janeiro 28, 2022

A UTILIDADE DA MUDANÇA

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ALTURA DE MUDANÇA - As eleições de domingo são uma ocasião para cada um de nós manifestar o que deseja: se queremos continuar no sentido do empobrecimento ou se queremos dinamizar a economia e fazer crescer o país. Em resumo, se queremos uma mudança no rumo que tem sido seguido. Desde 2015, quando António Costa montou a geringonça, e segundo dados oficiais da União Europeia, fomos ultrapassados pela Estónia, Lituânia, Hungria e Polónia. Estamos praticamente na cauda da Europa. Um outro estudo da Comissão Europeia indica que a carga fiscal em Portugal aumentou desde que o PS é Governo para 34,7% do PIB, o que significa uma das maiores cargas fiscais europeias face ao rendimento per capita, começando logo nos escalões mais baixos, Nos últimos 26 anos, desde 1995, tivemos 19 anos de governos liderados pelo Partido Socialista, um dos quais chamou a Troika, e 7 anos de governos liderados pelo PSD. A situação é esta: temos uma muito elevada dívida pública que continua a aumentar, uma sociedade que está dependente dos financiamentos e subsídios da Europa. Nos últimos anos a sociedade ficou ainda mais rígida, com maior peso do Estado. Temos uma justiça que não funciona, uma educação que se degrada, anos de desinvestimento nas principais funções que o Estado deve assegurar. Temos, ainda segundo estudos internacionais, um sério problema de corrupção no Estado, que não tem registado melhorias. Continuamos a agravar desigualdades, a penalizar a classe média e sem capacidade para proteger os mais fracos. Por isso mesmo a decisão de 30 de Janeiro tem a ver com saber se queremos continuar na mesma ou dar uma oportunidade à mudança. Por mim desejo uma mudança que possa fazer reformas essenciais para o nosso desenvolvimento.


 


SEMANADA - No ano passado, em Lisboa, cerca de duas centenas de pessoas morreram sem que os seus corpos tivessem sido reclamados, o maior número desde 2009; no início desta semana quase um milhão de pessoas estava em isolamento devido ao covid-19, mais de 9% da população; o valor das indemnizações pedidas ao Estado nos tribunais administrativos, por cidadãos e empresas,  atinge já 4,5 mil milhões de euros; nas prisões portuguesas verificaram-se em cinco anos mais de 300 mortes e só em 2020 foram sinalizados 1386 reclusos em risco; desde o início deste  ano já  morreram nas prisões sete reclusos, e duas destas mortes foram reportadas como suicídios; cerca de 200 adeptos estão impedidos de entrar em recintos desportivos devido à participação em actos violentos; em 2021 foram recebidas 1160 denúncias de cibercrimes, o dobro do verificado em 2020; 14 albufeiras portuguesas estão 40% abaixo do seu nível normal e a seca está já ter efeitos na agricultura e na qualidade da água; no final de 2021 havia cerca de 35 mil desempregados inscritos nos setores do alojamento, restauração e similares e o seu número subiu nos últimos dois meses do ano; em 2021 foram vendidos 190 mil móveis no valor de cerca de 30 mil milhões de euros, um aumento de transacções de 18% face a 2020; em 2021 a TAP teve três vezes menos passageiros do que em 2019; 45% das empresas portuguesas apresentaram resultados negativos em 2020, o que compara com 36,9% em 2019; desde Janeiro ​​os preços da gasolina e do gasóleo já aumentaram quatro vezes e encher o depósito do carro ficou cinco euros mais caro; o número de pequenos partidos está a crescer desde 2009, em 46 anos mais de meia centena de partidos apresentaram-se a eleições, mas só 13 conseguiram eleger deputados.


 


O ARCO DA VELHA - A Igreja do Convento de São Francisco, em Bragança, classificada como Imóvel de Interesse Público, com uma rica colecção de arte sacra e frescos medievais, foi vendida em leilão na sequência de uma penhora por dívida a um empreiteiro e desconhece-se o comprador.


 


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TESTEMUNHOS FOTOGRÁFICOS  - Daniel Blaufuks apresenta no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (Campo Grande) a exposição “Lisboa Cliché”, uma seleção de 80 fotografias de entre as mais de 300 que integram o livro com o mesmo nome, lançado no ano passado. As imagens, feitas entre o final da década de 1980 e o início dos anos 90, mostram espaços, ambientes e pessoas de uma Lisboa a preto e branco, evocando locais como o Frágil, o British Bar, a Cinemateca, a Versailles e a Trindade. A exposição estará patente até 27 de Fevereiro. Antes de publicar o livro que enquadra estas imagens com textos do próprio Blaufuks, as fotografias foram publicadas numa conta de Instagram também intitulada “Lisboa Clichê”, que acabou por desencadear o livro e esta exposição. Blaufuks tem trabalhado sobre a relação entre a memória pública e a memória privada e tem exposto em museus, galerias de arte contemporânea e festivais, trabalhando principalmente com fotografia e vídeo. Em 2016 recebeu o prémio AICA pelas exposições Tentativa de Esgotamento e Léxico e a relação entre a memória e o Holocausto tem atravessado o seu percurso criativo. Outro destaque desta semana vai para  «Last Folio», de Yuri Dojce e Katya Krausova, no Museu Berardo. Inaugurada no Dia Internacional em Memória do Holocausto, a exposição mostra  um conjunto de fotografias que documentam os últimos testemunhos de uma cultura e da história de um povo, uma história que foi brutalmente interrompida quando das deportações dos judeus para os campos de concentração, em 1942. São imagens marcantes de ruínas de escolas, de sinagogas, de livros e de objetos. A exposição inclui ainda um conjunto de retratos contemporâneos de sobreviventes do Holocausto e um filme sobre as cicatrizes da tragédia nazi e da destruição da cultura judaica. E em Coimbra, na Antiga Sala do Capítulo do Convento de São Francisco, Nuno Cera apresenta até 27 de Março “As Quedas/The Falls”, um trabalho de vídeo e fotografia realizado nas cataratas do Niagara.


 


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O ENCANTO DE UMA PEQUENA NOVELA - Escrita no exílio francês de Joseph Roth e publicada no jornal parisiense de língua alemã Pariser Tageblatt, em 1935, a novela O Busto do Imperador constitui, por um lado, uma tentativa de fuga da realidade que se vivia na altura na Alemanha e na Áustria, por outro, representa uma defesa utópica dos valores de tolerância resultantes do cosmopolitismo, traço essencial do Império Austro-Húngaro. É uma novela encantadora que parte da pequena aldeia de Lopatyny, situada na antiga Galícia Oriental, onde o próprio Roth nasceu, e em que vive o velho conde Franz Xaver Morstin. O fidalgo, relíquia do derrotado Império Austro-Húngaro, é obrigado a conformar-se com a diminuição do seu estatuto e com as trágicas mudanças ocorridas na Europa após a Primeira Guerra Mundial. Só um busto em arenito barato, representando a figura do Imperador Francisco José, feito «pela mão desajeitada dum jovem camponês» e colocado em frente à sua casa lhe dá a vã ilusão de nada ter mudado


Publicada agora na Assírio & Alvim, com tradução a partir do alemão, notas e introdução de Álvaro Gonçalves, esta edição abarca uma cronologia da vida e obra de Joseph Roth, bem como uma carta do autor a Gustav Kiepenheuer, o seu editor alemão.


 


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UMA INSPIRAÇÃO FOLK - Aoife O’Donovan vem de uma família irlandesa que emigrou para os Estados Unidos e cresceu a ouvir canções do seu país, muitas delas com uma clara inspiração celta. O’Donovan recorda-se que o seu pai, além da música irlandesa, ouvia discos de nomes como Joni Mitchell ou Suzanne Vega. Depois de estudar música no New England Conservatory, Aoife O’Donovan cantou com uma banda folk, os  Crooked Still, e foi co-fundadora de um trio feminino, I’m With Her. Agora com 39 anos, ela tem trabalhado com numerosos músicos de diversos géneros, do folk ao jazz, passando pela pop, participando em muitas digressões como vocalista convidada.. O seu primeiro disco em nome individual foi gravado em 2010 e agora surge “Age Of Apathy”, o terceiro álbum a solo, uma colecção de canções envolventes, simultaneamente íntimas e desafiadoras, autobiográficas e metafísicas. Musicalmente a presença da herança folk é muito grande, mas O’Donovan não hesita em surpreender com melodias inesperadas ou súbitas mudanças de ritmo. Neste disco ela foi buscar para a produção Joe Henry, que já assinou trabalhos de nomes como Bonnie Raitt, Joan Baez, Bettye LaVette, Elvis Costello e Allen Toussaint. Gravado ao longo de um ano, “Age of Apathy” é talvez o seu trabalho mais pessoal. As 11 canções deste disco, muitas onde se nota a influência de Joni Mitchell,  falam de viagens, de memórias de actuações, do sentimento experimentado em momentos marcantes da sua vida, da sua experiência durante as digressões com outros músicos, do papel que a música tem na sua vida. 


 


OUTRO FRANGO - Gosto muito de frango assado de churrasqueira e acho que proporciona uma boa base para cozinhados - desde salada a arrozes, passando por massa. E é de um frango assado desfiado com massa que vou falar. Num tabuleiro de ir ao forno, que aqueci previamente,  coloco uma meia dúzia de tomates cherry cortados em metades com folhas de espinafres frescos. Por cima ponho uma massa como o penne, que já cozi previamente, deixando-a ainda rija. Depois vai o frango desfiado e por cima uma chávena de chá de um molho feito com mostarda, azeite, tomate em pasta e um pouco da água da cozedura da massa. Mexa tudo muito bem mexido, tempere a gosto com sal e pimenta e no fim, por cima de tudo, deite uma camada generosa de mozarella aos pedaços. Vai ao forno até perceberem que o queijo derreteu e está a ficar tostado. Bom apetite.


 


DIXIT - “Quanto menos produtivos formos, menos actividade mantemos e atraímos, mais portugueses qualificados emigram e pior serão as condições de vida dos que restam” - António Nogueira Leite


 


BACK TO BASICS - “Não é de admirar que as pessoas desprezem a política quando, ano após ano, ouvem os políticos fazerem promessas que não se concretizam porque nem sequer são feitas com intenção de se executarem - são fantasias eleitorais para vencer eleições mas que não fazem os países prosperar “ - Bill Clinton






 








janeiro 21, 2022

COSTA: O PROBLEMA DA MEMÓRIA

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O COSTISMO - Pode acreditar-se numa pessoa que diz uma coisa e depois faz o seu contrário? Passo a citar António Costa: “Há 20 anos o que era governar à esquerda? Governar à esquerda era, em primeiro lugar, fazer nacionalizações. Hoje em dia nenhum partido socialista da Europa entende que as nacionalizações são instrumentos adequados à execução da sua política. Os últimos que entenderam isso foram os socialistas franceses em 1981 e, em 1984, iniciaram as privatizações das nacionalizações porque perceberam, e percebeu-se, que o instrumento nacionalização, ou seja a apropriação pelo Estado de determinados bens de produção, não alterava nem as relações de produção na empresa, nem alterava o papel das pessoas dentro da empresa, nem assegurava sequer uma maior redistribuição de riqueza”. Estas palavras foram ditas por António Costa a 27 de Janeiro de 1997, numa entrevista que Pedro Rolo Duarte lhe fez no programa “Falatório”, na RTP2. Ela está disponível on-line no arquivo da RTP, a afirmação citada pode ser ouvida ao minuto 18’35” da segunda parte dessa entrevista. E pouco antes, respondendo a outra questão de Pedro Rolo Duarte, sobre a esquerda, afirmava António Costa: ”PS e PC são duas famílias dentro do que designa habitualmente a esquerda. São hoje claramente duas famílias distintas porque houve uma fronteira, que se foi traçando ao longo de décadas, que era uma fronteira que foi traçada pela questão da liberdade”. O mote para estas respostas de António Costa foi dado pela citação que Pedro Rolo Duarte fez de declarações feitas na época, na entrevista a um jornal, por Manuel Alegre: “Estou cansado e saturado da política à portuguesa, os valores estão virados do avesso e os políticos têm horror à ideologia e pânico da política. Há muita cobardia, um carreirismo desbragado, canalhices e tanta gente rasteirinha. Tudo isto perverte os partidos e a própria democracia”. 


 


SEMANADA - No ano passado 438 mil condutores perderam pontos na carta de condução, um aumento de infracções de 80% face ao ano anterior; em 2021 as infracções às normas da inspecção periódica a veículos aumentou 53%; o aumento anual da reforma levou 53 mil pensionistas a perderem rendimentos por terem passado para o escalão seguinte do IRS; a avaliação anual da qualidade do ar está há seis meses à espera da Direcção Geral da Saúde; mais de meio milhão de pessoas estavam isoladas no final da semana passada devido à pandemia; no início da semana Portugal era o quarto país da Europa com mais infecções registadas diariamente; a Comissão Nacional de Protecção de Dados aplicou uma multa de 1,2 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa devido à comunicação de dados pessoais de promotores de manifestações repetidamente realizada pela gestão de Fernando Medina na autarquia; as vendas de vinho em Portugal no ano passado ficaram 19% abaixo do período pré-pandemia; o número de reclusos com mais de 60 anos quase triplicou nos últimos 12 anos; os casos de violência doméstica são a causa da atribuição de mais de metade das pulseiras eletrónicas; 94% do território nacional já está em seca meteorológica; o preço das casas em Portugal subiu 57% desde 2010; e as rendas aumentaram 24% no mesmo período; um quinto das vagas para estágios na função pública está por preencher; um estudo recente indica que a actividade política absorve mais de 500 funcionários públicos por ano e o Estado desperdiça mais de 30% da despesa graças à proliferação de “jobs for the boys”; os aeroportos nacionais tiveram em 2021 menos de metade dos passageiros de 2019; metade das vagas para médico de família na região de Lisboa e Vale do Tejo ficaram por ocupar; os serviços públicos foram alvo de 16 mil reclamações em 2021 no Portal da Queixa, um aumento de 19% face a 2020.


 


O ARCO DA VELHA - No caso de Tancos, o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, foi absolvido por, no entender do juiz, não ter percebido o que leu no memorando do director da Polícia Judiciária Militar.


 


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LEITURAS COMPLEMENTARES - Esta semana destaco dois livros que têm em comum serem particularmente adequados aos tempos que vivemos, não só na Europa, mas também aqui em Portugal. Começo pela filósofa francesa Simone Weil e o seu ensaio “A Pessoa E O Sagrado”, escrito no último ano da sua vida, em 1943. Para Simone Weil, «há em todo o homem algo de sagrado, mas não é a sua pessoa. Também não é a pessoa humana. É ele, aquele homem, simplesmente». Na apresentação do livro, agora editado na colecção Livros Vermelhos da editora Guerra e Paz, escreve-se: “Na obra, a filósofa parte das suas mais essenciais assunções filosóficas – a beleza, a justiça e o mal – para este debate sobre a «pessoa», convocando também o direito e a democracia e isolando-a de qualquer colectividade, partido ou instituição”. Portugal terá sido o país que representou um ponto de viragem do pensamento de Weil. Na Póvoa de Varzim, assistiu a uma procissão católica em 1935. Um cortejo de mulheres de pescadores, vestidas de negro, percorria a praia, em luto, promessas e orações pelos maridos, e esses cantos, «de uma tristeza lancinante», segundo palavras suas, abriram nela a ferida mística que não mais a largaria. Albert Camus considerou-a  «o único grande espírito do nosso tempo».


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O segundo livro que hoje trago é precisamente uma recolha de textos de conferências e discursos proferidos por Albert Camus. O livro "Conferências e Discursos" reúne os trinta e quatro textos proferidos publicamente, ao longo de mais de vinte anos, por Albert Camus, incluindo o discurso pronunciado por ocasião do Prémio Nobel da Literatura 1957. Com exceção da reflexão sobre «a nova cultura mediterrânica», de 1937, todas estas comunicações foram realizadas no pós-guerra, resultado de solicitações que se foram multiplicando à medida que crescia a notoriedade do escritor e a vontade de ouvir o seu ponto de vista sobre as mudanças mundiais em marcha. Termino com uma frase de Camus, particularmente actual: «Prefiro os homens empenhados às literaturas empenhadas. Coragem na vida e talento nas obras, já não é assim tão mau.»


 


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A ESCRITORA E O REALIZADOR - “O Princípio da Incerteza” é uma exposição centrada na parceria criativa que uniu Agustina Bessa-Luís a Manoel de Oliveira ao longo de quatro décadas. Por ocasião do centenário de Agustina, que se evoca este ano, a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, em Serralves, criou uma mostra onde acompanha os dez textos de Agustina que habitam a obra de Oliveira: cinco romances, dois diálogos, uma peça de teatro, um conto e um discurso lido pela própria escritora. A exposição é constituída por três áreas distintas: uma antecâmara com uma seleção de depoimentos de ambos os autores, através dos quais é possível antever como um e outro se foram posicionando relativamente ao trabalho que conjuntamente desenvolveram; uma sala onde é projetado, em contínuo, o registo vídeo de uma longa conversa entre a escritora e o cineasta, gravada em 2006; e uma terceira sala que, além de sequências fílmicas  integra vitrines com documentação e outros objetos, distribuídos por 10 núcleos organizados cronologicamente e correspondentes a cada um dos títulos resultantes da colaboração entre Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira.


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Para além de documentos de trabalho, rascunhos e manuscritos inéditos da autora, muitos anotados por Manoel de Oliveira (na imagem duas páginas de “Vale Abraão”), está ainda exposto todo um conjunto de elementos – anotações, esboços, fotografias, guiões e outros materiais que dão conta dos procedimentos adotados pelo cineasta quanto à transposição cinematográfica dos escritos de Agustina, bem como dos seus métodos de trabalho. Esta seleção é complementada por toda a correspondência trocada entre ambos ao longo de cerca de quarenta anos, que nunca antes havia sido exposta, sendo igualmente de referir uma ampla seleção de itens bibliográficos, documentos e objetos colocados em diálogo com cada um dos projetos que compõem o universo literário-cinematográfico criado pelos dois autores. Esta exposição, “O Princípio da Incerteza”, que fica patente até 5 de Junho, é acompanhada por um belíssimo catálogo que reproduz muito do material exposto.


 


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A TRANSFORMADORA DE CANTIGAS   - Cat Power gosta de fazer versões de músicas alheias. Tem a particularidade de muitas vezes as transformar por completo, criando quase novas canções - foi o que já aconteceu em 2000 no álbum “The Covers Record”, com a sua versão de “Satisfaction”, um original dos Rolling Stones ou “I Found A Reason” dos Velvet Underground. Mais tarde, em 2008, com “Jukebox”, ela percorreu temas de folk, country e blues de autores como Hank Williams, Joni Mitchell ou Jessie Mae Hemphill. Cat Power, Chan Marshall de seu nome, acaba de editar a sua terceira coletânea de versões, singelamente intitulado “Covers”. Aqui estão originais de Frank Ocean, Lana Del Rey, Nick Cave e até uma nova versão de um dos seus próprios temas - “Hate”, que passou agora a “Unhate.” Este novo “Covers” é talvez o seu disco com  um leque mais alargado de inspirações e é o que melhor mostra o seu talento de reinventar canções. Veja-se o que fez a “The Endless Sea” de Iggy Pop, que inclui uma evocação  de “Dirt” dos Stooges, até “I Had A Dream Joe” de Nick Cave, passando por um arrebatador “A Pair Of Brown Eyes” dos Pogues, ou à balada “These Days” de Jackson Browne, que já tinha sido interpretada por Nico. Nesta linha ouça-se ainda “I’ll Be Seeing You”, uma canção de amor popularizada nos anos 40 por Billie Holiday. Mas também pode ouvir como ela recria “Bad Religion” de Frank Ocean, uma melancólica interpretação de “White Mustang”, de Lana Del Rey, ou uma versão emocionante de “Here Comes a Regular”, dos The Replacements. O disco inclui ainda uma das canções que tem interpretado mais ao vivo, uma versão de “Pa Pa Power” do efémero projecto Dead Man’s Bones, do actor Ryan Gosling, um tema de protesto que se tornou o hino da campanha Occupy Wall Street. Ao longo da sua carreira Cat Power recolheu já inspiração em temas de Bob Dylan, Duke Ellington, Liza Minnelli ou dos Creedence Clearwater Revival. E cada uma das suas versões, como poderão constatar neste “Covers”, é uma nova canção. Disponível em streaming.


 


DIXIT - “A justiça jamais se reformará a ela própria” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “É fundamental ter boa memória para se ser capaz de cumprir as promessas que se fazem” - Friedrich Nietzsche


 




janeiro 14, 2022

COLOCAR OS OVOS TODOS NO MESMO CESTO?

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LIBERDADE DE MOVIMENTOS - Os debates eleitorais têm tido audiências acima do esperado, sobretudo quando comparados com debates de anteriores e recentes campanhas eleitorais. Com a pandemia a impedir uma campanha eleitoral tradicional, de rua, as atenções concentram-se nos debates transmitidos pelas três estações generalistas e por canais de cabo. Alguns candidatos jogam tudo: preparam-se muito bem e conseguem marcar os adversários políticos de forma metódica. Estão neste caso Catarina Martins e Rui Tavares à esquerda e Cotrim de Figueiredo, à direita. Os três não têm dado tréguas e frequentemente entalam quem está do outro lado da mesa. António Costa segue o método da cassete que não muda e fica tudo na maioria absoluta que pretende alcançar. O seu discurso varia pouco, é repetitivo e esgota-se ao fim de pouco tempo. Não muda o registo qualquer que seja o oponente e, surpreendentemente, foi mais agressivo para Jerónimo de Sousa do que para André Ventura. Este último, Ventura, é ainda mais redutor e vazio de conteúdo, fechado num pequeno círculo de ideias, com o único objectivo de provocar os seus adversários. Rui Rio pelo seu lado foi o líder partidário que arrancou pior nos debates, enrolando-se nas palavras e não conseguindo passar uma mensagem coerente. Teve azar, porque a sua pior prestação foi precisamente no debate que teve a maior audiência até agora, quando contracenou com Catarina Martins. E Francisco Rodrigues dos Santos lá se vai queixando, mantendo a linha de patinho feio que anda a seguir na sua comunicação desde meados de Dezembro. Vamos ver como corre a substituição de Jerónimo de Sousa, que, sabe-se agora tinha uma situação clínica que contribuíu para prestações abaixo do que é seu hábito. Estou em crer que a inteligência colectiva faz com que as pessoas numa situação destas não queiram juntar os ovos todos na mesma cesta e prefiram manifestar diferenças. A grande questão é que, como se viu nas autárquicas, já não há seguidores fiéis e talvez por isso as pessoas procuram nos debates alternativas ao que têm votado. Há no ar o sentimento de que os eleitores querem saber se há alternativas, querem ter liberdade de movimentos e têm receio de ficarem restringidos a uma só pessoa, a uma só entidade. A abstenção vai ser decisiva neste jogo. Quanto maior a abstenção, menor a probabilidade de concentração de votos. 


 


SEMANADA - Segundo a OMS a Ómicron pode infectar mais de metade dos europeus nas próximas semanas; desde o início da pandemia a Ordem dos Enfermeiros recebeu mais de dois mil pedidos de declarações para emigração; no Serviço Nacional de Saúde foram feitos 22 milhões de horas extra no ano passado; no início do segundo período escolar ainda há 118 horários por preencher o que afecta entre cinco a seis mil alunos e Lisboa continua a ser a zona onde há mais carência de docentes; em 2021 reformaram-se quase dois mil professores, o valor mais elevado desde desde 2013; os pedidos de vistos gold caíram 31% no ano passado; no primeiro dia de canais abertos para denúncias de abusos sexuais na igreja católica portuguesa foram validados cerca de 50 testemunhos; um estudo recente indica que Portugal é o país que vai ter a população mais envelhecida da Europa em 2050; Portugal é o terceiro país da Europa com maior dívida pública, atrás da Itália e da Grécia e é um dos países da europa com menor produtividade; nas últimas duas décadas o PIB per capita português foi ultrapassado por Malta, República Checa, Eslovénia, Lituânia, Estónia, Polónia e Hungria; o programa mais visto da semana passada foi o debate entre Catarina Martins e Rui Rio, que obteve 1,4 milhões de espectadores, mais que “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” ou o “Big Brother”; já o debate entre Catarina Martins e António Costa teve cerca de um milhão de espectadores; em 2021 dos 233 filmes estreados comercialmente em sala, 16 foram de produção portuguesa;  o filme mais visto em Portugal em 2021 foi “007: Sem Tempo Para Morrer”, que conseguiu 435 mil espectadores; O filme português mais visto foi “Bem Bom”, de Patrícia Sequeira, sobre as Doce, com 89 mil espectadores, 


 


O ARCO DA VELHA -  Um estudo da Marktest indica que cerca de um  milhão de mulheres portuguesas diz terem feito dieta nos últimos 12 meses.


 


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VER JORGE PINHEIRO - O destaque desta semana vai para uma retrospectiva da obra de Jorge Pinheiro, agora com 90 anos, que abriu esta semana na Galeria Miguel Nabinho, com o título “Introspectivamente”. A exposição, que ficará na Galeria até 4 de Fevereiro, inclui cerca de três dezenas de obras de Jorge Pinheiro, feitas entre 1961 e 2016. Na imagem está um óleo sobre madeira, sem título, de 1969. Miguel Nabinho, o galerista, sublinha que a exposição percorre o percurso do artista na parte mais abstrata do seu trabalho, permitindo compreender a pertinência e a contemporaneidade da sua obra em cada época da sua criação. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão, 18B. Outras sugestões: no Porto, na Galeria Fernando Santos, até 12 de Março, “Amanhã” é o título de uma exposição, que resulta de uma conversa entre os artistas Pedro Valdez Cardoso e Nuno Sousa Vieira. Na mesma Galeria, Pedro Valdez Cardoso apresenta “Luvas Brancas”, uma exposição que integra obras que vão de 2003 a 2021, a maior parte inéditas ou nunca expostas.  A Galeria Fernando Santos fica na Rua Miguel Bombarda 526-536; e na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101) Luis Brilhante apresenta “Ilhas vistas do mar parecem pinturas”, em exposição até 26 de Fevereiro. Finalmente a Ato Abstrato (Rua de São Sebastião da Pedreira) apresenta até 18 de Fevereiro a exposição “Chão”, de João Ferreira, Mário Caeiro e Thierry Ferreira.


 


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O MISTÉRIO DO DIAMANTE- No princípio era um diamante. Um diamante misteriosamente desaparecido, que estava nas mãos da família Dain Legett. O seu desaparecimento coincidiu com um outro desaparecimento, o da bela herdeira da família, Gabrielle, que assim se torna a principal suspeita. Este é o pano de fundo de uma das obras de referência de Hammett, considerado o criador do policial negro e um dos mais importantes autores do género. Nascido em 1894, morreu em 1961 e deixou uma extensa obra que vai desde os romances policiais a numerosos contos publicados em diversas revistas e argumentos para filmes. Publicado originalmente em 1929, “A Maldição dos Dain” coloca em cena um detetive privado da agência Continental, nunca tratado pelo seu nome, sempre por Continental Op, personagem nascida num conto da revista “Black Mask” de 1923. Neste livro há crimes, muitos crimes que se sucedem uns aos outros. Crimes com armas brancas, com armas de fogo, com explosivos. Há suspeitos, muitos também, que vão mudando no decorrer da história. E há o detective, de que nunca sabemos o nome, que escapa sempre a tudo. Por fim há a jovem rapariga em redor de quem tudo se passa, uma daquelas heroínas românticas, viciada em morfina, que acredita estar amaldiçoada e cuja simples existência parece ameaçar a vida de todos os que a rodeiam. Este é um clássico do livro policial - se nunca leram Dashiell Hammett esta é uma boa oportunidade de conhecerem o seu trabalho - e a tradução de Dora Reis, nesta nova reedição da histórica colecção Vampiro, é um bom pretexto para os amantes de enigmas intrincados.


 


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POP RADIO - The Weeknd, aliás Abel Tesfaye, concebeu o seu novo álbum, o quinto, como se fosse uma emissão de uma estação de rádio focada no pop de antigamente, ou retro-pop, se preferirem. “Dawn FM”, o álbum, é bem diferente do trabalho anterior, “After Hours”, editado em 2020. Enquanto este era um disco pensado para levar as pistas de dança a casa de cada ouvinte fechado no confinamento de então, “Dawn FM” tem 16 canções pop, entre ritmos e melodias, marcadas por este tempo em que vivemos, entre a pandemia e o caos que se espalhou pelo mundo. Muito bem produzido e interpretado, Abel Tesfaye fez-se acompanhar por um conjunto de notáveis: desde logo Jim Carrey que faz o papel do locutor da rádio imaginada, falando entre as canções. Mas aparecem também colaborações de nomes como Quincy Jones, o Beach Boy Bruce Johnston, Lyl Wayne ou Tyler, The Creator. Cheio de citações de tempos musicais passados é possível identificar evocações de Barry White, Prince ou Marc Bolan. Só mesmo The Weeknd podia lembrar-se de um cocktail destes. As canções, todas as 16, são boas. Mas vale a pena destacar uma balada como “Out Of Time”, o electro pop de “How Do I Make You Love Me?” ou o disco de “Take My Breath”. Não há muitos discos assim, quase perfeitos nas intenções e no resultado final.





A BELA LAMPREIA - Inesperadamente, um prazer que estava há dois anos confinado, revelou-se esta semana em todo o seu esplendor. Falo da lampreia, esse maravilhoso animal que desencadeia paixões, receios e ódios. O feliz acontecimento deu-se a convite de um bom amigo no restaurante “O Gaveto”, em Matosinhos. O ciclóstomo era de bom porte e pôde ser apreciado vivo no aquário antes de proporcionar prazer a alguns convivas. Escolheu-me a modalidade bordalesa, os pedaços de lampreia cozinhados a preceito, com arroz branco à parte, umas fatias de pão frito de lado. O Gaveto é bem conhecido pela qualidade do seu peixe e mariscos, fresquíssimos e muito bem confeccionados. Mas é também elogiado pelas especialidades sazonais que proporciona, de pratos de caça ao sável frito, passando pela caldeirada e, claro, a lampreia. O petisco começa a aparecer em meados de Janeiro, vindo do Minho e, com sorte, encontra-se até ao final de Março, início de Abril. Em 2020 e 2021 os confinamentos desses meses impediram-me de o provar, mas uma bendita viagem ao Porto levou-me até este templo, em Matosinhos.  O Gaveto fica na Rua Roberto Ivens 826 e o telefone é o 229 378 796. Para quem não gostar de lampreia há um elogiado arroz de lavagante que é também um dos ex-libris da casa. Este ano a lampreia já ninguém me tira.



DIXIT - “O Ministério da Cultura preocupa-se com o que dá nas vistas, mais do que com o que faz falta” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Dois tigres não podem partilhar a mesma montanha” - provérbio chinês.








janeiro 07, 2022

O VOTO DO VÍRUS DECIDIRÁ AS ELEIÇÕES?

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O ELEITOR OCULTO - Com cada nova eleição vem o dilema habitual: a abstenção é que decide o resultado, como a contornar? Até final do século passado, nas eleições legislativas, a abstenção ainda ficava abaixo dos 40%. Mas em 2009 atingiu os 40,3% , em 2011 os 41,9%, em 2015 os 44,1% e em 2019 deu-se o grande salto para os 51,4%. Não há maneira de fugir a isto: o Parlamento que agora foi dissolvido representava a vontade expressa de menos de metade dos eleitores. Durante anos e anos os partidos recusaram-se a encarar o problema e as suas causas. Continuamos a votar com uma Lei Eleitoral basicamente inalterada desde há mais de quatro décadas, quando tudo era diferente na sociedade portuguesa, a começar pela forma de consumo de informação até acabar nas operações mais corriqueiras que se podem fazer pela internet. O Estado, reconheço, foi rápido a possibilitar um contacto digital com os cidadãos em áreas como a obtenção de documentação. Mas a Assembleia da República, e nomeadamente os maiores partidos, nunca quiseram mexer no processo eleitoral, na alteração das formas de representatividade possíveis e na forma de votação, obviamente garantindo a veracidade e segurança do escrutínio. O resultado da recusa em mudar a Lei Eleitoral está à vista. E nas eleições legislativas de 30 de Janeiro as coisas podem ser bem piores: o risco de o número de abstenções ser enorme entre o previsível grande número de contaminados em isolamento, que podem atingir os 600 mil. Arriscamo-nos a que seja o vírus, autêntico eleitor oculto, a decidir por nós. A pandemia veio colocar de novo na ordem do dia a necessidade de alterar a votação, utilizando formas alternativas seguras que evitem a deslocação dos eleitores e facilitem o voto. E, claro, a própria pandemia tem influência nas campanhas eleitorais, limitadas nas acções de rua, com debates televisivos maioritariamente com audiências marginais. As eleições e as campanhas eleitorais, tal como estão, arriscam-se a ser o resultado da vontade de uma minoria, o contrário do que devia ser uma democracia - ou será que estou enganado?


 


SEMANADA - Segundo o Tribunal de Contas dois terços dos contratos públicos foram assinados sem registo no respectivo portal; os programas de entretenimento estão a esmagar as audiências dos debates eleitorais; a compra de carros eléctricos cresceu 68,3% com a pandemia; ainda há 14 concelhos do país sem postos de carregamento de automóveis eléctricos; o número de estudantes internacionais matriculados no ensino superior cresceu em 2021 quase 13% em relação ao ano anterior; imigrantes na escola pública aumentaram 47% em dois anos; Portugal ganhou 109 mil residentes estrangeiros num ano, e o seu total é agora de 771 mil, o dobro dos registados em 2015; os dados provisórios do Censos 21 indicam que 43% dos residentes em Portugal são solteiros, 41% casados, 8% viúvos e 8% divorciados - e comparativamente aos dados dos Censos 2011, o número dos casados sofreu uma quebra de 14%; segundo a Marktest 4,5 milhões de portugueses ouvem regularmente música online; o desempenho económico de Portugal nos últimos 20 anos, medido por indicadores como o rendimento disponível das famílias ou o PIB per capita é o pior desde o final do século XIX; Em Dezembro o índice de preços no consumidor aumentou 2,8% em relação ao mês homólogo de 2020.


 


O ARCO DA VELHA - A PSP recebeu ordens de só se deslocar a situações urgentes porque o novo contrato de fornecimento de combustível, que devia estar em vigor no início do ano, ainda não foi aprovado.


  


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A POLÉMICA DE VENEZA - O que hoje aqui deixo são sobretudo palavras de Patrícia Fernandes, uma Professora da Universidade do Minho, num artigo com o título “A politização da arte”. O artigo comenta a polémica desenvolvida nas últimas semanas sobre a escolha do representante oficial português na Bienal de Veneza deste ano. A escolha, organizada pelo Ministério da Cultura, tinha um regulamento e um júri. A decisão final, baseada no número de votos recolhido por cada projecto, foi contestada pelo agente da segunda classificada, uma artista chamada Grada Kilomba. O referido agente pretendia que a sua representada é que devia ganhar e contestou a decisão do júri. A partir de agora uso, com a devida vénia, excertos do artigo de Patrícia Fernandes. “O concurso - diz ela- parece ser mais uma trapalhada do governo, tendo gerado críticas generalizadas quanto a prazos, regras e mecanismos. Mas os artistas e os curadores concorreram tendo conhecimento das regras estabelecidas e aceitaram-nas no momento da candidatura. Naturalmente, os derrotados têm legitimidade para recorrer do resultado se entenderem que as regras não foram cumpridas – no entanto, a polémica que tem ocupado o espaço público é outra: dentro da lógica identitária e antissistema, o que se tem questionado é o facto de as regras previamente estabelecidas não terem conduzido ao resultado que foi pré-definido por aqueles que têm contestado a decisão final do concurso.” E sublinha uma questão importante: “A crise da arte chegou aqui: já não discutimos o objeto em si, mas as identidades dos artistas e a necessidade de as regras no mundo da arte responderem a exigências identitárias.” E conclui: “Essa visão totalitária decorre da própria supressão das fronteiras entre esfera pública e esfera privada quando afirmamos que o pessoal é político. Ao fazê-lo, eliminamos a possibilidade da diferença, da criatividade e da crítica livres e da arte como objeto de beleza e admiração, porque tudo o que fazemos deve subordinar-se à lógica política.“ Patrícia Fernandes cita, a propósito George Orwell: “não podemos realmente sacrificar a nossa integridade intelectual em nome de um credo político – ou pelo menos não podemos fazê-lo e permanecer escritores”. E termina com um alerta: “Isto revela como a deriva politizadora e identitária repete a mesma lógica da utilização da arte por parte dos regimes totalitários do século XX”


 


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FOLHEAR IMAGENS - A minha recomendação para iniciar o ano é o livro “Um Passeio de Lisboa a Cascais - postais e fotografias do passado”. Esta edição, de 168 páginas, foi desenvolvida por Miguel Gaspar, Beatriz Horta Correia, Nuno Gaspar e Ana Nobre de Gusmão. É um álbum que recolhe imagens desde o final do século XIX até meados do século XX, num percurso que começa no Terreiro do Paço e se estende até Cascais. O eixo é o percurso da linha de comboio, o território da visão é, quase sempre, o que se apanha da linha de comboio e da estrada marginal. O ponto de partida foi uma colecção de postais ilustrados do avô de uma das autoras, Ana Nobre Gusmão, a que se foram adicionando postais de outras colecções e fotografias de diversas colecções. Retomando a visão que se tem na viagem de Comboio, Ana Nobre de Gusmão escreve no início do livro: “Se partir para Cascais sentado do lado esquerdo do comboio e regressar a Lisboa do lado direito, a paisagem continua a ser a que se espraia através da janela, o comboio a deslizar nos carris. Do outro lado foram destruídos fortes e conventos, casas e palacetes, bosques e jardins, para dar lugar à crescente mancha urbana.” A primeira imagem que aparece no livro é datada de 1901 e mostra o Terreiro do Paço de então. E a última é o mar, na Boca do Inferno, a ser visto, das rochas, por três pessoas. Separados por escassas dezenas de quilómetros, assim se vê o centro do poder do país e o mar onde Portugal acaba. Há imagens muito curiosas  como o mercado do peixe da 24 de Julho em 1905, Alcântara vista do rio no final no século XIX, gado bravo na Praça de Algés em 1909, a praia de Pedrouços, a praia de Carcavelos, os fatos de banho da época, as então termas do Estoril, a construção do Casino, postais de publicidade do Hotel Atlântico no início do século XX. O livro é uma viagem no tempo que permite o confronto com o presente.


 


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UM  TRIO - Este é um daqueles discos ideais para se ouvir sossegado, ao fim da tarde, no regresso a casa, eventualmente com um aperitivo na mão. Fechem os olhos e ouçam. Não se vão arrepender. Falo de “Skyline”, o álbum do final de 2021 que junta o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba com Ron Carter no baixo e JackDe Johnette na bateria. É um trio imperdível, sobretudo porque “Skyline” junta standards da música cubana com originais dos membros do trio, incluindo temas de Carter e DeJohnette. Rubalcaba retorna às sonoridades do seu país, de onde emigrou há duas décadas e onde aprendeu a música que hoje toca. O disco é também uma demonstração das potencialidades de uma das formações de jazz que mais me agradam, o trio piano, baixo, bateria. Entre os temas clássicos contam-se “Lagrimas Negras”, “Novia Mia” e “Siempre Maria” e, de entre os originais de Jack DeJohnette, destaco”Ahmad The Terrible”, uma homenagem do baterista a Ahmad Jamal, com quem tocou tantas vezes, e também “Silver Hollow”, onde Rubalcaba mostra como o piano pode transmitir emoções de forma intensa. Finalmente, a faixa final das nove que compõem o álbum é “RonJackRuba”, um improviso não planeado, gravado ao vivo no estúdio onde “Skyline” foi produzido. Disponível em streaming.


 


OVOS, SEMPRE! - Depois das comezainas de Natal, que tal um jantar simples e que não dá trabalho? Aqui fica a receita que fiz na segunda feira passada: ovos mexidos com salmão fumado e gambas. Para duas pessoas bastam três ovos, desta vez adicionei uma colher de sopa de crème fraiche que tinha sobrado do fim de ano, uma embalagem de 80 gramas de salmão fumado cortado em pedaços, uma dezena de gambas pequenas descascadas, que cozi previamente e deixei arrefecer. Na frigideira coloque uma colher de sopa de manteiga já quando ela estiver bem quente. Os ovos, temperados apenas com pimenta moída na altura,  devem ser muito bem batidos, de preferência com a varinha mágica para ficarem leves. Primeiro deitam-se os ovos, que se vão mexendo com uma espátula em lume brando. Quando começarem a ficar prontos deita-se o salmão e os camarões e mexe-se bem, já com o fogão desligado. Mistura-se tudo bem aproveitando ainda o calor da frigideira, divide-se em dois pratos e salpica-se com cebolinho fresco picado. Acompanha com salada e tostas. Bom apetite.


 


DIXIT - “Antes, o artista era alguém que olhava a tela em branco e pensava: “Ah, tantas possibilidades!” Agora é alguém que pensa: “Tela em branco? Em branco? Racismo!”- José Diogo Quintela


 


BACK TO BASICS - “A sobreposição do discurso e da ideologia à produção material artística é o eclipse da obra de arte” - Robert Klein


 


 








dezembro 30, 2021

ELEIÇÕES PARA QUE VOS QUERO....

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TRANSFORMISMOS - Estamos em plena época áurea do transformismo político. Tudo começou com o início da crise actual, quando alguns integrantes da geringonça resolveram  deixar os camuflados com que andaram uns anos e vestiram novas roupagens, com maquilhagem apropriada. Ainda não percebi se estavam a contar com o desfecho que isto teve, ou se foram vítimas da sua criatividade e, sejamos francos, da sua voracidade política. Seja como fôr o motor da geringonça, que era o PS, também se cansou das birras e bateu o pé. Os passos posteriores já se conhecem: o Presidente fez o que disse que faria, dissolveu a Assembleia, convocou eleições e sentou-se à espera. O que se seguiu é um misto  de campeonato de roleta russa com uma simultânea de xadrez, que se desenrolou em reuniões e eleições  partidárias e no sempre muito divertido e esclarecedor processo de elaboração das listas de candidatos a deputados por cada clube. Já se percebeu que o CDS ficou entalado por falta de parceiro para dançar a valsa da coligação, que o PSD acordou cheio de entusiasmo depois de Rio ter passado a ser querido por todos (mesmo os que contra ele disputaram eleições),  que Pedro Nuno dos Santos ganhou novo fôlego com decisão de Bruxelas sobre a TAP e que António Costa se desmultiplica em sessões de propaganda televisiva: sem contar com o seu tempo de antena oficial, Costa apareceu na última quinzena em sete momentos televisivos entre declarações, entrevistas e presença em talk shows populares. Tudo, claro, antes de a campanha eleitoral começar. No fim de Janeiro há eleições, sabe-se lá como no meio do Ómicron. Mas há mais um problema que geralmente é esquecido: cruzando os dados do número de eleitores da Comissão Nacional de Eleições com as estimativas da população residente do Instituto nacional de Estatística verifica-se que há 600 mil eleitores a mais nos cadernos eleitorais, o que pode desvirtuar os resultados eleitorais.  


 


SEMANADA - Quatro investigadores do Instituto Superior Técnico estão a trabalhar num projecto para produzir um filete de robalo numa impressora 3D; nos dois dias do fim de semana de Natal foram cancelados 7000 vôos em todo o mundo; em Portugal foram realizados 620 mil testes ao Covid em dois dias, o que dá uma média de sete testes por segundo; no início da semana existiam 233 mil pessoas em isolamento em Portugal; o Papa Francisco encorajou os casais  a escutarem-se mutuamente para evitarem conflitos em vez de se colarem nos telemóveis; Portugal ficou ligado à Internet há 30 anos, em Dezembro de 1991; apesar das recomendações da Organização Mundial de Saúde só 31% dos alimentos para crianças cumprem todas as suas orientações, nomeadamente no tocante à presença de açúcar; este ano foram registados 35 casos de agressões a motoristas da Carris, um aumento significativo em relação ao ano passado; numa entrevista à CNN António Costa disse que seu objectivo não era a maioria absoluta nas próximas eleições e sorriu ao dizer que o seu objectivo era obter metade mais um do total de deputados; no espaço de uma semana a Omicron passou de 47% para 70% dos casos testados de COVID 19; Gouveia e Melo é o novo Chefe de Estado maior da Armada, mas o seu antecessor, que deixou críticas à forma como foi tratado pelo Governo, não esteve presente na tomada de posse que durou apenas dois minutos.


O ARCO DA VELHA - Apesar do voto contra do Parlamento, no final de 2020, o Ministro das Finanças encontrou um subterfúgio para injectar 317 milhões de euros no Novo Banco ao longo deste ano que está a findar.


 


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EXPOSIÇÕES EM TRÂNSITO - Aproveitem estes dias para visitar algumas exposições que vão terminar em meados de Janeiro. Sugiro que comecem na Fundação Gulbenkian, no Centro de Arte Moderna, por “Morder O Pó”, uma mostra individual de Fernão Cruz que apresenta uma seleção de pinturas e esculturas inéditas num projeto pensado de raiz para a Gulbenkian, comissariado por  Leonor Nazaré. São mostradas 30 obras inéditas: 10 telas pintadas a óleo e a resina e 20 esculturas, quase todas em bronze. Há um lado lúdico na pintura de Fernão Cruz (como se pode ver na imagem, numa fotografia de Bruno Lopes). Há cores vivas, jogos de formas, que têm continuidade nas suas esculturas em bronze. A exposição pode ser vista até 17 de Janeiro. Outras sugestões, agora na área da fotografia: “O Mais Comprido Museu do Mundo” é uma exposição que dá espaço a uma nova forma de ver e pensar a Estrada Nacional 2. De Chaves a Faro, a mais longa estrada portuguesa, ao longo de 739 quilómetros, é um percurso que muitos assumiram como roteiro de descoberta durante a pandemia que impediu outras viagens. A exposição tem curadoria de Pedro Campos Costa e Eduardo Costa Pinto, baseada em fotografias de Álvaro Domingues, Duarte Belo, Valter Vinagre, Daniel Malhão, Nuno Cera e Paulo Catrica. “O Mais Comprido Museu do Mundo” pode ser visitado até 15 de Janeiro de 2022 na Galeria Antecâmara, rua de Cabo Verde 17A. E para terminar, se puderem, vão até ao Largo do Chiado 15, à Escola do Largo, para ver o trabalho de Filipe Condado - podem fazer a marcação pelo telefone 912305928. As fotografias resultam de um convite a Filipe Condado, feito por Tolentino Mendonça quando era ainda pároco da capela do Rato, para acompanhar uma viagem à Holanda com o propósito de seguir o percurso que a escritora judia Etty Hillesum deixou registado num diário durante a ocupação nazi do país. Além da exposição está editado o livro “Nos Passos de Etty Hillesum”, com as fotografias de Filipe Condado e texto de José Tolentino de Mendonça.


 


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UM MISTÉRIO AFEGÃO - David Lagercrantz é um escritor sueco que ganhou notoriedade depois de ter sido convidado a escrever a continuação da trilogia Millennium”, após a morte do seu criador, Stieg Larsson. Agora Lagercrantz regressa com “Obscuritas”, um policial em nome próprio que ganha uma dimensão especial com o regresso ao poder dos talibãs no Afeganistão ocorrido este ano. Neste novo livro Lagercrantz parte da morte, na Suécia, de um árbitro, emigrado afegão, que comandava o jogo como se fosse um maestro a dirigir uma orquestra. “Obscuritas”, que se passa em 2003, em plena invasão do Iraque pelos Estados Unido, cruza a investigação com as perseguições e assassinatos que os talibãs fizeram, em 1997,  contra os músicos que tocavam música clássica ocidental, e com os esforços da CIA para evitar que alguns dos métodos que utilizou em Cabul fossem revelados. O livro baseia a história na acção da agente policial Micalea Vargas, de origem sul-americana, mas criada em Estocolmo, e na de Hanks Renne, um psicólogo e professor em universidades americanas que delas foi afastado num conflito com a CIA sobre técnicas de interrogatório. Ex- pianista com notoriedade, Rekke decide aplicar os seus conhecimentos de psicologia e de técnicas de interrogatório à descoberta, em conjunto com  Mikaela, do assassino do árbitro que estava, ele próprio, ligado à perseguição dos músicos afegãos. Um policial intrincado e aliciante.


 


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GRANDES VERSÕES - “Blind Date Party” é um divertimento em forma de disco, dirigido por Bill Callaham e Bonnie “Prince” Billy, que chamaram em seu auxílio um lote de músicos que normalmente trabalham com a editora independente Drag City, de Chicago. O repertório das 19 canções inclui versões de temas tradicionais de gospel, country, pop e rock. Entre os autores das canções estão nomes como Leonard Cohen, John Prine, Lowell George, e  Robert Wyatt O conceito do álbum é simples: Oldham e Callahan selecionaram canções que gostavam ambos de cantar e enviaram-nas a vários e bem diferentes convidados que trataram de fazer arranjos e gravar as suas próprias contribuições, devolvendo as novas versões ao duo que tinha lançado o desafio, que posteriormente as ordenou como agora aparecem na sequência de “Blind Date Party”. Oldham e Callaham não deram diretivas aos seus convidados quando enviaram as canções a cada um, contando com a criatividade e espontaneidade no trabalho remoto que todos foram fazendo. A ideia era mesmo que cada um fizesse aquilo que mais lhe agradava. E foi assim que, por exemplo, Cooper Crain, dos Bitchin Bajas deu ao tema de  Iggy Pop “I Want To Go To the Beach” uma versão reggae a reggae makeover, enquanto Bill McKay pegou nas sonoridades do samba brasileiro para refazer “Deacon Blues” dos Steely Dan. Outros pontos altos são a versão de Callahan para “Rooftop Garden” de Lou Reed ou a aventura pop de Sean O’Hagan em “Wish You Were GAy” de Billie Eilish.Mas o melhor mesmo é ouvirem o disco, hora e meia de grandes canções, numa destas tardes de fim de ano, um testemunho à imaginação musical. Disponível em streaming. 


 


UMA SANDUÍCHE COM SURPRESA - Estes dias foram difíceis imagino, aposto que anda aí no ar uma daquelas decisões de ano novo de fazer dieta e cortar muita coisa. Para quem se deliciou com alguns excessos, nada como uma ideia para uma refeição ligeira. A minha sugestão é uma sanduíche de peru. A que prefiro é em pão de centeio do Museu do Pão, muito levemente tostado. O peru quer-se fatiado em pedaços finos  (eu pessoalmente prefiro a carne mais escura). O segundo passo é barrar bem as duas fatias de pão com mostarda e, nessa matéria, a minha preferência vai para a Savora - que tem a consistência certa para espalhar no pão e não tem um sabor demasiado impositivo. A parte seguinte é distribuir os pedaços de peru em cima de cada uma das fatias de pão. E o remate é feito - e aqui é que está a surpresa - com fatias bem finas de maçã Granny Smith espalhadas generosamente sobre um dos lados. Fecha-se a sanduíche, calca-se um pouco e eventualmente faz-se uma uma ligeira prensadela  numa tostadeira. Vão ver que o sabor da maçã dá um toque especial, fresco. Acompanha com uma cerveja, nesta altura do ano de preferência uma cerveja preta artesanal, como a da Vadia. Podem rematar a refeição com laranjas algarvias, amplamente disponíveis nesta época, fatiadas e polvilhadas de raspa da sua casca e um pouco, pouco mesmo, de açúcar amarelo, tudo bem misturado e deixado a repousar uma meia hora antes de servir.


 


DIXIT - “Não podemos editar em cima de ideias feitas. O trabalho do editor é, exatamente, andar no escuro, tatear, provocar, e, no limite, inventar novos leitores” - João Paulo Cotrim


 


BACK TO BASICS - “Na passagem de ano um optimista fica acordado para ver o novo ano a entrar; um pessimista fica acordado para ver o ano velho a ir-se embora.” - Billy Vaughan, escritor. 


 








dezembro 23, 2021

ELEIÇÕES INCERTAS

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QUEM DECIDE AS ELEIÇÕES ? - Já viram o que se passou em dois meses? No final de Outubro, pela primeira vez em 47 anos, um orçamento foi chumbado no Parlamento; a geringonça desfez-se com acusações recíprocas e o Governo entrou em crise, perdendo até um passageiro; o Presidente da República dissolveu o Parlamento e convocou eleições legislativas antecipadas; a maioria dos partidos parlamentares realizou congressos; nas eleições directas do PSD, Rui Rio, que as não queria, saíu vencedor contra Paulo Rangel e uma boa parte do aparelho; o CDS entrou em crise profunda e viu saírem militantes históricos; Rui Rio fechou as portas a uma coligação pré-eleitoral com o CDS, criando o sério risco que os centristas tenham a sua pior votação de sempre; todas as sondagens indicam que os partidos que pela primeira vez entraram na Assembleia da República nas anteriores legislativas tenham um expressivo aumento de votação, o que provocará um reajustamento do quadro parlamentar. E, se olharmos para a frente, teremos uma campanha eleitoral marcada pela evolução incerta, mas preocupante, da pandemia. Tudo isto reforça as dúvidas sobre o cenário do dia seguinte às eleições. Quem decide o resultado das eleições? Muita gente especula como poderá ser a transferência de votos, sobretudo entre os dois maiores partidos. Não deixando de lado que essa transferência pode acontecer, creio no entanto que o fiel da balança vai depender, em grande parte, da forma como se portar o enorme núcleo de abstencionistas. Será que alguns vão desta vez decidir sair de casa para mostrarem o que querem? Nas recentes autárquicas, em Lisboa, foi o voto dos que decidiram sair de casa ao contrário do habitual, e a ausência  dos que sendo habituais votantes resolveram não votar dessa vez,  que alteraram o sentido das sondagens. E é nesse jogo, entre quem decide ficar em casa e quem decide sair no dia das eleições que se vai jogar o próximo Governo.



SEMANADA - Do Censos 2021: desde os anos sessenta do século passado o número de portugueses aumentou dois milhões; se compararmos com o que se passava há 20 anos Portugal perdeu mais de duzentos mil habitantes; a população imigrante estrangeira residente em Portugal deverá representar entre 5 a 6% do total e há quarenta anos eram menos de meio por cento; a população com mais de 65 anos representava 8% do total em 1960 e hoje anda pelos 24%; os pensionistas e reformados eram 120.000 há meio século e são hoje perto de quatro milhões, mais de 40% da população activa; há cinquenta anos os jovens com menos de 15 anos eram um terço do total da população e hoje são apenas 12%; os nascimentos que chegaram a atingir 200 mil por ano são agora cerca de 80 mil; nos anos 60 a agricultura ocupava 45% da população e hoje ocupa menos de 5%; na indústria chegou a trabalhar 40% da população e hoje a indústria ocupa apenas 24% dos portugueses; o analfabetismo, que nos anos 60 era de 40% hoje anda abaixo dos 5%; na mesma altura os alunos do secundário eram dez mil e hoje são 400 mil; hoje em dia cerca de 20% dos residentes têm um curso superior, quando há meio século eram menos de 1%; cerca de 25% das pessoas em Portugal vivem sózinhas; a área Metropolitana de Lisboa concentra 28% dos habitantes em território nacional; é no litoral que vive a maior parte da população; Odemira foi o município que ganhou mais gente nos últimos dez anos, quase 3 500 pessoas, o equivalente a um aumento de 13,3%, em grande medida devido à imigração, segue-se Mafra, Palmela, Alcochete e Vila do Bispo; o Alentejo foi a região onde a desertificação populacional mais se agravou, entre 2011 e 2021, com uma redução de 52 mil residentes (6,9%), seguido da Madeira com menos 6,2%; 


 


O ARCO DA VELHA - Há tradutores de tribunais à espera de serem pagos há dez anos.


 


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SURREALISTA SEIXAS - “O Sentido do Encontro” agrupa um conjunto de 160  obras de Cruzeiro Seixas, um dos principais representantes do surrealismo em Portugal. A exposição fecha o ciclo das comemorações do centenário do artista, que morreu em 2020, e está na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, até 26 de Fevereiro do próximo ano. “O Sentido do Encontro é uma exposição organizada pela Fundação Cupertino de Miranda, cuja colecção tem um apreciável conjunto de obras do autor, e tem como comissários Marlene Oliveira e Perfecto E. Cuadrado. Inclui ainda obras de diversas colecções, nomeadamente do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, da Biblioteca Nacional de Portugal,do Centro Português de Serigrafia e do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. Esta exposição permite dar a conhecer algumas das mais importantes obras de Cruzeiro Seixas, apresentando as diferentes técnicas por ele exploradas e integra desenhos, pintura, colagens e objectos-escultura. Com entrada livre, a exposição conta ainda com o documentário As Cartas do Rei Artur, de Cláudia Rita Oliveira, além de objetos pessoais do artista, documentos e os seus «diários não diários», um registo de memórias, projetos e ideias, recorrendo essencialmente à colagem com fragmentos de vivências, com  alusões diárias do que se passava no seu universo pessoal e profissional. 


 


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UM SONHO ENCANTADO - Conheci “A Menina do Mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, algures nos anos 80, numa edição que então foi feita. Mas não conhecia a edição original, de 1958, com ilustrações da pintora Sarah Affonso, que agora foi reeditada. “A Menina do Mar” é o primeiro conto da escritora para a infância e, tendo uma  praia como cenário, revela-nos a história de amizade entre um rapaz e a Menina do Mar. Cada um vive no seu mundo, o rapaz na terra e a menina no mar, mas a curiosidade de ambos leva-os a querer partilhar essas diferenças: a menina fica a saber o que é o amor, a saudade e a alegria; o rapaz aceita viver com ela no fundo do mar. A edição especial, agora lançada pela Porto Editora,  recupera a dezena de ilustrações originais que Sarah Affonso fez para a primeira edição. Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919 e publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Em 1944 saíu, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas, Poesia, título inaugural de uma obra que a consagrou como um dos grandes nomes da poesia portuguesa do século XX. Este “A Menina do Mar” é uma obra onde o encanto e o fantástico se cruzam, como que num sonho. No mesmo ano, 1958, escreveu outro conto infantil, “A Fada Oriana” e, depois, mais cinco até 1985: ” A Noite de natal”, “O Cavaleiro da Dinamarca”, “O Rapaz de Bronze”, “A Floresta” e “A Árvore”. Em 2012, já postumamente, foi publicado “Os Ciganos”, em co-autoria com Pedro Sousa Tavares. O texto da presente edição foi revisto de acordo com as notas deixadas pela autora em alguns exemplares e o poema “A Casa Branca”, que na primeira edição havia sido colocado em epígrafe, foi também mantido.


 


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O IMPROVÁVEL DISCO - Para o jornal “New York Times” o disco "Promises", que resulta da colaboração entre Pharoah Sanders e Floating Points, com a London Symphony Orchestra, é o melhor disco de jazz deste ano. O próprio jornal reconhece que este não é bem jazz, mas também não é música clássica, nem tão pouco música pop electrónica - o território de Floating Points, o nome de trabalho do compositor e músico britânico Sam Shepherd, um experimentalista em música electrónica que tem um doutoramento em neurociência. Pharoah Sanders, que já ultrapassou os 80 anos, é um saxofonista norte-americano que se afirmou no território do jazz improvisado e que integrou o grupo de John Coltrane em meados da década de 60. Sam Shepherd, com pouco mais de 30 anos, grava sob o nome Floating Points, geralmente a solo. O disco derruba as barreiras entre os mundos da música electrónica e acústica, percorrendo territórios do jazz, da música clássica e do pop.  “Promises”, uma obra em nove movimentos, com a duração de quase 50 minutos, foi gravado antes do início da pandemia, após um processo criativo que durou quase cinco anos,  mas só foi editado em Abril deste ano. Shepherd compôs a música, toca vários instrumentos e trouxe a London Symphony Orchestra para a interpretar. Pharoah Sanders é o ponto de união de tudo, com o seu saxofone (e, num momento a sua própria voz), a ligar todas as peças, com a sua forma de tocar, intensa e repleta de emoção. Este é um daqueles discos que surpreende e agarra à primeira audição. Editado pela Luaka Bop, disponível nas plataformas de streaming.


 


MESA DE NATAL - Por muitas voltas que se dê, o Natal passa-se à mesa e o que está nas travessas varia nas várias regiões do país, mas há três hipóteses incontornáveis: bacalhau, peru e polvo. Há regiões onde se ataca o bacalhau ou o polvo na noite de 24, outras em que se avança logo para o peru. O bacalhau originalmente queria-se de posta alta, e cozido, hoje já aparece disfarçado de várias formas. Tradicionalmente tanto polvo como bacalhau eram, nesta circunstância, devidamente acompanhados de boas batatas e couve. Quem ataca bacalhau ou polvo na consoada de dia 24, guarda o peru para o dia de Natal. Feito à moda antiga, o peru de Natal, assado, é uma coisa para de preparação demorada. Ainda sou do tempo em que o peru vinha vivo para casa, era embebedado a goles de aguardente pura pela goela abaixo, para que quando o pescoço lhe fosse cortado ele não estivesse contraído e a carne resultasse mais tenra. Claro que nada disso se passa hoje, o peru vem já embalado, depenado, pronto a ser temperado. E o tempero era outro assunto sério - com laranja, limão, sal, pimenta, louro, especiarias, ficava a marinar mais de um dia num grande alguidar. Depois vinha o recheio que lhe enchia as entranhas, feito dos miúdos da ave, chouriço, azeitonas aos pedaços, cenoura, cebola e alho, miolo de pão, ovo, chouriço. Após um bom tempo no forno o petisco ficava pronto para ser trinchado e, na maior parte das vezes, havia peru para vários dias - a parte mais escura da carne, cortada fina, fazia umas belas sanduíches. E, depois há os doces - todo um campeonato à parte, tudo frito, claro, bem polvilhado de canela. Enfim, antes do takeaway, o Natal era garantia de uns dois dias de intenso trabalho de cozinha.


 


DIXIT - “Fiz mal em ir para o Governo. Perdi uma fortuna incalculável” - Manuel Pinho


 


BACK TO BASICS - “Nunca se deve tentar resolver um problema grave pensando nele a meio da noite” - Philip K. Dick


 


 








dezembro 17, 2021

OS DEPUTADOS DEVEM OBEDECER AOS CHEFES DOS PARTIDOS OU REPRESENTAR OS ELEITORES?

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OS DEPUTADOS - Quando se olha para qualquer balanço da actividade parlamentar constata-se que apenas uma pequena parte dos deputados dos partidos com maiores grupos parlamentares desenvolve algum trabalho relevante no plenário ou em comissões. Isso é particularmente visível no PSD e PS - alguns dos seus deputados mal abrem a boca durante uma legislatura e não se lhes conhece história. Ficam nas filas de trás das respectivas bancadas, assinam o ponto e a sua principal função é levantarem o braço de acordo com as instruções de votação dadas pelos respectivos partidos. Na realidade só prestam contas a quem os escolheu para integrarem as listas de candidatos a deputados, não têm a quem dar satisfações e não representam as populações dos círculos onde são eleitos e onde muitas vezes efectivamente não vivem e cujos problemas desconhecem. Não existe relação de proximidade com eleitores e muitas vezes nem com militantes locais. Se olharmos para o processo em curso de elaboração de listas pelos dois maiores partidos é isso mesmo que vemos: os líderes partidários, nomeadamente no PSD e no PS, são quem tem a derradeira palavra sobre quem integra a lista e em que lugar ficam os candidatos - se numa posição em que podem ser eleitos e entrar no Parlamento, ou se ficam só a fazer número. Nestas semanas tem-se percebido que muitas vezes nem as indicações das concelhias ou distritais são tidas em conta. Quem entra é quem está próximo da cúpula do aparelho e ser deputado é ainda encarado por muitos como um emprego e não um serviço à causa pública. O efeito que isto produz é um divórcio cada vez maior entre eleitos e eleitores.  O respeitinho aos chefes é muito bonito - e é isso mesmo que  as listas de candidatos a deputados comprova. E já agora - enquanto a Lei Eleitoral não for alterada, criando nomeadamente círculos uninominais - não haverá nenhuma reforma do sistema político e partidário. E assim vai-se registando uma perda de qualidade dos deputados. O facto de alguns dos mais activos e melhores deputados da legislatura que agora acaba estarem fora do próximo parlamento, porque não estão alinhados com as direcções dos seus partidos, é um sinal de que nesta matéria a coisa se agrava.


 


SEMANADA - Das quatro listas candidatas ao Montepio apenas uma não reivindica ajudas públicas e o apoio do Estado para ultrapassar as dificuldades da mutualista; desde o surgimento da Ómicron a venda de autotestes à Covid 19 nas grandes superfícies passou de uma média de 300 por dia para cerca de 15 mil e os preços aumentaram 10%; durante a pandemia foram criadas 375 esplanadas no Porto e pelo menos 361 em Lisboa; apenas cinco projetos de Ferrovia 2020 foram concluídos dentro do prazo e há 19 projectos para concretizar que já deviam ter sido fechados o ano passado; na Rua do Ouro e na Rua da Prata há 60 lojas fechadas; num balanço da actividade legislativa do Parlamento constata-se que houve mais diplomas do executivo aprovados pelo PAN e PSD do que pelas bancadas à esquerda do PS; em 2020 a cobrança do IMT recuou em 149 municípios e a de IMI em 80; um estudo internacional indica que um em cada quatro portugueses espera terminar o ano de 2021 mais endividado do que alguma vez esteve, o que coloca Portugal no Top 3 dos mais afectados nos rendimentos pela pandemia; o Ministério Público deixou prescrever crimes de políticos suspeitos nas PPP, o que livrou ex-governantes de responderem em tribunal; o Índice Global de Segurança de Saúde, que analisa 195 países, colocou Portugal na 33ª posição na capacidade de resposta a pandemias; em Novembro a inflação atingiu o máximo de nove anos e o INE detectou que “os retalhistas estão já a passar custos das subidas na energia para o consumidor”.


 


O ARCO DA VELHA - O Estado recomendou trabalho remoto a partir de 1 de Dezembro mas não está a cumprir as suas próprias recomendações nos serviços públicos.


 


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GERAÇÕES CRUZADAS - ”Pintura: campo de observação - Parte II” é o título da nova exposição da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art (Rua Santo António à Estrela, 33), que inclui trabalhos de 13 artistas e que prossegue a lógica da primeira parte desta exposição, apresentada em Junho passado. Segundo o curador da exposição, João Pinharanda, as duas exposições “foram construídas a partir de um vasto (mas sempre necessariamente incompleto) “inquérito” realizado junto de alguma da produção artística, maioritariamente desenvolvida em Lisboa e nas artistas e nos artistas presentes estão uma maioria de jovens ou com carreira recente ou pouco divulgada a que se juntam algumas carreiras mais longas, capazes de fazer a ponte para contextos anteriores e mesmo alguns desses artistas históricos, que desenvolveram a sua produção a partir dos anos de 1960 e 70.” Isabel Madureira Andrade, Anamary Bilbao, Joaquim Bravo, Hugo Brazão, Pedro Calapez, Pedro Chorão, Luís Paulo Costa, Maria Ana Vasco Costa, Carlos Noronha Feio, José Loureiro (na imagem num óleo sobre tela de 2015), João Ferro Martins,  Jorge Rodrigues e Ângelo de Sousa são os artistas com obras em exibição até 22 de Janeiro. Outros destaques: no Centro de Artes Visuais, de Coimbra, com curadoria de Ana Anacleto, prossegue o ciclo “Museu das Obsessões” com duas exposições,  “Flor Fantasma ” de Mariana Caló e Francisco Queimadela e “Onças espreitam do breu matagal” de Bernardo Simões, patentes de 18 de Dezembro até 22 de Fevereiro.


 


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PARA QUEM GOSTA DE MOTOS - No ano passado Pedro Pinto tinha lançado o livro “As Motos da Nossa Vida”, onde recordava as motocicletas que nos anos 60 e 70 percorriam as estradas e ruas das cidades. Este ano regressa com “50 Motos Portuguesas”, uma lista que reúne 50 motos de várias cilindradas, concebidas e fabricadas em Portugal. Estas motos movimentavam uma indústria inventiva e arrojada que enfrentou vicissitudes e que, com poucas exceções, não resistiu ao tempo. A magia das Sachs, o motor das Pachancho, o slogan das Famel ou a elegância das Vilar Cucciolo e da Casal Carina são ainda hoje objetos de referência, sendo hoje em dia o seu restauro um hobby de um número crescente de entusiastas saudosos desses veículos. Pedro Pinto foi ele próprio piloto de motocross e velocidade e foi membro fundador do Moto Clube de Sintra dinamizador do Vespa Clube de Lisboa. E foi desde cedo um colecionador de tudo o que dizia respeito ao mundo das motos em Portugal,tendo organizado, na Expo 98, a exposição «As Motos do Século, o Século das Motos». Como Pedro Pinto escreve não há uma estatística correcta do número de motocicletas portuguesas que se venderam, mas era significativo o contributo para a economia do país e os postos de trabalho criados, entre as fábricas onde eram produzidas e as centenas de oficinas que asseguravam a sua manutenção, Nas 50 motos que seleccionou para esta edição estão máquinas como a V5 da Sachs, a rara bicicleta motorizada Vilar Cucciolo ou a ainda mais rara Nacional de 500 cc fabricadas na década de 30. A edição é da Quetzal e já me fez recordar algum tempo de juventude e a minha Sachs Minor.


 


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O REGRESSO DA GUITARRA - Não há nada a fazer, emociono-me com todos os discos novos de Neil Young de quem me confesso um fidelíssimo fã, capaz de perdoar quase tudo. E é com grande satisfação que vejo que o seu novo disco, “Barn”, é talvez o seu melhor trabalho desde há algum tempo. Neil Young tem agora 76 anos, este é o seu 41º disco de estúdio, o 14º com os Crazy Horse, desde que começou a gravar com a banda há quase 50 anos. E este “Barn” é bem melhor que o anterior disco com os “Crazy Horse”, “Colorado”, de 2019. Gravado num celeiro, como o nome indica, em meia dúzia de dias, o disco é pelo título, ambiente de gravação e sonoridade, um regresso a uma versão mais crua de rock, com a inconfundível guitarra de Neil Young, acompanhado por uns Crazy Horse em que Nils Lofgren substituíu Frank “Poncho” Sanpedro, já retirado destas lides, e com o baterista Ralph Molina e o baixista Billy Talbot a completarem, bem, o elenco. Se eu escolhesse uma faixa entre todas, apontava para “Welcome Back”, uma canção exemplar com Neil Young num dos seus melhores momentos à guitarra, sem exuberâncias.  Mas há outras a merecer destaque como “Canerican”, "Change Ain't Never Gonna", "Today's People", "Tumblin' Through the Years", and "Don't Forget Love". “Barn” está disponível em streaming, vinil e CD e há uma edição especial que inclui um documentário realizado por Daryl Hannah, a mulher de Neil Young,


 


A BATATA - Ao contrário do que muita gente pensa as batatas não são todas iguais e as batatas de supermercado têm pouco a ver com as verdadeiras batatas do campo, no sabor e  na textura. Esta semana recebi uma deliciosa prenda de um homem que com quase 90 anos, depois de uma vida de trabalho, continua apegado ao que a terra pode oferecer. Adelino Lopes, assim se chama, gosta de cultivar a sua horta, em Outeiro, distrito de Viseu. Oferece o que produz a familiares e amigos, é generoso como as pessoas do campo sabem ser. Há umas semanas fui cativado pelo sabor de umas batatas que a sua neta me serviu num almoço familiar e que elogiei. Resultado? Esta semana fui brindado com um saco desses belos tubérculos que já me estão a proporcionar bons momentos. Penso muitas vezes nestas diferenças de sabores e vêem-me à memória os paladares com que cresci e que vinham de casa dos meus avós, numa aldeia do Alto Alentejo. Ter acesso a produtos assim é um privilégio. Já estou a imaginar o que posso fazer com estas batatas… A propósito: esta semana li um curioso estudo da Marktest: em ano de pandemia, teletrabalho e ensino à distância, o cozinhar/fazer bolos foi, entre as principais atividade de tempos livres ou hobby, a que mais cresceu, passando de 29.5% em 2019 para 34.2% em 2020, um aumento relativo de 16%. A Marktest sublinha que estes números significam que mais de um em cada três portugueses tem este hábito. 


 


DIXIT - “ E, pairando sobre todos, um primeiro-ministro que nunca sabe de nada, que lava as mãos de todo o tipo de problemas e é famoso pela habilidade de se agarrar ao poder” - João Cotrim de Figueiredo.


 


BACK TO BASICS - “Perguntar a um artista o que ele acha dos críticos é como perguntar a um candeeiro o que acha dos cães” - Christopher Hampton


 








dezembro 10, 2021

A POUCA VERGONHA OU UM PODER COBARDE

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O SILÊNCIO DO ESTADO - Agora que o Ministro Eduardo Cabrita deixou de ser passageiro do Governo viremo-nos para o comportamento do Estado no caso do acidente em que um veículo oficial, a alta velocidade, atropelou um trabalhador que coordenava uma equipa de manutenção numa auto-estrada. Durante algum tempo o Estado  ficou silencioso, na expectativa do que o referido Ministro dissesse. Mas há um ponto em que o silêncio do Estado se revela demasiado ruidoso. Estamos nesse ponto. O acidente ocorreu em meados de Junho passado e quase seis meses depois, e após vários percalços, conhece-se, parcialmente, o conteúdo dos diversos relatórios elaborados. Durante todo este período o Estado não fez nada para avaliar se a família da pessoa que morreu precisava de algum apoio. Esteve ausente do funeral, nem  fez um gesto de simpatia.   Recordo que o Governo é quem, aos olhos dos cidadãos, representa o Estado. O Governo, e o seu Primeiro-Ministro, ficaram mudos e quedos todos estes meses. Pior: a GNR, num súbito acesso de zelo, vem agora pôr em causa que o trabalhador estivesse a trabalhar - sendo que o seu local de trabalho, naquele dia, era aquela auto-estrada onde morreu. O Ministro saíu mal, a confessar-se apenas passageiro, imputando as culpas ao motorista e depois ao corpo de segurança da PSP. Eduardo Cabrita diz que se o carro ía a alta velocidade era porque seguia as instruções do corpo de segurança da PSP. O Corpo de Segurança da PSP, segundo um assessor do Ministro, não estabeleceu qualquer velocidade. A velocidade média escrita na acusação pública - 163 kms/h - peca por defeito. O “Correio da Manhã” fez as contas e diz que o carro do Ministro fez 30 quilómetros em dez minutos, o que sugere uma velocidade média de pelo menos 180 kms/h. O que é certo é que Nuno Santos, chefe de equipa de limpezas que se encontrava na berma da A6 no quilómetro 77 no dia 18 de Junho, morreu atropelado por um carro do Governo, em excesso de velocidade, onde seguia um Ministro.  O que a seguir se passou em termos de ocultação, mentiras e desresponsabilização é uma vergonha. Um nojo. O retrato de um poder cobarde.


 


SEMANADA - Com o primeiro período escolar  quase a chegar ao fim há falta de 388 professores que abrangem um total de mais de 20 mil alunos; as disciplinas de Física, Química, Informática e Português são aquelas onde faltam mais professores e o distrito de Lisboa é o que tem maior falta de docentes; segundo um estudo da Marktest os três municípios portugueses com maior qualidade de vida são Castelo de Vide, Manteigas e Porto Moniz; segundo dados da Segurança Social a zona litoral é a que tem a média de salários brutos mais elevada, com Lisboa a liderar com 1390 euros, e as zonas do interior têm os salários mais baixos com Beja na cauda da lista com 964 euros; um inquérito recente, no âmbito escolar, indica que são os mais novos e as raparigas que têm maiores hábitos de leitura; os trabalhadores da CP Carga esperam há quase seis anos pelos 5% que lhes são devidos no processo de privatização da CP Carga, que o actual Governo fez no início de 2016;  um estudo recente indica que a partir da segunda metade deste século o Algarve e o Alentejo terão uma redução de 50% da água disponível; Portugal tem duas escolas de negócios no Top 30 europeu, Nova SBE na 27ª posição e Católica Business School na 29ª; os balanços trimestrais das empresas públicas não são divulgados desde 2018, o que já motivou críticas da União Europeia. 


 


O ARCO DA VELHA - Um empresário de Penafiel registou em seu nome a autoria das samarras, capas e dos capotes alentejanos, vestuário com mais de um século de existência, e exige receber direitos pela utilização dos nomes dessas peças.


 


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VISTAS DE ALMADA E AZULEJOS REINVENTADOS - Na Casa da Cerca, em Almada, Susanne S.D. Themlitz apresenta até  Fevereiro, duas exposições: “Um berlinde no chão, quase no meio da sala”  e “More Or Less Spots” - folhas e folhas na Sala da Leitura da Biblioteca. Na primeira exposição Themlitz revisita 20 anos de trabalho criando uma intervenção onde incorpora obras pensadas explicitamente para a Casa da Cerca (na imagem) com outras já existentes. Na sala de leitura “More Or Less Spots” apresenta uma exposição dos livros de artista que Susan Themlitz vem fazendo desde 1994, agora apresentada em conjunto pela primeira vez. Outras sugestões: Em Torres Novas, para assinalar os 41 anos da Galeria Neupergama, pode ver a exposição “Estudos e Procedimentos”, de Pedro Calapez, até 6 de Março. No Funchal Teresa Gonçalves Lobo abre o seu atelier a quem o queira visitar dias 9, 10 e 11. Fica na Rua dos Carpinteiros 18-1º com obras de pintura, desenho, gravura e fotografia. Na Fidelidade Arte, no Chiado, pode ver “Reacção em cadeia #9”, uma mostra de desenhos de Ângelo de Sousa dos finais dos anos 80. Na Galeria da Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101) João Belga apresenta desenhos e pintura em “I’m Alive - Yet I´m Not Alive”. E na Galeria Ratton, (Rua da Academia das Ciências 2, Lisboa), apresenta-se o resultado da 1ª Residência Artística Ratton: durante vinte dias Bárbara Fonte, Maria Morais, Mónica Pimentel Coelho e Sofia Pinto  trabalharam na Oficina Ratton, em Setúbal.  A Galeria desde 1987 desafia artistas contemporâneos que nunca utilizaram o azulejo, como estas quatro jovens artistas.


 


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PALAVRAS FOTOGRAFADAS - Costumo dizer que Sérgio Godinho é quem melhor escreve canções. Os seus poemas, musicados, são retratos do quotidiano, que eu me habituei a cantarolar enquanto ouço os seus discos. Mas nunca me tinha ocorrido que os podia ver, embora reconheça que a sua escrita é muito visual. “Palavras São Imagens, São Palavras” é um livro que recolhe poemas e fotografias de Sérgio Godinho, agora editado pela Quetzal. As canções de Sérgio Godinho são muito visuais, contam uma história - várias vezes, ao longo dos anos, pensei que algumas delas davam a base para o argumento de um filme. São short-stories musicadas, com um olhar certeiro sobre o que nos rodeia. Neste livro não estão letras de canções, estão poemas que Sérgio foi escrevendo nos intervalos da vida, das suas músicas e concertos, acompanhadas de fotografias, que foi coleccionando e que mostram como o seu olhar se materializa além das palavras. Já agora recordo que  além da sua vida musical, Sérgio Godinho já trabalhou em guiões de cinema e de séries de televisão, em histórias infantis, em peças de teatro, livros de contos, poesia e romance. Como ele escreveu neste livro, “A ausência parte de uma janela aberta/o destino é desconhecido”.


 


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CANÇÕES VADIAS, COM ESPERANÇA - Logo por acaso nesta semana calha.me um livro de Sérgio Godinho e de outro português, de uma geração diferente, que também faz canções exemplares. Se disserem que falo de Miguel Araújo, acertaram. “As Canções da Esperança”, o seu novo disco, inclui temas que compôs para a série “Esperança” do canal de streaming Opto, e outras inspiradas na própria série, escrita por de Pedro Varela e César Mourão - este último faz uma aparição numa das canções do disco, onde aparecem também convidados como António Zambujo, Cláudia Pascoal e Camané. Tirando os já conhecidos méritos de Camané e Zambujo, destaco Cláudia Pascoal, claramente uma das únicas surpresas interessantes da música portuguesa dos últimos tempos. “Estou Por Tudo”, a canção que cantam em dueto tem um vídeo que merece ser visto no YouTube. E ainda por cima é uma das melhores canções do disco, a par com “Canção da Esperança”, “A Procissão da Vida”, “Valsa Sem Tempo” e “O Milagre da Travessa do Funil”.


 


ABÓBORA & VIEIRAS - Gostam de abóbora? Experimentem uma esmagada de abóbora misturada com chutney. Não arregalem os olhos e experimentem. Eu utilizo abóbora congelada aos cubos e funciona muito bem. Uma embalagem de 400 gramas dá uma boa dose de puré. Cozam bem a abóbora, tendo o cuidado de a colocar na água só quando já estiver a ferver. Vão verificando a cozedura. Quando estiver cozida, mas com boa consistência, escorram, coloquem no mesmo tacho, e com a ajuda de um esmagador vão calcando até estar em puré. A abóbora liberta muita água, por isso não é necessário acrescentar nenhum líquido, muito menos leite. Adicionem duas colheres de manteiga, sal e pimenta preta moída na hora a gosto, mexam tudo muito bem e levem a lume brando. Antes de servir coloquem duas colheres de sopa generosas de chutney de manga e voltem a misturar tudo muito bem. É bom para acompanhar vieiras na chapa - hoje já as encontram congeladas em bons supermercados. Deixem-nas descongelar e secar muito bem, coloquem na chapa só quando estiver já muito quente, com um pouco de manteiga. Dois minutos de um lado, minuto e meio do outro. Sal e pimenta a gosto. Experimentem a combinação que vão gostar.


 


DIXIT - ​”Peguem nas listas de deputados da legislatura cessante e façam um teste para ver se alguém sabe quem são e o que fizeram de útil para a sociedade. Salvo raras excepções e, cada vez menos de legislatura a legislatura, o resultado é próximo de zero.” - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “Conhecer os outros é sinal de inteligência; conhecer-se a si mesmo é sinal de sabedoria” - Lao Tzu.


 





dezembro 03, 2021

Um aparelho partidário sabe o que as pessoas querem?

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O RIO QUE TRANSBORDOU - A incontornável vitória de Rui Rio, contra os prognósticos e apoios da elite partidária e dos donos do aparelho do PSD, coloca uma questão interessante: até que ponto é que os dirigentes locais e distritais são ouvidos e respeitados pela base? Até que ponto é que esses dirigentes se representam apenas a si próprios e a um grupo de fiéis próximos, empenhados essencialmente em trocar o seu apoio por benesses futuras quando o poder lhes voltar a sorrir? O que o processo eleitoral do PSD veio evidenciar é que a figura preferida pelo aparelho partidário, que estava claramente alinhado com Rangel, é a que menos mereceu a confiança dos eleitores. E, coloca uma outra dúvida: até que ponto é que os apoios aparelhísticos são hoje em dia olhados com desconfiança, pela base dos partidos e, em última análise pelos cidadãos comuns. E coloca ainda outra questão: até que ponto observadores, comentadores políticos e jornalistas são contaminados pelas influências das suas fontes no aparelho partidário e perdem eles próprios a realidade das bases, confundido declarações de dirigentes com opinião pública? Na realidade o que se passou na última semana - e já se tinha passado em Lisboa nas autárquicas, é que existe um distanciamento entre o que era previsto e o que na realidade aconteceu. Li algures esta semana esta nota: “Meia dúzia de comentadores desdobram-se por diversos títulos; os jornais deixaram o centro das cidades e os jornalistas convivem uns com os outros. Já ninguém se lembra do exemplo do editor do NYT que se deslocava de metro para saber o que os leitores escolhiam. Era bom descer à terra. Que direito têm, jornalistas e comentadores, de dizerem “o que as pessoas pensam é…”? E termino com outra citação, lida também nestes dias: “Lidos os comentadores, analistas e politólogos cheguei à conclusão de que o povo do PSD não votou em quem eles estavam à espera.”





SEMANADA - Apenas 34% dos estágios financiados pelo quadro comunitário de apoio, para inserir jovens que não estudam nem trabalham, resultaram em contratos de trabalho permanente; um estudo da Fundação Belmiro de Azevedo concluíu que os estudantes oriundos de meios mais desfavorecidos continuam a ser segregados no acesso aos cursos que garantem maior remuneração; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos  indica que 26% dos jovens portugueses já se medicaram contra a depressão; o mesmo estudo revela que 23% dos jovens já tentaram ou pensaram no suicídio; na GNR há 1017 agentes que não quiseram a vacina contra o COVID-19 e a PSP diz não ter dados certos mas calcula-se que centenas de polícias, que contactam diariamente com o público, também se recusaram a ser vacinados; no âmbito do PRR as Finanças vão ter 43 milhões da bazuka europeia para organizar cadastros e subir a base da tributação; há mais de dois anos que o tribunal tenta, sem sucesso,  notificar Vale e Azevedo, que vive e trabalha em Londres,  para ser julgado; Portugal é o único país da UE que não apresentou dados de novos casos de VIH/Sida no último relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e da OMS; até Setembro enfermeiros e médicos já fizeram mais de nove milhões de horas extraordinárias, ultrapassando o valor de todo o ano passado; a TAP apenas transporta um em cada dez passageiros de avião no Porto, tendo sido ultrapassada pela Ryanair e easyjet.


 


O ARCO DA VELHA - Uma viagem desenhada pela União Europeia para fomentar as viagens de comboio teve este resultado: o Europa Express precisou de recorrer a três composições distintas e 55 locomotivas diferentes para atravessar 33 fronteiras em 26 estados. União?


 


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COISAS PARA VER - “Sarkis”, a nova exposição de Cláudio Garrudo na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12, até 22 de Janeiro), na imagem, explora formas pouco usuais de utilização da fotografia, quer através da evocação da memória de objectos como ardósias escolares, recurso a diversas técnicas laboratoriais fotográficas, a reprodução de pequenas imagens de filmes portugueses dos anos 50 e até o recurso a papel perfurado utilizado em pianolas. “Sarkis” é um cruzamento propositado entre a música, o cinema, as artes plásticas e a literatura, abordados como partes que se ligam perante o olhar através de um fio condutor, que é a fotografia. No texto de apresentação da exposição Manuel João Vieira faz notar a diferença entre “a fotografia límpida, nítida, precisa, virgem, bidimensional, de superfície lisa e regular, que capta o objecto que é o seu contrário.” e a arte que  “capta também o duplo, o outro que há em nós, um outro que simula e projecta pela primeira vez as suas impressões no seu jogo.” Outras sugestões: na Galeria Filomena Soares, em Lisboa, “A Mecânica do Efémero” mostra até 15 de Janeiro  trabalhos de Flávio Cardoso, Kiluanji Kia Henda, Damara Inglês, Délio Jasse, Rui Magalhães e Sofia Yala. Na Biblioteca Nacional Pedro Proença apresenta até 19 de Janeiro “Mestres & Monstros”, um conjunto de aguarelas e poemas visuais, acompanhados por três livros criados para a ocasião.  E em Serralves pode ser vista "Ágora", a primeira exposição do  artista norte-americano Mark Bradford em Portugal. Serralves é aliás o primeiro museu europeu a acolher uma grande exposição deste artista desde que representou os EUA na Bienal de Veneza, em 2017, com a exposição "Tomorrow is Another Day" ("Amanhã é outro dia"). 


 


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OS POEMAS DE PESSANHA - Camilo Pessanha é um vulto maior das letras portuguesas e um dos menos conhecidos hoje em dia. Nasceu em Coimbra em 1867 e morreu em Macau, onde viveu muitos anos, em 1926. Publicou poemas  em várias revistas e jornais, mas o seu único livro, “Clepsydra”, foi editado em 1920, sem a sua participação directa,  pela jornalista e escritora  Ana de Castro Osório, que recolheu o material disperso que foi encontrando. Posteriormente, João Castro Osório, filho de Ana Castro Osório,  ampliou a “Clepsydra” original, acrescentando-lhe poemas que foram entretanto encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969. E surge agora, pela mão da editora Guerra & Paz, uma nova edição da “Clepsydra”, graças à  iniciativa de Ilídio Vasco.  Na organização  desta nova edição Ilídio Vasco recuperou a intenção original de ordenação dos poemas, baseada na interpretação de uma sinalética críptica deixada por Camilo Pessanha numa lista manuscrita. Essa nota, escrita no verso da procuração que deu a Ana de Castro Osório os direitos de publicação da obra, é, pela primeira vez, divulgada em fac-simile nesta edição de Clepsydra, que inclui, para além da obra integral, as notas do organizador e um anexo com textos que Pessanha traduziu do chinês, ao longo da vida: «Elegias Chinesas» (em versão bilingue), «Legenda Budista», «Vozes de Outono», «Chon-kôc-chao» e «Provérbios Chineses». “Clepsydra”,  é para muitos o mais belo livro da poesia portuguesa e Camilo Pessanha foi elogiado por Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, reconhecendo que ele inspirou fortemente a geração de Orpheu e o que viria a ser o modernismo português. 


 


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BRUCE ROCKS - No Outono de 1979 Bruce Springsteen, então quase a fazer 30 anos, realizou dois concertos no Madison Square Garden, em Nova Iorque, que ficaram para a história. Acompanhado pela sua E Street Band, Springsteen tinha lançado há um ano “Darkness On The Edge Of Town" e começava a preparar “The River”. Era um ponto alto da sua carreira. Esses concertos podem ser ouvidos e vistos em “The Legendary 1979 No Nukes Concerts”. Aqui estão gravados ao vivo 13 temas, uma hora e meia de uma grande actuação, agora editada pela primeira vez. Desde “Prove It All Night” até ao final com “Rave On”, o disco inclui temas como “The Promised Land”, “Rosalita”, “Born To Run”, “The River” ou "Thunder Road”, entre outros. O concerto foi gravado e filmado no momento em que Springsteen atingia uma popularidade que até aí não tinha conhecido e este registo, disponível em CD e DVD, mostra como ele era há 42 anos e testemunha ainda o momento em que Springsteen começa a assumir posições políticas bem marcadas e a empenhar-se em movimentos cívicos, como foi o  caso destas actuações. Na parte final de um concerto, que claramente foi uma festa de rock’n’roll, ao lado da E Street Band surgem convidados como Tom Petty e Jackson Browne que o acompanham numa versão de “Stay”, de Maurice Williams & The Zodiacs, seguido por entusiásticas versões de standards do rock e de temas de Gary U.S. Bonds e Buddy Holly. 


 


FAZ DE CONTA - Escolher o sítio para o almoço de domingo até começou com um gesto de boa vontade. O objectivo era experimentar o novo restaurante do MAAT, que prolonga a cafetaria que já existia. Apesar de saber ser gerido pelo grupo Mercantina, que já me proporcionou outras más experiências que bons momentos, lá decidi arriscar. Passemos aos factos: reserva feita online directamente para o MAAT Kitchen (assim se chama o local), com indicação de que a reserva estava anotada e seria confirmada posteriormente. Nunca chegou confirmação mas lá nos apresentámos à hora devida. E sim , a reserva existia mas a menina do acolhimento indicou-nos que devíamos esperar no bar, apesar de ser notório que estavam muitas mesas vazias no restaurante. Este truque de mandar para o bar é dos que mais me irrita quando é evidente que não se está à espera que vague uma mesa. A casa é anunciada como sendo de fine fusion dining, mas apesar de se tratar de almoço a expressão é largamente exagerada. O serviço é lento, pouco simpático e pouco atento. O couvert tinha uma manteiga trufada interessante, um azeite corriqueiro e um pão sem história e pouco sabor. Uma pena as bebidas terem chegado um bom bocado depois e apenas após chamada de atenção. Uma vez na refeição o outro lado achou bem o polvo assado à Algarvia com batata doce e tomatada rústica. E eu, que em má hora tinha escolhido entrecôte Txogitxu do País Basco com batatas fritas, fiquei a lamentar-me: a carne estava de facto mal passada, como pedido, mas o seu interior era seco e sem sabor, porventura a indiciar frigorífico a mais, enquanto as batatas eram mais cozidas do que fritas. No fim um café pedido cheio veio a metade da chávena, a evidenciar mais uma vez desatenção. Do outro lado da mesa veio uma frase que descreve bem o MAAT Kitchen: isto é tudo um faz de conta.


DIXIT - “Olhamos à volta e o que vemos é inquietante. Parece que os partidos fazem parte da crise, em vez de a combater” - António Barreto.


BACK TO BASICS - A vitória é sempre uma ficção política - Anónimo