junho 29, 2012

Uma ideia velha, uma revista com ideias novas, um bitoque inovador

REALIDADE – A realidade, dura e pesada, que vivemos hoje em dia, tem as suas raízes numa ideia simpática mas  irrealista de uma Europa unificada, ideia traçada há décadas, numa fase de prosperidade. Ao longo de décadas o sonho europeu transformou-se, por força do irrealismo dos seus criadores e da falta de capacidade dos seus dirigentes, num terrível pesadelo. É escusado recordar o papel da Alemanha em tudo isto – a culpa não é só da Alemanha, é de quem acreditou que se podia gastar cada vez mais sem olhar para as contas. Como bem se sabe a situação atingiu vários países na Europa – cinco já pediram resgate e tudo indica que a médio prazo mais se lhes seguirão. Embora seja muito simpática a ideia europeia, a situação onde deixámos que nos metessem não se resolve com boas intenções nem com retórica apaixonada, pintada com laivos ideológicos. Aquilo por que estamos a passar é o resultado de décadas de ciclos eleitorais onde o voto foi trocado por promessas de cada vez mais obras públicas, prosperidade, apoios e garantias. Os custos brutais que foram incorridos – muito maiores que as receitas - levam agora a distinguir com dificuldade o que era necessário do que foi supérfluo e sobretudo coloca em causa a seriedade de quem geriu o país – e, também, a Europa - nestas décadas. Por isso mesmo olho incrédulo para uma iniciativa auto-intitulada Congresso Democrático das Alternativas (o nome, já agora, não certamente por acaso, evoca acções contra a ditadura em 19557, 69 e 73). Sob o lema “Resgatar Portugal Para um Futuro Decente”, juntam-se vários representantes dos sonhos antigos, alguns responsáveis de políticas do passado e os suspeitos do costume sempre interessados em fazer o Estado distribuir mais do que aquilo que tem. O extraordinário é que toda esta gente emite opiniões, apresenta reivindicações mas não explica nem desenha soluções baseadas em estudos concretos e na realidade. Isto, lamento dizê-lo, não é política – é trafulhice ideológica pintada de demagogia barata. E foi isso que nos trouxe até onde estamos. Mais do mesmo só pode querer dizer piorar as coisas.


 


SEMANADA – As remessas dos emigrantes voltaram a subir para níveis de há dez anos; a receita do imposto sobre veículos é metade da registada no ano passado; as receitas do IRC registam uma quebra de mais de 15% até Maio; os 400 trabalhadores do centro de contacto telefónico da Segurança Social vão ser despedidos por mudança do fornecedor do serviço; o consumo per capita de cerveja em Portugal diminuiu 18 por cento; a administração fiscal vai cobrar as multas dos passageiros que viajarem sem bilhete nos transportes públicos; a Via do Infante perdeu metade do tráfego depois da implementação das portagens; as dívidas a mais de 90 dias do Estado a fornecedores aumentaram 162 milhões em Abril e voltaram a subir em Maio; só um terço dos hospitais diz cumprir prazos de consultas muito prioritárias; número de alunos que não concluíram o secundário aumentou em 2011.


 


ARCO DA VELHA – “Desde que está na prisão, lê a Bíblia, reza e está muito arrependido do que fez” – afirmou um pastor da Igreja Evangélica que tem visitado na prisão o ex-bancário de 46 acusado de 335 crimes de abusos sexuais, pornografia e maus tratos a menores.


 


VER –  Quanto custa investir em arte? - depende. Se escolher artistas em princípio de carreira, o investimento pode ser acessível. João Esteves de Oliveira tem uma galeria com o seu nome, no nº 38 da Rua Ivens, e tem sensibilidade para o mercado e os investimentos em arte. A sua galeria especializou-se em obras em papel e ao longo do ano lá passam autores consagrados e outros no princípio da carreira.  É o que agora acontece com Ângela Dias, Josefina Ribeiro, Manuel Diogo e Vasco Futscher, recentes ex-alunos do ARCO, que ali mostram o seu trabalho. Os preços começam nos 150 euros mas não passam dos 500. O melhor de tudo é que os trabalhos são bons e a exposição é muito interessante. Eu pessoalmente gostei muito dos óleos sobre papel de Manuel Diogo, mas parece certo que Ângela Dias, talvez pelo imaginário próximo de algumas fases de Paula Rego, ganhou elogios da crítica e será seguramente um valor em ascensão. As formas de Vasco Futscher são um momento de novidade e os animais de Josefina Ribeiro fazem lembrar algumas obras de Susan Norrie, que costumava expor no extinto Centro Cultural de Almancil.  Esta é uma boa exposição que mostra como novos artistas estão a desenvolver o seu talento e criatividade. E quem agora apostar em qualquer deles certamente não se arrependerá no futuro.


 


OUVIR – Fiona Apple  não fazia um álbum de originais há sete anos e agora saíu-se com um que tem um extenso nome: “The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do”. Trata-se do seu quarto álbum, o primeiro a seguir a “Extraordinary Machine”, de 2005. A lenda reza que ela trabalhou neste disco em segredo, sem que a sua editora soubesse o que se passava. E o que se passava são arranjos mais comedidos, muitas vezes com inspirações jazzy, com percussões fortes, a acompanhar a intensidade de temas vibrantes como “Daredevil” ou “Periphery”, em que as suas vocalizações intensas deixam uma marca invulgar. “Every Single Night”, a canção de abertura, é uma espécie de manual de introdução ao estilo de Fiona Apple, à forma que ela tem de fazer canções - algumas tão intensas e marcantes como “Left Alone” ou “Hot Knife”, um final absolutamente fantástico para este álbum.


 


FOLHEAR –  A edição de verão da minha querida revista "Monocle" agrupa os meses de Julho e Agosto e inclui a lista das melhores cidades onde viver. Como todas as políticas demoram tempo a causarem efeito, eis que Lisboa saíu da lista das 25 cidades preferidas da "Monocle". Também não é de admirar, depois de a cidade ser em anos seguidos transformada em feira pelas mãos de José Sá Fernandes, de a lixeira ser constante nas ruas pela mão de António Costa ou pelo facto de Nunes da Silva inventar as mais estapafúrdias alterações ao transito que imaginar se pode. Lisboa, nestes poucos anos, passou de uma cidade civilizada a uma cidade incómoda e desconfortável. Nas próximas eleições, quando virem os boletins de voto, não se esqueçam que o culpado do assunto se chama António Costa. E, se se sentirem tentados, por uma qualquer razão ideológica a votar nele, lembrem-se do que a EMEL tem feito no seu mandato, daquilo em que Lisboa tem sido transformada e da falta de plano para uma cidade que vai perdendo pontos, como agora se vê. Mas, voltando à Monocle", que é o que agora interessa, o número é dedicado a tudo aquilo que faz com que possa ser agradável viver numa cidade, Nunca é tarde para aprender e com as autárquicas ao virar da esquina os senhores que decidem sobre os candidatos bem que podiam guardar esta edição e seguir os seus conselhos. Esta "Monocle" tem 282 páginas e vai durar uma boa parte do Verão. Tem algumas coisas deliciosas, como uma lista de 50 coisas que podem melhorar as nossas vidas. Eu espero que por cá alguém, com poder de decisão e execução, a leia - e não resisto a contar uma história: há uns anos, quando a "Monocle" fez um dos primeiros artigos sobre as estratégias para as cidades, que eu, na época, aqui referi, um assessor de António Costa pediu-me cópia do dito texto, invocando o interesse do Presidente da Câmara. Fiquei esperançado que a leitura fosse inspiradora. Nada do que lá estava escrito foi aproveitado.  


 


PROVAR – Se ao Domingo estiver em Lisboas à hora de almoço e lhe apetecer um pouco de pecado carnal, dirija-se ao restaurante Flores, no Bairro Alto Hotel (no Largo de Camões) e peça o bitoque. Trata-se de uma rara conjugação de competências, pela mão do chef Vasco Lello. Comecemos pela carne, excelente, do lombo, passada rigorosamente a gosto do que o cliente pretender. O molho, inspirado no lisboeta Marrare, tem algum toque que lhe dá uma graça inesperada. O ovo a cavalo é preciso e certeiro. E as batatas fritas, de palitos finos, estão no ponto, sem gordura nem tostado excessivo. A decoração, já que os olhos também comem, é albardada com um dente de alho cravejado de uma folha de louro. Este é o bitoque perfeito. E só se serve aos Domingos, ao almoço, no Flores. Telefone 213 408 252.


 


GOSTO –   Da condenação por atentado à liberdade de imprensa do deputado socialista Ricardo Rodrigues;


 


NÃO GOSTO – Foram gastos 21 milhões de euros em obras na sede do Banco de Portugal desde 2010, sempre por ajuste directo e sempre à mesma empresa;


 


BACK TO BASICS –  Em tempos de desânimo generalizado, dizer a verdade é um acto revolucionário - George Orwell


 

junho 26, 2012

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

O primeiro ano do Governo foi passado com a austeridade como programa e o aumento de impostos como receita. O resultado está à vista: a economia está em coma, o desemprego explodiu, e apesar  de todos os aumentos a receita fiscal diminuiu porque o consumo afundou e a evasão fiscal regressou em força. O fisco bate sempre à porta dos mesmos quando se trata de ir buscar mais cobrança – nos salários de quem trabalha por conta de outrem, nos impostos que incidem sobre as casas onde as pessoas vivem, em múltiplas taxas que proliferam cada vez mais.




Já se sabe que Portugal é um país sem justiça onde os tribunais servem apenas de cenário para dar a ideia de que este rectângulo à beira mar plantado não é o far-west . Mas na realidade em Portugal deixou de haver ideia de justiça, deixou de haver referências – e o Estado é quem mais culpas tem nisso.


 


Peguemos no caso das dívidas ao Fisco – a máquina fiscal é muito rápida a penhorar casas onde vivem famílias e, agora, até automóveis, mas é completamente ineficaz nos grandes processos fiscais, nas grandes fugas aos impostos. Mais o Estado, nos casos onde perdeu milhões de euros do dinheiro dos contribuintes, como no BPN, é absolutamente incapaz de dar um exemplo, de mostrar que a Lei se aplica de forma igual para todos.


 


A forma como o fisco actua em situações de famílias modestas que se vêem penhoradas está a transformar-se num escândalo, quando comparado com outros casos, em que o outro lado tem dinheiro e tempo para se defender, protestar, reclamar.


O sistema criou o pior que pode existir – um sentimento de desigualdade e de injustiça de um lado, e de impunidade e corrupção do outro. É impossível que isto dê bom resultado.


 


(Publicado na edição do diário Metro de 26 de Junho)


 

junho 22, 2012

GOVERNAÇÃO, EDUCAÇÃO E SUGESTÕES AVULSAS

GOVERNAR – Depois de uma década de disparates, de mentiras, de falsificações, de trapaças (como a triste história das PPP vem elucidando), o mínimo que se espera de um Governo é serenidade e bom senso. Não há nenhuma necessidade de, ao fim de um ano em funções, o Primeiro Ministro ser apanhado em falta no Parlamento por causa de uma decisão na área da saúde – o encerramento de uma maternidade, por mais simbólica que ela seja. Já é tempo de os gabinetes terem os sistemas de comunicação oleados, de a Presidência do Conselho funcionar como centro de decisão e não como reduto da conspiração – que foi o que, no tempo de Sócrates,  Silva Pereira conseguiu fazer. O Governo tem a obrigação de agir, de comunicar e de poupar o dinheiro dos contribuintes. Convém que o Primeiro Ministro seja mantido a par do que, nesta matéria, se vai fazendo. Governar é um acto de coragem – implica tomar decisões, delegar, controlar. Ao fim de um ano o Governo não pode dar a ideia de que anda perdido. Quanto mais se sabe do que atrás se passou, mais exigentes devemos ser em relação ao que agora se passa. Os erros de Sócrates não estão na folha de crédito de Passos Coelho. São um passivo que ele terá de resolver para se reencontrar com o país.


 


EDUCAÇÃO – Com a devida homenagem vou citar um excerto de um texto absolutamente brilhante de Teolinda Gersão, lido esta semana no “Público”, e que mostra o disparate do sistema educativo português, ainda por cima na área da nossa língua. Ora apreciem: “No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?  A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado.”


 


 


SEMANADA – Número de seguranças privados já supera o de efectivos policiais – 58 mil seguranças, 51 mil polícias; o Estado português não sabe quantos criminosos condenados voltaram a reincidir depois de cumprida a pena, nem porquê, nem qual o seu perfil – isto numa altura em que o Governo quer mudar as leis penais; só 45 câmaras municipais de um total de 308 em todo o país dispensam apoio às dividas de curto prazo; 30% da produção de vinho da região demarcada do Douro não tem escoamento; foi conhecida a insolvência da empresa de moda Storytailors na mesma semana em que a dupla de estilistas vestiu Joana Vasconcelos para a cerimónia de inauguração da sua exposição em Versailles; o fisco ordenou à PSP 2769 penhoras de veículos por dívidas fiscais; num assomo de produtividade e oportunidade uma Universidade Alemã anunciou ter descoberto fósseis de tartarugas que estavam a fazer sexo na altura em que morreram; a directora do Público afirmou que a Entidade Reguladora da Comunicação revelou “a sua inutilidade” no caso da disputa com o Ministro Miguel Relvas.


 


ARCO DA VELHA – Um estudo revelado esta semana indica que a crise fez Portugal perder 300 milionários em 2011 e o seu total está agora nos 10 400, uma queda de 2,8% – sendo milionários as pessoas com liquidez superior a um milhão de dólares; em contrapartida a nível mundial o numero de milionários aumentou 0,8% para um total de cerca de 11 milhões.


 


VER –  Passear por fotografias no meio de móveis e peças de decoração é uma ideia suficientemente invulgar para ser atraente. Luís Serpa é o responsável pela escolha de imagens doo Gabinete de Curiosidades instalado na loja de Conceição Vasco Costa, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. Ali estão fotografias de colecção, da colecção de Luís Serpa, de autores como Bob Wilson, Daniel Blaufuks, Álvaro Rosendo, Jorge Molder, Julião Sarmento, Graça Sarsfield, Maria José Palla, entre outros. É uma curiosa experiência que mostra a forma como a fotografia se deixa ver em quaisquer circunstâncias, conseguindo marcar qualquer espaço.


 


OUVIR –   Uma cantora russa em Nova York é sempre um ingrediente para cocktails explosivos. Quando a isso se conjuga com uma razoável dose de canções confessionais e de comentários sociais, tudo fica mais interessante. Chamar a um museu cheio de preciosidades artísticas um mausoléu público é uma aproximação interessante que alguns irão partilhar. Mas eventualmente o ponto mais alto deste disco, baseado em torno de melodias tocadas ao piano, é “How”, uma balada de separação, uma canção de ruptura, que tem as sete palavras mais fortes da música pop dos últimos anos: “Agora não és mais que um convidado”. CD Sire, Amazon.


 


FOLHEAR –  A edição de Junho da Vogue norte-americana, a original, a que é dirigida por Anne Wintour, tem na capa uma fabulosa fotografia de Annie Leibowitz que faz parte do seu portfolio sobre os atletas olímpicos dos Estados Unidos, convenientemente fotografados para a ocasião ao lado de modelos e roupas belíssimas. Anne Wintour dedica o seu editorial à questão da preservação do bom senso em matéria de saúde e alimentação, incluindo no mundo da moda. Mas o que marca esta edição absolutamente fabulosa são as imagens. Além de Leibowitz, temos fotografias de atletas por Bruce Weber, temos Jennifer Lopez fotografada em fato de banho por Mário Testino e temos um fabuloso artigo sobre o homem que concebeu a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, Danny Boyle, o realizador de “Slumdog Millionaire”. É por causa de edições destas que eu acredito em revistas bem feitas e na importância de conteúdos originais.


 


PROVAR – A época dos caracóis está no auge, e ainda por cima coincide com os jogos do Europeu – nada como um pratinho de vagarosos ao fim da tarde enquanto se assiste a um jogo. Se a coisa acontecer numa sala grande com vários bons ecrãs de televisão e ar condicionado decente, ainda melhor. Existe um local assim em Lisboa, ainda por cima deliciosamente sportinguista. Trata-se do “Filho do Menino Júlio dos Caracóis», um dos mais afamados locais para este petisco. Fica na Rua do vale Formoso de Cima 140-B, ao fundo da parte nova da Avenida dos Estados Unidos da América e perto da Matinha. Além de caracóis há belíssimas moelas, pregos suculentos e, para quem quiser coisas mais sérias, peixe ou carne grelhada na brasa de carvão, e , dependendo dos dias, Cozido á Portuguesa, Galo de Cabidela ou massada de garoupa, entre outras especialidades. A imperial é a 1,20€, a dose de caracóis é a 5 euros e a de moelas a 8.80€. Imperdível!


 


GOSTO –   Parece que o calor começa a chegar no fim de semana.


 


NÃO GOSTO –   As obras do Passos Manuel, geridas pela Parque Escolar, custaram mais 46,5% do que estava inicialmente previsto, diz o Tribunal de Contas.


 


BACK TO BASICS –  "Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra." Nietzsche


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 22 de Junho)

junho 19, 2012

UMA CIDADE AO DEUS DARÁ

Lisboa está suja, o lixo transborda. Lisboa cheira mal. A cidade é cada vez mais mal governada. Quem se senta nas cadeiras da Câmara Municipal tem uma agenda própria de ambição política que não passa por servir a cidade. O estado em que tudo está mostra isso mesmo.


 


O que se tem passado na concessão dos espaços públicos é outro sinal da má forma como a cidade é gerida. A feira ao ar livre que o Continente montou no Terreiro do Paço, é um bom exemplo do desprezo pelos munícipes. Bem pode o vereador Sá Fernandes argumentar com a possibilidade da experiência de ver o campo no meio da cidade, que não consegue apagar as outras consequências da coisa.


 


A ocupação comercial do Terreiro do Paço por uma campanha de marketing de uma cadeia de hipermercados poderá ser ótima para o marketing da empresa em causa, mas dificultou a vida a quem quer circular à beira rio. Os habitantes da cidade, quem aqui vive e paga impostos, são sucessivamente submetidos a condicionamentos de trânsito que causam incómodos e condicionam os seus fins de semana.


 


O comércio das zonas envolvidas nestas operações, sobretudo o que é afetado pelos condicionamentos de transito, sai prejudicado – agravando os problemas que já existem na conjuntura económica em que vivemos. No conforto dos munícipes e na proteção do comércio e restauração  local e tradicional não pensam os responsáveis camarários.


 


Resta o balanço das capacidade de mobilização do fim de semana: a CGTP juntou menos gente que Tony Carreira. O novo líder da central sindical tem uma grande falta de jeito na escolha dos dias das suas ações – arranja sempre um termo de comparação em que sai mal da fotografia.


 


(Publicado no diário Metro de 19 de Junho)

DECLARAÇÃO DE AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA de Teolinda Gersão

Há muito que não lia um texto tão claro sobre o estado do nosso ensino, e sobretudo o do português, como este que Teolinda Gersão editou no Público de segunda-feira. Aqui vai:



DECLARAÇÃO DE AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA de Teolinda Gersão

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? 
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. 
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

TEOLINDA GERSÃO – escritora
Foi professora catedrática da Universidade Nova

junho 15, 2012

A Lei do Cinema, as portagens, observações e sugestões

AUDIOVISUAL –  Eu, sobre a proposta de Lei do Cinema e Audiovisual, tenho duas certezas: beneficia a produção de filmes em detrimento da produção de audiovisual (o que não é simpático em termos de emprego nem de investimento reprodutivo); e os custos suplementares que existem serão mais uma vez pagos pelos cidadãos, em cima de quem se reflectirão os aumentos de taxas e contribuições decretados a operadores e distribuidores de televisão e a anunciantes. Nada disto é novo no sistema legislativo do regime: pagam os mesmos, a despesa não diminui – aqui até talvez aumente. Eu não alinho no embandeirar em arco do sector do cinema – que é cronicamente deficitário e vive de subsídios, com um numero reduzido de espectadores, a fazer filmes para jogos florais chamados festivais onde muita coisa é combinada antes. Quero chamar a atenção para o facto de não ter lido em nenhum lado da proposta a indexação de subsídios a receitas de bilheteira (e outras) obtidas anteriormente pelo produtor ou realizador, e também de não ter encontrado referência a reembolso parcial do subsídio em função das receitas diversas obtidas. Ou seja, é um sistema de subsídio a fundo perdido que não beneficia quem tem bons resultados de bilheteira nem penaliza quem não consegue estabelecer comunicação com os públicos do cinema. Tudo isto me parece muito estranho tanto quanto se sabe que o filme português mais visto este ano “Florbela”, fez 40.000 espectadores e o décimo fez 1.150. Tudo isto é pois bastante ridículo quando pensamos que estamos a falar de subsidiar a fundo perdido e sem regras que beneficiem a capacidade de comunicação. Não entendo isto, não entendo porque é que 80% das receitas vão para financiar nestes moldes desregulados o cinema e apenas 20% vão para o audiovisual, que cria mais emprego, proporciona mais o desenvolvimento técnico e criativo e comunica melhor. Na realidade esta nova proposta de Lei do Cinema é um retrocesso de quase três décadas.


 


PORTAGENS – Na semana passada fiz cerca de 100 kms da A1 e paguei um pouco mais de seis euros. Entrei na A23, onde fiz cerca de 70 kms e paguei mais de sete euros. Alguma coisa não está bem na cabeça de quem fez estas contas, de quem estabeleceu estes preços. Passo pelas portagens electrónicas e tenho a sensação que estou num jogo disparatado de preços arbitrários. O km percorrido nestas estradas de duas faixas é mais caro que o das auto-estradas de três. Não percebo porquê. Um amigo meu, alemão,  que vive nos Estados Unidos há décadas, não acredita no que vê –  ter que ir aos CTT pagar e na complicação que para um estrangeiro é conseguir circular de automóvel em Portugal. Não é preciso viver nos Estados Unidos. Os espanhóis aqui ao lado também não compreendem e no Algarve os portugueses não percebem porque para ir de Vila Real a Lagos têm que pagar cerca de 11 euros. Eu sou a favor do princípio do utilizador pagador, mas recuso-me a aceitar que isso seja equiparado a roubo oficial, que é o que está a acontecer. Os resultados, na diminuição de trânsito e de receitas, estão à vista. O Ministério das Finanças está a cobrar menos em todas as áreas, a abusar mais dos seus poderes, a intimidar mais os contribuintes e a provocar maiores quebras na actividade de quem produz. Eu começo a achar que o problema não está no Ministro da Economia, está sim no Ministro das Finanças – ele é que está de facto a destruir o país – e não a salvá-lo como se quer fazer crer.


 


SEMANADA – O número de empresas que fechou portas no distrito de Viana do Castelo aumentou 65% no espaço de um ano; antigas SCUT perderam quase metade do tráfego desde que têm portagens; China já é o décimo maior importador de produtos portugueses; Sacoor abriu a 11ª loja na Ásia; mais de 25% das leis orgânicas do Governo estão ainda por publicar; em Abril os bancos cortaram em 25% a concessão de crédito a empresas e famílias face ao mês anterior; em Abril o crédito malparado agravou-se em 747 milhões em relação ao mês anterior; a dívida total dos cinco partidos com assento parlamentar atingiu em 2011 mais de 24,4 milhões de euros, o partido que maior prejuízo registou no ano passado foi o P e o que mais lucro obteve foi o PSD; ouvido no Parlamento, Vítor Constâncio recusou qualquer responsabilidade do Banco de Portugal, a que presidia na altura, nas falhas de supervisão que permitiram ao BPN chegar onde chegou.


 


ARCO DA VELHA – Seis subconcessões de estradas foram renegociadas no Governo de Sócrates e provocaram desvios confirmados de 705 milhões de euros nas parcerias público-privadas rodoviárias mas os seus responsáveis estão sujeitos a uma multa máxima de 15 mil euros.


 


VER – Quem puder ir a Madrid por estes dias tem sobejos motivos de contentamento. No Museu Thyssen Bornemisza, até 16 de Setembro, está uma exposição que reúne um conjunto de obras de Edward Hopper verdadeiramente impressionante e que coloca em contraste os primeiros anos da sua carreira, até meados da década 20 do século passado, com a sua obra mais conhecida. Ali perto, no Museu do Prado, inaugurou uma exposição que, também até 16 de Setembro, mostra os trabalhos realizados pelo grande pintor Rafael na última fase da sua vida, a maioria já em Roma, onde morreu com apenas 37 anos em 1520. Mas como se isto não chegasse, e até 14 de Julho, Madrid acolhe a PhotoEspaña, que reúne80 exposições que mostram o trabalho de 315 autores – de Avedon a Capa, passando por Warhol e, curiosamente, o street photographer que assina como The Sartorialist.


 


OUVIR –   Neil Young decidiu voltar a reunir os músicos dos Crazy Horse, a sua banda de eleição, e pegou em clássicos do cancioneiro popular dos Estados Unidos para fazer o seu 34º álbum de estúdio. Desde 2003 que os Crazy Horse não se juntavam a Neil Young, que já vai com 66 anos. As criticas que tenho lido por aí são bastante diversas mas quando ouço o disco só me apetece dizer que Neil Young tem um talento e uma criatividade que às vezes compensam pequenas falhas. As suas interpretações de temas como “This Land Is Your Land”” Get A Job”, “Clementine” ou “Oh Susannah” mostram que existe uma grande diferença entre interpretar , recriar ou imitar – e isso é uma coisa que nos tempos que correm se vai esquecendo , quando os imitadores são muitas vezes mais elogiados que os criadores.


 


FOLHEAR –  Quem tem iPad pode fazer gratuitamente o download da edição número 1 da revista Wired, datada de Janeiro de 1993, quase há 20 anos. Eu comecei a apanhar e devorar a revista aí por volta de 1995/96 e desde então ela faz parte das minhas leituras favoritas. Louis Rossetto, o fundador da revista, escrevia nesse número inaugural : “Porquê a Wired? – Porque a revolução digital está a tomar conta das nossas vidas como um tufão, porque numa época em que há uma avalanche de informação o luxo mais importante é descobrir o significado e o contexto das coisas, ou de outra forma, se o que procura é a alma da nossa nova sociedade numa matamorfose selvagem, o nosso conselho é simples:  siga-nos na Wired.” Percorrer os artigos desta edição é uma delícia, e faz-nos exercitar a memória para nos lembrarmos como, do ponto de vista tecnológico, em 1993, as coisas eram tão diferentes que hoje parecem atrasadas. Não certamente por acaso o título da “Wired” deste m~es é “How To Be A Geek Dad” – pois, os geeks já têm filhos e isso é que mostra como o mundo vai mudar ainda mais depressa.


 


GOSTO –   Da maneira como Varela entrou, virou o jogo, rematou e no fim foi modesto.


 


NÃO GOSTO –  Da maneira como Ronaldo se arma em campeão e depois tem falhanços sucessivos e ainda por cima atira com desculpas de mau pagador.


 


BACK TO BASICS –  Exactamente porque as coisas são o que são, elas não permanecerão como estão – Bertolt Brecht


 

junho 12, 2012

CAÇAR MULTAS OU COMBATER O CRIME?

Na semana passada foi notícia o assalto e agressão ao realizar José Fonseca e Costa, no Bairro Alto. Na altura falou-se da falta de segurança que hoje em dia existe na zona e da falta de policiamento. É sabido que a presença física em rondas, da polícia, é um forte elemento dissuasor. Mas para isso é preciso que os polícias saibam estabelecer prioridades.


 


Uns dias depois, na Rua da Boavista, perto do Cais do Sodré, decorreu uma inauguração no edifício Transboavista – um prédio quase completamente ocupado por espaços de exposição de arte contemporânea e que junta artistas já consagrados com jovens artistas no início de carreira. Estas inaugurações costumam juntar muita gente e constituir um bom momento.


 


Na noite do passado dia 5 havia uma meia dúzia de scooters no passeio em frente, eram de pessoas que tinha ido ver a exposição. Ali perto não há nenhuma zona de estacionamento de motos. E às 23h15 não existe um intenso trânsito de peões no local – aliás os visitantes das exposições são mesmo os únicos que por ali andam.


 


Pois foi a essa hora de movimentadíssimo tráfego pedonal que um carro patrulha, provavelmente da esquadra que fica próxima, com dois agentes, um graduado e outro mais novo, estacionou no meio da faixa de rodagem, sem luzes de sinalização, com o objectivo de multar as scooters. E era o graduado que de bloco em punho circulava entre as scooters, anotando as respectivas matrículas. Não dizia nada – nem sequer pedia os documentos ou a identificação a quem entretanto estava a retirar os veículos.  É um estilo – mas é o retrato de uma corporação que mais facilmente anda à caça da multa que em patrulha a prevenir crimes e agressões. Quem manda podia estabelecer prioridades. E evitar cenas ridículas como esta.


 


(Publicado no diário Metro de 12 de Junho)

junho 08, 2012

A memória na política, desabafos, citações, sugestões avulsas

MEMÓRIA - Esta semana soube-se da decisão final sobre as escutas efectuadas a José Sócrates e que acabaram por ir parar ao processo “Face Oculta”. Não vou discutir a decisão dos tribunais (embora cada vez mais desconfie dos tribunais portugueses a todos os níveis), mas uma coisa parece certa: vão ser eliminados dados que no futuro nos ajudariam melhor a compreender a História de Portugal no início do século XXI. Até podia entender que as escutas ficassem congeladas 20 anos ou mais, mas apagá-las revela que se quer esconder o passado. Não é uma questão de legitimidade em eliminar dados eventualmente obtidos de forma discutível, é uma questão de varrer os factos e impedir que se saiba o que aconteceu. Noronha da Costa, nesta matéria, assemelha-se historicamente àqueles que aceitaram que fotografias fossem alteradas, que relatos fossem adulterados. No futuro não saberemos de facto que se passou. E os juízes – todos os juízes mesmo os mais altos magistrados – que permitiram a sua eliminação serão cúmplices de esconder o passado perante as gerações futuras. Espero que haja cópias piratas e que elas se mantenham – será sinal de vitalidade.


 


VOAR – Sou daquelas pessoas que acha que voar é mais seguro, em termos estatísticos, que andar de carro ou de comboio. Mas continuo a ficar revoltado com a frequência com que ocorrem acidentes com aviões ultraleves. Na semana passada mais um caso, dois mortos - foi o terceiro acidente este ano, 5 mortos no total desde Janeiro. Duas dezenas desde 2006. Numa recente reportagem, o jornal “i”  afirmava: “A Federal Aviation Administration (FAA – autoridade norte-americana para a aviação) dizia, num comunicado relativo aos motores Rotax – que são os mais usados na aviação ultraleve –, que “durante uma revisão do processo de produção foi detectada uma irregularidade na construção de uma cambota”, que, caso não fosse corrigida, poderia levar à “paragem do motor durante o voo”. Já este ano, a Civil Aviation Authority (CAA – equivalente britânica da FAA) repetiu o aviso. Num documento de 18 de Janeiro diz-se que o problema se restringe a “um número limitado de motores”, mas a lista que acompanha o alerta da CAA enumera mais de uma dezena de modelos da marca em que a anomalia foi detectada.” E mais à frente, sobre esta motorização utilizada nos aviões ultraleves Tecnam: O manual de motor de modelos da marca, a que o i teve acesso, tem uma particularidade nada habitual que refere “Perigo: este motor, pelo seu desenho, está sujeito a paragens súbitas. A paragem do motor pode resultar em despenhamentos. Esses despenhamentos podem resultar em ferimentos graves ou morte”. Mais abaixo diz-se que “o utilizador assume todos os riscos e reconhece, pelo seu uso, o facto de o motor estar sujeito a paragens súbitas”. André Garcia, director de produção da Tecnam Portugal – empresa que comercializa os aviões ultraleves equipados com motores Rotax –, interpreta a nota como uma forma de a empresa “escapar a processos legais” por possíveis acidentes. Contudo, a nota de aviso não tem impedido o INAC de certificar estes aviões como estando aptos para a prática de voo.”. Isto não vos causa alguma inquietação sobre os nossos reguladores?


 


SEMANADA – Depois de milhões gastos e de actividade quase nula, o Governo criou um Grupo de Trabalho para estudar a rentabilização do Aeroporto de Beja, que é constituído por sete pessoas; o PS é o recordista de faltas por deputado na AR; 38% dos beneficiários do rendimento de inserção são menores e os beneficiários deste apoio triplicaram no primeiro trimestre; os processos fiscais rendem menos que a troika pensava e o presidente do Supremo Tribunal Administrativo disse estar “a convencer a troika do nosso interesse em mudar a situação”; frequentar a faculdade custa em média um salário mínimo por mês; tirar o curso superior absorve um quinto dos rendimentos das famílias portuguesas;  António Borges, o ex-vice presidente da Goldman Sachs, actualmente na categoria de  “quadro superior”  ao serviço do Governo e da Jerónimo Martins (como um deputado do PSD se lhe referiu no Parlamento), defendeu a redução dos salários em Portugal  e conseguiu ser contrariado por toda a gente, do PR ao PM, passando por porta-vozes de todos os partidos, incluindo o seu; no aniversário do primeiro ano em funções do Governo, o PSD desceu as intenções de voto, o PS ficou igual, assim como o PP e as subidas são do PCP e Bloco de Esquerda; na semana em que registou o pior resultado de sempre de um Presidente da República numa sondagem, Cavaco recebeu uma camisola da selecção com o  número 10, das mãos de Cristiano Ronaldo.


 


ARCO DA VELHA –  Em 15 anos foram gastos 75 milhões de euros no Metro do Mondego mas o projecto ainda não saíu do papel e deixaram de existir ligações ferroviárias entre Coimbra e a Lousã desde 2010.


 


PALAVREADO – “O Parlamento é um escritório de representação de empresas” – Paulo Pinto, Professor, Vice Presidente da associação Transparência e Integridade


 


VER – Esta semana gostei muito de ver os azulejos de Xavier Sousa Tavares, na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C, à Rua do Século); as pequenas e reveladoras esculturas e os desenhos de Rui Sanches na TPobjectosdearte (Rua S. João da Praça 120, perto da Sé) ; e as noites de Inez Teixeira e as experiências de Inês A, ambas na Plataforma Revólver , na Rua da Boavista 84 – cuidado com a PSP que nas noites de inaugurações anda à caça de multar quem não estaciona certinho no local. Confesso que, de tudo, foram as noites de Inez Teixeira que mais marca me deixaram – depois daqueles quadros nem me apeteceu ir refilar com os zelosos agentes da autoridade que só estão onde se estaciona, e nunca onde há roubos. Coisas.


 


OUVIR –  Hoje não há muitos discos novos que me surpreendam, mas reconheço que «Absence», o terceiro álbum de Melody Gardot, é uma agradável prova do seu talento e criatividade. Ela conta que este disco foi influenciado por estadias mais ou menos prolongadas em Marrocos, na Argentina, no Brasil e em Lisboa (esteve cá quase seis meses em 2011).  Gardot canta no seu inglês nativo, mas também em espanhol e em português- podia ser um pesadelo, mas na realidade é um grande disco – e em boa parte porque ela percebe o que é o tango, ou a bossa nova ou o fado e não se coloca no papel de imitadora turística. Ela saíu-se bem, em grande parte pela produção, excelente, do brasileiro Heitor Pereira. As duas canções «portuguesas» do disco são «Lisboa» e «Amália» - sendo que esta Amália é inspirada por um pássaro e não pela Fadista. Às vezes é difícil explicar porque se gosta – mas este é um grande disco, que pode ser ouvido em casa com o espírito de se estar num bar, a ouvi-la cantar, com improviso e emoção.


 


 


FOLHEAR –  A melhor publicação editada actualmente por uma instituição cultural em Portugal é o mais que fanzine e quase magazine “Próximo Futuro”, espécie de órgão central das programações que António Pinto Ribeiro elabora para  a Fundação Gulbenkian. A presente edição, que leva o nº 10, é dedicada ao mundo árabe e às transformações sociais, politicas e criativas que lá decorrem. A fotografia ocupa felizmente um lugar importante nesta publicação – como os quadros fotográficos de Majida Khattari, que reproduz. Alem disso a edição inclui informações sobre toda a programação, nas diversas áreas que abrange. Se todos os programas fossem assim, não deitava nada fora e não me cabia tanto papel em casa.


 


PROVAR  – Nestes dias em que os jogos do Europeu estão à porta recomendo o bar do Espaço 10, o local desenvolvido por Rui Costa, em pleno Saldanha. Na andar de baixo há um bar onde se petisca (caracóis, pica-pau, presunto...), e ao fim de semana há música ao vivo. Mas nestes dias o que interessa é que os ecrãs são grandes e bons e se pode passar lá um bom fim de tarde a ver os jogos do Europeu. Com um bocado de sorte o próprio Rui Costa ainda lá aparece. Quando a fome apertar basta subir ao primeiro andar, ao restaurante, onde se come bem e com uma vistaça sobre a Avenida da República. Fica no edifício do Atrium Saldanha, entrada pela Avenida Casal Ribeiro 63 A, telefone – 213 528 242.


 


 


GOSTO –  Da Volvo Ocean Race e da forma como ela projectou internacionalmente uma imagem positiva de Lisboa e de Portugal.


 


NÃO GOSTO –  Da falta de activação das marcas de grandes empresas portuguesas, nomeadamente as  ligadas ao ambiente e energia, na Volvo Ocean Race.


 


BACK TO BASICS – Tanto quanto me consigo recordar nunca houve um economista que se tivesse de preocupar sobre como iria conseguir a próxima refeição – Peter Drucker


 


 

junho 05, 2012

O FEIRANTE JOSÉ

O marketing do Continente é bom – tenho que reconhecer. As ideias das acções são concebidas para dar que falar e aproveitar todas as oportunidades e cumplicidades; a publicidade – sobretudo os spots de televisão – são muito apelativos e memorizáveis e existe um bom complemento de comunicação nas acções. Foi assim o ano passado na invasão da Avenida Da Liberdade e tudo indica que assim será este ano no piquenicão do Terreiro do Paço, por gentileza de José Sá Fernandes. No próximo dia 16 o Terreiro do Paço será invadido por uma acção publicitária do Continente – lá descarregarão hortaliças, chourições, porcos, vacas e um sem fim de virtualhas. Para completar o ramalhete a festa será abrilhantada pelo incontornável Tony Carreira. Tudo do melhor, portanto.


 


Numa recente reunião camarária, em que o evento foi desancado até por vereadores da coligação costista, e por vereadores de todas as outras listas, Sá Fernandes disse que  gostaria de fazer isto, mesmo sem acções publicitárias e os jornais relataram que o vereador explicou que as finanças camarárias não permitem à autarquia promover uma iniciativa destas a suas expensas. Ficamos pois a saber que houvesse folga nas finanças e a cidade seria transformada numa feira permanente e num hino aos bons selvagens.


Não resisto a citar Alberto Gonçalves que este Domingo escreveu no Diário de Notícias sobre o tema: «O vereador Sá Fernandes, especialista na consignação de espaços públicos para patuscadas, explica que o evento dará a conhecer animais que muitas pessoas não conhecem. O gnu? O ornintorrinco? Decerto não será o urso, a figura dos que acreditaram que o Zé fazia falta á capital e acreditam que o António, putativo candidato a Belém. Faz falta ao país.»


 


(Publicado no diário Metro de 5 de Junho)

maio 29, 2012

MURO DAS LAMENTAÇÕES

O Dr. António Costa, sempre habilidoso em matéria de propaganda, resolveu criar um mural em plena Baixa, na Rua Augusta 24, na parece do MUDE. Na práctica forrou a fachada do edifício de pequenos papéis adesivos – os vulgares post-it. Empoleirado numa espécie de andaime lá foi fotografado a colocar um papelinho na parede. O exercício destina-se, para além de fazer um pouco de propaganda, a recolher ideias para o orçamento participativo da Câmara Municipal, que tem 2,5 milhões de euros para viabilizar propostas para Lisboa. As melhores, na opinião dos propagandistas, entrarão depois na burocracia do costume para fazer de conta que as ideias dos munícipes contam para alguma coisa – enfim, o exercício é tanto mais tristonho quanto se sabe que António Costa e sua equipa gerem a cidade sem se ralar com o conforto e o bem estar de quem cá vive.


 


A parte mais curiosa desta operação é a utilização dos post-it como instrumento de agitação e propaganda política – criar uma photo opportunity é cada vez mais difícil mas António Costa tem feito sucessivas pós-graduações na matéria, desde que utilizou uma corrida entre um burro e um carro desportivo numa eleição autárquica. Já sabia que realizadores, como Woody Allen, usam post-its para fazer a ordenação das sequências de um filme, mas nunca tinha pensado que podiam servir para enaltecer a imagem de um Presidente da Câmara. Por acaso tenho algumas ideias para Lisboa: Acabem com a EMEL! Internem num manicómio quem teve a ideia das modificações de trânsito no Marquês de Pombal e Avenida da Liberdade! Avaliem a sanidade mental de quem gere os espaços públicos e os transforma em feiras. A lista era longa – dava mais para um muro de lamentações que para outra coisa.


 


(Publicado no DIÁRIO Metro de dia 29 DE Maio)

maio 25, 2012

PRESSÕES, MARCAS, CASOS, SUGESTÕES

PRESSÃO  – Saber o que se passou exactamente nas conversas entre Miguel Relvas, a jornalista Maria José Oliveira e a Direcção do Público é daquelas coisas que dificilmente irá acontecer. Mas uma coisa é certa – este caso vem chamar a atenção para o óbvio: não se brinca com a comunicação e não vale a pena ter demasiados à vontades. Como dizia uma amiga minha é sempre bom manter alguma cerimónia. A propósito reproduzo aqui excertos de uma oportuna fábula escrita por Luis Paixão Martins no blogue «Lugares Comuns» (declaração de interesse – também lá escrevo): «No mesmo dia em que o Público enviou email com perguntas a Miguel Relvas, outro jornal enviou email com perguntas ao presidente de uma grande companhia. Este segundo email foi parar ao diretor de Comunicação dessa empresa. Numa análise rápida este concluiu que as perguntas, embora não fizessem sentido porque partiam de pressupostos falsos, reportavam-se a um tema de grande cobertura mediática e que envolvia sensibilidade. Concluiu ainda que precisava de agir com rapidez e cuidado para evitar um problema de reputação para a sua empresa. Contactou a consultora de Comunicação, descreveu o problema e pediu-lhe ajuda para abordar o assunto junto da editoria e da direção do jornal em causa. Uma pequena equipa de assessores de Imprensa dialogou com os jornalistas argumentando sobre a falta de fundamento das perguntas em causa, circunstância que retirava substância a eventuais respostas. Os editores e a direção do jornal decidiram não insistir na obtenção de respostas às tais perguntas que partiam de pressupostos descabidos. E tomaram essa decisão sem sentirem que estavam a ser pressionados pelos assessores de Imprensa – porque estes não têm nenhum tipo de poder junto dos jornalistas(…) Nas 24 horas em que este processo decorreu o presidente da tal grande companhia esteve empenhado na sua atividade central de gestor – e manteve incólume o seu prestígio junto do jornal que o contactou. Para gerir esse prestígio não precisa de dar o número do telemóvel a jornalistas, atender todos os seus telefonemas e tratá-los com intimidade.»


 


MARCAS – Aviso: o objectivo desta nota é falar do novo filme da Prada. É realizado por Roman Polanski. E é absolutamente exemplar enquanto trabalho em prol de uma grande marca. Já lá vou, mas agora, deixando o cálculo do valor das marcas aos especialistas nas áreas do branding, gostava de abordar a importância da criatividade, da qualidade, da estética e da consistência no posicionamento de uma marca e na manutenção dos seus valores. Uma marca que se queira posicionar nos segmentos superiores do mercado terá que ter critérios nos conteúdos em que investe, na sua embalagem, na forma dos materiais que usa para a sua marca. É como se uma reunião de especialistas em marketing achasse secundário o grafismo dos seus materiais. Se isso acontecesse, como poderiam esses marketeers acompanhar uma marca que se pretende posicionar acima da média e criar uma moda? A discussão é velha como o próprio marketing – comunicar para o máximo denominador comum ou comunicar por forma a criar um posicionamento determinado? O universo das marcas de luxo é rico em ensinamentos nesta área, mesmo na actual conjuntura de crise. É aliás curioso notar que, apesar da crise na Europa e das suspeitas de abrandamento nos países emergentes, se prevê para este ano um aumento de seis a sete por cento no volume de vendas das marcas de luxo. Um estudo recente dos consultores Bain& Company indica que os mercados emergentes já absorvem mais que 30% do volume total dos produtos de luxo, e que a China sozinha é responsável por 20%. Bom, mas voltemos à Prada, que foi onde esta conversa começou. Se forem ao YouTube e pesquisarem «Prada presents A Therapy», vão direitinhos ao filme de três minutos e meio que Roman Polanski realizou para a marca, com actores como Helena Bonham Carter no papel da paciente e Ben Kingsley no papel do psicanalista. O filme, que tem fotografia do português Eduardo Serra, é um exemplo de um conteúdo ficcionado criado para valorizar uma marca e para utilizar a estratégia viral na internet. E tem o mais improvável dos finais.


 


SEMANADA –  A Presidência do Conselho de Ministros celebrou um contrato anual de fornecimento de flores no valor de 18 mil euros; os portugueses trabalham em média 155 dias só para pagar os seus impostos de 2012, mais cinco dias que no ano passado; 300 pessoas por dia deixam de pagar aos bancos os empréstimos que contraíram; cortes levaram a menos 4 mil cirurgias no primeiro trimestre; 26,5% da população activa imigrante está desempregada; a comissão de inquérito ao BPN está a meio do seu prazo de funcionamento e ainda só ouviu duas pessoas de um total de 40 audições previstas; só 43% dos portugueses confiam em instituições políticas.


 


ARCO DA VELHA – Um quinto do território nacional é de propriedade desconhecida.


 


VER – Uma frase de August Sander define aquilo que tem guiado a Estação  Imagem, em Mora: «deixem-me honestamente dizer a verdade sobre as nossa época e as pessoas». Criada por iniciativa de um grupo de entusiastas, há uns anos, a Estação Imagem teve o apoio da Câmara Municipal de Mora, que lhe facultou uma antiga estação ferroviária como sede. Muito por força de Luis Vasconcelos, um fotojornalista com larga carreira e que nos últimos anos adoptou Mora como sua terra, a Estação Imagem pôs de pé um prémio anual de fotografia que já se tornou numa referência e tem seguido uma linha de persistente divulgação do melhor fotojornalismo. Entre os prémios que atribui está uma bolsa que permite, ao premiado, dedicar-se a um tema, numa forma de aprofundamento do ensaio fotográfico que hoje em dia vai senso raro em Portugal. Desde esta semana,  e até 29 de Julho, estão patentes, no torreão Nascente da Cordoaria Nacional, três exposições de fotografia organizadas pela Estação Imagem, em parceria com a Câmara Municipal de Mora:  “O PREC já não mora aqui” de João Pina, “Afeganistão”, de João Silva e os vencedores do Prémio de Fotojornalismo 2011 . A exposição das 50 imagens sobre o Afeganistão, de João Silva, o português que ao serviço do New York Times perdeu as duas pernas no rebentamento de uma mina, é um testemunho único do que é o dia a dia em cenário de guerra. As 24 imagens que integram a exposição de João Pina mostram como ele é um dos mais importantes fotojornalistas portugueses contemporâneos, bom representante de uma geração que mostra uma outra forma de ver Portugal. Finalmente as imagens premiadas do Prémio de Fotojornalismo de 2011 são uma mostra do que de melhor se fez por cá e uma oportunidade para perceber a importância das imagens, mesmo fora das páginas dos jornais e das revistas, como testemunhos de um tempo e de uma época. Há muito tempo que Lisboa não tinha uma exposição de fotografia assim.


 


OUVIR – Jack White, o mesmo dos White Stripes, é um assumido apreciador de blues. «Blunderbuss», o seu álbum de estreia a solo, é um testemunho disso mesmo e, sobretudo, uma oportunidade para ele se revelar como autor de canções mais intímas, Este «Blunderbuss», que para mim é até agora o melhor disco que ouvi este ano,  tem canções absolutamente extraordinárias como «Hip (Eponymous) Poor Boy», «Sixteen Salines», «Love Interruption» e o sublime «Take Me With You When You Go». É um disco de histórias, às vezes confessional, tocado com um rigor e uma simplicidade absolutamente exemplares. Não há muitos talentos na música como Jack White e este disco é prova disso mesmo.


 


FOLHEAR – Como é que uma mulher que morreu há 50 anos consegue continuar a ser capa de revistas? Marilyn Monroe morreu em 5 de agosto de 1962 e é ela que está na capa da Vanity Fair deste mês de Maio. O pretexto é uma série inédita de imagens suas, na derradeira sessão fotográfica que fez com Lawrence Schiller, durante as filmagens de «Something’s Got To Give», em Maio de 52. Muitas destas fotografias apresentam-na quase nua, à vontade perante o então muito novo Schiller. Embora as sequências de imagens sejam extraordinárias o mais delicioso é o relato que o próprio Larry Schiller faz do relacionamento profissional que estabeleceu com Marilyn até à morte da actriz. É um relato do fascínio que ela irradiava à sua volta e uma descrição desses tempos em Hollywood. Imperdível.


 


GOSTO – Da nova campanha de publicidade da Santa Casa da Misericórdia «Há Mais Em Jogo», que mostra facetas sociais pouco divulgadas da instituição.


 


NÃO GOSTO – Das alterações propostas ao trânsito na praça Marquês de Pombal e na Avenida da Liberdade.


 


BACK TO BASICS – «A longo prazo – e às vezes até em relativamente pouco tempo – as mais audazes ideias acabam por se tornarem ridiculamente conservadoras» - Arthur C. Clarke


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 25 de Maio)

maio 22, 2012

UMA IMAGEM CHEIA DE INFORMAÇÃO


 


Este foi o que se chama um fim de semana intenso em matéria de emoções futebolísticas. Sábado o Chelsea derrotou o Bayern na final da Liga Europa e, no Domingo, o Sporting cedeu a Taça de Portugal à briosa Académica. A derrota dos alemães projetou um sorriso em muita gente.


Vou centrar-me no jogo de Munique – a vitória, sofrida e disputada, do Chelsea fez sorrir muita gente por essa Europa fora. Houve logo quem dissesse que esta era a vitória da Libra contra o Euro, que era uma derrota de Merkel. Por cá muitos torciam pelo Chelsea – que nos últimos anos acolheu vários portugueses.


 


Mas o momento do dia foi a fotografia tirada na cimeira do G8, em Camp David, nos Estados Unidos, quando os principais líderes internacionais fizeram um intervalo nos seus trabalhos sobre o estado da economia mundial e assistiram à vitória do Chelsea.


Cameron atirou os braços ao ar no momento da vitória; a seu lado Obama sorria com ar satisfeito. Mas o mais curioso da fotografia está em três outras personagens: Merkel de olhos semi-cerrados não escondia a irritação; a seu lado, Durão Barroso estava tenso, com a mão a apertar o encosto da cadeira, a preocupação marcada no seu rosto – talvez estivesse a pensar que no retomar da conversa a senhora Merkel não estaria bem disposta; e, por fim, sentado, François Hollande, também com ar preocupado, coçava o queixo sem dar mostras de grandes alegrias pela vitória britânica, talvez partilhando com Barroso a ideia de que o desenlace do jogo não ajudava a negociar com Merkel – já chegava uma derrota pública da Alemanha, a chanceler ainda cederia menos nas suas posições depois disto. A fotografia é extraordinária pelo que mostra da preocupação face à alemã. O respeitinho é muito bonito e na imagem vê-se bem o efeito Angela Merkel .


 


(Publicado no diário Metro de 22 de Maio)

maio 18, 2012

Consumos televisivos, o xadrez eleitoral americano, sugestões avulsas

HÁBITOS - Segundo o estudo “One Television Year 2011” da EurodataTV / Mediaediametrie, o consumo de TV na Europa, em 2011, foi de 3 horas e 48 minutos por dia , mais 1 minuto que em 2010. Em Portugal, segundo os dados da Marktest Audimetria, o consumo em 2011 foi de 3h39. Analisando os dados produzidos pela CAEM/GFK entre 1 de Março deste ano e até dia 9 de Maio, o tempo médio visto por pessoa é de 4h29 por dia, 26.3% acima da média europeia e quase uma hora a mais que os dados anteriores de Portugal.
Observando os valores de consumo por pessoa dos 40 países europeus reportados pelo EuroDataTV de 2011, Portugal situou-se a meio da tabela, em 23º lugar. Se compararmos com os valores oficiais da CAEM de 2012, Portugal seria o 4º, apenas ultrapassado pela Sérvia com 5h08 a Macedónica 4h48 e a Hungria com 4h46 e com o mesmo consumo que o Azerbaijão.


Este extraordinário consumo tem uma explicação fácil: segundo os dados da CAEM/GFK, no dia 7 de Maio quase 2 milhões de portugueses viram cerca de 8 horas ou mais de TV. Desses, 34 % são ativos e 70% têm menos de 65 anos. Foram 1.392.000 indivíduos com menos de 65 anos a ver 8 ou mais horas de TV. Dia 7 de Maio, foi a segunda feira com maior consumo de TV desde o início da medição da CAEM. Houve mais portugueses a ver TV e durante mais tempo que em qualquer dia útil não feriado, incluindo dia 30, véspera de feriado. Cada espectador viu  em média 5:30 de TV, mais do que qualquer dos dias úteis (não feriados), incluindo os de férias escolares, desde 1 de Março. Mais cómico ainda é este dado: (entre 11 e 15 de Maio) observa-se que 8.500 espectadores viram 114 horas de Televisão (ou seja mais de 22 horas por dia), e 236.600 viram mais de metade do período ou seja mais de 60 horas (ou seja mais do que 12 horas por dia). E todos os dias se tem continuado a repetir esta novela…



XADREZ – As presidenciais norte-americanas estão a transformar-se numa impressionante partida de xadrez. Logo que Obama declarou aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o conservador Romney anunciou que admitia a adopção por casais do mesmo sexo, sem no entanto aprovar o seu casamento. Traduzido por miúdos, o resultado podia ser este: Obama move para ligação e Romney responde com adopção. Dois dias depois a edição norte-americana da Newsweek (na Europa a capa é diferente) titulava «The first gay president» debaixo de uma foto de Obama com um halo arco íris à volta da cabeça. E a revista « The New Yorker» dava a sua capa a uma imagem da Casa Branca com as colunas da frontaria pintadas das cores do arco iris que é o símbolo gay. Esta dinâmica dos políticos e dos media norte-americanos é de facto impressionante. Com uma declaração Obama fez o seu adversário vir a terreno e conseguiu duas «cover opportunities», deslocando o debate da crise para os chamados temas fracturantes da sociedade. Muito engraçado de observar este trabalho de comunicação utilizando capas de revistas.


 


SEMANADA – António José Seguro declarou-se disposto a encabeçar uma manifestação contra Passos Coelho; foram feitas queixas ao Ministério Público para apurar a responsabilidade de inscrições fraudulentas no PS com o objectivo de manipular as eleições internas das distritais ; começou o julgamento do vice presidente da bancada parlamentar do PS, Ricardo Rodrigues, que em 2010 retirou os gravadores de som a jornalistas da revista «Sábado» que o entrevistavam; Portugal caíu quatro posições no Indíce de Assistência Médica Europeu; estamos na sexta quebra trimestral seguida do PIB; os impostos foram responsáveis por mais de metade da subida dos preços no último ano; a taxa de desemprego real em Portugal atingiu 20% no primeiro trimestre; estão a diminuir as esmolas nas igrejas portuguesas;


 


ARCO DA VELHA – Facebook vale quase duas vezes a bolsa portuguesa


 


VER – Hoje escolhi o site de uma galeria de fotografia, de Nova York, dedicada à música e ao espectáculo. Chama-se morrisonhotelgallery.com e o destaque vai para uma belíssima exposição dedicada à carreira dos Rolling Stones, que está na galeria e que pode também ser vista on line. No site há uma área de exposições apenas existentes em ambiente virtual, e a que está activa neste momento mostra o trabalho de Terry O’Neal, que durante 30 anos fotografou nomes como Frank Sinatra, Dean Martin e muitos outros. Também em destaque uma viagem fotográfica com imagens raras dos primeiros tempos dos Beatles, ainda antes de terem ganho fama e notoriedade. No site pode fazer-se uma pesquisa de fotografias pelos nomes das bandas ou dos fotógrafos.


 


OUVIR – O novo disco do canadiano Rufus Wainright está a causar alguma polémica. Fãs do cantor queixam-se de terem sido atraiçoados e há mesmo quem diga que este é o seu pior disco. Será verdade ou há pessoas para quem a diferença é difícil de suportar? Eu inclino-me mais para a segunda hipótese. As mudanças de estilo em música são como as mudanças de paradigma na política: produzem reacções estranhas. Rufus, neste disco, mudou. Deixou de lado alguma faceta demasiado elaborada – e às vezes um pouco gongórica – dos arranjos muito orquestrais, e simplificou. Arrisco-me a dizer que este é o mais pop de todos os seus discos, com inspiração procurada na música soul e nos rhythm’n’blues  - às vezes até com toques de gospel. Aqui está um trabalho onde a simplicidade marca a diferença. E eu gosto do resultado em canções como «Sometimes You Need», «Barbara», «Candles»,  «Jericho» ou «Rashida», do som dos metais, do baixo acentuado, do piano insistente com que o disco termina numa emotiva balada. (CD Decca Universal, inclui DVD com entrevistas, bastidores da gravação e uma versão do tema «Rashida»).


 


FOLHEAR – A capa da Wired norte-americana de Maio é dedicada a Marc Andreessen, com o título «The Man Who Makes The Future». O nome pode dizer pouco a alguns e é certamente menos popular que o de Bill Gates, Steve Jobs ou Marc Zuckerberg. No entanto Andreessen é considerado pela “Wired”, como o homem que, nas últimas duas décadas, mais fez para mudar a forma como comunicamos. Aos 22 anos ele foi o inventor do Mosaic, o primeiro browser gráfico da internet que permitiu tornar mais fácil e popular a navegação na net. Depois fundou o Netscape e, mantendo o seu espírito visionário, foi pioneiro na “nuvem”, criando o Loudcloud. Mais recentemente, como investidor, esteve ligado ao lançamento de empresas como o Twitter, o Skype, Instagram ou Groupon. A sua história é fantástica, a e a entrevista da Wired é fascinante – na verdade trata-se da primeira da série que a revista vai fazer para assinalar o seu 20º aniversário sobre as grandes figuras que ajudaram a fazer este novo mundo. 20 anos de Wired – nem queria acreditar quando percebi como o tempo passou – ainda me lembro de ver as edições dos primeiros anos.


 


ROTEIRO – A edição europeia da «Time» de 21 de Maio, com François Hollande na capa, sugere um programa para quem tenha apenas quatro horas para passar em Lisboa. Vou fazer um resumo, já que achei divertido o roteiro. Na primeira hora passar pelo Solar do Vinho do Porto, tomar uma bica na Brasileira do Chiado e apanhar o elétrico 28 (evitando os carteiristas, digo eu) até ao Largo das Portas do Sol e apreciar a vista do miradouro. Na segunda hora entrar numa pastelaria e provar um pastel de nata ou uma queijada; se for terça ou sábado passar pela Feira da Ladra e ir comer bacalhau ou polvo ao Zé da Mouraria (na Rua João do Outeiro), acompanhado por vinho verde (que eles dizem que se bebe como água…). Na terceira hora, já comido e bebido, e depois de comer uma sobremesa e um galão no Pois café (Rua São João da Praça em Alfama), passar pelo Museu do Fado e, a seguir, apanhar um táxi para o Museu do Oriente – classificado como quase tão bom como uma viagem a sério a Goa ou Macau. Na quarta hora ir à LX Factory, entrar na Ler Devagar, avançar até aos Jerónimos e, tendo energia, apanhar o ferryboat para o outro lado do rio, rumo a Cacilhas e ir ao Ponto Final beber um tinto e petiscar pão com queijo. O mais curioso de tudo isto é que aposto que há muitos lisboetas que ainda não conhecem todos os pontos deste roteiro que a “Time” deu a conhecer por toda essa Europa.


 


GOSTO – As exportações portuguesas vão com um crescimento acumulado de 11%


 


NÃO GOSTO – O desemprego jovem atingiu 36,2%


 


BACK TO BASICS – Quanto mais se proíbe uma determinada coisa, mais popular ela se torna – Mark Twain


 

maio 15, 2012

A ATRACÇÃO DA COLHER DE PAU

Parece que uma colher de pau e um tacho são a nova guitarra elétrica.  Quando se quer fama,  é mais fácil obtê-la ao pé de um fogão do que numa banda rock ou num filme. As novas estrelas da televisão são cozinheiros. Fazem programas sobre eles próprios, sobre os sítios onde vão, concursos que vitimizam desgraçados que também querem ser estrelas. Em geral têm lindas caras, são elegantes, sem aquela barriguinha nascida à volta da bancada da cozinha. Por este andar qualquer dia os paizinhos vão mandar os filhos para cursos de cozinha em vez de os atolarem em lições de piano.


 


Os cozinheiros que se transformaram em estrelas são o pilar de uma área do entretenimento televisivo que se está a tornar das mais apetecidas no mundo inteiro – de «Master Chef» a «Hell’s Kitchen», passando por canais como «The Food Network». Cozinhar tornou-se numa moda – um maná para concursos e programas de receitas.


 


Há uma outra categoria – a dos que fazem viagens e vão provando petiscos. Na semana passada a estreia, nos Estados Unidos, do programa de Anthony Bourdain dedicado a Lisboa teve o curioso efeito de colocar os discos dos portugueses Dead Combo no top dos downloads do iTunes. A razão é simples – o «No Reservations» sobre Lisboa tinha  banda sonora do grupo e até incluía uma curta conversa com os músicos. Foi o suficiente para os americanos comprarem downloads dos discos – uma prova de que a TV ainda influencia muitos comportamentos e é um grande veículo comercial. O programa, que só será estreado na Europa daqui a algum tempo, já tem sido sobejamente visto no YouTube – o que coloca por sua vez a questão de evidenciar que os programas de televisão são vistos com cada vez maior frequência fora dos ecrãs de TV e nos ecrãs de tablets ou de computadores.


 


(Publicado na edição de hoje do diário Metro)

maio 11, 2012

O Pingo Doce, mudanças digitais, semanada e sugestões avulsas

MARKETING - Polémicas ideológicas e sociais à parte, nos dias a seguir à campanha de descontos do Pingo Doce do dia 1 de Maio muita gente apareceu a elogiá-la como uma grande acção de marketing. Tentemos fazer um balanço. O que correu bem? – uma enorme afluência de público, uma primeira imagem positiva de auxílio às bolsas mais fracas na situação actual de crise, captação de novos clientes vindos de outras cadeias de distribuição, vendas e facturação acima de todas as previsões (por acaso a coincidirem com o tradicional período de aperto de algumas tesourarias devido à liquidação do IVA). E, o que correu mal? – incidentes graves em muitas lojas, acusações de eventual dumping, diminuição do efeito positivo antes referido devido à forma como a acção veio colocar em agenda a questão do relacionamento das cadeias de distribuição com os seus fornecedores (nomeadamente com os produtores agrícolas nacionais), noticiário negativo sobre a transferência dos descontos para os fornecedores. E o que surgiu de novo? – na prática uma alteração do posicionamento da marca Pingo Doce, de loja de proximidade acolhedora para uma cadeia de hard discount. Avaliados os prós e os contras eu diria que os aspectos negativos, em termos de imagem da empresa e do sector da distribuição, superaram os positivos. E, claro, resta saber se o posicionamento do Pingo Doce foi modificado intencionalmente ou não. Se não foi, o investimento para anular esse desvio será considerável. E é mais um ponto negativo.


 


DIGITAL  - Tudo indica que estamos a assistir a uma mudança acelerada na paisagem digital, tal como a temos conhecido até aqui. Há dois anos a revista «Wired» titulava a sua capa de forma provocatória com a frase «The Web Is Dead». Algumas pessoas não perceberam na altura o que isso queria dizer – mas agora, aos poucos, começamos todos a perceber como a provocação era mais pequena que a previsão. Trocando por miúdos: a utilização da internet, dos sites web tradicionais, está a diminuir e a utilização de aplicações teve um aumento explosivo. Em França, um estudo que analisa o primeiro trimestre deste ano, indica que 63,4% dos sites web viu a sua utilização descer, enquanto as aplicações registavam um aumento de utilização de 57,5% . No ano passado foram descarregadas 10,7 mil milhões de aplicações e a previsão é que em 2015 se atinjam os 183 mil milhões. Nada que espante: este ano estima-se que sejam vendidos 119 milhões de tablets, um aumento de 98% em relação a 2011.Tudo muda muito depressa à nossa volta quando olhamos para o mundo digital. Na semana passada um especialista norte-americano assinalava que 80% do investimento publicitário em digital é aplicado em display, a publicidade que aparece por exemplo nos sites dos jornais; mas, sublinhava, 80% do tempo das pessoas que navegam na net é agora passado nas redes sociais como o Facebook, o Twitter, o Linkedin , o Google + e o Instagram. Esta é a tendência e é incontornável. Por isso é que a colocação em bolsa do Facebook e a compra do Instagram dão que falar. E a facturação do Facebook cresceu 45% noi primeiro trimestre, em relação a igual período do ano passado.


 


SEMANADA –  49,1% da população portuguesa já utiliza a internet; mais de 300 famílias entram em incumprimento todos os dias e, destas, uma centena deixa de pagar a prestação da casa; estão a abrir duas lojas de ouro por dia; uma em cada cinco grandes empresas portuguesas tem dívidas em atraso à banca; 1437 alunos universitários pediram empréstimos no valor total de 17 milhões de euros para financiarem os seus estudos; Guimarães Capital da Cultura está sem verbas e vai recorrer à banca para conseguir manter a programação; empresas angolanas reforçaram esta semana as suas posições accionistas no BPI e na ZON; nas eleições francesas a abstenção teve o valor mais baixo dos últimos anos; o tratado de Roma foi assinado há 55 anos, o Tratado de Lisboa foi assinado em 2009 e a Europa está num pantanal.


 


ARCO DA VELHA – Mário Soares apelou a que o PS rompesse o acordo com a Troika; no mesmo dia Carlos Zorrinho sublinhou que o PS não se desvincularia do acordo. O líder da coligação grega de extrema-esquerda Syriza disse que só participaria num executivo se for rasgado o acordo com a troika.


 


VER –  A Carbono é uma loja de discos, especializada nas edições em vinyl, e que fica no nº 6 da Rua do Telhal, perto da avenida da Liberdade. É um espaço com uma dimensão simpática e promoveu agora uma exposição baseada em capas de LP’s intitulada «Descubra as Diferenças». A exposição fica patente até Agosto e baseia-se na comparação entre capas semelhantes, partindo do princípio que qualquer obra parte sempre de influências e referências. Por exemplo a capa de London Calling dos Clash é claramente inspirada pela capa do primeiro LP de Elvis Presley; os Pearl Jam inspiraram-se uma vez num single dos Jackson 5, os portugueses Tédio Boys seguiram o EP «She Loves You» dos Beatles. Ao todo são 200 capas de discos em exposição que mostram semelhanças, homenagens, referências. Se gosta de discos de vinyl esta é uma boa oportunidade para conjugar uma visita a uma exposição invulgar com a descoberta de uma loja única.


 


OUVIR – Walter Benjamim foi um crítico literário, ensaísta e filósofo alemão que viveu no início do século XX. É também o nome escolhido pelo português Luís Nunes, que a partir de Londres, onde vive, criou «The Imaginary Life Of Rosemary And Me», um CD surpreendente, com oito canções simples, onde se misturam referências folk, sonoridades que lembram ás vezes Eels, outras vezes Lambchop ou ainda o lirismo de Mazzy Star. Mas não se pense que este é um disco de cópias – é um disco de belas canções pop, como poucos portugueses dos últimos anos.  Destaque para «Mary», «Airports And Broken Hearts», «Twenty Four» ou «Our Imaginary House», uma delícia que reza assim: ‘«Our imaginary house/has your paintings on the walls/ and my songs under the doors/you may come in if you like/and be happy for a while/or you may move in next door».


 


FOLHEAR – Volta e meia gosto de comprar a revista semanal francesa «Les Inrockuptibles». Não se deixem enganar pelo título – há muito mais coisas lá dentro do que rock – cinema, tendências, literatura, exposições, séries de Tv, sociedade, política. Por exemplo uma bela reportagem sobre os efeitos da campanha porta a porta que os estrategas de Hollande decidiram fazer logo a seguir à primeira volta – quase quatro milhões de casas receberam um contacto da campanha e o efeito eleitoral deve ter rondado os 200.000 votos, sobretudo nos abstencionistas. Aqui está uma coisa para fazer pensar os nossos especialistas em marketing político. A revista tinha também um dossier sobre os negócios entre Sarkozy e Kadhafi e uma reportagem sobre o que resta da Al-Qaeda um ano depois da morte de Bem Laden. Aqui está uma coisa para fazer pensar os nossos especialistas em marketing político. Mas a música tem sempre o seu espaço -  a edição da semana passada tinha na capa a cantora Beth Ditto, dos Gossip a propósito do seu novo disco. E, como acontece com alguma regularidade, a revista inclui um CD amostra com 15 faixas de outros tantos lançamentos recentes, entre os quais os novos dos Citizens, dos Dandy Warhols, The Temper Trap ou de Patti Smith.


 


PROVAR – Em tempos idos o AdLib foi uma das discotecas que marcaram a noite lisboeta. Ficava situada no último andar do prédio que hoje acolhe o Guilty e o Sushi Café Avenida. Há vários  anos o espaço fechou e pouco tempo depois o Hotel Sofitel, na Avenida da Liberdade resolveu ir buscar a designação Ad Lib para o seu restaurante. Tem feito o seu percurso e está nas mãos do chefe Daniel Schlaipfer, que tem origem alemã. As suas propostas são interessantes e tão invulgares como um belíssimo filete de dourada ao vapor com couscous e espuma de caril, que é uma das estrelas da lista. Outra boa referência é o risotto do mar com camarão, polvo e ameijoas.  Ao almoço há um menu executivo a 20 euros, com novidades semanais e que inclui uma entrada, o prato do dia e uma sobremesa. Avenida da Liberdade 127, telef 213 228 350.


 


GOSTO – Da utilização de cortiça portuguesa para a construção do pavilhão de verão da galeria Serpentiner, em Londres, durante os Jogos Olímpicos.


 


NÃO GOSTO – Da forma como Vitor Gaspar vai abrindo excepções aos cortes salariais em 2011


 


BACK TO BASICS – A lógica consegue fazer-nos ir do ponto A ao ponto B; a imaginação leva-nos a qualquer lado – Albert Einstein


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Maio)

AUDIÊNCIAS – ESTAMOS MELHOR?

Os defensores do novo sistema de medição de audiências têm tendência a dizer que a situação atual é melhor que a que existia anteriormente. Esquecem-se de dizer que o sistema anterior estava tecnologicamente desatualizado face às modificações ocorridas nos últimos anos no sistema de distribuição do sinal de TV, esquecem-se de dizer que todas as partes sabiam disso e que, por isso mesmo, se avançou para uma nova solução. Mas será o novo sistema melhor? Ao fim de dois meses de efetiva entrega de dados pela GFK continuam muitas perguntas por responder, há atrasos nos dados( ainda na semana passada), há um aumento artificial do consumo de televisão porque não estão a ser convenientemente aplicadas as regras que a indústria aprovou, existe um segmento, designado por «Outros», cujo conteúdo é objetivamente desconhecido e que na semana passada, a nível nacional, se fosse um canal, teria sido o terceiro mais visto, com 13,2% de share, à frente da RTP. Enfim, se isto é melhor, já nem sei o que seria se o sistema estivesse pior…


(Publicado na edição de 11 de Maio do Correio TV)

maio 08, 2012

SÉTIMA LEGIÃO 30 ANOS

Não sou muito dado a revivalismos, mas na sexta-feira fui ver o concerto quer assinalava os 30 anos da Sétima Legião, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Foi uma noite extraordinária – de músicas, memórias, sensações.


 


Nascidos em 1982 os Sétima Legião foram um dos primeiros grupos a projetar uma imagem de Portugal, feita de orgulho no passado e esperança no futuro. É engraçado recordar o que se passava nessa época. Em 1982 Ramalho Eanes era Presidente da República, Pinto Balsemão era primeiro-ministro. Em Portugal aprovava-se a primeira revisão constitucional e realizou-se a primeira greve geral depois do 25 de Abril de 1974. O ano acabou com a queda do Governo Balsemão.


 


Na música foi o ano de «Thriller» de Michael Jackson, do primeiro single de Madonna e do nascimento de uma banda que havia de dar muito que falar – The Smiths. Nos Estados Unidos  a Apple tornou-se na primeira empresa de computadores pessoais a ultrapassar a barreira dos mil milhões de dólares de facturação num só ano.


 


Na noite de sexta-feira passada dei comigo, no Coliseu, a pensar em como tudo isto se tinha passado. Nessa altura eu escrevia no «Som 80», um suplemento do diário «Portugal Hoje», que deixou de se publicar em Julho desse ano; ainda nesse ano participei na fundação da Agência Notícias de Portugal e o «Blitz» nasceria dois anos depois, em 1984. Foi uma das épocas em que estive mais ligado à música que se fazia e à vibração dos dias, agitados, da política, que noticiava na Agência.


 


Recordei-me de tudo isto sexta-feira, de cada vez que Pedro Oliveira e os seus companheiros da Sétima Legião me fizerem recordar: «Tem mil anos uma história/ de viver a navegar/ há mil anos de memórias a contar».


 


(Publicado no diário Metro de 8 de Maio)

maio 04, 2012

Mudanças à vista nos grupos de comunicação, a inovação do Meo Kanal e sugestões avulsas

COMUNICAÇÃO –  O universo dos Media continua agitado em Portugal. A circulação global dos jornais continua a descer, o investimento publicitário no conjunto dos media tradicionais continua a reduzir-se, os próprios canais generalistas estão a captar menos publicidade. Alguns dos grupos de media mais antigos apresentam resultados preocupantes e existe a sensação de que até ao fim do ano ocorrerão alterações consideráveis na organização de todo o sector. Operações como a anunciada privatização de um canal da RTP vão desempenhar um papel importante nesta reorganização. Muito provavelmente vão surgir novos grupos de comunicação, pode haver consolidação de outros, não está afastada a possibilidade de fusões. É certo que vários grupos procuram novos investidores e que há vários investidores, lusófonos, que querem tomar ou reforçar posição em Portugal. Até ao fim do ano alguma coisa vai mudar e a nova realidade que iremos ter pela frente vai ser diferente da que temos hoje. Tudo isto obriga a pensar, a elaborar novas estratégias. E abre também novas oportunidades.


 


INOVAÇÃO – Felizmente algumas entidades começam a falar da importância que a inovação tem no desenvolvimento do país. Um dos melhores exemplos recentes de inovação é o Meo Kanal – a ferramenta desenvolvida pela equipa do Sapo e que permite que os clientes Meo criem os seus próprios canais de televisão, de uma forma simples. Como sempre acontece, por detrás da simplicidade da utilização está uma investigação complexa e um trabalho que demorou um pouco mais de um ano desde que a ideia surgiu até ser apresentada. A solução do Meo Kanal é única no mundo e é uma verdadeira inovação  - as possibilidades de comunicação que apresenta são numerosas. Apresentado no início de Fevereiro, o Meo Kanal já tem cerca de 14.000 canais criados – desde canais pessoais e familiares, até experiências de jornais e rádios locais ou mesmo mini séries de ficção feitas por crianças. Entre os clientes Meo, a audiência total do conjunto dos canais Meo Kanal já criados está frequentemente no top ten dos hábitos dos espectadores. Algumas universidades agarraram logo a ideia e utilizam o Meo Kanal como uma extensão da sua actividade, algumas empresas aproveitam também já a plataforma para comunicação interna ou formação. E muita gente cria o seu canal para brincar à televisão. Na realidade esta ferramenta possibilita que cada um seja director de programas do seu próprio canal –  esta é a adaptação aos tempos actuais dos jornais policopiados ou das rádios caseiras gravadas em fita magnética de há décadas atrás. Bem mais recentemente os blogues permitiram criar espaços individuais – mas a tecnologia do Meo Kanal vai mais além pela capacidade que tem de mostrar as imagens, organizá-las e fazer a sua emissão, de forma privada ou pública. Esta é uma nova forma de comunicação e no tempo das redes sociais é um avanço na utilização da televisão como pólo de ligação entre as pessoas. É um enorme passo e, para a PT, que deu luz verde ao avanço do projecto e que o está a suportar, é mais um argumento para a sua afirmação internacional e para o seu posicionamento. Inovação é isto: imaginar, fazer, concretizar e utilizar.


 


SEMANADA –   Mais de 800 farmácias têm os fornecimentos de medicamentos suspensos por falta de pagamentos; a taxa de desemprego ultrapassou os 15%; o número de licenciados no desemprego aumentou 40% no último ano;  as multas aplicadas entre 2008 e 2011 por violação da Lei do Tabaco totalizaram milhão e meio de euros; nos tribunais há 1,7 milhões de processos pendentes, o dobro dos que existiam há 15 anos; a bolsa de Lisboa afundou quase 6% em Abril; as vendas dos jornais generalistas caíram 4% nos dois primeiros meses do ano; José Sá Fernandes foi condenado pelo Tribunal da Relação de Lisboa pelo crime de gravação ilícita de uma conversa em 2006 com um dos responsáveis da Bragaparques.


 


ARCO DA VELHA – Só na zona de Lisboa a acção de promoção do Pingo Doce no dia 1 de Maio provocou 32 ocorrências com intervenção da PSP nas diversas lojas; no Porto um casal foi violentamente agredido na disputa por um carrinho de compras; em Viseu o gerente da loja Pingo Doce sentiu-se mal devido ao caos na loja e teve de ser hospitalizado.


 


VER –  Esta semana dedico atenção à fotografia. Começo pela mostra de 57 imagens do World Press Photo, que está no Museu da Electricidade, em Lisboa. Sugiro, a quem está no Porto, a exposição «Cultura Magra», de Paulo Alegria, que o Centro Português de Fotografia e a Estação Imagem de Mora apresentam no edifício da Cadeia da Relação. A terminar o Arquivo Municipal de Fotografia, de Lisboa, na Rua da Palma 246, tem uma curiosa exposição de Mariana Gomes Gonçalves sobre o universo familiar e, sobretudo, outra, notável, de Isabel Nery e Marcos Borga intitulada «Vida Interrompida» e que, na palavra dos autores, é um trabalho sobre a vivência da hospitalização e uma  reportagem sobre a vulnerabilidade humana, inicialmente pensada como uma reportagem para a revista «Visão».


 


OUVIR – Ahmad Jamal é um dos pianistas de referência do jazz e aos 81 anos continua a ter a capacidade de surpreender. O seu novo álbum, «Blue Moon», foi gravado no final do ano passado em Nova Iorque e além de vários temas do próprio Jamal inclui alguns clássicos, desde logo o «Blue Moon» que dá nome ao álbum, mas também «Gipsy» ou «Invitation» ou ainda «Laura», todos com arranjos surpreendentes – desde a marcação da percussão e bateria até à própria forma inesperada como Ahmad Jamal improvisa. Um disco apaixonante. (CD Jazz Village, na Amazon)


 


FOLHEAR – A capa da edição de Maio da «Monocle» é dedicada ao crescente negócio que existe no Japão em torno dos cães– desde a criação e venda dos bichos, até aos profissionais que os passeiam, os cabeleireiros que os tratam, os fotógrafos que os mostram, os cozinheiros que lhes fazem ementas ou os designers que lhes criam acessórios. É um mundo cão – mas existe, está próspero e insensível a crises. Outros pontos de interesse são um excelente guia de viagem à Tailândia, um artigo sobre o papel do Goethe Institut e uma reportagem sobre a revista «Paris Match». E, claro, esta é a edição em que está o especial sobre design, um directório de 32 páginas com o que de melhor há a assinalar nesta área. Bem sei que é publicidade mas as duas páginas que a Espanha publica regularmente na «Monocle» sob o título «I Need Spain», e que mostram exemplos de talento e criatividade, são um exemplo de boa comunicação na construção da imagem de marca de um país. Para completar a cidade de Madrid publica também nesta edição uma página de publicidade sobre algumas das próximas exposições que podem ser vistas na cidade – a Arte de Piranesi, uma mostra das obras dos últimos anos de vida de Raphael, outra de Edward Hopper e a Photo Espanã, que começa no fim de Maio. Nem faço comparações. Para salvar a honra da pátria está uma nota sobre Luis Mendonça, um ilustrador de obras infantis que a partir do Porto tem ganho já fama internacional – podem ver o seu trabalho em gemeoluis.com.


 


PROVAR –  Sou assumidamente fã de sanduíches e ao contrário do que se pode pensar não é muito fácil encontrar bons exemplares desta raça em Lisboa. Melhor dizendo, não era – porque desde há uns meses abriu uma padaria Eric Kayser no Amoreiras Plaza e a coisa mudou de figura. Aconselhado por voz amiga, lá fui um dia destes e gostei do que vi e do que provei. A oferta é variável, mas uma coisa é constante – a qualidade do pão . Em matéria de sanduíches, a escolha é ampla, com várias possibilidades, desde o saucisson francês até queijos igualmente franceses, tudo bem servido e acompanhados por folhas de alface fresca, rodelas de tomate ou outros legumes. O pão é estaladiço e saboroso, o recheio não é transparente nem insuficiente. O resultado final é acima da média. O croissant da casa já ganhou fama, o pão com chouriço merece elogio e aos sábados e domingos há brunch que por nove euros traz o suficiente para aconchegar os estômagos.


 


GOSTO – O restaurante Vila Joya, dirigido pelo chef Dieter Koschina entrou para a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo.


 


NÃO GOSTO – A autarquia de Lisboa demora 96 dias a pagar a fornecedores, mas a do Porto só demora 16 dias.


 


BACK TO BASICS – Quando não se sabe onde se quer ir, qualquer estrada serve – Lewis Carroll


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Maio)