julho 16, 2013

Sobre o Regime, a Crise, e a convocação de Presidenciais antecipadas

REGIME - Cavaco Silva foi Primeiro Ministro entre 6 de Novembro de 1985 e 28 de Outubro de 1995, há cerca de 18 anos portanto. Os eleitores que este ano votarão pela primeira vez nas autárquicas, e aqueles que se estrearão nas próximas legislativas, não se lembram dele no Governo nem fazem ideia do que o país era no início da década de 90. As suas memórias remontarão ao início deste milénio e devem ter da política a péssima imagem moldada pelos governantes e políticos que, desde então, viram fazer promessas que não cumpriram, fugir ao primeiro desaire e incentivar gastos para além das possibilidades do país. O Cavaco que conhecem é este, desta semana, enigmático, que parece agir por vigança política, preocupado com o seu papel na História mais do que com qualquer outra coisa, que se alheia da realidade e constrói cenários, que brinca ao monopólio político sem medir consequências. A geração que agora vai começar a votar teve, talvez, a adolescência menos preocupada e está a ter a mais difícil entrada na vida profissional. Como se comportará eleitoralmente? Conseguirá o sistema político levar a votar aqueles que nas ruas já se mostraram indignados, descontentes e desesperados? E os partidos políticos? Perceberão que com a sua retórica de chavões e ideias feitas estão a milhas de conseguirem comunicar com estes cidadãos? Estas semanas de crise, além de tudo o que já se sabe e não vale a pena repetir, mostram o vazio de argumentos dos partidos - todos previsíveis, todos arrogantes das suas verdades, todos a viverem num mundo de fantasia, sejam do Governo ou da oposição. Verdade seja dita o Presidente da República desta vez foi rápido a fazer-lhes companhia em matéria de contributo para a crise, no preciso momento em que parecia começar a existir uma solução. O Presidente jogou na incerteza, aumentou a confusão e provavelmente deu um forte contributo para que suceda mesmo um segundo resgate. Na realidade o Presidente não deu só um tiro nos pés do país - passou por cima do uso da bomba atómica da dissolução e inventou uma bomba de neutrões política, sob a forma de um contrato a prazo para o Governo.


PERGUNTAS - Como se podem convocar eleições presidenciais antecipadas? O que se pode fazer quando, por omissões e actos, um Presidente da República aprofundar uma crise política em vez de a resolver? E se um Presidente da República prefere ignorar uma maioria parlamentar existente e forçar uma solução extra eleitoral, estamos perante um golpe de estado constitucional? Qual o processo para avaliar se um Presidente é inimputável?


SEMANADA - A previsibilidade de reacções do Bloco, do PCP e do PS à crise foi total- chavões, sem uma ideia nova; António José Seguro parecia alguém que, nestes dias de calor, estava dentro de água a levar amonas sucessivas e, volta e meia, vinha cá acima respirar e balbuciar qualquer coisa; diversas sondagens revelam que aumenta o descrédito dos políticos entre os eleitores; a audiência média diária do Canal Parlamento é de 720 pessoas por dia, menos que o total de deputados e funcionários da Assembleia da República; Vitor Gaspar regressou ao Banco de Portugal e uma das suas primeiras decisões foi encomendar a entrega diária do "Financial Times" no seu gabinete; Teixeira dos Santos mostrou no Parlamento a nota de passagem de pasta sobre os swaps, que a actual Ministra das Finanças afirma não existir, e voltouz a acusar Maria Luis Albuquerque de ter mentido; a crise confirmou que nada é mais previsível que o erro das previsões, sejam económicas, sejam políticas; o Presidente da República contrariou todas as previsões e, para se vingar da crise da semana passada, criou ele próprio nova crise esta semana; o "Financial Times" classificou a situação saída da declaração de Cavaco como "caos político".


ARCO DA VELHA - António Costa recorreu para o Tribunal Constitucional de duas sentenças que obrigam a Câmara Municipal de Lisboa a facultar o acesso de um jornalista do "Público" ao relatório de um vereador sobre a forma como são feitas as contratações de empreitadas de obras municipais, nomeadamente as de ajuste directo.


VER - As duas exposições de fotografia do ciclo “Próximo Futuro”, no edifício principal da Fundação Gulbenkian, proporcionam a oportunidade para descobrir a fotografia africana contemporânea. Começo pelas imagens da exposição da nona edição dos Encontros de Fotografia de Bamako e destaco as máscaras de Fatoumata Diabate, os fragmentos de momentos de Mamadou Konate, os poderosos retratos de Jejag Nga ou a fé vista por Mário Macilau. Há imagens marcantes, de paisagens pós coloniais, quase sempre com oportuna e referencial presença de pessoas, em vez da tendência paisagistica do betão das periferias urbanas, dominantes na aborrecida fotografia ocidental contemporânea. No piso inferior da Fundação está a exposição “Present Tense”, comissariada por António Pinto Ribeiro, o dinamizador do “Próximo Futuro”, que mostra o trabalho de fotógrafos do sul de África - e aí destaco as fotografias de Paul Samuels, Piet Hugo, Sammy Baloji, Kiluanji Kia Henda e, de forma especial, a maneira de ver de Mauro Pinto. É muito curioso observar a utilização da côr por estes fotógrafos, em contraste com o recurso ocasional com o preto e branco. E sobretudo é estimulante seguir a linguagem fotográfica que praticam, resistindo ao óbvio e evitando


OUVIR- O novo disco do trompetista norte-americano Terence Blanchard, o vigésimo da sua carreira,tem um título que descreve bem a capacidade de atracção dos seus dez temas - "Magnetic". Terence Blanchard no trompete, Brice Winston e Ravi Coltrane no sax tenor, Lionel Loueke na guitarra, Fabian Almazan no piano, Ron Carter e Joshua Crumbly no baixo e Kendrick Scott na bateria são os músicos presentes nestas gravações. A autoria dos dez temas inéditos é diversa, repartida pelos músicos do grupo - aqui estão composições do próprio Blanchard, mas também do pianista Fabian Almazan, do baixista Joshua Crumbly, do baterista Kendrick Scott e do saxofonista Brice Winston. Este disco, nas interpretações, mas também na composição, é um espelho daquilo que é a grande atracção do jazz - o desenvolvimento colectivo do talento, de que o arrebatador tema título "Magnetic" é um belíssimo exemplo. Emocional em "Hallucinations", atrevido em "No Borders, Just Horizons", melancólico no solo de piano de "Comet", ou swingante em "Don't Run", aqui estão várias boas razões para ouvir este "Magnetic". (Edição Blue Note, Universal)


FOLHEAR - A história, fantástica, que Pedro Bidarra criou em "Rolando Teixo", é particularmente adequada ao estado do país, é uma longa metáfora sobre este estado de coisas. O protagonista vive na negação da realidade e  sofre um processo de regressão que progressivamente destrói o que restava de si. Pelo meio está a descrição do quotidiano de uma vida sem história, que se cruza com sonhos e foge da realidade. Não resisto a citar uma passagem que dá o mote ao livro: "A felicidade é uma invenção da cidade. A cidade foi inventada para esconder a morte do nosso quotidiano, para nos fazer crer na omnipotência, na vida eterna, na juventude sem fim, na felicidade. No campo não há felicidade. Há vida, há morte, e, entre elas, sobrevivência." ("Rolando Teixo", de Pedro Bidarra, 150 páginas, colecção "Poucas Palavras, Grande Ficção", da Guerra e Paz.)


PROVAR -  Agora que é mais fácil ir ao restaurante do Chapitô, graças ao parque de estacionamento do mercado do Chão do Loureiro, que desemboca a umas dezenas de metros do local, vale a pena experimentar o que o chef  Bertílio Gomes está a fazer, num dos locais com melhor vista sobre Lisboa e que tem tido uma vida atribulada. Falo do restaurante do Chapitô, agora chamado "Chapitô à Mesa" e onde a tradição da cozinha portuguesa está em destaque, com pormenores invulgares que são imagem de marca de Bertílio Gomes. Creme de espargos com amendoas torradas, secretos de porco preto com molho de queijo de Azeitão, entrecôte com esmagada de batatas e cogumelos em molho de vinho tinto, ou cherne com musseline de aipo e ameijoas são alguns dos pratos da lista - onde também existem algumas saladas  e massas frias que sabem bem nestes dias quentes. Localizada na zona do Castelo, a casa é muito procurada por turistas a qualquer hora, e vale a pena marcar e não desesperar - que o serviço, embora esforçado, tem momentos de uma lentidão considerável. Rua da Costa do Castelo 7, telefone 21 887 5077.


DIXIT - "O partido mais pequeno da coligação não pode ser uma espécie de sidecar sem travões, sem guiador, nem embraiagem" - Bagão Felix


GOSTO- Da iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e do ISEG, que vão promover um estudo sobre as mudanças verificadas na vida dos vencedores dos grandes prémios dos jogos.


NÃO GOSTO - Que um orgão de soberania, em especial o Presidente da República, se guie pelo ressabiamento no seu processo de tomada de decisões.


BACK TO BASICS - Os piores dos lugares do Inferno estão guardados para aqueles que numa época de crise aguda mantêm a neutralidade - Dante Allighieri



(Publicado no Jornal de negócios de 12 de Julho)

O GRAU ZERO DA POLÍTICA


Tenho muita pena, mas não acredito em Passos Coelho. Olhando para os últimos dias, e procurando a causa das coisas, cada vez mais me convenço que foi ele quem esteve na origem de toda a crise que se passou: escondeu, conspirou, acirrou, recuou, andou e manobrou durante meses como bem quis, com a preciosa ajuda de Vitor Gaspar. Se alguem me levanta duvidas, é ele e não Paulo Portas, embora o líder do CDS tenha tido vários maus momentos neste processo.


Mas, para o que interessa, quem começou a briga foi Passos Coelho, com a sua teimosia e a sua tendência para ignorar a realidade. Paulo Portas fez a mais arriscada das jogadas e perdeu uma boa parte do seu capital político - mas aparentemente ganhou o poder suficiente para desenhar outras políticas, nomeadamente nas negociações com a troika. Pode ser que um dia ainda lhe venhamos a agradecer o que agora tanta gente acha estranho.


Os sinais de desagrado dentro de um Governo chegam com ma cristalina transparência através da quantidade de fugas de informação e, nas últimas semanas era evidente como elas surgiam de forma crescente. De há um mês para cá apodrecia o clima e aumentava a desconfiança. Se quem manda tivesse mais atenção aos sinais e à realidade, as coisas poderiam ter corrido de outro modo. 


A crise da semana passada provocou milhões de euros de prejuízo ao país, aos contribuintes e às empresas. Quem se responsabiliza por isto? Ou, posto de outra forma, se o prejuízo lhes saísse dos bolsos, se fossem eles sózinhos a pagar tudo o que os contribuintes vão pagar a mais por causa dos desvarios, isto não aconteceria. Se os administradores das empresas são responsabilizados quando iludem o Estado, os administradores do país também têm de o ser.



(Publicado no Metro de 9 de Julho)

PARA QUE PODERIA SERVIR O SERVIÇO PÚBLICO DE TV?

O papel do Serviço Público de televisão tem que ser visto hoje em dia no contexto da dinamização do tecido industrial audiovisual português e da divulgação da língua e cultura portuguesa no espaço digital. Por outro lado a rápida evolução tecnológica exige que verdades passadas sejam reanalisadas periodicamente e que os períodos de atribuição dos contratos de concessão do serviço público, e respectivo conteúdo, sejam aferidos, avaliados e eventualmente modificados com maior frequência do que até aqui tem sucedido.


 


Há alguns anos que me interesso pelo tema: em 2002 integrei uma Comissão criada pelo Ministro Morais Sarmento, que elaborou um Relatório sobre o Serviço Público de Televisão, cujos princípios gerais continuam justos. Algum tempo depois fui convidado para pôr de pé o projecto de um canal aberto à Sociedade Civil, que ficou conhecido como a 2:,  que dirigi durante quase três anos.  Antes, quando trabalhei na produção independente, nomeadamente na área dos documentários, na Valentim de Carvalho Televisão, testemunhei que era mais fácil vender documentários sobre a história contemporânea portuguesa à SIC, como aconteceu, do que à RTP. De há cerca de três anos a esta parte a estação pública tem perdido progressivamente relevância e, nos tempos mais recentes, as mudanças de tecnologia, de distribuição e de hábitos de consumo de programas foram enormes, afectaram-na de forma sensível,  e é absolutamente indispensável que as definições gerais de serviço público audiovisual sejam adaptadas à realidade da introdução da Televisão Digital Terrestre, que é utilizada como meio único de recepção por apenas cerca de um quarto dos lares portugueses, e que o papel da RTP seja repensado no novo universo tecnológico, nomeadamente enquanto motor de inovação e não enquanto bastião da tradição.


 


Costumo dizer que Gutenberg chegou à televisão com a entrada no mercado de câmaras digitais de alta definição de preço acessível e com sistemas de edição baseados em computadores que qualquer um de nós pode ter em casa. Mas a realidade é que este Gutenberg audiovisual ainda é pouco aproveitado pelo serviço público e que a RTP, para utilizar uma analogia com a imprensa, ainda trabalha com composição a chumbo numa época em que o offset já tem várias gerações e em que, por exemplo no MEO, é possível a cada um de nós criar um canal – bem sei que não é bem disso que estamos a falar, mas este exemplo serve para mostrar como a televisão deixou de ser uma tecnologia inacessível e isso tem inevitavelmente consequências no comportamento de todo o sistema.




A ALTERAÇÃO DO CONSUMO E A REESTRUTURAÇÃO DA RTP




Hoje em dia cerca de 77% dos lares portugueses consomem televisão que lhes chega por um dos sistemas de distribuição de cabo ou satélite. Quer isto dizer que estes lares têm uma oferta de pelo menos meia centena de canais, em vez dos quatro tradicionais (RTP 1 e 2, SIC e TVI) e do Canal Parlamento, que também está, vá-se lá perceber porquê, na Televisão Digital Terrestre.




Portanto, sem desprezo pelos 23% de lares restantes, a oferta e os hábitos de consumo de televisão em Portugal mudaram de forma substancial nos últimos cinco anos. Basta dizer que desde há mais de um ano o conjunto dos canais de cabo ultrapassa em share médio de audiência qualquer um dos canais de sinal aberto.




Ora estas alterações significativas na distribuição e no consumo dos canais de televisão tem inevitavelmente consequências no serviço público – sobretudo no que deve ser a sua definição hoje em dia. A questão do acesso universal e gratuito por exemplo, já não é a pedra de toque da definição. Por outro lado, os canais generalistas e comerciais privados fornecem informação pelo menos tão pluralista como a da RTP, entretenimento e produção nacional em maior quantidade que a RTP, e qualquer pessoa – com cabo ou sem cabo - pode aceder a eles em qualquer ponto do território para ver futebol ou transmissões diretas de acontecimentos importantes – já que todos o fazem.


 


Fruto de um posicionamento concorrencial face aos privados, a RTP é ainda hoje uma entidade despesista, com uma estrutura sobredimensionada e custos desproporcionados. Num modelo ideal a RTP devia possuir apenas os meios necessários à informação e à emissão e tornar-se, usando a terminologia anglo-saxónica, num “broadcaster” e não numa empresa de produção, que é hoje em dia.




Ou seja, toda a área de conteúdos não informativos devia ser descontinuada e o investimento em programas de documentário, ficção, infantis e entretenimento devia ser aplicado na produção externa e na aquisição de programas - o que quer dizer ter uma ideia do que se quer encomendar, do que se deve aceitar, do quye se deve exigir aos produtores externos: ou seja não ter um papel passivo na recepção da encomenda, mas um papel activo de discussão de conteúdos e de resultado final, em função dos objectivos da estação. Ao contrário do que muitos pensam a BBC não produz internam,ente as belas séries e os belos documentários que conhecemos: contrata produtores externos para a sua concretização mas tem uma equipa de produtores executivos que define, acompanha, controla e decide se o produto final está de acordo com a encomenda e  com as guidelines da estação.




Este canalizar para a aquisição de conteúdos de parte importante das verbas actualmente gastas em funcionamento permitiria dinamizar a produção independente, desenvolvendo e consolidando uma industria audiovisual, necessária à manutenção do português enquanto língua viva. Recordo que a RTP é a empresa que menos tempo de emissão consagra à produção nacional não informativa, nomeadamente na ficção.




No meu entender existe um papel importante a desempenhar pelo serviço público e que tem a ver com uma carteira de encomendas continuada, junto à produção independente, nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais. Actualmente, nem 10% do investimento em grelha chega à produção independente.




De uma forma mais concreta, faria sentido que o serviço público de televisão investisse a maior fatia do seu orçamento de produção na encomenda e aquisição de programação de stock – aquela que se pode repetir ao longo do tempo e que não se esgota na primeira emissão, e a que se chama de fluxo. Para dar um exemplo uma série de ficção é stock e um concurso como o “Preço Certo” é fluxo. Faz mais sentido investir no que perdura do que naquilo que se evapora, certo? Já nem vou dizer que o aproveitamento da produção de stock nas emissões internacionais, em intercâmbios com outras televisões ou até na venda de direitos é uma realidade e que o fluxo é inaproveitável em tudo isto. A este propósito não deixa de ser interessante que a BBC tenha escolhido a sua área emporesarial que se dedica à comercialização dos conteúdos próprios (produzidos externamente), para servir de garantia e alavanca a uma operação de financiamento.


 


CRIATIVIDADE OU BOÇALIDADE?


 


Analisemos o tema de outra perspectiva, mesmo correndo o risco de alguma repetição: nos dias de hoje, num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?




Correndo mais uma vez o risco de me repetir, insisto em algumas perguntas: o serviço público deve fazer concorrência aos privados,  ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entretenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que já passam nos canais de cabo emitidos em Portugal?




Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas.




A este propósito, as recentes decisões da RTP, de suspender a produção de documentários por produtores independentes é muito preocupante: penso que esta devia ser uma área prioritária de recursos financeiros das grelhas e não uma área descartável. No fundo, a RTP quer investir em fluxo ou em stock? É esta a questão que deve ser clara em decisões futuras sobre as obrigações do serviço público.




Finalmente penso que uma área onde se devem aproveitar as disponibilidades técnicas e humanas da RTP - e que deve fazer parte da sua missão - é a informação regional e até mesmo local. O seu serviço informativo deveria ser orientado para a proximidade com os seus públicos e não apenas de índole nacional, repetindo os canais concorrentes. Da mesma forma faria sentido desenvolver as boas capacidades existentes de reportagem, a partir dos meios disponíveis na Direcção de Informação - alguns desses espaços já existentes são aliás exemplo de boas audiências conquistadas pelo canal.




Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural na acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos.


 


OLHAR PARA O FUTURO E TOMAR DECISÕES


 


Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.




Para terminar e para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, tendencialmente com um único canal nacional de sinal aberto, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal, na minha opinião,  não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, modalidades de desporto incluídas – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento.




Gostaria de aprofundar a questão da publicidade. Actualmente a RTP pode ter até seis minutos por hora de inserções publicitárias, e os privados podem ir até aos 12. Nesta altura do ano de 2013, o investimento publicitário nos canais de sinal aberto (RTP1, SIC e TVI) está a cair cerca de 20%, por cima das quedas verificadas nos últimos anos. O desconto médio em relação aos valores de tabela tem vindo a aumentar. A oferta de espaço publicitário nas televisões de sinal aberto encontra a concorrência cada vez maior dos dos canais de cabo. Na realidade a oferta de espaço publicitário em televisão de sinal aberto excede largamente a procura e, salvo raras ocasiões, nem os seis minutos hora são ocupados. O resultado é uma acentuada quebra de valor do espaço publicitário em televisão, o que tem efeitos nefastos noutros media, sobretudo a imprensa - já que o preço em televisão baixou a valores que se tornam, na prática, muito concorrenciais. Também aqui, na minha opinião, se devia repensar o tema, caminhando para uma progressiva diminuição da publicidade na RTP até à sua anulação - este é o papel regulador que, creio, o Estado pode e deve ter para procurar assegurar uma diversidade de formas de comunicação e não a sua redução.




Existem pelo mundo diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos. Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. A presença do operador de serviço público no cabo deve ser repensada à mesma luz da não concorrência aos privados e protegendo a necessidade de maior participação das diversas regiões do país, aproveitando os recursos técnicos existentes para a informação. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África – compreendendo aliás que nos países lusófonos já existem operadores locais de televisão com os quais interessa mais fazer cooperação do que concorrência -  e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.




Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam, ou não, útil e necessário. O resto é uma questão de distribuição e de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado, da forma mais concreta que fôr possível.




(Este texto é uma versão actualizada do que foi publicado na revista Notícias TV de 5 de Julho)

julho 05, 2013

A TENTAÇÃO DO PRECIPÍCIO NO TABULEIRO DE XADREZ

XADREZ - A única coisa que me ocorre é que os senhores políticos, além de escangalharem o país, tramaram a vida dos comentadores - uma opinião não se aguenta meia dúzia de horas e eu estou aqui quinta de manhã, sem saber que dizer. Poucos serão os que percebem o que se passou nos bastidores desde o fim de semana passado, mas há campo para fazer perguntas: Porque é que Passos Coelho persistiu no nome de Maria Luis Albuquerque, apesar de saber que o líder do outro partido da coligação discordava fortemente da escolha? Como é que o Presidente da República não usou os mecanismos à sua disposição para  perguntar ao líder do segundo partido da coligação se estava confortável com a situação? Porque é que Paulo Portas agiu, aparentemente, sem falar com os seus mais próximos? Tenho várias teorias sobre o assunto e algumas delas não são novidade: a primeira é que inabilidade política, teimosia, desfasamento da realidade, arrogância e sobranceria têm sido  linhas mestras de Passos Coelho e elas estiveram sempre presentes nestes dias; a segunda é que o Presidente da República já não sabe como há-de exercer o seu cargo - é caso para se perguntar onde está o Wally? ; e a terceira é que Paulo Portas decidiu jogar um jogo de xadrez em simultânea, abrindo vários tabuleiros ao mesmo tempo - o do Governo, o do seu partido e o de eventuais futuras coligações em caso de eleições antecipadas, nomeadamente com o PS. O tema das coligações - que tem a ver com o funcionamento do sistema partidário e político que temos - é aliás central em toda esta história. Temos uma fraca cultura política de negociação, indispensável em coligação. Os líderes partidários estão habituados a ser obedecidos e não a fazer compromissos - querem o poder, ponto. Não é preciso ser-se analista para perceber que desde há muitos meses o PSD anda a esticar a corda na relação com o CDS, e um dia ela havia de se partir - rebentou no pior momento possível. As jogadas politiqueiras sobrepõem-se a acordos políticos sérios e isso tem os elevados custos que estamos a ver - e devo dizer que, nesta matéria, Passos Coelho, num primeiro momento, e Paulo Portas, num segundo, estiveram-se nas tintas para as dificuldades do país e para as consequências dos seus actos. A verdade é que a direita e o centro direita não têm sido capazes de levar um Governo até ao fim - lembram-se de um conselho coordenador da coligação, anunciado a 20 de Setembro do ano passado e de que nunca mais se ouviu falar? A crise não vem de agora, foi-se agudizando, muito graças ao facto de o Governo ter sido conduzido, na prática, por Vitor Gaspar - a sua carta de demissão é clara sobre isso e é exemplar sobre a sua noção de política e compromisso nas referências que faz, de novo, ao Tribunal Constitucional. Não arrisco prever o que se irá passar, mas admito que Paulo Portas, com o seu xeque ao rei conseguirá cedências de Passos Coelho, reforçando o seu papel no Governo, ultrapassando dificuldades no seu partido e forçando uma remodelação maior do que se imaginava há uma semana. Por quanto tempo se aguentará esta situação? Não faço ideia das consequências dentro do PSD - mas não me custa imaginarRui Rio, no Porto, a afinar o motor de um carro de corrida antigo, daqueles de que tanto gosta,  para fazer a antiga Nacional Um, rumo à sede do PSD em Lisboa, talvez com paragem prévia em Belém, vestido com a armadura de salvador da Pátria. Como um amigo meu dizia por estes dias, preocupo-me ainda mais quando me parece também ouvir o silvo de um jacto privado, com Sócrates lá dentro, a levantar vôo de Paris, rumo a Lisboa. João Quadros, com o seu humor corrosivo que todos conhecemos, quarta à noite, no twitter, imaginava Jack Bauer, a personagem central da série “24 Horas” a olhar para Portugal e a dizer “Isto já não faz sentido: não é possível acontecer tanta coisa em 24 horas!”.




SEMANADA - Segunda feira, o primeiro briefing do Governo falhou a demissão do Ministro Vitor Gaspar; Maria Luis Albuquerque foi nomeada Ministra das Finanças depois de ter desmentido o seu antecessor Vitor Gaspar no caso dos swaps; terça-feira, o segundo briefing do Governo, falhou a demissão do Ministro Paulo Portas; Cavaco Silva deu posse à nova Ministra das Finanças meia hora depois da demissão de Ministro do líder do segundo partido da coligação; quarta-feira Passos Coelho viajou para Berlim e já não houve briefing; foi neste dia, quarta feira, que curiosamente se assinalaram os 130 anos do nascimento de Franz Kafka; na mesma quarta-feira o CDS mandatou o Ministro irregovalmente demissionário, Paulo Portas, para negociar com Passos Coelho a viabilização do Governo; título de uma página de política do Correio da Manhã na quarta-feira: “Dois Ministros do CDS devem demitir-se hoje”; a Bolsa de Lisboa deu um trambolhão histórico; Jorge Sampaio falou sobre a crise a pedir eleições antecipadas a 29 de Setembro; Seguro foi a Belém pedir eleições antecipadas a 29 de Setembro; José Sócrates demitiu-se do cargo de engenheiro na Câmara da Covilhã, onde estava há 20 anos em regime de licença sem vencimento; Luis Filipe Vieira, presidente do Benfica, desmarcou quarta feira uma entrevista na TVI devido à grave crise do país, afirmando não ser “tempo de falar de futebol”; Vale a Azevedo foi condenado a mais dez anos de prisão; o Ministério Público contrariou o Presidente da República, que pretendia a manutenção do procedimento criminal contra Sousa Tavares no caso do palhaço.




ARCO DA VELHA - Em 2012 o fisco deixou prescrever mais de 900 milhões de euros de dividas fiscais e a divida à segurança social aumentou quase 1,3 mil milhões de euros. Fisco e segurança social têm 28 mil milhões de euros por cobrar, ou seja o equivalente a três defices orçamentais;




OUVIR- Estou rendido ao disco de estreia de Gisela João,  deslumbrado por esta voz, encantado por estes arranjos, pelo atrevimento na escolha do repertório e pela deliciosa falta de reverência na interpretação. Gosto de iconoclastas e este é um belíssimo disco à margem dos bons costumes, coisa rara no que por aí se edita em nome do fado. Claramente este é o melhor disco de estreia da geração mais recente dos que cantam fado e  arrisco dizer que esta é a única grande fadista a aparecer nos últimos anos, em que tantos imitadores têm feito carreira. Não por acaso a produção executiva é de Helder Moutinho - que confiou a produção musical a Frederico Pereira, que fez um belíssimo trabalho, com a ajuda de Ricardo Parreira na guitarra, Tiago Oliveira na viola, e Francisco Gaspar no baixo. Nascida em Barcelos, Gisela João oscila entre temas populares como “A Casa da Mariquinhas” ou “Malhões e Vira”, a clássicos como “Maldição”, “Sou Tua”, “Não Venhas Tarde” ou o extraordinário “Madrugada Sem Sono”, que abre o disco num arranjo excepcional. E há novidades, como “Primavera Triste” de Aldina Duarte ou a maior surpresa do disco, “Vieste do Fim do Mundo”, de João Loio. Nada aqui é gratuito, nem exibicionista. E é isso que faz ouvir este CD vez após vez. “Não é fadista quem quer/mas sim quem nasceu fadista” - por acaso são estas as últimas palavras cantadas deste disco. (CD Edições Valentim de Carvalho)




FOLHEAR - Gosto de romances de estrada e gosto ainda mais de romances de estrada com música. Gosto da escrita de Francisco Camacho e gosto deste seu novo romance, “A Última Canção da Noite”. Há uns anos Nick Hornby juntou três dezenas de ensaios sobre canções de que gostava e publicou “31 Songs”. Primeiro comprei o livro, depois comprei o disco, que juntava 18 dos temas de que ele falava. Se estivesse numa editora discográfica fazia uma compilação com as canções de Francisco Camacho, aquelas que ele seleccionou recentemente para um artigo ,no cada vez mais imprescindível carrosselmag.com sobre o seu livro, e juntava-lhes mais umas tantas de que ele se lembrasse. Lá estariam os Ramones, Clash, Long Ryders, Sonic Youth, mas também Radiohead, Go Betweens ou Madonna. Pela estrada fora e sempre a abrir ele havia de fazer uma bela compilação. Pelo menos tão envolvente como este “A Última Canção da Noite”, de Marrocos a Berlim, uma viagem de liberdade, paixão e imprevistos, acelerada ao som do rock’n’roll, como bem lembra o CarrosselMag.




DIXIT - “Foi a crise dos partidos (...) - prometendo o que o país não podia dar - que provocou a desconfiança generalizada na capacidade deles para resolverem os problemas do País” - Manuel Villaverde Cabral




GOSTO - Da Campanha da Associação Portuguesa de Produtores de Biocombustíveis: “Se não há petróleo em Portugal, planta-se”, apelando à plantação de soja e colza para a produção de biodiesel.




NÃO GOSTO - Da revogação pela Secretaria de Estado da Cultura da autorização de venda de uma pintura do século XV, de Crevelli, que é propriedade privada.




BACK TO BASICS - Uma observação atenta revela que a maior parte das situações de crise geram a oportunidade para que tudo fique na mesma - Maxwell Maltz




(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Julho)

PARA QUE PODERIA SERVIR O SERVIÇO PÚBLICO DE TV?

(Texto de opinião escrito a pedido da Notícias TV numa série de artigos sobre "A RTP e o Futuro")


 


Depois dos acontecimentos desta semana, fica novamente em aberto o que vai acontecer à RTP – a mudança de Governo e de ciclo político trará provavelmente alterações aos planos traçados. Há alguns anos que me interesso pelo tema: em 2002 integrei uma Comissão criada pelo Ministro Morais Sarmento, que elaborou um Relatório sobre o Serviço Público de Televisão, cujos princípios gerais continuam justos. Algum tempo depois fui convidado para pôr de pé o projecto de um canal aberto à Sociedade Civil, que ficou conhecido como a 2:,  que dirigi durante quase três anos.  Antes, quando trabalhei na produção independente, nomeadamente na área dos documentários, na Valentim de Carvalho Televisão, testemunhei que era mais fácil vender documentários sobre a história contemporânea portuguesa à SIC, como aconteceu, do que à RTP. De há cerca de três anos a esta parte a estação pública tem perdido progressivamente relevância e, nos tempos mais recentes, as mudanças de tecnologia, de distribuição e de hábitos de consumo de programas foram enormes, afectaram-na de forma sensível,  e é absolutamente indispensável que as definições gerais de serviço público audiovisual sejam adaptadas à realidade da introdução da Televisão Digital Terrestre e que o papel da RTP seja repensado no novo universo tecnológico, nomeadamente enquanto motor de inovação e não enquanto bastião da tradição.


Costumo dizer que Gutenberg chegou à televisão com a entrada no mercado de câmaras digitais de alta definição de preço acessível e com sistemas de edição baseados em computadores que qualquer um de nós pode ter em casa. Mas a realidade é que este Gutenberg audiovisual ainda é pouco aproveitado pelo serviço público e que a RTP, para utilizar uma analogia com a imprensa, ainda trabalha com composição a chumbo numa época em que o offset já tem várias gerações e em que, por exemplo no MEO, é possível a cada um de nós criar um canal – bem sei que não é bem disso que estamos a falar, mas este exemplo serve para mostrar como a televisão deixou de ser uma tecnologia inacessível e isso tem inevitavelmente consequências no comportamento de todo o sistema.




A ALTERAÇÃO DO CONSUMO E A REESTRUTURAÇÃO DA RTP




Hoje em dia cerca de 77% dos lares portugueses consomem televisão que lhes chega por um dos sistemas de distribuição de cabo ou satélite. Quer isto dizer que estes lares têm uma oferta de pelo menos meia centena de canais, em vez dos quatro tradicionais (RTP 1 e 2, SIC e TVI) e do Canal Parlamento, que também está, vá-se lá perceber porquê, na Televisão Digital Terrestre.


Portanto, sem desprezo pelos 23% de lares restantes, a oferta e os hábitos de consumo de televisão em Portugal mudaram de forma substancial nos últimos cinco anos. Basta dizer que desde há mais de um ano o conjunto dos canais de cabo ultrapassa em share médio de audiência qualquer um dos canais de sinal aberto.


Ora estas alterações significativas na distribuição e no consumo dos canais de televisão tem inevitavelmente consequências no serviço público – sobretudo no que deve ser a sua definição hoje em dia. A questão do acesso universal e gratuito por exemplo, já não é a pedra de toque da definição. Por outro lado, os canais generalistas e comerciais privados fornecem informação pelo menos tão pluralista como a da RTP, entretenimento e produção nacional em maior quantidade que a RTP, e qualquer pessoa – com cabo ou sem cabo - pode aceder a eles em qualquer ponto do território para ver futebol ou transmissões diretas de acontecimentos importantes – já que todos o fazem.


 


Fruto de um posicionamento concorrencial face aos privados, a RTP é ainda hoje uma entidade despesista, com uma estrutura sobredimensionada e custos desproporcionados. Num modelo ideal a RTP devia possuir apenas os meios necessários à informação e à emissão e tornar-se, usando a terminologia anglo-saxónica, num “broadcaster” e não numa empresa de produção, que é hoje em dia. Ou seja, toda a área de conteúdos não informativos devia ser descontinuada e o investimento em programas de documentário, ficção, infantis e entretenimento devia ser aplicado na produção externa e na aquisição de programas. Este canalizar para a aquisição de conteúdos de parte importante das verbas actualmente gastas em funcionamento permitiria dinamizar a produção independente, desenvolvendo e consolidando uma industria audiovisual, necessária à manutenção do português enquanto língua viva. Recordo que a RTP é a empresa que menos tempo de emissão consagra à produção nacional não informativa, nomeadamente na ficção. No meu entender existe um papel importante a desempenhar pelo serviço público e que tem a ver com uma carteira de encomendas continuada, junto à produção independente, nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.


De uma forma mais concreta, faria sentido que o serviço público de televisão investisse a maior fatia do seu orçamento de produção na encomenda e aquisição de programação de stock – aquela que se pode repetir ao longo do tempo e que não se esgota na primeira emissão, e a que se chama de fluxo. Para dar um exemplo uma série de ficção é stock e um concurso como o “Preço Certo” é fluxo. Faz mais sentido investir no que perdura do que naquilo que se evapora, certo? Já nem vou dizer que o aproveitamento da produção de stock nas emissões internacionais, em intercâmbios com outras televisões ou até na venda de direitos é uma realidade e que o fluxo é inaproveitável em tudo isto.


 


CRIATIVIDADE OU BOÇALIDADE?


 


Analisemos o tema de outra perspectiva, mesmo correndo o risco de alguma repetição: nos dias de hoje, num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Correndo mais uma vez o risco de me repetir, insisto em algumas perguntas: o serviço público deve fazer concorrência aos privados,  ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entretenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que já passam nos canais de cabo emitidos em Portugal?




Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas.


Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural na acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos.


 


OLHAR PARA O FUTURO E TOMAR DECISÕES


 


Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.


Para terminar e para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional, na minha opinião,  não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, modalidades de desporto incluídas – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem pelo mundo diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos. Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. A presença do operador de serviço público no cabo deve ser repensada à mesma luz da não concorrência aos privados e protegendo a necessidade de maior participação das diversas regiões do país, aproveitando os recursos técnicos existentes para a informação. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África – compreendendo aliás que nos países lusófonos já existem operadores locais de televisão com os quais interessa mais fazer cooperação do que concorrência -  e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam, ou não, útil e necessário. O resto é uma questão de distribuição e de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado, da forma mais concreta que fôr possível.




Manuel Falcão



julho 02, 2013

O PROBLEMA DO FISCO

A máquina fiscal portuguesa foi construída para cobrar o que é fácil, evitar quem se pode defender e programada para agir sem pensar. Acham que estou a exagerar? Basta ver o número de processos que prescreveram de grandes calotes, basta ver a forma como por exemplo no caso do Imposto Único de Circulação se enviam cobranças que entopem o sistema, não distinguindo quem já tem o veículo vendido, ou, pior ainda, roubado e desaparecido. O fisco é cego e surdo, mas é muito pouco mudo – embora faça apenas ouvir o seu vozeirão a quem não deve, a quem tem poucos recursos para lhe responder à letra.


 


Há dias tive conhecimento de um caso em que o fisco decidiu pedir, para investigação, os documentos comprovativos de despesas de saúde de uma senhora com 84 anos, que, por ver mal, foi operada às cataratas e que, por sofrer do coração, e de diabetes, já foi operada, tem um pacemaker e tem que fazer exames regulares e tomar mediação adequada. Esta forma de actuação do Fisco atira os incómodos da situação para o contribuinte, a viver de uma pensão. O Estado castiga quem lhe dá dinheiro para viver – os contribuintes, que masoquisticamente sustentam quem os persegue.




Quando tomo conhecimento de casos destes penso logo no desperdício de tempo e de recursos que o Fisco tem em situações assim.


O Fisco, quando investiga uma senhora de 84 anos, nestas condições, parece-me estar a desperdiçar recursos que deviam ser usados na verdadeira fuga aos impostos. Mas como essa é mais incómoda de investigar, e ainda por cima se arrisca a ser mais incómoda politicamente, a administração fiscal decide, como é hábito, ir pelo lado do mais fraco. Não há-de ser por acaso que as dívidas ao fisco prescritas em 2012 dispararam mais de 35% em relação ao ano anterior. Eu gostava, uma vez que fosse, de ver o fisco a investigar como deve ser casos de grandes fugas aos impostos. Sem automatismos nem facilitismos. Mas para isso era preciso pensar. É isso, é  pedir demais ao Estado e a quem nele manda.




(publicado no Diário metro de 2 de Julho)


 

junho 28, 2013

A SEMANA DA GREVE, MAS COM MUITO PARA VER

GREVE - À hora a que escrevo ainda não sei o que aconteceu de facto. Mas posso, sem grande risco, pensar que a greve de quinta-feira atingiu sobretudo serviços do Estado e empresas públicas. Dantes, as greves gerais não eram assim - paravam fábricas, paravam empresas privadas, paravam países. Agora conseguem parar os transportes e, por via disso, inviabilizam que algumas pessoas vão trabalhar, apesar de não quererem fazer greve. A verdade é que, historicamente, o desenvolvimento do transporte privado tramou os sindicatos e restringiu o universo grevista. Li esta semana que só 10% dos trabalhadores do sector privado são sindicalizados - e os sindicatos bem podem dizer que a culpa é das empresas que atemorizam oa assalariados, mas ninguém em seu perfeito juízo acredita nisso como regra geral. Mais provavelmente, muitos colaboradores de empresas privadas estão apostados em conseguir, nesta difícil conjuntura, que as empresas onde trabalham consigam produzir, vender, facturar e, consequentemente, pagar. Hoje ainda continua a haver quem queira apenas um emprego; mas há muita gente que prefere trabalhar, percebendo que só a sua produtividade ajuda a que a situação geral melhore. É triste que seja na administração pública, mais improdutiva que a actividade privada em termos objectivos, que a greve alcance indícies palpáveis. É o melhor sinal da urgente necessidade de uma reforma e redimensionamento do Estado, muito para além do que os partidos, tementes das suas clientelas eleitorais, estão dispostos a arriscar. Em Portugal continua a falar-se muito de direitos e pouco de responsabilidades. Ao ler declarações, destes dias, do líder da CGTP, Arménio Carlos, dei comigo a pensar que quando um dirigente sindical aparece a pedir eleições, não está a fazer reivindicações, está a fazer política, necessariamente partidária. É nestes dias que vale a pena recordar as palavras de Oscar Wilde, ao sublinhar que “dever é o que esperamos dos outros, não o que nós mesmos fazemos”. Para terminar a conversa: uma semana depois do aviso, continuo à espera de ver como vai ser a prometida comunicação diária do Governo nestes tempos agitados. Terá feito greve?


 


SEMANADA - O Benfica tem 104 jogadores a contrato, o FC Porto tem 69 e o Sporting tem 62 - 235 jogadores apenas nestes três clubes;  o número de milionários em Portugal, usando o critério de património financeiro superior a um milhão de dólares, cresceu 3,4% no ano passado e é agora de 10.750 pessoas; 45 % das casaas do Algarve são residências secundárias; segundo o Banco de Portugal as empresas privadas e as famílias estão a conseguir reduzir a dívida, mas o estado continua a aumentá-la; a dívida pública, que no final de 2013 devia ser de 123%, já atingiu os 127%; o Secretário de Estado da Economia, Franquelim Alves, considerou que a “descida do IRC é um sinal crítico para a política económica” na captação de investimento; o Ministro das Finanças Vitor Gaspar disse na Assembleia da República que ainda não vê margem para poder baixar impostos”; a Secretária de Estado do Tesouro disse no Parlamento que o cancelamento de 69 contratos swaps não custou dinheiro aos contribuintes, embora provocasse uma perca de mil milhoes de euros, suportada pelo Estado; o negócio da construção prevê uma quebra de 15% neste ano.


 


ARCO DA VELHA - A colecta do IRS aumentou 30,6%, a do IRC apenas 8,2% e a de todos os outros impostos caíu 92% - e mesmo assim Vitor Gaspar diz-se satisfeito com a execução orçamental, feita à custa da cobranças mais simples.

VER - Lisboa vive um momento alto em matéria de exposições de fotografia. No Museu da Electricidade inaugurou “Pátria Querida”,  uma boa amostra do trabalho do espanhol Alberto Garcia-Alix, que se celebrizou a mostrar a movida madrilena. Se o que faz a fotografia é o modo de ver, a maneira de transmitir o que se observa, aqui o objectivo está bem conseguido. Na Gulbenkian, inseridas na programação “Próximo Futuro”, estão duas exposições imperdíveis - uma mostra dos Encontros de Fotografia de Mamako, que traça um retrato da África pós colonial, e “Present Tense”, uma mostra comissariada por António Pinto Ribeiro (o amentor do ciclo “Próximo Futuro”) e que desbrava caminhos contemporâneos da observação do espaço e das pessoas no continente africano. Finalmente, em “A Pequena Galeria” (24 de Julho nº 4C) está “De Maputo”, que agrupa fotografias de José Cabral e Luis Basto, com breves mas importantes evocações de Rogério Pereira e Moira Forjaz.


 


OUVIR- Lembram-se de Lloyd Cole? Com os Commotions conquistou fama graças a belas canções, intimistas q.b. Numa carreira a solo incerta, manteve a descrição e o seu novo disco, ironicamente intitulado “Standards”, não é um repositório de versões de lugares comuns, mas sim a tentativa de deixar para a memória do seu público algumas canções. A viver nos Estados Unidos desde há anos, o disco é marcado pelos sons do pop e rock americanos, mais do que pelo suave pop britânico que deu fama a lloyd Cole. Nõo é certamente por acaso que a única versão de canção alheia nestes “Standards” é “”California Earthquake”, de Cass Elliott, dos The Mamas & The Papas, um velho tema de 1968. Dos temas novos, que mostram como aos 52 anos ainda se consegue comabter o destino, destaco “Blue Like Mars”, “Women’s Studies”, “Opposites Day” e “No Truck”. A vasta legião de fãs de Cole em Portugal não ficará desiludida com este disco.


 


FOLHEAR - Qualidade de Vida em 2013, onde se pode encontrar?


Pois é, Costa, em ano de eleições Lisboa saíu da lista das 25 melhores cidades para viver elaborada pela “Monocle”. Eu, lisboeta, tenho pena. Aguentámos lá uns anos, mas não sobrevivemos ao mandato do Costa e do Sá Fernandes. Tenho muitoa pena de ver a minha cidade transforamada num fim de semana em cartaz publicitário de um hipermercado, como vai acontecer este sábado. Estas coisas pagam-se. Para o Continente é barato, para Lisboa, é caríssimo. A “Monocle” sublinha que uma boa cidade deve viver sete dias por semana, sem interrupções, para os seus habitantes. O que se vai passar sábado na Avenida  é uma interrupção da cidade. Além de uma foleirice, é um abuso. Rewsta-nos a satisfação de o Deli Delux ser referida como a sexta melhor loja de comida e bebida no “The Monocle Food And Entertaining Guide 2013”, com destaques para o vinho deo Porto da Taylor’s e para as conservas da Tricana. O City Survey da edição dupla de Verão, agora distribuída, é sobre o Rio de Janeiro. E, claro que me dói um pouco ver Madrid citada várias vezes e Lisboa assim esquecida. olhem, agradeçam ao Costa.


 


PROVAR - Onde é que uma cerveja moçambicana e a vista do casario de Lisboa, com o Tejo por pano de fundo combinam? A resposta é num belo terraço, perto do Castelo, no alto do antigo mercado do Chão do Loureiro, hoje um parque de estacionamento bem útil para se poder ir à zona da Costa do Castelo? Ali pode beber uma “laurentina” bem fresquinha”, mas também uma “dois MM”. No restaurante, que dispõe da mesma vista, tem uma boa selecção de vinhos - mas aceite a sugestão dos vinhos Casa da Ínsua, do Dão, que têm uma excelente relação qualidade-preço. Provou-se a galinha em caril com amendoim, o chacuti de vaca e o camarão à Laurentina e tudo merece elogios. O serviço, como diz voz amiga, é acima de simpático. O Zambeze está aberto todo o dia, alternando entre café, esplanada e restaurante, fica ao alto da Calçada do Marquês de Tancos e tem o telefone 218 877 056.


 


DIXIT - Procuro político honesto para votar - Cartaz em manifestação no Brasil


 


GOSTO- Os Moonspell e seus convidados são os escolhidos para, amanhã, sábado, encerrarem as Festas de Lisboa junto à Torre de Belém.


 


NÃO GOSTO - Já repararam que Antonio Costa protege o piquenicão e as hortas postiças do Continente, ao mesmo tempo que a Câmara arrasar hortas comunitárias?


BACK TO BASICS - Por mais interessante que a estratégia pareça, devemos sempre olhar para os resultados que proporciona - Sir Winston Churchill



(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Junho)

TV: OS EIXOS DAS PROGRAMAÇÕ

Se olharmos para as audiências dos três canais comerciais constatamos que a TVI lidera graças ao Big Brother, que a SIC conquista público com as novelas e que o assunto da RTP é o futebol.


 


Programas destas tipologias estão no topo dos mais vistos da semana em cada um destes canais. Uma análise mais fina permite perceber que a RTP 1 e 2 obtêm os seus melhores resultados na zona Centro do país, que é também onde a diferença entre a TVI e a SIC é menor. Em contrapartida é na zona de Lisboa que essa diferença é maior e é também em Lisboa que a RTP2 obtém o pior resultado, ficando em sétimo lugar, atrás de canais de cabo como a Disney, o Hollywood e a SIC Notícias.


 


“Bem Vindo a Beirais”, único programa de ficção da RTP que aparece na lista dos mais vistos da estação, surge em 14º lugar, uma posição modesta, apesar da qualidade – e características populares – do programa – o que pode ter a ver com os hábitos criados nos públicos que seguem a RTP, um canal quase sem ficção.


 


(Publicado dia 28 na revista Correio da Manhã TV)


 

junho 25, 2013

OS SALTA POCINHAS

Este romance dos candidatos autárquicos salta-pocinhas, que se apresentam como autarcas profissionais e querem passar de uma Câmara para outra independentemente do número de mandatos que levam no cartório, é um dos mais tristes episódios do nosso sistema político.


Mas não é só a situação em si que é caricata – quando o problema começou a surgir, aqui há uns meses, a Assembleia da República tinha tido oportunidade e tempo de corrigir ou esclarecer aquilo que houvesse a fazer em matéria legislativa, o que teria evitado o lavar de roupa suja entre tribunais e candidatos a que temos assistido. Deve aliás sublinhar-se que as maiores culpas de não se ter esclarecido esta situação no local competente, que era o Parlamento, vieram do PSD e do PS, que na altura sacudiram a água do capote e não quiseram pronunciar-se. O PS, previdentemente,  tem evitado apresentar candidatos salta-pocinhas mas o PSD não resistiu e, portanto, está cheio de problemas ainda por cima nas duas Câmaras politicamente mais significativas – Lisboa e Porto.


 


Eu, por princípio, sou contra a perpetuação de responsáveis de cargos políticos nos mesmos cargos e por isso até achei razoável que houvesse um limite de três mandatos. Acho uma cobardia política que, na altura devida, os deputados tenham fugido a pôr esta situação em pratos limpos – tanto mais que deixaram campo aberto para o que agora está a acontecer: face à mesma situação, vários tribunais decidem de maneira diferente e, nuns casos autorizam a candidatura de quem já tem três mandatos, noutros, não. Tudo isto contribui para desacreditar a política e os políticos, para confundir os eleitores – com eleições já marcadas não se saberá, de certeza certa, quem serão os candidatos em várias autarquias. Um triste espectáculo.


 


(Publicado no diário Metro de 25 de Junho)

junho 21, 2013

Negociatas ou negócios? Costa nomeia provedor dos animais...

PORTUGAL - Duas décadas de desvario vão custar-nos outro tanto tempo para recuperarmos de tudo aquilo em que nos deixámos enredar - seja a Europa, seja a inconsciência local. As PPP’s, de que tanto se fala, são um bom exemplo de fazer vista com dinheiro alheio, de comprar jóias a crédito que irão ter pouco uso. Hoje, já percebemos que é assim: endividámo-nos por soberba. Deixámo-nos, todos, cair na tentação. As PPP’s são o melhor retrato de um país que, mais do que de negócios, gosta de negociatas. Se olharmos bem para a nossa História vemos muitos negociantes, comerciantes espertos, vendedores de especiarias,  de volfrâmio, ou do gás natural que o Ministro do Canadá diz que vai extrair no Algarve. No fundo andamos todos à espera que saia um euromilhões ao país. Poucos são os empresários portugueses que preferem criar, inovar, desenvolver e fabricar, a comprar e a vender. O comércio está-nos na alma e é isso que lá vamos fazendo. O pior é quando vendemos o país ao desbarato ou quando vendemos ilusões uns aos outros. É o que tem acontecido, com a benção de Bruxelas e as negociatas à sombra dos partidos instalados. No Correio da Manhã, Paulo Pinto de Mascarenhas escreveu que PPP’s quer dizer “Portugueses Pagam Políticos”. Tudo indica que tem razão.




SEMANADA - A derrapagem nas PPP do sector rodoviário pode chegar aos nove mil milhões de euros; o Estado já assumiu mil milhões de euros em perdas com “swaps”; há mais de 12 milhões de indivíduos, no mundo inteiro, com um património superior a um milhão de dolares; segundo a Caritas, o risco de pobreza afecta 23,5% da população portuguesa; Silva Peneda, Presidente do Conselho Económico e Social, considerou, numa comissão parlamentar, que o cenário macroeconómico do orçamento rectificativo, já aprovado, é irrealista e sublinhou que o programa de ajustamento tem corrido mal; em 2012 mais de 120.000 portugueses abandonaram o país em busca de trabalho na emigração, mais 20% que no ano anterior; o poder de compra dos portugueses está 25% abaixo da média europeia; a emissão de Bilhetes de Tesouro registada esta semana foi emitida com juros mais altos que em Maio do ano passado; em termos de receitas, a Liga portuguesa de futebol está ao nível da Liga da Ucrânia; António Costa vai deixar de ter Helena Roseta como vereadora e passou-a para a Assembleia Municipal de Lisboa; António Costa designou o deputado do PS Fernando Medina como seu sucessor na Câmara Municipal; António Costa nomeou Mega Ferreira para a direcção da Orquestra Metropolitana de Lisboa; António Costa criou um novo cargo, Provedora do animal, e atribuíu-o à ex-deputada do PS Marta Rebelo;  por este andar qualquer dia António Costa pode anunciar que há um provedor das bicicletas; Cavaco Silva decidiu não desistir do processo contra Miguel Sousa Tavares por causa das analogias entre o Presidente e uma actividade circense.




ARCO DA VELHA - Na mesma semana em que Paulo Portas apresentou a sua moção de estratégia ao Congresso do PP, na qual defende a baixa do IRS ainda na actual legislatura, e em que vários digirientes do PP confessaram “profunda incomodidade” com os resultados do Governo, o Ministro Poiares Maduro considerou que a coligação do Governo “é muito coesa” e Passos Coelho afirmou não ter um calendário para a descida do IRS.

VER - Estava cheio de curiosidade em ver a nova Photographer’s Gallery, em Londres, no Soho, perto de Oxford Circus, que abriu, renovada, este ano. Data originalmente do início dos anos 70 e é,  como se diria aqui, uma iniciativa da sociedade civil, aliás de uma pessoa, Sue Davies - com apoios de diversas entidades, umas públicas, outras, mais numerosas, privadas, desde empresas de consultoria a empresas industriais. É uma daquelas coisas que não existe, por enquanto, em Portugal. Há galerias e espaços disto e daquilo, de umas marcas e de outras, mas não há muitos espaços de iniciativa privada que consigam reunir apoios institucionais diversos - e do próprio público que contribui - para se desenvolverem. Gostei muito da nova galeria, do seu espaço, de iniciativas como a “What Do You See?”, onde se pede para cada visitante que queira expressar o que sentiu a olhar para a única fotografia que está exposta naquela sala. De todas as exposições, e eram várias, a que mais me intertessou foi a de Chris Killip - “What Happened - Great Britain 1970-1990”, em que o autor retrata como era a vida em comunidades que estavam a passar pela desintegração da velha sociedade industrial.  Mas, lá como aqui, a fotografia é território de polémica, entre os que olham para a realidade e os que preferem a fantasia ou a manipulação da técnica. De qualquer forma, a verdade é que os vários lados desta história estão nesta galeria. (Ramillies Street 16-18)




 


FOLHEAR - Em boa companhia, estive uma hora na fila, uma hora a fazer horas para entrar, e um bocadinho mais de duas horas a visitar a exposição. Não me arrependo de um único segundo gasto nesse dia. Já antes, para prevenir o excesso de peso na bagagem de regresso, tinha encomendado, e recebido, o catálogo da exposição. Estou a falar de “David Bowie Is Here”, que até Agosto está no Victoria & Albert, cada vez mais um dos museus incontornáveis do Reino Unido. De maneira que quando voei para Londres, com Bowie na mira, já o tinha bem folheado em casa, e levava na cabeça a frase na dupla página do começo: “I opened doors that would have blocked their way, I braved their cause to guide, for little pay”. O catálogo tem um nome diferente da exposição, um pequeno jogo de palavras: "David Bowie is Inside" - são cerca de 300 páginas, editadas pelos curadores da exposição, e que, tanto quanto possível num livro, fazem justiça à exuberância visual e tecnológica que nos permite percorrer a carreira de Bowie, as suas manias, as suas obsessões, as suas paixões. No fim, um quase concerto, em surround, um momento de transição, antes de voltar à rua. A tecnologia, nesta exposição, é admirável e permite uma experiência única. Mas este livro, que se pode encomendar pela Amazon por 24 libras, permite-nos ter uma ideia de tudo o que se mostra no Victoria & Albert. E a mim vai-me servir de memória de um dia de descoberta.




OUVIR- Na vida de qualquer grupo rock e pop decente o primeiro disco deve ser bom, o segundo um desafio e, o terceiro, a redenção. “Modern Vampires Of The City”, o novo e terceiro álbum dos Vampire Weekend, encaixa-se que nem uma luva nesta descrição. Aqui está uma bela colecção de temas, alguns com arranjos e vocalizações inesperadas, a romper com os discos anteriores. Há boas canções, uns toques de ironia nas letras, poderia quase falar em rebeldia, mas mais não digo - desde que sei que o ex-Ministro da Defesa e da propaganda socrática, Santos Silva, está a investigar, numa Universidade onde pontifica, o movimento punk em Portugal, o qual considera pouco proletário, ando a pensar em desistir de escrever sobre música. Já me chegam as PPP nas estradas, escuso de me aborrecer mais com assuntos destes. Não é? Mudando de conversa, e para não enjoar, não perdem nada em ouvir este disco. Tem mesmo cantigas atrevidas.




PROVAR - Aviso já que hoje falo para carnívoros - vegetarianos e fanáticos de aquários podem abster-se. O assunto aqui é carne, de várias origens e com vários corte e temperos. O Talho é uma aventura de Kiko Martins e, se de um lado serve carne crua para levar para casa e cozinhar, do outro é um agradável e bem decorado restaurante, com uma espaço confortável (uma acústica perfeita), e boas surpresas na confecção de vários géneros de carne. Há um menu de almoço mais económico, há sempre uma proposta de hamburguer do mês - por estes dias é o hamburguer manjerico, com manjericão e parmesão. Num belo jantar o rosbife asiático marcou pontos, assim como a vitela maronesa. E o serviço também merece destaque. (Rua Carlos Testa 18, frente ao El Corte Ingles, é a rua que sai do Largo de S. Sebastião da Pedreira). Telefone 213 154 105.




DIXIT - “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”, Bartoon, sobre a greve dos professores




GOSTO- Da inovação de uma rolha de cortiça de enroscar desenvolvida em Portugal pela Amorim.




NÃO GOSTO - Do surto de nomeações camarárias de António Costa.


BACK TO BASICS - Não sou obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos terá dado a razão e o intelecto se esqueceu de nos ensinar a utilizá-los - Galieleo Galilei

junho 18, 2013

BICICLETAS NOS PASSEIOS

Até há pouco tempo eu julgava que os passeios eram para peões e as faixas de rodagem para veículos. Lembro-me que, quando estudei o código da estrada, as bicicletas era consideradas veículos e não deviam andar em cima dos passeios. Pois constato que hoje isso é letra morta. Há poucos dias ía sendo atropelado por duas bicicletas que seguiam numa zona estreita de passeio, com andaimes, na Rua Castilho, ao fim da tarde. Não é a primeira vez que em passeios para peões, e fora das ciclovias, me cruzo com ciclistas que circulam com a convicção que os passeios são seus e que os peões se devem desviar.


 


Também não consigo compreender porque é que os ciclistas, em Lisboa, muitas vezes decidem não acatar a sinalização dos semáforos e passam os vermelhos, de preferência contornando-os pelas passadeiras para peões. Outra coisa que me faz espécie é que os ciclistas andem lado a lado na faixa de rodagem, condicionando todo o trânsito. Tudo isto são contravenções ao código da estrada – mas em nome do espírito politicamente correcto que se instalou para quem anda de bicicleta, o código da estrada pelos vistos deixou de ser aplicado. Esta é uma originalidade portuguesa. Lá fora não vejo isto – e vejo muito mais bicicletas a circular nas cidades do que aqui.


 


Os ciclistas andam nas faixas de rodagem ou nas suas zonas demarcadas, param nos sinais vermelhos e não andam por cima de passeios nem em passagens de peões. Não percebo porque é que em Portugal existe isto – e já imagino que os fanáticos das bicicletas se indisponham com o que aqui escrevi – mas na verdade não me agrada nada ir no passeio - e andar na rua a pé é uma coisa de que gosto - e ter que me desviar por causa de um ciclista.


 


O Dr. António Costa achará que isto é forma de tratar os peões lisboetas ou continua a fechar os olhos aos devotos do vereador Fernandes?


 


(publicado na edição do diário Metro de dia 18 de Junho)

junho 11, 2013

O DISCURSO DO PASSADO

Ouvi dizer que o Presidente da República está muito preocupado com o futuro e com o que o país deve fazer no pós-troika. Mas a verdade é que no seu discurso do 10 de Junho só o ouvi falar sobre o passado, como Portugal era maravilhoso e se transformou de forma tão inexcedível quando ele foi Primeiro-Ministro. Foi um discurso cínico, cruel. a justificar opções passadas que, em muito, nos conduziram onde estamos. Foi o elogio disfarçado e hipócrita de uma época em que Cavaco Silva optou pelo betão, pelo princípio do desvario nas obras públicas e se esqueceu de criar bases sustentadas de desenvolvimento. Cavaco, Primeiro-Ministro, entregou o país ao eixo franco-alemão que nos inundou de fundos para pagar o que nos roubava na agricultura e nas pescas. É de um cruel cinismo falar como ele falou. Se existiam dúvidas de que Portugal não merece ter um Presidente da República como ele, desvaneceram-se com o que Cavaco Silva disse neste 10 de Junho.


 


Quando daqui a uns anos se fizer a história verdadeira - não o embuste habilidoso dos discursos do 10 de Junho - ver-se-à quão nefastas foram as escolhas e opções estratégicas de Cavaco na governação e como foram perniciosas as suas opções no desencadear e evoluir dos momentos críticos da crise  - desde Sócrates até agora. Nessa altura poder-se-à perceber como os milhões que a Europa pagou a Portugal se destinaram apenas a iludir e distrair o pagode com estradas, enquanto uns quantos as construíam e outros íam fazendo negociatas à conta dos lugares que tinham ocupado na política. O maior legado de Cavaco, de que ele não fala, é o rol de casos pouco claros que envolvem gente da sua entourage e que continuam a ser o exemplo do pior que o regime tem para mostrar.




(Publicado no diário Metro de 11 de Junho)

junho 07, 2013

A COMPETITIVIDADE NAS MÃOS DO ESTADO

COMPETITIVIDADE - Para usar as palavras do engenheiro dos desenhos manhosos, o Governo está com uma narrativa complicada: o que prometeu não se concretiza, as previsões falham, as taxas de impostos aumentaram mas a cobrança é menor, e a dívida do país não pára de aumentar - até o PS já aparece a falar da eventualidade de um segundo resgate.  Pior que isso, no seio do Governo é cada vez mais evidente a clivagem - Gaspar continua a revelar a sua falta de bom senso em episódios como a nomeação da administração da CGD, há Ministros desaparecidos em combate e que não dão sinal de si e, de uma forma geral, os grandes dossiers prometidos para esta altura estão como este estranho Verão: incertos e frios. Mesmo as medidas anunciadas são tímidas e não atacam de frente as questões. O Governo olha para a crise e tenta pegas de cernelha mal sucedidas. O maior problema que se põe na captação do investimento não tem a ver com o Tribunal Constitucional e as suas decisões: tem a ver com as altas taxas de IRC comparadas com outros países europeus nossos concorrentes, com a instabilidade fiscal e os sucessivos agravamentos de toda a espécie de taxas e, finalmente, com uma justiça ineficiente e lentíssima que é um obstáculo à actividade das empresas e ao crescimento da economia. Estes três pontos - falta de competitividade no IRC, instabilidade fiscal e funcionamento da justiça - são todos da responsabilidade do Estado e constituem o maior e mais grave factor de perca de competitividade em Portugal. Mas nisto não vejo o Governo a tocar.




SEMANADA -  Gaspar falhou todos os timings de nomeação da nova administração da Caixa Geral de Depósitos; 23 mil empresas ficam indevidamente com o IRS retido aos seus funcionários; foram perdidos mais de cem mil empregos em três meses; em Abril, o número de casais em que ambos os cônjuges estão desempregados aumentou para 13.176, mais 67,3% do que em  2012; o PIB do primeiro trimestre caíu 4% em relação ao mesmo período do ano anterior e atingiu o valor mais baixo desde 2000; 51% dos valor corrigido no Orçamento Rectificativo deve-se ao agravamento da recessão e falha das previsões e não às decisões do Tribunal Constitucional; o orçamento rectificativo reviu em baixa todas as previsões de receita de imposto, com uma queda média de 4,5% face ao valor inicialmente previsto; o FMI admitiu “erros graves” nas suas decisões sobre a Grécia;  29 das 49 cadeias portuguesas estão sobrelotadas;  a Ordem dos Advogados decidiu não acatar uma decisão de um tribunal sobre os exames a estagiários; um barómetro de opinião divulgado esta semana mostra que os portugueses estão a perder confiança nas instituições governamentais, nos media e nas instituições não governamentais e apenas 36% dos inquiridos confia na Banca; os cinco maiores partidos portugueses têm menos de 300.000 militantes no seu conjunto, ou seja menos de 3% da população; os três maiores clubes de futebol portugueses têm, no seu conjunto, cerca de 380.000 sócios; Treinadores: no Porto foi-se embora o que venceu, no Benfica ficou o que perdeu.




ARCO DA VELHA - Dois policias que faziam uma prova para chefes, foram apanhados com cópias dos testes que iam fazer, mas foram perdoados e podem repetir a prova - os policias apanhados a cabular admitiram que tinham tido acesso prévio à prova e informaram que ela era do conhecimento de muitos dos candidatos, mas escusaram-se a revelar quem a facultou.




VER - Três recomendações bem diferentes: no Centro Cultural de Cascais, até 1 de Setembro, fotografias das grandes estrelas do cinema da época de ouro de Hollywood, que fazem parte da colecção de John Kobal. No Museu Berardo, no CCB, está até 27 de Outubro “O Consumo Feliz”, uma colecção de 350 imagens de cartazes publicitários  do acervo da agência  James Haworth & Company, uma das principais produtoras de publicidade do Reino Unido, com actividade iniciada por volta de 1900 e continuada até cerca de 1980. E finalmente, para uma coisa completamente diferente recomendo a exposição “Marco Aurélio And Friends - Sete Artistas Ulissiponenses”, em que destaco os trabalhos de Ana Fonseca, Conceição Abreu e Teresa Gonçalves Lobo. Tudo na Plataforma Revólver, Rua da Boavista 84, em Lisboa. No mesmo local, mas na VPF Cream Art, o destaque vai para o trabalho de Luis Alegre.




OUVIR- Aqui há uns anos existia uma designação, “bubble gum music”, para definir aqueles discos que se ouviam, eram muito doces de entrada, mas rapiudamente perdiam o sabor e o interesse e se deitavam fora a seguir. Pois bem, os discos dos The National são tudo menos isso. Ouvem-se com redobrado gosto vez após vez, em cada nova audição descobrem-se novas subtilezas nas letras, novos pormenores nas canções. “Trouble Will Find Me” é o título do sexto album


dos The National, e inclui a presença de convidados como Annie Clark of St. Vincent, Richard Reed Parry dos Arcade Fire ou Sufjan Stevens, e Sharon Van Ette. O primeiro single deste novo disco é “Demons”, exactamente uma dessas canções que cresce com o tempo - graças a uma percussão quase hipnótica, a um ritmo que nos agarra e a uma vocalização, de Matt Berninger, que só na aparência parece displicente e desinteressada, quando ele canta, como se estivesse apenasde passagem por ali palavras como estas:  “When I walk into a room I do not light it up.”  Não há muitas bandas hoje em dia que se possam gabar disto: de terem motivos de interesse nas letras, na música e nas vocalizações. Destaco ainda outros temas como a faixa de abertura  “I Should Live In Salt”, “Graceless”, “Slipped” ou ainda a canção que encerra o disco, “Hard To Find”, uma espécie de declaração de intenções em que Berninger promete não deixar de se questionar.  Uma das razões do sucesso dos The National tem a ver com a forma como as suas canções evocam histórias, casos, cenários ou pensamentos que acabam por ser comuns a toda uma geração e na qual muitos se revêem. Deixo-vos uma frase incontornável de “Slipped”, onde Matt Berninger escreveu e canta “I'm having trouble inside my skin, I'm trying to keep my skeleton in,”. Estas canções são sobre o poder dos sentimentos. E, por isso, deixam marca.




DESCOBRIR - Hoje proponho um magazine digital que tem por programa publicar uma boa história por dia. É isso mesmo que tem acontecido, desde há uma semana, em www.carrosselmag.com ou facebook.com/carrosselmagazine. No projecto está uma equipa pequena mas criativa que inclui os fundadores Joana Stichini Vilela, (a autora do livro “Lx60 – A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma”), e Bruno Faria Lopes. A bordo estão outros jornalistas da sua geração e com provas dadas, mas também uma agência de produção digital, a Gomo, e uma agência de comunicação, a iupi. O resultado tem sido bom de seguir todos os dias e tem revelado empresários criativos, tendências geracionais como voltar ao campo, reportagens de concertos, portfolios de fotografia, novas formas de agitação política em Barcelona e até a verdadeira história dos hamburgueres do Honorato ou a experiência de um “ghostwriter” a contar a história de outra pessoa. Ir ao Carrossel passou a fazer parte da minha lista diária de leituras.





PROVAR - O restaurante “Sabor & Arte” fica no Páteo Bagatela e neste tímido Verão proporciona uma boa esplanada, além de uma ampla sala interior. A ementa é baseada na cozinha portuguesa e ali se encontram honestos e frescos linguados dourados com arroz de tomate, ou um bife de boa qualidade - mas nesta altura do ano quem fôr pelas sardinhas não ficará desiludido e os filetes com salada podem ser também uma boa alternativa. Menos português mas igualmente interessante é o ossobuco à Romana. Os preços são razoáveis, o serviço é simpático, vê-se sempre alguém conhecido. A lista é variada, os vinhos têm boas propostas correntes e  a esplanada é mesmo muito agradável. Fica na Rua Arilharia 1 nº51 e o telefone é 213865390.




DIXIT - Vitor Gaspar foi útil para o Governo numa fase, mas agora é bastante inútil - Marcelo Rebelo de Sousa




GOSTO - Do prémio Leão de Ouro, na Bienal de Veneza, atribuído a Angola, para a melhor representação nacional, pelo trabalho do fotógrafo Edson Chagas.




NÃO GOSTO - Existem 24 mil idosos em Portugal a viver em lares clandestinos



BACK TO BASICS - A grande diferença entre uma democracia e uma ditadura é que, na democracia, primeiro votamos e depois obedecemos a ordens, enquanto que numa ditadura não se perde tempo a votar - Charles Bukowsky




(Publicado no Jornal de Negócios de 7 de Junho)

junho 04, 2013

O SEU A SEU DONO

Estamos, como país, a apertar o cinto de uma maneira terrível – melhor dizendo, os cidadãos apertam o cinto muito para além do que há dois ou três ano imaginaram que iria suceder; mas isto não impede que a dívida portuguesa continue a aumentar, que o Estado continue a gastar mais do que devia e que a nossa situação geral não esteja a melhorar – na realidade alguns indicadores mostram que está a piorar. As sucessivas previsões de receita fiscal revelam-se enormes falhanços, porque o consumo é cada vez menor, porque há menos empregados a contribuir, porque há mais empresas a falir. 


 


Ao mesmo tempo que a receita fiscal desce, os custos com o desemprego sobem – uma coisa é consequência da outra. A economia portuguesa, destruída de forma metódica – na pesca, na agricultura e na indústria -  graças a incentivos europeus ao longo dos últimos 25 anos,  continua a ser o sector mais subalternizado pela acção governativa. O nosso sistema fiscal é uma roleta russa – e os investidores que criam emprego e riqueza geralmente não são fãs de encostar uma pistola à cabeça. A nossa taxa de IRC é por si só um obstáculo à captação de investimento, por mais esforços de diplomacia económica que existam.


 


O Governo diz que quer captar investimento, mas as medidas que toma são marginais e não atacam o fundo do problema: um sistema fiscal com valores nada competitivos em termos europeus , um sistema fiscal que muda todos os seis meses e que não garante a estabilidade mínima que os investidores procuram, uma justiça lentíssima que é também um obstáculo à actividade das empresas – por si só estes três pontos constituem o maior e mais grave factor de perca de competitividade da economia portuguesa – e são todos da exclusiva responsabilidade do Estado.


 


(Publicado na edição de dia 4 de Junho do diário METRO)

maio 31, 2013

DESABAFOS, JAMIE CULLUM, UM CONTO, UMA REVISTA

DESABAFO - Não sei bem que vos diga. A OCDE olha para as previsões que a troika obrigou o Governo a assumir, comenta o assunto com desprezo e ouve-se um sibilino  “ni hablar”. Por todo o lado vejo anúncios de greves e constato que o novo lider da UGT se deixou cair na tentação de deixar de ter agenda e posição própria. Por estes dias decorre uma reunião de esquerdas cujo programa é evitar qualquer mudança - e dou comigo a concordar com um texto de Henrique Monteiro, no site do Expresso, onde ele elabora sobre o conservadorismo de uma esquerda que se preocupa mais com a própria defesa do que em olhar para os desprotegidos da sociedade. Um pouco à frente leio que os professores vão fazer greve no dia dos exames, e pergunto-me se não lhes ocorre que estão a desprezar os alunos. No Governo vou vendo que Passos Coelho vai metendo umas discretas farpas em Vitor Gaspar a propósito da CGD e do prazo de cumprimento da meta do défice, e sinto um ruidoso mar de silêncio da maioria do elenco do executivo, como se eles próprios tivessem já baixado os braços. Se olhar para a acção do Governo nestes meses vejo um rasto de destruição, mas muito poucos sinais de alguma coisa nova construída. Falo com pessoas de várias gerações que não encontram rumo, nem perspectiva, nem - e isto é o pior - vontade de ter confiança. Um amigo meu dizia-me há dias que a única luz ao fundo do túnel é a de uma locomotiva alemã que nos vai passar por cima. Começa a ser difícil não concordar com ele.




SEMANADA - No Porto e em Lisboa os respectivos Metros perdem dois milhões de passageiros por mês; em 2012 os transportes públicos perderam 45 milhões de passageiros; a polícia facturou este ano, até Maio, menos 1,3 milhões de euros em multas, comparado com o mesmo período do ano passado; em 2012 mais de metade dos contribuintes não pagaram IRS e apenas 26% das empresas pagaram IRC; um quinto dos contribuintes suporta mais de 70% das receitas do IRS; no presente ano lectivo 279 cursos superiores tiveram menos de 20 inscritos; o Museu do Brinquedo em Sintra, que conta com 60 mil peças, está em risco de fechar; a dívida pública portuguesa detida pelos bancos cresceu 250% entre 2009 e início de 2012; a TVI afirma ter perdido oito milhões de euros devido aos resultados, que contesta desde o início, do painel de audiências criado pela GFK em 2012; registos de compra de casa caíram 74% desde 2009 ; em Lisboa há 2000 pessoas que dormem na rua;  PS somou 20 mil novos militantes nos últimos dois anos; as instâncias europeias deram mais um ano a Portugal para atingir a meta do défice, mas deram mais dois anos à França, Espanha, Polónia e Eslovénia; François Hollande disse que não será a Comissão Europeia a ditar à França o que o país deve fazer; a OCDE considerou "improváveis" as metas orçamentais portuguesas para 2013 e 2014 acordadas com a troika.




ARCO DA VELHA - Em Vinhais uma professora foi acusada de morder um aluno de sete anos “para mostrar como dói”, depois de a criança ter mordido um colega.

VER - Na galeria João Esteves de Oliveira estão por estes dias dois autores, Jorge Nesbitt e Ângela Dias sob o título “Dois Em Um”. Nesbitt abandona aqui o rumo dos seus trabalhos anteriores e apresenta guaches, simples, a lembrar exercícios de formas e cores, com algo de oriental. Ângela Dias faz desenhos em que se desenrolam pequenas histórias e as obras que expõe são baseadas na combinação da escrita com a imagem, palavras desenhadas em torno de figuras, folhas que evocam páginas de cadernos ou de um diário, graficamente muito apuradas, envolventes e algo misteriosas - num contraste com desenhos de maiores dimensões que parecem anunciar personagens recorrentes das histórias desenhadas. Até 28 de Junho, de terça a sábado, na Rua Ivens 38.




OUVIR- Jamie Cullum deixou-se de citar os clássicos do jazz vocal e, ao sexto álbum, fez o seu disco mais atrevido - e interessante: “Momentum”. Ouso dizer que isto é um trabalho pop, como era o jazz que se dançava e enchia as noites de ritmo. Aqui estão truques dos melhores cancioneiros da música popular, com recurso às sonoridades dos velhos sintetizadores. Tudo isto é particularmente saliente na sua versão de um clássico de Cole Porter, “Love For Sale”, onde introduz  um espírito funk com toques de hip hop, que aliás aproveita bem um sample da voz de Roots Manuya, tudo pontuado pelo solo do próprio Collum num Fender Rhodes. Destaco ainda temas como o “The Same Things”, a faixa de abertura cheia de sonoridades de Nova Orleãs ou o intenso  e , digo eu, esmagador “Edge of Something” onde vale a pena ouvir com atenção os pormenores da percussão. “Anyway” e “Take Me Out (Of Myself) são mais dois temas pop perfeitos - já para não falar de uma balada arrasadora que dá pelo nome de “Save Your Soul”. CD Island/Universal.




FOLHEAR - A edição de Junho da “Vanity Fair” traz Bradd Pitt na capa, a propósito da aventura de 200 milhões de dolares que foi fazer o seu novo filme “World War Z”. que ele andou a preparar e a produzir desde 2006. Se contarmos com os custos de pós-produção e marketing o filme precisa de facturar 400 milhões de dolares no mundo inteiro para fazer break-even. Fazendo jus à fama de ter os melhores jornalistas de negócios a contarem histórias de dinheiro nas suas páginas, esta Vanity Fair conta a épica aventura da venda do Instagram ao Facebook, mas o prato forte é a história dos feitos de Steve Cohen, o fundador do hedge fund de 14 mil milhões de dolares SAC Capital e a forma como está a ser investigado pelo procurador Preet Bharara que se tem dedicado, com sucesso e várias detenções no activo, a casos de inside trading ao longo dos últimos sete anos. Um ponto de situação sobre a vida de Carla Bruni fora do Palácio do Eliseu e uma investigação sobre a noite em que Oscar Pistorius disparou sobre a sua namorada completam esta bela edição da “Vanity Fair”.




LER - Duas mulheres ao telefone, durante duas horas seguidas, falam de quê? A resposta está em “Quando A Chuva Parar”, de Joana Pereira da Silva, uma argumentista que se estreia neste formato de pequeno conto, numa nova colecção, com livros de menos de cem páginas, e que se destina a ser lida nas deslocações diárias. Se alguma vez sentiu desejo de ser mosca para ouvir uma conversa solta entre duas amigas, aqui está a forma de resolver essa vontadinha. Maria e Teresa desbobinam as suas memórias de juventude numa conversa que decorre enquanto Maria vem de carro, numa noite chuvosa, do Porto para Lisboa, depois de uma discussão com o marido. A escrita tem ritmo, imagina-se com facilidade duas actrizes a representar a situação. A ideia desta colecção é muito engraçada - livros que se lêem depressa, e a ideia deste livro em particular ainda é mais sedutora: espreitarmos uma conversa. A colecção chama-se “poucas palavras GRANDE FICÇÃO” e tem a chancela da Guerra e Paz.





PROVAR - Decididamente estou a fazer revisão da matéria dada - num regresso ao “Apuradinho”, em Campolide, tirei a barriga de misérias com um dos meus petiscos preferidos: pivetes. Para quem não sabe, pivetes são os bocados de rabo de boi, devidamente cozinhados, estufados. No “Apuradinho” pode pedi-los com osso ou desossados, só com a carne a navegar no molho, saborosíssimo. Para a mesa vem um tachinho com os pivetes , acompanhados por puré de batata caseiro. A combinação é fantástica e é um verdadeiro exemplo da arte culinária ribatejana - já que o petisco se fez gente por lá. O “Apuradinho” fica na Rua de Campolide 209 e tem o telefone 213 880 501. Na minha lista de preferências desta casa estão também as iscas e os pastéis de bacalhau - daqueles de chorar por mais, acabadinhos de fazer, acompanhados por arroz solto de tomate.



DIXIT - «Às vezes acordo e constato que vivo num país onde o primeiro-ministro é Passos Coelho, o candidato à sua substituição é António José Seguro e o Presidente da República é Cavaco Silva. Só pode ser um pesadelo” - Miguel Sousa Tavares, no “Expresso”.




GOSTO- Da actuação do Secretário de Estado do Turismo, a facilitar o acesso às actividades merítimo-portuárias para combater a sazonalidade da procura turística no litoral.




NÃO GOSTO - Da reacção da Presidência da República a uma entrevista de Miguel Sousa Tavares, indo fazer queixinhas à Procuradoria Geral da República.




BACK TO BASICS - Devemos perdoar sempre aos nossos inimigos, isso é o que mais os irrita - Oscar Wilde