ao Japão. As fotografias incluem imagens das ruas de Kyoto, Tóquio ou Hiroshima, mas também de objectos e uma série feita no tradicional Imperial Hotel. A exposição começa e encerra com  auto-retratos do artista, feitos na sequência de um acidente de moto, série a que deu o nome “Still Alive”. Outro destaque vai para  a exposição “Uncertain Smile - Auto Retratos e Paisagem”, que recolhe pintura e desenho de Miguel Navas, que pode ser vista até 17 de Fevereiro na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101). Além de cerca de uma dezena de pinturas que nos fazem percorrer o universo que Navas vai descobrindo, há uma parede repleta de desenhos, todos eles auto-retratos, que por vezes surpreendem e por vezes inquietam.


 


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UM EXEMPLO - Maria da Graça Dias Coelho Carmona e Costa, que desapareceu esta semana aos 91 anos, é um raro exemplo do que pode ser a actuação empenhada da sociedade civil em prol da cultura. Fundadora e Presidente da Fundação Victor e Graça Carmona e Costa, foi, apesar das limitações da Lei do Mecenato, uma mecenas activa e conhecedora que gostava de falar e estar com os artistas, que apoiou exposições, projectos, patrocinou catálogos e livros. Foi galerista, coleccionadora, amiga. O desenho era a sua paixão, mas foi sempre observadora informada e atenta da produção artística contemporânea nos seus vários géneros. Ajudou o início de carreiras, seguia de forma muito presente a produção dos artistas que acompanhou ao longo da vida, desde a Galeria Quadrum, onde trabalhou com Dulce d’Agro, depois na Giefarte, que criou, e mais tarde na Fundação e nas exposições que patrocinava em diversos locais. Ainda viu a sua coleção exposta, nomeadamente na Fundação a que presidia e no  MAAT, onde continua o seu “Álbum de Família “. Criou o BAC, Banco de Arte Contemporânea , que inicialmente financiou e que continua sem ter local condigno onde o espólio dos artistas possa ser preservado, estudado e mostrado em boas condições, como ela desejava. Infelizmente não o conseguiu ver a funcionar em pleno,  apesar de todo o esforço que fez. O sorriso da Maria da Graça a entrar numa nova exposição era único. É disso que me vou recordar.



DIXIT - “E tudo poderia ser tão diferente! Poderíamos ter, neste 10 de Março, uma verdadeira revolução dentro da democracia! Poderíamos ter 230 círculos eleitorais, cada um elegendo, por maioria absoluta, um só deputado. Este seria alguém já conhecido pela comunidade, ou que passaria a sê-lo depois da campanha e da eleição” - António Barreto, no Público.


 


BACK TO BASICS- “Toda a verdade passa por três fases: primeiro é apelidada de ridícula, depois é hostilizada e por fim é considerada uma evidência” - Arthur Schopenhauer




janeiro 19, 2024

ELEIÇÕES À VISTA, PANORAMA COMPLICADO

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O PROFISSIONAL - No seu comentário habitual aos domingos, na SIC, Marques Mendes, com base num estudo das sondagens realizadas no último mês, sublinhou o crescimento do Chega em Lisboa, Setúbal e Alentejo e afirmou que se o Chega tiver 15% ou mais dos votos a AD não ganha as eleições e será Pedro Nuno Santos a ser chamado a formar Governo. Não me espanto se isso acontecer. O Chega está a encarar estas eleições de forma diferente - como se viu na Convenção que realizou no fim de semana passado. No “Público” Bárbara Reis descreve assim o que se passou na Convenção: “Preparem-se: o Chega já não é só gritos e jantares, ao quinto ano de vida, o esforço para melhorar a imagem resultou. O discurso populista radical está intacto. Mas o embrulho é de maturidade.” A isto acresce a máquina de propaganda montada, de forma muito eficaz, e que promete fazer mossa na campanha eleitoral com videos de rua feitos propositadamente para a ocasião. Basta fazer uma pesquisa na internet para se perceber a capacidade de penetração do partido de André Ventura no mundo digital - tem cerca de 150 mil subscritores no Canal Chega do YouTube, uma presença assídua no TikTok, no Facebook e no Instagram, totalizando varias dezenas de milhares de seguidores. Não é exagero afirmar que hoje o Chega, nas várias plataformas digitais, incluindo a da sua organização de juventude é já provavelmente o partido mais activo e com maior penetração. O resultado está à vista - nas sondagens recentes o Chega é o partido mais nomeado por eleitores dos 18 aos 34 anos, à frente do PS e do PSD e Ventura é ele próprio o motor de toda a actividade de propaganda do Partido. E a verdade é que ele é melhor propagandista que qualquer dos seus rivais no Parlamento e aproveita qualquer oportunidade para se mostrar. Se aliarmos esta capacidade com a exploração da insatisfação de largas fatias do eleitorado percebemos qual a razão do crescimento do Chega. E, não é demais recordar, o êxito do Chega é o maior sintoma da degradação da política, da falência do sistema e do descrédito dos partidos. Foi isto que PS e PSD não quiseram perceber. 


 


SEMANADA - A maioria dos jovens portugueses passa quatro ou mais horas por dia ligados à internet; mais de 300 mil utentes inscritos no SNS já não vivem em Portugal; Portugal é o país da Europa com  mais emigração e nos últimos 20 anos 15% da população emigrou; o número de pessoas em lay-off duplicou em 2023; 30% dos jovens nascidos em Portugal já vivem fora do país, com os países baixos a cativar o maior número destes novos emigrantes qualificados; quase um terço das mulheres portuguesas em idade fértil saíu do país; 75 mil portugueses deixaram o país por ano, em média, entre 2001 e 2020, e 2023 foi o ano que registou maior número de saídas, cerca de 130 mil; 70 por cento dos novos  emigrantes, 850 mil pessoas, têm entre 15 e 19 anos; no princípio deste século, cerca de 6% dos nossos emigrantes tinham formação superior e actualmente, quase 50% dos que emigram têm um curso superior; as remessas dos emigrantes portugueses em 2021 atingiram os 3,6 mil milhões de euros, quase tanto como os fundos europeus que vem anualmente para o país; em 2023 foram criadas em Portugal cerca de 51 mil novas empresas, o registo mais elevado de sempre; segundo dados do BCE, a riqueza das famílias em Portugal aumentou 24% à valorização dos bens imóveis (+40%), já que a riqueza dos restantes ativos cresceu apenas 6%; segundo a Marktest cerca de sete milhões de portugueses ouvem rádio regularmente e a maior parte tem entre 35 e 44 anos; as salas de cinema acolheram 12,3 milhões de espectadores em 2023, o que representa um aumento de 27,8% face ao ano anterior.


 


O ARCO DA VELHA - O centro de alto rendimento desportivo no Jamor teve infestações de baratas e de percevejos e houve atletas que desmaiaram ou tiveram de ir ao hospital com intoxicações alimentares depois de terem comido no refeitório do local. 


 


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SÓ FOTOGRAFIA - Esta semana todo o destaque vai para a fotografia e começo por uma exposição que abriu na galeria Narrativa, “Jamaika” de José Sarmento de Matos (na imagem). A exposição mostra um trabalho feito ao longo de três anos que, sublinha o autor, “ parte da história do Bairro da Jamaica – uma comunidade no Seixal composta por cerca de 700 habitantes, frequentemente racializada e marginalizada –, contando a luta dos moradores por habitação condigna. O trabalho retrata, de um modo íntimo, a vida de uma comunidade composta maioritariamente por imigrantes de ex-colónias portuguesas – Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe – e por afro descendentes portugueses”. Na mesma ocasião foi lançado JAMAIKA,  o primeiro livro do autor, que reúne o trabalho efectuado por José Sarmento de Matos naquele bairro, também à venda na galeria (Rua Dr. Gama Barros 60). Também por iniciativa da Narrativa, em conjugação com o 5º Congresso dos Jornalistas,  está patente na Praça dos Restauradores até 15 de Fevereiro a exposição “Portugal Livre 1974-2024” que junta fotojornalistas de diferentes gerações - desde os que testemunharam e fotografaram o que se passou em 25 de Abril de 1974, até 14 novos fotógrafos nascidos após 1974 e que reflectem, em imagens, sobre o país democrático de hoje através das suas imagens. Em Setúbal, na Casa da Cultura, um outro fotojornalista, Luís Ramos, mostra até final de Fevereiro a exposição “Margem Sul”, que reúne o trabalho realizado ao longo de um ano em toda a zona que ficou conhecida por Margem Sul. São de José Teófilo Duarte, da Casa da Cultura de Setúbal, estas palavras: “Era o outro lado. O lado dos outros. Os do lado de lá. Percebia-se alguma distância, mas também compreensão. Do outro lado estavam os que não chegaram a este lado. Vieram de vários lados em busca de uma vida melhor. Este sítio onde viviam uns e outros era um sítio de lado nenhum.” E, finalmente, para encerrar as recomendações da semana, ainda na fotografia, destaque para “Terra Livre”, a exposição de Diogo Simões na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa (rua da Barroca 59), que resulta do trabalho entre o artista e os curadores Natxo Checa e António Júlio Duarte. Os trabalhos expostos foram realizados entre 2011 e 2020, também sempre na Margem Sul “repleta de contrastes que preservam os diálogos entre os ritmos do campo e os da urbanidade”.


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GUITARRADA - Uma das coisas boas de Janeiro é olhar para as diversas listas dos discos que são considerados os melhores dos anos anteriores. Foi assim que há dias descobri um duplo-álbum do guitarrista John Scofield que me tinha passado despercebido quando saíu em finais de Outubro passado - ora, ainda por cima, eu sou fã de discos de jazz em que a guitarra tem um papel predominante. O disco chama-se”Uncle John's Band”, uma referência a uma canção os Grateful Dead incluída neste disco, cheio de versões como “Mr. Tambourine Man” de Bob Dylan, “Old Man” de Neil Young, “Somewhere” de Leonard Bernstein, “Back In Time” de Huey Lewis & The News ou temas Bud Powell ou Miles Davis. Mas também poderá encontrar clássicos do jazz como “Ray’s Idea”, “How Deep Is The Ocean” ou “Stairway To The Stars”, além de sete originais do próprio Scofield. O título é também uma referência aos músicos presentes - além de Scofield, Vicente Archer no baixo e Bill Stewart na bateria, dois músicos com quem trabalha regularmente e que fazem um grande trabalho neste disco. O duplo álbum, que inclui ao todo 14 temas ao longo de hora e meia de boa música, foi gravado em Agosto de 2022 no Clubhouse Studio, de Nova Iorque e editado pela ECM. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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IR AO FUNDO DA HISTÓRIA - Michael Scott-Baumann estudou em Cambridge e depois fez um mestrado na School of Oriental and African Studies,em Londres. Professor de História há mais de 35 anos, fez frequentes viagens no Médio Oriente, cuja situação tem acompanhado. “A Mais Breve História de Israel e da Palestina é um livro que descreve o conflito israelo-palestiniano desde as suas origens, até aos mais recentes acontecimentos, de 2023. Muito documentado, o livro inclui uma cronologia que começa em 1882 com a primeira migração de judeus para a Palestina. Ao longo de dez capítulos o autor percorre as diversas etapas do conflito e relata os principais acontecimentos que ocorreram ao longo do tempo. Cada capítulo apresenta uma explicação das políticas implementadas e termina com testemunhos de palestinianos e israelitas cujas vidas foram marcadas pela violência contínua. Scott-Baumann  analisa também os principais acontecimentos, incluindo o papel dos britânicos após o fim da Primeira Guerra Mundial, o estabelecimento do Estado de Israel (1948) e a crescente ocupação de territórios, a resistência palestiniana, os extremismos e os diversos planos de paz, e até os atuais confrontos, desencadeados pelos ataques surpresa do Hamas a Israel, em outubro de 2023. Em resumo, o livro proporciona dados e uma análise histórica indispensável, assim como a interpretação do autor sobre  as razões pelas quais os esforços para alcançar a paz falham continuamente . Edição  Ideias de Ler, tradução de Artur Lopes Cardoso.


 


UM CLÁSSICO REVISITADO  - Aqui há uns anos Assunção Cristas ressuscitou essa velha tradição de desenrasca culinário que é arroz de atum. Hoje trago uma variante inspirada na receita de uma newsletter americana sobre receitas de cozinha que vejo com frequência. A base é a mesma - uma lata de atum e arroz já cozido. Vamos a isto. Em primeiro lugar escolha um bom atum em azeite, escorra bem,  coloque numa tigela e desfaça-o grosseiramente com um garfo. Adicione duas colheres de sopa de maionese, ajuda a ligar o atum, acrescente uma colher de óleo de sésamo e um pouco de molho de soja. Numa outra tigela coloque o arroz já cozido (eu usei basmati), espalhe-o bem para ficar solto e depois, por cima, coloque o atum. Para rematar espalhe sementes de sésamo previamente tostadas numa frigideira sem óleo e polvilhe tudo com cebolinho fresco acabado de cortar. Acompanhe com um copo de vinho branco seco. Para sobremesa fruta da época - laranjas fatiadas. Bom apetite.


 


DIXIT - “Já vi tantas eleições, que olho para estas e desânimo. Há uma sensação no ar de que nada ficará resolvido, de que tudo será inútil.” - Manuel Soares de Oliveira


 


BACK TO BASICS - “O burocrata perfeito é aquela pessoa que evita tomar qualquer decisão e assim consegue escapar a todas as responsabilidades” - Brooks Atkinson


 




janeiro 12, 2024

ELEIÇÕES À VISTA

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O PROMESSASEm meados de Novembro de 2022, Pedro Nuno Santos, então Ministro das Infraestruturas e da Habitação, apresentou o Plano Ferroviário Nacional, classificando-o como “o documento que faltava ao país”, que colocava a ferrovia “no centro do debate nacional”. E desde então, que se tem passado? Segundo a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes a coisa não tem melhorado. Num relatório publicado no final de 2023, aquele organismo chamava atenção para a deterioração do transporte ferroviário desde 2019 e concluía que há cada vez menos comboios e que estão cada vez mais atrasados. Os resultados do relatório não serão uma surpresa para os utentes de comboios. Mas são o espelho do que tem sido a carreira política de Pedro Nuno Santos: promete muito, concretiza pouco. No comício sob a forma de Congresso que o PS realizou no passado fim de semana, Pedro Nuno Santos, candidatando-se ao lugar de Primeiro-Ministro, apresentou um programa: quer um país solidário, ambicioso e acima da média europeia, se possível governado por uma nova geringonça. A imagem que traçou de Portugal esquece como os anos mais recentes de governação do PS relegaram Portugal para a cauda da Europa em vários indicadores, menos na carga fiscal, onde ocupa lugar destacado. Luciano Amaral, escrevendo sobre o panorama eleitoral, deixou estas palavras no “Correio da Manhã”, que aqui reproduzo com a devida vénia: “O PSD concorre contra um PS que esteve quase uma década no poder, no fim da qual o que consegue apresentar é uma degradação dos serviços públicos, da educação à saúde, pior do que no tempo da troika. Um PS que teve à disposição dinheiro da UE como nunca e o malbaratou. Que se afundou em casos, casinhos e casões revelando um uso do poder, no mínimo, pouco transparente. Que enterrou fortunas a brincar às privatizações e nacionalizações, como já se tinha visto no caso da TAP e se voltou a ver agora no dos CTT. A quem foi dada uma rara maioria absoluta e desperdiçou as condições de estabilidade auto-destruindo-se. Que continuou a deixar Portugal ser ultrapassado na riqueza por país de Leste atrás de país de Leste. Concorre até contra um candidato a PM que, apesar de se apresentar como pura vestal, esteve em tudo: aeroporto, TAP, CTT, os comboios que nunca saíram do apeadeiro, podendo até dizer-se que o Governo começou a cair por sua causa, no caso Alexandra Reis. Que isto tudo não dê uma deslocação maciça de votos para o PSD é algo que deveria pôr o PSD a pensar bem o que anda cá a fazer. Mas o povo, na sua infinita sabedoria, deve estar certo: de facto, é capaz de não haver por ali grande alternativa.”


 


SEMANADA - As insolvências em Portugal aumentaram 18% em 2023, face ao ano anterior, com 1.917 empresas a entrarem em processo de insolvência e o sector das indústrias foi o mais afetado, sendo responsável por mais de metade do aumento total registado no último ano; em 2023 foram inaugurados 60 novos hotéis em Portugal e haverá quase mais 100 a caminho até 2026; o número de passageiros nos aeroportos portugueses atingiu máximos históricos em 2023 e até setembro, movimentaram-se 52 milhões de pessoas em Porto, Lisboa e Faro, sendo este o melhor valor de sempre desde 2012; a riqueza média líquida das famílias portuguesas é a sexta mais baixa da Zona Euro, segundo os dados do Banco Central Europeu, está 30% abaixo da média da zona Euro e estamos apenas à frente da apenas à frente da Estónia, Eslováquia, Grécia, Lituânia e Letónia; as previsões oficiais apontam para que em 2024 se reformem 4705 professores, o número mais alto de aposentações desde 2012; segundo a Federação Nacional dos Médicos a “esmagadora maioria” das quatro centenas de médicos de Saúde Pública já recuaram a adesão à dedicação plena, o que vai agravar o funcionamento dos centros de saúde; entre janeiro e dezembro de 2023 houve um aumento de 154 841 utentes sem médico de família, fazendo crescer para 1,7 milhões o total de pessoas que não têm médico de família atribuído; nas duas ultimas semanas do ano ocorreram 1048 mortes acima do esperado e o diagnóstico elevado de infeções respiratórias pode estar na origem do excesso de mortalidade; as previsões oficiais apontam para que em 2024 se reformem 4705 professores, o número mais alto de aposentações desde 2012.


 


O ARCO DA VELHA - Segundo uma auditoria do Tribunal de Contas há um baixo nível de execução e pouca fiabilidade na informação disponibilizada pelo Governo sobre o Plano de Recuperação e Resiliência; no mesmo documento o TC  alerta para o risco da perda de fundos da UE se a situação persistir.


 


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ESCULTURA BRITÂNICA - Enquanto as galerias privadas não mostram a sua nova programação de início de ano proponho uma visita ao Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), no Chiado, à exposição “Rare Earth”, do escultor britânico Tony Cragg, que inclui cerca de cinco dezenas das suas obras, entre esculturas e desenho, criadas entre 1979 e 2023 Tony Cragg (Liverpool, 1949) é considerado  um dos mais inovadores escultores dos últimos 50 anos. Radicado na Alemanha desde 1977, tem o seu atelier em Wuppertal, de onde estabeleceu a base da sua carreira internacional que se desdobra entre o desenho e a escultura, tendo diversa obra pública em todo o mundo. A exposição “Rare Earth”, de Tony Cragg, traz, pela primeira vez, a Lisboa, um conjunto significativo de cerca de 5 dezenas de obras do artista, entre escultura e desenho, de 1979 a 2023, numa mostra reveladora da sua obra. Esta exposição, com curadoria de Emília Ferreira, resulta de uma parceria do MNAC com a Galeria Breckner e com o estúdio do artista, tendo sido concebida para o espaço do  museu e incluíu também a apresentação de obras no espaço público, em ligação com a Câmara Municipal de Lisboa.  A exposição  pode ser vista no MNAC, ao Chiado,  até 25 de Fevereiro.


 


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MÚSICA DAS RUAS - Moondog foi uma figura incontornável de Nova Iorque, em cujas ruas viveu durante 20 dos 30 anos passados na cidade, entre finais dos anos 40 até 1972. O seu verdadeiro nome era Louis  Hardin, nasceu no Kansas em 1916 e morreu na Alemanha em 1999 . Invisual desde o final da adolescência, usava roupas que ele próprio fazia, baseadas na tradição do deus nórdico Odin - daí ter ficado conhecido como o Viking da 6ª avenida, onde tocava as suas canções e recitava poesia. Foi a música que lhe deu mais visibilidade, além das peças de artesanato que criou e de instrumentos musicais que ele próprio concebeu e fez. Auto-didacta, Moondog compôs dezenas de canções de vários géneros musicais e até madrigais e sinfonias. Inspirava-se na música clássica, no jazz, na música nativa da América e nas músicas da América Latina e Índia. Acabou por se tornar uma lenda entre os músicos folk americanos e Janis Joplin chegou a interpretar uma das suas canções, “All is Loneliness”. Em 1969 a Columbia Records editou o seu primeiro disco, “Moondog”, disponível no Spotify. Nos anos 70 mudou-se para a Alemanha, onde viveu até à sua morte. O Kronos Quartet, que em 2023 completou 50 anos de existência, resolveu homenageá-lo com “Songs and Symphoniques, The Music of Moondog”, um álbum feito em colaboração com a Ghost Train Orchestra, de Brooklyn, que assegurou os arranjos dos 17 temas do disco. As vozes das canções são de Rufus Wainwright, Jarvis Cocker, Petra Haden e Joan Wasser, conhecida como Joan As Police Woman,  que interpretou o tema que havia sido gravado por Janis Joplin. O trabalho de todos tentou aproximar-se da composição original de Moondog, quer nos temas instrumentais quer nos cantados, e o resultado é um disco que mostra todo o talento desse homem que se passeava nas ruas de Manhattan com um capacete Viking e que era apenas tomado como um excêntrico. Disponível em streaming.





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BUENOS AIRES  - O meu primeiro livro do ano é uma viagem aos subúrbios de Buenos Aires, pela mão de Jorge Luis Borges. É nesses subúrbios que Borges evoca Evaristo Carriego, figura que frequentou a casa de seus pais, quando ele era ainda criança e não o grande escritor em que se tornou. Alguns anos depois da morte prematura de Carriego, aos 29 anos, Borges dedicou-lhe este livro, na realidade um estudo sobre a obra e o mundo, que se diz, ligado ao tango e à literatura dos bairros pobres da Argentina. Este livro mostra como Borges era um exímio escritor de contos e pequenas novelas, misturando a realidade com a ficção - como acontece neste caso.  Evaristo Carriego fez-se poeta no bairro de Palermo, nos arrabaldes de Buenos Aires, terreno de brigas e boémia de facas na liga, de milongas e tangos dançados por homens. Publicou, durante a sua curta vida, um único livro de poemas, “ Misas Herejes” (1908). Em 1932 Borges publicou esta história de Carriego, agora editada pela primeira vez em Portugal. Figura maior da literatura mundial, Jorge Luis Borges (Buenos Aires, 1899- Genebra ,1986) cresceu ele próprio no Bairro de Palermo, viajou na Europa entre 1914 e 1921, ano em que regressou a Buenos Aires, e em 1923 publicou o seu primeiro livro. O reconhecimento internacional só aconteceu em 1961, ao longo da sua vida escreveu ficção, crítica e ensaio. Foi professor de literatura e dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires entre 1955 e 1973. “Evaristo Carriego” foi editado pela Quetzal, com tradução de José Colaço Barreiros.





SOPA ITALIANA - Nestes dias frios deixo aqui uma receita que em Itália é um clássico desta época do ano - uma sopa de tortellinis em caldo de legumes. A preparação é simples, comece por um refogado leve em azeite com meia cebola roxa cortada em rodelas finas,  uma cenoura cortada em pedaços pequenos e um tomate maduro cortado em cubos com o seu sumo e duas colheres de sopa de pasta de tomate. Depois adicione meio litro de um caldo de legumes que preparou antes e espere que levante fervura. Quando estiver a ferver coloque um pacote de tortellini para duas pessoas, com o sabor que preferir (eu uso os da marca Rana e neste caso os de ricotta e espinafres ou o de cogumelos), e deixe-os cozer durante três minutos. Tempere a gosto com um pouco de vinagre balsâmico, sal e pimenta, adicione uma mão cheia de folhas de espinafre fresco,  sirva para uma tigela funda e junte queijo parmesão ralado na altura. Bom apetite, vai ver como é um prato reconfortante nestes dias frios.


 


DIXIT - “Parte da nossa esquerda abandonou a luta social em nome das modas fracturantes, deixando os milhões de portugueses pobres excluídos e explorados fora de moda “ - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “Justiça adiada é justiça negada” - William Gladstone





 




janeiro 05, 2024

2024. UM ANO CHEIO DE IMPREVISTOS

 


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CALEIDOSCÓPIO - Imagino-me a olhar por um óculo mágico para o fim de 2024. E que vejo eu? Uma grande confusão e instabilidade e, nos piores momentos, mais uma eleição a ser convocada depois do resultado das legislativas de Março ter descambado num impasse. Improvável? - Não tanto. Arriscamo-nos a ter um longo período sem Governo estabilizado, sem novo orçamento. Em muitos países, como na Bélgica ou em Itália, situações destas acontecem sem que daí venha mal ao mundo. Aqui, se suceder, vamos ver como as coisas correm. Talvez então alguém se lembre que, 50 anos depois do 25 de Abril, pode ser boa ideia adequar a Lei Eleitoral aos tempos actuais,  evitar  um desperdício de votos tão grande como tem acontecido - criando finalmente um círculo único de compensação que corrija as distorções do método de Hondt. Mas confesso que tenho dúvidas que os políticos de serviço, seja em qual dos grandes partidos estejam, se mostrem interessados em mudar alguma coisa de relevante. São retrógrados no pensamento político, presos de ideias feitas, gostam mais de olhar para o passado, do que encontrar caminhos para o futuro. Adoram romancear o que aconteceu e fogem de criar condições para mudanças e novas soluções. Da maneira que as coisas estão, arriscamo-nos a ter uma maioria de eleitores no centro direita e direita, mas um governo de esquerda, se fôr desse lado do espectro político que estiver o partido mais votado. Resultado: uma grande confusão! Tento ser optimista mas, por mais que me esforce, continuo a pensar que há qualquer coisa que não está a funcionar nesta democracia.





SEMANADA - A economia portuguesa está prestes a sair das 50 mais competitivas do mundo, sendo ultrapassada por países como o Cazaquistão, Peru ou Iraque; Portugal é dos que mais perde numa Europa que passará de mais de um terço do PIB mundial em 2008 para menos de um quinto em 2038; é esperado um aumento de 10% no preço dos bens iniciais no início deste novo ano; a área de produção de abacate em Portugal duplicou no espaço de uma década; segundo o INE em Portugal existem 450 mil filhos e netos de imigrantes, 18,5% da população tem background migratório e a grande maioria está há mais de dez anos em Portugal; em 2023 o SNS realizou 60.000 cirurgias por mês, o número mais alto desde 2013, mas as listas de espera continuam a aumentar; a psiquiatria é a especialidade com uma taxa mais alta de incumprimento de tempo de espera para utentes em todo o SNS; há 5400 casos de cancro do pulmão diagnosticados por ano em Portugal; no dia 26 de Dezembro mais de 26 mil pessoas recorreram às urgências, o número mais elevado do ano; durante a última semana de 2023 as filas de espera em alguns serviços de urgência do SNS ultrapassaram as 16 horas; no final do ano 59,1% dos espectadores seguiram canais de cabo e plataformas de streaming, em detrimento dos canais generalistas; durante a época das festas a GNR deteve 140 condutortes, 81 deles com excesso de álcool; em 2023 nasceram mais 2386 bebés que no ano anterior.


 


O ARCO DA VELHA - A dívida total das entidades do SNS aos fornecedores externos ultrapassava, em final de Outubro, os 2420 milhões de euros, dos quais quase 1576 milhões de euros eram dívida vencida e 771 milhões eram pagamentos em atraso há mais de 90 dias.


 


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A ARTE ANTIGA - Neste início de ano recomendo uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga, para ver “Identidades Partilhadas - Pintura Espanhola em Portugal”, que mostra obras de artistas espanhóis existentes no país em diversas colecções, algumas provenientes de ofertas diplomáticas, outras de patrocínio eclesiástico e ainda outras, mais recentes, de aquisições efetuadas por museus e entidades públicas e privadas. A exposição decorre até 30 de Março, tem curadoria de Joaquim Oliveira Caetano, director do Museu Nacional de Arte Antiga, e Benito Navarrete, professor de história de arte na Universidade Complutense. Esta exposição calha na mesma altura em que a obra convidada do MNAA é “O Bom Pastor” (na imagem) uma pintura de Bartolomé Esteban Murillo. Nascido em Sevilha, em 1617, Murillo foi um dos mais importantes nomes do Barroco espanhol e “O Bom Pastor” do Museu do Prado, obra da fase madura do pintor, é uma das expressões mais exemplares do encontro entre o sagrado e o humano que marcam o seu trabalho. Ainda no MNAA e até 3 de Março pode também ver “Vieira Lusitano - O mito e a alegoria” que agrupa desenhos e gravuras de Francisco Vieira de Matos, mais conhecido por Vieira Lusitano, o mais importante pintor português que atravessou o século XVIII. 


 


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DE NOVO O PIANO - O catálogo da ECM tem dado uma atenção especial a gravações de piano e surge agora o primeiro trabalho a solo do pianista israelita Nitai Hershkovits, “Call on the Old Wise”, que inclui 18 temas, a maior parte dos quais improvisados, com a excepção de dois temas, um de Molly Drake, “Dream Your Dreams” e  “Single Petal of a Rose” de Duke Ellington. O álbum foi gravado em Lugano em 2022, com produção do fundador da ECM, Manfred Eicher. Anteriormente Hershkovits  já tinha gravado para a editora dois discos com o quarteto de Oded Tzur, “Here Be Dragons” e “Isabela” e também com Avishai Cohen para a Blue Note. Em nenhum dos 18 temas  deste disco Nitai Hershkovits ultrapassa os quatro minutos de duração, sempre a explorar ideias e direcções diferentes sem se repetir. Nitai Hershkovits é um pianista de jazz com formação clássica, tendo sido aluno de Suzan Cohen. Esta dedicação ao jazz e à clássica é bem patente nos temas “intermezzo 4”, mais próximo da música clássica contemporânea, e a faixa título, “The Ol Wise”, onde é evidente o seu fascínio pela improvisação. Disponível em Portugal na FNAC e nas plataformas de streaming.


 


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UM LIVRO DE FOTOGRAFIA - Saul Leiter, que morreu em novembro do ano passado, a poucos dias de completar cem anos, foi um dos mais importantes fotógrafos norte-americanos e é considerado um dos pioneiros da fotografia a cores, suporte que começou a utilizar nos anos 40 do século passado. Foi a fotografia de moda, nomeadamente para a “Harper’s Bazaar”, que lhe deu fama e fortuna mas o trabalho solitário que fez percorrendo as ruas de Nova Iorque, nos anos 50 e 60 é um marco na sua carreira. Durante mais de 60 anos todos os dias pintava ou fotografava, criando uma imensa obra, muita da qual ficou inédita durante a maior parte da sua vida. Muitas vezes era nas vizinhanças do seu apartamento em Manhattan, nos quarteirões mais próximos, que descobria a beleza nos sítios mais vulgares. Na rua usava sobretudo kodachrome, em casa, em retratos íntimos, preferia o preto e branco, ao mesmo tempo que pintava aguarelas. No ano passado a Saul Leiter Foundation, em colaboração com a editora Thames & Hudson, publicou “Saul Leiter: The Centennial Retrospective”, um magnífico álbum, de mais de três centenas de páginas, que recolhe 340 fotografias e aguarelas,  organizado por Margit Erb e Michael Parillo e inclui diversos textos sobre as várias fases da sua obra.“Esta é a história de um artista genuinamente brilhante, profundamente iconoclasta, destemidamente imaginativo, fundamentalmente afectuoso e decididamente divertido que cedo foi despertado pela arte e a encarou como a força que animou a sua vida quase centenária” - escreve Michael Parillo na introdução. O álbum mostra o seu trabalho de moda, de rua, as suas aguarelas, mas também as fotos mais íntimas. Um livro de fotografia é das melhores prendas que me podem dar e tive a boa sorte de ter recebido agora esta oferta. Disponível na Amazon.


 


COZINHA AVENTUREIRA - Gosto de começar o ano a experimentar um restaurante que não conheço, uma espécie de aposta no desconhecido. Nuno Mendes, um Chef português que tem trabalhado sobretudo em Londres, é o responsável pelo restaurante do Bairro Alto Hotel, o BAHR, no quinto andar do edifício. A vista é fantástica e, para além do terraço, existe uma sala interior com a cozinha, aberta, acessível a todos os olhares. A lista, diferente ao almoço e jantar, tem propostas tentadoras, algumas surpreendentes. Neste caso foi um jantar e nos petiscos iniciais a escolha recaíu em tostas com percebes fumados, excelente. O couvert, simples, inclui pão de trigo e aveia, crackers de alga e manteiga Rainha do Pico, talvez a melhor manteiga portuguesa. A escolha dos pratos principais apostou, no outro lado da mesa, num Brás de polvo assado à lagareiro com molho romesco, acompanhado, como extra, por um puré de batata doce e laranja. O molho romesco pode ser pedido à parte, é intenso, sabor pronunciado a pimentos e um final picante. O polvo estava excelente, muito bem temperado, os tentáculos macios, o braz com lâminas de polvo a reforçar o sabor. Deste lado da mesa houve dúvidas na escolha mas arriscou-se o lavagante azul com arroz frito e molho marrare. Confesso que a ideia de ter molho marrare no lavagante me levantou reservas, mas desvaneceram-se à primeira garfada. O lombo de lavagante era farto, o molho era perfeito (nada dessas imitações que por aí surgem) e o arroz frito revelou-se um bom complemento. A experiência valeu a pena. A refeição foi acompanhada por um espumante português da região de Távora-Varosa, com base nas castas Cerceal, Malvasia Fina e Gouveio, o Família Hehn, Velha Reserva bruto, que cumpriu muito bem a função. Sobremesas ficaram para outra ocasião, com uma a reter no futuro: a tarte tatin de marmelo e creme de groselha. O BAHR e Nuno Mendes apresentam uma cozinha inesperada com combinações pouco vulgares e um  resultado acima da expectativa. Serviço impecável, com dois pequenos reparos - a recepção na sala não esteve a par do resto e a música era dispensável: não era uma questão de a playlist ser desadequada, que era, o problema era mesmo estar num local assim, com uma cozinha tão perfeita manchada por sons escusados que apenas distraem do essencial. BAHR, Praça Luís de Camões 2, 213408253.


 


DIXIT - “Houve jeito para distribuir, faltou o talento para produzir. Houve vontade de educar, não existiu competência para ensinar. Multiplicaram-se direitos, reduziram-se os deveres. A festa acabou. Mal e tristemente. Se ao menos, em vez de festa, tivéssemos trabalho, estudo, organização, gestão, igualdade e democracia…” - António Barreto 


 


BACK TO BASICS -   “Não é de admirar que as pessoas se afastem da política quando ano após ano ouvem os políticos fazer promessas que nem sequer tencionam cumprir - discursos que são fantasias para ganhar eleições mas que não fazem os países progredir” - Bill Clinton







dezembro 29, 2023

NA CAUDA DA EUROPA, EXCEPTO NO PESSIMISMO

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O NOSSO RETRATO - Segundo o Eurobarómetro de Outubro deste ano, divulgado há dias pela Comissão Europeia, os portugueses são dos europeus mais críticos da carga fiscal no seu país, ficando apenas atrás da Estónia e Lituânia neste parâmetro. A avaliação da situação económica é das mais baixas entre os congéneres europeus e a subida do custo de vida é a principal preocupação. A confiança no Governo e no Parlamento sofreu a maior quebra de toda a Europa face ao mesmo período do ano passado. Quando foram questionados  sobre como avaliam a atual situação económica do país, oito em cada dez portugueses responderam com insatisfação. Os resultados do estudo mostram que os portugueses são os segundos mais pessimistas de toda a UE, ficando apenas atrás da Grécia. Mas esta desesperança não é exclusiva dos portugueses. Se olharmos para um outro estudo, desta vez efectuado na Dinamarca, 73% dos inquiridos são da opinião que os políticos têm falta de visão e 75% que serão incapazes de resolver problemas estruturais a médio-longo prazo. Uma percentagem ainda maior de dinamarqueses, 82%, pensa que as decisões dos políticos actuais são apenas paliativos de curto-médio prazo, mas que não resolvem as questões de fundo que podem contribuir para a melhoria de vida das pessoas. Aquilo que é mais interessante é que 72% das pessoas inquiridas manifesta a opinião de que a sua apreciação sobre os políticos e os partidos poderia melhorar de forma substancial se surgissem visões e estratégias consistentes de desenvolvimento a longo prazo. Quando olho para estes resultados - o dos portugueses e o dos dinamarqueses, tenho a mesma sensação: a política degradou-se, o sistema partidário está insolvente e abre o caminho a populismos que apregoam salvadores ocos de ideias mas abundantes em verborreia como aqui acontece com André Ventura. O espírito reformista que caracterizava alguns partidos, o desígnio de fazer um país melhor, está desaparecido em combate. Nas próximas eleições vamos ver o resultado disto.


 


SEMANADA - As rendas na grande Lisboa são 34% mais caras que no Porto;  aumentou o peso das despesas com habitação e agora representam mais de um terço do total do orçamento das famílias; quase uma dezena de associações de natureza recreativa, social, regional e cultural de Lisboa foram despejadas nos últimos anos; no Algarve há 200 mil casas vazias destinadas a alojamento turístico e registam-se 10 mil casos de pessoas com “absoluta necessidade” de uma casa; segundo o Fundo Monetário Internacional a taxa de sobrevalorização das casas em Portugal é de 20%; em Julho, Agosto e Setembro foram vendidas em Portugal menos 19% que casas que no mesmo trimestre do ano anterior; este ano aposentaram-se mais de 800 médicos do Serviço Nacional de Saúde, o maior numero dos últimos anos, ultrapassando em muito as previsões do Governo; segundo o presidente da Associação Portuguesa de Admnistradores Hospitalares, Xavier Barreto, existiam estudos que indicavam que o pico das aposentações aconteceria agora, mas nada foi feito com tempo para minorar o efeito de todas estas saídas; apenas metade das unidades de urgências hospitalares estarão a funcionar em pleno na última semana do ano; há seis distritos sem camas de cuidados paliativos hospitalares;  os resultados das provas de aferição  do  2º, 5º e 8º ano de escolaridade revelam graves deficiências de aprendizagem em matérias fundamentais como português e matemática, com 50% dos alunos a manifestarem fortes dificuldades nas provas efetuadas; um estudo recente indica que existem mais 48% de casos de violência escolar do que se pensava, com uma  média de 9051 casos por ano, 65% dos quais de natureza criminal; em 2023 registaram-se 160 rondas de despedimentos em empresas tecnológicas em Portugal, mais 150% que em 2022.


 


O ARCO DA VELHA - Apesar de terem existido fiscalizações que apontavam para graves irregularidades na Misericórdia de Idanha A Nova, algumas desde 2008, a Segurança Social fechou os olhos e não aplicou as sanções devidas.


 


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A DIVERSIDADE DE UM ARQUITECTO - Para assinalar o centenário do nascimento de Fernando Lanhas (na imagem) podem ser vistas até Março duas exposições evocativas da sua obra, uma no Porto, na Fundação de Serralves e outra no Centro de Artes Visuais, de Coimbra. Fernando Lanhas é considerado uma das figuras mais destacadas da arte portuguesa do século XX e a sua pintura foi pioneira na introdução do abstracionismo geométrico em Portugal a partir de meados dos anos 1940. Arquiteto de formação, Lanhas trabalhou outras áreas como a pintura, o desenho, a arqueologia, a botânica, a astronomia, a etnologia, a museografia, assim como a escrita poética e ficcional. A exposição de Serralves reúne um núcleo muito significativo de obras suas, quer da Coleção de Serralves, quer do depósito da sua obra acordado ao longo de mais de vinte anos em diálogo com o artista. Com o título “Fernando Lanhas, o Homem é fenómeno magistral”, frase retirada de um seu escrito de 2000, a exposição  mostra a multiplicidade de áreas que o artista explorou e permite compreender a diversidade e coerência da sua obra. A curadoria é de Marta Moreira de Almeida, diretora-adjunta do Museu de Serralves. Em Coimbra o Centro de Artes Visuais apresenta “Sabe o que não sabes”, com curadoria de Miguel Von Hafe Pérez, cobre também as várias áreas de intervenção do artista e é composta por um núcleo maioritário de obras que vieram diretamente de sua casa, em atenciosa colaboração com o filho Pedro Lanhas. 


 


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CUMPLICIDADES MUSICAIS  - Para o jornal britânico “The Guardian” o melhor disco de música do mundo de 2023 é “Love In Exile”, de Arooj Aftab, Vijay Iyer e Shahzad Ismaily, respectivamente na voz, piano e produção e baixo. Como o jornal sublinha este disco é a prova de que não é preciso muito, para além de talento, para fazer um disco de sonoridade única, intimista e envolvente. Aroof Aftab é uma cantora de origem paquistanesa que vive nos Estados Unidos e tem trabalhado sempre com recursos musicais minimalistas. “Love In Exile” é o seu quarto disco e o anterior, “Vulture Prince”, ganhou um Grammy em 2021. No novo trabalho, editado no primeiro trimestre deste ano, ela juntou-se ao pianista de jazz Vijay Iyer e ao multi-instrumentista Shahzad Ismaily que desenharam paisagens sonoras perfeitas para a voz de Aroof Aftab. O disco incluiu sete temas, tem cerca de uma hora e um quarto e de cada vez que a voz de Aftab se faz ouvir o efeito é surpreendente, pela conexão que consegue estabelecer com os músicos e pela forma como a sua voz se assume ela própria como instrumento musical que complementa o trabalho de Iyer e Ismaily sem o ofuscar. Este é um exemplo de como um trio tão diverso pode partilhar de forma intensa um mesmo sentimento musical num ambiente de grande tranquilidade e cumplicidade . Disponível nas plataformas de streaming.


 


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POEMAS - Li vários romances de Roberto Bolaño e deixei-me entusiasmar, em quase todos eles, pela sua escrita. Nunca tinha lido os seus poemas e isso é o que faço desde há alguns dias. Escolhi falar hoje de “Poesia Completa”, editado recentemente em Portugal, porque é provavelmente o livro que mais me marcou neste ano. Este não é um livro de quadras soltas nem de rimas fáceis. Tem a outra dimensão da poesia, a que vem da ligação entre os sentimentos, a observação e a forma como as palavras se podem encaixar em tudo. Aqui estão poemas escritos em prosa, histórias em verso, fragmentos, frases e palavras que se juntam e que não sabemos bem o que podem ser até as lermos e nos tocarem, desde as mais simples às mais duras, desde olhar para uma rua ou recordar uma paixão. Manuel Villas escreve no prólogo desta edição que há muito desespero e desamparo na forma como Roberto Bolaño encara a  poesia: «Bolaño estava obcecado pelos poetas, porque eram os únicos a resistir ao dinheiro. Os poetas não tinham dinheiro, mas tinham conhecimentos.» Cada página é uma descoberta, desde os poemas escritos quando o autor trabalhava como guarda-nocturno num Parque de Campismo, uma escrita onde a influência de William Burroughs é abertamente assumida, até aos seus momentos mais difíceis, como quando esteve hospitalizado, ou aqueles onde procurou os lugares secretos das cidades, dos quais muitas vezes não se fala e sobre os quais muito menos se escreve poesia. “Imagina a situação: a desconhecida esconde-se no patamar da escada” - começa assim o poema em prosa “os motociclistas”, uma página de aventura, a meio do livro. Muitos destes poemas são profundamente autobiográficos, tal como muita da sua ficção - uma vida inquieta e de mudanças. Roberto Bolaño, chileno, nascido em 1953, aos 15 anos foi viver para o México e depois fixou-se em Espanha, em Barcelona,onde morreu em 2003, tinha 50 anos. A tradução, exemplar, é de Carlos Vaz Marques e a edição é da Quetzal.



PARA SAIR DO PERU - Descansem que hoje não venho falar de aproveitar restos de peru - embora umas fatias finas do peito do animal fiquem bem numa sanduíche de fatias de pão de centeio barradas de mostarda. Deixemos para trás o que sobrou e vamos ao supermercado procurar gambas de bom tamanho, funcho, arroz para risotto, limão e rúcula. Para o risotto siga o método clássico, um leve refogado de base, mas em vez de cebola use um bolbo de funcho finamente picado, a seguir frite o arroz durante dois minutos, adicione um copo de vinho branco e continue mexer até evaporar e depois vá juntando aos poucos o caldo de legumes previamente preparado. Quando o arroz tiver consumido quase todo o caldo adicione os camarões e vigie-os atentamente até começarem a ficar rosados. Nessa altura  adicione o sumo e a raspa da casca de um  limão e uma colher de sopa de manteiga, deixe mais um minuto em lume brando, adicione uma boa quantidade de rúcula, desligue o lume e tape o tacho, deixando repousar o risotto durante três minutos. Está pronto a servir e acabou de sair das tradições gastronómicas de natal. Aconselho o Greco di Tufo, um branco de uma casta de uvas do sul de Itália, plantada na Quinta da Bacalhoa há uns anos, e que liga muito bem com este prato.


 


DIXIT - “ A linguagem política tem-se transformado, ao longo das últimas décadas, numa torrente palavrosa sem significado” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “As pessoas podem perdoar-te por estares enganado, mas jamais te perdoarão por estares certo - especialmente se os acontecimentos mostrarem que estás certo ao mesmo tempo que mostram que elas estão erradas” - Thomas Sowell.


 




dezembro 22, 2023

UMA CAMPANHA ESBURACADA?

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OS PROMETEDORES - No fim de semana passado começou a campanha eleitoral, no rescaldo das eleições internas do PS. De um lado e do outro, ou seja do PS e PSD, sucedem-se promessas variadas, declarações vazias, acusações recíprocas, muito pouco de substancial e bastante de palavreado mais ou menos oco. Olho para as trocas de galhardetes entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro e imagino que estou a ouvir os pregões dos vendedores de carros usados que ficam um em frente ao outro, nos dois lados de uma estrada. Parece tudo uma disputa entre partidos já gastos, em segunda mão. De um lado, oito anos de uma governação recente que atirou Portugal para a cauda da Europa e, do outro, silenciosos sinais de que não se sabe bem que caminho seguir. É certo que até ao lavar dos cestos prosseguirá a vindima dos votos, mas parece que a vinha da política foi atacada pelo míldio e ficou frágil e quebradiça. Gostava de ver programas eleitorais concretos em vez de promessas de despesas e milagres que se desfazem ao fim de pouco tempo. Gostava de ver ideias em vez de conversa fiada. Gostava de não sentir que na política estamos rodeados de mediocridade, de uma mediania nebulosa e anestesiante, perdidos entre teses da moda e ecos do passado. Não ouço nos protagonistas destas eleições o reconhecimento do presente nem o caminho do futuro. Só vejo ideias gastas, sem energia para conterem as muitas ameaças que espreitam. À minha frente vislumbro uma parede esburacada que é o retrato do estado a que chegou o sistema político português, sem partidos confiáveis, com corrupções distribuídas de forma equitativa, com demagogos emergentes e outros reincidentes. É por isto que o número de eleitores que não sabem em quem votar é tão grande nas sondagens que têm aparecido. Os partidos que se propõem ser governo vivem de uma batota eleitoral que estimula que existam votos que não têm tradução prática na escolha final. Como aqui escrevi há semanas nada da Lei Eleitoral foi alterado desde há décadas. 50 anos depois do 25 de Abril os partidos do chamado arco da governação protegem-se mutuamente para manter um sistema que protege os grandes, dificulta os partidos mais pequenos e, mais grave ainda, divide os eleitores entre duas categorias - os que têm um voto que elege e os que votam mas não elegem ninguém - aqueles votos desperdiçados graças ao método de Hondt. Nas eleições legislativas mais recentes aproximadamente 13 % dos votos expressos não serviram para eleger ninguém: caíram no limbo. E houve mais de 40% de abstenção. Querem que acreditemos nos políticos que mantêm este sistema?



SEMANADA - Em 2023 já foram contratados 3100 docentes sem formação pedagógica; há escolas em Lisboa onde os alunos ainda não tiveram neste ano lectivo aulas a Português, Inglês ou Ciências; em 2022 as obras públicas sofreram o maior desvio financeiro de sempre, num total de 130 milhões de euros; desde a demissão de António Costa o governo esteve mais activo do que habitualmente e fez publicar em Diário da República, entre 8 de Novembro e 11 de Dezembro, mais do dobro de actos do executivo do que a média mensal até Outubro; 35% dos concursos para dirigentes no sector público não conseguem atrair candidatos suficientes;  os impostos indirectos aumentaram 30% entre o primeiro orçamento de António Costa em 2016 e o de 2023 e só o IVA cobrado aumentou 50% para um valor recorde de 23 mil milhões; segundo a Pordata a população estrangeira residente em Portugal duplicou nos últimos dez anos, sendo que um em cada três imigrantes é originário do Brasil e metade nasceu em países de língua portuguesa; no final do ano passado viviam em Portugal 800 mil estrangeiros, que representam 14% da força de trabalho; os descontos dos trabalhadores imigrantes em Portugal deram 1600 milhões de euros à Segurança Social; no final do ano passado viviam na condição de sem-abrigo 10.773 pessoas e, destas, 5.975 viviam na rua, num abrigo de emergência, enquanto que 4.798 pessoas não tinham casa e viviam em alojamento temporário; quase 19.000 trabalhadores estão a recibos verdes no Estado, o número mais elevado de sempre.


 


O ARCO DA VELHA - Os TVDE criam entre 10 a 15% do trânsito automóvel  nas cidades de Lisboa e Porto e são um forte contributo para os congestionamentos de circulação.


 


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UMA PRENDA FOTOGRÁFICA - A Galeria das Salgadeiras, que recentemente saíu do Bairro Alto e inaugurou novas instalações em Alvalade (Av. Estados Unidos da América 53D), criou uma edição especial que junta um livro que assinala o aniversário da Galeria com quatro obras de outros tantos artistas - neste caso fotografias inéditas de Augusto Brázio, Cláudio Garrudo, Eva Diez e Inês d’Orey, que aliás são alguns dos referidos no livro “Untitled”. A caixa, “Untitled Box #1” é uma edição limitada de 25 exemplares numerados, com as impressões fotográficas em papel Cotton Fineart, que está à venda na Galeria por 480 euros. Esta edição especial prossegue a estratégia de publicações das Salgadeiras que já tem seis títulos. No livro aparecem ainda outros artistas como Carlos Alexandre Rodrigues,  Daniela Krtsch, Marta Ubach, Martinho Costa, Rita Gaspar Vieira, Rui Horta Pereira, Rui Soares Costa. A Galeria das Salgadeiras planeia prosseguir estas edições especiais e a "Untitled Box #2" será com outros artistas e outras técnicas. Outros destaques - no Arquivo Municipal/Fotográfico (Rua da Palma 256) a até 2 de Março do próximo ano pode ver a exposição “O Cerco de Lisboa” que inclui trabalhos de sete fotógrafos: Augusto Brázio, Lara Jacinto, Pedro Letria, Valter Vinagre, Paulo Catrica, Mad Rodrigues e São Trindade. Ainda na fotografia Alfredo Cunha e Rui Ochoa mostram em “América, América” a forma como olham para os Estados Unidos, na MAD Gallery(Rua Amorim nº3). 


 


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SIMPLICIDADE ACÚSTICA - Treze faixas, três quartos de hora, guitarra, voz e pouco mais, aqui e ali um piano ou uma harmónica. Quase a completar oito décadas de vida, Neil Young aparece sóbrio, discreto e tímido. Aqui estão canções feitas ao longo de toda a sua carreira, tudo gravações ao vivo durante quatro concertos de uma recente digressão, sem palmas nem barulhos do público. Apenas a simplicidade de um músico com as suas músicas, sempre em versões acústicas. “Before + After” é o testemunho de um tempo, com alguma carga de melancolia, canções que parecem pedaços da mesma história que se completam. “I’m The Ocean” é a primeira canção, originalmente gravada em 1995 com os Pearl Jam para “Mirror Ball”. Aqui, sem as guitarras eléctricas, pode ser redescoberta e apreciada de outra forma. Outro dos temas do disco é “If You Got Love”, gravado nas sessões do álbum predominantemente eletrónico “Trans”, de 1982, e que acabou por não ser incluída na versão editada, aqui usa órgão e harmónica. “A Dream That Can Last” baseia-se num piano discreto e “Burned” é uma canção que data de 1966, dos tempos dos Buffalo Springfield, tinha Neil Young uns 20 anos. E há outros temas como “Mother Earth”, “Mr. Soul”, “There Comes a Time” ou o final “Don´t Forget Love” que mostram clássicos incontornáveis, quase um testamento musical, a voz menos enérgica mas talvez mais envolvente. Uma bela prenda de Natal, edição Reprise, disponível em streaming na Apple Music.


 


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UM CLÁSSICO DE NATAL  - “Um Cântico de Natal” é uma das mais conhecidas obras de Charles Dickens, editado originalmente em 1843. Rapidamente este romance, considerado um dos 100 melhores romances de sempre, tornou-se num clássico da quadra natalícia. Dickens tornou-se conhecido com “The Pickwick Papers”, de 1836 e foi também o autor de obras como “Oliver Twist” e “Tales Of Two Cities”. Mas foi com “A Christmas Carol” que ganhou fama universal. Neste romance , “Um Cântico de Natal”, na versão portuguesa, acompanhamos Ebenezer Scrooge, um frio e avarento velho homem de negócios que, na véspera de Natal, é visitado pelo espírito do antigo sócio, Jacob Marley. Tendo vivido como Scrooge, Marley está preso a uma eternidade de sofrimento e revela a Scrooge que a única forma de evitar um destino semelhante ao seu será redimindo-se do seu comportamento, através da oportunidade de reflexão que lhe será proporcionada pela visita do Fantasma do Natal Passado, do Fantasma do Natal Presente e do Fantasma do Natal Futuro que se tornaram parte do nosso imaginário colectivo. De tal forma isso aconteceu que no dia da morte de Charles Dickens, o escritor Theodore Watts-Dunton ouviu uma rapariga que vendia fruta nas ruas de Londres exclamar: «Dickens morreu? Então, o Pai Natal também vai morrer?» Esta associação de Dickens ao Natal sobrevive até hoje e “Um Cântico de Natal” estabeleceu  Dickens como um dos maiores romancistas ingleses. É um clássico: teve adaptações no cinema, na televisão, no teatro, na banda desenhada e em outros livros. Esta nova edição da Guerra & Paz tem tradução de Carolina Ferreira Mendes.


 


PETISCO DA ÉPOCA - Como o Natal é tempo  de bacalhau devo dizer que nesta matéria há poucos sítios mais recomendáveis que A Casa do Bacalhau, ao Beato. Ali poderá encontrar uma oferta ampla de pratos de bacalhau, sendo que - importante - a matéria prima é de superior qualidade: o bacalhau da Caxamar. Mas antes disso passemos ao local: salas luminosas, amplas e confortáveis, serviço atento. O couvert inclui pão, broa, patê de bacalhau, azeite com balsâmico e azeitonas - boas - bem temperadas. Nas entradas destaco os pastéis de bacalhau, recheio rico e saboroso, ou o carpaccio de bacalhau com alcaparras, rúcula e vinagrete de azeitonas. Na lista as sugestões de bacalhau são numerosas, mas permito-me destacar o bacalhau com todos, postas altas, cozidas bem no ponto. Se lhe apetecer outros preparos sugiro o bacalhau à minhota, os filetes de bacalhau, um interessante caril de bacalhau com risotto de tinta de choco ou o bacalhau assado com grelos. Para os que gostam de coisas disfarçadas há empada de bacalhau ou bacalhau espiritual e, para os mais puristas, o incontornável bacalhau à Braz, - mas insista para vir com a envolvente de ovos mal passada. Caso algum comensal não goste de bacalhau há polvo na frigideira, tornedó e costeletas de borrego além de uma opção vegetariana. A casa tem uma bela garrafeira, lista de vinhos abundantes a preço razoável. Rua do Grilo 54, telefone 218 620 000.


 


DIXIT - “O Presidente respeita o pensamento do primeiro-ministro, mas não comenta” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


BACK TO BASICS - “Saber estar e romper a tempo, correr os riscos da adesão e da renúncia, eis a política que vale a pena” - Francisco Sá Carneiro






dezembro 15, 2023

PANORAMA ELEITORAL

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ESTÁ MONTADA A CONFUSÃO - Há pouco mais de um mês, ainda Costa não se tinha demitido, previa-se que o embate eleitoral mais próximo seria o das eleições europeias, em meados de 2024. De repente, em escassas semanas, Costa demite-se, o Orçamento dos Açores é chumbado, a Iniciativa Liberal retirou o apoio ao PSD local. Também no espaço de cerca de um mês o Presidente da República anunciou a dissolução da Assembleia da República e da Assembleia Regional dos Açores. As eleições para a Assembleia Regional dos Açores e para a Assembleia da República ocorrerão com pouco mais de um mês de intervalo, em Fevereiro e Março de 2024. Ao que tudo actualmente indica dificilmente se formarão maiorias claras, o que obrigará a coligações pós eleitorais. Nos dois casos, e com os resultados conhecidos das sondagens, o Chega ganha subitamente uma importância substancial em termos de votação, o mesmo é dizer no número de lugares obtidos em ambos os parlamentos e portanto do seu peso nas votações que ali se realizarem. A ver vamos quem resiste ao canto da sereia. O mais certo é que surjam soluções governativas fracas, dependendo de alianças forçadas e muito provavelmente instáveis. Passámos de um cenário de maioria absoluta para um cenário de nova fragmentação de votos. Pode acontecer que a instabilidade seja tal que tenha que se recorrer a curto prazo a novo acto eleitoral. Em 2025 já teremos, no final do ano, novas eleições autárquicas e não é impossível, se a crise se prolongar, que mais algum acto eleitoral surja. E, em Janeiro de 2026, teremos eleições presidenciais. Prevê-se portanto muita animação e muitos movimentos no tabuleiro de xadrez de políticos ambiciosos. Por falar nisto, teremos já em Fevereiro e Março o primeiro teste eleitoral simultâneo das novas lideranças do PS e PSD. E a ver vamos se os resultados vão implicar mudanças nesses partidos e como ficará o espectro político depois das legislativas. 


 


SEMANADA -  Um recente estudo europeu indica que mais de 84% dos portugueses acreditam que o seu nível de vida vai piorar em 2024; o preço das casas duplicou desde 2015; a população sem médico de família cresceu de 9,3 para 13,4% desde 2015; segundo a DECO, a ceia de Natal está 10% mais cara em relação ao ano passado;  o PISA, um estudo da OCDE que avalia o estado do ensino em vários países, indica que o desempenho dos alunos portugueses caíu acentuadamente, desde 2018, nas áreas de Leitura, Matemática e Ciência e estes são os piores resultados portugueses desde 2006; a carga fiscal em Portugal voltou a subir em relação à média da OCDE; o primeiro período letivo está a chegar ao fim e mais de 32 mil estudantes têm ainda falta de professor a pelo menos uma disciplina; nas escolas públicas mais de 3500 docentes reformaram-se  em 2023 e a partir de 1 janeiro saem mais 434; a Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República não tem meios para avaliar o custo de devolver anos de serviço aos professores;  há 15 centros de saúde no país que não têm um único médico de família atribuído e 14 localizam-se na região de Lisboa e Vale do Tejo onde há mais de 1,1 milhões de pessoas nessas circunstâncias; mais de um terço dos portugueses já têm seguro de saúde; os 15 maiores municípios portugueses vão gastar cerca de 4,5 milhões de euros em iluminações e actividades de natal;  segundo o Eurobarómetro mais de 60% dos portugueses temem manipulação dos resultados nas próximas eleições legislativas de Março.





O ARCO DA VELHA - Dos 14 padres suspensos após a entrega do relatório da Comissão Independente sobre abuso de menores, oito já voltaram ao activo e em 13 dioceses apenas a duas vítimas foi disponibilizado apoio psicológico.


 


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ARTE RECICLADA - “Agora são cadeiras, depois logo se vê” é a nova exposição de Patrícia Garrido que está patente até 6 de Janeiro na Appleton - Associação Cultural (Rua Acácio Paiva 27). O trabalho (na foto) parte de peças de mobiliário antigas, neste caso cadeiras, que a artista desmonta, corta em pedaços e que depois reutiliza para criar esculturas feitas a partir dessa madeira reciclada, em formas que subvertem a função original e desafiam um novo olhar sobre a transformação do quotidiano. Garrido tem utilizado este mesmo princípio de reaproveitamento de materiais para explorar várias linhas do seu trabalho, como “Interior”, uma peça exposta em 2022 na Giefarte, a partir de antigas traves metálicas de prateleiras industriais, criando uma teia que ocupava quase todo o espaço da galeria. Também já este ano  apresentou na Galeria Miguel Nabinho “Doze Quartos e Famílias Felizes”, onde, para além de uma série de pinturas sobre papel, apresentou um conjunto de construções feitas a partir de madeiras recuperadas de obras. Ainda na Appleton está patente mais uma exposição baseada na colecção da Fundação Carmona e Costa, “Álbum de Família”. Se estiver no Porto não perca, até 30 de Dezembro, a oportunidade de ver o trabalho de um artista plástico albanês, Edi Rama, que desde 2013 é o primeiro-ministro do país, vencedor de três eleições sucessivas. Na Galeria Nuno Centeno, no Porto, pode ver a sua obra, na exposição “Welcome”, marcada por uma explosão de cores. Segundo Edi Rama,  “A política, dentro da sua insanidade, consegue tornar a arte ainda melhor”.


 


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65 GRANDES CANÇÕES -Sérgio Godinho é um cronista das nossas vidas e para assinalar os 50 anos de actividade surgiu agora uma nova compilação, “SérgioX3”, que reúne diversos passos da sua carreira em 3CD’s e que mostra 65 das suas canções. O primeiro, disco“Estúdio”, junta temas que se destacaram nos seus 18 álbuns de originais gravados em estúdio; o segundo, “Ao vivo”, é centrado na sua actividade em palco, inclui momentos captados a partir de 1990 e até aos nossos dias; e o terceiro, intitulado “Avulsos (e outras colaborações)”, reúne gravações dispersas e colaborações que o músico foi concretizando ao longo da sua actividade. No primeiro disco estão temas como ”Liberdade”, “À Queima Roupa”, “O Primeiro Dia”, “Com Um Brilhozinho Nos Olhos” ou”Às vezes o Amor”. No disco que reúne gravações ao vivo encontramos alguns dos seus melhores momentos em palco em diversos locais e com várias formações - incluindo um registo inédito de “O Galo É Dono dos Ovos” numa versão em palco apenas acompanhado pelo piano de Filipe Raposo. Há temas retirados de discos gravados no Instituto Franco-Português, em 1990, ou os captados no Teatro São Luiz, em 2014 e 2018, quer com  acompanhamento ao piano e ao baixo, quer com arranjos mais elaborados que envolvem os Assessores, a sua banda há cerca de duas décadas, na companhia da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Em “Avulsos (e outras colaborações)”, o terceiro disco desta compilação, surgem velhas canções populares quase esquecidas que Sérgio Godinho recuperou, colaborações com pares de distintas gerações, do seus contemporâneos  (José Mário Branco, José Afonso, Jorge Palma ou Fausto) até às gerações que lhes sucederam (entre outros, Clã, David Fonseca, Samuel Úria, Bernardo Sassetti ou Filipe Raposo). E há ainda uma surpresa, que aliás é o tema de abertura do terceiro disco, uma versão remasterizada de “Nós por cá todos bem”, a canção do filme com o mesmo título assinado por Fernando Lopes, datada de 1977 e recuperada para esta edição. Disponível em streaming.


 


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UM OUTRO OLHAR - Conheci Rita Barros pelas fotografias de reportagem nos Estados Unidos, e em particular em Nova Iorque,  que assinava no “Expresso”. Mais tarde fui descobrindo outros trabalhos seus para revistas e publicações norte-americanas, algumas exposições e livros. Rita Barros vive em Nova Iorque desde 1980. E é sobre a sua obra que surge agora o 12º volume da colecção Ph. No livro podemos encontrar algumas das suas séries de fotografia  como “The last cigarette” de 2004 ou “Presence of Absence” de 2005/06 mas também outras inéditas, como “Flowers” de 2023, criada especificamente para ser publicada neste livro. “Interessou-se por olhar para o interior dos apartamentos e fotografar a sismografia das vivências individuais dos seus amigos e vizinhos, residentes e ocasionais” do Chelsea Hotel, onde Rita vive, descreve Susana Lourenço Marques no texto introdutório desta edição, que percorre a obra de Rita Barros, desde os anos 80 até à atualidade. O Chelsea Hotel, o seu espaço e os seus habitantes foi aliás o tema de um dos seus livros anteriores.  Rita Barros estudou e lecciona fotografia em Nova Iorque e a sua primeira exposição individual ocorreu em 1987, tendo exposto regularmente a partir daí, e a sua obra está presente em diversas colecções institucionais e particulares. Neste Ph.12 é mostrada uma faceta menos conhecida do seu trabalho, muito em torno da autorrepresentação, da teatralização da sua própria vida e da revelação da intimidade do seu espaço. Desde o início do presente século tem sido esta a sua área de trabalho e é ela que marca decididamente esta edição. 


 


OS ENGANOS - Num destes dias li um curioso artigo no jornal britânico “The Guardian”, de um dos críticos gastronómicos da publicação, onde relatava a sua frustração com a maioria dos novos restaurantes e como, cada vez mais, vai à procura de um bom pub clássico que sirva comida tradicional. Ao longo dos últimos dois anos passa-se o mesmo comigo e são muito poucas as vezes em que dei por bem empregue o dinheiro e o tempo de ir experimentar novos restaurantes. Na maior parte das vezes o conceito ultrapassa a atenção ao cliente, no serviço, nos produtos e na confecção. Tenho pois a tendência de ir frequentando os locais em que tenho confiança, onde nunca me enganaram, onde sei que sou bem recebido e bem servido. Abro algumas excepções quando críticos gastronómicos locais em quem confio, como Ricardo Dias Felner e Fortunato da Câmara, aconselham experiências que lhes agradaram. Por via de regra evito os convites e press releases de agências de comunicação que promovem o lançamento de novos espaços e não me tenho dado mal com esta grelha de funcionamento. Mais vale uma boa refeição num local tradicional do que uma desilusão num restaurante da moda. Há uns anos um amigo meu resumia a situação assim: a nova vaga de restaurantes não trabalha para ter clientes regulares, trabalha para atrair turistas e incautos, não se preocupam em saber se o cliente se sente bem e vai querer voltar. 


 


DIXIT - “Liberalismo sem poder é diletantismo” - Miguel Pinheiro 


 


BACK TO BASICS - “Não é de admirar que as pessoas se afastem da política quando ano após ano ouvem os políticos fazer promessas que nem sequer tencionam cumprir”  - Bill Clinton




dezembro 07, 2023

O ELEITORADO DO ESTADO

 


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O PAÍS QUE VOTA - Desde 1975 realizaram-se em Portugal 66 eleições e a participação eleitoral tem sempre diminuído. Até 1987 todos os actos eleitorais tiveram mais de 60% de participação e desde 2008 nenhuma das eleições realizadas alcançou os 60% de votantes. Nas últimas legislativas, em 2022, a abstenção atingiu os 42 por cento entre os residentes em Portugal. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) indica que actualmente temos mais eleitores registados do que residentes, sublinhando que  em 2021 havia cerca de um milhão de eleitores a mais face aos residentes em Portugal com direito de voto, o que, sublinham os autores do estudo,  deturpa a análise das abstenções. Passo a citar: “os investigadores analisaram os resultados eleitorais e concluíram que esta abstenção cairia sete pontos percentuais se os portugueses que residem no estrangeiro ­- mas mantêm a sua morada no país, estando assim registados para votar em Portugal - fossem inseridos nos cadernos dos círculos eleitorais no estrangeiro. Os autores defendem que a emigração é a principal causa da abstenção técnica no país. Ou seja, é responsável por aquela parte da taxa oficial de abstenção que não resulta da opção de não votar, mas sim da existência de um número de eleitores registados superior ao dos eleitores reais”. Pegando ainda em dados da FFMS, os pensionistas representam actualmente cerca de 36% do eleitorado,cerca de 10% são funcionários públicos e quase 6% recebem rendimento mínimo ou subsídio de desemprego. Ou seja, traduzido por miúdos, 52% do eleitorado está dependente financeiramente do Estado e quase 24% têm mais de 65 anos. Todos os dirigentes partidários sabem que numa situação de abstenção alta, este eleitorado, tão dependente do Estado, estará mais inclinado para colocar a cruz do seu boletim de voto em quem fizer mais promessas de aumento de rendimentos. E não é preciso ser um analista político credenciado para perceber como estes dados condicionam as estratégias dos partidos e o resultado das eleições.  


 


SEMANADA - Nos primeiros onze meses deste ano o Estado gastou mais de 41 milhões de euros em pareceres e serviços de sociedades de advogados, a maioria por ajuste directo; nesta semana 39 serviços de urgência hospitalar têm limitações consideráveis; nos últimos trinta anos o uso de carro triplicou no país; a investigação do processo “Influencer” tem 116 dossiês com escutas telefónicas; a economia portuguesa sofreu uma contração de 0,2% no terceiro trimestre com quedas na exportações de serviços, incluindo o turismo;   desde o fim do SEF, a nova Agência Para a Integração, Migrações e Asilo recebeu 93 de pedidos de asilo no aeroporto de Lisboa, mais 60% do que a média mensal do ano passado em todos os postos de fronteira do país; está a subir o número de idosos, sem abrigo e imigrantes internados em unidades hospitalares por não terem para onde ir; até outubro as multas de trânsito já renderam 79,5 milhões de euros, um aumento de 30% face ao mesmo período do ano passado; O número de insolvências decretadas pelos tribunais portugueses está a aumentar, em particular entre as empresas e é nos distritos de Braga e do Porto que o impacto se sente mais com indústrias, sobretudo no textil e calçado a registar uma subida de 40% ; em 2022 foram registados 219 mil acidentes domésticos, sobretudo com crianças e idosos.


 


O ARCO DA VELHA - A realidade da situação económica: em apenas um ano a população sem abrigo aumentou 25% na região metropolitana de Lisboa.


 


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OUTRA FORMA DE PINTAR  - João Queiroz deu à sua nova exposição o nome de “Gepetto- Encáusticas sobre madeira”, evocando o carpinteiro que criou um pequeno boneco de madeira a que chamou Pinóquio. Não é por acaso - a exposição mostra 39 obras de pequena dimensão, todas de 21x31 cms, feitas sobre madeira e com a mesma técnica - a encáustica (na imagem). João Queiroz diz sobre estas obras: “Podemos chamar isto de brinquedos visuais”. A encáustica é uma técnica de pintura que se caracteriza pelo uso da cera como aglutinante dos pigmentos e pela mistura densa e cremosa. Depois a pintura é aplicada com pincel ou espátula quente, é uma técnica usada desde o Egipto antigo e Pompeia, frequente na Idade Média e muito utilizada para elaborar os ícones. Foi esta a técnica que João Queiroz utilizou. O artista sublinha que “a maneira de pintar o quadro é bastante diferente da pintura sobre tela, tem que ser uma construção passo a passo, é quase como fazer um brinquedo, pode raspar-se, pode fazer-se incisões, pode colocar-se pinceladas uma por cima da outra, é um processo que fica entre a carpintaria, a gravura e a pintura”.  São também de João Queiroz estas palavras sobre a sua exposição: “ não é um quadro grande, é pequeno, é outro tipo de quadro. O pequeno tem tanta intensidade como um grande, tem é que ser visto de uma forma diferente “. Gepetto- Encáusticas sobre madeira” está na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão, 18B. 


 


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CANÇÕES PARA A LUA CHEIA - Desde o início do ano Peter Gabriel tem colocado mensalmente nas plataformas de streaming uma canção inédita. Com a que publicou no início deste mês ficam 12 canções, que constituem “I/O”, o seu primeiro álbum de originais desde há 21 anos. “The Guardian” diz que são doze canções que “enfrentam o tempo e a mortalidade, ao mesmo tempo que celebram a regeneração e a reconciliação”. O tema de “I/O” é a visão que Gabriel tem de um futuro onde a informação é ilimitada, procurando conciliar a tecnologia que avança do presente para o futuro, enaltecendo aquilo que só o ser humano pode dar: amor, pertença e compaixão. Gabriel, agora com 73 anos, continua a ser um perfeccionista, o que se sente na composição, nas letras, nos arranjos. Mais uma vez o título do álbum só tem  duas letras como aconteceu com “So” (1986), “Us” (1992) e “Up” “2002). “I/O” é a abreviatura de “Input/Output”. Na canção que dá o título ao álbum ele canta ““Stuff coming out, stuff going in/I’m just a part of everything.”  Ao longo destes meses, quando publicou uma nova canção, sempre na noite de lua cheia, em honra do ciclo da natureza, Peter Gabriel fez acompanhar cada canção com uma obra de um artista contemporâneo.  Para este disco Peter Gabriel voltou a contar com colaborações como a de Brian Eno, com gravações experimentais feitas ao longo dos anos e com registos de coros sul-africanos. A versão final do álbum oferece duas versões para cada canção - o “Bright Side” , com misturas de Mark Spike Stent, e o “Dark-Side”, com misturas de Tchad Blake. As primeiras são mais efusivas e as segundas mais intimistas. Quem utilizar o sistema de som Dolby Atmos também terá acesso a uma terceira versão, “In-Side”, com misturas de Hans Martin Buff. E este é o desafio que Gabriel deixa a quem ouvir o álbum - que seja cada um a decidir se quer o bright side ou o dark side. Mark Spike Stent resume a coisa assim: “não há o certo e o errado - há apenas uma escolha que cada um pode fazer”. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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OS POEMAS DE POMAR  - “Prima Construção” é uma recolha de poemas inéditos de  Júlio Pomar. Ele já tinha editado dois livros de poemas e nos últimos anos da sua vida dedicou-se à realização de um terceiro, que nunca recebeu versão definitiva. Deixou um espólio abundante de várias centenas de poemas, alguns concebidos como letras de fados (e vários já foram musicados), “muitos aparentemente inacabados, ou constando de variações sobre o mesmo tema, sem indicação de preferência entre variantes», dizem os organizadores do volume, José Alberto Oliveira e José António Oliveira. O preâmbulo, escrito por António Lobo Antunes, começa assim: “O Júlio Pomar disse-me sempre, em alturas difíceis da minha vida: Aguenta-te, que de facto é a única coisa que se pode dizer”. Logo a seguir vêm palavras de Pomar, em jeito de resposta a António Lobo Antunes que, diz Pomar, lhe perguntava por este livro de poemas . Pomar,  em resposta, cita João Cabral de Melo Neto, em “A lição de pintura”. Disse ele: “quadro nenhum está acabado”. “Prima Contradição” é apresentado como “sentenças e dislates, divertimento em forma de poesia, arbitrariamente dividido numa dúzia (de treze) cantos”, cada um com treze poemas. Termino com uma estrofe de um dos poemas de “Prima Contradição”: ”Entre paixão e traição/Qualquer um no dia-a-dia/ Não tem que pedir perdão/Vale tudo em poesia”. Edição Assírio & Alvim. E deixo aqui uma ideia- peguem no livro e visitem o Atelier-Museu Júlio Pomar a exposição que evoca dez anos do museu e que mostra até 14 de Janeiro uma selecção dos trabalhos do artista em diversas épocas e sobre vários temas.



DOCE DE ÉPOCA - Chegou a altura das broas, o mesmo é dizer que cheira a Natal. As broas castelar são um dos doces mais característicos desta época do ano, mas cá por mim até podiam existir todos os meses. A broa castelar deve o seu nome aos proprietários da Confeitaria Francesa, os irmãos Castelar. Casa fundada em 1860, na Rua do Ouro, as suas broas depressa se tornaram um vício desde que surgiram naquele estabelecimento no final do século XIX. Os ingredientes da receita original incluem farinha de milho, farinha de trigo, batata doce, açúcar, ovos, amêndoas, canela, casca de limão e casca de laranja. Têm formato elíptico e alongado com uma cor dourada na cobertura. Há quem não as dispense a acompanhar o peru no dia de Natal, e há quem não as dispense no final da refeição, ao lado de um café. Faço parte destes últimos. E embora a concorrência seja feroz, com muitas pastelarias a terem broas castelar de fabrico próprio nos seus escaparates, para mim as que actualmente levam o primeiro prémio ex-aequo são as da Alcoa e as da Gleba. As da Alcoa são mais volumosas e densas, sem serem demasiado doces, com sabor a canela bem presente. As da Gleba, mais pequenas e afiladas, têm um sabor mais frutado e porventura são as que se aproximam mais da receita original. Na dúvida, se puderem, experimentem ambas.


 


DIXIT - “Desde 2015, o poder socialista aproveitou a folga criada por Passos Coelho para cultivar a dependência do Estado, enquanto partidarizava as instituições, mantinha a mais alta carga fiscal de sempre, e submetia a economia ao regime de favores e de compadrio exposto na Operação Influencer. Fez mais: introduziu a extrema-esquerda no poder, importou o wokismo americano, inventou divisões e promoveu a polarização. “ - Rui Ramos


 


BACK TO BASICS - “A Nossa História é um estendal de ocasiões perdidas” - Eduardo Lourenço






dezembro 01, 2023

SOBRE A FERA AMESTRADA

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O CIRCO APODRECIDO - As eleições são um bom momento para avaliar aquilo que os partidos fazem - seja no Governo, seja na oposição. O que fizeram, o que não fizeram, o que propuseram, o que não propuseram. Estamos num compasso de espera para o início da campanha eleitoral, dominado pelas eleições internas do PS, que servirão para indicar quem será, pelo lado dos socialistas e da esquerda, o candidato a Primeiro Ministro. Uma das coisas que me deixa perplexo  nos dois candidatos principais e nos seus apoiantes é a forma como falam, parecendo que não estiveram no poder ao longo de oito anos. Ambos agem como se não tivessem tido poder, como se não tivessem sido governantes, como se não tivessem tido oportunidade para concretizar mudanças. Em abono da verdade se diga que de um lado está o homem que foi o guardião da geringonça, do outro o que respirou a maioria absoluta. Um, Pedro Nuno dos Santos, tem do seu lado os descamisados do PS, o outro, José Luís Carneiro, tem a acompanhá-lo os guardiões do templo. Pedro Nuno dos Santos aparentemente é o favorito, apesar do que fez na TAP e no processo do aeroporto de Lisboa e do que não fez na ferrovia e na habitação, áreas que eram da sua tutela. Na realidade há dois PS, o que quis a geringonça por necessidade para conquistar o poder e o que quis a geringonça por convicção ideológica. José Luís Carneiro representa os necessitados, Pedro Nuno dos Santos representa os convictos. Bem pode Pedro Nuno dos Santos camuflar-se de moderado, com Álvaro Beleza e Francisco Assis a servirem de alfaiates do uniforme de combate, mas a verdade é que ele só está a fazer o papel de fera amestrada num circo apodrecido. Nestes dias recomendo a leitura de dois livros - “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, e “Como Mentem As Sondagens”, de Luís Paixão Martins.


 


SEMANADA - Dois ex-autarcas socialistas, das câmaras de Barcelos e Santo Tirso, foram acusados de corrupção, tráfico de influências, peculato e participação económica em negócio; a PSP tem guardadas desde 2017 cerca de duas centenas e meia de bodycams oferecidas num contrato de ajuste directo com o Ministério da Administração Interna para a compra de três centenas de tasers, uma arma de eletrochoque usada para incapacitar temporariamente os alvos; segundo a Netsonda 19% dos portugueses admitem poder consumir carne produzida em laboratório; os vencimentos reais das empresas privadas cresceram 15% desde 2014, enquanto que no Estado aumentaram apenas 4% mas as remunerações médias no sector público continuam superiores às do privado; a renda média dos contratos de arrendamento antigos é de 166,54 euros e 80% desses arrendatários tem mais de 70 anos; quem sofrer um AVC na região de Beja terá de percorrer quase 200 quilómetros de ambulância para poder ser assistido no hospital de Almada, o mais próximo com condições para tratar essa situação; pediatria e obstetrícia são as valências mais afectadas pelas limitações em 36 urgências do SNS; há mais de 400 vagas por preencher no concurso para médicos especialistas e houve pouco interesse em áreas cruciais para o SNS como medicina interna e medicina geral e familiar; segundo dados da Deco Proteste, o preço do cabaz essencial (com 63 produtos) aumentou 9,6% desde setembro, muito acima da inflação; segundo o INE o  número de pessoas em risco de pobreza aumentou este ano para os 20%, o que significa mais de 2 milhões de pessoas em todos os grupos etários e afectou mais significativamente as mulheres e a região de Lisboa; nas autoestradas portuguesas registou-se um aumento de circulação automóvel de mais de 10% nos primeiros nove meses do ano.


 


O ARCO DA VELHA -A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, na gestão de Edmundo Martinho, nomeado por António Costa, gastou 8,4 milhões na preparação de apostas sobre corridas de cavalo que nunca foram concretizadas e continua a gastar milhares de euros para pagar a armazenagem de material para essas apostas, que nunca foi utilizado e provavelmente não o será tão cedo.


 


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DESEJOS PINTADOS  - Até 6 de Janeiro Fernão Cruz mostra as suas obras mais recentes na exposição “Insone”, que está na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela, 33, Lisboa). Aos 28 anos, Fernão Cruz “explora imaginativamente as suas próprias experiências de vida para comentar a condição Humana” - sublinha Paul Laster no texto de apresentação da exposição. Laster sublinha que nos cinco últimos anos Fernão Cruz “criou um corpo de trabalho complexo” em “pinturas poéticas, esculturas e instalações que exploram questões pessoais, traumas e desejos”. Depois de duas primeiras exposições, na Balcony e na Gulbenkian, esta nova mostra, “Insone”, apresenta vinte e uma pinturas abstratas e uma escultura figurativa que representa o corpo do artista e está colocada entre as telas que produziu (na imagem). Outro destaque vai para “Stringing the disconnection”, a exposição de Rui Soares Costa escolhida para inaugurar o novo espaço da galeria Salgadeiras, que passou do Bairro Alto para Alvalade, na Avenida Estados Unidos da América 53B. Finalmente, na Galeria de Santa Maria Maior, continua a desenvolver-se um trabalho exemplar de aposta na fotografia por uma Junta de Freguesia de Lisboa. Ali está presente a nova apresentação de “Edição Limitada”, uma parceria com a Associação C11, que inclui 67 imagens de outros tantos fotógrafos,explorando a fotografia documental e que pode ser vista até 6 de Janeiro.


 


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VOZ E PIANO  -  Foi por acaso que descobri “Rainbow Revisited”, o novo disco de uma pianista e vocalista sul-africana, Thandi Ntuli, com Carlos Niño, um músico multi-instrumentista de Los Angeles, que aqui deixa marca na percussão e na produção. Thandi Ntuli gravou o seu primeiro disco em 2014 e depois regressou com um segundo disco em 2018 e um terceiro em 2022, tornando-se uma das mais interessantes protagonistas do jazz sul-africano. O seu novo disco é centrado no piano e na voz, com alguns apontamentos de percussão. É particularmente interessante ver como Ntuli toca o piano e usa a voz para o complementar de forma discreta ao longo dos dez temas que desenham este álbum. A forma como usa o piano faz por vezes lembrar um outro músico de jazz sul-africano, também pianista, Abdullah Ibrahim. O trabalho de Carlos Niño tem uma dimensão especial em “Voice and Tongo Experiment” enquanto o melhor exemplo da capacidade de improvisação de Ntuli é nas duas parte do tema “The One”, porventura o ponto alto do disco, com súbitas variações de ritmo do piano, uma voz que percorre  sonoridades mas não usa palavras e sublinha a intensidade da música. Ntuli gravou este “Rainbow Revisited” numa única tarde, com a colaboração de Carlos Niño, numa gravação ao vivo em estúdio.  Disponível nas plataformas de streaming.


 


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A LENDA DE MAO - Ao longo deste século a China foi assumindo uma posição cada vez mais proeminente na economia mundial e no jogo de força entre as maiores nações, estendendo a sua influência política por todo o planeta. “Mao - A História desconhecida” é uma extensa obra que nos permite seguir  as décadas em que Mao Tsé-Tung conquistou e ocupou o poder e estabeleceu a China como superpotência. Nascido em 1893, Mao teve ao longo dos seus 82 anos de vida e sobretudo a partir do final da década de 20 do século passado, um papel determinante na organização da República Popular da China. Este livro, editado originalmente em língua inglesa em 2005 teve a sua primeira edição em Portugal em 2013 e tem agora a sua segunda edição. O livro, com mais de 600 páginas, foi escrito por Jung Chang, autora de “Cisnes Selvagens” e por Jon Halliday, um historiador britânico que lecciona no King’s College. Jung Chang nasceu na China, na província de Sichuan, em 1952. Na sua juventude pertenceu ao Exército Vermelho, foi camponesa, depois operária, até se tornar estudante de inglês e, mais tarde, assistente na Universidade de Sichuan. A partir de 1978 passou a viver em Inglaterra e foi a primeira pessoa chinesa a doutorar-se numa universidade britânica. Esta biografia de Mao resulta de mais de uma década de pesquisa e de numerosas entrevistas com muitos que privaram com Mao na China e que com ele tiveram contactos relevantes no estrangeiro. Este é um impressionante documento, tanto no conteúdo e na pertinência das revelações, como na abordagem e numa visão totalmente nova do papel de Mao na história do seu país. Considerado um livro maldito e totalmente banido na China, “Mao - A História Desconhecida” põe em causa vários mitos como o da Longa Marcha, por exemplo, mostrando a forma como Mao Tsé-tung ascendeu ao poder e liderou a China num regime de coação, intriga e chantagem, ao mesmo tempo que revisita a história do comunismo. O livro explora a personalidade de Mao na sua atuação pública e política e revela as histórias desconhecidas (e por vezes verdadeiramente cruéis) da sua vida privada e íntima – com os filhos, as mulheres e as amantes. Edição Quetzal, tradução de Inês Castro.



FRUTA DOS DEUSES - Esta é a época do ano em que me delicio com uma das minhas sobremesas favoritas: dióspiros bem maduros, com a polpa abundantemente polvilhada de canela e comida à colher. O nome dióspiro vem do grego dyospiros, que apropriadamente significa alimento de Zeus, o pai dos deuses que exercia autoridade sobre o Olimpo. O dióspiro é uma fruta de outono, rica em vitamina A e minerais, com propriedades anti-oxidantes. A variedade mais dura do  dióspiro pode ser assada e temperado com canela, mas a forma como o prefiro é em salada. Há quem aproveite o sabor adstringente do dióspiro para o usar em vez de tomate numa salada caprese, com mozzarella fatiada, polvilhada de pimenta e sal. Também gosto dele, cortado em fatias finas, numa salada de salmão fumado, misturado com rúcula e alcaparras e, eventualmente temperada com iogurte, tudo salpicado com bagos de romãs, outra fruta do outono. Seja como for o dióspiro  é um dos frutos mais versáteis, que tanto pode ser aproveitado em doces e compotas como em saladas ou simplesmente comido sozinho como sobremesa. E já que estamos no Outono, por falar em romãs,uns bagos nas saladas podem fazer milagres e fazer explodir as papilas gustativas misturados no iogurte matinal.


 


DIXIT - “Em 20 anos Santos Silva não mexeu uma palha para melhorar o sistema de justiça, mas nunca parou de ver conspirações do Ministério Público contra o PS” - João Miguel Tavares.


 


BACK TO BASICS - “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir - Winston Churchill