março 02, 2018

A PERTURBAÇÃO POLÍTICA DA ARTE & SUGESTÕES AVULSAS

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INQUIETUDES - Quando me recordo do que se tem passado nas últimas semanas no domínio das restrições exercidas sobre obras de arte, das clássicas às contemporâneas, fico inquieto. Com base em diversos pretextos quadros clássicos são retirados de exposição em museus prestigiados invocando razões morais, imagens com conteúdos sexuais, mas há muito aceites como expressão artística, são amaldiçoadas, fotografias de alguns dos grandes fotógrafos do século XX são denegridas por mostrarem o corpo humano, e, sobretudo na moda, acusadas de o explorarem. Esta voragem puritana está a viver num crescendo perante a indiferença daqueles que habitualmente se rebelam contra a limitação das formas de expressão e que agora se mostram silenciosos em nome de uma nova forma de correcção política que só tem paralelo nos tempos da inquisição e do fanatismo religioso. Ao mesmo tempo obras que têm mais de carácter provocatório do que de arte foram retiradas da ARCO em Madrid, dando uma notoriedade ao autor de «Presos políticos na Espanha contemporânea» que a sua obra artisticamente não merecia de todo. Já aqui o côro dos habituais protestos se fez ouvir, num ruidoso contraste com o silêncio noutras ocasiões. Mas, como Manuel Villaverde Cabral bem fez notar, nota-se cada vez mais arasteira manifestação das ideologias partidárias que se imiscuem de forma cada vez mais deletéria no mundo da criação artística”. Parece que estamos a remar para trás, dizem-me aqui ao ouvido. E é verdade.


 


SEMANADA - Em Portugal registam-se cinco queixas de plágio por semana; em 2016 a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos recebeu cinco mil queixas, a maioria sobre erros de leitura, facturação e cobrança da água; mais de 200 mil jovens portugueses até aos 25 anos não têm qualquer ocupação, não estudam nem trabalham; as dívidas por pagar na área da saúde cresceram 112 milhões de euros em apenas um mês; a Inspecção Geral da saúde detectou hospitais que contratam médicos ilegalmente; a falta de especialistas médicos e tarapeutas ditou o encerramento de 68 camas em unidades de reabilitação; uma instituição europeia acusa Portugal de manter detidos em condições desumanas; os pedidos de asilo a Portugal atingiram em 2017 cerca de 2000, um número recorde;  foram realizados 11 inquéritos sobre violação do segredo de justiça entre 2014 e 2017; peculato e corrupção são os crimes mais frequentes entre os 405 funcionários públicos condenados por ilegalidades em 2017; no ano passado o número de mulheres designadas para cargos de direção superior da Administração Pública foi pela primeira vez maior que o número de homens - 12 mulheres para oito homens; segundo a Marktest, há cerca de 4,7 milhões de portugueses que ouvem rádio - a maioria ouve no carro, um terço ouve em casa e cerca de 15% ouve no local de trabalho; em 2017 os diários generalistas venderam menos 15.831 exemplares por dia e fecharam o ano com uma quebra de circulação de 9%.


 


ARCO DA VELHA - O mesmo Governo que estabeleceu prazos muito apertados para a limpeza das matas anunciou em Outubro que iria participar na gestão do SIRESP e quatro meses passados não deu passos concretos nesse sentido nem cumpriu o seu próprio calendário.


 


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FOLHEAR - Raymond Aron foi filósofo, jornalista, professor e politólogo. Nasceu em 1905, morreu em 1983 e as suas memórias constituem uma visita aos principais momentos e ideias do século passado. Já era bem conhecido quando ganhou acrescida notoriedade com  “O Ópio dos Intelectuais”, uma crítica a Sartre, ao marxismo e à intelectualidade francesa, simultaneamente uma crítica ao pensamento unilateral da esquerda e à  sua complacência face à repressão existente nos regimes comunistas - por acaso uma obra que volta a ganhar oportunidade com a sanha politicamente correcta que por aí cresce. As suas “Memórias” são uma reflexão sobre um século de grandes mudanças, desde a ascensão do nazismo à expansão do ideal comunista no pós-Guerra, passando pela a análise da Guerra Fria, as guerras do Vietname e da Argélia, a descolonização francesa e a sua opinião sobre qual foi a verdadeira dimensão do Maio de 68. No fundo estas suas “Memórias” percorrem as ideias mais salientes da sua época: o marxismo, o liberalismo e o existencialismo. Foi colega de universidade de Sartre e conviveu com personalidades como Charles de Gaulle, André Malraux, Henry Kissinger ou Giscard D’Estaing e neste livro traça retratos destas figuras. Para quem gosta de ler sobre as ideias e políticas que moldaram o século XX, as “Memórias” de Raymond Aron acabaram de ser reeditadas, 35 anos depois da sua publicação original, pela Guerra & Paz na sua colecção Grandes Livros, com tradução de Susana Serrão.


 


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VER - João Miguel Barros um advogado que vive entre Macau e Lisboa, tem já um percurso longo ligado à  fotografia. Expõe agora “Photo-Metragens”, uma coleção de 14 pequenas histórias fotográficas para ver “como quem lê um livro de contos”, segundo as palavras do próprio. A exposição, na imagem, que resultou num  livro-catálogo de grande formato, a preto e branco, arranca com “Sentido Único” nos viadutos de Xangai, para nos levar numa viagem que salta entre Lisboa, Banguecoque, a praia dos Salgados, Paris ou Hong Kong. Há visões nocturnas, marés vivas, pontes mágicas e alucinações nesta exposição pensada (e escrita) por João Miguel Barros, patente até 3 de Junho no Museu Berardo. Em simultâneo, promoveu na Galeria 8, no palacete da Fidelidade no Chiado, uma exposição do fotógrafo chinês Yang Yankang, intitulada “O Espelho da Alma” e que tem por tema o Budismo Tibetano e que mostra até 4 de maio 40 fotografias centradas na espiritualidade do Tibete. Num outro registo, uma das melhores fotógrafas portuguesas, Luisa Ferreira, mostra até 30 de Março, no Museu das Vítimas da Inquisição, na Igreja de Santa Maria da Várzea, em Alenquer, o seu mais recente trabalho, “Ao encontro de Damião de Goes, para José Mariano Gago”. As imagens são um testemunho da derradeira investigação do antigo Ministro da Ciência e Tecnologia, dedicada ao humanista português do século XVI: pouco antes da sua morte, em 2015, Mariano Gago convidou Luisa Ferreira para que o acompanhasse a Alenquer, terra natal de Damião de Goes, e aí recolhesse imagens do universo associado ao historiador.


 


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OUVIR - Pouca gente se recordará que Laurie Anderson foi a única pessoa que trabalhou como  artista residente para a NASA, no início deste século. Anderson é uma artista visual, realizadora de filmes, autora e intérprete musical e na sua colaboração com a NASA trabalhou com o Kronos Quartet, um grupo de cordas contemporâneo, originário de São Francisco, também colaborador pontual da agência espacial, e ambos construíram uma peça intitulada “The End Of The Moon”. Quer Laurie Anderson quer os músicos do Kronos Quartet têm em comum uma atracção por pensar o futuro e observar de forma crítica o presente. Este “Landfall” começou por ser uma performance executada ao vivo numa digressão até chegar a este ponto - um CD que reúne 30 canções, compostas por Laurie Anderson, uma boa parte delas a evocar o furacão Sandy, com o objectivo de mostrar como a memória humana pode ser mais forte que a destruição provocada pela catástrofe. A combinação da voz de Anderson, com as sonoridades do Kronos Quartet produz um resultado marcante. “Landfall”, Laurie Anderson & Kronos Quartet, CD Nonesuch/Warner, disponível em Portugal.


 


PROVAR - O Pho é um dos pratos mais conhecidos da gastronomia vietnamita e consta de um caldo com noodles, vegetais e carne cortada aos pedaços de vaca ou frango. Como sou fã de sites de receitas dei há pouco tempo com o www.nutricaocompanhia.com , em que a nutricionista Cláudia Cunha propõe um Pho à portuguesa, completamente vegetariano. Os ingredientes, para uma dose individual,  são 200 gr de legumes congelados (feijão-verde, courgette, cebola, cenoura parisiense, cogumelos e brócolos), um novelo de noodles de arroz, um ovo cozido por 7 minutos e coentros. O processo é simples: quando os legumes estiverem quase cozidos em água acrescentam-se os noodles que ao fim de dois ou três minutos estão no ponto e reservam-se legumes e noodles. Depois tempera-se essa água (que vai ser o caldo) com azeite, vinagre de vinho branco e sal. Numa taça mistura-se  tudo e coloca-se o caldo a gosto. Acrescenta-se o ovo que já foi cozido previamente durante 7 minutos, partido ao meio e, para finalizar, colocam-se pedaços de coentros. É uma boa alternativa para as noites frias deste Inverno. Cláudia Cunha é autora de um livro intitulado “Doce Veneno - Plano Detox de 21 dias para se livrar do açúcar” e tem o canal www.youtube.com/nutricaocompanhia  onde vai publicando filmes com as suas receitas e conselhos.


 


DIXIT - “A política é uma actividade altamente lucrativa (...) Dá rendimento, nome e influência. Os partidos devem pagar impostos como toda a gente e como as empresas. E o Estado deve financiar pouco” - António Barreto


 


GOSTO - Vhils, aliás Alexandre Farto, tem uma exposição na Galeria Over The Influence em Los Angeles cuja inauguração foi um êxito de público.


 


NÃO GOSTO - A CP vai vender para sucata locomotivas a vapor raríssimas do início do século XX e diz não ter condições para as conservar nem recuperar.


 


BACK TO BASICS - “Os políticos são a mesma coisa por todo o lado: prometem uma ponte onde nem sequer há um rio” - Nikita Khrushchev.





fevereiro 23, 2018

LUGARES POUCO RECOMENDÁVEIS E SUGESTÕES AVULSAS PARA BONS MOMENTOS

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FUTEBÓIS - Quando frequentei o Liceu Camões fui aluno do Professor Magalhães, no tempo em que a Educação Física tinha o nome de ginástica. Ele não se cansava de nos dizer que o desporto era um escola de respeito pelo outro, de competitividade, honestidade e perseverança. Mais tarde, em alguns desportos que pratiquei, essa ideia era uma constante - a começar pelas artes marciais japonesas, baseadas no saber, no treino e na honra. Como Fernando Sobral escreveu no seu livro “Futebol, o Estádio Global”, editado no ano passado nos ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “houve um tempo em que o futebol era um prazer barato que se jogava ao domingo, e não era difícil que alguém se apaixonasse por aquele jogo de regras simples, com artistas que fintavam os adversários e marcavam golos”. Noutro ponto do mesmo livro surge uma frase que resume a capacidade de atracção do futebol: “a transformação deste desporto em espectáculo de massas deve muito a factos, mas também ao inexplicável: a magia de um pé direito, o génio de um guarda-redes, as superstições de balneário”. A transformação do futebol num espectáculo de massas, disputado por estações de televisão e por marcas, mudou muita coisa. Os negócios à volta do desporto profissional vieram trazer um mundo novo, onde tudo é permitido e onde se criou uma casta de dirigentes, sem honra nem princípios, envolvidos em actividades estranhas e com atitudes de tiranetes. O desporto, em qualquer modalidade, devia ser um exemplo para a educação dos mais novos, mas os responsáveis dos principais clubes estão a transformar o popular futebol numa escola de crime organizado e de vigarices encapotadas. Os acontecimentos mais recentes nos grandes clubes nacionais são reveladores disto mesmo. E é preciso dizer que o conluio dos políticos com o futebol e a sua subserviência à influência eleitoral dos clubes pioram ainda mais as coisas. O mundo do futebol é hoje em dia um mau exemplo. Um local pouco recomendável.


 


SEMANADA - Nove torres da penitenciária de Lisboa estão sem vigilância 14 horas por dia; o sistema de saúde dos militares das forças armadas jé tem um buraco de 70 milhões, tendo aumentado o défice em 32% face a 2016; a secretaria de estado da Habitação reconhece que há mais de 25 mil famílias com carências habitacionais graves; o voo directo Pequim-Lisboa trouxe mais 74 mil turistas chineses em 2017, um aumento de 40% em relação ao ano anterior; durante o ano de 2017 a GNR registou 134 acidentes envolvendo animais na estrada; a produção automóvel em Portugal duplicou em Janeiro e a variação deveu-se à Autoeuropa; a campanha de cereais de inverno será a pior dos últimos cem anos em consequência de um mês de janeiro quente e seco; segundo o Tribunal de Contas foram pagos indevidamente mais de 200 milhões de euros pelos organismos responsáveis pela atribuição de fundos europeus na agricultura e pescas; o tempo de espera para cirurgias relacionadas com a obesidade tem vindo a aumentar e o número de hospitais que a realizam tem vindo a diminuir; há mais de 1700 doentes à espera de vaga nos cuidados continuados e no último ano a lista aumentou em 500 pessoas; no mesmo fim de semana do congresso do PSD Maria Luís Albuquerque deu uma entrevista onde admite candidatar-se à liderança do partido se Rui Rio não vencer as próximas legislativas.


 


ARCO DA VELHA - Segundo os responsáveis autárquicos lisboetas na Avenida da Liberdade um plátano foi chocar com um autocarro de turistas e a culpa do sucedido não consegue ser apurada. Para resolver o problema cortou-se a árvore pela raiz.


 


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FOLHEAR -  A revista FOAM é integralmente dedicada à fotografia, nas suas diversas formas, e publica-se três vezes por ano, em Amsterdão, pelo Foam Fotografiemuseum. Cada edição é dedicada a um único tema e o mais recente é “Back To The Future”, com o subtítulo “O século dezanove no século vinte e um”. Com um grafismo cuidado e muito bem impressa, a revista tem ganho diversos prémios e nesta edição dedicada ao Futuro o destaque vai para artistas contemporâneos que adoptam, retomam, reciclam e reinterpretam temas, técnicas e ideias do século XIX, com recurso a técnicas digitais, novos materiais e assuntos actuais. “Com a utilização das mais recentes tecnologias digitais a fotografia afasta-se cada vez mais da noção tradicional que existia sobre ela e está a entrar num mundo de imagens geradas por computador, realidade aumentada e esferas virtuais; simultaneamente, no extremo oposto do espectro, vemos um ressurgimento de interesse nos anos pioneiros da fotografia e um número significativo de jovens fotógrafos estão a trabalhar com técnicas antigas, utilizando-as agora de forma contemporânea e criando uma prática artística relevante” - sublinha Marloes Krijnen, que dirige a revista, no seu editorial. Hoje em dia a matéria prima da fotografia passa por computadores e impressoras 3D, além da luz, materiais foto-sensíveis, emulsões e processos químicos que caracterizavam a imagem fotográfica até ao final do século XX. E esse é o tema desta excelente edição da FOAM, disponível na Loja Manifesto em Matosinhos e na Under The Cover em Lisboa.


 


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VER - Muitas vezes há pessoas que olham para peças de arte contemporânea e pensam:  “eu era capaz de fazer isto”. Ou, vendo uma instalação, interrogam: “onde é que aqui está a arte ?”. Joseph Beuys (1921-1986) foi um dos mais proeminentes artistas europeus do pós guerra e combinava uma enorme capacidade criativa com uma atitude de provocação assumida, baseada na sua intenção de fazer as pessoas reagirem à sua obra. Foi pelo desenho que começou, mas foram as esculturas, as instalações e as performances que realizou que lhe deram maior projecção. No fundo ele próprio era quase parte da obra que concebia e hoje em dia, quando vemos algumas das suas peças expostas num museu, percebe-se que na sua ausência elas têm um significado diferente - como aliás acontece com a obra de muitos artistas conceptuais. O documentário “Beuys”, de Andres Veiel, em exibição no Nimas, é baseado em material de arquivo, fotografias e filme, e salienta o lado da importância da consciência social no seu trabalho e na sua vida. Para Beuys a criatividade estava no centro de todos os aspectos da existência humana e este documentário ajuda a conhecer melhor o que ele fazia e porque o fazia.  Outras sugestões: no Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, obras dos artistas Júlio Pomar, Rita Ferreira e Sara Bichão estão reunidas na exposição “Chama”, com curadoria de Sara Antónia Matos, e que dá seguimento ao programa do Atelier-Museu, que procura cruzar a obra de Júlio Pomar com outros artistas. Na Guarda, Pedro Calapez está na Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda com a exposição "Acordo de Noite Subitamente". E na Galeria Ratton, em Lisboa, Jorge Martins mostra o seu trabalho sobre quatro painéis de azulejo.


 


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OUVIR - Quase se consegue sentir a voz de Elis Regina a envolver-se com o saxofone de Andy Sheppard na versão do clássico “Romaria” que dá o título ao mais recente disco do saxofonista, editado em Fevereiro pela ECM (disponível no Spotify). Sheppard é um saxofonista britânico e para o seu novo disco foi de novo buscar nomes com quem já tinha trabalhado em estúdio e em digressões: o guitarrista norueguês Eivind Aarset, o baixo francês Michel Benita,  e o baterista escocês Sebastian Rochford. Sheppard distingue-se pela subtileza da forma como toca e pela simplicidade dos arranjos - que leva os músicos a percorrerem atmosferas calmas, deixando espaço ao silêncio. “And A Day…”, o tema de abertura dos oito que integram este novo disco, é um exemplo do ambiente de sobriedade que Sheppard e os seus músicos constroem. Dois temas surpreendentes são “Pop” e “They Came From The North”, além da bela balada “Every Flower That Falls”, que  foi originalmente escrita por Sheppard como uma banda sonora imaginada, tocada ao mesmo tempo que era exibido o filme Metropolis, de Fritz Lang, numa edição do Festival de Jazz de Bristol. A última faixa, “Forever…” retoma as sonoridades e o ambiente musical da faixa de abertura de que, é, na realidade, a continuação.



PROVAR - Após uma primeira visita à zona da mercearia do Fiammetta, em Campo de Ourique, experimentei poucos dias depois o restaurante, ao almoço. Além da carta (já lá iremos) há sugestões do dia - que passavam no caso por uma sopa de tomate, uns penne de massa fresca com alcachofras e pancetta - que acabou por ser a opção. Devo dizer que há muito não provava uma massa tão cuidadosamente confeccionada e absolutamente no ponto de cozedura. A combinação das alcachofras com a pancetta funcionou às mil maravilhas. Para acompanhar veio um copo de tinto sugerido também como opção do dia, o Santa Cristina Tinto, da Toscana, que desempenhou muito bem. Da mesa onde fiquei tinha uma vista privilegiada sobre o balcão dos queijos e fumados, que tem também massa fresca, do dia, para levar para casa, de várias categorias. E na cave está a mercearia de que já se falou aqui. Todos os dias há também um prosecco para alegrar os fins de tarde à volta de uns aperitivos (por exemplo uma tábua de enchidos e fumados). A sobremesa do dia era um bolo de cenoura, simples - mas como com o café vem um biscoito de amêndoa ficou o doce assim resolvido. Na lista fixa há outras possibilidades: bruschetas com tomate,  pancetta, crostini de mozzarella e prosciutto de Parma ou saladas caprese, burrata com nozes, pera e gorgonzola. Também há paninis com diversos recheios para um almoço mais rápido: presunto de parma com tomate e azeite de trufa, com mortadela, parmesão e azeite, ou com tomate cereja, mozzarella, alcaparras e azeitonas. As massas são feitas todos os dias no restaurante e podem ser pedidas entre as 12h30 e as 16 horas. Além do prato do dia há sempre tagliatelle com bolonhesa, massa rigatoni à carbonara, ou com pesto manjericão e pinhões. Nos doces o tiramisú já ganhou fama. Fiammetta, Rua Almeida e Sousa 20.


 


DIXIT - “Já estava com saudades de África” - Marcelo Rebelo de Sousa, ao chegar a São Tomé e Princípe


 


GOSTO - Portugal está entre os 20 países onde a mortalidade de recém nascidos nas quatro primeiras semanas de vida é mais baixa.


 


NÃO GOSTO - Portugal é vice-campeão em obesidade infantil e muitos alunos do 1º ciclo não fazem educação física.


 


BACK TO BASICS - “Tenho constatado que as pessoas sem vícios têm muito poucas virtudes” - Abraham Lincoln


 

fevereiro 16, 2018

PARADOXOS AUDIOVISUAIS & SUGESTÕES AVULSAS

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PARADOXOS - O português é uma das línguas mais faladas do mundo (a sétima, na realidade), mas a nossa pegada audiovisual é praticamente inexistente. Isto é um paradoxo e tem a ver com o crónico desfasamento entre uma política viva da língua e as formas de expressão e comunicação contemporâneas. É no som e na imagem - e nas suas correspondências de distribuição e difusão no mundo digital - que hoje em dia se joga a sobrevivência dos idiomas e da cultura. Num altura em que o Reina Sofia em Madrid evoca Pessoa e os seus contemporâneos, em que em Paris obras de Rui Chafes são escolhidas para o Pompidou, em que o filme “Fátima”, de João Canijo, esgotou no início de janeiro as duas sessões públicas no Festival de cinema de Roterdão, é paradoxal ver como continua a não existir uma política cruzada e persistente entre o Instituto do Cinema e Audiovisual e o operador de serviço público de televisão com especial enfoque na produção de séries de ficção e de documentários que possam ter apelo global, percorrendo a obra de criadores portuguesas das mais diversas áreas. O problema não é de falta de talento nem apenas de falta de recursos - é sobretudo de falta uma estratégia continuada e persistente, de incapacidade de decisão política e de uma gestão facilitista dos recursos existentes, que são canalizados para conteúdos que se esgotam rapidamente em vez de produções que perdurem e constituam património audiovisual para o futuro. Numa altura em que está à porta a renegociação dos direitos de transmissão de provas internacionais de futebol será curioso ver se a RTP investe de novo na compra desses direitos ou se consagra esforços orçamentais para iniciar um novo caminho na produção audiovisual.


 


SEMANADA - A receita global fiscal do Estado aumentou dois mil milhões de euros em 2017; a única receita fiscal que caíu no ano passado foi o imposto sobre o tabaco; em 2017 foram distribuídos 4,8 milhões de preservativos em Portugal pelos serviços de saúde; uma em cada dez vítimas de violência no namoro sofreu ameaças de morte e 70% dos jovens consideram normal actos violentos no namoro; aumentou o número de queixas por atrasos nas consultas de oncologia em todo o país; quase dez por cento das refeições servidas nas universidades são vegetarianas; em 2017 o INEM recebeu 1,3 milhões de chamadas telefónicas com pedidos de socorro; até agora estão por cumprir seis dos oito objectivos a que Portugal se comprometeu com a Comunidade Europeia até 2020, entre os quais se destacam deficiências na área da investigação e persistência do abandono escolar; o plano ferroviário apresentado pelo Governo há dois anos só avançou em 79 quilómetros de um total de 528 que já deviam estar em obras; o rendimento das famílias portuguesas ainda está abaixo dos níveis de 2008; a Torre dos Clérigos no Porto recebeu cerca de 666 mil visitantes em 2017, cerca de mais 40 mil que no ano anterior; no ano passado os hotéis portugueses receberam 20,6 milhões de hóspedes, um aumento de 8,9% em relação ao ano anterior;  segundo a Marktest o número de portugueses que afirmou ter adquirido online serviços de viagens e alojamento é hoje mais de 3 vezes superior ao observado em 2010.  


 


ARCO DA VELHA - Estima-se que em Portugal existam mais de um milhão de armas de fogo em situação ilegal, apesar de serem apreendidas dezenas de milhar por ano.


 


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FOLHEAR -  Gosto de passar horas em livrarias e acho que os alfarrabistas são como um jardim encantado onde se vão descobrindo espécies  raras. Quase sempre há neles pessoas conhecedoras do que têm em casa, entendidos em livros e autores, disponíveis para uma conversa. Luís Gomes é uma dessas pessoas e dirige a Artes & Letras, um alfarrabista que saíu do Largo da Misericórdia para as Avenidas Novas. Ali há um confortável sofá para visitantes, bem perto da mesa onde Luis Gomes trabalha e que é um convite a uma conversa ou a folhear uma obra. Vou citar um texto com que há dias me cruzei ao pesquisar informação sobre esta casa: Um livro é sempre uma caixa de ferramentas. Há livros para tratar das plantas, há livros para ensinar a conduzir um carro, há livros para viajar pelo mundo fora, há livros para mostrar como se vive em sociedade, há livros para conhecermos as naus, os piratas, as aventuras dos mares e as ilhas dos tesouros, há livros para adormecer e histórias para levar as crianças a comerem a sopa.” Aqui, na Artes & Letras, encontram-se dessas caixas de ferramentas - além de cartazes, mapas e de uma peça magnífica, logo à entrada, bem visível da rua, pela montra larga - um imponente cavalo negro, que na realidade é um candeeiro - uma peça contemporânea criada pelas designers suecas da Front, comercializada pela Moooi, e que faz um provocador contraste com o resto do local. Já agora, para quem gosta de tipografia antiga, a Artes & Letras está também ligada a um atelier de tipografia que trabalha ainda com composição em chumbo e que fica na Rua dos Poiais de S. Bento, 90. O alfarrabista Artes & Letras fica na Rua Elias Garcia 153. E é uma perdição. Tem muito que folhear.


 


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VER - A mais importante exposição que neste momento está patente em Portugal é a retrospectiva de Álvaro Lapa, que agrupa 290 obras e que pode ser vista em Serralves até 20 de Maio. Lapa nasceu em Évora em 1939 e morreu no Porto em 2006, aos 66 anos. Teve um percurso criativo variado e intenso, entre a escrita e as artes plásticas, até se fixar no Porto em 1973 onde fez uma importante parte da sua obra, influenciou  várias gerações enquanto leccionou sobre Estética na Escola de Belas Artes da cidade e fez uma tese de doutoramento sobre o surrealismo em Portugal, orientada por José-Augusto França. “No Tempo Todo” é o título da exposição sobre a obra de Álvaro Lapa, comissariada por  Miguel von Hafe Pérez, que percorre vários períodos da sua carreira, mostrando desenhos, pintura, objectos e originais da sua obra escrita. Em paralelo decorre uma série de iniciativas com debates, conferências, visitas guiadas, peças de teatro e projecções de filmes e documentários relacionados com a obra de Lapa. Ainda em Serralves destaque para  “O Céu É Um Grande Espaço”, da  italiana Marisa Metz, uma exposição organizada pelo Metropolitan Museum Of Art de Nova Iorque e o Hammer Museum de Los Angeles. Em Lisboa, na Fundação Arpad Szènes, está até 21 de Abril uma exposição de desenhos de Maria Lassnig, a mais importante pintora austríaca do século XX, sob o título “Ver não é tão importante como sentir”. E Em Madrid, de 17 a 25, decorre a ARCO, Feira Internacional de Arte Contemporânea, onde estarão presentes várias galerias e artistas portugueses e que tem como tema O Futuro.


 


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OUVIR - Há muitos anos que sigo com atenção o que Miguel Esteves Cardoso escreve sobre música - nos seus vários géneros. Não me tenho arrependido e esta semana voltei a fazer uma boa descoberta graças a ele. Num dos seus mais recentes escritos Miguel Esteves Cardoso elogiava o disco de estreia dos Starcrawler, de quem eu nunca tinha ouvido falar. É uma banda originária de Los Angeles e a sua vocalista, Arrow de Wilde, tem um desempenho marcante. O disco foi editado pela Rough Trade, uma editora de boa memória que em tempos nos trouxe alguma da melhor música das últimas décadas do século passado. Graças ao Spotify descobri o disco e pude constatar como as observações escritas por MEC são certeiras. De facto os Starcrawler são uma lufada de ar fresco num tempo em que as bandas rock parecem bonecos de cera do museu de Madame Tussaud. Os Starcrawler praticam a insubordinação geral nesta desgraçada época de rock bem comportado para ser visto em mega-festivais e grandes pavilhões. Ouvido o disco constatei que as comparações com Stooges e Ramones não são desprovidas de sentido e que os elogios a Arrow de Wilde são bem merecidos. Se querem perceber o espírito da banda vejam o video de “Welcome To L.A. “ no YouTube - é uma das canções emblema da banda e o arranque do video é uma espécie de manifesto sobre o estado da nação - assim que a canção começa perceberão que isto é uma coisa a sério e que Arrow de Wilde tem uma marca tão forte quanto as guitarras dos seus companheiros. No YouTube podem ainda ver alguns videos da banda ao vivo - e embora o álbum seja uma revelação, as actuações ao vivo são ainda mais impressionantes. De caminho ouçam e vejam  “Let Her Be”, outro dos temas imperdíveis dos Starcrawler e descubram o single de estreia, “Ants”, não incluído no álbum.


 


PROVAR - Restaurantes há muitos, boas lojas de produtos italianos há muito poucas. Um local que conjugue as duas vertentes é uma raridade. Estou a falar do Fiammetta, que abriu recentemente em Campo de Ourique, na Rua Almeida e Sousa 20, quase a chegar à Ferreira Borges, pela mão de Ludovica Rocchi. No rés do chão está uma sala de restaurante sempre bastante concorrida e o balcão frigorífico com uma ampla escolha de queijos e carnes fumadas italianas. A sala do restaurante estava cheia, a apreciação da comida ficará para outro dia - mas massas frescas de várias variedades feitas diariamente são a principal matéria prima. Os encantos não terminam neste balcão - descendo à cave encontramos uma sala ampla com uma grande diversidade de produtos - desde vinhos italianos mais ou menos correntes até uma selecção de vinhos mais raros numa zona devidamente salvaguardada em termos de temperatura. Nas prateleiras encontramos massas de várias qualidades e formatos (alguns raros em Portugal como o maltagliati), biscoitos, molhos para bruschetta com diversos ingredientes como alcachofras com noz ou um delicioso de azeitonas com anchovas. Há também conservas de vegetais para aperitivo como beringela ou courgette com tomate e também aperitivos tradicionais como o Aperol ou a clássica cerveja italiana Peroni. Destaque ainda para os azeites simples ou temperados, para vinagres balsâmicos de qualidade e biscoitos tradicionais da Toscania, como um com pistácios e amêndoa. Fiametta, rua Almeida e Sousa 20.


 


DIXIT - “Quando se juntar a revolução tecnológica com a da biotecnologia haverá a possibilidade de rastrear os sentimentos, as decisões e as opiniões de cada ser humano. Não haverá segredos para as empresas que sucederão ao Facebook ou à Google. Ou a estas. Nem para a polícia.” - Fernando Sobral


 


GOSTO - Duas obras de Rui Chafes foram adquiridas pelo Museu Nacional de Arte Moderna de Paris e vão integrar a exposição da sua colecção permanente no Centro Pompidou, a partir de Outubro.


 


NÃO GOSTO - Da ideia da criação de novos impostos europeus.


 


BACK TO BASICS - “Quando uma pessoa é curiosa arranja sempre muitas coisas interessantes para fazer” - Walt Disney

fevereiro 09, 2018

OS ABUSOS DE MEDINA

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ABUSOS - Durante alguns anos a Câmara Municipal de Lisboa cobrou uma taxa de protecção civil que agora se veio a comprovar ser ilegítima - apesar de na altura da sua criação várias vozes terem alertado o PS de que estava a entrar no território da ilegalidade. O valor cobrado ao longo de três anos, e que os contribuintes tinham de pagar por transferência bancária ou multibanco, da sua conta directamente para a conta do município, vai ter um percurso mais árduo para quem quiser receber a devolução. Em vez de aplicar o princípio da restituição pela mesma via através de transferência para as contas dos contribuintes, a Câmara optou por fazer a devolução por vale postal, o que implicará que os cidadãos vão perder tempo em filas numa estação dos CTT para levantar o numerário ou irem a uma agência bancária depositar o vale. O que levará um autarca a proceder desta forma senão o princípio de que para tirar dinheiro às pessoas tudo deve ser fácil, para o devolver tudo terá de ser  difícil?  Este é no fundo mais um abuso de poder de Fernando Medina e da sua equipa, uma prova da falta de respeito pelos munícipes, uma espécie de punição - e, quem sabe, o secreto desejo que haja quem se esqueça de ir rebater o vale postal a tempo e horas. A devolução total prevista será de 58,6 milhões de euros que foram ilegalmente tirados aos lisboetas pela equipa de Medina - a tal que se gaba de fazer bem as contas. Para cúmulo a Câmara decidiu isentar-se a si própria do pagamento de juros referentes ao tempo em que ficou com o dinheiro alheio. Eis em acção o programa de Medina: cobrar rápido o que é ilegal, devolver devagar, sem juros e com dificuldade, o que é devido aos lisboetas.


 


SEMANADA - O excesso de álcool causa cinco acidentes por dia e as autoridades prendem diariamente 50 condutores com valores proibidos;existem mais de oito mil sem-abrigo em Portugal; um terço das crianças portuguesas entre os 3 e 8 anos vê telenovelas quase todos os dias e 38% usam a internet com regularidade; 12,6% é a percentagem dos jovens portugueses entre os 18 e 24 anos que em 2017 não tinham concluído o 12º ano nem estavam a frequentar qualquer grau de ensino; os crimes contra pessoas, com destaque para ofensas à integridade física, ameaças e coação, estiveram na origem de quase metade dos 147 casos de internamento de jovens em centros educativos verificados em 2017, um aumento de 7% em relação ao ano anterior; em 5090 escolas só 88 têm a maioria dos seus alunos sem negativas;; a Câmara Municipal de Montalegre decidiu manter a trabalhar um técnico superior que terá desviado mais de 61 mil euros dos cofres da autarquia entre 2015 e 2016; Diogo Gaspar, suspeito de desvio de bens do Museu da Presidência, vai trabalhar, a seu pedido, na Direcção geral de Cultura do centro em projectos ligados ao património; segundo o Tribunal de Contas a Autoridade Nacional da Protecção Civil não controlou como foram utilizados os 68 milhões de euros entregues em 2016 aos bombeiros; em 2017 houve 139 pessoas que mudaram de sexo nos registo civil e ao todo foram 514 nos últimos sete anos; oito anos depois de ter sido aprovada por unanimidade no Parlamento uma resolução para reduzir os riscos sísmicos o diploma continua na gaveta sem regulamentação nem aplicação; a Associação de Diplomatas contestou a designação de Sampaio da Nóvoa para a UNESCO, criticando a opção do Governo por um embaixador político.


 


ARCO DA VELHA - Uma mulher de 48 anos permitiu que o seu filho de dez anos conduzisse um automóvel na via pública no meio de Torres Vedras e a brincadeira só terminou quando foi detida pela PSP..


 


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FOLHEAR -  A 21 de Fevereiro de 1925 nascia a revista The New Yorker. Na capa estava um homem, vestido à moda da época, de cartola e com um monóculo a espreitar uma borboleta que esvoaçava na sua frente. 93 anos depois a edição de aniversário deste ano mostra a evolução dos tempos: é a imagem de uma mulher, negra, vestida a rigôr, e a encarar à mesma uma borboleta esvoaçante, ainda com um monóculo na mão. The New Yorker, hoje propriedade de um dos grandes grupos editoriais norte-americanos, a Condé Nast, criou uma sólida reputação de qualidade de escrita e rigôr de conteúdos. Para além de ser um guia sobre o que se passa nos palcos, museus e cinemas de Nova Iorque a revista inclui ensaios sobre temas contemporâneos, artigos de fundo sobre política, partidária e nacional, além de reportagens e investigações e, por vezes, a publicação de contos ou short stories inéditas de alguns dos grandes nomes da escrita norte-americana. Nesta edição que assinala o 93º aniversário há  exemplos de tudo isso. A secção The Talk Of The Town é a que aborda a actualidade - nesta edição em torno do mais recente discurso de Trump, sobre o Estado da União. Destaque ainda para uma reportagem sobre uma expedição solitária à Antártica, e a evocação dos 200 anos sobre a criação de Frankestein por Mary Shelley em 1918, contando como tudo então aconteceu. Finalmente, prova de que a publicidade também pode ser conteúdo editorial é a campanha da Emporio Armani, baseada no conceito de story telling - “Everyone has a different story...and everyone wears Emporio Armani” e que ocupa as quatro primeiras páginas de publicidade desta edição. Vale a pena ver a edição digital, à venda na App Store para iPad por 9,99 euros.


 


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VER - João Fernandes, que trabalhou com Vicente Todoli em Serralves e depois o substituíu, esteve ligado ao crescimento de Serralves enquanto palco da arte contemporânea e há uns anos decidiu aceitar o desafio de ser sub-director  do Museu Rainha Sofia, em Madrid. Agora, nessa qualidade, foi o impulsionador da exposição «Pessoa. Tudo é uma forma de literatura»  que pretende dar a conhecer obras e grandes nomes do Modernismo português. Ali estão apresentados cerca de 300 peças, dos quais 150 de pintura e desenho, de nomes como Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, ou Santa-Rita Pintor , algumas apresentadas pela primeira vez fora de Portugal. Além da exposição, que fica até 7 de Maio, o programa inclui uma série de actividades paralelas, de conferências a ciclos de cinema - recordo que a ARCO Madrid decorre este mês entre 21 e 25 de Fevereira, reunindo 211 galerias de 29 países - coincidência que potencia também o alcance desta mostra de cultura portuguesa em Espanha. Outras sugestões: na Galeria Belo-Galsterer, até 29 de Março,  obras de Manuel Tainha e um projecto de Jorge Nesbitt (Rua Castilho 71).  Na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, nos Açores, Daniel Blaufuks expõe “O Monte dos Vendavais” e ,em Lisboa, na Galeria Francisco Fino, José Pedro Cortes mostra as suas novas fotografias sob o título  “Planta Espelho” (Rua Capitão leitão 76, ao Beato).


 


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OUVIR - Aos 72 anos Sérgio Godinho faz o seu 18º álbum de estúdio, "Nação Valente", o primeiro nos últimos sete anos e seguramente o melhor deste século. O arranque não podia ser melhor - uma canção-manifesto intitulada “Grão da Mesma Mó”, com letra de Godinho, música de David Fonseca, tocada por este e por Nuno Rafael, que produz o disco e está musicalmente presente por todo o lado. Ao todo são dez canções - nove originais e uma versão de “Delicado”, um tema de Márcia, uma das mais interessantes autoras e intérpretes portuguesas dos últimos anos e ao qual Sérgio Godinho se dedica numa interpretação tão pessoal que até parece um dos seus próprios clássicos. Outro ponto alto é “Maria Pais, 21 Anos”, onde as palavras de Godinho se cruzam mais uma vez com as ideias musicais de José Mário Branco naquela que é certamente a mais elaborada e emocional composição deste disco, não por acaso certamente uma espécie de retrato de uma geração para a qual ambos os autores olham com um agudo espírito de observação. Nuno Rafael, Pedro da Silva Martins, Filipe Raposo e Hélder Gonçalves assinam as restantes composições e apenas “Noites de Macau” é da autoria, na letra e música, de Sérgio Godinho num arrebatamento inesperado e quase fadista. A produção, de Nuno Rafael, é exemplar no respeito pelo património de Sérgio Godinho e na sua abertura a sonoridades actuais. CD Universal.



PROVAR - Os ovos são um dos alimentos mais fantásticos - não só pela riqueza da sua composição, como pela capacidade nutritiva que têm: em apenas 70 calorias oferecem seis gramas de proteína e 13 vitaminas e minerais essenciais. Ao contrário do que se pensa não têm uma influência negativa no colesterol do corpo humano - na realidade um ovo  por dia é um precioso auxiliar da alimentação saudável. Gosto de ovo de todas as maneiras mas ultimamente eles são a salvação dos dias em que não sei bem o que hei-de jantar. Esta semana experimentei uma nova tortilha. O primeiro passo é arranjar uma frigideira não aderente, razoavelmente funda que possa ir ao forno. A seguir começa o preparado: para duas pessoas uso quatro ovos de tamanho médio, aos quais adiciono um pouco de água - na realidade bater os ovos com água torna-os mais fõfos e leves, impedindo que fiquem secos. Uma das minhas tortilhas favoritas leva meia courgette cortada em fatias da espessura de uma moeda de um euro, que salteio primeiro na frigideira, de ambos os lados, até começarem a escurecer. Adiciono depois os ovos, bem batidos, e por cima uma chávena de café de ervilhas (podem ser congeladas). Com a frigideira ao lume misturo tudo bem e no fim deito uma farripas de presunto cortado fino e tempero com pimenta preta a gosto e cebolinho. Deixo ficar em lume brando uns cinco/sete minutos até os ovos estarem mais ou menos sólidos e depois vão para o forno com o grelhador superior ligado no máximo durante outros 5 a 7 minutos. Isto deve ser o suficiente para a tortilha ganhar uma bonita côr sem queimar. serve-se com uma salada e uns pickles (no meu caso de pepino) e pão torrado. Em menos de meia hora está pronto um belo jantar para duas pessoas.


 


DIXIT - “Eu não sou daqueles que dormem com um olho aberto. Eu, quando durmo, tenho os três olhos fechados” - Bruno de Carvalho


 


GOSTO - 13 anos depois de ter sido considerado o Chef D’Avenir, em 2005, José Avillez foi agora o primeiro português a vencer o Grande Prémio da Arte da Cozinha da Academia Internacional


 


NÃO GOSTO - Do comportamento de Bruno Carvalho em relação aos sócios na recente Assembleia Geral do Sporting e do ultimato que lançou para fazer impôr as suas propostas.


 


BACK TO BASICS - É muito perigoso para um político, candidato a um lugar, dizer e prometer coisas de que as pessoas se possam vir a lembrar - Eugene McCarthy


 




fevereiro 02, 2018

AS NOVAS ENCRUZILHADAS DA POLÍTICA

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ENCRUZILHADA - A maior prova de que vivemos novos tempos veio de uma afirmação proferida esta semana por Assunção Cristas: “conto com o PSD para uma alternativa às esquerdas unidas”. Com esta simples frase a líder do CDS alterou a ordem dos factores e colocou o seu partido na liderança da oposição, que efectivamente tem assumido, colocando o PSD na posição subalterna. A frase, e a sua circunstância, mostram a situação a que o PSD chegou - e que Nuno Garoupa bem dissecou numa série de artigos. Mas outro facto político surgiu esta semana e é o mais significativo na área social-democrata: Carlos Moedas e Pedro Duarte anunciaram que vão apresentar uma moção ao Congresso onde é patente, pelas primeiras coisas que se conhecem, que desejam sair do dogma, agitar as águas e  levar o partido e os seus militantes a pensar. No fundo o que esta moção de Carlos Moedas e Pedro Duarte pretende é começar a trabalhar num novo posicionamento do seu partido. O PSD, com as suas contradições e indefinições chegou àquela situação que atinge por vezes alguns fabricantes automóveis: fazem veículos que andam, mas incaracterísticos, e, num doloroso processo, perdem adeptos e destroem o valor da marca. Andar, anda - mas não seduz nem marca a diferença. Se acrescentarmos a isto a recente proposta de iniciativas da sociedade civil para alterar a lei eleitoral de forma a criar círculos uninominais, podemos dizer que existe um clima de mudança. Vamos é ver se os partidos e a Assembleia da República querem olhar para o passado ou perceber o futuro.


 


SEMANADA - As famílias portuguesas devem mais de 25 mil milhões aos bancos, o maior número dos últimos quatro anos; os bancos estão a conceder uma média de 350 milhões de euros por mês para crédito ao consumo; em 2017 foram importados mais de 60 mil veículos usados do estrangeiro e as marcas que mais subiram foram a Tesla e a Porsche; em 2016 saíram de Portugal 1,7 mil milhões de euros para offshores sob escrutínio da União Europeia; cada jornada de futebol movimenta 340 milhões de euros em apostas e um Benfica-Sporting pode chegar aos 100 milhões de euros; o IMT teve uma receita recorde de 851 milhões de euros em 2017 graças à bolha no sector imobiliário; Castro Marim e Vila do Bispo (no Algarve) e Santa Cruz (na Madeira) foram os três concelhos onde o poder de compra per capita mais desceu nos últimos dez anos; o Estado não sabe quantas crianças estrangeiras estão institucionalizados em Portugal, em situação irregular e sem apoios; 1637 pessoas pediram a nacionalidade portuguesa nos últimos seis meses mas apenas quatro pessoas já a viram reconhecida, um deles um brasileiro arguido no processo Lava-Jato; em 2016 a entrada de portugueses nos Estados Unidos aumentou 17% superando, pela primeira vez desde 2007, os mil pedidos de vistos de residência num só ano; em 2017 registaram-se 678 casos de violência contra profissionais da saúde; a Autoridade da Concorrência tem “sérias dúvidas” na fusão da TVI com a MEO; há um juiz acusado de vender sentenças.


 


ARCO DA VELHA - Estão avariados todos os helicópteros Kamov pertencentes ao Estado e que deviam ser usados no combate a incêndios e transporte urgente de doentes.


 


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FOLHEAR -  A edição de Fevereiro da revista “Wallpaper” é o número dedicado à atribuição dos prémios anuais de design, um dos momentos altos da publicação ao longo de todo o ano. A revista, fundada por Tyler Brulé (que depois fez a Monocle), tem conseguido manter-se como uma referência de grafismo e de montra do melhor que é produzido em termos de arquitectura, design de mobiliário, de  objectos, de acessórios e de moda. Na capa desta edição está a impressionante escadaria desenhada por Gwenael Nicolas para unir os seis andares da nova loja da Dolce & Gabanna em Mayfair, Londres - uma obra que depois é detalhadamente explicada no interior da revista e que obviamente ganhou um dos prémios. Os trabalhos escolhidos para os prémios de design proporcionam uma galeria de ideias e criatividade nas mais diversas áreas, com informação sobre os seus autores - e todos dizem respeito a peças que estão em produção e comercialização. É verdadeiramente impressionante folhear esta edição da Wallpaper e ir descobrindo as boas ideias, quer seja a surpreendente fachada do novo Museu do Design do Victoria & Albert, ou a decoração de restaurantes, quer seja ainda uma ampla mesa de sala de jantar de dimensões variáveis ou até um escorrega feito de vidro. A terminar uma boa notícia: o prémio para o melhor novo hotel foi para o Santa Clara 1728, um projecto de Manuel Aires Mateus, que pertence ao hoteleiro João Rodrigues.


 


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VER - Paulo Brighenti tem vindo a revelar-se como um dos mais interessantes artistas plásticos portugueses contemporâneos. Sem abandonar algumas linhas mestras que têm norteado a sua obra vai experimentando novas técnicas e trabalhando sobre materiais por vezes inesperados - como é o caso em “Três Estações Nocturnas”, a exposição que esta semana abriu na Baginski, e que é a sua quarta mostra individual na galeria. A partir do poemário “Noite de Pedra”, do escritor e artista plástico português Luís Veiga Leitão, Brighenti trabalha pintura a óleo aplicada sobre linho, com recurso a uma técnica antiga baseada na utilização de cera derretida, a encáustica. Noutros momentos inventa esculturas com base em matérias naturais, búzios de grandes dimensões, com uma face coberta de grés pintado e ainda, pontualmente, gravura. É uma exposição forte e surpreendente mesmo para quem tem seguido a obra de Brighenti, um momento marcante de afirmação com múltiplas leituras entre a evocação da natureza e a alteração surreal dessa mesma natureza. A exposição (na imagem) ficará até 3 de Março na Baginski, Rua Capitão Leitão 51.


Outra exposição marcante desta semana é “poetry as art as poetry”, de Pedro Proença (aliás John Rindpest), como o próprio artista sublinha. Aqui a matéria prima de Proença Rindpest é a palavra e a manipulação que pode ser feita da sua imagem - quer isoladamente em letras, quer em frases - assumindo a forma de um quase manifesto, com múltiplas citações de clássicos e evocações de textos de origem diversa. A mostra foi organizada pela Galeria Bessa Pereira e está na Fundação Portuguesa das Comunicações (Rua do Instituto Industrial 16). Nas montras do British Bar está a décima série de obras expostas com curadoria de Pedro Cabrita Reis, trabalhos de Vasco Araújo, Joaquim Bravo e Rosa Carvalho. Na Galeria Vera Cortês, em Alvalade, Vihls (Alexandre Farto), mostra “Intrínseco”, oito painéis que pretendem abordar os problemas da vida urbana.


 


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OUVIR - Nos anos 60 a BBC gravou ao vivo, nos seus estúdios, o surgimento da pop e do rock britânicos. Os grandes nomes passaram pelos seus programas e tocaram ao vivo - quer para programas de rádio quer para a televisão. Os Rolling Stones não foram excepção e entre 1963 e 1965 estiveram presentes numa série de programas, como “The Joe Loss Pop Show”, “Top Gear”, “Saturday Club” ou “Blues In Rhythm”. Aos poucos essas gravações foram sendo editadas e no final do ano passado, nos seus BBC Records, a estação britânica lançou a colectânea “On Air” (De Luxe), que agrupa gravações de 32 temas gravados ao vivo pelos Rolling Stones em diversas ocasiões, nos anos já referidos. Aqui estão as canções mais conhecidos dessa época, desde o incontornável “Satisfaction”(num registo feito poucos meses depois do single original e com algumas diferenças),  até “Come On”, passando por versões de canções como “Mercy, Mercy”, “Carol” , “I Just Want To Make Love To You”, “Beautiful Delilah” ou ainda “I Wanna Be Your Man”, um tema que Lennon e McCartney cederam aos Stones e que eles aqui executaram com maior energia que o original dos Beatles. O som é o da rádio de então, muitas vezes com a assistência a manifestar-se ruidosamente e as misturas recuperam o espírito da época. Na verdade estas 32 gravações contam a história de como os Rolling Stones passaram de um grupo que executava com competência versões de clássicos dos blues e de R & B para uma criativa e irresistível banda que então levou o rock’n’roll a novas dimensões. The Rolling Stones , On Air, disponível no Spotify.



PROVAR - Uma das boas coisas dos últimos anos é o renascer de padarias onde o pão é feito de forma artesanal. A mais interessante que surgiu em Lisboa é a Gleba, junto à Praça da Armada, perto de Alcântara. Obra de uma equipa jovem que se dedicou a recriar o método tradicional de fazer pão, a Gleba só utiliza variedades antigas e sustentáveis de cereais cultivados em Portugal. A moagem decorre nas suas próprias instalações, em mós de pedra como as antigas, e o pão é feito na máximo três horas depois da moagem do cereal - o que garante a sua frescura. Na Gleba um ciclo de produção de pão demora um dia inteiro, desde a moagem à preparação da massa e sua cozedura. Farinhas de cereais portugueses, sal marinho integral e água são os ingredientes utilizados nas três variedades habituais da casa : broa de milho do Minho, pão de centeio verde de Trás os Montes e pão de trigo barbela também de Trás Os Montes. Todas as semanas há edições especiais, que podem ser consultadas na página de Facebook da Gleba. Este fim de semana, por exemplo, ao sábado, haverá pão com batata doce amarela e pão de figos e canela; ao domingo pão de figos e amêndoa e pão com bagas de sabugueiro. A Gleba está aberta das 10 às 20 de quarta a domingo e para o fim de semana é imperioso encomendar o pão que se pretende (uma das três variedades habituais já referidas ou as edições especiais)  via SMS para o 966 064 697 . As encomendas devem ser feitas até às 20 horas de sexta-feira. Provem que vale a pena - eu sou fão do pão de trigo barbela, bem cozido, com a crosta escura e estaladiça.


 


DIXIT - “Temos de escolher se queremos dívida ou independência” - António Barreto


 


GOSTO - O Novo Banco vai ceder obras da sua colecção para exposição em museus públicos e a colecção de fotografia, uma das melhores a nível internacional, será depositada provavelmente em Coimbra para que fique disponível ao público em permanência.


 


NÃO GOSTO - Da sucessão permanente de casos de vigarice e de corrupção ligados ao mundo dos clubes de futebol e que se estendem a magistrados e políticos - o futebol tornou-se perigoso fora dos estádios.


 


BACK TO BASICS - É provável que um poeta que lê em público os seus versos possa ter outros maus hábitos (Robert Heinlein).


 

FUTEBOL & SUPER NANNY PUXAM POR RTP E SIC

A semana passada foi exemplar para mostrar que a RTP só consegue sair da sua audiência média dos 11-12% de share quando tem futebol. Graças sobretudo a dois jogos da Taça da Liga (Sporting-Porto e Sporting-Setubal), a RTP conseguiu um share médio de 14,2%, o melhor desde há vários meses. Saber se isto é serviço público audiovisual é uma questão completamente diferente. Nos 15 programas mais vistos da RTP1 não existe uma única ficção – só programas desportivos na área do futebol (três jogos e diversos anexos), informativos, magazines e concursos. À excepção do magazine documental “Planeta Azul”, que tem uma vertente ecológica, todos os outros programas no TOP 15 da RTP são produções destinadas a consumo imediato, sem possibilidade de reaproveitamento posterior a médio prazo. É isto que se torna cada vez mais confuso nos critérios de programação da RTP1, embora  o Conselho Geral Independente, num comunicado recente, tenha considerado que Nuno Artur Silva procedeu à “reconfiguração estratégica da política de conteúdos da empresa, numa ótica de serviço público de media, tarefa que desempenhou de modo altamente meritório”.  O outro facto relevante da semana foi a suspensão do programa da SIC “Super Nanny” – e não deixa de ser curioso que o especial informação que a estação promoveu, para debater os conteúdos e a polémica gerados pelo programa, tenha sido o momento com maior audiência da SIC em toda a semana, superando mesmo a novela “Paixão”.


 


/(publicado na revista Sexta Tv & Lazer do Correio da Manhã de 2 de Fevereiro de 2018)

O PAPEL DA RTP NUMA POLÍTICA INTEGRADA DE AUDIOVISUAL

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Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há cada vez mais ecrãs onde se podem ver conteúdos e cada espectador escolherá o que quer, e não o que um programador de um canal lhe oferece. Assim sendo, o que se pode esperar? Qual o papel do serviço público audiovisual neste contexto de profunda transformação do consumo de mídia?


 


A RTP é o espelho do país: regra geral vive para o presente, com saudades do passado e a ignorar o futuro. E, no entanto, hoje em dia existe uma conjuntura que podia ser favorável: a integração da RTP na tutela do Ministério da Cultura criou a oportunidade ideal para lançar uma política integrada de desenvolvimento do audiovisual nacional, em que o serviço público de televisão ocupe um lugar determinante. Não é preciso ir muito longe - basta ver o que se passou nas últimas duas décadas em diversos países europeus onde se conseguiu casar da melhor forma a actividade dos organismos de apoio à produção audiovisual com os respectivos operadores de serviço público.


 


Felizmente a RTP que temos hoje é bem diferente, e regra geral melhor, do que aquela que existia na viragem do século. O serviço público de rádio e de televisão encontra-se unificado numa só empresa, os problemas financeiros de final dos anos 90 do século passado foram ultrapassados, as instalações inauguradas em Março 2004 foram um passo em frente na reorganização da empresa e do seu funcionamento. É certo que definir serviço público de televisão é quase uma missão impossível: cada cabeça, sua sentença. Mas seria útil que existisse uma série de princípios básicos - para além da independência face ao poder político ou o dever de contribuir para a coesão nacional. Uma das questões que poderia ser mais evidente - proporcionar uma alternativa clara aos canais privados - continua a ser , talvez, o lado onde mais falta avançar na criação de uma nova identidade para o operador de serviço público.


 


O primeiro canal privado, a SIC, começou a emitir em 1992. No ano seguinte entrou a TVI. Até final do século passado a RTP foi sempre um concorrente declarado e aberto dos canais privados. A matriz de canal único moldou a RTP entre o início das suas emissões regulares, em 1957, e o arranque das estações privadas. Foram três décadas e meia de monopólio que deixaram a sua marca no código genético da empresa e dos seus quadros - de tal forma que a primeira reacção da RTP ao surgimento das privadas foi fazer-lhes guerra em termos de audiência, desenvolvendo nos primeiros anos uma feroz contra-programação. Mais tarde,  a limitação da publicidade na RTP1 a seis minutos por hora (nos privados é 12), ajudou a atenuar o efeito de concorrência mas não o eliminou.


A RTP continua a tomar muitas decisões não em função da sua matriz de objectivos de serviço público, mas para ocupar espaço às estações concorrentes. A aquisição de direitos desportivos, nomeadamente de futebol, é o caso mais evidente. Se ainda pode ser aceite (e eu acho que é discutível), a compra dos direitos que envolvam a selecção nacional de futebol, já não consigo encontrar explicação para a aquisição de competições internacionais entre clubes. A presença da RTP1 neste mercado de direitos inflaciona o seu valor e entra na esfera do que devia ser deixado aos canais privados generalistas ou temáticos - como aliás acontece na maior parte da europa. A fatia do orçamento da RTP dedicado à aquisição de direitos desportivos, para além do esforço suplementar em termos técnicos e de equipas, é uma das causas para a inexistência de financiamento para áreas cruciais de interesse público - como a programação infantil e documentários, para não ir mais longe. Ainda por cima é fácil verificar que o reflexo das transmissões desportivas na audiência média anual é praticamente nulo e, do ponto de vista das receitas publicitárias, a operação é pouco interessante face aos custos totais envolvidos. Terminar com a competição de conteúdos entre a RTP e os privados em áreas predominantemente comerciais seria uma elementar medida da tutela, dos reguladores e da gestão da empresa.


É aqui que entra um ponto fulcral: é preciso definir se a RTP1 deve ser uma estação com uma preocupação comercial ou social - e a resposta certa não é dizer ambas porque isso proporciona a programação esquizofrénica a que se assiste há muitos anos. Sem esta definição nunca vai haver melhorias substanciais, para além de mexidas pontuais que têm existido com maior ou menor sucesso. E isto é fundamental para se saber como a RTP1 pode ser complementar e alternativa em relação aos canais privados.


Esta decisão de fundo tem implicações directas no que deve ser a RTP2 - nomeadamente saber em que ponto ela se deve posicionar para, por sua vez,  ser complementar e alternativa em relação à RTP1 . O que está em causa na definição destes dois canais são coisas tão importantes como saber onde cabe a produção de ficção, a programação infantil de qualidade, onde cabem documentários de divulgação vocacionados para o grande público, onde cabe programação cultural mais segmentada, onde cabe produção experimental e inovadora, portuguesa e internacional. E, claro, tudo isto tem interferência global naquilo que devia ser o papel fundamental do operador audiovisual de serviço público: afirmar-se como um regulador de mercado na área da produção independente, garantir a constituição de um património de produção audiovisual de utilização futura e não apenas circunstancial, que assegure a presença da língua e da cultura portuguesas no espaço multimedia digital contemporâneo


Olhem para as grelhas da RTP1 e RTP2 e contabilizem o que é produção de fluxo (que se consome e morre no momento em que é emitida) e o que é produção de stock (que pode ser reexibida noutras alturas e noutros canais de distribuição sem prejuízo de actualidade a médio prazo). Se compararem com o que se passa noutros países europeus verão que Portugal está na cauda dos operadores de serviço público nesta divisão entre fluxo e stock.


É verdade que a informação da RTP melhorou substancialmente nos últimos anos - mas falta dar o passo de sair dos estúdios de Lisboa e do Porto quotidianamente, e não só em momentos de desgraça, para mostrar o dia a dia do resto do país. A RTP Informação devia ser o canal nacional, regional e local, o ponto de união audiovisual entre ilhas, continente, norte, centro e sul.


QUATRO PONTOS PARA UMA REFORMA DO SERVIÇO PÚBLICO


Primeiro ponto: As linhas de orientação da tutela (enquanto representante do accionista Estado), dos orgãos de supervisão e de gestão deveriam ser genéricas, mas devem ser fiscalizadas em tempo útil e efectivamente cumpridas. Há decisões a tomar de forma transparente: A prioridade num determinado mandato é a produção de ficção ou a de documentários? A aquisição de direitos desportivos ou a programação infantil? A informação da macro política e da macro economia nacional ou uma visão do mundo e um acréscimo de importância à informação local e regional que contribua para aumentar a coesão nacional?


 


Segundo ponto: Definir o que se quer de cada canal de televisão e de cada canal de rádio - que audiências se pretendem, que conteúdos são prioritários e o que se perspectiva fazer em matéria de desenvolvimento de utilização do canal digital. Como é a divisão, por exemplo, dos grandes temas acima enunciados pelos diversos canais? Qual a linha de acção da RTP1?  O que cabe à RTP2? Como deve ser a RTP Informação? E os canais internacionais, hoje em dia? E os canais de rádio, que se pode fazer para os melhorar? Como equilibrar a conquista de novos públicos e a manutenção do interesse dos espectadores fiéis do serviço público?


Terceiro ponto: Em função das prioridades estabelecidas é fundamental um orçamento transparente e que tenha correspondência com a realidade. Em televisão os custos são sempre elevados e não há, objectivamente, dinheiro para tudo. Como será a repartição de investimento entre géneros? Corresponde às prioridades? Como será a distribuição de investimento entre os diversos canais de televisão e os de rádio? As verbas propostas são adequadas à missão estabelecida para cada um?


 


Quarto ponto: Como é a governação do operador de serviço público? Deve a administração interferir quotidianamente nos conteúdos como tem acontecido quase sempre? Faz sentido existir um administrador para a área de conteúdos ou faz sentido criar o cargo de Diretor Geral de Conteúdos de Informação e Programação, que concilie os diferentes canais e tenha uma visão global da produção, assegurando junto da administração que as linhas estratégicas e as prioridades tenham correspondência orçamental?


 


Termino sublinhando que a própria noção de serviço público evolui necessariamente com o tempo e com o desenvolvimento da tecnologia. Há uma declaração simples, tirada do Public Broadcasting Service norte-americano, que me parece resumir tudo o que é preciso: “ter programas que usam técnicas inovadoras, que satisfaçam os interesses dos espectadores numa diversidade de temas - que vão das notícias de actualidade nacional e internacional a assuntos de interesse público e social, passando pela História, a tecnologia, a ciência, a ficção, a criatividade, as artes plásticas e performativas e a programação infantil”.


 


Manuel Falcão foi jornalista, fundador e Presidente da Associação de Produtores Independentes de Televisão. Foi também membro do Conselho de Opinião da RTP e integrou o Grupo de Trabalho sobre o serviço público de televisão presidido por Helena Vaz da Silva. Foi Director de Programas do canal 2 da RTP. Desde 2005 é Diretor-Geral da agência de meios Nova Expressão.


 


Este texto foi publicado no diário Público de 2 de Fevereiro de 2018.


 

janeiro 26, 2018

COMO TORNAR OS ELEITORES MAIS INFLUENTES? - CÍRCULOS UNINOMINAIS!

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ELEIÇÕES - Não é novidade dizer-se que existe um descrédito generalizado no parlamento, nos partidos e nos políticos. Nesta conjuntura, duas associações, a Sedes - Associação para o Desenvolvimento Económico e Social e a APDQ - Associação por uma Democracia de Qualidade,  apresentaram um projecto de reforma eleitoral que preconiza um sistema de representação proporcional personalizada, inspirado no modelo alemão, que conjuga as listas territoriais com os círculos uninominais e um círculo nacional de compensação, para garantir um equilíbrio final das representações partidárias. Não é a primeira vez que a questão da introdução dos círculos uninominais, permitidos pela revisão Constitucional de 1997, é apresentado como uma solução para a crise de confiança dos eleitores em relação aos deputados. O objectivo é fazer uma reforma do sistema eleitoral que reforce o poder de escolha dos eleitores e responsabilize os eleitos - cada eleitor exerce o duplo voto no boletim, assinalando, por um lado, a força política preferida, na lista do círculo territorial intermédio e, por outro, o deputado que escolhe no respectivo círculo uninominal. Esta proposta já foi apresentada ao Presidente da República e pretende ser apreciada no Parlamento. Um dos seus objectivos, segundo Ribeiro e Castro, um dos seus promotores, é  provocar uma transformação profunda na formação das listas, com os partidos a terem que ser mais cuidadosos com os candidatos que apresentam, privilegiando a sua relação com os eleitores e não com os equilíbrios internos de forças do aparelho. Por mim penso que a adopção desta proposta seria um grande passo em frente no nosso sistema - resta saber se os partidos políticos têm coragem para darem este passo ou se preferem manter o imobilismo e o caduco sistema eleitoral actual.


 


SEMANADA - Em 2017 registaram-se mais 24 mil mortes que nascimentos e a população portuguesa está a encolher há nove anos consecutivos; os tempos de espera por consultas da especialidade em algumas unidades do Serviço Nacional de Saúde chega a ultrapassar os quatro anos; de acordo com o gabinete de estatísticas da UE, as maiores dívidas públicas são as da Grécia (177,4% do PIB), Itália (134,1%) e Portugal (130,8% do PIB); a Direcção Geral do Orçamento cativou 100% das verbas do Turismo do Norte, colocando em risco o pagamento de salários e ameaçando fechar os postos do aeroporto e do centro do Porto; a Associação Nacional dos Municípios diz que o plano do ministro Eduardo Cabrita, de limpar matas em dois meses, “não é exequível”; em 2017 Marcelo Rebelo de Sousa teve mais tempo de presença nos espaços informativos das televisões que Cavaco e Sócrates juntos dez anos antes; um estudo revelado esta semana indica que em Portugal existem cerca de 48 mil esquizofrénicos, 16% dos quais sem qualquer acompanhamento médico; um estudo do ACP indica que 80 por cento dos portugueses utilizam o automóvel próprio em deslocações para o trabalho; a DECO recebeu 405 mil queixas em 2017, 8o% delas terminaram a favor do consumidor e o sector das telecomunicações é o principal alvo de reclamações.


 


ARCO DA VELHA - Uma juíza de Beja solicitou ao hospital local uma perícia psiquiátrica a um homem falecido há dois anos e da notificação fazia parte a indicação do cemitério onde está sepultado e a localização da campa.


 


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FOLHEAR - A Monocle de Fevereiro tem o tema do futuro dos mídia na capa. e inclui diversos artigos interessantes sobre o assunto. A Monocle, que preserva ciosamente a sua existência na edição impressa, que não é disponibilizada na net, que não tem site com conteúdos da revista, tem em paralelo uma intensa e diversa actividade digital como uma rádio online, uma área video com numerosos pequenos filmes entre o documentário e a informação, além de diversas newsletters digitais. No editorial Tyler Brulée defende a sua ausência de plataformas como o Instagram porque considera que as marcas de comunicação não devem revelar demasiado sobre elas próprias. O problema com as redes sociais, sublinha, é que o facto de estarem constantemente activas obriga a dizer mais do que aquilo que muitas vezes se pretende. Outros temas desta edição - o portfolio de moda é inteiramente fotografado no Restelo, parte dele na zona comercial junto ao Careca; e existe um artigo sobre a recuperação do antigo cinema Odeon para Hotel e restaurante com incorrecções factuais - a mais humorística das quais é dizer que Salazar frequentava o cinema com “a sua mulher e netos” - enfim, vai para o rol de anedotas daquilo que correspondentes mal informados são capazes de escrever. Muito bom o suplemento patrocinado dedicado à importância do design na Lufthansa.


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VER - Até domingo 28 de Janeiro ainda pode ver uma das últimas representações da versão de “Sonho De Uma Noite de Verão”, a comédia romântica de Shakespeare escrita no final do século XVI, numa versão da produtora teatral Espaço Em Branco com encenação de Luis Moreira. Destaco a adaptação do texto, a partir de uma tradução de Fernando Villas Boas.que mantém o espírito de Shakespeare bem ajustado a esta época sem perder o enquadramento original. O trabalho de todos os actores é muito bom. Como Luis Moreira faz questão de fazer notar no programa do espectáculo, o motor do texto é o ciúme e a tensão que ele cria na relação entre personagens. Mais não digo, esta peça, nesta encenação merece ser vista, e está no Teatro do Bairro, rua Luz Soriano 63. Sexta e sábado às 21h30, Domingo às 17h00.  Reservas espacoembranco.teatro@gmail.com ou 916 911 100. Já agora a companhia Espaço em Branco não é subsidiada e as representações têm estado cheias.


Outras sugestões: em Matosinhos, a Galeria-livraria O Manifesto (Rua França Junior 1) apresenta até 31 de Março “Coming Home” de David Guttenfelder, um importante fotógrafo norte-americano que mostra imagens da Coreia do Norte feitas durante os anos em que lá foi correspondente da Associated Press e, depois, do seu país, os Estados Unidos, quando regressou ao fim de 20 anos no estrangeiro. Todas as fotografias foram feitas com smartphone e vale a pena seguir o seu Instagram em dguttenfelder.


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OUVIR - Numa recente leitura online da revista de jazz  “Downbeat” descobri “Directions”, um disco assinado por João Barradas na editora nova-iorquina Inner Circle Music. E quem é João Barradas? Ribatejano, natural de Porto Alto, a fazer agora 26 anos e já com uma carreira longa, que incluíu formação na área da música clássica e do jazz,  João Barradas é um dos mais conceituados e reconhecidos acordeonistas europeus. Em 2016 gravou, para a Inner Circle Music, o seu primeiro álbum enquanto líder - “Directions”, que teve produção de Greg Osby e contou com as participações de Gil Goldstein e Sara Serpa. O grupo é formado por João Barradas (acordeão), André Fernandes (Guitarra), João Paulo Esteves da Silva (Piano), André Rosinha (Contrabaixo) e Bruno Pedroso (Bateria). . O disco começa por uma faixa que é uma espécie de manifesto, pontuada pela voz de Greg Osby. O acordeão está sempre em destaque, desde a balada  “Varazdin’s Landscape” , às sonoridades folk de “Amalgamat” (onde surge a voz de Sara Serpa) ou a evocação de Piazzolla e o seu novo tango em “The Red Badge Of Courage”. Outro acordeonista, Gil Goldstein, faz um arrebatador dueto com Barradas em “Tiling For The Plane” e Greg Osby participa ainda, enquanto saxofonista, em duas faixas, “Unknown Identity” e “Ignorance”, ambas a sublinhar a ligação de Barradas ao jazz e à música improvisada. Nas plataformas de streaming pode não só ouvir este disco como o outro álbum gravado para a Inner Circle Music, “Home - An End For A New Beginning”.


 


PROVAR - Finalmente fui ao andar gourmet do El Corte Ingles, no sétimo piso do edifício em Lisboa, onde só se chega depois de percorrer toda a restante loja. Resolvi deixar de lado as modas insensatas de nomes como Kiko Martins, as propostas geralmente sensatas de José Avilez e concentrei-me em ver o que ali soprava do lado de Espanha. Amante da Galiza fui direito ao Atlántico, uma criação de  Pepe Solla (uma estrela Michelin no Casa Solla, em Pontevedra) dedicada aos petiscos galegos com uma interpretação muito pessoal. O Atlántico está logo à saída das escadas rolantes e tem uma área confortável que contrasta com a amálgama barulhenta dos chefes da moda e sobretudo com o ruído do salão de festas mexicano ali instalado no meio. Salvaguardados da poluição, já bem sentados, constatei que a escolha do Atlántico tinha sido boa. Não se provaram os mexilhões com caril verde que são a marca de Solla, mas outros petiscos deram boa prova de si. No couvert vinha bom pão, azeitonas levemente picantes e uma surpreendente manteiga com algas. A seguir vieram uns bons croquetes de marisco, acabados de fazer, e umas zamburinas (pequenas vieiras, habituais na Galiza), temperadas com um molho de azeite e alho, que estavam suculentas, o tempero q.b para não tirar o sabor de mar que as caracteriza. No fim um atum com paprika agridoce e algas foi um remate perfeito para uma noite de petisco galego. A lista de vinhos inclui nos brancos portugueses um alvarinho, um douro, um dão e um alentejo, todos bem escolhidos, e quatro propostas da Galiza - distribuição que tem uma réplica semelhante nos tintos. Para a próxima experimento as tapas de Aitor Ansorena, um embaixador da cozinha basca, com o seu Imanol, onde me dizem ter que experimentar alcachofras fritas.


 


DIXIT - "Não quer dizer que o pinhal não vá ser pinhal. O pinhal vai ser pinhal e só é pinhal se tiver pinheiro. Mas, para nós termos um bom pinhal e um bom pinheiro que seja, também ele, resistente ao fogo, é preciso que este pinhal não seja só de pinheiro". - António Costa


 


GOSTO - Há quatro portugueses entre os jovens mais brilhantes da União Europeia, segundo a revista Forbes: o bailarino Marcelino Sambé que está no Royal Ballet de Londres, as empreendedoras Filipa Neto e Lara Vidreiro da Chic By Choice na área do comércio electrónico e Francisco Rodrigues dos Santos, líder da Juventude Popular, na categoria Direito e Política.


 


NÃO GOSTO - Um ano depois de ter sido detectado um problema informático que omitiu dados sobre o apagão das offshores, envolvendo informação sobre dez mil milhões de euros, as Finanças não dizem se há investigação aberta ou responsáveis apurados e a justiça não constituíu arguidos.


 


BACK TO BASICS - Os conselhos devem ser julgados pelos resultados que provocam e não pelas intenções que os originam - Cícero


 

janeiro 19, 2018

A POLÍTICA DE NAMORO À BEIRA RIO

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FUTURO - Rui Rio fez uma curiosa afirmação esta semana, depois de conhecida a sua vitória no PSD : “è preciso namorar bem para que o namoro dê certo”. A frase resume o programa político de Rio, também salientado por vários dos seus apoiantes: colocar-se em posição eleitoral sedutora para que nas próximas legislativas António Costa o possa desejar e envolver. O resultado das eleições do PSD é a consequência natural das mudanças introduzidas na política portuguesa com a solução de alianças despoletada por António Costa e que conseguiu transformar uma derrota eleitoral numa vitória. Definitivamente vivemos um novo tempo, com um apagamento cada vez maior das ideias, um tempo onde a política se resume ao tacticismo do momento, em que os partidos se dispõem a abdicar da sua identidade para conseguirem sentar-se à mesa do poder. Como o caso do PCP mostrou nas recentes autárquicas esta solução leva ao apagamento das diferenças entre partidos e produz uma quebra na influência dos que não lideram o processo. Tirando isto, e regressando ao PSD, os próximos tempos mostrarão a construção de um partido domesticado - Rio é autoritário e é perigoso confundir a arrogância que ostenta com uma coragem que ainda não se viu. Para todos os efeitos Rio chega ao poder no meio de chapeladas diversas, protagonizadas pelo seu próprio diretor de campanha e não desmentidas. Rui Rio tem a doença infantil dos historiadores, é como um arquivo histórico - olha para o passado sem pensar no presente e a ignorar o futuro.


 


SEMANADA - O Presidente da EMEL foi fotografado numa ciclovia, a pedalar numa das bicicletas alugadas pela empresa, e a proclamar que os seus agentes “raramente” andam a fazer caça à multa; a provedoria de justiça defendeu que a cobrança de multas por empresas municipais põe em causa a protecção dos particulares contra situações abusivas; Fernando Medina avisou que o chumbo da taxa de proteção civil cria a necessidade de aumentos nas taxas e impostos camarários; em Portugal o sector automóvel vale 5.9% do PIB e emprega 72 mil pessoas; mais de 40% do novo crédito ao consumo destinou-se a comprar carro; os preços de combustíveis nas zonas mais próximas de Espanha é cerca de 20% mais barato que nas grandes cidades; em ano e meio houve mais de meio milhão de contraordenações graves e muito graves nas estradas, mas só 3% dos infractores perderam pontos na carta de condução; o PS continuou a insistir na Lei do Financiamento partidário; dados agora divulgados mostram que até ao final de Novembro tinham visitado Portugal em 2017 cerca de 19,5 milhões de turistas; em 2017 o castelo de S. Jorge recebeu quase dois milhões de visitantes, 95% dos quais estrangeiros, o que o torna no monumento mais visitado do país; o mosteiro dos Jerónimos recebeu um milhão e cem mil visitantes; metade da população portuguesa só tem polícia a mais de 5 kms de casa; mais de 60% da bancada do PSD não apoiou Rui Rio nas directas.


 


ARCO DA VELHA - A Associação Mutualista recusou prestar informações à entidade contratada pela Santa casa da Misericórdia para avaliar a Caixa Económica Montepio Geral.


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FOLHEAR - Gosto de almanaques. Desde pequeno que me fascina ler por antecipação o que se vai passar ao longo do ano, procurar receitas apropriadas a cada mês, saber das épocas ideais para tratar de algumas plantas e por aí fora. Aqui há umas décadas publicavam-se em Portugal vários almanaques e anuários, depois a coisa caíu em desuso e fiquei limitado a infalivelmente comprar o “Borda d’Água” quando ele começava a ser posto à venda por essas ruas. Agora a editora Guerra & Paz teve a boa ideia de ressuscitar o género e lançou o “Almanaque Português”.  Em cada mês há um calendário com dias comemorativos e outro com os santos, além de recomendações para a horta, pomar e jardim, provérbios populares, a listagem de feriados municipais e sua razão de ser, elencagem das festas e feiras e ainda um repositório de efemérides. Meses à parte, o Almanaque apresenta artigos sobre história, gastronomia, astronomia, astrologia,  anedotas e conselhos úteis que podem ir desde como tirar certas nódoas até como fazer uma mala. Este Almanaque Português, fonte de sabedoria, ensinamentos e diversão, está à venda por 15,50 euros - o que dá 1.29 euros por mês se o amortizarmos no primeiro ano, apesar de ele durar para muito mais tempo.


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VER - Para a semana abre na Sociedade Nacional de Belas Artes uma exposição de uma centena de cartazes desenhados por Raul de Caldevilla que é considerado o primeiro grande publicitário português. A iniciativa é da Academia Portuguesa de Cinema (APC), em parceria com o Museu da Publicidade. Grande parte da obra apresentada foi criada na Empreza Technica Publicitária – ETP, fundada por Raul de Caldevilla no Porto, em 1912. A ETP é uma das primeiras agências de publicidade do país a produzir cartazes de grande formato e foi pioneira na introdução da publicidade exterior. Em 1917 expandiu-se, mudou de instalações e passou a chamar.-se Propagandas Caldevilla. Em 1921 criou a Caldevilla Filmes, produziu documentários e ficção e chegou a projectar o que mais tarde viria a ser a Tóbis, no Lumiar. Filho de um casal espanhol, Raul de Caldevilla nasceu no Porto em 1877, cidade onde viveu até à sua morte em 1951. Foi jornalista, autor dramático, publicitário e produtor de cinema. Na sua actividade não só promoveu os filmes que produzia, entre os quais o primeiro filme dedicado à temática do fado, em 1923, como criou a campanha para o lançamento do filme “Rosa do Adro”, da sua concorrente Invicta Filmes, que anunciou sob o lema “romance português, filme português, cenas portuguesas, actores portugueses. A exposição “Raul de Caldevilla – Cartazes de Sonho” estará na SNBA entre 23 de Janeiro e 12 de Fevereiro e em simultâneo decorre um pequeno ciclo na Cinemateca Portuguesa, mesmo em frente.


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OUVIR - Paulo Furtado é das personagens mais fascinantes da música portuguesa do século XXI. A sua actividade tem-se desdobrado entre os Wray Gunn, banda injustamente pouco acompanhada em Portugal, e a sua própria carreira a solo enquanto The Legendary Tigerman. Nesta vertente a solo, até 2014, Paulo Furtado tocava em palco sózinho, guitarra, harmónica e bateria - um verdadeiro homem orquestra dos tempos modernos, combinando mecanismos de percussão com alguma  tecnologia. A partir de 2014, depois  do álbum “True,  passou a colaborar com Paulo Segadães na bateria e João Cabrita no saxofone - ambos tocam também no novo disco “Misfit”. A edição inclui um CD com 11 originais e um DVD que mostra um road movie fruto do percurso de construção e gravação do disco nos Estados Unidos, realizado por Pedro Maia e filmado por Rita Lino, com o próprio Paulo Furtado como protagonista. O filme documenta o processo criativo, acompanhando a composição das onze canções nos quartos de motel na California em que Furtado se foi alojando durante a rodagem, sendo posteriormente gravadas no estúdio do Rancho de La Luna, em Joshua Tree. The Legendary Tigerman (como os Wray Gunn aliás) tem uma intensa actividade fora de Portugal e uma agenda cheia de concertos. Vale a pena dizer aqui que a fotografia e o cinema há muito fazem parte dos interesses criativos de Paulo Furtado e este “Misfit” junta os vários mundos onde ele se move - e se quiserem ver as suas fotografias espreitem o Instagram de The Legendary Tigerman. Em “Misfit” falamos de rock com forte influência de blues, um som denso com canções magníficas como o manifesto enunciado em “Fix of rock’n’roll”, a envolvência de “The Saddest Girl On Earth”, “Black Hole” e do hipnótico “Red Sun” ou os irresistíveis “I Finally Belong To Someone” ou “Child Of Lust”.



PROVAR - Uma boa e resistente caçarola é um utensílio imprescindível numa cozinha. Não estou a falar de uma panela. Estou a falar de um recipiente de ferro, grosso e pesado, revestido a bom esmalte, com uma tampa que vede bem e que se pode usar no cimo do fogão ou no forno. É coisa para se cozinhar de forma lenta, aproveitando bem os sucos dos alimentos que estão a ser preparados. A boa caçarola é uma testemunha da vantagem de não se usar alta temperatura - razão tinham os antigos que cozinhavam a sopa de pedra original num pote de ferro forjado colocado por cima das brasas das lareiras das cozinhas de antão. A Le Creuset, fundada no início do século XX em França por dois belgas,  é uma das mais prestigiadas marcas que produz caçarolas de ferro esmaltadas, estas “cocottes”, também conhecidas por “dutch ovens “ noutras paragens. Tive a sorte de receber uma como prenda de Natal e antevejo grandes mudanças  na minha actividade culinária nos próximos meses. Este tipo de caçarola é o ideal para cozinhar carne e legumes ao mesmo tempo, num lento e suculento estufado ou num denso guisado. Se pesquisarem na net há imensas receitas para dutch ovens, muito tentadoras,  e que têm em comum a importância de cozinhar a baixa temperatura durante muito tempo. Um dia destes falo de algumas receitas bem sucedidas na minha Le Creuset. Cheira-me que isto é o princípio de uma bela amizade.


 


DIXIT - “O próximo PGR nascerá estigmatizado por uma espécie de reserva de desconfiança. A escolha ficará para sempre sob suspeita. Para salvar ou condenar Sócrates? Para liquidar ou ressuscitar Salgado e o Grupo Espírito Santo?” - António Barreto.


 


GOSTO - A coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas receberá o Leão de Prata na Bienal de Dança de Veneza.


 


NÃO GOSTO - António Costa não respondeu às perguntas colocadas no Parlamento, sobre o jantar da Web Summit no Panteão, dentro do prazo estabelecido para o fazer;


 


BACK TO BASICS - “Quando os políticos se queixam que a televisão dá da política a imagem de ela ser um circo, é preciso ter em conta que o circo já lá estava e que a televisão se limita a mostrar que nem todos os participantes no espectáculo estão convenientemente treinados” - Edward R. Murrow


 


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