junho 17, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 17)

LIBERAIS & AUDIOVISUAIS – Ciclicamente vem à baila o tema da privatização da RTP, sempre em nome de boas práticas liberais. Estamos num destes ciclos e mais vale encarar o assunto de frente. Geralmente existe alguma confusão entre a privatização da RTP e a concessão a privados do serviço público de televisão. Parece-me que o assunto está, nesta fase muito mal estudado. Se é a empresa RTP que se pretende privatizar vai ter que se fazer uma análise do que pode ser interessante vender, em termos de mercado, com o objectivo de conseguir um bom preço: As frequências de que tem concessão? As licenças de cabo? Os estúdios? Os meios técnicos? Os recursos humanos? O arquivo? A operação de televisão? Um dos canais? A operação de rádio?


 


Eu sinceramente acho que ninguém está, neste momento, em condições de responder a estas questões. E acho que a resposta é muito difícil enquanto não houver uma decisão clara sobre o que deve ser o serviço público audiovisual. Em Setembro de 2002 foi divulgado um relatório com propostas concretas sobre o que devia ser o serviço Público de Televisão, elaborado por um Grupo de Trabalho que na altura integrei. No essencial as conclusões programáticas desse relatório mantêm-se actuais mas nãoi estão aplicadas. O primeiro passo para fazer o que quer que seja é definir aquilo que deve ser assegurado pelo serviço público, estabelecer uma missão, prioridades e objectivos. No essencial isto não está feito.


 


Há também que ter em conta a circunstância política de saber se o Estado quer exercer um papel regulador, quer no mercado da produção audiovisual, quer no mercado dos media em geral. Nos últimos dias tenho lido diversas opiniões favoráveis a que o Estado deixe de ter esse papel regulador, em nome do livre funcionamento do mercado. Aconselho os defensores do livre funcionamento do mercado, nesta matéria, a estudarem bem o caso dos Estados Unidos ou dos países nórdicos, muitas vezes apontados como referência – talvez tenham surpresas quanto às balizas estreitas que nesses países o Estado impõe à actividade de emissão de televisão e ao condicionamentos que existem nos media. Falar de cor com base em ideias feitas é um exercício fatal, que geralmente resulta numa teimosia que é má conselheira.


 


Quer em relação ao papel de regulador na área conteúdos (dizendo quais são as áreas prioritárias de desenvolvimento e investimento), quer de regulador dos media (garantindo uma saudável concorrência não só entre televisões mas entre todos os media em geral), gostaria de deixar aqui uma pequena nota sobre o mercado – e neste caso sobre o mercado português. O nosso mercado é pequeno, está em recessão e não em crescimento. Um filme português de sucesso faz 300.000 espectadores e, além de alguns festivais, não tem exibição internacional. O mesmo se poderia dizer quanto aos programas de televisão. A rentabilidade da produção audiovisual portuguesa está confinada ao nosso pequeno rectângulo, não por fatalismo mas por um conjunto de questões – que vão da fonética da língua, pouco dada à exportação mesmo para o Brasil, até à falta de maturidade da maior parte dos produtos. Por isso mesmo é que vale a pena estudar muito bem o assunto, evitar pressas, promessas e ideias feitas, e ver qual a melhor forma de desenhar um serviço público que possa ser motor de desenvolvimento da produção audiovisual – partindo do princípio de que esta é a única formas contemporânea de mantermos viva a língua e a cultura portuguesa no mundo.


Usando a imagem esta semana anunciada por Steve Jobs, da Apple, os idiomas e as culturas que não estiverem na cloud não existirão num futuro próximo. E sem uma produção audiovisual não estaremos lá de certeza.


 


LER –  Nada como um bom policial para nos reconciliar com a leitura. Há uns tempos descobri as aventuras escritas pelo italiano Andrea Camilleri e aos poucos ele está a tornar-se num dos meus autores preferidos. A escrita é concisa, não se perde em descrições maçadoras e o novelo da história é bem urdido – além disso polvilha cada romance com apetitosas descrições de refeições italianas, melhor dizendo sicilianas - que o herói das histórias é o comissário Montalbano, estabelecido em Vigata, uma vila imaginária mas que, pela descrição, fica na zona de Agrigento. «O Cheiro da Noite» é um original de 2001, editado em Portugal em 2002, pela Difel, que tem divulgado Camilleri em Portugal. Em poucas palavras é a história de um vigarista que imagina um esquema do género D.Branca/ Bernard Madoff e que engana as gentes de Vigata. O romance é a história da investigação em torno do desaparecimento do vigarista e de um seu auxiliar – e como acontece nos policiais de Camilleri, a meio dá-se um volte-face inesperado. Mas isso eu já não conto que não quero estragar a surpresa.


 


VER – A sugestão de hoje é para voyeurs compulsivos. Sugiro uma visita à exposição «The Last Sitting», que mostra 60 fotografias da célebre sessão realizada pelo fotógrafo norte-americano Bert Stern num hotel em Nova York, em Junho de 1962, para a revista «Vogue», apenas seis semanas antes da morte da actriz. A sessão de fotografias durou três dias e – reza a lenda - ter-se-ão bebido muitas garrafas de champage. Stern fez mais de 2500 imagens, muitas delas com Marylin nua – em 1992 foi publicado um livro com a maioria destas imagens e algumas pranchas de contacto anotadas pela própria Marylin. Esta exposição vai estar no Centro Cultural de Cascais até 17 de Julho, de terça a Domingo, entre as 10 e as 18h00.


 


OUVIR –  Se este disco se chamasse «Cavaquinho» podia ser do Júlio Pereira. Como se chama «Ukulele Songs» vem assinado pelo ex-Pearl Jam Eddie Vedder. É um disco tão simples que chega a ser desarmante e tão sóbrio que quase não se dá por ele. O ukulele é descendente do cavaquinho português, levado por emigrantes para o Hawai, e que aí se tornou imensamente popular. No fundo é um pequeno instrumento de cordas (apenas quatro cordas), muito fácil de tocar e com uma gama de acordes limitada. Parece que Vedder o descobriu numa viagem ao Hawai e, desde então, o instrumento acompanha-o para todo o lado. Todas as canções são de Eddie Vedder, a maior parte compostas no próprio ukelele e as participações – vocais ou instrumentais – são absolutamente minimalistas. «Sleeping By Myself», «More That You Know», «Satellite» , «Tonight You Belong To Me» e «Dream A Little Dream» são as minhas preferidas - mas devo dizer que este é daqueles discos a que se vai voltando audição após audição, cada vez com mais prazer. A simplicidade musical do álbum contrasta com o cuidado posto na capa e no pequeno livro, com cuidadas fotografias e um grafismo onde a simplicidade é aparente.  Já agora – na semana passada este «Ukelele Songs» foi o CD mais vendido em Portugal – o que não deixa de ser curioso. Cá por mim acho bem.


 


PROVAR – Cada vez que regresso ao Papa Açorda arrependo-me de não ir lá mais vezes. Já que agora, na cidade, me desloco numa scooter fica bem mais fácil visitá-lo sem perder muito tempo na deslocação, sobretudo à hora de almoço que é quando gosto mais do local. A escolha recaíu nuns filetes com arroz de berbigão e numa açorda de bacalhau, ambos em muito boa forma. Passaram-se as entradas mas havia uns belos figos com presunto de Parma e a carta oferecia ainda outras possibilidades como a deliciosa salada verde com caranguejo de casca mole. Na lista lá continuam os clássicos do Papa Açorda – pastéis de massa tenra com feijão verde,  morcela assada com grelos, costeletas de borrego panadas, fritura mista de peixe com aioli e, claro, a açorda real de gambas e lagosta. Nas sobremesas nunca resisto às queijadinha de requeijão (se não estivesse a tentar ser comedido teria ido para o pudim de ameixas pretas ou a mousse de chocolate). Rua da Atalaia 57, aberto de terça a sábado, telefone 213464811


 


BACK TO BASICS – Nunca devemos deixar que a persistência e a paixão se tornem em teimosia e ignorância – Anthony J. D’Angelo

junho 14, 2011

Adoro-vos! - Paguem a conta, sff

(Publicado no diário Metro)


 


Quando se soube quais eram os candidatos à liderança do PS, Francisco Assis e António José Seguro, o Dr. Almeida Santos, um homem de raro sentido de oportunidade, teve esta elucidativa afirmação: «temos que nos governar com aquilo que temos».


 


Estou em crer que este foi também o pensamento de José Sócrates quando percebeu que a probabilidade de levar uma coça eleitoral era grande.


 


Sabe-se agora que há uns meses, quando Dilma & Lula estiveram em Portugal estando já as eleições marcadas, convidaram José Sócrates para, quando saísse do Governo, ser um caixeiro viajante dos interesses das grandes empresas brasileiras junto da Comunidade Europeia. Numa dessas empresas já está um ilustre amigo de Sócrates, Armando Vara. O convite de Dilma & Lula, que Sócrates já conhecia quando disse adeus, pode ser uma das razões que o levou a dizer que, a partir desse momento, queria ser feliz.


 


Por este andar já nem me admirava que recebesse idêntico convite de outro dos seus grandes amigos, o venezuelano Hugo Chavez que também havia de agradecer os bons ofícios de Sócrates. Infelizmente já não deverá receber convite de um outro seu bom amigo, agora um bocadinho em maus lençóis, o líbio Khadafi.


 


Brincadeiras à parte a saída de Sócrates foi sentida com algum alívio no PS – não se ouviram grandes choros nem lamentações e rapidamente surgiram os candidatos. Têm uma missão difícil – em 2013 há eleições autárquicas, e esse vai ser um teste simultaneamente à nova maioria e ao PS, que terá de tentar recuperar a credibilidade que os devaneios de Sócrates destruíram.


 


Os próximos tempos vão ser duros e mais uma vez, como é nossa triste sina, o autor da dívida pirou-se quando chegou a altura de pagar a factura. Sócrates partiu dizendo «adoro-vos», mas a herança que ele deixou contraria as suas palavras. Não se faz isto a quem se adora. Razão tinha o cobrador do fraque que andou na campanha atrás de Sócrates – já adivinhava que alguém havia de pagar por ele.


 

junho 09, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 9 de Junho)

PASSADO - «Não há exemplo de alguém ter feito tanta coisa mal feita em tão pouco tempo» – assim se referiu Belmiro de Azevedo a José Sócrates, cuja actuação, sublinhou o empresário, não foi a de um Primeiro Ministro, mas de chefe de um grupo. Estas palavras, transpostas do Governo para o PS, são a exacta análise política do que aconteceu ao longo dos últimos anos e que agora está à vista. Sócrates serviu-se do PS para os seus interesses – para manter o seu poder pessoal – e, quando o perdeu, despediu-se com um lacónico «Adoro-vos» - um final que nem os mais criativos argumentistas de comédias de televisão imaginariam. Olha-se agora para o PS e vê-se um partido sem liderança, sem programa, com uma ideologia apenas residual e com um número reduzido de interessados em tentar resolver o problema. Sócrates na realidade secou tudo à sua volta, foi um parasita que se alimentou do aparelho, estiolando-o. Usou os seus amigos, os seus fiéis, para manter a máquina em respeito, usou o Estado para distribuir benesses a um nível que provavelmente ainda nem imaginamos. Fez tudo isto num metódico plano de tomada de poder que no início contou com a cumplicidade actuante do então Presidente da República, Jorge Sampaio, que manobrou a evolução política de forma a só convocar eleições quando Sócrates e o PS já se sentiam com condições para vencerem. Por isso, na hora da despedida, convém recordar que a incompetência de que Sócrates deu mostras como Primeiro Ministro tem origem no golpe palaciano que Jorge Sampaio montou enquanto Presidente da República, depois da saída de Durão Barroso, em Junho de 2004. Esta é também uma parte de tudo o que aconteceu e que a História um dia estudará. O derradeiro episódio do estilo Sócrates aconteceu terça-feira, quando finalmente o Ministério das Finanças anunciou oficialmente as medidas constantes do acordo com a troika, que prudentemente mantivera a recato durante a campanha eleitoral.


 


PRESENTE - O resultado das eleições mostra algumas alterações curiosas na demografia eleitoral – em primeiro lugar mostra a nível nacional uma clara maioria de centro-direita, com sinais de que uma parte deste reforço veio do segmento dos votantes mais novos – aqueles que já chegaram à idade adulta no início deste ciclo de poder do PS – e que o repudiaram. Por outro lado mostra que pouco mais de um ano, depois das autárquicas, a maioria da cidade de Lisboa vota agora no PSD e PP – e está por saber se este resultado não mostra, também, como nas autárquicas parte do PSD se absteve ou fez contra-vapor ou, até, optou por votar António Costa em vez de Santana Lopes – aliás a realidade é que a Distrital de Lisboa do PSD pouco se empenhou nessas eleições locais. Não há-se ser por acaso que o maior reforço de deputados do PP se deu em Lisboa precisamente – foi a reacção natural de muitos eleitores à escolha de Fernando Nobre para liderar a lista do PSD, o que também é outro dado curioso. Se é verdade que Passos Coelho conseguiu derrotar Sócrates, também é verdade – e deve ser salientado - que o fez com um programa de claro posicionamento mais à direita, contribuindo para separar as águas. Mesmo assim, ganhou – o que quer dizer, talvez, que também alguma coisa está a mudar no país. A análise de algumas sondagens pré-eleitorais permitia já perceber que a esquerda estava a reter o voto dos mais idosos e conservadores, que ainda vivem segundo os dogmas criados em 1974 – enquanto ao centro direita surgiam eleitores mais novos e mais abertos a mudanças. É muito interessante ver, a este nível, que o PP em 2005 elegeu 12 deputados e, agora, elegeu 24 – duplicou a sua representação parlamentar em meia dúzia de anos. Toda esta situação é nova em Portugal e representa um desafio adicional para os dirigentes políticos que em breve irão governar o país. As condições estão criadas para a coisa correr bem. Esperemos que haja o bom senso de não estragar o que a votação criou.


 


FUTURO - No rescaldo destas eleições é impossível contornar dois ou três factos que merecem estudo, resposta e eventuais alterações no funcionamento do sistema. O primeiro tem a ver com o aumento da abstenção, contrariando o apelo – aliás um pouco excessivo – de Cavaco Silva. A abstenção não se combate com apelos, combate-se com uma efectiva mudança no funcionamento dos políticos e na forma como os partidos conseguirem relacionar-se com os cidadãos, fomentando a participação cívica e não a limitando à militância nem ao cheque em branco. Estamos, como estas eleições mostram, a deixar a fidelidade absoluta aos partidos e a agir em função dos comportamentos dos políticos – Sócrates e Louçã sentiram isso mesmo nos resultados. Mas o funcionamento do sistema político há-de também passar pela reforma do Parlamento e pela revisão da Lei Eleitoral, cada vez mais desadequada da realidade actual. Os episódios lamentáveis das decisões de tribunais sobre os debates nas televisões devem fazer pensar no absurdo precedente que foi criado – e o melhor é encarar o problema de frente nos próximos actos eleitorais. Finalmente não deixa de ser estranho que esta campanha tenha acabado por ser das mais antiquadas em termos mediáticos – mesmo a presença dos partidos no mundo digital foi menos criativa e interessante que em algumas outras ocasiões.


 


ARCO DA VELHA – O que pensam os candidatos à liderança do PS sobre as declarações da eurodeputada Ana Gomes a propósito de Paulo Portas? - Aqui está um caso em que as respostas iriam ajudar a perceber de que fibra são feitos esses candidatos.


 


VER – Entre Setembro de 2010 e Janeiro de 2011 os trabalhos que integraram a exposição «Paula Rego Anos 70 – Contos Populares e Outras Histórias», que esteve na Casa das Histórias Paula Rego, foram fotografados, digitalizados e trabalhados em alta definição com recurso a duas tecnologias, chamadas Deep Zoom e Silverlight, em parceria com a Microsoft. Estas imagens estão agora disponíveis, para consulta gratuita, através de um link que está no site www.casadashistoriaspaularego.com e no Portal MSN da Microsoft e que permitiu criar uma plataforma online que reúne todas as obras apresentadas nessa exposição, intitulada «Deep Zoom Paula Rego Anos 70», o título que está nos links de acesso. Esta parceria com a Microsoft, que disponibilizou a tecnologia Deep Zoom e operacionalizou tecnicamente a exposição virtual, permite ter toda a informação sobre cada uma das obras, mas também explorar as peças, fazendo zooms parcelares, analisando até a textura e descobrindo pormenores até aqui escondidos. Para além de perpetuar a exposição deste conjunto de obras espalhado por diversos locais, a tecnologia proporciona uma possibilidade de descoberta e interacção capazes de poder atrair novos públicos para a obra de Paula Rego.


 


LER – Na edição de Junho da «Vanity Fair» destaque para um relato dos dias derradeiros de Elisabeth Taylor, um delicioso artigo sobre o que tem sido a vida de Hillary Clinton ao lado de Obama, uma viagem ao mundo da Zynga, a empresa que criou jogos como Farmville, Cityville e Zinga Poker, e por fim uma suculenta entrevista com a cantora Kate Perry (America’s most unconventional sweetheart),  fotografada por Annie Leibowitz. Revistas assim é que me fazem gostar da imprensa.


 


OUVIR –  Os apreciadores de World Music terão boas razões para comprarem «Anthology», uma recolha de temas que marcaram a carreira do músico Salif Keita, originário do Mali. Entre eles está um dos pontos altos da sua carreira, «Mandjou», do início dos anos 70, onde já se intuíam as formas de utilização da voz e dos teclados que haviam de marcar a sua carreira. Esta compilação inclui trabalhos dos anos 80 e 90 e também da primeira década do novo século, entre os quais «Yamore», o seu célebre dueto com Cesária Évora. (CD Universal, na FNAC).


 


BACK TO BASICS – A política não é a arte do possível, é a escolha entre o que é desastroso e o que é desagradável – John Kenneth Galbraith

junho 07, 2011

PARA MEMÓRIA FUTURA

(Publicado no diário Metro de 7 de Junho)


 


As eleições de Domingo foram o reflexo de um país cansado de mentiras e promessas vãs – e isso reflectiu-se de duas formas: por um lado pela elevada abstenção; e por outro pela rejeição fortíssima do PS, e de José Sócrates em particular.


 


Com a derrota do PS fecha-se um ciclo político e nestas alturas é bom fazer um exercício de memória, para que no futuro não esqueçamos o que aconteceu, para além do aumento da dívida, do aumento do desemprego e da crise em que o país foi mergulhado. Alguns lembrar-se-ão que Luis Campos e Cunha, o seu primeiro Ministro das Finanças, avisou bem cedo do rumo que as coisas iriam tomar. Mas o que veio a seguir ultrapassou tudo o que se esperava: utilização da CGD para patrocinar a tomada de poder no BCP e financiar guerras internas de accionistas, tentativas de compra de uma estação de televisão incómoda para o Governo, casos de corrupção uns atrás dos outros. Na noite das eleições uma jornalista corajosa perguntou a Sócrates se ele achava que os processos judiciais, que foram travados enquanto ele foi Primeiro Ministro, iriam agora avançar. Foi uma pergunta oportuna.


 


Mas há outro episódio que deve ficar para a memória – a queda de Sócrates é também a queda de um processo fabricado por Jorge Sampaio quando era Presidente da República. Na altura em que Durão Barroso partiu para Bruxelas, Sampaio recusou-se a convocar eleições antecipadas, contra a opinião de muita gente, porque sabia que Sócrates e o PS, nessa altura, ainda não estavam preparados para ir a votos. Seis meses depois, com a máquina do PS já a rodar, encontrou um pretexto para derrubar o Governo que ele nomeara e convocou eleições antecipadas. Sócrates chegou a Primeiro Ministro pela mão de Jorge Sampaio, num episódio político nebuloso que objectivamente favoreceu o PS. Por isso também Jorge Sampaio é co-responsável de tudo o que aconteceu e também ele foi um dos grandes derrotados de 5 de Junho.

junho 03, 2011

(publicado no Jornal de Negócios dia 3 de Junho)

MUDANÇA - A partir de segunda-feira nada será igual. Temos prazos apertados para cumprir. Metas difíceis de atingir. Equipas governativas para formar. Vão encontrar um país que precisa de voltar a ganhar confiança e energia – porventura o desafio mais difícil depois de anos de anestesia e depressão. O novo executivo vai ter de gerir melhor os recursos, dinamizar a economia e motivar as pessoas. Espero que os novos governantes tenham o bom senso de olhar para Portugal como um país e não como uma empresa integrada numa multinacional europeia. Espero que saibam que a governação e a política têm um lado racional e rigoroso, mas também um lado de paixão e desafio. Espero que combinem o cumprimento dos compromissos exteriores com as expectativas de quem cá vive. Temos um PIB reduzido, um crescimento anémico. Deixámos de produzir e concentrámo-nos a consumir e a alteração deste paradigma é decisiva para podermos sobreviver. Quem se sentar no Governo tem que ser realista, encarar os problemas de frente, não esquecer as dificuldades do país nem as dificuldades das pessoas. É no equilíbrio da gestão destas dificuldades – colectivas e individuais – que está a chave de podermos começar a resolver os nossos problemas mais importantes. E, sobretudo, de termos êxito a recuperar a economia e tornar melhor a vida dos portugueses – que é a única razão de existência de qualquer Governo. Muitos dos anteriores dirigentes políticos e partidários esqueceram-se deste objectivo, que parece simples. Por isso mesmo segunda-feira começa um desafio ao nosso sistema político e aos nossos partidos. Serão os partidos e os seus dirigentes capazes de vencer a descrença? Querem continuar, como até aqui, a lamentar o passado, ou estão mesmo interessados em mudar o futuro? Será possível que os partidos voltem a conquistar a confiança e a participação cívica dos portugueses?


 


COLIGAÇÃO – Miguel Relvas disse esta semana numa entrevista que «Passos Coelho será melhor Primeiro-Ministro do que candidato» - a frase resume o percurso zigue-zagueante do PSD nestes meses mais recentes, os erros de comunicação e a forma como geriu, mal, expectativas. Já aqui escrevi que sou incapaz de votar Fernando Nobre, que vou votar no CDS, por ter sido um exemplar grupo parlamentar na oposição a Sócrates e porque assim estou certo de reforçar o equilíbrio das forças num governo de coligação - que é necessário para tirar o país do pantanal onde foi colocado por anos de autismo de José Sócrates. Continuo sem perceber porque é que na conjuntura em que estávamos o PSD não quis fazer uma coligação eleitoral com o CDS-PP – provavelmente a campanha seria mais esclarecedora, o senhor engenheiro teria ficado antes numa situação mais incómoda e ter-se-iam evitado disparates como a candidatura de Fernando Nobre em Lisboa. Estava eu muito irritado com tudo isto quando, há umas três semanas, tive a sorte de assistir a uma conferência de Bob Wilson - ele veio a Lisboa falar sobre as cidades mas acabou a falar da vida. Mostrou como é importante parar para pensar, como falar devagar ajuda os outros a perceberem o que se passa. Falou do equilíbrio, da importância do vazio e do silêncio. Do palco, do teatro e do dia-a-dia. Da luz, e da sombra. Foi uma conferência absolutamente extraordinária, organizada por Luis Serpa. Foi um fim de tarde onde aprendi muito, e que me ajudou a tomar uma decisão. Nesse dia, à noite, lembrei-me de Bob Wilson ter dito que gostava de ver as notícias na televisão com o som desligado. Ele tem razão. Passei a perceber bem melhor as coisas.


 


ARCO DA VELHA – A sabedoria popular manifesta-se hoje em dia no Facebook, onde li esta pérola:  Espanha pede ajuda à União Europeia por causa dos pepinos – já Portugal pediu ajuda à União Europeia por causa de um nabo…


 


LER –  A edição de Junho da revista «Monocle» é dedicada à importância do transporte num mundo global. É um tema curioso – até nas nossas circunstâncias particulares, com a necessidade de articular ligações com Espanha e ser realista nos custos – a este propósito vale a pena ler o editorial de Tyuler Brulé, o director da revista.. Bons artigos sobre a nova música da Etiópia, uma reportagem sobre a vida em Tunes depois da revolução e a forma como os negócios estão a correr na Tunísia e, ainda, um ponto de situação sobre a evolução do design nos países nórdicos. A rematar um portfolio fotográfico sobre Berlim e as pessoas que para lá foram viver e trabalhar. Outros artigos interessantes: como os locais de trabalho são importantes para o equil´+ibrio das pessoas e como evolui o negócio da arte em Hong Kong. As cidades em destaque são Viena e Londres e para a ediçlão do m~es que vem já se anuncia Florença. Embora algumas vezes sem o fulgor das primeiras edições, a «Monocle» continua a ser o melhor guia de tendências.


 


AGENDA – No MUDE, em Lisboa, a colecção permanente tem uma nova exposição, que refresca o olhar sobre o acervo, com novas peças, novos autores e também uma maior presença de criadores portugueses – ao todo 200 peças em exposição até 2 de Setembro. «Seguindo o Traço», uma nova exposição de desenhos de Teresa Gonçalves Lobo, patente no Centro Cultural de Cascais até 26 de Junho; desenhos e fotografias de Pedro Tropa na Galeria Quadrado Azul, no Largo Stephens em Lisboa até 2 de Junho; «Cem Vezes Nguyen», uma exposição da PHotoEspaña 2011 no Museu Berardo até 28 de Agosto; até 17 de Julho na Fundação EDP «Vestígios - Memórias da antiga carpintaria da Central Tejo», um trabalho fotográfico de Luis Campos; na Módulo Tito Mouraz, apresenta, agora em Lisboa, o portofólio, Leitura(s), depois de uma primeira apresentação nos Encontros da Imagem 2010 em Braga, em Setembro passado. Já agora – visitem o site www.artecapital.net , que tem de longe o melhor guia sobre exposições de arte contemporânea em Lisboa.


 


OUVIR –  Um destes dias li, a propósito de «Here We Go Again», o disco de Willie Nelson e Wynton Marsalis que aborda o rertório de Ray Charles, com a colaboração de Norah Jones em algumas faixas, que Nelson cantava pessimamente e que dava cabo destas canções. Eu acho que afirmações destas são oriundas de concursos tipo «Ídolos» - em que se privilegia quem tem vozes perfeitas, descurando a forma como se pratica a música – de preferência certinha, cinzentinha e chatinha. Pois bem: o mundo está cheio de grandes vozes que cantam mal e tem muitos casos de fracas vozes que interpretam de forma superior – é o caso de Willie Nelson e são estas vozes imperfeitas que ficam para a história na música popular. Integrado na iniciativa «Jazz At The Lincoln Cener», este disco, gravado ao vivo, é uma mostra do que o jazz tem de melhor – a improvisação e o gôzo dos músicos e cantores. É um disco saudavelmente imperfeito, divertido como poucos hoje em dia, espontâneo e natural e, acima de tudo, uma grande homenagem ao talento de Ray Charles. CD Blue Note, na Amazon.


 


PROVAR – Confesso que gosto de conservas e nós em Portugal temos uma grande tradição, hoje em dia por vezes esquecida, na indústria conserveira. Nos Açores as conservas de atum são um clássico e uma das fábricas tradicionais da região – a Santa Catarina - acabou de ganhar um prémio da Greenpeace por boas práticas na pesca e tratamento do peixe. As conservas Santa Catarina apresentam algumas novidades pouco vulgares como filetes com orégãos, com batata doce e com tomilho. Qualquer das três variedades foge ao que estamos habituados e o ex-libris da marca é a conserva de ventresca de atum, a barrtiga do peixe, considerada a parte mais rica e saborosa. As conservas Santa Catarina podem ser encontradas em boas lojas gourmet e num no site www.azoresgourmet.com.pt , que aliás recomendo a quem quiser adquirir on line produtos da região.


 


BACK TO BASICS – A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes (Winston Churchill)

maio 31, 2011

O VOTO ÚTIL É O VOTO LIVRE, ONDE QUISERMOS

Em Democracia o voto serve para julgar acções destas e as eleições existem para julgar os políticos.  A única utilidade do voto é a liberdade de escolha – querer, como às vezes se faz, argumentar com o voto útil é limitar a liberdade do voto. Na realidade o voto útil está para as eleições como a ditadura para os sistemas políticos.


 


Boa parte da acção do futuro Governo está limitada acordo com o FMI e a União Europeia que é o corolário da má governação dos últimos anos. De certa maneira esse é um plano comum que tem que ser seguido, ganhe quem ganhar. Mas o plano pode ser implementado de várias maneiras.


 


Eu prefiro alguém que tenha em conta o desenvolvimento de sectores como a agricultura e a pesca em vez do alcatrão, que tenha cuidado na aplicação de políticas sociais e, se me permitem, que nos sectores que a mim me dizem mais respeito, na área da Cultura, do audiovisual e dos meios de informação (nomeadamente na gestão do serviço público de televisão), esteja mais próximo daquilo que eu penso. E, não me é indiferente saber quem são os candidatos pelo círculo onde voto, que é Lisboa.


 


Acontece que, desta vez, nas propostas programáticas, na forma de encarar a aplicação do Acordo, e na lista de candidatos, a minha escolha, o meu voto,  vai para o CDS/PP .


 


E desta vez voto CDS/PP porque uma democracia saudável não deve viver apenas com dois grandes partidos. É importante que exista um terceiro partido com peso eleitoral – só isso permitirá uma coligação equilibrada e dinâmica. Sem partidos com expressão não há coligações fortes. O voto mais útil é aquele que é livre.


 

maio 27, 2011

(publicado dia 27 no Jornal de Negócios)

DEBATES – Dos 11 debates realizados na televisão o mais visto foi o de Sócrates com Passos Coelho, seguido de Sócrates com Paulo Portas. O menos visto entre os partidos parlamentares foi o que decorreu entre Louçã e Jerónimo de Sousa. O resto esteve quase empatado – sendo que, do restante, o debate entre Passos Coelho e Louçã foi o que registou melhor resultado. O debate entre os partidos não parlamentares teve um share de 12,4%. De uma forma geral, tirando os dois debates mais vistos, nenhum contribuíu de facto de forma significativa para o share das estações que o transmitiram – o que quer dizer, de uma forma geral, que não houve muita gente a ir expressamente à procura daqueles debates na estação onde estavam a ser transmitidos.


É certo que chamar debates ao que se passou releva de alguma boa vontade. Sócrates optou por querer subalternizar os moderadores e pretendeu sempre marcar a agenda das conversas – talvez no futuro possa ensaiar uma carreira na televisão, desde que não o façam falar inglês. Passos Coelho melhorou ao longo do ciclo e Paulo Portas foi o que mais pretendeu discutir assuntos em vez de replicar sempre a mesma ideia. Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, como o confronto entre os dois mostrou, são de uma previsibilidade total e de algum afastamento da realidade, que se acentua quando ficam a falar sozinhos um com o outro. Têm um ponto comum com Sócrates: repetem sempre os mesmos pontos fortes e parecem imutáveis face ao mundo à sua volta.


Como as primeiras sondagens desta semana também mostraram os debates contribuíram relativamente pouco para definir melhor os tendências de voto e para ajudar os indecisos a tomar posição. Tudo isto, somado aos resultados moderados de audiência, devem naturalmente fazer pensar, em próximas eleições, se não vale a pena utilizar outros modelos, mais eficazes. Em abono da verdade deve dizer-se que têm sido as máquinas partidárias, e não as estações de televisão, o grande obstáculo a que o modelo possa evoluir e ser mais eficaz no esclarecimento dos eleitores.


 


O MEU VOTO – Nas eleições de há 25 anos para cá já me abstive, já votei nulo, já votei branco e na maioria delas votei no PSD, de que aliás fui candidato, como independente, por duas ocasiões, em eleições autárquicas. Já fui algumas vezes vítima da teoria do voto útil, mas desta vez resolvi que votarei tendo em conta os candidatos que cada um escolheu, o trabalho parlamentar realizado pelos partidos e os programas apresentados - sobretudo nas áreas que pessoalmente me são mais próximas, e que têm a ver com a comunicação, o audiovisual, a política cultural e a criatividade. Tendo em conta que os cenários macro estão dominados pela catastrófica situação do país e pelo acordo com a troika,  aspectos parcelares dos programas dos partidos assumem um papel claramente de factor de diferenciação. Por outro lado é certo que a indicação de Fernando Nobre como nº 1 da lista do PSD em Lisboa, me impede, por uma questão de coerência e bom senso, de votar na lista que ele encabeça – não o achei capaz de ser Presidente da República, não o acho capaz de ser um bom deputado e muito menos acho que ele mereça ser Presidente da Assembleia da República. Por outro lado, e algumas vezes aqui escrevi isso, ao longo destes anos mais recentes o PP foi o partido de oposição com um grupo parlamentar mais actuante, regra geral com boas propostas e, por isso mesmo, o mais eficaz na luta parlamentar contra o Governo de Sócrates. Finalmente acresce que o programa do PP tem, em questões como a RTP, o incentivo às indústrias criativas, e a maior ligação entre a economia e turismo e as actividades culturais, uma abordagem geral da qual me sinto mais próximo do que daquela que o PSD apresentou. O apelo ao voto útil não pode ser encarado como razão suficiente para passar uma esponja sobre os erros cometidos, nas escolhas das listas e nas opções programáticas. Como a política não é uma religião, afasto a lógica da fé seguidista e da seita.


Por isso mesmo nestas eleições de 5 de Junho irei estrear o meu voto no CDS/PP. Faço-o para votar numa alternativa consistente ao Governo do PS, faço-o porque penso convictamente que uma democracia saudável não pode viver apenas com dois grandes partidos, faço-o porque é importante que exista um terceiro partido com peso eleitoral – só isso permitirá uma coligação equilibrada e dinâmica. Sem partidos com expressão não há coligações fortes. Estou seguro do meu voto. E contente por ser uma escolha e não uma fatalidade.


 


SEMANADA –António Costa admitiu que «há mais PS para além de Sócrates»; Francisco Assis elogiou Pedro Passos Coelho; Almeida Santos mostrou-se confiante na possibilidade de uma nova liderança do PS em caso de derrota eleitoral do PS.


 


ARCO DA VELHA – O PS andou a oferecer em Penafiel bilhetes para o oceanário Sea Life, do Porto, como contrapartida da presença no comício de José Sócrates na capital do norte, no próximo domingo. Na quarta feira mais de 200 pessoas já tinham reservado lugar nos autocarros também disponibilizados gratuitamente pelo PS.


 


COMUNICAR – Numa conferência organizada esta semana pela Associação Nacional de Comunicação de Empresa,  Nuno Morais Sarmento fez uma curiosa abordagem das evoluções recentes e sua repercussão na intervenção cívica       , nomeadamente as redes sociais. Como sublinhou, as gerações mais velhas olham para as novas ferramentas como um modelo de comunicação e as  gerações mais novas vêem estas ferramentas como uma plataforma de relacionamento, intervenção e organização. "Qual a razão para um jovem hoje optar por um modelo partidário piramidal (e cheio de filtros) quando, com um clique no Facebook pode partilhar a sua opinião de forma directa e integral?" – foi a pergunta que Morais Sarmento deixou no ar. Aqui está um excelente tema para que os dirigentes partidários reflictam, a propósito da forma como hoje em dia fazem campanha eleitorais e funcionam com as suas organizações.


 


LER –  Continuando nas recomendações de leitura em período eleitoral sugiro-vos um dos mais recentes volumes  da colecção «Ensaios» da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a Relógio d’Água. Trata-se do muito oportuno «Portugal e o Mar», de Tiago Pitta e Cunha, consultor do Presidente da República para os assuntos da Ciência, do Ambiente e do Mar. Como autor recorda, depois da adesão europeia, « o mar foi dispensado das grandes opções políticas e económicas nacionais», com numerosos prejuízos e com uma enorme quebra de toda a actividade ligada à pesca. Portugal, recordo, dispõe da maior região marítima da União Europeia e o autor explora a possibilidade de conjugação da economia com a nossa geografia e o aproveitamento dos seus recursos. Como sempre vale a pena ver, neste período, como os diversos partidos encaram esta matéria nos seus programas.


 


OUVIR – Desta vez não vou falar de um disco, mas de um autor, de Bob Dylan, que esta semana completou 70 anos. Começou a gravar com 21 anos, tendo feito algumas das canções mais marcantes da música popular contemporânea, como «Like a Rolling Stone» ou «The Times They Are A Changin’». Mas aquilo que para mim é verdadeiramente importante em Dylan tem a ver com a forma como escreve os textos das suas canções – rompeu barreiras e preconceitos e criou uma nova forma de escrever ( e cantar) poesia. Mais – foi ele quem primeiro mostrou que alguma da melhor poesia moderna aparecia na forma de letras de canções populares e foi ele a abrir caminhos para dezenas de outros compositores, que falam do quotidiano, das suas preocupações, da guerra, da sociedade em que viviam. Esta nova poesia, vivida, cantada e actual, criou um relacionamento diferente e mais intenso com os seus públicos. Mais que um músico ou um cantor Dylan é um dos grandes poetas da segunda metade do século XX e é essa imagem que marca a sua diferença.


 


BACK TO BASICS – Quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito (William Blake)


 

O Meu Voto

Nas eleições realizadas de há 25 anos para cá já me abstive, já votei nulo, já votei branco e na maioria delas votei no PSD, de que aliás fui candidato, como independente, por duas ocasiões, em eleições autárquicas.


 


Já fui algumas vezes vítima da teoria do voto útil, mas desta vez resolvi que votarei tendo em conta os candidatos que cada um escolheu, o trabalho parlamentar realizado pelos partidos e os programas apresentados - sobretudo nas áreas que pessoalmente me são mais próximas, e que têm a ver com a comunicação, o audiovisual, a política cultural e a criatividade.


 


Tendo em conta que os cenários macro estão dominados pela catastrófica situação do país e pelo acordo com a troika,  aspectos parcelares dos programas dos partidos assumem um papel claramente de factor de diferenciação. Por outro lado é certo que a indicação de Fernando Nobre como nº 1 da lista do PSD em Lisboa, me impede, por uma questão de coerência e bom senso, de votar na lista que ele encabeça – não o achei capaz de ser Presidente da República, não o acho capaz de ser um bom deputado e muito menos acho que ele mereça ser Presidente da Assembleia da República.


 


Por outro lado, e algumas vezes aqui escrevi isso, ao longo destes anos mais recentes o PP foi o partido de oposição com um grupo parlamentar mais actuante, regra geral com boas propostas e, por isso mesmo, o mais eficaz na luta parlamentar contra o Governo de Sócrates. Finalmente acresce que o programa do PP tem, em questões como a RTP, o incentivo às indústrias criativas, e a maior ligação entre a economia e turismo e as actividades culturais, uma abordagem geral da qual me sinto mais próximo do que daquela que o PSD apresentou. O apelo ao voto útil não pode ser encarado como razão suficiente para passar uma esponja sobre os erros cometidos, nas escolhas das listas e nas opções programáticas. Como a política não é uma religião, afasto a lógica da fé seguidista e da seita.


 


Por isso mesmo nestas eleições de 5 de Junho irei estrear o meu voto no CDS/PP. Faço-o para votar numa alternativa consistente ao Governo do PS, faço-o porque penso convictamente que uma democracia saudável não pode viver apenas com dois grandes partidos, faço-o porque é importante que exista um terceiro partido com peso eleitoral – só isso permitirá uma coligação equilibrada e dinâmica. Sem partidos com expressão não há coligações fortes. Estou seguro do meu voto. E contente por ser uma escolha e não uma fatalidade.

maio 24, 2011

PORTUGAL A 3D

(Publicado nõ diário Metro de 24 de Maio)


 


Ainda não é desta que Hollywood se dedicou a fazer uma super-produção com Portugal por tema. Mas mesmo sem Hollywood, Portugal tem direito ao seu 3D, uma oferta do sempre modernaço José Sócrates. Com persistência e aquela teimosia que é seu apanágio, Sócrates dedicou-se ao longo de seis anos a este 3D:  Desemprego, Dívida e  Descalabro. A sua carreira de governante resume-se a isto – obras públicas sem nexo, descontrolo na despesa, aumento da dívida, negação da realidade. O resultado está à vista de todos.


 


Desta vez não há que atribuir culpas à herança encontrada – Sócrates governou como quis, fez o que quis, nos seis anos que leva de descalabro aumentou o nosso endividamento em 82,9 mil milhões de euros,  tanto como todos os governos juntos nos 23 anos anteriores. A única coisa de que Sócrates é recordista é no endividamento anual, no aumento do desemprego e no descalabro das contas públicas.


 


E, no entanto, para muitos, Sócrates simboliza ainda a esperança num futuro melhor – são os que não acreditam nos números, os que estão dispostos a perdoar – como se a política fosse uma questão de fé e não a análise do exercício do poder. As eleições resumem-se a isto: Sócrates quer continuar no poder. Portou-se de forma a ser reconduzido ou merece ser substituído?


 


Eu sou dos que acha que deve ser substituído. Teve tempo- seis anos -  e o resultado da sua governação é mau, nos indicadores económicos e nos indicadores sociais. Não foi capaz de reagir à alteração da conjuntura e persistiu nos erros. A sua má governação foi-se agravando ao longo do tempo, recusou-se a corrigir erros e chegou ao fim com um Governo esgotado e dividido.


 


Não se trata de ter tido azar, trata-se de ter sido incapaz. Por isso mesmo nestas eleições existe um voto profundamente inútil, que é votar para José Sócrates se manter no poder a agravar o que tem feito – porque ninguém sinceramente acredita que, de repente, ele faça bem o que passou seis anos a fazer mal.

maio 23, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de dia 20 de Maio)

COMUNICAR – O programa do PSD é um documento muito bem feito a nível do levantamento dos problemas que existem em algumas áreas, preconizando  algumas medidas desejáveis e algumas medidas possíveis; infelizmente,  é tecnicamente tão bom, quanto é difícil de utilizar do ponto de vista de comunicação. Alguém precisava de pegar neste programa e transformá-lo num manifesto, com linguagem clara, prioridades definidas, objectivos colocados de forma sintética, tudo isto divulgado de forma contemporânea e massificada. Assim, embora tenha um conteúdo político importante, arrisca-se a ser politicamente irrelevante – e isso é o pior que podia acontecer ao PSD nesta altura.


Transformando um pouco um belíssimo slogan recente, convinha que alguém dentro do PSD assumisse que Portugal é um país e não uma empresa – e que os métodos que funcionam numa empresa moderna e eficaz com uma liderança clara, não funcionam de todo num país deprimido, com um eleitorado confuso, sem liderança definida. Num país temos que balançar razão e emoção e, em comunicação, ideias a mais resultam numa má ideia e num péssimo resultado. O PSD tem um programa com boas ideias mas com muito insuficiente visibilidade. Têm duas semanas para tratar disto – e não resisto a citar o treinador do ano, André Villas Boas, em vésperas da final da Liga Europa: «O favoritismo não serve para nada».


 


PARTIDOS – Votar num partido político não é seguir uma fé cega, é escolher entre várias propostas,  comparar como cada um usou o poder e que resultados obteve. O ruído em torno do voto útil sempre me irritou um bocado e serve basicamente, em qualquer quadrante ideológico, para justificar o injustificável. As eleições têm por objectivo escolher quem tem melhores ideias, quem apresenta melhor equipa, pessoas que nos agradam e respeitamos. Votar de forma racional nos melhores é a única forma que temos por responsabilizar os partidos pelas escolhas que fazem. As eleições não são um jogo de futebol entre dois clubes – e reduzi-las a isto é passar um atestado de menoridade ao eleitorado. Como se vai vendo crescentemente, em cada vez mais países, é bom ter mais que dois partidos com expressão eleitoral significativa – até porque as eventuais coligações ficam mais fortes e estáveis.


 


TELEVISÃO – Nas últimas semanas voltou à baila o tema da privatização da RTP, de uma forma bastante confusa no entanto. Existe aqui uma questão prévia – estamos a falar de privatização da concessão do serviço público ou de privatização da empresa RTP, ou de ambas? Se estamos a falar de privatização da concessão do serviço público convém primeiro que sejam bem definidas as obrigações que o operador escolhido deve preencher e as condições em que o fará, e o que acontece a seguir à RTP. Se estamos a falar da privatização da empresa RTP temos que ver qual o seu impacte no mercado, sobretudo na situação actual. Esta não é uma questão ligeira porque a RTP, para além do universo radiofónico, que não vou aqui considerar, detém dois canais de televisão em sinal aberto, dois regionais, dois internacionais e dois canais de cabo, todos eles com receitas de publicidade, embora nos dois canais abertos com um regime especial, mais limitado que o dos operadores privados. Não há nada que impeça que a RTP possa vir a ser privatizada, no todo ou em parte – no entanto o Estado tem o dever de agir por forma a salvaguardar a concorrência e evitar um súbito desequilíbrio no mercado.


 


O mercado de televisão em sinal aberto vale, em termos publicitários,  cerca de 350 milhões de euros por ano, ou seja cerca de metade do total do investimento anual publicitário do mercado português. Este volume total não estica e não tem crescido – aliás tem diminuído de forma progressiva ao longo da última década e sobretudo nos últimos dois anos.


Por outro lado assiste-se, desde 2010, a uma quebra do investimento nos canais abertos (os da RTP , a SIC e a TVI) e a um aumento do investimento nos canais de cabo – mas convém esclarecer que, no universo da televisão, todos os canais considerados, não há um aumento mas sim uma diminuição das receitas publicitárias totais.


 


Neste ano, por exemplo, tem existido espaço livre em todos os canais comerciais – ou seja a oferta já é quase sempre maior que a procura. A consequência disto é que os preços irão ter, a manter-se esta situação,  uma tendência para diminuir ainda mais. Se por força de uma privatização da RTP, no todo ou em parte, forem disponibilizados mais seis minutos – e no pior dos cenários mais 12 minutos de publicidade por hora nos canais abertos - a oferta ainda aumentará mais e a procura não crescerá seguramente ao mesmo ritmo. Ou seja, com um excesso de oferta e a mesma procura (cenário optimista), ocorrerá uma redução ainda maior dos preços negociados, e isto tem duas consequências: os operadores de televisão terão receitas menores - o que pode pôr em causa a sua sobrevivência; e por outro lado o mercado português, que já tem uma percentagem de investimento publicitário muito alto em televisão quando comparado com outros mercados europeus, terá um desvio ainda mais acentuado – e quase inevitavelmente à custa de quebras ainda maiores no investimento em imprensa – que neste momento é o elo mais fraco da cadeia dos media.


 


Nós precisamos, em Portugal, de grupos fortes de media - só assim está assegurada a livre expressāo, um dos pilares das sociedades livres e da democracia. Enfraquecer os grupos de media é corroer a base da democracia. Qualquer movimento que se faça em relação à RTP tem que ter isto em conta.


 


ARCO DA VELHA – Os CTT cortaram o serviço à GNR em vários distritos por atrasos no pagamento das respectivas avenças postais, impossibilitando assim o envio de notificações e outros documentos (dos jornais).


 


SEMANADA – Portugal desceu três lugares no ranking da competitividade; na região norte as ofertas de emprego caíram para metade; há comarcas em que o Estado deve aos advogados oficiosos desde 2008; o blogue oficial do Ministério da Cultura publicou o programa do PS para o sector; os centros públicos das Novas Oportunidades receberam pedidos de testemunhos positivos de formandos para serem utilizados na campanha do PS.


 


LER –  Nesta época de discussão de políticas é muito útil reler «Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico», a obra de referência de Orlando Ribeiro,


publicada originalmente em 1945 e com várias actualizações e edições até 1986 e, uma edição especial, posterior, de 1993, com o texto abreviado e com fotografias de Jorge Barros. A editora Letra Livre colocou agora no mercado o texto original, «testemunhando uma visão inovadora (…)sobre a personalidade do país». Há muito esgotado, este livro que agora regressa é um apelo a que estudemos o que nos rodeia e encaremos a realidade.


 


OUVIR –  Os fãs de Burt Bacharach poderão torcer o nariz quando souberem que Ronan Keating, um ex-Boyzone, se meteu com dez canções do mestre. Mas poderão recordar-se que antes dele, outros hereges como George Michael ou Robbie Williams, percorreram os temas clássicos de Burt. Keating  escolheu, entre outros, «The Look Of Love», «Walk On By», «I’ll Never Fall On Love Again» «What the World Needs Now» ou «Make It Easy On Yourself» para mostrar que tem uma maneira pessoal de revisitar estas canções, acrescentando um assinalável trabalho de interpretação – que manifestamente não hesita em subverter a tradição, como, por exemplo, em «I Just Don’t Know What To Do With Myself», que até consegue quase deixar para trás a versão, de referência, de Dusty Springfield. Claro que a participação do próprio Burt Bacharach na produção deste disco e em alguns arranjos que refez para a ocasião, ajudam muito ao bom resultado final. E mesmo que a voz de Ronan Keating não se compare à de George Michael, ele consegue aqui um novo estatuto musical.


 


VER – A exposição de José Pedro Croft «Marcações e Territórios» na Chiado 8; a exposição de fotografia de autores africanos  «Fronteiras», na Gulbenkian, inserida no ciclo Próximo Futuro; e a exposição «O Crespúsculo dos Deuses» de João Fonte Santa na VPF Cream Art Gallery.


 


BACK TO BASICS – Eu não quero saber das campanhas eleitorais para nada. Eu quero saber das ideias que as pessoas têm e da maneira como depois as vão defender e praticar – Agostinho da Silva

maio 16, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 13 de maio)

PROGRAMAS - Eu acho muito curioso que nesta campanha exista um partido que passa a vida a clamar pelos programas dos outros e que nunca fala do seu próprio programa. Esse partido é o PS. Seria aliás curioso analisar o programa que apresentaram , dias antes do anúncio das medidas do triunvirato, e fazer uma análise entre o que lá está escrito e o que pode ser feito e, mais importante ainda, entre o que está nesse programa e aquilo que o PS disse em programas anteriores e a sua prática enquanto Governo nesta meia dúzia de anos mais recentes, durante os quais aumentou a dívida pública portuguesa em 82,9 mil milhões de euros, quase tanto como o total dos Governos dos 23 anos anteriores. A questão que me parece importante sublinhar é esta: quem prestou más provas não pode ter boa nota; quem não quis ir à escola e depois ouviu raspanetes de estranhos por não saber a lição não pode agora armar-se em aluno de quadro de honra. Olho para Sócrates e o que vejo é um homem que durante anos foi insensível à realidade, que fintou e manipulou dados objectivos e que fez o que quis sem atender às sucessivas chamadas de atenção sobre os efeitos que a sua acção estava a ter no Estado das Finanças portuguesas. Das duas uma : ou Sócrates é surdo – e não parece; ou então vive num mundo diferente e não consegue encarar e compreender a realidade. Quem tem perturbações desta ordem, de desfasamento com a realidade, não pode ser Primeiro Ministro, quanto mais não seja por uma questão de saúde pública. Num momento destes compreendo mal que alguns partidos se entretenham a explorar medidas hipotéticas, colocando em cima da mesa cenários especulativos – é uma operação que apenas alimenta o discurso egocêntrico do PS, ainda por cima com o efeito colateral de juntar ao PS as vozes dos debilitados PC e Bloco. A única vantagem é que assim se percebe como PC e Bloco são na realidade os grandes aliados do PS – que objectivamente o estão a ajudar nesta campanha.


 


PERGUNTINHA – É engano meu ou o PEC IV, sem o financiamento que vai vir da ajuda externa, não iria servir para nada senão para agravar ainda mais a situação? ARCO DA VELHA – O PS quer ver-se livre de Sócrates, mas para isso precisa de perder as eleições – diz Eduardo Catroga.


 


SEMANADA – Sócrates acusa os outros partidos; Passos Coelho acusa Sócrates de fazer terrorismo político; todos os dias aparecem medidas e propostas avulsas; as sondagens mostram a confusão que está instalada – é o resultado da campanha que está a existir.


 


AGENDA – A Feira do Livro, que continua aberta, é um local fantástico para nos sentarmos numa esplanada a meio do parque Eduardo VII, para comermos um churro ou um cachorro e, claro, para passearmos entre livros. Há soluções engraçadas – como o túnel da Babel e outras muito eficazes, como o espaço da Leya, que claramente é o mais movimentado e aquele onde mais se vêem pessoas efectivamente em filas para comprar livros. Fica-me a dúvida se não seria possível, durante o verão, manter alguns daqueles quiosques e esplanadas como destino possível dos lisboetas, no meio de um jardim que é essencialmente para a vista mas que bem poderia ser um local de passeio se existissem alguns pontos de apoio.


 


LER – A edição de Maio da revista norte-americana «the Atlantic» é dedicada à cultura e tem a curiosidade de incluir uma série de notas sobre o processo criativo de figuras como Paul Simon, Frank Ghery ou Tim Burton, entre outros. Para além disso ainda encontra pequenos contos inéditos, nomeadamente um de Stephen King. Intitulado «the Culture Issue» esta é uma edição a não perder.


 


VER – «Five Rings», a nova exposição de Rui Chafes e Orla Barry, que estará no Museu Berardo até 21 de Agosto, é uma surpreendente combinação de palavras, objectos da natureza e das formas inesperadas que são a imagem de marca de Chafes. É curiosa a importância da palavra nesta exposição – até porque Rui Chafes tem sempre presente nas suas obras a evocação de palavras e frases de «Fragmentos» de Novalis, que ele próprio traduziu para edição em Portugal há uns anos. Ao longo das várias salas desenha-se uma narrativa de sensações que culmina numa explosão, inesperada, onde a luz e as formas do metal trabalhado se combinam num jogo de sensações. Esta é a segunda colaboração de Chafes com a irlandesa Barry, a primeira foi realizada em 2001, há dez anos. O nome e o percurso criado para a exposição fazem também pensar se não terá existido uma propositada alusão ao «Book Of Five Rings» do samurai Miyamoto Musashi, escrito em meados do século XVII e que é considerado um dos grandes textos orientais, do ponto de vista filosófico e estratégico.


 


OUVIR – Tenho muitos discos, mas poucos que tenham provocado uma impressão tão forte como este «Philarmonics», de Agnes Obel. Ele é um


a dinamarquesa de 30 anos que, depois de ter passado algum tempo em projectos colectivos, iniciou no ano passado a sua carreira a solo com este álbum que escreveu, produziu e, claro interpretou. Agnes Obel começou por tocar piano, depois durante algum tempo interessou-se pelo baixo eléctrico em duas bandas por onde passou e com quem gravou. Não conheço esses discos e da primeira vez que a ouvi, o que logo me impressionou foi a sua voz, expressiva, contida, emocionante. O disco é de uma enorme simplicidade, tão simples que se arrisca a passar despercebido. Em muitas canções mal se notam arranjos, o piano e a voz de Obel criam um ambiente austero e muito elegante. Mesmo nas faixas em que existe uma discreta percussão ou subtis acordes de violoncelo, mantém-se essa simplicidade. Nada distrai das palavras, às vezes intensas e perturbadoras, nem da voz e das melodias. O disco propositadamente valoriza a natureza e a beleza de canções como Riverside,, Over The Hill, Philarmonics ou Wallflower. A única canção que não foi escrita por Agnes é Close Watch, um original de John cale que aqui tem uma versão invulgar e atraente. CD PIAS, via Amazon.


 


PROVAR – O Sushi Café ganhou fama e proveito de ser um bom restaurante de sushi nas Amoreiras e, de outra forma, num corner no Colombo. Agora resolveu abrir porta para a rua e inaugurou há poucas semanas um novo espaço, amplo, na Rua Barata Salgueiro 28. Vamos primeiro à decoração – como o ambiente conta, esta é uma área onde se percebe logo, desde o primeiro momento, que tudo está pensado para garantir um espaço confortável e agradável para os clientes, em termos de luzes, som e das formas escolhidas para traçar o percurso e amenizar as paredes. Mas como o que, de facto, é importante num restaurante é a oferta culinária, vamos a ela. Para além da boa selecção de sushis e sashimis, ou da leveza das massas das gyosas, já conhecidas das outras casas da mesma empresa, neste espaço mostram- se outros terrenos da comida japonesa ou da aplicação de técnicas japonesas a alguns pratos portugueses – exemplos são as boas propostas baseadas em bacalhau. Estas propostas novas na carta merecem exploração –nomeadamente a forma como são cozinhados e apresentados alguns peixes e também a diversidade de pratos de carne oferecidos. Nas sobremesas não resisto a fazer destaque para o gelado de gengibre, que na minha opinião vende o bolo de chocolate, talvez doce de mais e com um toque a caramelo que distrai do essencial. Decididamente a Rua Barata Salgueiro está a ficar um pólo de restaurantes a incluir em qualquer roteiro. Telefone 211 928 158.


 


BACK TO BASICS – Os mentirosos são sempre pródigos em juras (Corneille)

maio 10, 2011

QUE GOVERNO VAMOS TER?

(Publicado no diário Metro de 10 de Maio)


 


Daqui a três semanas lá vamos a votos. O que está em cima da mesa é saber se queremos que o PS continua a ser Governo ou se queremos procurar uma alternativa.


 


Vamos a uns factos. Desde 1974, e sem contar com os governos provisórios ou de iniciativa presidencial, o PS esteve 18,6 anos no Governo e o PSD teve 15,5 anos – nalgumas vezes, em, ambos os casos, coligados com outros partidos.


 


Nos 15,5 anos de governos em que no Governo esteve o PSD registou um valor médio de endividamento público de 3,5 mil milhões por ano. Nos 18,6 anos em que o PS esteve no Governo registou-se um valor médio de endividamento público de 6,11 mil milhões de euros por ano..


 


Ao todo nos governos em que o PSD esteve  registou-se um aumento de 55 mil milhões de euros da dívida pública. Destes, 40,5 mil milhões verificaram-se nos Governos de Cavaco Silva e 14,5 mil milhões nos outros Governos do PSD.


 


Nos governo em que o PS esteve registou-se, ao todo, um aumento de 113,7 mil milhões de euros. Os governos de José Sócrates  são, por si só, responsáveis por 92,9 mil milhões de euros de dívida pública – e os de Mário Soares e António Guterres, em conjunto, por 30,8 mil milhões.


 


Vale a pena notar que os  82,9 mil milhões de dívida gerados em cerca de sete anos de governos Sócrates  são quase tanto como toda a dívida gerada por todos os outros governos ao longo de 27 anos – 85,8 mil milhões.


 


Os números são sempre uma matéria árida – mas são uma forma de olharmos para a realidade. A situação em que nos encontramos hoje é fruto da evolução destes números e do brutal aumento do nosso endividamento – um endividamento provocado por políticas, obras e medidas que não tiveram em conta a realidade das nossas capacidades. Quando se gasta mais do que se tem estamos perante um desgoverno.


 


A questão destas eleições é saber se queremos mais desgoverno ou se queremos endireitar as contas e pensar um bocadinho no futuro. Acham que com Sócrates teremos algum futuro, depois deste legado que nos deixou?

maio 09, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Maio)

DILEMA–  Qual é a margem que existe para os programas políticos dos partidos, uma vez conhecido o cadernos de encargos da Troika e da Comunidade Europeia? O cenário de enquadramento será tão apertado que, realisticamente, os partidos terão que fazer apenas exercícios tácticos , em vez de proclamarem grandes desígnios estratégicos. O único programa para  a próxima legislatura é a salvação do país e o início da recuperação da economia e das finanças. Quem disser o contrário está a enganar – como Sócrates quis fazer ao evitar dizer quais as medidas efectivas do programa. Aqueles que falarem verdade, analisarem bem a situação existente e elencarem medidas exequíveis serão os melhor colocados para discutir votos.


 


Mas não vale a pena ter ilusões: a 5 de Junho, no arco do poder, vamos estar divididos entre os que rejeitam encarar a realidade e aqueles que partem da situação que existe e a querem modificar. E, claro que, fora do arco do poder, existirão ainda os que dizem que não interessa a realidade e apenas devem contar os princípios. De certa forma estas vão ser eleições difíceis – porque exigirão que os eleitores façam eles próprios uma ruptura assumida a afinidades eleitorais passadas e consigam ser parte do processo de transformação, que é absolutamente necessário. O grande risco que corremos é que não seja perceptível, a sectores do eleitorado, que precisamos de facto de mudar de vida, de mudar de hábitos, de mudar de funcionamento. É nesta dúvida – da efectiva necessidade de mudança radical – que o PS vai jogar  e é aqui, com remédios menores e camuflagens diversas, que vai tentar manter o eleitorado - como bem se viu na declaração de José Sócrates de terça-feira em quando anunciou gloriosamente o que não vai acontecer, mas escondeu cobardemente o que também sabe que irá ser feito.


 


Um amigo meu dizia-me há dias que, fora das grandes cidades, o voto iria ser conservador, no sentido de o eleitorado poder não ver necessidades de grandes mudanças. É este o terreno, é esta a dúvida que o PS vai explorar.


 


SEMANADA – Agora tudo indica que PS e PSD souberam cedo as linhas gerais do acordo com a troika. Sócrates aproveitou o que sabia e disse o que lhe convinha, montando um festival de propaganda. O PSD ficou apenas a ver e a comentar, dando espaço a Sócrates. Mais uma semana eleitoral perdida.


 


ARCO DA VELHA – A RTP N apresenta como comentador convidado regular Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que roubou os gravadores de jornalistas da revista «Sábado» que lhe faziam perguntas incómodas e que, por isso mesmo, foi acusado pelo Ministério Público da prática de crime de atentado à liberdade de imprensa. Estranhos são os critérios de escolha de uma estação de serviço público…


 


AGENDA – No Museu Berardo já pode ver o resultado da colaboração de Orla Barry e Rui Chafes, «Five Rings». Até 15 de Maio está em acção o Indie Lisboa, com curtas e longas metragens e outras iniciativas – pode saber tudo em www.indielisboa.com. no Parque Eduardo VII continua a Feira do Livro e vale a pena ver o esforço que editoras como a Leya e, noutro plano, a Babel, fizeram para se apresentarem de forma diferente. Até 22 de Maio continua a exposição do World Press Photo no Museu da Electricidade; ainda na fotografia a K Galeria inaugurou a exposição «Processo» de Jordi Burch, centrada na imagem feminina - a K Galeria fica na Rua da Vinha 43, no Bairro Alto e pode ser visitada das 10 às 18 de segunda a sexta.


 


LER –  A edição de Maio da «Monocle» tem como tema principal a reconstrução do Japão – o que o país tem que fazer para recuperar do terramoto e o que poderá fazer para ficar ainda melhor que antes. Claro que Tyler Brulé, o fundador e director da revista, é um apaixonado pelo Japão, e portanto a sua observação sobre os dez sectores mais afectados é muito certeira. Outros artigos interessantes são sobre a cadeia de televisão árabe Al Jazeera, sobre a estação de televisão japonesa NHK, e sobre a forma como a Finlândia está a tentar recuperar das quebras verificadas pela Nokia. Na área das experiências há um artigo curioso sobre os princípios de gestão de Andrew Cogan, CEO da Knoll e sobre a forma como se pode gerir uma galeria de arte, por Harry Blain. Finalmente os lisboetas ficarão muito contentes com as quatro páginas dedicadas ao bairro da Lapa, em Lisboa – embora o prato forte em matéria de viagens seja o suplemento de 24 páginas dedicado a Barcelona.


 


VER – Ao longo dos anos Sofia Areal construiu uma imagem de marca e um estilo muito próprios e bem identificável. Começou a expor em 1982 e a sua primeira exposição individual data de 1990, estando representada em diversas colecções nacionais, institucionais e particulares. Agora Sofia Areal agrupou um conjunto de obras, de pintura e desenho, feitas entre 2000 e 2011 e deu o nome de «SIM» a esta mostra de 11 anos de trabalho. A exposição está no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional até 26 de Junho, com montagem (bem pensada) de Emília Ferreira, a mostrar a evolução da obra ao longo das várias fases que atravessou nesta década, desde as formas orgânicas iniciais, ao desenho mais intimista, até ao regresso à pintura dos últimos anos. A exposição é feita por iniciativa dos Artistas Unidos, com quem Sofia Areal trabalhou – e expôs – em diversas ocasiões. No catálogo da exposição Jorge Silva Melo escreve que estes dez anos de Sofia Areal são «uma visão que se afirma, que se intensifica, que se recria, simplificando».


 


OUVIR –  Paul Simon vai fazer 70 anos no próximo mês de Outubro e desde 1964, há 47 anos, que continua a ser um nome incontornável na música popular contemporânea. Primeiro ao lado de Art Garfunkel e, depois, a solo, foi construindo uma carreira erguida sobre canções de uma intensidade e criatividade pouco usuais, na quantidade e qualidade que conhecemos. Custa a crer que tenha passado tanto tempo desde que ele gravou «The Sound Of Silence» e quando se ouve pela primeira vez o seu novo disco «So Beautiful Or So What», acabado de lançar, tem-se a mesma sensação inicial de frescura e originalidade que é a sua imagem de marca desde o princípio da sua carreira. Nas notas introdutórias do disco Elvis Costello não hesita em dizer que o novo disco é uma das melhores obras de toda a carreira de Paul Simon, e tem razão.


 


Nos dez novos temas aqui incluídos, Paul Simon continua a descrever a vida à sua volta, citando a guerra no Iraque, as suas dúvidas pessoais mais profundas, sobre a fé ou a vida, o permanente encontro com o amor, a redescoberta da escrita e as dúvidas permanentes que povoam o universo dos homens. A produção do disco esteve a cargo do próprio Paul Simon e de Phil Ramone (que faz um soberbo trabalho). Dois destaques – para a forma como as percussões são utilizadas e para o arranjo de Gil Goldstein numa das faixas mais simbólicas do disco, «Love And Hard Times». E um elogio para a subtileza envolvente da guitarra de Paul Simon e para a forma viva e divertida como ele continua a cantar. Este é um disco fora de modas. Mas terrivelmente actual. CD Hear Music/ Universal Music


 


PROVAR – Quando lhe apetecer um restaurante pacato, com ambiente familiar e boa comida caseira pode experimentar dirigir-se para os lados da Infante Santo, no cruzamento com a Rua do Sacramento a Alcântara (que depois se transforma na Rua das Janelas Verdes). Aí fica o Restaurante Tirsense, cuja lista é estabelecida em função das disponibilidades da praça. Mas não é invulgar encontrar fantásticos jaquinzinhos ou uns bem preparados filetes de polvo, acompanhados de arroz de grelos, bem malandro e saboroso. Se tiver dúvidas nas escolhas peça sugestões à D. Lia, que ela há-de ter prazer em ajudar. Para começar, a sopa de hortaliça é um regalo e, para terminar, o arroz doce é imperdível. A acompanhar o café vem um daqueles pequenos bombons antigos, embrulhado em prata colorida. As mesas são confortáveis e bem postas, os guardanapos são de pano e duas pessoas fazem a festa por pouco mais de trinta euros, incluindo sopa, sobremesa e vinho da casa. O Tirsense fica no nº48 da Rua do Sacramento a Alcântara, é preciso descer umas escadinhas do nível da rua para o passeio inferior, onde está a porta. O telefone é 213 977 246.


 


BACK TO BASICS – A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano (Voltaire)

maio 03, 2011

A tanga do programa

(Publicado no diário Metro de 3 de Maio)


 


O candidato do PS a Primeiro Ministro, José Sócrates, usa a táctica da cassette: gosta de repetir uma frase vezes sem fim, na esperança de que, de tanto ser repetida, as pessoas se convençam. É o que tem feito em relação à questão do programa eleitoral, procurando convencer os eleitores que o PSD não terá programa a apresentar e que ele, despachado como é, já  apresentou o do PS.


 


Não é preciso ser especialista em política, nem ter os dons do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, para perceber que não serve de muito apresentar um programa eleitoral que, depois, entre em choque com o conjunto de medidas que a Troika do FMI e União Europeia estão quase a apresentar para viabilizar a ajuda financeira a Portugal.


 


Na realidade o bom senso manda que as negociações fiquem completadas e que os principais partidos cheguem a acordo com a troika sobre as medidas que estão dispostos a subscrever, para que, depois, cada um, apresente as suas melhores propostas, baseadas no quadro do que será possível fazer, e não daquilo que se gostaria de fazer mas provavelmente, em muitas áreas, não se poderá concretizar.


 


O candidato do PS, convém recordar, é useiro nesta táctica: já nas duas eleições anteriores fez programas eleitorais e promessas diversas – em matéria fiscal, de emprego, de apoios sociais – que depois teve de retirar à pressa mal se sentou na cadeira de Primeiro- Ministro. De maneira que de uma coisa temos a certeza: o candidato Sócrates do PS promete umas coisas que depois o Primeiro Ministro Sócrates não cumpre.


 


Como Primeiro Ministro José Sócrates foi o que mais distante ficou dos programas eleitorais que tinha traçado e, já agora, o que piores resultados apresentou em matéria de agravamento das contas públicas – de facto as suas promessas dizem uma coisa e os seus actos mostram outra, bem diferente. Quem quiser continuar a acreditar em promessas que não têm nada  a  ver com a realidade tem Sócrates do seu lado.  E já sabemos aquilo que ele faz.

abril 29, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 29 de Abril)

PESADELO – Quando olho para o que se passa no país pergunto-me se o PSD já percebeu que existe uma campanha eleitoral a decorrer e eleições marcadas para 5 de Junho.  É raro o dia em que alguém próximo do PSD não avança com uma proposta que depois tem de ser rectificada. Está a ser demasiado frequente que existam oscilações de posições em questões cruciais. O problema não é apenas de eficácia de comunicação – começa a ser perceptível que existe um problema, maior, de conteúdo e de coordenação de propostas. Sinceramente espero que seja resolvido. Seria lamentável que estas eleições entregassem o ouro ao bandido por falta de comparência do adversário. É certo que os discursos do Pátio dos Bichos sublinharam que os partidos políticos em Portugal funcionam mal e que o país não se esgota nos partidos. É certo que a maior prova de que o sistema político funciona mal é a falta de espírito auto-crítico por falta dos oradores do Pátio dos Bichos: quem os ouvisse acharia que eles nunca tiveram responsabilidades aqui na terrinha. Quando chegar o dia das eleições pensem nisto: não estão satisfeitos com o estado das coisas, com os efeitos das anteriores eleições? Então usem o voto para punir quem nos levou até aqui. É para isso que ele serve.


 


GASTADOR  – António Costa mudou-se para o Intendente. As obras de recuperação do local onde se instalou custaram à Câmara Municipal cerca de 670.000 euros. Costa diz que vai ficar ali – na antiga fábrica Viúva Lamego – durante dois anos. A CML pagou o arrendamento por 10 anos, justificando que assim recuperava o edifício. Não se sabe o que lá vai acontecer a seguir a Costa sair. Gostava de saber quanto vai custar – em custos directos e indirectos – esta mudança, mas admitamos que dizer um milhão não será muito exagero e se calhar até peca por defeito. António Costa diz que o investimento se justifica para recuperar o Intendente e eliminar o estigma de zona de prostituição e droga. Eu acho que com este milhão, basicamente destinado a uma operação de propaganda política do Presidente da Câmara, se conseguia fazer bem mais pela recuperação do Intendente do que com o simbolismo de uma instalação artificial e forçada. E assim se vai gastando o pouco dinheiro que resta – de qualquer forma quem vier a seguir é que há-de pagar a factura.


 


ARCO DA VELHA – José Lello, do PS, chamou «foleiro» a Cavaco Silva no Facebook, por causa da forma como decorreram as comemorações do 25 de Abril no Palácio de Belém. Depois de ter sido zurzido por todo o lado, incluindo o PS, apareceu a dizer que se tinha enganado na tecla e que queria dizer apenas que o Presidente «não tinha sido suficientemente abrangente». Ainda não tinha percebido que foleiro queria dizer com falta de abrangência. Sempre a aprender…


 


SEMANADA – Segunda-feira Sócrates disse que Teixeira dos Santos não tinha estado no Palácio de Belém porque estava a negociar com a troika. Terça-feira soube-se que Teixeira dos Santos passou o feriado em sua casa, no norte, não tendo levado consigo nenhum membro da troika; terça-feira à noite, na entrevista à TVI, Sócrates disse que ele e Teixeira dos Santos eram muito amigos e que não havia problema algum entre ambos.


 


LER –  A edição de Maio da «Vanity Fair» traz na capa Rob Lowe, tronco nu, olhar decidido e músculos realçados. O estilo da capa tem a assinatura de Annie Leibowitz e serve de apresentação aos excertos da auto-biografia de Lowe, intitulada «Stories I Only Tell My Friends», que será publicada em breve e onde ele conta aquilo por que passou em Hollywood até ganhar fama. Outro motivo de interesse desta edição é a história da relação, longa e intensa (50 anos quase), de Picasso com a sua amante Marie Therése Walker, que inspirou muitas das suas obras e que está presente em quadros como a Guernica. Finalmente uma razão suplementar para ler esta «Vanity Fair» é o excelente artigo de Joseph E. Stiglitz (Prémio Nobel da Economia em 2001) sobre o aprofundamento do fosso social nos Estados Unidos e as consequências desse aprofundamento de diferenças no funcionamento das sociedades. Chama-.se «Of the 1%, by the 1%, for the 1%» e devem poder encontrá-lo no site da revista.


 


VER – Em pouco tempo eis a segunda exposição de Pedro Calapez em Lisboa, desta vez na Fundação PLMJ, Rua Rodrigues Sampaio 29. Comissariada por Miguel Amado, integrada na programação OFF da PLMJ, destinada a artistas portugueses e da CPLP,  a exposição “Kickflip” vai buscar inspiração aos desportos radicais e à cultura urbana contemporânea. Nesta mostra estão quatro obras feitas para a ocasião, de pintura e escultura, assim como duas outras obras inéditas em Lisboa. “Kickflip” ficará patente até 9 de Junho, de quarta a sábado, entre as 15 e as 19 horas. É um contraste interessante com a outra exposição, desenhos recentes sobre papel, que continua na Galeria João Esteves de Oliveira, Rua Ivens 38, até 6 de Maio (de terça a sábado entre as 11 e as 19h30). Bom programa para a tarde deste sábado – ver ambas as exposições de Calapez e sentir as várias formas do seu olhar.


 


OUVIR –  Em 1964, estava Ray Charles a fazer 34 anos, gravou num auditório de Los Angeles um dos seus espectáculos. Um ano depois foi editado o LP “Ray Charles Live in Concert” , que durante muitos anos foi a gravação ao vivo de referência na obra do cantor, em excelente forma vocal, acompanhado por um grupo de músicos com os quais tinha um entendimento perfeito. Também a forma de Ray Charles tocar piano e órgão está em evidência nesta gravação, que foi agora integralmente remasterizada, ganhando brilho e qualidade sonora. Este registo nunca tinha sido editado em CD, de forma que há muito que o original era uma raridade. A nova edição inclui sete temas que não tinham sido incluídos na edição original, entre os quais uma bela versão de «Georgia On My Mind». Além disso o disco original incluía, e aqui mantém-se a única garvação que Ray Charles fez de «Makin’ Whoopee», um improviso em que intervêm apenas Ray, um baixista e um baterista. O novo CD, editado pela Concord para a Universal, inclui 17 temas, o início e o o fim do concerto, assim como notas de edição que ajudam a enquadrar esta gravação no seu tempo. Um disco absolutamente fantástico e surpreendente.


 


PROVAR – Ainda não é desta que fiquei cliente das casas de comida patrocinadas por Vitor Sobral. Curioso com o sururu comunicacional criado a propósito da abertura da Cervejaria da Esquina lá me dirigi numa destas noites, sozinho, para experimentar se isto seria verdadeiramente uma cervejaria. Pois não é – é um local que quer ser uma cervejaria mas está disfarçado de outra coisa qualquer. Para cervejaria falta-lhe uma boa diversidade da bebida que a devia inspirar, limitada que está ao patrocínio da Sociedade Central de Cervejas, o que é pena. E falta-lhe simplicidade básica, o que é ainda pior – sobretudo porque o que falta  sobra em pretensão. Já agora, também lhe falta ambiente e clima e sobra-lhe preço. Situada em Campo de Ourique, numa esquina da Rua Correia Teles, onde antes existia a Pastelaria Bonina (cuja fachada foi em parte mantida), a decoração do interior é sem história e, na minha opinião pessoal, sem grande gosto. Pode ser que tenha tido azar, mas os camarões da costa, pequeninos, vieram cozidos demais – ou então estavam naturalmente moles em demasia, o que ainda é pior. O bife do lombo era de boa qualidade, mas nadava num molho excessivamente intenso e que tinha um travo estranho, prejudicando a experiência de um bom e tradicional bife frito. As batatas fritas eram boas. Por 150 gramas de camarão da costa recozido e um bife que tirava o curso de nadador salvador em molho cremoso, mais duas imperiais daquela marca de que não gosto, paguei 34,75 euros. Conheço várias cervejarias em Lisboa onde se come melhor por bastante menos. E com melhor ambiente até – que o daqui era apenas o de seguidores de modas passageiras e devotos de guias da cidade para turistas. Tel. 213 874 644.


 


BACK TO BASICS – Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura. Eça de Queiroz, 1891


 

The Future's So Bright You Gotta Wear Shades

RB 3030 Outdoorsman RB 3030 Outdoorsman Mens Aviator

O título desta nota é extraído de  uma canção brilhante dos Timbuk 3, já com uns anos,mas que reflecte bem a situação em que nos encontramos.


 


Uma das coisas que me deixa surpreendido é que o PSD esteja sistematicamente a confundir dois planos: o estratégico e o táctico.


 


Como bem disse aqui o meu blogmate LPM, o pano de fundo da actual campanha está condicionado pelas regras que forem ditadas por quem nos vai prestar ajuda financeira.


 


Por isso se percebe mal que o PS tenha apresentado um programa que ignora esta circunstância, dias antes de as conclusões da troika serem conhecidas, e que o PSD se desdobre em iniciativas que estão fora do estreito corredor onde a acção política efectiva se poderá processar, como parecem muitas das ideias surgidas da iniciativa «Mais Sociedade».


 


Eu, se fosse aos promotores da iniciativa «Mais Sociedade», tinha pura e simplesmente arrumado as coisas até depois das eleições - porque a missão de pensamento estratégico deste think-tank ficou irremediavelmente comprometida pela convocação súbita de eleições e pelas circunstâncias em que elas vão decorrer - com o pano de fundo do acordo que a troika financiadora pretende obter dos principais partidos.


 


Ainda por cima, mesmo que não existisse troika, dificilmente as reflexões estratégicas a médio longo prazo que a «Mais Sociedade» pretende produzir seriam úteis e eficazes do ponto de vista táctico face à conjuntura existente.


 


RB 3029 Outdoorsman II Mens Aviator 

Quarta-feira, no «Negócios da Semana» (SIC Notícias), José Gomes Ferreira teve a presença de António Carrapatoso e João Duque e tivemos ali um bom exemplo de como estes dois promotores da iniciativa (mais João Duque que Carrapatoso) não compreendem que estão a falar num tempo diferente daquele em que estão a reflectir - o que provoca que as suas reflexões, nesta altura, e não sendo para acção imediata, como ambos acabaram por dizer, sejam absolutamente contraproducentes do ponto de vista objectivo quanto à clareza da mensagem de uma oposição ao PS.


 


João Duque, por exemplo, quando abordou a questão das formas de o Estado intervir no desemprego, passou sempre ao lado do facto de actualmente estarmos perante um crescente desemprego qualificado, que cada vez atinge mais pessoas acima dos 45 anos, com experiência e formação, e que não encontram apoio na reconversão profissional por parte dos organismos do Estado (preparados basicamente para o desemprego desqualificado), organismos que não estão minimamente preparados para lidar com estas novas situações - e que são as que vão crescer a curto-médio prazo. Como passou por cima desta realidade preconizou medidas gerais que só podem causar perplexidade aos novos desempregados - antagonizando-os.


 


Na sequência desta conversa de ontem na SIC Notícias fui ver o site do «Mais Sociedade» e a primeira impressão, dos documentos e de alguns papers que lá se encontram, é que basicamente apanham generalidades e pecam por falta de atenção ao detalhe - o que é natural porque a convocação de eleições veio encurtar o tempo previsto para a reflexão. Por exemplo na área da cultura o vazio de ideias é confrangedor face à realidade e existe até, paradoxalmente, um espírito predominantemente estatista e burocrático, em aparente contradição com outras áreas da iniciativa. Assim, no meio desta confusão, faria talvez mais sentido parar o processo e retomá-lo mais à frente, fora da pressão eleitoral.


 


É que, a continuar, a confusão das mensagens apenas penaliza aqueles a quem era suposto fornecer inputs. E, salvo erro, o objectivo da acção política é ganhar o poder para depois tomar medidas. Claro que convém saber o que se vai fazer em termos imediatos - mas isso, infelizmente está condicionado. E não estamos portanto a falar de estratégia a longo prazo, devemos falar de táctica para ganhar o poder e executar da melhor forma um programa que em grande parte é ditado pelas circunstãncias sem grande margem para fugas. O futuro imediato não será brilhante. É escusado pintá-lo ainda mais de negro.


 


RB 2140 Original Wayfarer RB 2140 Original Wayfarer Mens Square

abril 26, 2011

Como utilizar a Democracia? - Despedir quem governa mal!

(Publicado no Metro de 26 de Abril)


 


37 anos depois do 25 de Abril vivemos um dos piores momentos da nossa democracia. Anos de alheamento da realidade e de incompetência pura e simples conduziram-nos a um ponto de endividamento, público e privado, terrível. Passámos décadas a fazer construções, com betão, cimento e asfalto, como se fossemos todos meninos a construir Legos sem querer saber do dia de amanhã. Demos todos os direitos por adquiridos, mas fugimos quando ao longe ouvimos dizer que também há deveres. A pesadíssima factura está aí e vai ser dura de pagar.



Os políticos cá da terra seguiram exactamente o mesmo rumo que os demais: irresponsabilidade regada com um despudorado apego ao poder. Com os aparelhos partidários e as campanhas eleitorais sustentados durante anos pelas grandes construtoras (no pais) e até pelas médias e pequenas (nas autarquias), os políticos da praça comprometeram o futuro em troca de licenças e adjudicações de obras.


Fizeram-se auto-estradas paralelas umas às outras, imaginaram-se projectos gigantescos mas não se cuidou de mais nada. Pelo contrario, aceitaram-se, em troca dos dinheiros comunitários para as auto-estradas, imposições que liquidaram a nossa agricultura e a nossa pesca. Como sempre os empregos criados nas grandes obras foram voláteis e desapareceram. A indústria portuguesa tornou-se menos competitiva e centenas de fábricas fecharam. Hoje em dia produzimos muito menos e estamos muito mais dependentes do exterior. Portugal tornou-se um país de serviços subalternos e não tratou de cuidar do futuro – este é o legado da classe política ao fim de quase quatro décadas.


 


Talvez fosse altura de olharmos bem para os candidatos e ver o que fizeram. Talvez fosse bom olhar para estes seis anos de Sócrates e ver como era o pais antes, e como é agora. Talvez fosse bom recordar todas as promessas que Sócrates fez e que negou logo a seguir às eleições. E talvez fosse bom dar-lhe uma pesada derrota eleitoral. É a única paga possível para o que ele nos fez. A democracia serve para usar o voto para pôr na rua quem governou mal.


 

abril 23, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 21 de Abril)

VOTAR – O conservadorismo do nosso sistema político e partidário é também aferido pela posição dos partidos face aos debates na televisão. A SIC propôs uma pequena variação do modelo existente, muito na linha do que se faz nos outros países, para permitir que os líderes partidários possam ser confrontados com perguntas directas dos espectadores/eleitores. Pois os partidos recusaram e impuseram o modelo vigente de A debate com B e por aí fora. Eu não percebo como é que os responsáveis partidários querem atrair votantes se não se esforçam por descer à terra e se continuam a mostrar a maior insensibilidade pela necessidade de fazer uma comunicação que seja atraente, em vez da propaganda antiga em que persistem e que tão maus resultados tem dado – em termos de participação eleitoral. Se calhar temos que perceber que os partidos não querem atrair votantes e estão contentes com os elevados níveis de abstencionismo, desde que consigam os seus pedaços de poder. Não é o sentido mais profundo da democracia que lhes interessa, mas apenas a forma de maximizar a utilização do sistema em proveito e poder próprios. Por falar nisto acho que devia existir uma campanha para convencer a «geração à rasca» que o voto pode ser uma forma de manifestarem opinião – se votarem mesmo serão muito mais eficazes do que se estiverem apenas limitados ao Facebook, por muito importante que ele seja hoje em dia – e é, mas não conta votos. Finalmente – espero que a Comissão Nacional de Eleições faça uma campanha de apelo ao voto para ir buscar novos eleitores e aumentar a participação eleitoral. Algo me diz que desse ponto de vista a coisa não vai correr bem.


 


REALIDADE – Manuel Villaverde Cabral, numa entrevista ao «Correio da Manhã», recordou uma realidade que às vezes escapa às memórias mais distraídas: nos últimos 40 anos o FMI já foi chamado três vezes e sempre pela mão do PS. Claro que desta vez o descalabro é maior e os remédios que virão na receita serão bem mais difíceis de tragar. Mas isso não impede que todos devamos fixar o facto de os governos liderados por socialistas terem uma grande tendência para darem cabo das contas públicas e de ignorarem as chamadas de atenção à realidade. Para além deste facto há outro, muito grave, que se traduz nisto: nos últimos anos aumentou de forma brutal em Portugal o fosso entre os mais pobres e os mais ricos. Há uma década o nosso país era mais equilibrado e menos injusto – anos e anos de PS no poder provocaram de facto um agravar das injustiças sociais e da diferença entre quem mais recebe e quem menos tem. Este fosso é o legado que Sócrates nos deixa e é uma das principais razões para não se votar nele.


 


LISBOA – Enquanto António Costa vai vendo como consegue passar sem grandes danos no meio da crise do PS, Lisboa, a cidade que ele devia governar, está cada vez mais velha e vazia, ao contrario do resto da região. De acordo com um estudo do Observatório Regional de Lisboa e Vale do Tejo, acontece que Sintra, Seixal, Vila Franca de Xira, Moita e Mafra são os concelhos mais jovens e dinâmicos da região. Lisboa é um conselho que tem envelhecido e perdido gente, incapaz de atrair os mais novos. No país, entre 2000 e 2009 a população cresceu 3,73%, na grande Lisboa a população cresceu 6,3%, mas o concelho de Lisboa perdeu no mesmo período 15,58%. Os habitantes de Lisboa são punidos no dia-a-dia por persistirem em viver numa cidade que é mais governada para quem a visita do que para quem nela vive – apesar de serem os seus habitantes que pagam as taxas, os impostos, as multas da EMEL, a sobranceria das obras eternas e da degradação. Lisboa pode ser uma cidade fantástica para os turistas que nos visitam, mas para quem cá vive é uma metrópole cara, desconfortável e incómoda: não há outra explicação para que perca tanta população numa década.


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que roubou os gravadores a jornalistas da «Sábado», e que é alvo de um processo por crime contra a liberdade de impresa, instaurado pelo ministério Público, foi de novo escolhido por Sócrates para integrar as listas do PS nos Açores.


 


SEMANADA – O bastonário da Ordem dos Advogados apelou a que os eleitores não votem; Mário Soares percebeu finalmente que a Europa está em desagregação; Freitas do Amaral afirmou que não votará em Sócrates, mas está indeciso entre PSD e PP; Mário Soares critica o comportamento do PS e PSD na pré-campanha eleitoral e elogia a posição que o PP tem mantido; Fernando Nobre disse uma coisa e o seu contrário no espaço de 48 horas – da entrevista ao «Expresso» até à entrevista na televisão.


 


FRASE - «Fernando Nobre é o perpétuo desmentido de si próprio» - Fernando Sobral, no «Pulo do Gato», deste jornal.


 


LER – Eis um tema melindroso: «a intenção é o Animal e  a tentação descai para o Homem», assim escreve Mário Assis Ferreira nesta edição da revista «Egoísta», que dirige,  cujo tema é exactamente o ser animal. Não sei se diga que este número da Egoísta é mais para ler ou mais para ver, já que as opções de edição fotográfica da revista estão cada vez mais apelativas. A edição deste trimestre, datada de Março abre bem com José Luís Peixoto, e o seu texto “Trabalhos Sensíveis”, que começa assim: “ Se há uma coisa que tenho aprendido com os bichos-da-seda é que o ódio não faz falta neste mundo”. Há nomes a escrever, bem, nesta edição: Filipa Leal. Maria Manuel Viana ou Henrique Botequilha – e há clássicos, como Hélia Correia, simplesmente genial. Na fotografia há imagens superiores de Augusto Brázio, de Céu Guarda e de Valter Vinagre.


 


VER – Na Fundação de Serralves está desde esta semana uma exposição imperdível - «In Intinere», de José Barrias, um artista português que vive em Milão e que durante alguns anos preparou minuciosamente esta sua mostra. É uma exposição invulgar porque trabalha sobre o próprio espaço, quer usando as paredes como suporte de textos escolhidos, de citações a breves notas, quer alterando a arquitectura das salas. Em qualquer caso coloca o espectador como participante numa viagem onde as referências à história da arte se misturam com referências pessoalíssimas do autor, algumas íntimas, como na sala que evoca a vida de Barrias. Mas em todos os casos está patente a imaginação e a criatividade – seja na encenação dos espaços, seja nos desenhos e na pintura. É uma exposição cheia de pormenores, pensadíssima, e que desafia quem a visita a tornar-se cúmplice do autor. A exposição está pensada e montada como uma narrativa que vai levantado aos poucos o véu sobre o trabalho do artista e que culmina na apoteose final da perspectiva que nos conduz de novo à origem das coisas. É quase uma encenação teatral que faz de cada visitante um actor, que percorre o universo proposto por José Barrias. Em Serralves, até 3 de Julho.


 


OUVIR –  Daniel Hope é um dos mais aplaudidos violinistas contemporâneos e «The Romantic Violinist» é o seu mais recente disco, pensado como uma homenagem a Joseph Joachin, um dos maiores violinistas do século XIX.  O disco, que inclui repertório do próprio Joseph Joachin e de outros compositores marcantes como Bruch, Brahms, Schubert ou Dvorak. Acompanhado pela Real Orquestra Filarmónica de Estocolmo, dirigida por Sakari Oramo, Daniel Hope tem também a companhia do pianista Sebastian Kramer numa interpretação exemplar das «Romanze» de Joseph Joachin e da soprano Anne Sofie von Otter numa canção de Brahms. CD Deutsche Grammophon.


 


PROVAR – Numa das mais prestigiadas listas dos melhores restaurantes do mundo, divulgada esta semana, aparece um único português – o Vila Joya, dirigido pelo chefe Dieter Koschina, colocado na 79ª posição. O Vila Joya, localizado na Galé, no Algarve, é o único restaurante português com duas estrelas Michelin – mas seria injusto dizer apenas isto. Trata-se de um local único, de uma cozinha verdadeiramente de excepção, baseada na extrema qualidade dos ingredientes e na criatividade na forma de os tratar, sem exageros nem modernices gratuitas. Ir lá jantar é uma experiência e uma aventura na descoberta de paladares. O jantar consta de sete pratos, da entrada à sobremesa, mas não se pense que é um exagero impossível – a qualidade da cozinha faz com que a refeição se passe de descoberta em descoberta e sem qualquer sensação de enfado. A reserva é obrigatória, o  jantar fica em  135 euros por pessoa, mais os vinhos, escolhidos de uma carta que inclui muitas preciosidades. O serviço é absolutamente inexcedível. Telef 289 591 795.


 


BACK TO BASICS – «O socialismo terá valor simplesmente porque levará ao individualismo» - Oscar Wilde