TV - Quando daqui a uns tempos olharmos para trás e pesquisarmos o que, neste ano da graça de 2012 se passou na RTP, teremos alguma dificuldade em compreender como de forma tão rápida se destrói a reputação de uma estação, se afastam pessoas, e se desvaloriza uma empresa. Pondo de lado a questão do modelo de privatização, gostava apenas de recordar que a manutenção de um serviço público de rádio e televisão se mede não apenas por listagens de conteúdos, sempre polémicas, mas, sobretudo por um papel de catalisador da presença audiovisual da língua e da cultura portuguesas. No mundo digital em que vivemos já não faz sentido olharmos para as obrigações de um serviço público como há duas décadas ou mesmo há uma. Mas faz sentido termos em conta que o papel de um serviço público de rádio e de televisão é garantir diversidade e fomentar a produção nacional, não a produção interna, da casa, mas sim a produção externa, de produtores independentes, que dinamize a existência de um sector industrial dedicado ao audiovisual, única forma de nos mantermos linguisticamente vivos no mundo electronico do qual fazemos parte. Não sou dos que acredita que a solução da criatividade está no interior das estações, e muito menos na do serviço público, mas sim na boa gestão das encomendas e dos fornecedores, na combinação entre os conteúdos que se pretendem e as melhores pessoas e organizações para os fazer. No fundo, no desafio que é conseguir a combinação da criatividade com a capacidade de comunicar e de atrair públicos. Gostava que, seja qual fôr a solução encontrada, o serviço público de rádio e de televisão se vire para fora e não se deixe consumir em querelas internas. Vendo o que se passou nestas duas semanas, quanto mais cedo o Estado sair de cena, melhor. Perigoso é mesmo ficar ainda com 51% - vai sempre ter a tentação de mandar, instruir, condicionar - tudo aquilo que tem sido este longo rosário. Nesta matéria o actual Governo nem é inovador, limita-se a seguir os passos do anterior.
PARTIDOS - Estamos a chegar ao fim de um ciclo político. Os partidos, organizados neste regime há 38 anos, são um poço de contradições internas e externas. Vêm de um tempo em que o sistema de comunicação e de ligação das pessoas era completamente diverso e de um período em que as prioridades da sociedade eram outras - e alguns deles têm raízes ainda mais atrás. Com o passar dos anos cristalizaram, tornaram-se autistas, e especializaram-se em criar um eco-sistema onde só eles vivem, cada vez mais distantes dos eleitores, com cada vez menos gente a votar. O sistema privilegia a mentira nas campanhas eleitorais, não responsabiliza as políticas executadas, nem os desvios cometidos. Nos países da norte da Europa os partidos que hoje existem não têm nada a ver com os que existiam há 40 anos. Começa a ser boa altura para este assunto ser tema de debate. Não são só os políticos que não nos servem - eles são apenas frutos dos partidos onde nasceram e cresceram. Este eco-sistema político está poluído demais.
SEMANADA - O agravar de quadros de ansiedade entre idosos provoca aumento das idas às urgências de psiquiatria no Porto; Lisboa desceu três lugares no ranking da qualidade de vida em grandes cidades e está agora na 44ª posição; mercado cervejeiro deve cair 10% este ano em Portugal; Bancos têm de assumir perdas de 474 milhões de euros no imobiliário; dívidas incobráveis disparam para 488 milhões de euros; quase metade dos tribunais estão em estado de degradação; todos os dias 25 empresas pedem insolvência; vendas de automóveis caem 40% nos 11 primeiros meses do ano; tráfego na Via do Infante caíu 44,6% desde a introdução de portagens; tráfego nas auto estradas a nível nacional caíu 16%; 15 famílias por dia pedem ajuda à DECO para pagarem créditos; Portugal piorou na última década, em termos de percepção e combate à corrupção - caíu dez lugares em dez anos e, na Europa, atrás de nós, só Malta, Grécia e Itália.
PERGUNTINHA:
ARCO DA VELHA -
PROVAR - “A Tarte” nasceu há uns meses e tem feito sucesso. Com base numa receita tradicional algarvia, e tendo como matéria prima a amêndoa, “A Tarte” tornou-se rapidamente uma sobremesa incontornável. Está no Facebook e vende-se em vários locais. Quem a prova diz que é viciante. Pois por alturas deste Natal os criadores da Tarte decidiram fazer uma edição especial, limitada ao tempo da consoada. A novidade é que, em vez de amêndoa, leva pinhão, que é cada vez mais uma espécie de diamante dos frutos secos. O resultado é pinhão doce, com aquela massa dura para trincar. Nasceu mais um clássico. Se forem ao Facebook” e escreverem “A Tarte” poderão saber tudo sobre esta delícia.
OUVIR - “Iridescente” é o resultado, em disco, do desafio que a Fundação Gulbenkian lançou a Mário Laginha e Maria João para integrarem o projeto “Músicas do Mundo”. A cantora explica como nasceu este disco: «Surgiu-nos a ideia de compor originais e conjugar instrumentos que gostamos numa formação invulgar: voz, piano, acordeão, harpa e percussão». Desde 2008, do CD “Chocolate”, que Maria João e Mário Laginha não faziam um disco. O resultado, mantendo traços característicos da extensa obra gravada dos dois, tem arranjos invulgares, graças à inclusão de instrumentos como a harpa (Eduardo Raon) ou o acordeão (João Frade) e a uma percussão (Helge Norbakken) mais evidente que em discos anteriores.
FOLHEAR - A versão inglesa da revista “Wired” fez uma edição especial dedicada às principais tendências para 2013 em campos tão diversos como os media, política, tecnologia, ciência, negócios ou arquitetura. São 132 páginas bem recheadas de ideias e opiniões por algumas dezenas de personalidades, com revelações sobre novos aparelhos em fase de protótipos ou o rumo que algumas áreas de actividade estão a tomar, com base no reforço da actuação em rede. De Richard Branson a James Dyson, passando por Anne-Marie Slaughter, uma série de artigos de leitura indispensável para estes últimos dias do ano. David Baker, o editor deste número especial, sublinha que para além das áreas tecnológicas que a Wired costuma cobrir, quis com esta edição mostrar como existe, cada vez mais, fruto do funcionamento em rede, uma polinização cruzada de ideias em campos que vão das artes à política, passando pela bio-engenharia ou a política. “O mundo, diz ele, está demasiado interligado para que nos possamos dar ao luxo de ignorar o que se passa à nossa volta.”
VER - Rodrigo Amado tem uma vida dupla - de um lado o jazz (músico, sempre, por vezes também crítico, às vezes produtor e até editor) e, do outro lado, fotógrafo. É engraçado porque as duas atividades andam ligadas. Fotografa outros músicos, faz fotos para capas e cartazes da Clean Feed, a editora que ajudou a fundar, e vai documentando o que vê, em viagens. Para assinalar os 30 anos desta vida dupla fez por estes dias dois concertos e juntou imagens de cidades, como Moscovo, Varsóvia, Berlim e Copenhaga e juntou-as com o título “Un Certain Malaise”. As imagens deram uma exposição, que está na Fundação EDP (Central Tejo, sala Cinzeiro 8) até 10 de Fevereiro, e um livro no qual as fotografias coexistem com um texto de Gonçalo M. Tavares. Fico-me pela exposição, de que gostei muito: as paisagens urbanas que Rodrigo Amado fotografou são como que o palco daquilo que poderiam ser naturezas mortas contemporâneas. No seu olhar, aqui fixado nas fotografias, existem instantes decisivos, construídos a partir de pessoas que aparecem, mas mal se vêem.
GOSTO - Do spot “Aldeia Global”, versão deste Natal da Optimus - e de todos os outros pequenos filmes feitos a partir desse spot para o YouTube
NÃO GOSTO - Da forma como a greve dos estivadores está a decorrer e dos seus efeitos.
BACK TO BASICS- A pobreza é a origem do crime e das revoluções - Aristóteles
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
dezembro 07, 2012
TVs, POLÍTICAS, DESABAFOS & SUGESTÕES
dezembro 04, 2012
O LABIRINTO DA AVENIDA
Na semana passada acompanhei, numa volta por algumas zonas de Lisboa, um responsável estrangeiro de um grupo de grandes marcas de moda. É francês, vive entre Paris e Londres, e tinha interesse em ver como são as lojas no Chiado e na Avenida da Liberdade. Quando saímos do Chiado e descemos para a Avenida, ele não queria acreditar no cenário: o trânsito das laterais ao contrário da via principal, constantemente a fazer círculos, filas imensas, confusão de pára-arranca a meio da manhã, de um dia de semana, com trânsito moderado mas engarrafado. Escusado será dizer que o visitante não ficou bem impressionado.
Com tanto motor ao ralenti e tanto pára-arranca não acredito que haja descida significativa da poluição e não me admirava mesmo que, nalgumas zonas, tenha aumentado. A entrada das laterais nos cruzamentos e no troço central da avenida é um foco constante de filas - a situação do cruzamento da Barata Salgueiro é um bom exemplo do que não devia acontecer.
O autor deste esquema de circulação na Avenida da Liberdade, em que se têm de dar voltas sucessivas a quarteirões, em que não se consegue fazer percursos de modo linear, em que não há sinalização de semáforos no encontro das vias laterais com as perpendiculares, de certeza que não mediu bem as coisas, não teve capacidade de previsão. Fez um desenho muito bonito no papel, mas não contou com a realidade.
Se a Câmara de Lisboa não quer carros a circular tem bom remédio: proíba zonas inteiras, mas já agora deixe também de cobrar o respectivo imposto de circulação. O que existe é um labirinto maquiavélico capaz de dar cabo da paciência a um santo. Estamos todos perante um desvario que custou caríssimo e que prejudica a vida aos lisboetas. É para isto que serve um executivo municipal? É com esta obra que Costa se recandidata?
(Publicado no diário Metro de 4 de Dezembro)
novembro 30, 2012
As contradições da RTP, uma desilusão eleitoral, notas e sugestões avulsas
RTP - Não me apetecia voltar a este tema, mas tem de ser. Não sei se os leitores sabem mas o departamento jurídico da RTP tem um rol de falhanços em tribunal verdadeiramente assinalável. Os inquéritos internos que promove, e que são muitas vezes pretexto para processos disciplinares, são frequentes espelhos de encomendas, rumores, invejas e guerrilhas internas e, assim, falham na justiça. Talvez consciente disso mesmo o Presidente da RTP apressou-se a dizer que, embora o inquérito instaurado a Nuno Santos o desse como culpado exactamente daquilo que um comunicado inusitadamente violento do Conselho de Administração insinuara dias antes, não iria ser feito nenhum procedimento disciplinar. É a admissão, implícita, das precipitações verificadas neste caso. Desde o início a gestão da RTP ouviu, permitiu e construíu uma narrativa onde se apontavam culpados antes de julgamento. Em nenhum momento ouvi a administração da RTP criticar a PSP, por ter feito, na sua opinião, pedidos de legalidade duvidosa; em nenhum momento a ouvi queixar-se do sucedido ao Ministro da Administração Interna ou à sua tutela; em vez disso utilizou a sua energia e os seus recursos e hierarquias não na defesa da empresa face a abusos do exterior, mas numa ofensiva interna que deu um resultado que, coincidência das coincidências, produziu o conveniente resultado de substituir a Direcção de Informação. De repente percebi: quando se espreita a folha, deixa de se ver a árvore.
VOTO - Nas últimas eleições votei conscientemente no PP, para que fosse um elemento de diferença, para que tivesse mais peso político na coligação, para que se batesse pelos cidadãos, contra o peso do Estado e o assalto aos contribuintes, pela moderação da deriva neo-liberal e pela responsabilidade política. A entrevista do Primeiro Ministro e o Orçamento de Estado mostram que o PP é encarado como pouco mais que um ornamento parlamentar. Um dos problemas mais graves que temos no funcionamento do sistema político das nossas sociedades tem a ver com a deturpação da comunicação e relação entre eleitores e eleitos nos períodos entre actos eleitorais. A regra tem sido que, a partir do dia das eleições, começa um ciclo pouco virtuoso de alteração das promessas efectuadas e de construção de uma nova irrealidade, teoricamente legitimada pelo voto obtido com base nessas promessas. É isto que faz desacreditar na política.
SEMANADA - O esforço fiscal relativo dos portugueses situa-se, em 2012, em média, cerca de 15% acima da média europeia; o esforço fiscal relativo subirá para 20% acima da média europeia no próximo ano e será o quinto mais elevado de entre os 27 países da União Europeia; em Outubro havia 10495 casais em que ambos estavam desempregados, o dobro do registado em Outubro de 2011 e quase sete vezes mais do que em Outubro de 2010; apenas um quinto dos funcionários públicos fez greve no passado dia 14; a dívida pública está a subir 61 milhões de euros por dia ao longo deste ano; em Portugal as empresas demoram em média 275 horas para conseguir processar todos os impostos e a média europeia é de 184 horas; a crise atingiu a Coca Cola que teve uma quebra de vendas de 10% em Portugal; segundo o novo relatório trimestral da Anacom, 78,8 em cada 100 famílias utiliza os serviços de televisão por subscrição e mais de metade tem acesso a mais de 80 canais; Cavaco Silva, enquanto primeiro ministro, deixou cair a agricultura e a pesca e esta semana, como Presidente da República, defendeu que nos devemos virar para a terra e o mar.
ARCO DA VELHA - Empresas de transportes estão a ter um aumento significativo das receitas graças ao aluguer de autocarros para deslocação de manifestantes, por encomenda de sindicatos.
VER - A Arte Lisboa, que costumava decorrer na FIL por esta altura do ano, foi cancelada. Em vez disso a Associação de Galerias de Arte propõe as Noites de Arte Contemporânea - galerias abertas até às dez da noite hoje sexta e amanhã, sábado. Destaque para os desenhos de Souto Moura na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38), as fotografias de David Infante na Módulo (Calçada dos Mestres 34), José Luis Neto na Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Espantoso é que na conjuntura actual abra mais uma galeria, como aconteceu esta semana, com a Galeria Belo-Galsterer que inaugurou com exposições de Miguel Branco & Mel O'Callaghana (Rua Castilho 71).
FOLHEAR - Como é costume, a edição da “Monocle” que sai por esta altura refere-se aos meses de Dezembro e Janeiro. O tema central da edição de 270 páginas é o levantamento de novos talentos em várias áreas de actividade, desde designers a politicos, passando por especialistas em urbanismo, agricultura, transportes - são 20 pessoas que podem fazer a diferença. O mote é fornecer ideias frescas para aplicar ao longo de 2013 - nomeadamente reforçar a colaboração entre talentos, esquecer o passado, sair de casa e descobrir coisas novas, manter o raciocínio simples. Esta edição inclui uma lista de países que influenciam os outros, com o Reino Unido à cabeça, seguido dos Estados Unidos, Alemanha, França, Suécia, Japão, Dinamarca, Suiça, Austrália e Canadá, para só citar os dez primeiros. Espanha está na 16ª posição e o Brasil na 17ª, enquanto Portugal aparece na 23ª, logo atrás da China e antes da Irlanda. Há um artigo muito interessante sobre o renascimento de Madrid, a partir das iniciativas de jovens empreendedores que retomam tradições e profissões antigas, várias mesas redondas ( relações internacionais, o futuro da imprensa, design, tendências da culinária...), um roteiro do turismo australiano e um Guia de viagem da Turquia, a par com sugestões de Helsínquia e de Viena, completam a edição. Já agora - para as peças de colecção da Monocle entrou um pequeno móvel de madeira, arquivador de revistas, fabricado em Portugal e desenhado por Hugo Passos.
OUVIR - Para assinalar os 50 anos de existência, os Rolling Stones patrocinaram a edição de uma colectânea, de três discos, simbolicamente com 50 faixas, e que agrupa a maioria das grandes canções do grupo, incluindo raridades relativas como o primeiro single, “Come On”. Os dois primeiros discos mostram o trabalho dos 16 primeiros anos dos Rolling Stones e as 17 faixas do terceiro são o que existe dos restantes 34 anos de vida - incluindo os dois últimos temas, feitos expressamente para este disco, “Doom And Gloom” e “One More Shot”. De um modo geral podemos dizer que o primeiro disco cobre a primeira fase de êxitos da banda, com temas que vão de “Satisfaction” a “Ruby Tuesday” ou “Let’s Spend The Night Together”. No segundo disco está a fase que eu considero mais criativa da banda, do final dos anos 60 até ao início dos anos 70, a fase em que arrisco dizer que se tornaram no melhor grupo rock do mundo, senhores de pérolas como “Street Fighting Man”, “She’s A Rainbow”, “Sympathy For The Devil” ou “Wild Horses”. O terceiro disco mostra a época de “Beast Of Burden”, “Undercover Of The Night”, “Harlem Shuffle” ou “Anybody Seen My Baby”.É fastidioso elencar todos os temas, e alguns acharão que existem omissões - mas na realidade esta é uma colectânea que retrata bem a evolução musical dos Rolling Stones através da sua carreira, incluindo praticamente todos os seus pontos altos. E é uma bela demonstração das melhores razões que os fazem ficar na História. (triplo CD Universal).
PROVAR - O restaurante Salsa & Coentros é uma escolha regular destas notas, já desde 2005, quando abriu portas. Esta semana volta à ribalta graças à sua recente empada de cozido - que consegue reproduzir os aromas e paladares do cozido à portuguesa dentro de uma empada de tamanho comedido, leve e muito saborosa. Fiquei freguês. É servida sozinha e na realidade não precisa de acompanhamento, o seu recheio tem todos os principais ingredientes do cozido, cortados aos pedaços. Não está sempre na lista, tive a sorte de a apanhar a uma sexta-feira. Foi uma bela surpresa, a rivalizar com outras especialidades da casa como o arroz de lebre, a perdiz de escabeche ou o arroz de míscaros. A casa continua a ter uma excelente relação de preço/qualidade e um serviço exemplar sob o comando atento de José Duarte. Fica em Alvalade, na Rua Coronel Marques Leitão 12, telefone
218 410 990.
GOSTO - A Fundação EDP ofereceu duas obras de Pedro Cabrita Reis à Tate Modern, de Londres, com o objectivo de apoiar a internacionalização de artistas portugueses.
NÃO GOSTO - Lisboa quer gastar 250 mil euros em iluminações de Natal, mais 100 mil que no ano passado.
BACK TO BASICS - Cada vez que estou muito alinhado com a maioria das pessoas sinto que é tempo para parar e refletir - Mark Twain.
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de Outubro)
novembro 27, 2012
RTP: TEORIA DO DANO COLATERAL
Na passada semana o Ministro Miguel Relvas, no que foi entendido como uma reprimenda publica ao Conselho de Administração, avisou preferir que a RTP fizesse notícias em vez de ser, ela própria, notícia. Pois passadas 48 horas eis que a RTP se tornou notícia devido à forma como Nuno Santos foi levado a apresentar o seu pedido de demissão de Diretor de Informação, tendo por pano de fundo um comunicado da Administração no mínimo inusitado. Para quem está de fora, a aparência é que na televisão pública se passou mais um golpe palaciano, uma sucessão de conspirações e jogos de corredor que evidenciaram a tentação do abismo em que tantas vezes a RTP se deixa cair.
Para quem tem falta de memória aqui deixo a indicação de que Nuno Santos esteve na fundação de estações de rádio, na fundação da SIC Notícias, e que tem obtido bons resultados nos projetos em que se tem envolvido. Quando há cerca de dois anos foi convidado a dirigir a informação da RTP, substituindo José Alberto Carvalho que tinha ido para a TVI, a ideia foi mal acolhida na RTP por Luis Marinho, um ex-Director de Informação da estação que foi o único elemento da administração da RTP que se pronunciou contra esse convite. Na sequência da sua posição acabou por sair do Conselho de Administração e foi para Diretor Geral, um cargo que não estava previsto na estrutura da estação de serviço público. Os relatos surgidos mostram que Luis Marinho foi uma peça chave no processo que agora levou ao afastamento de Nuno Santos.
Gostava de perceber a razão de fundo que levou a que Nuno Santos fosse levado a demitir-se. Um mau trabalho na informação não foi. Mas havia quem, no Governo, se queixasse de falta de protagonismo nos telejornais. Chama-se, ao sucedido, efeito colateral de uma reprimenda. Ou, como tapar o sol com uma peneira.
(Publicado no diário Metro de hoje)
novembro 23, 2012
A política, a fantasia, a semana e sugestões avulsas
POLÍTICA - Um artigo recente da revista norte-americana “The Atlantic”, escrito por Barry Schwartz, defende que, como uma grande parte da acção governativa envolve prever qual será o comportamento das pessoas face a determinadas medidas, ou como levar as pessoas a alterar os seus comportamentos, os advogados e economistas que geralmente são maioritários nos elencos governativos teriam um bom contributo se ao seu lado se sentassem psicólogos. Ele defende que, tal como existem conselheiros económicos do governo, também deviam existir conselheiros psicológicos, que ajudassem a formular políticas de saúde, de educação e até económicas, tudo com o objectivo de colocar no centro das decisões especialistas em comportamento humano. Schwartz afirma que o bem estar e a realização pessoal são mais importantes para o desenvolvimento de um país que a evolução do PIB e propõe que a acção política se centre nesses aspetos. Aqui está matéria que dá que pensar - se o nosso governo ouvisse alguns conselheiros como Schartz teria feito tudo como até aqui?
FANTASIA - Os incidentes ocorridos na zona de S. Bento, no dia da greve dos serviços públicos, desencadearam uma onda de informações contraditórias a propósito da intervenção da polícia e do comportamento de alguns manifestantes. O ponto sobre o qual acho importante reflectir tem a ver com a forma como actualmente se passa opinião por informação e, sobretudo, pela forma como se fornecem dados e relatam situações cuja veracidade não é avaliada nem questionada. Quase nada do que li nas redes sociais passaria no velho crivo de verificar os factos. O que se passou, nos actos e relatos, não foi um incentivo a quem quer intervir na acção política. O que se passou cria apenas uma fantasia.
SEMANADA – Alberto da Ponte, presidente da RTP, manifestou a convicção de que a estação pública manterá os dois canais generalistas de TV e os três de rádio; Miguel Relvas garantiu que o Governo ainda não tomou uma decisão sobre a RTP e preconizou que a empresa devia fazer notícias em vez de ser notícia; Nuno Santos demitiu-se do cargo de Director de Informação da RTP; a crise do Euro já contagiou de alguma forma sete dos 17 países da zona euro; a retoma em 2014 será três vezes inferior à previsão inicial da troika; a quebra de encomendas vai fechar a Auto-Europa um mês; Portugal está entre os dez países da União Europeia em que mais pessoas trabalham para além dos 65 anos; salários em atraso mais que duplicaram até Setembro; a taxa de desemprego juvenil em Portugal chegou aos 39%; os desempregados de longa duração já atingem 56% do total; o desemprego atinge 1.120 milhões de pessoas; a população desempregada aumentou nos últimos 12 meses a uma média diária de 540 pessoas; quase metade das urgências podiam ser transferidas para centros de saúde; perto de 20.000 viaturas circulam sem seguro, mais 4,3% que no ano passado; Lisboa e Castelo Branco são as capitais de distrito com maior percentagem de idosos, 24%; no novo censo, a idade média dos portugueses subiu 3 anos, para 41,8 anos, em relação ao censo anterior; 19% dos portugueses têm mais de 65 anos.
ARCO DA VELHA – O aeroporto de Beja, que Sócrates mandou construir e custou 35 milhões de euros, pode vir a ser utilizado como central de sucata aeronáutica, uma base para desmantelar e reciclar aviões em fim de vida .
OUVIR- Nos dias que correm não é muito confortável a rótulo de promessa do fado. E, no entanto, é esse rótulo que persegue Ana Moura desde o início da sua carreira. Para contrariar mais uma vez as coisas ela chamou um produtor norte-americano, Larry Klein, que gravou com Joni Mitchell, Herbie Hancock, Madeleine Peyroux ou Luciana Souza, e que conseguiu perceber que, além de fadista, Ana Moura é uma grande cantora e uma grande intérprete. Como os artistas que não vivem de rótulos, ela gosta de arriscar. Felizmente, como os melhores antes dela, não vê o fado como uma coisa imóvel, sempre com os mesmos arranjos. Experimenta outros instrumentos, ensaia outros ritmos. O resultado, em “Desfados”, o seu novo disco, é arrebatador. Grandes canções, grandes fados inesperados, grandes surpresas como o arranjo de “A Case Of You”, de Joni Mitchell ou a heresia das palavras e do tempo rápido do tema título, “Desfado”. E o “Havemos de Acordar” de Pedro Silva Martins, e o “Fado Alado” de Pedro Abrunhosa, e a musicalidade de “Como Nunca Mais” de Tó Zé Brito, ou a força de “Dream Of Fire” da própria Ana Moura. Há quem não goste deste disco e lhe chame nomes. Eu, por mim, limito-me a ouvir. Com o prazer e a alegria da descoberta que se tem quando se ouve música assim.
VER – Esta semana a Galeria Baginski assinalou o seu 10º aniversário - desde que começou perto da faculdade de Ciências, num rés de chão de um prédio antigo da Rua da Imprensa Nacional, com enfoque na fotografia e no desenho. As atuais instalações, num armazem bem recuperado no Beato, têm proporcionado um série de exposições de referência, algumas arriscadas. Ao mesmo tempo Andrea Baginski, que dirige a galeria, tem apostado na divulgação internacional dos artistas portugueses que representa e tem trazido a Lisboa a obra de alguns nomes estrangeiros, sobretudo da América Latina, e em especial do Brasil, que é o seu país de origem. Para assinalar estes dez anos apresenta uma exposição de Lúcia Prancha e Sara Nunes Fernandes, com Sérgio Carronha, três artistas portugueses que vivem em S:paulo, Londres e Lisboa, contemporâneos no estudo em Belas Artes, uma instalação de sensibilidades e formas diferentes. Na outra sala está uma intrigante e atraente exposição do peruano Jose Carlos Martinat, uma experiência sobre materiais e superfícies que dá que pensar. E ao fundo, na sala do acervo, como uma pequena oferta especial, extra-exposição, está um conjunto de obras - tentadoras - com a marca do humor cáustico e observador de Ana Vidigal. Rua Capitão Leitão 51 a 53 (www.baginski.pt)
FOLHEAR – Desde 2011 a Fundação Francisco Manuel Dos Santos edita todos os anos a revista “XXI Ter Opinião”. É um espaço editorial único, onde se confrontam ideias, se publicam opiniões mas também pequenos ensaios e investigações. O editor é António Barreto e o director é José Manuel Fernandes. Nesta nova edição, agora em distribuição (livrarias e bons quiosques de jornais, 6,5 €), destaco os artigos “Como Recuperar A Liberdade Perdida” de José Manuel Félix Ribeiro e “O Custo de Uma Utopia” de João Ferreira do Amaral. Há mais bons motivos, claro, como um apanhado do censo de 2011, um portfolio de fotografas de Praga em 1967, de Gerard Castello Lopes, apresentado por José Calado, ou ainda uma reflexão sobre a nova emigração e a Alemanha contemporânea. Num país onde hoje em dia se publica pouco debate de ideias e onde em geral se procura o consenso e os panos quentes em vez de uma discussão franca e de umas pedradas no charco, esta revista sabe bem. Noto com agrado que o tamanho da edição deste ano está mais cómodo para o leitor, mas lamento que nalguns aspectos gráficos (a começar pela capa) e temáticos a revista seja tão século XX - uma contradição com o seu próprio título.
PROVAR – Um cozido à portuguesa quer-se rico de legumes e de carnes. Quer-se caldoso, no ponto sem ser espapaçado, saboroso e diversificado. A qualidade dos enchidos é decisiva para a coisa correr bem, mas admito que para mim as couves são também um bom argumento. Por estes dias tenho visitado a Cozinha Real, que fica no Hotel Real Parque. É um espaço remodelado há poucos anos (o hotel data de 1994), e embora fique numa cave, é bem iluminado, é amplo, confortável, com alguns recantos tranquilos. A cozinha é de inspiração tradicional portuguesa e hoje em dia é um dos bons sítios para almoçar nas avenidas novas. Às terças-feiras aparece o tal cozido - bons enchidos, boas carnes, abundante, saboroso. Devo dizer que o cozido da Cozinha Real é dos melhores que tenho provado nos últimos tempos. De tal maneira que sempre que posso lá vou à terça. E já percebi que nesse dia vou vendo que há mais gente a ficar fã. Avenida Luis Bivar 67, telefone 213 199 000.
GOSTO – Do exemplo dos mil voluntários que se organizaram em Silves, após o tornado, para em apenas um dia conseguirem limpar a sua terra dos destroços.
NÃO GOSTO – Os gastos com material militar em Portugal estão acima da média europeia.
BACK TO BASICS – "O castigo por não participares na politica é acabares a ser governado por quem te é
inferior." Platão
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 23 de Novembro)
novembro 20, 2012
35 MILHÕES PARA A SUCATA
Nunca hei-de perceber bem a história do aeroporto de Beja – inaugurado há cerca de um ano e meio, e que basicamente tem estado vazio – cerca de centena e meia de voos registados nesse tempo e cerca de 2000 passageiros no total. O aeroporto custou mais de 35 milhões de euros, dispõe de todas as infra-estruturas necessárias, acontece é que não tem procura. Entre Julho a Setembro deste ano nem um só passageiro lá desembarcou.
É para mim um mistério porque é que alguém se lembrou de construir tal coisa no meio de Beja, zona que, para além de ter certamente muitos encantos, não é propriamente um destino turístico procurados por palettes ou resmas de estrangeiros, de qualquer nacionalidade. As estimativas que basearam a decisão da construção apontavam para um milhão de passageiros nos primeiros 4 anos de funcionamento.Quer-me parecer que alguém se enganou de forma muito grosseira para legitimar a decisão da construção, tomada no primeiro governo de Sócrates.
Claro que nestas coisas alguém ganha – quem fez o estudo ganhou alguma coisa, os construtores deverão também ter ganho alguma coisa, quem vendeu equipamentos também terá tido o seu lucro (e nem quero pensar que quem tomou a decisão possa ter tido também uns incentivos…) – mas na realidade todos nós contribuintes só temos prejuízo a registar.
Para todos os efeitos Beja é um aeroporto com muito poucos aviões – ou pelo menos tem sido. Digo isto porque um dos planos para rentabilizar o aeroporto passa por o transformar numa estrutura destinada a desmantelamento e reciclagem de aeronaves em fim de vida. Dito por outras palavras, um aeroporto moderno, construído e equipado para receber turistas, vai ser utilizado como central de sucata – sucata sofisticada, mas sucata à mesma. Não me parece nada normal.
(Publicado no Metro de 20 de Novembro)
novembro 16, 2012
AS DUAS LINHAS DO GOVERNO, CURIOSIDADES E OBSERVAÇÕES
CURIOSIDADE I – É muito interessante seguir o pingue-pongue entre Santos Pereira e Vítor Gaspar. Quando Santos Pereira defende uma fiscalidade mais competitiva que possa atrair investimento para a economia, Vítor Gaspar aplica uma fiscalidade mais apertada. É rara a semana em que não se sentem divergências públicas entre a Economia e as Finanças e a imagem que fica é a de um duelo em que Santos Pereira quer sobretudo preparar o futuro e Vítor Gaspar quer só resolver o passado. Mas é também curioso observar como, além de Santos Pereira, ministros como Nuno Crato e Paulo Macedo actuam a pensar no que está para a frente e fazem efectivas reformas. Começa a ser evidente que no Governo existem duas linhas, que seguem rumos diferentes. Uma história a seguir.
CURIOSIDADE II – Esta semana António Costa deu o tiro de partida para o seu reposicionamento: ao propor uma redução de 2% no IRS dos contribuintes residentes em Lisboa mostra uma iniciativa e uma capacidade politicas que o colocam a milhas de António José Seguro. Com este sinal iniciou a campanha para a sua recandidatura em Lisboa, que já se percebeu irá ser baseada em causas sociais, usando o poder de que dispõe; e ao mesmo tempo torna-se num pólo de atracção dos socialistas e surge como uma alternativa clara se o seu partido quiser mudar de rumo. Foi um autêntico xeque mate duplo: à oposição em Lisboa (que continua sem candidato visível) e aos seus opositores no PS.
CURIOSIDADE III - Alberto da Ponte, que antes de ser Presidente da RTP foi durante anos um dos mais importantes anunciantes, bem informado sobre o sector, e com uma enorme experiência no marketing, solicitou a intervenção da ERC no processo de audimetria, considerando que “o mercado das audiências não está a funcionar”.
SEMANADA – A igreja congelou o preço das missas, casamentos e baptizados até final de 2013; pneumonia mata 16 portugueses por dia; portos de Lisboa e Setúbal perdem 38% das cargas com a greve de estivadores; há 79 queixas diárias por violência doméstica; 33 mil empresas foram notificadas para pagar a TSU dos recibos verdes; em 2010 apenas 17% das empresas com menos de 10 trabalhadores tinham uma página na internet; O Ministério das Finanças diz que a recessão em 2013 vai ser inferior a 1% e o Banco de Portugal prevê que atinja 1,6%; a arrecadação da receita fiscal em 2013 caíu 4,9% até Setembro deste ano, em comparação com o período homólogo do ano passado, e isto apesar do aumento dos impostos; o Banco de Portugal prevê que para o ano desaparecerão mais 82 mil postos de trabalho; entre julho e setembro, o INE contabilizou 870,9 mil desempregados, o que representa um acréscimo trimestral de 5,3%; taxa de natalidade deve cair 20% este ano; poder de compra cairá em 2013 para nível mais baixo desde 1999; No terceiro trimestre o PIB voltou a cair, e aprofunda uma recessão que já dura há sete trimestres consecutivos.
ARCO DA VELHA – O investimento líquido da Alemanha em Portugal recuou 112% este ano e a presença alemã na economia portuguesa atingiu o mínimo de duas décadas.
OUVIR- Uma coisa engraçada que está a acontecer com os músicos rock é que a sua criatividade e energia prolongam-se no tempo muito além daquilo que se esperaria no final dos anos 60 do século passado. O primeiro disco de Neil Young, na altura com os Buffalo Springfield, data de 1966, tinha ele 21 anos. Quem diria que agora, aos 67 anos de idade, ele editaria num só ano dois discos – um que revisita clássicos da música popular dos Estados Unidos (“Americana”) e outro, só com temas inéditos , “Psychedelic Pill”, surpreendente, enérgico, arrebatador, contemporâneo . Em ambos Neil Young está com os Crazy Horse, músicos que muito contribuem para a riqueza dos dois registos. Mas como se isto não chegasse, no início de Outubro foi publicada a sua autobiografia, “Waging Heavy Peace: A Hippy Dream”. Mas regressemos ao novo disco. A faixa de abertura, “Drifting Back”, tem 27 minutos, e é marcada por solos de guitarra como há muito não ouvia e por uma letra que revisita de forma dura a música que hoje se faz e o estilo que ela inspira. É um contraste bem marcado com “Twisted Road”, onde Neil Young evoca a primeira vez que ouviu “Like A Rolling Stone” de Bob Dylan e a forma como o som dos Grateful Dead o marcou. Mas há outros temas a reter, como “Ramada Inn”, “She’s Alaways Dancing” ou o impressionante “Walk Like A Giant”.Eu confesso que há muito tempo não ouvia um disco que me marcasse e impressionasse tanto como este. E não deixa de ser curioso que alguns dos discos mais notáveis deste ano são de nomes como Bob Dylan, Rolling Stones, Leonard Cohen, Beach Boys e este Neil Young. É como se estivéssemos perante um acesso de criatividade incontinente dos mais velhos, dos pioneiros, em resposta a alguma monotonia e conformismo de alguns dos mais novos. Duplo CD adquirido no iTunes.
VER – Em vez de uma exposição, sugiro que vejam a edição “Commemorative US Election Special” da revista “Time” que tem a data de 19 de Novembro na capa. Custa 4,50 euros e é um exemplo de uma grande edição – desde o trabalho de selecção das fotografias, maravilhosas imagens da campanha a preto e branco, a brilhante ideia dos 100 objectos que marcaram todas as candidaturas, as imagens do momento da vitória e do momento da derrota, as infografias exemplares, as boas e más ideias dos dois candidatos, um repositório de gaffes politicas e sobretudo a investigação “How He Did It”, que retrata a forma como Obama conseguiu ganhar, com destaque para uma visita aos bastidores da zona nevrálgica da campanha: os centros de dados dos democratas que permitiram estudar, segmentar, focar e finalmente conseguir os votos decisivos para a vitória, num exercício de marketing politico absolutamente extraordinário. E, claro, um balanço do grande protagonista desta campanha – a televisão, cuja morte anunciada foi mais uma vez negada pelas evidências e que, na cobertura em directo, nos debates e como veículo publicitário se revelou um meio absolutamente incontornável na estratégia dos dois candidatos.
FOLHEAR – Os livros/álbuns costumam ser grandes, pesados, previsíveis, graficamente monótonos e destinados apenas a servirem de tabuleiro para chávenas de café. Por alguma razão se chamam álbuns de mesa. “LX 60 – A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma” não é nada disso: tem um formato mais pequeno, pode ler-se na cama sem se ter a sensação de que se está a fazer halteres. E, sobretudo, está muito bem feito. Joana Stichini Vilela investigou, ouviu dezenas de pessoas, fez reviver a memória do que era a vida em Lisboa na década de 60, nos bairros, nos cafés, mas também nos teatros, na política, na geração de criadores que nascia no cinema, na música, na literatura, em todo o lado. Cita números, mostra dados, exemplifica situações. E tudo é ricamente ilustrado com imagens de época num trabalho gráfico invulgar de Nick Mrozowski, o norte-americano que veio fazer o grafismo do diário “i” e que se apaixonou por Lisboa. É um livro especial, este agora editado pela D. Quixote, mas também um trabalho meticuloso e raro. Exemplar.
PROVAR – Esta semana fui finalmente ao remoçado Belcanto, e a experiência correu muito bem. O chef José Avillez está agora a comandar as operações, mantendo um sábio equilíbrio entre as receitas tradicionais da casa e a forma contemporânea que gosta de imprimir à sua cozinha. O interior do restaurante foi modernizado, mas sem estragar o ar intemporal das salas do Belcanto – à entrada não fumadores, ao fundo, fumadores – pelo meio uma cozinha aberta para o corredor onde a azáfama é bem visível. Começo por destacar, no couvert, uma delícia absolutamente viciante que é um pão com azeitonas, mesmo sendo salgado mais perto dos caracóis de pastelaria que da focaccia tradicional.; a broa de milho também é respeitável. A entrada foi uma cavala marinada que esteve acima das expectativas e o prato foi um bacalhau à Braz levíssimo e irrepreensível. A acompanhar esteve um vinho do chef, bem servido a copo. O final foi também inesperado – um sorvete de tangerina, aromático, a revelar todo o sabor da fruta e com uma consistência e temperatura perfeitas. Largo de S. Carlos 10, tel. 213 420 607
GOSTO – Do Codebits, uma iniciativa do Sapo e da PT destinada a fomentar a criatividade dos programadores portugueses, sobretudo dos mais jovens, e que este fim de semana acontece mais uma vez – onde vai estar exposta uma impressora 3D e com um belíssimo painel de convidados para as conferências.
NÃO GOSTO – Dos erros que Vítor Gaspar continua a fazer nas previsões.
BACK TO BASICS – Um escândalo nada mais é que é intriga tornada fastidiosa pela moralidade – Óscar Wilde
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 16 de Novembro)
novembro 13, 2012
O TRABALHO EXEMPLAR DO BANCO ALIMENTAR
A melhor forma de resumir o caso criado em torno das declarações de Isabel Jonet numa estação de televisão foi feita por Pedro Rolo Duarte, no seu blogue. Com a devida vénia aqui vai uma citação: “Aqueles minutos de televisão são gotas de água no oceano de solidariedade que o Banco Alimentar Contra a Fome tem constituído. E também são gotas de água nos anos de entrega e empenho que Isabel Jonet tem dedicado a quem efectivamente precisa de apoio e ajuda. Destruir o nome da pessoa, e da instituição, por causa de um momento infeliz de televisão, é admitir que o circo mediático tem mais poder do que a causa, o trabalho, e o valor, que os anos foram demonstrando, provando, e mais do que isso: fazendo. Fazer ainda vale mais do que só falar, digo eu. Deixemos o Banco Alimentar fazer, com a Isabel Jonet, e admitamos que errar quando se fala é bem menos grave do que errar porque nada se faz.”.
No essencial Isabel Jonet disse que o país tem vivido acima das suas possibilidades. Isto não é uma novidade – o endividamento particular e do Estado mostra isto mesmo: gastámos mais do que podíamos e devíamos durante tempo demais. Dizê-lo, agora, é ajudar a perceber aquilo que nos está a acontecer mas, sobretudo, é procurar evitar que no futuro se repita. Pode custar ouvir que não soubemos fazer contas, mas é a mais pura das verdades.
O Banco Alimentar é das poucas expressões da sociedade civil em Portugal. É um exemplo de rigor e de organização e mobiliza gente de todas as opiniões e de todas as idades. Dentro de dias vai haver nova recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar e essa é uma boa ocasião para todos mostrarmos como somos capazes de nos ajudarmos uns aos outros e como sabemos distinguir o fundamental do acessório.
(Publicado no Metro de dia 13 de Novembro)
novembro 09, 2012
o silêncio na política, a campanha americana e semanada variada
SILÊNCIO – Uma das coisas mais fascinantes na nossa atividade politica tem a ver com a gestão do silêncio de algumas figuras do Estado que têm por função mediar conflitos, encontrar pontos comuns, descobrir soluções, aconselhar uns e dar uma palavra de estímulo a quase todos nestes difíceis momentos. Estou a falar do Presidente da República – e deste singular fenómeno que é o facto de vários órgãos de comunicação, quando de repente ele fala, optarem por dizer “Cavaco rompeu o silêncio”, antes de explicarem o que ele disse. É a prova de que este Presidente da República criou uma nova forma de posicionamento - que é o seu silêncio – que se torna a notícia principal quando é rompido. É a subversão da ordem lógica das coisas mas é , também, o sinal mais preocupante, do declínio de um regime construído de tabus e conspirações. Quando um dia se fizer a crónica destes dias muito haverá para contar sobre a utilização dos silêncios como arma politica.
CAMPANHA – Na noite das eleições presidenciais norte-americanas o site do New York Times afirmava que estava para começar o mais fantástico programa de televisão dos últimos anos. Acertou – e o que aconteceu foi o culminar de uma campanha que se caracterizou por ser a mais cara de sempre. O Center For Responsive Politics calcula que cerca de seis mil milhões de dólares tenham sido gastos em publicidade, nos vários media, nesta campanha presidencial em 2012. É certo que este valor é manos do que a industria automóvel norte-americana gasta em publicidade de televisão num único ano. Mas mesmo assim foi um valor enorme. Os canais de Cabo da Time Warner tiveram que deixar de fazer auto-promoções dos seus programas alguns dias antes das eleições para poderem acomodar no seu espaço de emissão os spots publicitários que as campanhas políticas queriam colocar no ar – houve nalguns casos mais procura que oferta. Mas voltando às televisões, a NBC foi a primeira a prever – e anunciar – a vitória de Obama. A Fox seguiu-se-lhe, criando alguma tensão interna entre os convidados republicanos que estavam no estúdio da estação. A CNN foi a mais cautelosa, mas a que criou a imagem mais fantástica – uma iluminação especial no Empire State Building, que reflectia o avanço dos resultados eleitorais através de colunas de luz azul (democratas) e vermelha (republicanos). Mas a estrela da noite não estava nas televisões, e sim no New York Times, escrevendo o seu blog “Five Thirty Eight”. Nate Silver, um economista que desenvolveu um algoritmo que lhe permitiu fazer previsões certeiras desde os primeiros momentos do dia da eleição, chegou ao fim da maratona eleitoral com mais de 360.000 seguidores no seu twitter e tornou-se no oráculo da politica norte-americana.
SEMANADA – Tribunais têm 1,7 milhões de processos parados; comércio, construção e imobiliário lideram os sectores empresariais nos pedidos de insolvência; este ano 5322 empresas já foram declaradas insolventes, mais 45,33% que em 2011; o número de desempregados que anulou a inscrição nos centros de emprego para emigrar entre Janeiro e Setembro disparou 45,4% face a igual período do ano passado; dívida publica cresceu 20 vezes desde1974 e assim cada português deve em média 20 mil euros; o Plano de Emergência Alimentar já está a fornecer 34 mil refeições por dia; a lista negra de devedores envolve mais de 31 mil pessoas e empresas e os valores em dívida ao Estado atingem 434 milhões; as vendas de automóveis caíram 41% até outubro; o dinheiro gasto na campanha presidencial norte americana resolvia o deficit português; já foram feitas apreensões de cocaína este ano no valor de 95 milhões de euros.
ARCO DA VELHA –Os cemitérios também pagam taxa audiovisual na fatura de eletricidade, assim como os semáforos e os postes de iluminação pública.
OUVIR- Kurt Elling é considerado um dos melhores vocalistas de jazz contemporâneos e sábado dia 10 actuará no Grande Auditório do CCB. Natural de Chicago, o seu primeiro disco data de 1995. Na sua carreira já ganhou um Grammy e os leitores e cíticos da revista norte-americana Down Beat consideraram-no como o melhor vocalista de jazz de 2012. No CCB irá basear a sua actuação no seu novo álbum, “1619 Broadway – The Brill Building Project”. O disco é uma homenagem àquele que é considerado como o berço de muitas das melhores canções. O Brill Building é um edifício de escritórios onde estão empresas ligadas à actividade musical e alguns estúdios de som e de ensaio. Em tempos foi descrito como “o mais importante gerador de canções populares no mundo ocidental” e fica exactamente no número 1619 da Broadway. Neste disco estão grandes clássicos como “On Broadway”, “Come Fly With Me”, “I’m Satisfied” , “American Tune” ou “So Far Away”, e outras de nomes que vão de Paul Simon a Carole King, passando por Sam Cooke ou Burt Bacharach. Em comum todas têm alguma ligação ao Brill Building e Elling interpreta-as com a sua forma muito própria, brincando com o ritmo e o fraseado das canções. Se não for ao CCB, compre o disco e não se irá arrepender.
VER – O panóptico do Hospital Miguel Bombarda é uma construção arquitectónica invulgar que tinha por finalidade providenciar a detenção para doentes mentais considerados perigosos. Não é um sítio agradável e imagina-se o que seria viver dentro das suas pequenas celas, dispostas de forma circular, sobre um amplo relvado central. As celas, hoje vazias, são a memória que resta da construção criada pelo arquitecto José Maria Nepomuceno e que se manteve em funcionamento até 2000. Em 2001 foi classificado como imóvel de interesse público e transformado em museu hospitalar. Luís Campos, um médico que tem desenvolvido assinalável trabalho na fotografia, teve a ideia de convidar uma série de outros fotógrafos para uma exposição integrada nas actividades do 4º Congresso Internacional dos Hospitais. Dos 24 convidados destaco os trabalhos de Augusto Brázio, Valter Vinagre, Inês d’Orey, Catarina Botelho, Augusto Alves da Silva, João Paulo Serafim, Luís Ferreira, Pedro Letria, José Maçãs de Carvalho e do próprio Luís Campos. É um local que vale a pena descobrir e uma exposição que vale a pena conhecer. Pode ser visitada de terça a Sábado, das 12 às 18, até final de Janeiro.
FOLHEAR – José Manuel Fernandes, jornalista, ex-director do “Público”, meteu ombros a uma tarefa não muito popular, mas corajosa, que é reflectir sobre a sua actividade politica na juventude, entre os 15 e os 23 anos, que coincidiu com os anos antes e imediatamente seguintes ao 25 de Abril de 1974. Com o sugestivo título “Era Uma Vez... A Revolução”, José Manuel Fernandes conta episódios que viveu de perto, relata sem floreados os primeiros tempos da UDP e como se formou como jornalista na “Voz do Povo”, onde aliás nos conhecemos e trabalhámos juntos, onde vivemos ilusões e onde descobrimos desilusões. E é sobre a forma como, dentro de uma organização radical, se vai ganhando consciência do que não está bem e daquilo que surge em contradição com os idealismos, que o livro se desenvolve – e é esta viagem à percepção da “fatal ilusão”, como o autor lhe chama, referindo-se à “ ratoeira ideológica do merxismo e dessa sua declinação extrema, o maoísmo”, que torna o livro simultaneamente incómodo para alguns e exemplar para outros. Escrito como um relato de memórias, “Era Uma Vez... A Revolução”, nunca é acrítico nem distanciado, é muitas vezes empolgante e é certamente muito pouco saudosista. O que é aliás a sua principal qualidade.
PROVAR – Nesta época do ano há uma fruta que me tira do sério – os dióspiros. O nome tem origem grega e quer dizer a fruta dos deuses. É um nome bem posto. Confesso que foi para mim uma descoberta tardia, mas hoje em dia suspiro que chegue o Outono e que, com ele, venham os dióspiros, bem maduros. Abro-os com uma colher, a polpa quase líquida, que gosto de polvilhar com canela, com umas nozes ao lado. Se puder acompanhar com um moscatel roxo da casa agrícola Horácio Simões, da Quinta do Anjo, Palmela, ainda melhor. É uma combinação perfeita, uma sobremesa absolutamente excepcional.
GOSTO – 60% dos portugueses já acede à internet e um em cada cinco utilizadores acede a partir do telemóvel
NÃO GOSTO – O sporting tem as piores classificações, pontuação e quantidade de golos marcados de sempre depois de oito jogos na Liga.
BACK TO BASICS – Não é de admirar que entre os cidadãos cresça uma descrença na política, quando em todas as eleições ouvem os políticos fazer promessas que não cumprem nem nunca tencionaram cumprir. Fantasias de campanha eleitoral servem para ganhar eleições mas não melhoram a vida de ninguém – Bill Clinton
(Publicado dia 9 de Novembro no Jornal de Negócios)
novembro 06, 2012
BOM SENSO E AUSÊNCIAS
O país anda suspenso da palavra “refundação”. Há políticos que discutem o seu significado, há líderes da oposição que se opõem à palavra – mas até hoje ninguém explicou o que ela quer dizer de facto - como muito bem notou o Professor Adriano Moreira, que sugeriu que fosse Passos Coelho a dizer o que entende ser a tal “refundação”. De uma forma simples, Adriano Moreira veio chamar atenção para o ridículo da situação – um Primeiro Ministro que proclama um objetivo que não detalha e uma classe política que não faz o óbvio, que é perguntar-lhe o que quer dizer. O episódio da refundação teve dois efeitos colaterais: acentuou o silêncio de Cavaco Silva e mostrou que o líder da oposição é do contra por princípio, mesmo sem saber, como nesta caso, aquilo que está a contrariar. Temos portanto o caldo entornado porque a refundação evidenciou que o PS deixou de querer fazer parte da solução e colocou-se do lado do problema, que aliás ajudou substancialmente a criar.
No meio disto, há uma pergunta que se repete com persistência: onde anda Cavaco? No Facebook, um dos seus locais de eleição, anda desaparecido desde o dia 13 do mês passado, o dia em que invocou o estudo do FMI sobre os efeitos das medidas de austeridade. No resto, não se sente nem se ouve, num momento em que o PS diz que se vai embora do sistema, em que o estado de paz podre da coligação faz aumentar os sinais de crise política, em que o orçamento é o que se sabe, e, finalmente, num tempo em que as eleições autárquicas e o romance dos candidatos que transitam de círculo eleitoral são matéria que promete. Entre um governo que criou a imagem de ser uma correia de transmissão da senhora Merkel e uma oposição suicida seria desejável existir um árbitro, alguém com bom senso. O bom senso que Adriano Moreira tem e que falta tanto noutras paragens.
(Publicado no Diário Metro de 6 de Novembro)
novembro 02, 2012
MANUAL DE REFUNDAÇÃO DO PALAVREADO E SUGESTÕES AVULSAS
PALAVRAS – Em política as palavras são como símbolos. Utilizam-se sem ninguém se preocupar com o seu verdadeiro conteúdo, mas apenas porque podem ser úteis para gerar movimentos e provocar reações. Há poucos dias o léxico político indígena ganhou uma nova palavra – “refundação”. Ninguém sabe verdadeiramente o que isto quer dizer: se é uma mudança, será em que sentido? se é uma reforma, será em que áreas? se é uma redefinição, parte de onde? Em tudo isto não existe um ponto de partida claro mas, pior ainda, não existe um objetivo evidente enunciado, não se sabe onde se quer chegar. No estado em que as coisas estão a refundação é uma tática que não serve nenhuma estratégia, a não ser manter a ilusão de que é o Governo, e não a troika, quem governa. A tal “refundação” é a maior declaração de incapacidade política de que tenho memória. É uma espécie de bandeira branca que se levanta a meio da batalha, pedindo tréguas e cessar-fogo. O Governo tem agido à vista – num enredo de enganos de previsões, de medidas que se anunciam e se anulam, sem rumo nem destino. Ao fim de um ano e meio chegou-se aqui sem que de facto tenha sido feita uma reforma que se veja, apesar de o PSD ter sido eleito por dizer que iria fazer reformas. Não existem nem se vislumbram onde eram necessárias, como na justiça ou no peso do Estado. Mas existem onde é mais fácil – nos aumentos de taxas e impostos. Assim sendo a palavra “reforma” esgotou o seu sentido e houve que ir buscar outra – apareceu a “refundação”. Para se refundar alguma coisa era preciso que, antes, se tivesse fundado algo. Do rol de atividades deste Governo não consta que tal tenha sucedido. É pena – porque as promessas eleitorais eram outras e mais uma vez quem votou foi enganado. O persistente uso do bibe na idade adulta e o à vontade no manejar da folha de excel não são os principais atributos desejáveis num político. O que precisamos é de pessoas sensatas que sejam capazes de argumentar e negociar com a rapaziada que por essa Europa fora vive fechada no universo das folhas de cálculo. Vivemos na época digital mas temos instituições, partidos e políticos analógicos. O resultado está à vista.
SEMANADA – Desemprego subiu 40% na construção e já atinge cerca de 100 mil pessoas; quase 60% das grandes empresas foram alvo de ações judiciais nos últimos 12 meses; Portugal gasta mais em defesa e educação que a média dos países da zona euro e, também em média, gasta menos em saúde e prestações sociais que os outros países; a administração fiscal penhora mais de 2800 contribuintes por dia; num inquérito da Associação de Comércio de Lisboa os responsáveis de 3000 empresas queixam-se mais da Justiça do que da falta de crédito; o indicador de confiança dos consumidores atingiu, em Outubro, um novo mínimo histórico desde o início da série do INE em 1997 e as perspetivas das famílias sobre a economia e a sua própria situação financeira são as piores de sempre; Passos Coelho admitiu no Parlamento que em 2013 pode haver quebra da receita fiscal apesar do aumento de impostos – e que o orçamento pode não ser cumprido; o orçamento comunitário para o período de 2014 a 2020 vai reduzir em cerca de 10% e para Portugal a quebra será de pelo menos 2500 milhões de euros.
ARCO DA VELHA – O Autódromo do Algarve pediu o perdão de 40 milhões de euros de dívidas e o Estado vai demorar mais de dez anos a receber mais de 600 mil euros que a empresa lhe deve. O Autódromo foi inaugurado há quatro anos pelo então ministro Manuel Pinho que, na cerimónia, afirmou: "Todos os equipamentos que aqui vão crescer são uma mais-valia para evitar que o autódromo se transforme num elefante branco".
VER – Várias sugestões de fotografia. Começo por Coimbra, duas exposições, ambas promovidas pelo Centro de Artes Visuais. A primeira é de Daniel Malhão e mostra um conjunto de obras selecionadas do autor; a segunda é intitulada “O Amor de Alcibíades”, de Eduardo Guerra. Ambas estão nas instalações do CAV, no Pátio da Inquisição.
A segunda sugestão, bem diferente: até 9 de Novembro podem ser vistas as 20 melhores fotografias do II Prémio de Arte Grünenthal, subordinado ao tema “Que a Dor não seja mais do que uma recordação”. Estão na sede do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Avenida da Liberdade, 270. O prémio foi ganho pelo espanhol Miguel Ángel Tornero com o trabalho “Pain Killers”.
A terceira sugestão: Neil Lochery, que escreveu um belo livro sobre Lisboa no tempo da guerra, procurou imagens dessa época, mostrando a cidade entre 1939 e 1945, em diversos arquivos internacionais e nacionais. Muitas destas imagens eram inéditas até agora. Até dia 9 de Novembro nos Paços do Concelho.
OUVIR E VER – Nada como recordar os sons que uma cidade como New York evoca através da gravação de um concerto de Paul Simon no Webster Hall, em 6 de Junho de 2011. Paul Simon é acompanhado por oito músicos de exceção e percorre diversas fases da sua carreira, desde “The Sounds Of Silence” até “Diamonds On The Soles Of Her Shoes”, passando por “50 Ways To Leave Your Lover ou “Still Crazy After All These Years”. Ao todo são 20 temas, num belo DVD realizado por Martyn Atkins. Algumas destas canções há muito não eram tocadas ao vivo por Paul Simon, que agora vai nos seus 70 anos – como “Mother And Chilkd Reunion” ou “Kodachrome”, mas elas estão talvez entre os melhores momentos do registo.O que gostei mais neste DVD foi o ar de concerto intimista, de uma atuação para amigos. Por vezes, quando o DVD está a tocar, até se tem a sensação que ele está ali, a tocar só para nós.
FOLHEAR – A edição de Novembro da Monocle vem tocar um tema que está na ordem do dia em todo o mundo e que é a qualidade da assistência de saúde que cada país pode proporcionar aos seus cidadãos. O trabalho tem a diversidade e o inesperado que são a imagem de marca da Monocle – e pelo meio surgem muitas informações curiosas. As reportagens incluem uma viagem ao serviço Royal Flying Doctor da Austrália, uma espécie de 112 aéreo, um balanço da atividade das principais editoras de publicações médicas ou arquitectura de instalações hospitalares. Neste tempo de eleições há um belo artigo sobre os negócios à volta das presidenciais norte-americanas, desde pesquisas de opinião até eventos de angariação de fundos - boas ideias para os nossos assessores políticos. Nas viagens fiquei com vontade de conhecer Lucca, na Toscânia e umas comidas peruanas, em Lima. Enfim, nestes dias de crise a Monocle é cada vez mais preciosa – dá-nos a ilusão de conhecer o mundo sem sair de casa. E então se ouvirmos a sua webradio Monocle24 isso é ainda mais acentuado. Eu, estou fã das web rádios e desta da Monocle em particular.
PROVAR –Se gostam de comida japonesa podem ter um contacto próximo com os seus ingredientes e com alguns produtos preparados nas lojas Goyo-Ya. Existe uma em Cascais (no Centro Comercial Orion, Rua D. Francisco Avilez) e outra em Lisboa, às Picoas (na Rua Filipe Folque nº30). Para além de utensílios culinários poderá lá encontrar produtos naturais, diversos ingredientes, molhos mas também congelados, como umas maravilhosas gyosas de camarão e outras de vegetais. Na loja são todos muito prestáveis e dispostos a esclarecer as dúvidas dos ocidentais.
GOSTO – Que “Desfado”, o novo CD de Ana Moura, tenho sido o primeiro disco português a ter uma masterização de som própria para o iTunes.
NÃO GOSTO – Que o Sporting esteja há seis jogos seguidos sem ganhar e que vá já no oitavo treinador em três anos.
BACK TO BASICS – Quando me fazem uma pergunta, a minha resposta não tem por objectivo agradar a quem a fez – William Shakespeare
(Publicado no Jornal de Negócios de 2 de Novembro)
outubro 30, 2012
UM EPISÓDIO DE ABUSO
Aqui há umas semanas recebi uma notificação, oriunda de um departamento do DIAP, para ser testemunha num processo, que é identificado apenas por uma referência numérica e não tem nenhuma indicação nem sobre os envolvidos nem sobre o assunto em causa. Enviei, no próprio dia que recebi a carta, por email, para o endereço eletrónico apontado na notificação, um pedido de informação que permitisse esclarecer minimamente ao que ía. Passadas duas semanas recebi, paradoxalmente por correio tradicional e não por email, uma nova carta, com uma fotocópia anexada, que reproduzia um despacho, de assinatura ilegível e sem referência à qualidade de quem proferia o dito despacho, que dizia isto: “Informo que o requerente assume a qualidade de testemunha e no momento da inquirição será informado dos factos em investigação”.
Parece uma anedota, parece um absurdo, mas na realidade é um exemplo do triste estado do funcionamento da nossa justiça e do total desprezo pelos cidadãos. Eu tenho o direito de ser informado ao que vou sem ser por um despacho absurdo como este. E o pior é que nem sei quem foi o responsável por isto – porque se esconde atrás de uma fotocópia sem assinatura ou cargo legível.
Isto é o abuso do Estado e o absurdo da Justiça, tudo em simultâneo. Indicam-me uma hora e um dia em que tenho de me deslocar, sob ameaça de multa e outras punições, e não me explicam minimamente o que pretendem de mim. Quem emite a notificação julga-se dono de um poder absoluto, isento de dar explicações e senhor do destino dos outros. Tem funcionários ao seu serviço que fazem fotocópias e enviam cartas por correio, em vez de ser o próprio a responder a um mail. É neste momento que temos a certeza de que falta fazer muito em matéria de reforma do Estado – e, já agora, de reforma da Justiça.
(Publicado na edição do Metro de dia 30 de Outubro)
outubro 26, 2012
Sobre o carácter de Gaspar e outros temas candentes
PROVOCAÇÕES - Vítor Gaspar notoriamente é um homem informado, atento e estudioso; e é igualmente teimoso, insistente e orgulhoso. Todos sabemos como se tem enganado nas previsões (até as agências de rating o fizeram notar), como insiste em receitas rígidas e como nunca vê nem ouve o que não lhe interessa. A teimosia em demasia é muitas vezes confundida com estupidez; no caso de Vitor Gaspar, a teimosia parece ser também uma forma de provocação. Escolhe as palavras que ficam na memória, como o célebre “enorme aumento”. Conhece o peso político das palavras e frases que utiliza em momentos mediatizados. É o maior especialista em sound-bytes deste Governo. Nas últimas semanas fez, com uma regularidade espantosa, sucessivas provocações, sempre com o ar mais tranquilo do mundo – ao parceiro da coligação, ao Parlamento, a colegas seus Ministros. Até a declaração sobre a nota de Cavaco Silva no Facebook tem um travo incontornável de humor negro. Eu acho que o homem é um exímio provocador que tem prazer em pisar o risco com as palavras – vê-se- lhe isso nos olhos, na expressão. Ao princípio ainda se dizia que Gaspar era politicamente ingénuo; agora já se percebeu que é intencionalmente provocador. Por exemplo, esta semana anunciou que os portugueses querem mais do Estado do que os impostos que pagam, mas esqueceu-se de referir que o Estado é especialista em tirar aos contribuintes aquilo que eles já pagaram – nas reformas e pensões, para as quais descontaram durante a sua vida profissional. Já se sabe que o Estado não é pessoa de bem – e nessa matéria fica muito bem representado por Vitor Gaspar. Os burocratas, como cada vez mais se constata, acham sempre que baixar na despesa é difícil e que só se pode mexer nos apoios sociais – nem pensar em reduzir o peso do Estado já que é a sua enorme dimensão que garante o poder dos burocratas. Mas o mais aflitivo no Governo, e creio que o problema começa em Vitor Gaspar porque faz parte do seu perfil provocador, é o desprezo pela negociação – internamente e com a Comissão Europeia. Vitor Gaspar saberá o que é negociar? Terá ideia de que há outros países que têm conseguido negociar – nos prazos, nos juros, nos apoios, na flexibilização de algumas metas e que mesmo assim têm continuado abrangidos pelos auxílios da Troika? Mais valia Vitor Gaspar dizer que não gosta - ou não sabe – negociar e que prefere provocar. Negociar obriga a alterar modelos e dogmas – e provocar, não. Já me ocorreu que pode ser que Vitor Gaspar não saiba negociar ou que se incomode a pedir descontos. No dia a dia pedir descontos e ajustes faz parte da negociação. Eu gostava de ter um Governo que negociasse, em vez de ter um Governo que obedecesse. Preferia um Governo flexível, inteligente e hábil a um Governo marrão, inflexível e sem raciocínio.
COLIGAÇÃO - Nestas últimas semanas tenho estado inquieto com as pessoas que integram um Conselho de Coordenação da Coligação. Será que estão acamados e não têm podido agir, trabalhar, enfim, coordenar? Desde que esse Conselho foi criado há notícia de uma reunião inócua – aquilo a que se chama uma photo opportunity. Mas o Conselho conseguiu a proeza de passar invisível sobre toda novela orçamental, com as medidas anunciadas e retiradas, com os cortes e contra-cortes, com declarações públicas contraditórias de dirigentes e o rol de descoordenação a que se tem podido assistir nos últimos dias. Tenho uma ideia para esclarecer este assunto: de facto a Coligação já é apenas virtual, uma espécie de holograma político, e por isso nem faz sentido coordená-la.
SEMANADA – Um espião do SIS foi apanhado numa rede de lavagem de dinheiro; agências de rating duvidam dos números do orçamento de Vitor Gaspar; a receita com impostos recuou 4,7% entre Janeiro e Setembro; a contribuição per capita do IRS subiu 54% em dez anos; no final de Junho as contas da segurança social registaram o primeiro défice desde 2002; a dívida pública continua a crescer e aproxima-se dos 200 mil milhões de euros; o número de famílias que pediu insolvência aumentou 500% entre 2007 e este ano; mais de 200 famílias de guardas da GNR pediram insolvência; o número de portugueses que emigram deverá ultrapassar os 100 mil este ano; No espaço de dois dias o Governo cortou o subsídio mínimo de desemprego e depois recuou no corte; a receita com impostos recuou quase 4,7% entre Janeiro e Setembro, cerca de 1240 milhões de euros; o Banco de Portugal investiu mais de 40 milhões de euros em obras na sua sede, incluindo a criação do Museu do Dinheiro; uma manifestação contra o FMI em Lisboa registou mais polícias do que manifestantes junto aos escritórios da representação daquele organismo;
ARCO DA VELHA – Eis o regresso aos mercados: a banca portuguesa cortou o financiamento às empresas em 6,8 mil milhões de euros este ano, mas investiu, no mesmo período, 7,4 mil milhões em dívida pública. Como dizia o outro, o dinheiro não chega para tudo…
VER – Três sugestões esta semana: a primeira é uma visita à Carpe Diem (Rua Do Século 79) onde gostei especialmente de ver os desenhos “Lar Doce Lar…” de Cristina Ataíde, o vídeo “Cruzada” de Cinthia Marcelle, a instalação “Variações da Fé” de Hélène Vieira Gomes e Carlos Gomese a “Pintura Descolada” de Rosana Ricalde e Filipoe Barbosa; a segunda é a exposição de Maria Beatriz que assinala os 25 anos da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ci~encias 2C), e que recolhe obras do final dos anos 70 e princípio dos anos 80 – desenhos e um belíssimo painel de azulejos – sob o título genérico “Um Lugar À Mesa”; finalmente até Domingo não percam a oportunidade de ver a exposição Blind Date, inserida na Lisbon Week, e que permite também descobrir o espaço, supreendente, da Biblioteca dos Paulistas - Igreja de Santa Catarina - Calçada do Combro, 82 - além de proporcionar um jogo de adivinhas sobre quem é o autor de cada obra exposta, todas do mesmo formato, mas não identificadas.
OUVIR – A carreira discográfica de Tori Amos começou há 20 anos com “Little Earthquakes”, na altura um disco surpreendente. Depois de incursões em várias áreas, da electronica à dança e até, pontualmente, ao hip-hop, Tori Amos como que fecha um círculo com “Gold Dust”, o seu novo álbum, agora editado pela Deutsch Grammophon – é uma revisitação de 14 temas feitos ao longo da sua carreira, provenientes de 10 dos seus 12 discos, aqui com novos arranjos e com o acompanhamento da holandesa Metropole Orchestra. Este não é um “best of”, no sentido que não são as canções mais conhecidas de Amos que ela escolheu – mas aquelas que por alguma razão são mais autobiográficas ou marcantes do seu ponto de vista pessoal. Na realidade este é um belíssimo cartão de visita para quem quiser conhecer ou revisitar a obra de Tori Amos.
FOLHEAR – Já aqui tenho dito que sou fã e colecionador do “Próximo Futuro”, um jornal editado pelo programa, do mesmo nome, criado pela Fundação Gulbenkian. A edição agora distribuída (nº11, Outubro/Novembro) – e que pode ser recolhida gratuitamente na Fundação e numa série de locais em Lisboa – tem um excelente artigo de António Pinto Ribeiro (que é o programador da iniciativa) intitulado “O Choque Civilizacional É No Interior De Cada País”, um bom portfolio fotográfico de Adonis Flores, uma ilustração com o traço inconfundível de Pedro Zamith e uma série de poemas de Fairdooz Tamini. Mais informações em www.proximofuturo.gulbenkian.pt.
PROVAR – Aqui e ali começam a ser reinventadas as padarias – que além de venderem pão, proporcionam pequenas refeições. Uma das mais recentes é “ O Pão Nosso”, que fica na Rua Marquês Sá da Bandeira 46B, perto da Fundação Gulbenkian. Lá provei um destes dias uma belíssima e tradicional tiborna de presunto e uma broa de mel que me trouxe sabores da infância. Na mesma ocasião levei para casa uns belos bagels, e fiquei com olho num bolo levedo, na broa de milho e na broa de avintes. Muito território a explorar. Mais informações e www.opaonosso.pt.
GOSTO – Da iniciativa de Zeinal Bava, na PT, que vai trazer a Portugal alguns dos maiores investidores mundiais para lhes apresentar soluções tecnológicas portuguesas.
NÃO GOSTO – De saber que a EMEL remunera os seus fiscais em função da quantidade de multas passadas.
BACK TO BASICS – Em Portugal a emigração não é a transbordação de uma população que sobra, mas a fuga de uma população que sofre” – Eça de Queiroz.
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Outubro)
outubro 23, 2012
A PRODUTIVIDADE DAS MULTAS
Por estes dias ficámos a saber que os fiscais da EMEL ganham à multa. A administração da empresa chama-lhe incentivos à produtividade e elogia o bom desempenho dos funcionários que conseguem melhores resultados. Ora acontece que o bom desempenho dos funcionários da EMEL não se verifica na diminuição de carros estacionados em segunda fila nem em outras anomalias que prejudicam de facto a circulação. É sabido que há locais em que os funcionários estão praticamente escondidos à espera que algum incauto se coloque em posição de ser multado – ou porque foi trocar dinheiro, ou porque parou numa situação de urgência ou alguns outros motivos relevantes. Estes zelosos funcionários são pepe rápidos – aparecem, multam e fogem do local para não terem que ouvir os protestos dos cidadãos.
O problema é que a missão da EMEL evoluiu de um regulador do estacionamento para uma empresa caçadora de multas – não lhe interessando grande coisa resolver os problemas mas sim aumentar as receitas das coimas.
Era curioso que a EMEL disponibilizasse uma tipologia de multas aplicadas: quantas correspondem a segunda fila; quantas correspondem a estacionamento em zonas proibidas; quantos correspondem a ausência de ticket de parqueamento e quantas correspondem a estacionamento para além do tempo pago. A resposta a estas questões permitiria avaliar a natureza do serviço prestado pela EMEL. E já agora, qual o tempo médio de resposta a pedidos de desbloqueamentos – para se avaliar se é proporcional ao tempo que demora a bloquear.
A escandaleira é tal que até o atual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa veio recentemente admitir que havia muita coisa no funcionamento da empresa que o preocupava. Talvez pudesse, em ações, ser coerente com o que diz. Nós, lisboetas, agradecíamos.
(Publicado no Metro de 23 de Outubro)
outubro 16, 2012
O NOVO RITMO DO TEMPO
O mundo agora anda muito depressa. Tudo muda mais rápido que há uns anos. Vou dar um exemplo: no passado dia 5 de Outubro o Presidente da República tinha duas preocupações: fazer as celebrações da implantação da República à porta fechada; e evitar falar da situação do país. Escolheu falar da educação, louvando as suas qualidades. Fugiu assim de temas mais abrangentes e prementes, como a austeridade e os impostos.
No entanto, apenas poucos dias depois, de repente, no fim-de-semana passado, resolveu colocar no seu Facebook, o local onde passou a fazer as declarações verdadeiramente importantes, uma crítica à forma como a austeridade e a política fiscal do Governo têm sido conduzidas.
Sabendo-se que Jorge Sampaio ía falar do assunto numa entrevista à SIC Notícias, onde iria abordar o tema da austeridade e dos impostos, restam duas possibilidades: ou combinaram ambos ter um discurso sincronizado, ou Cavaco – que já tinha ouvido palavras críticas em relação à situação, vindas de Ramalho Eanes e Mário Soares – resolveu alinhar no discurso para não estragar a festa – e para não parecer ser o único que não entendia a gravidade da situação.
Este modernismo facebookiano de Cavaco Silva é coisa recente – por exemplo no tempo que que tolerou que Sócrates fizesse as malfeitorias que se conhecem, nunca o Presidente da República deu pública nota de estar atento e vigilante. É certo que nessa época estava mais preocupado em não fazer nada que pudesse prejudicar a sua reeleição.
Aqueles que se habituaram à velocidade de resposta e evolução na internet e nas redes sociais olham com desconfiança para políticos que não reagem e – como Edson Athayde fazia bem notar esta semana – não entendem ciclos de tempo tão longos como legislaturas de quatro anos. Dá que pensar.
(Publicado no Metro de 16 de Outubro)
outubro 12, 2012
AS IMAGENS DE GASPAR
RETRATOS - Esta semana fiquei impressionado com duas fotografias de Vítor Gaspar: a primeira, na conferência de imprensa, do enorme aumento de impostos, de olhar alucinado; na segunda, no Eurogrupo, de sorriso satisfeito e matreiro, entre os seus pares. As duas imagens são o retrato perturbante de um homem que se tem enganado em todas as suas previsões, que tem falhado a maioria dos objectivos que estabeleceu para justificar as medidas que tomou, e que até agora nunca teve a capacidade de reconhecer que se enganou. Passei a semana à espera que ele dissesse que tinha errado, que algures se tinha enganado. Nada. Não justifica sequer porque é que calculou tão mal o efeito das medidas que tomou, sem restrições – note-se - no decurso do último ano. Até o FMI já veio dizer que calculou mal o impacto da austeridade e mesmo Catroga veio distanciar-se das novas medidas fiscais anunciadas. E para onde vai todo o dinheiro dos impostos? De tudo o que é colectado, nada vai para pagar a dívida, mas no Governo não se fala disto. Continuamos, como se sabe, a acumular défices. Continua a ser tudo para o Estado gastar e mesmo assim não chega. Todo o esforço não é suficiente para equilibrar as contas. O que se passa no Governo é o retrato do país: Só o Ministro das Finanças pode falhar e nada lhe acontece; mas contribuinte que falhe, é executado.
Há dias, no Facebook, li um relato que me fez pensar: “Hoje, em conversa com uma alemã comum, perguntei-lhe como olham os alemães comuns para Portugal. Esperando uma resposta do tipo "passam o tempo na praia" obtive " o que vemos é sobretudo um país com muita corrupção, parece ser o vosso maior problema". É verdade: temos um monte de PPP’s, de escândalos como o BPN, de negócios sucateiros, que são a face evidente da pior das ineficiências, que é a falência de uma justiça que favorece objectivamente a corrupção porque, ao não funcionar, garante a impunidade. Portugal é, aos olhos de quem nos visita, uma república das bananas onde os habilidosos se safam e o Estado continua sem nada fazer a não ser gastar o que não tem.
SEMANADA – A quebra de receita do Estado provocada pelos efeitos da subida do IVA na restauração é estimada em 947 milhões de euros; 11 mil policias estão em trabalhos de secretaria, fora de funções operacionais, o que significa cerca de 25% dos agentes da autoridade; nos primeiros seis meses do ano aumentaram 33% os casos de assassinato que já ultrapassam a centena até final do mês passado; no hospital da Guarda os vivos dormem com os mortos nas enfermarias porque a morgue fecha durante a noite; uma das razões da perca de competitividade das nossas empresas reside nisto: o financiamento das pequenas empresas na banca em Portugal é o mais caro da zona euro – 7,79% contra 4,15% ; o crédito malparado atinge 15,6 mil milhões de euros; o desemprego de longa duração sobe 14%; 300 mil inscritos nos centros de emprego não estão a receber qualquer subsidio; os impostos pagos sobre a gasolina e o gasóleo já são praticamente o dobro do custo do combustível propriamente dito; o Governo quer aumentar tabaco de enrolar em 30%; Portugal está em segundo lugar, a seguir à Argentina, na lista dos países com maiores subidas de impostos; figuras do PS lançaram o nome de José Luís Judas para candidato à Câmara Municipal de Cascais; no 5 de Outubro António Costa parecia já o líder da oposição e não o Presidente da Câmara de Lisboa.
ARCO DA VELHA – Um livro de poesia para adultos, de Alice Vieira, sobre o amor, foi incluído numa lista de leituras recomendadas para alunos do 2º ano de escolaridade e foi preciso a autora vir alertar para o facto.
GOSTO – A Universidade de Limerick, na Irlanda, vai organizar uma conferência, intitulada “Strange Fascination”, para estudar o impacto cultural da obra de David Bowie.
NÃO GOSTO - No final do terceiro ano do programa de ajustamento, Portugal terá menos 500 mil empregos do que tinha quando pediu ajuda externa.
VER – Pedro Cabrita Reis inspirou-se em coisas simples da terra para uma nova série de desenhos que expõe na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, ao Chiado). Com o título “D’Après Nature (possibly...)” estão reunidas obras em que, entre os materiais usados nestes desenhos sobre papel, estão café, azeite, vinho, beterraba ou mel, alem, claro de grafite. Os produtos são maioritariamente oriundos da quinta que Cabrita Reis tem perto de Tavira – as paisagens locais têm aparecido por diversas vezes na sua obra mais recente. “Trago-vos ainda o mutismo das árvores que aos poucos apaziguamos em febre dourada, sanguínea e, por fim, negra, que verte dos cachos e flui, purificando os sentidos dessa outra inútil pureza, a do pensamento” – escreve o artista no texto que acompanha a exposição. São cores do Outono estas que percorrem as imagens da natureza assim desenhadas por Cabrita Reis – tranquilas, por vezes provocantemente tranquilas.
OUVIR – Confesso que gosto de discos pop, simples e delicados, uma raridade hoje em dia, perdidos que estamos entre produtos pré-fabricados com vozes muito bem afinadinhas e corpos a condizer, feitos para a fotografia, ou o vídeo, mais que para os ouvidos. Felizmente de vez em quando aparece um disco que recupera o prazer da música popular, o prazer de partilhar a diversão, como este “Coexist”, dos XX. Depois do enorme êxito do disco inicial, “The XX”, e da respectiva digressão, o grupo esteve afastado dos palcos e entreteve-se a ir a clubes e a dançar. Parece que daí nasceu uma atracção pela música e os ritmos de dança e Jamie Smith, um dos elementos da banda, desenvolveu uma carreira paralela de DJ. “Coexist”, o novo álbum, vai buscar ambientes e inspiração por exemplo à house-music em temas como “Sunset”. Mas a essência de “Coexist” continua a ser o despojamento e a simplicidade, tão evidente e atraente em canções como “Our Song”, “Missing” ou “Tides” – onde a guitarra de Romy Madley Croft tem um simples e incontornável diálogo com o baixo de Oliver Sim, uma extensão dos diálogos vocais que ela e ele tecem canção após canção. A guitarra de Rodley Madley Croft, quase que me arrisco a dizer a evocar Vini Reilly nos Durutti Column de há anos atrás, é um ponto incontornável dos XX e é para esse tempo - dos Durutti Column, dos Young Marble Giants ou dos Cocteau Twins de então.
FOLHEAR – A revista “Wallpaper” foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, e o êxito foi tão imediato que um ano depois a estava a vender à Time Warner. Brulé continuou como editor até 2002 e, cinco anos depois, lançou a “Monocle”, que continua a dirigir. Nestes últimos anos a “Wallpaper”, sob a direcção de Tony Chambers, que sempre foi marcada pelo forte uso da imagem, dedicou-se cada vez mais ao design, à arquitectura, à moda mas também às viagens – a sua colecção de guias de cidades é célebre (alguns títulos estão editados em português). De vez em quado surge uma edição especial, quase para coleccionadores, como esta de Outubro, que tem três capas diferentes, cada um feita por um dos editores convidados: a fotógrafa Taryn Simon, o arquitecto Ole Scheeren e o pianista Lang Lang (e cada um deles tem direito a um extenso portfolio no interior). Escolhi a capa de Taryn sSiom, “The Picture Collection”, e as 16 páginas que ela criou para a revista são verdadeiramente arrebatadoras. Curiosidades adicionais: um artigo sobre novas tendências do design brasileiro, o guia dos melhores novos hotéis para viagens de trabalho, e a sugestão culinária do mês: ameijoas à Bulhão Pato, numa receita dada e preparada pelo português Pedro Cabrita Reis
PROVAR – Volta e meia apetece-me um bife. Um clássico, com batatas fritas. Carne bem cortada, cozinhada no ponto, obviamente com ovo a cavalo. Mão sabedora levou-me, em Aveiro, a um local que depois vim a saber tratar-se de um templo do bom bife. Adequadamente chama-se Alexandre dos Bifes e fica no nº 14 do Cais do Alboi (telefone 234 420 494 ). Que distingue este bife dos outros? Alem da qualidade da substância, a excelência do tempero: parece levemente marinado, os sabores bem entranhados na carne, não é uma coisa feita à pressa na frigideira. As batatas fritas não saíram do congelador para o óleo – são às rodelas, cortadas à mão, deliciosamente irregulares. O pão, fresquíssimo, para tratar do ovo, vem aos nacos suculentos. Ao almoço é um corrupio, mas vale a pena esperar por uma mesa.
BACK TO BASICS – Um fanático é alguém que não muda nem de pensamento nem de assunto – Winston Churchill
(A ESQUINA DO RIO 481 - Publicada dia 12 de Outubro no Jornal de Negócios)
outubro 09, 2012
UMA ESTUPIDEZ SEM LIMITES
Continuo estarrecido com as alterações ao trânsito no Marquês de Pombal e na Avenida. Quanto ao Marquês registo que às horas de ponta continuam os engarrafamentos no Marquês, que se repercutem pelos diversos acessos e a situação é agravada porque a temporização dos semáforos em Lisboa anda perfeitamente enlouquecida. Quem entra na rotunda do Marquês de Pombal vindo do túnel e queira subir a Duque de Loulé, não pode fazê-lo. Tudo a bem da fluidez e conforto, claro.
Eu fico estarrecido com a forma como funcionam os responsáveis do trânsito em Lisboa, a começar pela cabeça do vereador que inventou esta experiência. Será que depois não controlam os efeitos do que fazem? Não fazem estudos a várias horas e em vários dias dos efeitos das suas ações? Ou faz parte do estilo e do objetivo estarem-se nas tintas para os lisboetas que, apesar da perseguição e da evidente má vontade, persistem em utilizar o seu automóvel ou motociclo, pelo qual pagam aliás taxas à cidade? A Avenida da Liberdade é um engarrafamento constante no sentido ascendente, a qualquer hora.
A circulação nas faixas laterais é ainda pior. Um caso extraordinário é o de quem desça a Rua do Salitre e queira entrar na Avenida da Liberdade. Depois das transformações deixou de se poder prosseguir em direção aos Restauradores – a menos que se vá dar uma volta à Praça da Alegria, transformada em circuito para gincanas. Enfim , uma pequena experiência para moer a paciência e tornar a vida um pouco mais stressante e desconfortável.
As alterações feitas, a título experimental, custaram até agora mais de 800.000 euros. Provocam autênticas gincanas, mal sinalizadas. Os efeitos estão à vista – será que na Câmara Municipal de Lisboa a estupidez não tem limites? Será que não existiam outras prioridades para gastar o dinheiro?
(Publicado no Metro de 9 de Outubro)
outubro 04, 2012
O PROBLEMA DA REMODELAÇÃO TEM NOME
PROBLEMA – Aqui há umas semanas alguns Ministros tinham-se tornado num problema potencial. Eram, na gíria corrente, remodeláveis. De repente aconteceu uma coisa extraordinária: o Primeiro Ministro tornou-se ele próprio num problema, maior que qualquer dos candidatos a remodelação. Isto coloca uma questão terrível que está, aliás, no centro da crise política clandestina – aquela que continua a existir, larvar, a desenvolver-se em surdina, sem ninguém a ver. Como remodelar o Primeiro Ministro? É este problema que está a minar o funcionamento do Governo e das instituições. As divergências públicas com o Primeiro Ministro são numerosas dentro do seu partido, são abundantes no seu parceiro de coligação e são naturalmente constantes na oposição. Por isso mesmo não falta quem defenda uma solução à italiana – arredar quem deixou de poder mandar e ir buscar alguém não eleito. É um caminho perigosíssimo, mas que vai ganhando peso até entre os mais insuspeitos. Ninguém quer eleições, ninguém vê a possibilidade de uma alternativa no actual espectro político-partidário, já poucos acreditam, inclusivamente, que Passos Coelho tenha capacidade de encontrar pessoal politico credível para uma remodelação. Basta ver a forma como os mais recentes dislates tiveram tão pouca gente, no núcleo duro do PSD e do Governo, disposta a defender a honra do convento.
A situação é agravada pelo falhanço objectivo das politicas seguidas – a despesa efectiva do Estado não foi reduzida, a receita fiscal diminuiu apesar dos aumentos de impostos, o défice não foi controlado e ultrapassou todas as previsões. As estimativas saíram furadas. Objectivamente houve incompetência e desconhecimento da realidade, e aqui as culpas são da equipa de Vítor Gaspar.
Mas pior que isso, a actuação do Primeiro Ministro e dos seus mais próximos, que oscila entre a ocultação de factos e o insulto a quem deles discorda, minou a credibilidade do executivo. Passos Coelho começou a fazer, em matéria de ocultação, aquilo que há pouco mais de um ano criticava a Sócrates. Os dados agora conhecidos sobre a apresentação, esta semana, em Bruxelas, de um conjunto de medidas alternativas à TSU, mais uma vez baseadas no aumento da carga fiscal, veio repetir o desprezo pelo diálogo com os parceiros socais e o líder da oposição. Ou seja, uma falta de respeito pelo país e pelas instituições. A confiança está abalada. Sabe-se que, antes do anúncio das medidas da TSU, o Primeiro Ministro falou com vários anteriores dirigentes do PSD que, maioritariamente, lhe fizeram ver os perigos do que ele preparava. Fez ouvidos de mercador e assim conseguiu que o seu Governo deixasse de ser respeitado, mesmo no seu próprio campo politico. Há Ministros e Secretários de Estado que deixaram de frequentar os seus restaurantes habituais para não serem mais hostilizados. Refugiam-se numa torre de marfim e perdem, ainda mais, o contacto com a realidade. Hoje em dia o Governo existe apenas por falta de alternativa, que é a pior das mortes lentas. No estado em que as coisas estão o Governo perdeu autoridade e resta-lhe o autoritarismo, que de resto, aqui e ali, ensaia aparecer.
SEMANADA – Desde Janeiro a economia portuguesa já destruíu 71 mil empregos, uma média de 858 por dia; o desemprego atingiu os15,9% e cresce quatro vezes mais rápido que na União Europeia; a papa Nestum cresceu 7% de vendas no primeiros semestre, mais 140 toneladas; três mil advogados têm quotas em atraso à respectiva Ordem; criou-se um impasse na escolha do novo Procurador Geral da República; O Ministro das Finanças recusou mais uma vez ir ao Parlamento; o Ministro das Finanças informou a Comissão Europeia e o FMI sobre as medidas de austeridade alternativas à Taxa Social Única, antes de as comunicar a quem devia, em Portugal; Politicamente a semana que passou pode ser resumida numa frase postada no Facebook: “o novo porta-voz do Governo chama-se Durão Barroso”.
ARCO DA VELHA – Esta frase é de 15 de Março de 2011 e foi, nessa altura, proferida por Passos Coelho e nos últimos dias tem sido partilhada nas redes sociais: “O líder do PSD acusou hoje o Governo de «deslealdade e falta de respeito pelo país» por ter ocultado as medidas que estava a negociar com Bruxelas, considerando que isso põe em causa a confiança dos portugueses no executivo... Considero isso de uma deslealdade e de uma falta de respeito pelo país, pelos portugueses, pelas instituições, suficientemente grave para pôr em causa a confiança que o país tem em quem o governa”.
VER –Da nova série de exposições que na semana passada abriu no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84), destaco a colecção de desenhos “Roger Uttama” de Joana Rosa, os trabalhos de Hugo Barata na colectiva “DIG DIG: Digging For Culture in a Crashing Economy” e, sobretudo, as obras de Inez Teixeira, Lluis Hortalà, e Pauliana Pimentel na colectiva “O Sonho De Wagner”. Nos quatro espaços do edifício vai estar até 4 de Novembro um conjunto alargado de obras que, exposição após exposição, são como um manifesto do estado da nação em matéria da criação artística contemporânea. Polémicas às vezes, surpreendentes noutras, previsíveis em algumas, as exposições da Transboavista são no entanto incontornáveis no panorama das galerias lisboetas.
OUVIR – Cecilia Bartoli é um caso à parte no mundo da música. Os seus últimos discos têm sido trabalhos de investigação, sobre repertórios pouco conhecidos, em vez das habituais colectâneas de árias famosas ou interpretações das óperas mais clássicas e procuradas pelos melómanos. Assim, em 2007, editou “Maria”, uma homenagem a Maria Malibran, uma soprano célebre no século XIX que se destacou a interpretar Rossini. Depois, em 2009, editou “Sacrificium”, recolhendo árias propositadamente escritas para castrati. E agora lança “Mission”, um trabalho dedicado às óperas de Agostino Steffani, uma figura enigmática do século XVII que fez nome na igreja, na politica e na música. Como nos anteriores trabalhos a pesquisa histórica é rigorosa, o cuidado na produção musical é exemplar e o disco é apenas uma das peças de um conjunto de edições, que incluem um livro e um documentário. Bartoli, além da excelência da interpretação, impõe-se a si própria um novo patamar, de produtor multimédia. E sempre com uma qualidade intocável – e ouvindo este “Mission”, adivinha-se, com um prazer e intensidade que a música barroca de Steffani tão bem exprime. (CD Decca/Universal)
FOLHEAR – Na “Vanity Fair” de Outubro destaco um excelente artigo sobre os 50 anos de 007 – na realidade , como a capa da revista diz, a história inédita de como a saga de James Bond nasceu e cresceu. Outros motivos de interesse são uma reportagem sobre os bastidores da igreja da Cientologia , uma antevisão de quem serão as próximas estrelas da economia digital de Silicon Valley e, em época de presidenciais norte-americanas, uma entrevista/ reportagem sobre Obama na casa Branca, assinada por Michael Lewis.
PROVAR – O Rubro é um restaurante na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde se pode ir petiscar com a certeza de sair bem servido. Gostei muito do pica-pau de entrecôte, do revuelto de ovos com farinheira, dos espargos verdes na chapa (mesmo no ponto) e dos indispensáveis pimentos padron. A imperial é bem tirada e a lista de vinhos é interessante – nas opções a copo e à garrafa. O funcionamento é em mesas compridas com bancos corridos de um lado e outro e o serviço é atento. Para a qualidade do que se picou o preço é razoável. Telefone 210 191 191 .
GOSTO – Título da semana: “Eu tenho uma vida fora do facebook, só não me lembro da password”.
NÃO GOSTO – Nos ultimos dez anos o concelho de Lisboa continuou a perder habitantes para os concelhos vizinhos e acentuou-se a desertificação de zonas do centro da cidade.
BACK TO BASICS – Por mais entusiasmante e atraente que seja uma determinada estratégia, convém de vez em quando olhar para os resultados – Winston Churchill
(publicado no Jornal de Negócios de 4 de Outubro)
outubro 02, 2012
AVALIAR QUEM GOVERNA A CIDADE
Mais ou menos daqui a um ano vamos ter eleições autárquicas. Inevitavelmente vai existir uma componente política, que tem a ver com a reação dos eleitores à política do Governo e é previsível que o PSD seja penalizado.
No entanto, se olharmos para a política autárquica, faz mais sentido ver o que o partido no poder, em cada caso, conseguiu fazer. Peguemos no caso de Lisboa. Qual o balanço de António Costa na cidade? Conseguiu estancar a hemorragia de gente que abandona Lisboa? Reduziu os impostos aos habitantes na cidade? Criou incentivos para trazer habitantes para o despovoado centro? A cidade ficou mais confortável para quem cá vive de facto? António Costa está a trabalhar para quem visita Lisboa ou para quem cá paga impostos?
Estas perguntas não são insignificantes e as respostas que elas suscitarem deve nortear o voto das pessoas daqui a um ano. O sentido do voto é fazer a avaliação do mandato executado. No caso de Lisboa é o mandato de António Costa que deve ser avaliado e votado, e não o de Passos Coelho, no Governo.
As pessoas concordam com a prioridade dada ao investimento em ciclovias? Estão de acordo com os custos incorridos com as alterações ao trânsito na Avenida e no Marquês? As pessoas que pagam impostos em Lisboa estão satisfeitas com o estado de limpeza das ruas? Acham que a Câmara tem velado pelos seus interesses? Acham que tem protegido o comércio de rua e fomentado o emprego na cidade? Estão de acordo com a forma como a EMEL funciona, com as multas, com os quantitativos que cobra, com a forma como atua?
Quem vota em Lisboa deve pensar no que tem ganho com o que se passou na cidade nestes anos em que Costa e a sua coligação têm tido o poder. Querem continuar com a política que ele desenvolveu, ou querem mudá-la? Eu gostaria de a mudar.
(Publicado no Metro de hoje)