março 20, 2015

SOBRE O MÉTODO DE ALIMENTAR A INDIFERENÇA FACE À POLÍTICA

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POLÍTICAS - Estamos a meia dúzia de meses de eleições, no final de uma legislatura de quatro anos, e de um Governo que quando chegou se defrontou com um país à beira do colapso financeiro. Tomou as medidas que entendeu, umas melhores que outras. Mas em vez de discutir seriamente o que se vai fazer a seguir, nos próximos quatro anos, as  últimas semanas têm apenas trazido casos e casinhos, uns graves, outros gravinhos, que são o retrato de uma classe política que se apraz a fazer politiquice de hábitos e costumes em vez de estudar, debater e traçar políticas e fazer pela sua implementação. Grande parte do tempo gasto em debates entre representantes dos vários partidos não versa sobre política mas sobre pessoas e atitudes dessas pessoas.  Questões centrais como as formas de melhorar a justiça, a saúde ou a educação são esmagadas por polémicas sindicais, casos de intendência e um rotineiro hábito de fugir às responsabilidades por quem toma decisões de duvidosa legitimidade e efeito. A politiquice tem o efeito de mascarar a incapacidade de executar políticas adequadas que diagnostiquem e resolvam os problemas novos que se colocam por força da evolução social, económica e demográfica. Para agravar as coisas, em pano de fundo pairam evidências de que a possibilidade de um tratamento equitativo do Estado aos cidadãos é hoje em dia uma hipótese remota, tão cheio está o saco de situações concretas que mostram o contrário. O Estado tornou-se numa máquina  que se serve dos cidadãos em vez de os servir e que aproveita as fragilidades para abusar dos poderes que pode utilizar. Quem governa tem especiais responsabilidades em ouvir e não em ignorar; deve conseguir combinar o exercício do poder com o combate ao abuso de poder. Se não fôr assim criam-se desiquilíbrios que estão na origem da descrença nos políticos, no sistema partidário e no funcionamento da sociedade. Estamos a um passo de ser uma minoria a decidir, tal o tamanho da abstenção que se adivinha e do desinteresse criado pela ausência de discussão séria.


 


SEMANADA - O FMI passou a semana a fazer pressão mediática para forçar mais reformas; o Ministro da Economia, Pires de Lima, disse que o FMI falhava as previsões frequentemente; a Segurança Social vendeu 900 mil acções da PT com um prejuízo de 87%; Fernando Ulrich afirmou ter partilhado com Vitor Gaspar as suas preocupações em relação ao Grupo Espírito Santo um ano antes do colapso do BES, desmentindo assim afirmações feitas pelo ex-Ministro das Finanças; Fernando Ulrich acusou a troika de ter estado três anos em Portugal e não ter percebido nada do que se passava no país; Fernando Ulrich criticou a actuação do Banco de Portugal no caso do BES, afirmando que na supervisão há pessoas “muito boas a usarem o microscópio, mas não é com microsocópios que se apanham elefantes”; a defesa de José Sócrates, numa só semana, perdeu um pedido de habeas corpus, perdeu um recurso para a relação e para remate despejou a sua frustração em cima da comunicação social e dos jornalistas; o vereador José Sá Fernandes conseguiu um coro de críticas na Assembleia Municipal por um projecto de concessão a privados de espaços em Monsanto, baseado num concurso com um único concorrente, com um caderno de encargos polémico e com um enquadramento económico duvidoso; Rui Rio está inclinado a entrar na corrida à Presidência da República; O PS está inclinado a fazer Sampaio da Nóvoa entrar na mesma competição;  Portugal fechou 2014 a perder emprego e com a população activa em mínimos do século; os trabalhadores do Metro de Lisboa já fizeram greve 41 vezes desde 2011; 430 mil portugueses emigraram entre 2009 e 2013.


 


ARCO DA VELHA - Governo e Fisco desmentiram aquilo que, no dia 20 de janeiro, o chefe de serviços de auditoria da Autoridade Tributária, Vitor Lourenço,  divulgara numa acção de formação  a mais de 500 pessoas: a existência da lista de contribuintes VIP, sobretudo da área política, criada no âmbito do Fisco.





FOLHEAR - “A Síria em Pedaços” é uma colectânea de textos de Bernardo Pires de Lima, publicados em jornais, muitos com relação directa com a actualidade do momento, mas que agora, editados em livro, permitem ter uma visão de conjunto da evolução da situação naquele país e naquela região. Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa e do Centro para as Relações Transatlânticas da Universidade John Hopkins, Bernardo Pires de Lima é também colunista e comentador em jornais, na rádio e televisão. Conheci-o na saudosa revista Atlântico e tenho seguido os seus escritos, que ajudam melhor a perceber o conflito na Síria, o crescimento do radicalismo islâmico e as posições das diplomacias ocidentais. Além das análises e comentários a acontecimentos feitos ao longo de quatro anos, da primavera árabe  ao atentado ao Charlie- Hebdo, passando pelo Isis, sempre com a Síria por pano de fundo, esta edição oferece ainda um útil glossário assim como um indíce de figuras que são actores da realidade da política internacional. “A Síria em Pedaços” é uma edição Tinta da China.


 


VER - Na Fundação Carmona e Costa está patente, até 2 de Maio, uma exposição de Graça Pereira Coutinho intitulada “A Outra Mão”, baseada em desenhos, ideias e reflexões feitas num caderno em que em que a artista foi deixando anotações ao longo do tempo. É uma espécie de diário de ideias por executar - e algumas passaram do estádio de simples imaginação para a execução de facto no espaço da Galeria - desde os desenhos a videos ou a instalações, com destaque para um labirinto que reflecte a visão do trabalho e do quotidiano e que é a peça central de toda a exposição (na imagem). O próprio original do caderno está exposto e pode ser visto numa das salas, confrontando o pensamento e o processo criativo com a obra produzida. É uma exposição apaixonante e intensa. Fundação Carmona e Costa, Rua Soeiro pereira Gomes Lote 1, 6º , ao rego. Informações e horários em www.fundacaocarmonaecosta.pt .





OUVIR - Max Richter é dos casos mais interessantes da música contemporânea. Com um fascínio pelo resultado do encontro de instrumentos electrónicos com instrumentos acústicos e com a voz humana, Richter, um pianista de formação clássica que desenvolveu uma carreira de compositor, tem também experiência de trabalho sobre obras de autores como Philip Glass, Arvo Part, Brian Eno ou Steve Reich, através do seu Piano Circus, um ensemble que durante dez anos dinamizou. O mais curioso em Richter é como ele combina a sua formação clássica com a influência da música popular. “The Blue Notebooks” é o seu segundo álbum a solo, originalmente editado em 2004 e agora reeditado pela Deutsche Grammophon.  O disco tem a participação de Tilda Swimton, que lê, entre outros, textos de Kafka. Richter tem uma tendência narrativa na sua composição, que muitas vezes leva à construção de ambientes que são próximos de bandas sonoras de filmes imaginados. O resultado é admirável e esta reedição permite descobrir um disco que, uma década depois de ter sido gravado, continua intemporal.


 


PROVAR - Nas Avenidas Novas há um discreto local onde se pode comer boa comida tailandesa, convenientemente preparada, com delicadeza nos abores e intensidade no tempero. Chama-se Siam Square e fica na Avenida Luis Bivar, quase a chegar à Rua Tomás Ribeiro, num rés do chão elevado. A sala é simples mas acolhedora, o serviço é simpático e atencioso, a ementa é apelativa, a carta de vinhos é modesta mas bem escolhida. Nas entradas o destaque vai para os bolinhos de peixe, há sopas picantes e saladas de camarão, carne de porco ou galinha. Existem ainda propostas vegetarianas, pratos de caril, com destaque para o caril vermelho de pato assado com molho de coco e ananás fresco e o caril verde de camarão. Nos peixes destaca-se o robalo ao vapor com molho de limão e coentros. Outras possibilidades são o arroz de jasmim frito com galinha e o caranguejo salteado com caril em pó ou a carne de vaca salteada com molho de ostras e piri piri. Há ainda uma extensa lista de sobremesas. A experiência vale a pena e pode ser testada de segunda a sábado na Avenida Luis Bivar 7A. Telefone 213 160 529.


 


DIXIT - “Não é aceitável a atitude cada vez mais frequente como o Estado actua na cobrança de impostos de tal modo que, com frequência, os contribuintes se sentem impotentes para resolver os seus problemas com o fisco” - Manuela Ferreira Leite


 


GOSTO - Do alargamento da atribuição de vistos gold a estrangeiros que invistam na cultura, na investigação científica e na reabilitação urbana.


 


NÃO GOSTO - Há mil europeus infectados por dia com tuberculose.



BACK TO BASICS - Vivemos rodeados de mentiras, mas o pior de tudo é que metade delas são verdades - Winston Churchill

AS NOVAS TENDÊNCIAS DO DIGITAL

O festival interactivo SXSW (South By Southwest), que por estes dias teve a sua 22ª edição em Austin, no Texas, é um dos locais onde se desenha o futuro  da indústria. Segundo a Advertising Age uma das principais tendências detectada foi o incremento de dispositivos de realidade virtual. Um dos fóruns mais concorridos do festival, e uma das áreas que mais está a investir no desenvolvimento de conteúdos e dispositivos de realidade virtual é a indústria da pornografia. “The future of Porn is 3D Virtual Reality”  foi o tema de uma das mais concorridas conferências.



Mas a indústria automóvel não fica atrás e a Toyota mostrou um simulador de condução de um dos seus modelos – o que mostra o potencial da realidade aumentada fora do mundo dos jogos, do lazer e do prazer, e pode proporcionar aplicações comerciais que mais tarde ou mais cedo hão-de virar conteúdos publicitários.


 


Outra das tendências marcantes é a adopção de aplicações que proporcionam a capacidade de fazer live stream para redes sociais – o Twitter anunciou há dias ter comprado uma empresa desta área, a Periscope e algumas agências de comunicação têm usado uma ferramente idêntica, Meerkat, para fazer o live streaming de lançamento de produtos, transmitindo em directo nas redes sociais. Finalmente a terceira tendência é a utilização de plataformas como o Snapchat, particularmente o Snapchat Discover, que está rapidamente a tornar-se na coqueluche dos produtores de conteúdos, como a CNN, ESPN, Vice, Yahoo News, National Georgraphic e outras – espreite aqui www.snapchat.com .


 


Onze empresas de conteúdos colocam notícias e vídeos directamente no Snapchat e observadores da indústria consideram que estas aplicações, que conjugam a capacidade de enviar e receber mensagens com conteúdos editoriais, é uma das mais valiosas apostas do futuro. As receitas são geradas por publicidade ou patrocínios colocada nos conteúdos e a procura é grande – e os preços altos. Parece que uma das obsessões dos responsáveis de empresas editoriais e de conteúdos no SXSW foi conseguirem uma reunião com Evan Spiegel, o CEO da Snapchat . Vale a pena ver o blogue http://blog.snapchat.com/ para perceber um pouco melhor aquilo de que estamos a falar.


 


Uma das razões para toda esta azáfama em torno de aplicações que misturam mensagens com conteúdo tem a ver com umestudo recentes que apontam para o facto de a geração dos millenials ser particularmente receptiva a conteúdos online, independentemente de serem patrocinados ou pagos por marcas e anunciantes - 57% utilizam-nos. Se considerarmos o escalão entre os 18 e 24 anos o número de interessados sobe para 63%. Este estudo realizado no Reino Unido pela Adyoulike, entre pessoas dos 18 aos 33 anos mostrou que artigos escritos em forma de narrativa são o tipo de conteúdo que a maioria prefere (32 por cento), seguido de artigos construídos sobre listas focalizadas num tema ( 24 por cento) e vídeos (17 por cento). “As pessoas querem conteúdos de qualidade que lhes tragam alguma coisa de novo e não se importam se eles são patrocinados ou não”, afirmou Francis Turner, diretor da Adyoulike. Estes números confirmam o interesse crescente por aquilo que se designa “native advertising” –“ se os conteúdos forem suficientemente bons as pessoas não se importam como eles lhes aparecem” – refere Turner. 


 


Estas três tendências – dispositivos de realidade virtual, live streaming nas redes sociais e native advertising em conteúdos, vão marcar as conversas dos próximos tempos e mostram como tudo evolui tão depressa no digital.


TV: GUERRA ABERTA EM HORÁRIO NOBRE

Na semana passada 13 programas, dos três canais generalistas comerciais, conseguiram audiências acima de um milhão de espectadores – oito foram da TVI, três da SIC e dois da RTP1. Na TVI os resultados foram obtidos por novelas, desporto, reality shows e informação; na SIC por novelas e informação e na RTP por um concurso e pelo Telejornal. O programa mais visto, no global, foi a transmissão do Porto-Basileia, na TVI, que alcançou 1,8 milhões de espectadores. Logo a seguir fiou a estreia de “A Outra Mulher”, que alcançou 1,75 milhões. À mesma hora desta estreia a SIC emitiu um especial “Mar Salgado” que conseguiu milhão e meio de espectadores. A nova novela da TVI, rodada em Angola e em Portugal, promete uma disputa feroz com a SIC no horário nobre – a SIC tem liderado durante a transmissão de “Mar Salgado”, vamos ver como se desenvolve esta guerra de audiências entre novelas de produção nacional. Também no Cabo a TVI 24 dominou. graças aos programas de resumos da jornada da semana passada da Champions League. No cômputo geral do cabo nota-se que a SIC Notícias está colada á RTP2, sendo que o segundo canal do serviço público nem aparece entre os 15 canais mais vistos na região da Grande Lisboa. Vamos ver o que as alterações na estrutura da RTP trazem a médio prazo ao posicionamento e relevância dos canais públicos entre as audiências de televisão.

março 13, 2015

Qual a relação das 50 Sombras de Grey com os prefácios a discursos presidenciais?

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PREFÁCIO - Ao longo da sua vida política Cavaco Silva tem sido sempre fiel a um princípio: diz umas coisas que provocam umas explosões, que são percepcionadas fora do seu círculo de uma determinada maneira e que causam um determinado efeito político. Depois vem, todo cândido, afirmar que não disse nada do que os comuns mortais entenderam, muito menos quis dizer o que quer que fosse, e jura ter falado apenas de abelhas e passarinhos enleados num jardim. Cavaco, já se sabe, nunca erra, é apenas incompreendido. Por estes dias assistimos a mais um destes episódios, com o prefácio que escreveu para “Roteiros IX”, a nona compilação de intervenções sem grande história que faz ao longo dos meses. Já não é a primeira vez que ao vazio genérico dos textos publicados Cavaco Silva resolve adicionar picante nos prefácios onde dá a sua visão do mundo, numas análises que são uma espécie de “50 Sombras de Grey” da política. A cerca de um ano das presidenciais, resolveu pregar o que entende serem as qualidades necessárias ao desempenho, como ele o vê, da função de Presidente da República e, entre elas, destacou a experiência internacional. Da direita à esquerda,  vários candidatos a candidatos afirmaram que a descrição feita lhes assentava que nem uma luva - todos à excepção de Durão Barroso que seria porventura a figura que melhor se encaixaria no retrato robot desenhado. Não vou comentar o facto de o Presidente da República em exercício se dedicar a encontrar um herdeiro para a função mais a seu gosto, mas não resisto a citar Marcelo Rebelo de Sousa: “os portugueses precisam é de alguém que resolva os problemas cá dentro”. Que a campanha eleitoral já tinha começado, já se sabia. Mas que a direcção de campanha tinha gabinete em Belém é que é a notícia da semana.


 


SEMANADA - Um ministro demitiu-se por ter mentido no Parlamento - mas foi na Holanda; o ex-Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, agora no FMI, afirmou que só soube do que se passava no BES “pela imprensa especializada internacional”; Faria de Oliveira, Presidente da Associação Portuguesa de Bancos, disse na Comissão Parlamentar de inquérito ao caso do BES que não entendia “que se tenham esquecido questões da maior importância, como a responsabilidade de cumprir as normas da actividade bancária”; António Vitorino ocupa cargos em orgãos sociais de 12 empresas; PSD e PS continuam em queda quanto a intenções de voto nas mais recentes sondagens publicadas; António Capucho defendeu a convocação de eleições antecipadas na sequência da polémica sobre as dívidas de Passos Coelho à Segurança Social; a compra de imobiliário relacionado com vistos gold atingiu 55 milhões de euros em Fevereiro, uma subida em relação aos 46 milhões registados em Janeiro; investidores chineses lideram o acumulado de investimento desde o início do programa de vistos gold, com 1777 aquisições de imobiliário, seguidos por 74 brasileiros e 70 russos; há mais de dez mil processos parados nos tribunais desde o bloqueio do Citius; as doações feitas através da declaração de IRS a instituições de solidariedade social quadriplicaram entre 2011 e 2014, atingindo agora mais de 12 milhões de euros e envolvendo cerca de 400 mil contribuintes; o mercado mundial de obras de arte aumentou vendas em 26% em 2014, para um total de 14 mil milhões de euros, dos quais 524 milhões foram peças de Andy Warhol.


 


ARCO DA VELHA - António Costa viveu durante dois anos num apartamento duplex, na Avenida da Liberdade, cuja construção teve parecer negativo dos técnicos da Câmara Municipal de Lisboa, mas que foi autorizado pelo vereador Manuel Salgado.


 


FOLHEAR - Ao pegar na edição “As Flores do Mal”, um título roubado à obra de Baudelaire, e aqui baseado em textos de Fernando Pessoa e em fotografias de Pedro Norton, fiquei na dúvida se havia de o colocar na secção “Folhear” ou “Ver”. Esta edição, magnífica, da Guerra e Paz, com capa de madeira gravada a fogo, tanto pode ser vista como um livro que se folheia ou uma exposição que se percorre. Em “Um Livro de Vícios”, a apresentação onde o editor, Manuel S. Fonseca, aborda o critério de escolha dos textos de Pessoa e dos seus heterónimos aqui representados, ele faz notar que o verso “Dêem-me de beber que eu não tenho sede!” é a chave para a compreensão da selecção de textos de Pessoa que foi feita, todos a falar de vícios  - e “ópio tenho-o eu na alma”, é outro dos versos marcantes desta obra. Pedro Norton aventurou-se aqui a sair da sua clandestinidade fotográfica, pelos vistos um segredo bem guardado. Norton tem o bom senso de recusar o conceito de ilustrar as palavras de Pessoa - e tem razão porque as suas fotografias ensaiam uma história, pessoal, a olhar para o seu próprio universo - “só eu vejo aquilo daquela maneira”, conta Pedro Norton, um gestor há muito ligado à comunicação social. Na realidade esta história tem 51 histórias, ou, se quiserem, 51 fotografias - que vão do íntimo ao provocatório, do pensamento à acção, da descoberta ao refúgio. É uma edição exemplar baseada numa ideia original e perturbante. Deliciosamente perturbante.


 


VER - Retratos bem diferentes em duas exposições. “Mulheres na Ciência” agrupa retratos feitos por Luísa Ferreira a 20 investigadoras de diversas áreas e estará no Pavilhão do Conhecimento, durante um ano, onde receberá várias novas imagens ao longo do tempo - até se reunir todo o material para um livro que será editado em Março de 2016. Outra exposição de retratos, mas bem diferente, é a que foi feita por iniciativa da revista Máxima, reunindo imagens de homens que aceitaram o desafio de serem fotografados de saltos altos - “100 Homens Sem Preconceitos” - músicos, artistas plásticos, actores, jornalistas, desportistas (como Gonçalo Sousa Uva, na imagem), todos figuras públicas que foram retratados com stilletos propositadamente concebidos para esta série de pés masculinos por Luis Onofre. A exposição está no CCB até 2 de Abril e um livro, cujas receitas revertem para a Associação Laço, reúne as imagens que a Máxima foi produzindo e divulgando e que estão expostas.


 


OUVIR - Muita gente conhece o baterista Jack DeJohnette sobretudo pelo seu trabalho com nomes como Keith Jarrett ou Miles Davis e com a sua Special Edition Band. Mas DeJohnette começou por tocar piano em Chicago, no início dos anos 60, ao lado de saxofonistas como Henry Threadgill e Roscoe Mitchell. Foi então que conheceu  o pianista Muhal Richard Abrams, um músico que teve enorme influência no free jazz com a Association For The Advancement of Creative Musicias e com a sua Experimental Band. Mais tarde DeJohnette evoluíu para a bateria, onde ganhou fama. Foi com os músicos da fase inicial da sua carreira, e com o baixista Larry Gray, que DeJohnette se juntou de novo, em 2013, então com 71 anos, para actuar no Chicago Jazz Festival. O resultado esta em “Made In Chicago”, gravado ao vivo nessa ocasião, e que é uma espécie de viagem às origens musicais destes pioneiros. Disco intenso, por vezes pouco confortável, mas enérgico, a sua faixa final, “Ten Minutes” é um exemplo de improvisação e de energia criativa. CD ECM, na Amazon





PROVAR - Hoje dedico-me ao petisco, a propósito do monocasta Syrah, “Lybra” ,da Quinta do Monte d’Oiro. O syrah vai bem com queijos intensos e este em particular acompanha bem um Azeitão ou um queijo amarelo da Beira Baixa. Mas a minha preferência vai claramente para um Serpa bem curado, daquele que se parte em lascas fininhas. A combinação de um bom vinho tinto com um queijo artesanal, saboroso e intenso, é das melhores coisas que me podem oferecer. Substitui uma refeição mais elaborada e o corpo frutado do syrah, se esmaga queijos delicados, harmoniza bem com alguns dos nossos melhores queijos de ovelha. Este syrah “Lybra” provém de uma vindima manual. com desengace sem esmagamento e estagiou entre 12 a 14 meses em barricas de carvalho francês. É um vinho jovem e vivo que nas grandes superfícies pode ser encontrado abaixo dos 10 euros. E é companhia garantida para uma boa conversa.


 


DIXIT - “Portugal só vai dar passos grandes no sentido de reformar o Estado quando cair no próximo resgate” - Daniel Bessa, Economista, ex- Ministro


 


GOSTO - Do exemplo de persistência e força de vontade de Nelson Évora que superou lesões muito duras, recuperou, e se sagrou Campeão Europeu do triplo salto apesar de muitos o terem dado como acabado para a alta competição.


 


NÃO GOSTO - Os alunos que não escreverem segundo o novo acordo ortográfico vão perder até 25% da nota do seu exame, mesmo que escrevam correctamente na grafia portuguesa.



BACK TO BASICS - “Normalmente são necessárias três semanas de preparação para fazer um bom discurso de improviso” - Mark Twain


 


 

março 06, 2015

SOBRE MEMÓRIA E A IGNORÂNCIA

EXEMPLOS - Esta semana li numa página de Facebook que acompanho uma verdade absolutamente incontornável: nos manuais de liderança, ser o exemplo surge como uma das características mais importantes de um líder. Vivemos num tempo em que a ignorância das leis e dos regulamentos é tida por coisa de somenos importância e em que a falta de memória é assunto esperado que motiva apenas sorrisos cínicos. E é entre a ignorância e a falta de memória que se desenvolve o cepticismo do comum dos mortais sobre os políticos, sobre os que se oferecem para ter uma participação cívica, sobre quem anuncia querer contribuir para mudar o país. Se Portugal tivesse mudado, para melhor, um décimo do que andam a prometer há décadas estaríamos nos primeiros lugares de bem-estar. Odeio pingue-pongue de acusações entre políticos que vivem debaixo de telhados de vidro - os últimos anos têm mostrado como em matéria de falta de ética a coisa está bem distribuída no espectro partidário, mas também no mundo empresarial e no sector financeiro. Este ano tem sido uma galeria de horrores em matéria de revelações escabrosas e o que mais revolta é observar a forma  como as autoridades são tolerantes para os políticos incumpridores e os automatismos são inflexíveis para os vulgares cidadãos ou as instituições sem poder. Enquanto houver políticos com carreiras contributivas poluídas que tentam disfarçar, enquanto houver ex-governantes que se dedicaram a criar teias de relações para enriquecimento posterior, nada pode funcionar bem neste país. A política em Portugal não é encarada como um acto cívico. É entendida como uma oportunidade. Fica tudo dito. As boas intenções não vivem sózinhas.


 


SEMANADA - As escolas portuguesas perderam quase 40 mil professores desde 2011; há 9500 professores que, quando saírem das suas escolas, não serão substituídos; o vereador Manuel Salgado disse que a Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, tem um “raciocínio pouco atento”; o preço das casas subiu 1,2% em 2014, depois de queda de 22% em sete anos; a venda de automóveis cresceu 30,7% nos dois primeiros meses do ano face ao período homólogo de 2014; 262 mil veículos foram apanhados em 2014 pelos radares policiais em excesso de velocidade; uma mulher de 30 anos fez a ponte 25 de Abril em sentido contrário na direcção Almada-Lisboa; mais de 400 mil portugueses já foram ver as “50 Sombras de Grey”; um grupo de apoiantes do movimento “Junto Podemos” deixou de querer estar juntos e fundou o movimento “Agir”; Jardim Gonçalves aplaudiu a proposta de fusão do BPI e do BCP apresentada por Isabel dos Santos; segundo a Cáritas as situações de pobreza em Portugal aumentaram 15% em 2014; uma em cada quatro mulheres portuguesas estão desempregadas ou sub-ocupadas; o PSI 20 continua só com 18 empresas cotadas; em 2014 as empresas portuguesas desceram o seu endividamento em 19 mil milhões de euros e a maior fatia coube a microempresas que foram responsáveis por 39% do total da redução; frase esclarecida da semana: “o que é preciso agora é que os Governos desempenhem o seu papel”, tal é o pensamento do director do Think Tank Bruegel; uma vigília de apoio a Sócrates, que decorreu junto à cadeia de Évora no fim de semana, juntou 17 mulheres e quatro homens; a Turquia vai ser um dos grandes mercados de carne de coelho portuguesa a partir de meados deste ano.


 


ARCO DA VELHA - Segundo a imprensa, o fisco penhorou bens alimentares doados a uma associação que dá apoio aos sem abrigo na cidade do Porto,  o "Coração da Cidade", por dívidas em atraso relacionadas com o pagamento de portagens em antigas SCUT e a Autoridade Tributária quer penhorar  arroz, massa e bananas.


 


FOLHEAR - A revista “Monocle” fez em Fevereiro oito anos e foi fundada com uma substancial participação de capital do Japão. É frequente encontrar sugestões sobre locais, empresas, moda ou design japonês, tal como de outros países. Pela primera vez a edição de Março deste ano da “Monocle” tem o Japão por tema central, e ainda bem. É um retrato contemporâneo do império do sol nascente, desde os media mais experimentais até comunidades estrangeiras que estão a mudar os hábitos dos locais - como os brasileiros que levaram o samba para Tóquio e explicaram porque é que no Brasil se faz sushi de fusão. A coisa mais interessante da “Monocle” é proporcionar uma visão abrangente, multi-disciplinar, ajudar os seus leitores a estarem atentos às tendências e obrigar a pensar no que se está a fazer por esse mundo fora - desde livrarias a lojas de acessórios, passando por moda ou música. É um equilíbrio difícil de conseguir, mas é esse delicado equilíbrio que faz o sucesso da revista e que, mês após mês, motiva fiéis leitores, como eu, a redescobri-la. No seu editorial desta edição o fundador da revista, Tyler Brulé, exprime o desejo de que no ocidente existam escolas japonesas que possam ensinar boas maneiras e princípios básicos de civilização. Dei comigo a concordar com ele.


 


VER - Hoje proponho uma exposição virtual, no site do Museum Of Modern Art - e não estou a falar da badalada exposição de Bjork, a cançonetista preferida de algumas pessoas que gostam de se dizer atentas à música moderna. Vamos passar a coisas sérias. A exposição de que falo mostra a colecção Thomas Walther que incorpora aquilo a que se chamava exemplos de fotografia dos tempos modernos, feitas entre 1909 e 1949, com especial ênfase nos anos 20 e 30, quando a fotografia começou a ser notada, levada a sério e referenciada. O trabalho de investigação, a maneira como se relacionam locais, autores estilos e temas de forma interactiva no site da exposição é absolutamente exemplar. A galeria de imagens é deslumbrante e eu, que me gabo de conhecer muitas imagens, descobri várias que ignorava. A colecção tem 341 fotografias de 148 artistas e o site da exposição, “Object Photo”, pode ser visto aqui - http://www.moma.org/interactives/objectphoto/#home . Não percam. No site do museu existem indicações sobre como adquirir o magnífico catálogo cuja capa aqui se reproduz.


 


OUVIR - Em finais de 2014 a ECM ofereceu uma prenda aos seus fiéis - um CD com o registo, muito pouco conhecido, de um histórico concerto realizado em Hamburgo, em 1972, pelo trio que integrava o pianista Keith Jarrett, o contrabaixista Chary Haden e o baterista Paul Motian - um trio que à época da gravação tocava em conjunto há cinco anos. É supreendente a esta distância ver a consistência, a nergia e o prazer da sua música. Motian morreu em 2011 e Haden no ano passado. Mas este disco é um legado precioso da forma como entendiam a música, como cada um contribuía para um resultado excepcional. Haden e Jarrett mostram já nessa altura, há 43 anos, o entendimento que ao longo de décadas aperfeiçoaram e Motian é surpreendente nas soluções que encontra para completar este trio. CD ECM na Amazon.


 


PROVAR - O Funil é um histórico restaurante das Avenidas Novas, nascido no início dos anos 70, com o apogeu nos anos 80, e que em meados do ano passado sofreu uma mudança total - de proprietários, de gerência, de decoração, de cozinha. Agora as mesas estão apenas colocadas no piso de entrada, mas, para os saudosistas mantém-se o Bacalhau à Funil, feito no forno com molho bechamel. Na minha opinião mais interessantes ainda são o novo Bacalhau à Braz à Funil e o Arroz de Bacalhau, ambos a superar expectativas. Outro arroz que merece elogios é o arroz de pato à moda antiga, um dos melhores que tenho provado. Em matéria de aperitivo recomendo as bolinhas de alheira com puré de maçã e a tábua de queijos. Ao almoço tem um menu executivo por 12.90 euros e um outro para os comilões, com sopa e sobremesa, que custa 14.50 euros. Ambos são servidos com pão de Mafra e azeitonas bem temperadas e um copo de vinho. No tinto a casa recomenda, com razão, o Paulo Laureano Clássico e nos brancos o Álvaro de Castro Dão. Para sobremesa tem um bolo de chocolate para quem quer coisas mesmo doces e um honestíssimo leite creme de boa queima e consistência. O chef Duarte Lourenço tem também uma carta vegetariana, o novo Funil encerra aos Domingos e fica na Elias Garcia 82A, junto à esquina com a 5 de Outubro. O telefone é 210 968 912 e em www.ofunil.pt pode encontrar todas as informações.


 


DIXIT- “Uma bala é um vulgar e tradicional instrumento da política russa” - Gleb Kuznetsov, no “Moscow Times”


 


GOSTO - Em Campolide vai haver um referendo para decidir que tipo de pavimento terão os passeios para peões no bairro.


 


NÃO GOSTO - Alexis Tsipras esconde-se atrás de acusações a outros países para não reconhecer na Grécia que as suas promessas eleitorais não serão cumpridas.


 


BACK TO BASICS - É obrigação de cada um reter na memória as promessas que andou a fazer - Friederich Nietzsche


 

fevereiro 27, 2015

SOBRE UMA CAIXA DE VELOCIDADES ENCRAVADA EM MARCHA-ATRÁS

NOVELA - Alguém no Governo grego estudou guionismo e fez com que a sua política se assemelhe a uma novela, com os gregos a fazerem de heróis perseguidos e vários países a vestirem a pele do vilão. É sabido que o conceito de drama vem do teatro grego clássico, e talvez por isso, antes de assumirem medidas, os novos governantes definiram personagens, com guarda-roupa e tiques de comportamento. Sabiam que o palco se encheria de figurantes e ficaram à espera. É certo que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, e nessa medida tudo indica que a nossa Ministra Maria Luís se enganou nos camarins a escolher o guarda roupa, escolhendo um papel menor para Portugal. Ainda ninguém sabe o desfecho da novela - imagino que, seguindo as melhores práticas, decorram estudos de opinião entre os espectadores para escolher o final feliz. Pelo caminho percebeu-se que o especialista da teoria dos jogos, vestido de galã, não acertou no euromilhões e ficou-se por um modesto quarto  prémio. O facto causou frisson nas hostes de apostadores gregos e o compositor da banda sonora desta novela, Mikis Theodorakis, figura de proa do Syriza, revoltou-se contra o maestro e o galã. Nada disto é novidade - é apenas mais um partido que ganha eleições e a seguir manda o programa eleitoral às urtigas. por cá temos muita experiência disso e  há-de haver um personagem nesta novela que virá dizer: “- Meus amigos, a política é isto mesmo: fazer promessas para ganhar votos e esquecê-las a seguir”. Para já  o Governo do Syriza é um carro que ficou com a caixa de velocidades engatada na marcha atrás. A presidente do FMI, tão elegante quanto manhosa, depois de se deixar fotografar sorridente, de fato de cabedal, ao lado do galã da companhia, deixou já antever esta semana que está a ensaiar a passagem de sedutora a dominatrix. A coisa promete.


 


SEMANADA -  A Procuradora Geral da República reconheceu que a corrupção utiliza o aparelho de Estado; o presidente da EMEL, Júlio de Almeida, que tinha o seu maior apoio no vereador Manuel Salgado, foi demitido; Júlio de Almeida tem actividade privada no sector imobiliário e Manuel Salgado é o vereador com o pelouro do urbanismo; no mandato anterior Júlio de Almeida entrou em conflito com o vereador que tutelava a empresa, Nunes da Silva, e com os outros membros do conselho de administração da EMEL; neste mandato entrou em conflito com o vice-presidente da autarquia, Fernando Medina, que pretendia receber da EMEL 13 milhões de euros devidos pelas rendas de concessão que a empresa devia à Câmara de Lisboa e que Júlio de Almeida se recusava a pagar; no mandato de Júlio de Almeida as normas sobre a relação entre os residentes em Lisboa e a EMEL foram alteradas, a desfavor dos munícipes; António Costa, secretário-geral do Partido Socialista, reconheceu que o país terá superado a crise e está hoje numa situação "muito diferente" do que em 2011; em comentário o PS afirmou que o seu Secretário-Geral falou com “sentido de Estado”; 150 mil alunos chumbam por ano em Portugal; alguns dos processos judiciais mais importantes do país, entre os quais os do BPN e de José Sócrates, estão armazenados num corredor de acesso no  estacionamento subterrâneo do DCIAP; casinos e bingos perderam mais de um terço das receitas em seis anos; o endividamento das famílias portuguesas desceu e significa um rácio do PIB de 85,7%; o das empresas também desceu para um equivalente a um rácio do PIB de 142%; o do Estado aumentou ligeiramente para 128,7% do PIB; o saldo líquido do sector do Turismo em 2014 foi de 7.076 milhões de euros, com as receitas globais a ultrapassarem os dez mil milhões de euros, o que significa 14,6% das exportações globais; as remessas de Angola em Dezembro de 2014 caíram para metade do valor que tinha sido registado em Dezembro de 2013; em Janeiro os portugueses subscreveram 1.941 milhões de euros em certificados de aforro e em 2014 o valor da dívida pública subscrita por particulares subiu de 12.479 milhões de euros para 19.131 milhões de euros; o IGCP já foi ao mercado buscar 8,25 mil milhões de euros em dívida de médio e longo prazo e o montante angariado nos dois primeiros meses de 2015 é o triplo da média da dívida emitida em Janeiro e Fevereiro entre 2005 e 2011, antes da chegada da ‘troika' ; já existem 11 pré-candidatos às eleições para a Presidência da República.


 


ARCO DA VELHA - Fim de semana no Chiado, um vendedor ambulante com uma banca cheia de imitações da Burberry e com um singelo cartaz: “Cachecóis Varoufakis”.


 


FOLHEAR - A revista mensal “Wallpaper”, o primeiro grande projecto editorial de Tyler Brulé, hoje editor da “Monocle”, está a recuperar de uns anos sombrios e ganhou de novo personalidade própria. A capa da edição de Março é uma imagem manuseada pelo português Noé Sendas, que assina o portfolio de moda dessa edição, 16 páginas de belíssimas imagens fotografadas por Jan Lehner e trabalhadas por Sendas. A série tem o título “The Lady Vanishes” e vai estar até 31 de Março em exposição em Londres na Michael Hoppen Gallery. Noé Sendas, que agora vive em Madrid, depois de uma temporada em Berlim, estudou no Atelier Livre da Escola António Arroio e no Ar.CO, em Lisboa (1992), prosseguindo depois no Royal College of Arts, em Londres (1993), e no Art Institute of Chicago (1997). Sendas foi convidado a fazer o tema de capa da edição especial Style Special (W*192) pela directora criativa da Wallpaper, Sarah Douglas. A série de imagens foi fotografada por Jan Lehner em colaboração com a editora de moda Isabelle Kountoure e “apresenta o corpo como entidade que é simultaneamente teórica e material” , pretendendo que, “na imobilidade das imagens, seja a roupa e não o corpo feminino que se vê objectualizado”. Um outro momento imperdível da revista é um panorama dos talentos contemporâneos de Los Angeles, intitulado “LA stories” e onde John Baldessari e Ed Ruscha passam em revista alguns dos nomes que estão a fazer a diferença, desde escritores a músicos, passando por pintores, artesãos, escultores ou fotógrafos. São dez páginas que vão das memórias de Baldessari e Ruscha na sua LA ao futuro que se desenha todos os dias.


 


OUVIR - Benjamin Grosvenor tem 22 anos e é um caso sério no panorama dos pianistas contemporâneos.  “Dances” é o seu terceiro disco e nele Grosvenor interpreta  Bach, Chopin, Scriabine, Granados, Albéniz, e finaliza com um boogie woogie de Morton Gould. Mostra o seu virtuosismo mas ultrapassa-o demonstrando que  a interpretação é um misto de técnica com inteligência. Na verdade o repertório do disco é uma proposta de um programa de danças que passa através dos séculos. O “Guardian” dizia que ele é um “raro talento, um prodígio que está a amadurecer para se tornar numa verdadeira estrela”. A crítica nota que a sua interpretação de Bach é algo agitada, mas reconhece que a interpretação da “Polonaise” de Chopin é avassaladora, assim como a forma como interpreta as “Valses Poéticos” de Granados. Destaca ainda a sua abordagem às mazurkas de Scriabine e ao tango de Albéniz. (CD Decca, distribuído por Universal Music, no Corte Inglés).


 


VER - Esta semana destaco três exposições de fotografia em Lisboa. Começo pela mais relevante, integrada no programa Próximo Futuro, da Gulbenkian, uma iniciativa de António Pinto Ribeiro. No diálogo que procura estabelecer entre várias culturas, o Próximo Futuro propõe desta vez  quatro fotógrafos que captaram o caminho do Brasil rumo ao modernismo. Três deles eram emigrantes europeus: Thomaz Farkas era húngaro, Marcel Gautherot veio de França, e Hans Günter Flieg nasceu na Alemanha. Além deles a exposição mostra obras de José Medeiros, um dos mais marcantes fotojornalistas brasileiros, que se dedicou a mostrar o Rio de Janeiro, as suas praias, a vida da cidade - é dele a fotografia que reproduzimos. Thomas Farkas criou um olhar próprio sobre as formas da arquitectura e foi um dos fotógrafos que ajudou a mostrar Brasília ao Mundo. O outro testemunho do nascimento de Brasília,, também presente nesta exposição, foi Marcel Gaujtherot, que abordou frequentemente os rituais e as festas populares; e por último Hans Gunter Flieg que documentou fotograficamente o processo de industrialização do Brasil. A exposição chama-se “Modernidades: Fotografia Brasileira (1940-1964) e vai estar patente até 19 de Abril na Galeria de Exposições Temporárias do edifício principal da Fundação Gulbenkian. Entretanto na Fundação EDP, Museu da Electricidade, estão a partir desta semana e até 26 de Abril duas outras exposições de fotografia: “Through The Pale Dawn” mostra imagens da Coreia do Norte vista por Carlos Lobo, última parte da trilogia “Far Far East”, que antes percorreu a China e o Japão; a segunda é “Allumar”, de José Manuel Ballester,  que resulta de uma estada prolongada nas Astúrias, mostrando paisagens industriais e a natureza da região. numa linha de procurar problematizar o banal.


 


PROVAR -  A Avenida da Liberdade está cheia de novos hotéis, todos incluindo propostas de restauração que se pretendem cuidadas e com vida própria. Uma delas é o Sítio, no Hotel Valverde, um pouco abaixo do Teatro Tivoli. Fica no piso inferior do Hotel, ao lado de um belo terraço, com piscina, A localização e a envolvente são inesperadas e o ambiente é muito simpático. É um hotel pequeno, com um restaurante confortável e com um serviço adequado sem ser espalhafatoso. O couvert inclui tapenade de azeitona e de tomate e uma variedade de pães de que se destaca o  pão de tomate seco.  Na ocasião o amouse-bouche foi ovos mexidos com farinheira. O prato escolhido, que excedeu as expectativas, foi risotto na cataplana - uma solução inesperada mas que resultou bem., acompanhado por um branco do Douro, Pedra Escrita, servido a copo. No final um pudim de vinho do Porto foi uma boa surpresa. Na cozinha está Carla Sousa, que trabalhou com Henrique Sá Pessoa. Fica no 164 da Avenida da Liberdade e tem o telefone


210 910 300


 


DIXIT - “Nas sociedades contemporâneas olha-se para a cultura como um elemento de fim de linha. Só quando estão resolvidos os outros problemas da sociedade é que se fala de cultura. A cultura precisa de mais atenção” - Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura


 


GOSTO - Muito bom o “Macbeth” que o S. Carlos leva à cena com Angel Ódena no papel de Macbeth e Elisabete Matos numa interpretação explêndida de Lady Macbeth. Se arranjar bilhetes ainda pode ver esta sexta 27 às 20h00 e no Domingo 1 de Março às 16h00.


 


NÃO GOSTO - Da ausência de Portugal da Expo Universal de Milão, cujo tema é a indústria agro-alimentar, invocando os custos da participação - em 2014  Portugal exportou 5,5 mil milhões de euros de produtos agrícolas e a Feira será também uma importante mostra das capacidade de atracção turística de cada país, da qual pelos vistos estaremos ausentes.


 


BACK TO BASICS - Independentemente dos jogos que queiram fazer envolvendo-nos, temos de evitar fazer jogos connosco próprios - Ralph Waldo Emerson

TELEVISÃO - O MUNDO IDEAL PODIA SER ASSIM

Nos resultados da audimetria de Televisão há um indicador que gosto sempre de ver, que é o melhor minuto de cada canal – o resultado mais alto em termos de audiência obtido num único minuto ao longo da semana. Bem sei que as coisas não podem ser lidas como agora vou dizer, mas gosto de olhar o “melhor minuto” como o potencial máximo de audiência que cada canal poderia ter. Nesta semana o melhor minuto da RTP1 foi alcançado pelo “Preço Certo”, o que é relativamente frequente, com 30,9% de share; na RTP2 a série espanhola El Principe conseguiu 4,8%, fazendo lembrar os resultados de tempos distantes; na SIC, e como também é hábito, o melhor resultado foi para a novela Mar Salgado, com 47% de share no minuto em que foi mais vista; e na TVI esta semana o minuto com maior audiência ocorreu na transmissão do jogo Basileia – F.C. do Porto, com 37,8% de share. No mundo ideal isto era assim – mas claro que cada canal tem altos e baixos e o resultado médio é sempre mais baixo. Ao longo da semana a RTP1 teve em média cerca de 318 mil espectadores, a RTP2 esteve perto dos 38 mil, a SIC dos 377 mil e a TVI dos 486 mil. Para se ter uma ideia, no cabo, o AXN teve uma média de 36 mil, o Hollywood atingiu os 49 mil, a SIC Notícias ficou pelos 31 mil, a FOX pelos 26mil, a TVI24 pelos 23 mil, a RTP Informação pelos 16 mil e a Globo pelos 20 mil. Tudo valores médios claros. A estatística é uma coisa terrível.


 


(Publicado na revista Correio TV de dia 27 de Fevereiro)

fevereiro 20, 2015

SOBRE O BOM SENSO E A FALTA DELE

BOM SENSO - O grande problema da burocracia e dos burocratas é que substituem a inteligência pela obediência, a análise de situações pelas regras, e ignoram o que é o mais elementar bom senso, algo que devia estar sempre na preocupação das pessoas - porque é a base mínima para nos conseguirmos entender uns com os outros. Peguemos no caso dos sacos de plástico. Eu sou obviamente a favor de medidas que protejam o ambiente e combatam a poluição - mas elas devem ser feitas com bom senso e devem ser preparadas por forma a captar simpatia em vez de repúdio. O caso dos sacos de plástico do Ministro Moreira da Silva tem um equivalente em matéria de falta de bom senso no caso da circulação de automóveis anteriores a 2000 na cidade de Lisboa e arrisco dizer que o grande ponto comum entre Moreira da Silva e António Costa é falta de bom senso. Peguemos agora no caso das multas sobre pagamentos ao Estado que se atrasam, como o caso das portagens de meia dúzia de euros que facilmente chegam às largas centenas (e que os tribunais têm estado a considerar inválidas). Só a mais completa falta de bom senso justifica que a cobrança coerciva chegue a estes absurdos - mas isto é comum no fisco português que criou mecanismos de automatismo que executam penhoras ou mantêm avisos de dívida mesmo depois de as multas serem pagas ou as dívidas liquidadas. A falta de bom senso por parte dos organismos do Estado e seus responsáveis anda geralmente de braço dado com abuso de autoridade e a falta de respeito pelos cidadãos. Estou quase a acreditar que a primeira coisa que ensinam a quem tem poder é como abusar dele. O Estado português está cheio disso e o mais engraçado é que não vejo nenhuns políticos preocupados com o mau uso do poder que lhes cai nas mãos.


 


SEMANADA - Investimento alemão em Portugal cresceu 37,8% em 2014; o investimento estrangeiro dos 28 países da União Europeia em Portugal caíu 140,3% nos primeiros 11 meses de 2014 face ao mesmo período do ano anterior; em contrapartida o investimento dos países extra UE aumentou 589,8% no mesmo período; em Janeiro foram registados quase 12 mil novos veículos automóveis; a JSD admite avançar com uma proposta de legalização da prostituição; em 2014 o número de funcionários públicos baixou mas aumentou o dos gabinetes governamentais; o emprego no Estado caíu cerca de 10% nos últimos três anos; Portugal continua a ter o quinto maior défice da União Europeia; o crédito automóvel cresceu 33% em 2014; em 2013 havia 264.000 explorações agrícolas em Portugal, menos 40.800 do que em 2009, mas a área cultivada não teve variação significativa; as receitas dos hotéis portugueses cresceram 12,8% em 2014; no município de S. João da Madeira o Mandarim é disciplina curricular no 1º ciclo e facultativa no 5º ano, um projecto que envolve 669 alunos; na semana de estreia o filme “As 50 Sombras de Grey” foi visto por 160.830 espectadores; o Governo da Guiné Equatorial quer encontrar uma forma de se associar ao Benfica e tem estado em conversações com dirigentes do clube sobre essa possibilidade; António Costa está desde Outubro a comandar os destinos dos socialistas mas, apesar de as sondagens lhe darem o primeiro lugar, o PS está em queda desde há quatro meses; desde o final de 2013 registam-se pelo menos uma vez por ano demissões em bloco de responsáveis médicos do hospital Amadora-Sintra, invocando perda de condições de qualidade na assistência aos doentes; na última semana o tema dominante das notícias na informação televisiva foi o Carnaval e os seus festejos.


 


ARCO DA VELHA - 350 agentes da Unidade Especial de Polícia estão desde há um mês a tomar banho de água fria após os treinos diários, na sequência de uma avaria na caldeira das instalações que usam, na Ajuda.


 


FOLHEAR - Chama-se “Machinas Fallantes” e é uma deliciosa história sobre a música gravada em Portugal no início do século XX. O livro, da autoria de Leonor Losa, uma investigadora de etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, recupera a história das primeiras tecnologias de gravação e reprodução de som do final do século XIX, conta a popularização dos gramofones no início do século XX e a maior vulgarização da música gravada nos anos 30. Pelo caminho ficam histórias de artistas, de autores, do teatro de revista, de repertórios populares e eruditos, das primeiras editoras discográficas portuguesas, como a Valentim de Carvalho. O livro recupera muitas imagens - ilustrações e fotografias - pouco conhecidas e algumas mesmo raras, e está escrito de forma rigorosa, mas como a história dessa aventura que é a música gravada e o desenvolvimento da música popular portuguesa. Amplamente documentado, é sobretudo cheio de informações pouco conhecidas relativas aos primeiros 50 anos do século passado - como aliás o título indica. A edição inclui um CD com duas dezenas de gravações históricas, quer de canções de revista, quer de gravações raras como o “Fado de Coimbra” pelo próprio autor Reinaldo Varella e algumas canções populares. A edição é da Tinta da China.


 


VER - O espaço Novo Banco, ex BESArte, no Marquês de Pombal nº3, voltou a ter uma exposição pela primeira vez desde o ciclone que varreu a instituição. É uma amostra da colecção de fotografia criada ao longo dos anos pelo BES, e que agora pertence ao Novo Banco. A exposição, que é de entrada gratuita e está aberta de segunda a sexta entre as 09h00 e as 19h00, inclui obras de Nan Goldin, Marina Abramovic, Martin Parr, Cindy Sherman, Irving Penn, mas também Julião Sarmento, Helena Almeida, João Penalva e Vasco Araújo, entre outros, e permite estabelecer uma ideia aproximada da instabilidade da colecção.


Outras sugestões: “Desenhos”, de Helena Almeida, na Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção 80, a Xabregas; a colectiva “Pintura Modernista na Colecção Millennium BCP, Galeria Millennium, Rua Augusta 96; “Como Se Pronuncia Design Em Português”, no MUDE, Rua Augusta 24; e para terminar  com fotografia, uma exposição de Tito Mouraz, que esteve nos Encontros de Imagem, de Braga, a “Casa das Sete Senhoras”, na imagem, que está na Galeria Módulo, Calçada dos Mestres 34.


 


OUVIR - O pianista Kenny Barron (71 anos) e o baixista Dave Holland (68 anos) começaram a tocar em duo em 2012 e têm realizado numerosos espectáculos que incluem quer versões de standards do jazz, quer temas originais dos dois músicos - e cada um deles tem carreira própria recheada de referências Barron mais tradicional, Holland mais exuberante. Em 2014 entraram em estúdio para gravar uma selecção do repertório que tocaram nesses espectáculos e daí saíu o CD “The Art Of Conversation”. Inclui dez temas (três de Barron, quatro de Holland, um de Charlie Parker, outro de Thelonius Monk e outro do trio Duke Ellington, John LaTouche e Billy Strayhorn). O nome do álbum reflecte bem a capacidade de diálogo e de entendimento musical entre os dois músicos, o à vontade com que interpretam os standards, com respeito pelos originais mas também com o sentido de inovação que ambos sabem imprimir às suas interpretações. Quer Barron quer Holland são virtuosos, atentos ao detalhe, e ambos, sente-se, respeitam-se mutuamente. É um bom exemplo de junção de talentos e de criatividade. CD Impulse.


 


PROVAR - A nova pizzaria “Fornodoro”, onde antes era o Mezzaluna, é mais um restaurante do nepalês que tem multiplicado o seu talento em alguns restaurantes da cidade. Chama-se Tanka Sapkota e desta vez estudou a fundo a arte da pizza, encomendou um forno de Itália, uma máquina para bater a massa que a torna leve e fôfa, e escolheu uma selecção de ingredientes em que muitos são raridades nas pizzarias de Lisboa - como as túbaras, um tubérculo  português que ainda será aparentado com as trufas. O forno, que pesa nove toneladas, foi construído no local por uma empresa de Nápoles, que trouxe a pedra vulcânica e todos os outros materiais, e foi forrado a folha de  ouro - daí o nome dado ao restaurante. O precioso forno é alimentado a lenha de carvalho e cada pizza fica lá dentro 70 segundos. O que ali se serve é a pizza napolitana, de massa leve mas não fininha, sem exageros de tomate e queijo e com combinações interessantes de outros ingredientes. O resultado é uma pizza mais leve que o habitual. Uma boa surpresa é uma carta de cervejas artesanais, muitas italianas, mas também de outras zonas do mundo e de Portugal. O serviço é muito bom e a boa disposição é reinante. À saída, e perante um pedido de isqueiro para uma fumadora, o chef trouxe à porta,numa pá de pizza, pequenas brasas do forno que serviram para acender o cigarro pós-prandial. Não podia ter terminado de melhor forma esta estreia. Fornodoro, Rua Artilharia 1- 16 B, telefone 213 879 944.


 


DIXIT - “Espero que brevemente o país retome a liberdade de poder festejar o Carnaval” - afirmou António Costa, defendendo o regresso da tolerância de ponto se vencer as eleições.


 


GOSTO - O ritmo de crescimento do turismo português em 2014 foi mais de  três vezes superior ao de Espanha.


 


NÃO GOSTO - Enquanto faltam médicos em Portugal o número de portugueses que foi estudar medicina para o estrangeiro aumentou 90% nos últimos anos e desses nem metade regressou ao país.



BACK TO BASICS - Não há nada pior que a estupidez agressiva - Goethe

FALAR EM CÍRCULO FECHADO

O programa mais visto da RTP1 é “Got Talent”. Passa nos domingos à noite e, enquanto está no ar consegue melhores resultados de audiência do que “Secret Story” na TVI e deixa a grande distância “Sabes Quem sabe Dançar?”, da SIC. É um programa com um objectivo de audiência familiar e que consegue um espectro muito alargado, num compromisso raro de qualidade de produção e de conteúdo. Sabe-se lá porquê a RTP 2 tem ao mesmo tempo uma das suas melhores séries, “O Paraíso”, que assim se vê esvaziada de audiência. “O Paraíso” é uma série da BBC, baseada na obra “Au Bonheur Des Dames” de Émile Zola. Quem quiser ver o “Got Talent” não vai poder ver “o Paraíso”, que ainda por cima é uma série insuficientemente promovida. Nesta matéria as estações de televisão gostam de ficar com a consciência tranquila quando fazem auto-promoções, ou seja, divulgação dos seus próprios programas nas suas antenas, ou seja, não vão buscar espectadores que estão noutros lados. Em muitos países é frequente ver anúncios de séries e de programas de informação nos placards laterais dos autocarros, no metropolitano ou em sites de jornais. No caso da RTP nem sequer há grandes sinergias a este nível com as estações de rádio. O tema do marketing de programas é crucial nos canais de televisão hoje em dia, esmagados pela oferta do cabo e pela possibilidade de visionamento diferido. Não há-de ser por acaso que esta semana a RTP2, na região de Lisboa, não aparece na lista dos 15 canais mais vistos.


(Publicado na revista Correio da Manhã TV de 20 de Fevereiro)

fevereiro 13, 2015

QUANDO EM NOME DO PROGRESSO SE PRATICA O RETROCESSO

RETROCESSO - Vivo quase metade da semana numa pequena aldeia a 40


quilómetros de Lisboa, ainda com uma forte componente agrícola, que coexiste


com grandes unidades industriais essencialmente exportadoras, com um espírito


de comunidade arreigado, com sociedades recreativas que fazem festas e um


comércio local onde toda a gente se conhece. Até ao ano passado a Câmara


Municipal de Palmela tinha travado o crescimento demasiado de grandes


superfícies dentro das malhas urbanas. No Verão de 2014 autorizou um


supermercado de média dimensão dentro dessa povoação - apesar de num raio de


dez quilómetros existirem mais seis supermercados e grandes superfícies. Essa


povoação tinha um comércio local dinâmico e variado, com uma forte oferta de


produtos frescos, de produtos locais, alguns deles com denominação de origem.


Nessas lojas encontrava-se o melhor que ali se produzia - fosse queijo fresco do


dia, pão cozido a forno de lenha, doces regionais, peixe vindo de madrugada da


lota de Setúbal ou fruta e hortícolas da região. Nestes pouco mais de seis meses já


encerraram meia dúzia de lojas, derrotadas pelo supermercado - onde nem tudo é


mais barato, poucas coisas são tão frescas e onde os produtos naturais não


abundam. Este supermercado é de um dos maiores grupos nacionais, uma empresa


que propagandeia responsabilidade social e apoio aos produtores. Na realidade, a


nível local, não é nada disso que se vê - destruição de valor, quebra da vida em


comunidade, destruição da frágil economia familiar que estava baseada em


pequenos comércios. A maneira como as cadeias de supermercados afectam a


economia local, sem benefícios evidentes quando as contas são bem feitas, é um


dos maiores problemas do país nos últimos anos e as Câmaras Municipais têm


muitas responsabilidades nas autorizações que concedem. Custa-me ouvir a


senhora da loja onde me habituei a ir dizer que não sabe se conseguirá mater a


porta aberta muito mais tempo. Isto não é progresso. É retrocesso.


 


SEMANADA - António Costa continua a não querer dizer se Guterres já o


informou da sua indisponibilidade para Presidente da Republica; Alfredo Barroso,


fundador do PS, classifica António Vitorino, apontado como um dos possíveis


candidatos socialistas a Belém, como “um facilitador de negócios”; Rui Rio, que


alguns apontam como eventual candidato, anunciou desejar um Presidente da


República mais interventivo; uma sondagem do Correio da Manhã indica que, caso


Guterres não se candidate, Marcelo Rebelo de Sousa ganha com vantagem folgada


aos três outros nomes da área do PS já indicados - Jaime Gama, António Vitorino


e Maria de Belém, sempre com mais de 60% dos votos; pelo terceiro ano seguido


as exportações portuguesas superaram as importações efectuadas; a Alemanha é


o país europeu com quem Portugal tem maior déficit comercial; o preço da carne


de porco caíu 20% devido ao impacto do embargo de vendas à Rússia; dos 126


mil imóveis transaccionados no ano passado, 23 mil envolveram estrangeiros


e os franceses estão a aproximar-se dos chineses em número de aquisições; o


Parlamento considerou exorbitantes as multas aplicadas pelo fisco devido ao não


pagamento de portagens e que chegam a atingir um aumento de 900% sobre o


valor original que o automobilista teria que pagar; metade dos contratos públicos


em 2013 foi por ajuste directo; o Governo anunciou querer saber quem são e como


se financiam os donos dos orgãos de comunicação social portugueses.


 


ARCO DA VELHA - O caso dos submarinos provocou uma crise no PS e Ana


Gomes e Isabel Moreira passaram a semana a atacarem-se mutuamente. Ana


Gomes desencadeou um ataque a Paulo Portas sobre os submarinos baseada em


escutas cuja transcrição confundiu canal com Canalis e aquilo com Kiel. Apesar


disso Ana Gomes disse não estar disposta a receber lições de Isabel Moreira.


 


FOLHEAR - Baseada em Nova Iorque, a Aperture Foundation é uma organização


sem fins lucrativos dedicada à divulgação da fotografia em revistas, livros,


exposições e actividades de formação. Edita uma magnífica revista, publicada


sazonalmente, quatro vezes por ano. A edição deste Inverno tem sobejos motivos


de interesse. O maior será talvez um artigo sobre a influência da escrita na obra


do fotógrafo Walker Evans, conhecido sobretudo pela sua obra no campo da


fotografia documental para revistas como a Time ou a Fortune. Mas a presença


da literatura esteve sempre por perto, nas séries que fez para acompanhar alguns


textos de autores que mais o interessavam. E assim descobre-se como Flaubert,


Baudelaire ou Proust, por exemplo, exerceram uma notável influência na sua obra


- é um magnífico ensaio de David Campany. As relações da fotografia com o texto


são também exploradas em “Word vs Images” onde diversos autores de ficção


elaboram sobre o assunto, entre os quais, Lynne Tillman e Tom McCarthy. Outra


abordagem curiosa à ligação da imagem com a literatura é a história das capas,


fotográficas, da editora New Directions, que em meados do século passado apostou


em imagens, por vezes quase experimentais, para capear obras de William Carlos


Williams ou Yukio Mishima, entre outros. E , claro, há portfolios de autores como


Hervé Guibert e descobertas como as fotografias feitas por William S. Burroughs.


A edição pode ser comprada directamente à Aperture Foundation ou encomendada


via Amazon ao preço de capa de 25 US$.


 


VER - Esta semana é incontornável falar da colecção Sonnabend, que estará na


Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva até 3 de Maio.É uma rara oportunidade


de ver de perto, em Lisboa, um conjunto significativo de obras de artistas


como Robert Rauschenberg, Roy Liechtestein, Andy Warhol ou Jasper Johns.


Feita em colaboração com a Sonnabend Collection Foundation (Nova Iorque)


e a Fondazione Musei Civici di Venezia - Ca' Pesaro Galleria Internazionale


d'Arte Moderna (Veneza), a exposição Sonnabend | Paris – New York reúne


um importante conjunto de peças da colecção histórica da Galeria Sonnabend,


mostradas durante os primeiros cinco anos de actividade da galeria em Paris,


entre 1962 e 1967, recorrendo a um total de 50 obras de 15 artistas que melhor


representam o movimento Pop e Minimal Art em esculturas, pintura e desenho - e


alguns desenhos pouco conhecidos de Roy Liechtestein são boas descobertas desta


exposição. A inauguração esteve cheia de gente que não costuma ir a exposições,


menos ainda de arte moderna, mas que se sentiram compelidos ao frisson nova-


iorquino levado ao Jardim das Amoreiras. O poder foi ao Museu - fico na dúvida


se para se mostrar, ou se para ver.


 


OUVIR - É surpreendente como aos 73 anos Bob Dylan tenha ainda a capacidade


de surpreender como fez, no início da década de 60, com os seus primeiros discos.


Eterno apaixonado pela tradição musical norte-americana, que dos blues à country


foi sempre o motor da inspiração das diversas fases da sua carreira, iconoclasta


por natureza, desprezando as verdades estabelecidas, Dylan fez agora um disco


baseado em temas que foram interpretados por Frank Sinatra - 10 temas que


fogem ao óbvio do repertório e vão buscar pérolas esquecidas do cancioneiro


popular norte-americano - como “I’m A Fool To Want You”, “Stay With Me”,


“Autumn Leaves” “ Full Moon and Empty Arms” ou “What ‘ll I Do”, para citar só


algumas. É preciso ter coragem para aos 73 anos dar uma volta destas à carreira,


surpreendendo tudo e todos. Dylan canta com paixão o que Sinatra cantava


com gosto, E canta com um gôzo contagiante, raro, com uma capacidade de


interpretação que só os grandes talentos são capazes de mostrar. Assim se prova


que uma canção pode ser revisitada sem ser traída, que não é da imitação que nasce


a luz, mas que é da surpresa que nasce o encanto. Bob Dylan, Shadow In The


Night, CD Sony Music na Amazon ou no Spotify. Na semana passada, na gala do


Musicares na qual foi homenageado como Personalidade do Ano, Dylan fez um


discurso que retrata a sua visão sobre a música popular norte-americana e que é


imperdível - pode ser lido aqui:


http://www.thedailybeast.com/articles/2015/02/09/bob-dylan-s-whole-life-in-30-


minutes.html?via=mobile


 


PROVAR - Tinha ouvido falar bastante do La Parisienne, um restaurante recente,


situado no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e que, como o nome


indica, tem na cozinha francesa a sua inspiração. É mais cozinha tradicional,


descansem os cépticos da nouvelle cuisine, e por alguma razão o restaurante usa


o subtítulo Bistrot Français. A decoração é simpática, o serviço é escorreito, a


sala é acolhedora mas falta qualquer coisa para a experiência ser completamente


conseguida. Seguindo sugestão alheia provei um bife tártaro, que estava no ponto


no que à qualidade, corte e tempero da carne diz respeito. É uma pena que as


batatas fritas fossem tão fracas, francamente inferiores ao que é aceitável num


restaurante destes - e um tártaro com batatas fritas inquietas perde um pouco da


sua graça. Do outro lado da mesa a experiência foi melhor, com um filete de robalo


com molho de pimenta rosa e legumes. Dizem-me que a choucrute e o cassoulet


da casa (mal traduzido é um cozido è francesa), merece elogios - convém notar que


os enchidos franceses utilizados são da responsabilidade do chef Xavier Charrier,


que há uns anos abrira uma charcutaria no Linhó, que fez fama. O La Parisienne


é de um casal francês que aterrou em Lisboa, Olivier Vallancien e a sua mulher


Lumir Ardant-Leverd e depois recrutaram Xavier Charrier. Hei-de lá voltar para


navegar mais nas listas e verificar o estado das batatas fritas. Largo Rafael Bordalo


Pinheiro 18, telef. 964203947.


 


DIXIT - “Uma percentagem elevada da população caíu numa situação dramática” -


Luis Barbosa, Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa


 


GOSTO - Pedro Cabrita Reis está a expôr em Toulon, no Hotel des Arts, e o


comissãrio da exposição, Jean François Chougnet, o primeiro director do Museu


Berardo, considera-o “um artista genial com capacidade para fazer projectos de


dimensão absolutamente fora do comum”


 


NÃO GOSTO - De ouvir um relato de uma intervenção policial no bairro da


Cova da Moura que teria incluído expressões como “vocês têm sorte que a lei


não permite, senão seriam todos executados”, dirigidas a jovens de côr que foram


detidos, dois deles da direcção do Moinho da Juventude, projecto comunitário que


existe há 30 anos na Cova da Moura, premiado pela Assembleia da República.


 


BACK TO BASICS - “Muito daquilo que é apresentado como idealismo não é


mais do que amor disfarçado ao poder“ - Bertrand Russell

fevereiro 06, 2015

A DIFERTENÇA ENTRE EPOPEIAS E CONTOS DE CRIANÇAS

EPOPEIA -  Não é possível deixar de falar da Grécia, a terra onde nasceu a forma de construir histórias, de criar e desenvolver uma acção dramática. Os primeiros dias do Governo de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis são um manual de como escrever um guião de cinema. Qualquer bom guionista sabe que o essencial é definir bem como se caracterizam as personagens, dos tiques ao visual - e nisso Tsipras e Varoufakis são talentos raros; depois é fundamental que os primeiros minutos surpreendam o espectador, que a acção emocione, que o inverossímil tome a aparência da realidade e que os heróis ensaiem lutas desiguais e desafiem sem temor os seus oponentes. Assistimos a tudo isto numa dezena de dias pós eleições. Desde a formação da coligação com a direita, passando pelo  abandono do “não pagamos” que passou a ser “talvez paguemos”,  às primeiras propostas financeiras, ao périplo europeu de ambos e às soluções que propuseram, parece que estamos perante uma versão contemporânea da “Ilíada”. A minha dúvida neste momento é saber o desfecho que os guionistas reservaram para o final da epopeia. É uma dúvida a que ninguém sabe responder porque estamos ainda perante o desassossego provocado pela acção intensa dos primeiros minutos do drama que nos é proposto. A acção dramática desta encenação estabelece claramente quem são, para os protagonistas, os maus que eles próprios, os bons, enfrentam. Nestes tempos modernos a peça tornou-se interactiva e mesmo quem não foi interpelado não deixou de enviar sinais - como aconteceu com Passos Coelho, que carregou logo no botão do “like” aos maus da narrativa. Neste momento o Syriza é uma máscara que assola a Europa e todos os dias a sua face se altera por debaixo da máscara. Estamos naquele momento da acção em que a utopia choca com a realidade. Os espectadores inteligentes preferem assistir em silêncio e percebem que tudo isto é bem mais que um simples conto de crianças.


 


SEMANADA - O Tesouro assegurou em Janeiro 60% do objectivo de captação de poupanças nos certificados de aforro para 2015; o total das subscrições atingiu 1,5 mil milhões de euros no primeiro mês do ano; várias estações dos CTT tiveram que prolongar o horário de funcionamento nos últimos dias de Janeiro para conseguirem atender todos os clientes que queriam certificados de aforro com a taxa de juro antiga, mais compensadora; a Assembleia da República admitiu ainda não saber quanto pagou em excesso aos partidos que concorreram às autárquicas de 2009; o Ministério da Educação recebeu, desde Setembro, 74 denúncias de praxes abusivas; o número de insolvências em Portugal desceu 33% em 2014, em relação ao ano anterior, para um total de 4019 casos; o volume de negócios do Vinho do Porto em 2014 foi de cerca de 330 milhões de euros, dos quais apenas cerca de 50 milhões foram realizados no mercado português; atrasos do fisco deixaram 85 mil multas por cobrar por falta de bilhete nos transportes públicos, no valor de cerca de 10 milhões de euros; Bruxelas diz que Portugal só cumpriu um terço das reformas exigidas pela troika; o Governo apoiou a candidatura de Figo à presidência da FIFA; numa sondagem realizada pela Win Gallup International os portugueses dizem esperar que 2015 seja um ano de dificuldades económicas; Fernando Gomes culpou Guterres por derrota da regionalização; segundo a Marktest cerca de 5,5 milhões de portugueses visitaram sites de jornais, revistas e de informação portugueses no ano de 2014; ainda segundo a Marktest quase 60% dos portugueses ouvem rádio regularmente e, destes, a maioria são quadros médios e superiores, seguidos pelos empregados nos serviços, comércio e administrativos; ainda segundo a Marktest a RTP1 foi a estação que emitiu mais notícias, com 2369 trabalhos e a que deu mais tempo em grelha à informação regular, com 79 horas.





ARCO DA VELHA - Uma pessoa minha amiga foi operada a uma anca e os médicos avisaram que devia estar imobilizada algum tempo e que a recuperação demoraria umas semanas; face a isto perguntou aos Serviços da Segurança Social o que seria preciso para garantir que não existiriam problemas com a baixa médica se fosse fazer a convalescença para casa de um familiar, na mesma cidade; os serviços disseram-lhe que não havia problema, mas para expôr o assunto, o que fez por carta registada; recebeu uma resposta dos serviços, citando a carta que tinha enviado, avisando que perderia o direito à baixa por não se encontrar na sua residência e anunciando que para poder ter direito à baixa devia formalmente mudar de morada no documento de identificação.


 


FOLHEAR - Uma vez por ano, geralmente em Fevereiro, o British Journal Of Photography dedica uma das suas edições a escolher os “Ones To Watch”, ou seja os talentos emergentes, um pouco por todo o mundo, na área da fotografia. “Pode haver melhor forma de começar o ano do que olhar para o futuro?” - pergunta Simon Bainbridge, o editor da revista, no seu editorial. A lista de 25 nomeados partiu de um conjunto de 300 seleccionados inicialmente, de todas as partes do mundo. Aqui cruzam-se maneiras de olhar, estilos e diferentes aproximações à fotografia e é isso que faz desta edição do BJP algo de tão fascinante - “hoje em dia a fotografia inventa, assimila, apropria-se e testa a cultura visual para novas direcções, mais amplas e diversas que as exigências do mercado ou as tendências da arte”, sublinha Bainbridge. Não há nenhum português entre estes 25 seleccionados, mas há muitos caminhos abertos e bons exemplos de trabalho de diversos pontos da europa, áfrica, ásia e américas. Alguns dos nomes têm estilos e olhares marcantes. E daqui, aposto, vão sair alguns nomes que vão marcar a fotografia nos próximos anos.





VER - Cecília Costa é das minhas artistas favoritas. Os seus desenhos deixam-me sempre a pensar e transportam-me frequentemente para um patamar de imaginação e surpresa como é raro acontecer. A partir de pormenores da figura humana Cecília Costa imagina situações que nos remetem para momentos de reflexão sobre nós próprios e sobre a nossa envolvente, cria um jogo de cumplicidades entre o que desenhou e as possibilidades de interpretação que oferece a quem vê os seus desenhos. De certo modo eles estão todos relacionados uns com os outros, embora na forma até sejam bastante diferentes, dependendo da época em que foram feitos. Curiosamente Cecília Costa começou por estudar matemática antes de estudar Artes Visuais e, além do desenho, tem feito fotografia, video e instalações. Na sua exposição na Galeria João Esteves de Oliveira é possível observar algumas das fases recentes da sua obra de desenho e perceber a forma como ela vem evoluindo e como cria situações, retratando estados de espírito e inquietações. A exposição de Cecília Costa coexiste com outra, de  trabalhos de Domingos Rego, sob a designação comum “Traço Contínuo” e estará patente até 13 de Março na Rua Ivens 38, em Lisboa.


 


OUVIR - “Wallflower”, o novo disco de Diana Krall, é uma boa surpresa. Maioritariamente abandona o registo de (cada vez mais) soft vocal jazz que se tornou a sua imagem de marca e revisita canções pop, interpretando-as de forma desprendida mas surpreendente, como acontece com “Califormia Dreamin’” dos Mamas & The Papas, “Desperado” dos Eagles ou “Superstar” dos Carpenters. Mas há também versões de temas de Elton John e dos Beatles, e duetos com Michael Bublé (“Alone Again Naturally” de Gilbert O’Sullivan), Bryan Adams (“Feels Like Home”, de Randy Newman) ou Georgie Fame (no clássico “Yeah Yeah”). O nome do álbum vem de um clássico da fase country de Bob Dylan, “Wallflower”, aqui com Blake Mills. Nem Bublé consegue destruir a surpresa das melancólicas interpretações de Diana Krall destes êxitos dos anos 70 e 80. CD Verve, distribuído por Universal.





PROVAR - Um dia destes deparei-me com uma especialidade que julgava extinta: uma garrafa de Carcavelos, um vinho fortificado que o Marquês de Pombal tornou famoso ao produzi-lo na sua quinta em Oeiras, no século XVIII, a partir das castas arinto, galego, dourado e ratinho. Este vinho fortificado, de 17,5º, é envelhecido em barricas de carvalho por um período de dez anos, apresenta uma cor amarela dourado e tem um sabor dominado por frutos secos, mel e especiarias. O vinho voltou a ser elaborado segundo uma técnica que remonta ao século XIV, por iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras, já que a quinta que foi do Marquês de Pombal é hoje património daquela autarquia. Vende-se em garrafas de 375 ml sob a marca Villa Oeiras e é um excelente remate de uma refeição. Carcavelos é uma denominação de origem controlada


Uma nota final, de outro assunto: já começou a época da lampreia, provei a primeira do ano, à bordalesa, e estava excelente. Foi no Apuradinho, Rua de Campolide 209-A. Vale a pena telefonar a indagar quando há - 213 880 501.





DIXIT - “Tudo o que o PS produziu de política nestes dois meses, foi peregrinações; peregrinações a Évora para ver o amigo preso e arengar cabalas contra a justiça” - Pedro Bidarra


 


GOSTO - Do momento visual da semana, quando Matteo Renzi ofereceu uma bela gravata italiana a Alexis Tsipras


 


NÃO GOSTO - A agricultura perdeu 74 mil postos de trabalho e o emprego no sector desceu para mínimos históricos.


 


BACK TO BASICS -  Os homens inteligentes falam porque têm alguma coisa a dizer, os idiotas porque querem sempre estar a falar - Platão

janeiro 30, 2015

SOBRE DEBATES; OPINIÕES E TELEVISÕES

COMENTÁRIOS - Que papel deve ter a televisão na participação cívica e na actividade política? Em Portugal a questão costuma resumir-se a alguma discussão sobre a forma dos debates pré-eleitorais e sobre a rotina das entrevistas a líderes políticos. Ao longo de um ano, especialmente de um ano não eleitoral, há poucos debates. O problema não é exclusivamente televisivo - apesar dos 40 anos da Assembleia da República há poucos debates, bastante retórica e maioritariamente chicana e propaganda partidária. Não há o hábito de discussão de ideias, mas sim de afirmação de posições - o que leva a que acordos sejam uma palavra rara. Normalmente nesta terra de brandos costumas não nasce a luz da discussão mas é frequente nascer a confusão da troca de galhardetes. Tirando isso, e regressando à televisão, ficam os comentários e os comentadores. Ora a esmagadora maioria dos comentadores são paus de bandeira com o estandarte hasteado, cada um a marcar o respectivo território O curioso é que a análise política e o comentário não partidário são bens escassíssimos nos media portugueses, em particular na televisão - e sobretudo, por mais paradoxal que isto possa parecer, nos canais de cabo dedicados à informação. O debate político em Portugal é tratado ao nível de concursos de talentos e de imitadores em que os concorrentes são ex ou actuais notáveis das vidainhas partidárias. É curto, mesmo que às vezes seja divertido. E, claro, ajuda a fazer carreiras - the show must go on.





SEMANADA - No domingo passado, o Syriza, da esquerda radical, ganhou as eleições gregas; na segunda feira o seu líder, Alex Tsipras, anunciou uma coligação com um partido de direita nacionalista; depois de optar por uma tomada de posse sem referências religiosas, ao contrário do que é hábito na Grécia, reuniu-se com o chefe da Igreja Ortodoxa grega; Tsipras, que tem criticado as sanções europeias à Rússia, recebeu uma calorosa saudação de Vladimir Putin pela vitória eleitoral, propondo aumentar a cooperação entre os dois países; o primeiro encontro de Tsipras com um diplomata estrangeiro, depois de vencer as eleições, foi com o embaixador Russo Andrey Maslov; o primeiro acto público oficial de Tsipras depois de ser empossado primeiro-ministro foi depositar flores num memorial a vitímas da ocupação nazi alemã na Grécia; Angela Merkel dirigiu uma mensagem de felicitação a Tsipras  dizendo desejar fortalecer a cooperação entre os dois países; em França Marine Le Pen congratulou-se com o resultado das eleições gregas, classificando-o como o início do julgamento da euro-austeridade; o primeiro ministro espanhol, Mariano Rajoy, participou na campanha do derrotado ex-primeiro ministro Samaras e um porta-voz do seu Partido Popular disse que não se podiam fazer comparações entre a Espanha e a Grécia; o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi disse que é bom ter um aliado como Tsipras em Bruxelas; Mário Soares manifestou “uma grande alegria” com a vitória “do amigo” Alex Tsipras, com quem esteve no ano passado, nas eleições europeias, num comício do Bloco de Esquerda realizado no norte do país; ao segundo dia como Primeiro Ministro Tsipras anunciou ir "reestruturar dívida", subir já o salário mínimo, travar privatizações e contratar funcionários públicos despedidos no tempo da troika; a bolsa grega caíu a pique e  os juros da dívida helénica dispararam; o primeiro Conselho de Ministros de Alex Tsipras foi transmitido em directo pela televisão.


 


ARCO DA VELHA - O negócio dos submarinos rendeu em comissões 27 milhões de euros que foram distribuídos por accionistas da ESCOM e do GES.


 


FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Monocle” é dedicada à hospitalidade, nas suas diversas formas, desde maneiras hospitaleiras de receber, seja em casa, num hotel ou num restaurante, até à forma como algumas embaixadas acolhem convidados. É uma edição muito curiosa, pontuada entre o bom gosto e as boas maneiras. Na secção de cultura há um destaque para o panorama das galerias e da arte em Nova Orleãs, mas também uma história deliciosa de mil árvores, plantadas no ano passado na floresta norueguesa, árvores que darão origem ao papel que será usado em 2114 para imprimir uma antologia de 100 autores que já está a ser preparada. Na area de Media um artigo pequeno, mas curioso, sobre o que está a acontecer na produção televisiva em França, em parte impulsionada pela chegada ao mercado local do Netflix. Regressando à hospitalidade, Lisboa merece duas referências, uma com o Hotel Valverde na Avenida da Liberdadee outra com o Café Lisboa e as suas receitas, criadas por José Avilez. Finalmente nesta edição aparece o anúncio da “Monocle Quality Of Life Conference”, que se realizará em Lisboa nos dias 17 e 18 de Abril, à volta da questão do desenvolvimento das cidades, da sua arquitectura, de como colocar o artesanato e o design no centro do desenvolvimento de actividades económicas. Para terminar, na nota final de Tyler Brulé fica a saber-se que a edição especial “The Forecast”, editada em Dezembro, terá igualmente uma edição no Verão, mais centrada na cultura e nos media.


 


VER - Até 17 de Fevereiro ainda pode ser vista, nos Paços do Concelho, em Lisboa,  a exposição de imagens de fotojornalismo da agência noticiosa espanhola EFE. A mostra pretende dar a conhecer a actividade fotográfica da agência desde que ela se iniciou, há 75 anos. A EFE tem mais de 13 milhões de imagens no arquivo, e destas, cerca de 2,5 milhões podem ser visitadas em  www.lafototeca.com. Diariamente a agência produz cerca de mil imagens em todo o mundo, mas predominantemente nas zonas de influência de Espanha, nomeadamente a América do Sul. Olhando para este trabalho de preservação da memória do fotojornalismo fico a pensar como seria oportuno fazer idêntico trabalho na portuguesa agência LUSA e nas suas antecessoras, Notícias de Portugal, ANOP, ANI e Lusitânia, a precursora, fundada em 1944, há 70 anos portanto. Um bom complemento desta expoosição da EFE, embora de natureza diversa, pode ser visto no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246), onde até 14 de Março pode ser visitada a exposição de postais ilustrados “Palavra Arquivada” (na imagem) , comissariada por Carla Cabanas, a partir de um conjunto de postais do início do século XX provenientes da sua coleção particular e da coleção de Eduardo Portugal.


 


OUVIR - David Virelles é um pianista cubano que se tornou num dos novos cartões de visita da prestigiada editora alemã de jazz ECM, infelizmente cada vez mais difícil de encontrar em Portugal. Neste seu disco de estreia para a ECM, “Mbókò”, Virelles é acompanhado por uma formação inusitada - dois baixistas, dois percussionistas (um deles também vocalista) e ele próprio no piano. Interpretam o que classificam de música sacra e ritual afro-cubana, com incursões de fusão frequentes em sonoridades contemporâneas. Os dois duplo-baixos, e as improvisções que desenham, são uma peça fundamental na construção da sonoridade, assim como as percussões, às quais é deixado um papel essencialmente de pontuação melódica. É difícil catalogar o disco, com raízes evidentes na world music, mas com pontes constantes ao jazz num trabalho de evidente exploração e inovação. O disco inclui dez temas do próprio Virelles e merece ser referido o papel de Thomas Morgan e Robert Hurst, ambos no duplo baixo, do baterista Marcus Gilmore e de Róman Diaz, um percussionista que toca biankoméko, um conjunto de percussões de quatro tambores, sinos e maracas. O meu exemplar de “Mbókò” veio da Amazon do Reino Unido.





PROVAR - Uma edição recente da revista norte-americana “Time” dedicava a sua capa inteirinha a elogiar os benefícios da manteiga e a contrariar a ideia de que ela poderia ser perigosa para o regime alimantar. Confesso que não resisto à boa manteiga, mas ela não é fácil de encontrar. Nos últimos anos tenho usado a “Nova Açores” mas há dias descobri uma nova marca do arquipélago, a “Manteiga Rainha do Pico” . Comprei-a na Garrafeira Néctar das Avenidas (Av Luis Bivar 40B, junto à esquina com a Duque de Ávila). Uma embalagem de 500 gramas custa 5,20 euros e garanto que uma torrada com esta manteiga faz toda a diferença. As minhas manhãs são outras desde que a descobri - ainda por cima com a consciência menos pesada graças à Time.  Este espaço, Garrafeira Néctar das Avenidas, que recomendo vivamente, tem uma bela escolha de vinhos, incluindo alguns de pequena produção com boa relação qualidade/preço e distingue-se por uma cuidada selecção de vinhos do Porto. A casa é propriedade de um açorriano, recebe semanalmente produtos do arquipélago, desde a manteiga e compotas como a de capucho a biscoitos de canela, passando por massa sovada e bolo lêvedo das Furnas. Este deve ser dos poucos sítios do Continente onde se pode comprar o maravilhoso vinho generoso Czar, originário da ilha do Pico, e que deve o seu nome ao facto de em tempos idos a produção ser quase integralmente comprada pela corte imperial russa.


 


DIXIT - “Fala ao telemóvel com tranquilidade? - Falo. Como se estivesse a falar para um gravador” - Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, em entrevista ao “Expresso”.


 


GOSTO - O número de falências baixou pela primeira vez desde 2010


 


NÃO GOSTO - Mais de um terço dos professores chumbaram na prova de avaliação e os erros básicos de português foram abundantes - apenas 34,7% dos avaliados não fizeram erros ortográficos.


 


BACK TO BASICS - O preço que os homens bons pagam pela sua indiferença face à coisa pública é virem a ser governados por homens sem valor - Platão