
ESTÁ MONTADA A CONFUSÃO - Há pouco mais de um mês, ainda Costa não se tinha demitido, previa-se que o embate eleitoral mais próximo seria o das eleições europeias, em meados de 2024. De repente, em escassas semanas, Costa demite-se, o Orçamento dos Açores é chumbado, a Iniciativa Liberal retirou o apoio ao PSD local. Também no espaço de cerca de um mês o Presidente da República anunciou a dissolução da Assembleia da República e da Assembleia Regional dos Açores. As eleições para a Assembleia Regional dos Açores e para a Assembleia da República ocorrerão com pouco mais de um mês de intervalo, em Fevereiro e Março de 2024. Ao que tudo actualmente indica dificilmente se formarão maiorias claras, o que obrigará a coligações pós eleitorais. Nos dois casos, e com os resultados conhecidos das sondagens, o Chega ganha subitamente uma importância substancial em termos de votação, o mesmo é dizer no número de lugares obtidos em ambos os parlamentos e portanto do seu peso nas votações que ali se realizarem. A ver vamos quem resiste ao canto da sereia. O mais certo é que surjam soluções governativas fracas, dependendo de alianças forçadas e muito provavelmente instáveis. Passámos de um cenário de maioria absoluta para um cenário de nova fragmentação de votos. Pode acontecer que a instabilidade seja tal que tenha que se recorrer a curto prazo a novo acto eleitoral. Em 2025 já teremos, no final do ano, novas eleições autárquicas e não é impossível, se a crise se prolongar, que mais algum acto eleitoral surja. E, em Janeiro de 2026, teremos eleições presidenciais. Prevê-se portanto muita animação e muitos movimentos no tabuleiro de xadrez de políticos ambiciosos. Por falar nisto, teremos já em Fevereiro e Março o primeiro teste eleitoral simultâneo das novas lideranças do PS e PSD. E a ver vamos se os resultados vão implicar mudanças nesses partidos e como ficará o espectro político depois das legislativas.
SEMANADA - Um recente estudo europeu indica que mais de 84% dos portugueses acreditam que o seu nível de vida vai piorar em 2024; o preço das casas duplicou desde 2015; a população sem médico de família cresceu de 9,3 para 13,4% desde 2015; segundo a DECO, a ceia de Natal está 10% mais cara em relação ao ano passado; o PISA, um estudo da OCDE que avalia o estado do ensino em vários países, indica que o desempenho dos alunos portugueses caíu acentuadamente, desde 2018, nas áreas de Leitura, Matemática e Ciência e estes são os piores resultados portugueses desde 2006; a carga fiscal em Portugal voltou a subir em relação à média da OCDE; o primeiro período letivo está a chegar ao fim e mais de 32 mil estudantes têm ainda falta de professor a pelo menos uma disciplina; nas escolas públicas mais de 3500 docentes reformaram-se em 2023 e a partir de 1 janeiro saem mais 434; a Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República não tem meios para avaliar o custo de devolver anos de serviço aos professores; há 15 centros de saúde no país que não têm um único médico de família atribuído e 14 localizam-se na região de Lisboa e Vale do Tejo onde há mais de 1,1 milhões de pessoas nessas circunstâncias; mais de um terço dos portugueses já têm seguro de saúde; os 15 maiores municípios portugueses vão gastar cerca de 4,5 milhões de euros em iluminações e actividades de natal; segundo o Eurobarómetro mais de 60% dos portugueses temem manipulação dos resultados nas próximas eleições legislativas de Março.
O ARCO DA VELHA - Dos 14 padres suspensos após a entrega do relatório da Comissão Independente sobre abuso de menores, oito já voltaram ao activo e em 13 dioceses apenas a duas vítimas foi disponibilizado apoio psicológico.

ARTE RECICLADA - “Agora são cadeiras, depois logo se vê” é a nova exposição de Patrícia Garrido que está patente até 6 de Janeiro na Appleton - Associação Cultural (Rua Acácio Paiva 27). O trabalho (na foto) parte de peças de mobiliário antigas, neste caso cadeiras, que a artista desmonta, corta em pedaços e que depois reutiliza para criar esculturas feitas a partir dessa madeira reciclada, em formas que subvertem a função original e desafiam um novo olhar sobre a transformação do quotidiano. Garrido tem utilizado este mesmo princípio de reaproveitamento de materiais para explorar várias linhas do seu trabalho, como “Interior”, uma peça exposta em 2022 na Giefarte, a partir de antigas traves metálicas de prateleiras industriais, criando uma teia que ocupava quase todo o espaço da galeria. Também já este ano apresentou na Galeria Miguel Nabinho “Doze Quartos e Famílias Felizes”, onde, para além de uma série de pinturas sobre papel, apresentou um conjunto de construções feitas a partir de madeiras recuperadas de obras. Ainda na Appleton está patente mais uma exposição baseada na colecção da Fundação Carmona e Costa, “Álbum de Família”. Se estiver no Porto não perca, até 30 de Dezembro, a oportunidade de ver o trabalho de um artista plástico albanês, Edi Rama, que desde 2013 é o primeiro-ministro do país, vencedor de três eleições sucessivas. Na Galeria Nuno Centeno, no Porto, pode ver a sua obra, na exposição “Welcome”, marcada por uma explosão de cores. Segundo Edi Rama, “A política, dentro da sua insanidade, consegue tornar a arte ainda melhor”.

65 GRANDES CANÇÕES -Sérgio Godinho é um cronista das nossas vidas e para assinalar os 50 anos de actividade surgiu agora uma nova compilação, “SérgioX3”, que reúne diversos passos da sua carreira em 3CD’s e que mostra 65 das suas canções. O primeiro, disco“Estúdio”, junta temas que se destacaram nos seus 18 álbuns de originais gravados em estúdio; o segundo, “Ao vivo”, é centrado na sua actividade em palco, inclui momentos captados a partir de 1990 e até aos nossos dias; e o terceiro, intitulado “Avulsos (e outras colaborações)”, reúne gravações dispersas e colaborações que o músico foi concretizando ao longo da sua actividade. No primeiro disco estão temas como ”Liberdade”, “À Queima Roupa”, “O Primeiro Dia”, “Com Um Brilhozinho Nos Olhos” ou”Às vezes o Amor”. No disco que reúne gravações ao vivo encontramos alguns dos seus melhores momentos em palco em diversos locais e com várias formações - incluindo um registo inédito de “O Galo É Dono dos Ovos” numa versão em palco apenas acompanhado pelo piano de Filipe Raposo. Há temas retirados de discos gravados no Instituto Franco-Português, em 1990, ou os captados no Teatro São Luiz, em 2014 e 2018, quer com acompanhamento ao piano e ao baixo, quer com arranjos mais elaborados que envolvem os Assessores, a sua banda há cerca de duas décadas, na companhia da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Em “Avulsos (e outras colaborações)”, o terceiro disco desta compilação, surgem velhas canções populares quase esquecidas que Sérgio Godinho recuperou, colaborações com pares de distintas gerações, do seus contemporâneos (José Mário Branco, José Afonso, Jorge Palma ou Fausto) até às gerações que lhes sucederam (entre outros, Clã, David Fonseca, Samuel Úria, Bernardo Sassetti ou Filipe Raposo). E há ainda uma surpresa, que aliás é o tema de abertura do terceiro disco, uma versão remasterizada de “Nós por cá todos bem”, a canção do filme com o mesmo título assinado por Fernando Lopes, datada de 1977 e recuperada para esta edição. Disponível em streaming.

UM OUTRO OLHAR - Conheci Rita Barros pelas fotografias de reportagem nos Estados Unidos, e em particular em Nova Iorque, que assinava no “Expresso”. Mais tarde fui descobrindo outros trabalhos seus para revistas e publicações norte-americanas, algumas exposições e livros. Rita Barros vive em Nova Iorque desde 1980. E é sobre a sua obra que surge agora o 12º volume da colecção Ph. No livro podemos encontrar algumas das suas séries de fotografia como “The last cigarette” de 2004 ou “Presence of Absence” de 2005/06 mas também outras inéditas, como “Flowers” de 2023, criada especificamente para ser publicada neste livro. “Interessou-se por olhar para o interior dos apartamentos e fotografar a sismografia das vivências individuais dos seus amigos e vizinhos, residentes e ocasionais” do Chelsea Hotel, onde Rita vive, descreve Susana Lourenço Marques no texto introdutório desta edição, que percorre a obra de Rita Barros, desde os anos 80 até à atualidade. O Chelsea Hotel, o seu espaço e os seus habitantes foi aliás o tema de um dos seus livros anteriores. Rita Barros estudou e lecciona fotografia em Nova Iorque e a sua primeira exposição individual ocorreu em 1987, tendo exposto regularmente a partir daí, e a sua obra está presente em diversas colecções institucionais e particulares. Neste Ph.12 é mostrada uma faceta menos conhecida do seu trabalho, muito em torno da autorrepresentação, da teatralização da sua própria vida e da revelação da intimidade do seu espaço. Desde o início do presente século tem sido esta a sua área de trabalho e é ela que marca decididamente esta edição.
OS ENGANOS - Num destes dias li um curioso artigo no jornal britânico “The Guardian”, de um dos críticos gastronómicos da publicação, onde relatava a sua frustração com a maioria dos novos restaurantes e como, cada vez mais, vai à procura de um bom pub clássico que sirva comida tradicional. Ao longo dos últimos dois anos passa-se o mesmo comigo e são muito poucas as vezes em que dei por bem empregue o dinheiro e o tempo de ir experimentar novos restaurantes. Na maior parte das vezes o conceito ultrapassa a atenção ao cliente, no serviço, nos produtos e na confecção. Tenho pois a tendência de ir frequentando os locais em que tenho confiança, onde nunca me enganaram, onde sei que sou bem recebido e bem servido. Abro algumas excepções quando críticos gastronómicos locais em quem confio, como Ricardo Dias Felner e Fortunato da Câmara, aconselham experiências que lhes agradaram. Por via de regra evito os convites e press releases de agências de comunicação que promovem o lançamento de novos espaços e não me tenho dado mal com esta grelha de funcionamento. Mais vale uma boa refeição num local tradicional do que uma desilusão num restaurante da moda. Há uns anos um amigo meu resumia a situação assim: a nova vaga de restaurantes não trabalha para ter clientes regulares, trabalha para atrair turistas e incautos, não se preocupam em saber se o cliente se sente bem e vai querer voltar.
DIXIT - “Liberalismo sem poder é diletantismo” - Miguel Pinheiro
BACK TO BASICS - “Não é de admirar que as pessoas se afastem da política quando ano após ano ouvem os políticos fazer promessas que nem sequer tencionam cumprir” - Bill Clinton