março 28, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 25 de Março)

A FILA – Nos últimos dias assistimos ao surgimento de uma bicha de ex-dirigentes e responsáveis do PS, pedindo aos partidos da oposição que continuassem a perdoar as trapalhadas que José Sócrates tem montado. Até Mário Soares, que na semana passada tinha dito que a forma de apresentação do PEC IV tinha sido um erro grave, avisando que iria descambar numa crise séria, apareceu esta semana a desejar que ninguém ligasse àquilo que, há uma semana atrás, achava criticável. Também Jorge Sampaio, João Soares, Manuel Alegre, António Costa e muitos outros vieram falar no mesmo sentido – o de os outros partidos deverem atender aos apelos do Partido Socialista que, num clima destes, insistiu sempre em dizer que a culpa não era sua, mas sim dos outros. O inefável Jorge Sampaio, algures no Dubai, confessou-se muito preocupado com a estabilidade – sem querer recordar-se que toda esta instabilidade, em boa parte, está directamente ligada à forma como ele próprio, então Presidente da República, geriu as consequências da saída de Durão Barroso para a Presidência Europeia. Noutras ocasiões a estabilidade não lhe interessou – agora, nas Arábias, está arreliadíssimo com o que se passa.


 


Mas o mais curioso nesta bicha de opiniões de notáveis socialistas é que não há quem veja a evidência: para que se concretize o entendimento alargado que todos pedem é fundamental que Sócrates saia de cena. Se ele se recandidatar em legislativas antecipadas será muito difícil conseguir esse acordo alargado que dizem defender: do ponto de vista político Sócrates mentiu demais, ameaçou demais, chantageou demais, foi arrogante demais. Perdeu a credibilidade – não só nos actos (que nos conduziram onde estamos), como nas palavras que revelaram um sistemático desfoque da realidade. De facto não foi a economia que nos tramou, foi a política seguida por Sócrates, de desprezar a realidade, que nos levou onde hoje estamos. Com Sócrates no PS o entendimento alargado torna-se virtualmente impossível. Era com isto que os guardiões da estabilidade se deviam preocupar. E em vez de pedirem aos outros para mudarem, mais valia que Mário Soares, Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Francisco Assis, António Costa e tantos outros pusessem, mãos à obra para mudarem o que tão mal tem funcionado no Partido Socialista. Já que pertencem ao PS tratem do seu partido em vez de se preocuparem tanto com os outros.


 


E, se o PS não conseguir internamente, com todos estes notáveis, resolver o problema que de facto existe – e que algumas corajosas vozes dissonantes sublinham – de facto o resultado pode ser bem complicado. Qualquer que seja o desenrolar desta situação já se percebeu que Sócrates não pode fazer parte da solução, porque ele esteve na raiz do problema. E é sobre isto que eu gostava de ouvir que têm a dizer tantos notáveis.


 


ARCO DA VELHA – Não consigo perceber porque é que tanta gente que apoiou Manuel Alegre apelou nesta semana a Cavaco Silva para intervir em defesa de Sócrates. Como blogou um amigo meu, se os portugueses quisessem que o Presidente da República atendesse aos apelos do PS, teriam votado Manuel Alegre.


 


LER –  Sérgio Henriques Coimbra é um jornalista português de quem muito gosto e com quem tenho tido o prazer de trabalhar. Ainda por cima escreve muito bem – literariamente falando, e só descobri isso agora. Por estes dias, inspirado por uma ideia de John Steinbeck, editou um delicioso livro intitulado «Passeios com Moby». O Moby é o cão do Sérgio, que o acompanha num passeio por Portugal, uma jornada que é apenas um pretexto para um passeio pela própria vida do autor, para uma descrição ácida (mas lúcida) das vicissitudes de Portugal nos últimos anos.


 


Não é um livro de viagens no sentido tradicional do termo, é um livro que relata a viagem do Sérgio por este mundo e pelo nosso tempo – desde as memórias de Moçambique às reflexões sobre os dislates feitos à paisagem portuguesa, passando pelo apelo à contínua descoberta de novos mundos e novos lugares. De facto há muito que não tinha tanto prazer a ler um livro que, inesperadamente, é sobre a vida e o destino – incluindo o rejeitar as conveniências. «Passeios com Moby», 124 páginas, edição Aletheia.


 


VER – Até dia 6 de Maio vale a pena visitar a exposição de novos trabalhos sobre papel de Pedro Calapez, que inaugurou esta semana na Galeria João Esteves de Oliveira, na Rua Ivens 38. Chama-se «Suave Paisagem» e agrupa 34 novas obras, feitas em 2010 e algumas já em 2011. É um conjunto surpreendente, pela intensidade, pela diversidade de técnicas, mas também pelo lado de novidade das obras mais recentes – a série «Paisagens», desenhos feitos a pastel de óleo sobre papel que criam imagens a partir da junção de vários elementos apenas aparentemente dispersos. A série que dá o nome à exposição , «Suaves Paisagens», recorre a acrílico e aguarela sobre papel e é inesperada na forma como mostra um regresso à pintura unidimensional, depois dos trabalhos mais recentes do artista explorando formas, relevos e instalações tridimensionais. Pedro Calapez tem tido nos últimos anos uma actividade internacional assinalável e tem procurado explorar novos caminhos – como esta exposição bem mostra, até na pequena mas muito curiosa série «Estudos para Construção».


 


OUVER –  Não é gralha, quis mesmo escrever ouver porque vou falar de um misto de ouvir com ver – isto tudo a propósito da edição especial de «The Wall- Live In Berlim». Quem se escapou à missa rezada esta semana no Pavilhão Atlântico por Roger Waters, pode aqui ver e ouvir a liturgia original, do verão de 1990, gravada em Berlim. Além do concerto – com nomes que incluem Van Morrison, Sinead O’Connor, Ute Lemper, The Band, Thomas Dolby e vários outros, esta edição inclui ainda um documentário sobre tudo o que rodeou a produção do primeiro mega-concerto da década de 90 e diversos outros extras  como animações usadas em palco assim como os projectos de todo o cenário. Nesta nova edição especial da Universal - «The Wall Live in Berlin– Limited De Luxe Tour Edition» -  estão incluídos o DVD com as imagens já referidas e dois CD’s que reproduzem integralmente o concerto que de facto simbolizou o fim do Muro. É uma belíssima edição, já disponível em Portugal, e que é o testemunho de uma das maiores produções de sempre na história da música popular.


 


PROVAR – O conflito de Lisboa com as esplanadas é coisa que sempre me intrigou. Será do vento? Será do ar pálido cultivado por tantos cidadãos? Eu por mim gosto das esplanadas, e fico sempre contente quando abre mais uma. Esta semana, aproveitando o primeiro dia da primavera, fui até uma das esplanadas do Jardim de S. Pedro de Alcântara e por lá fiz um almoço ligeiro e tardio. Vista magnífica, o Tejo a espreitar ao fundo, ao lado do Castelo de S. Jorge, local abrigado, sem ventania.


 


Esplanada limpa e asseada, serviço simpático, boas surpresas. As tostas mistas felizmente evitam aquele pão de forma inspirado na borracha, que se tornou demasiado frequente, e usam umas cacetinhos saborosos, aquecidos quanto baste, sem ficarem espalmados e desinteressantes. Cada tosta mista é composta por dois desses pequenos cacetinhos. No meu caso escolhi a de presunto, queijo e rúcula - e não me arrependi. O presunto veio cortado fino, fácil de trincar, sem ser aquelas lascas grossas e secas que infelizmente são a matéria prima da maior parte das sanduíches de presunto locais – que as mais das vezes se assemelham a maus couratos. O queijo também vinha no ponto, aquecido, sem vir transformado em pastilha elástica escaldante. Na mesa ao lado estava uma idêntica tosta, mas de salmão fumado com queijo Filadélfia, com muito bom aspecto – fica para a próxima incursão. Dizem-me que ao fim da tarde vale a pena provar o gin tónico do local. Tenho impressão que ali voltarei mais vezes. Ali e ao outro quiosque –esplanada que fica na parte debaixo do jardim de S. Pedro de Alcântara, ainda mais abrigado, e que acolhe desde o ano passado os célebres cachorros-quentes que dantes só existiam no Guincho.


 


BACK TO BASICS – Uma vida dedicada à política é uma nobre carreira, um jogo hábil ou uma grande calamidade (Oscar Wilde)

março 23, 2011

O PARQUE DE DIVERSÕES DE SÓCRATES

(publicado no diário Metro de 22 de Março)


 


Na noite de Domingo coloquei no Facebook e Twitter esta pergunta: «Estou aqui com uma dúvida: se em Portugal não votámos em Angela Merkel porque é que é ela que manda?».


 


A melhor resposta veio de um conhecido publicitário e tinha a forma de outra pergunta: «porque paga?».


 


Este é o busílis da questão: colocámo-nos numa posição em que desbaratámos todas as ajudas que a Europa foi concedendo ao logo dos anos, diminuímos, por imposição europeia a nossa capacidade de produção – nas pescas, na indústria e na agricultura – e tornámo-nos num país que vive apenas de serviços. Portugal transformou-se num imenso centro comercial que compra tudo ao estrangeiro e se endivida para depois pagar o que consome.


 


Dizer que o país tem sido governado como uma mercearia é uma ofensa para o pequeno comércio. Na verdade os nossos governantes geriram Portugal como um parque de diversões, sem pensar em nada mais que o gôzo imediato e a satisfação de todas as vontades.


 


A Alemanha, pelo seu lado, produz cada vez mais, exporta cada vez mais, e vive das vendas no mercado europeu que ajudou a construir na forma que ele tem hoje. Com grande sentido de missão, a Alemanha financiou o desenvolvimento de mercados periféricos na Europa, para onde passou a vender os seus produtos, as suas marcas, a actividade das suas empresas.


 


Como se tem escrito várias vezes ao longo desta crise, a Alemanha conseguiu, pela economia aquilo que foi incapaz de fazer através da guerra: dominou a Europa. Uma das respostas ao meu post era o clássico «É a economia, estúpido». E esta é a verdade. A força da economia alemã fez com que as decisões dos Estados que não se souberam governar fossem tomadas em Berlim. Foi à senhora Merkel que Sócrates apresentou mais um capítulo do seu PEC – não foi ao presidente português. O episódio ilustra o estado da nação.


 


Que José Sócrates venha agora dizer que a instabilidade não é provocada por ele, mas por outros, é apenas mais um número de circo, dentro do parque de diversões que ele desgraçadamente montou em Portugal ao longo dos últimos anos.

março 18, 2011

A Esquina de 18 de Março no Jornal de Negócios

IMPUNIDADE - Uma das razões do êxito das manifestações de Sábado passado tem a ver com a sensação, que se instala, de em Portugal não existir quem exerça de facto um poder de fiscalização sobre a acção dos políticos em geral, e dos governantes em particular. Não existe quem faça o papel de um Provedor do Eleitor com poderes para suspender políticos incumpridores e punir partidos que os acolhem - imaginem que o PS era multado por cada promessa falsa de Sócrates. A impunidade dos políticos e dos partidos em Portugal é total. Ninguém é responsabilizado pelos seus actos.


 


O Parlamento, a quem caberia fiscalizar a acção do Governo, está bloqueado na lógica que se instalou do bipartidarismo. Os 230 deputados existentes de facto não têm voz própria, são apenas abono das respectivas direcções parlamentares. E a reflexão sobre o bloqueio que o bipartidarismo está a causar é urgente. Mais do que reforçar maiorias parlamentares, estou convicto que a solução passa por uma profunda reforma no sistema politico e eleitoral, que o adapte ao tempo presente, quer em matéria de comunicação, quer de campanha eleitoral, quer de votação, quer em matéria da constituição de novos partidos e movimentos. Quanto mais diversificada  e próxima dos cidadãos for a constituição partidária do parlamento, maior é a probabilidade de sair fora da lógica da alternância entre PS e PSD e forçar a existência de coligações e alianças, que provoquem um Parlamento mais dinâmico, interveniente e com poderes mais efectivos, roubando-os às cúpulas dos grandes partidos.


 


Da maneira como estamos os partidos grandes apenas geram deputados dóceis, conformistas e, na esmagadora maioria dos casos, perfeitamente inúteis. Fragmentar em vez de concentrar pode ser a solução nesta fase – e aliás isso corresponde à evolução do que acontece em tantos aspectos da sociedade contemporânea.


 


 


CRISE - Agora estamos oficialmente em crise – uma crise que se prolongou demasiado porque as tácticas parlamentares e a táctica do Presidente da República assim o quiseram. A reacção de José Sócrates foi a de um cavalo selvagem que não quer ser domado: depois do discurso de posse de Cavaco, pôs-se aos coices. A sua declaração da passada segunda-feira foi uma espécie de denúncia de que o rei vai nu – só que se esqueceu que, neste caso, o rei é ele próprio. A entrevista que deu na quarta-feira na SIC Notícias mostra a escalada em que está empenhado e evidenciou que não vai desistir. Entrou em braço de ferro e é um sobrevivente. No seu partido tem as questões arrumadas – António Costa já mostrou que não se quer meter na confusão e prefere continuar por Lisboa e António José Seguro sente que ainda não tem apoios. Sócrates avisou que vai continuar em cena e mesmo com todas as manifestações que se viram, subestimar a sua capacidade é um erro grave – também ele já percebeu que, sendo impossível resolver a crise em pouco tempo, provavelmente o que mais lhe convém é ir a eleições o mais rapidamente possível. No meio disto existe a possibilidade real de, no quadro actual, sair de eleições um panorama que obrigue a coligações. E com Sócrates ainda em palco. A coisa promete.


 


SEMANADA – No passado dia 12 de Março completaram-se seis anos sobre a tomada de posse do primeiro governo liderado por José Sócrates. Nos últimos cinco anos a divida pública portuguesa passou de 80 mil milhões de euros para cerca de 150 mil milhões de euros. Apenas há um mês o Primeiro Ministro dizia que existia uma folga de 800 milhões no orçamento, para agora ter descoberto que afinal faltam 1,4 mil milhões – a justificação utilizada para o novo plano de austeridade. O bem humorado e perspicaz blogue “31 da Armada” fez notar que em Portugal já há mais PEC’s em funcionamento que automóveis eléctricos a circular – quatro PEC’s e dois automóveis. O aniversário do Governo foi evocado com manifestações que tiveram um aspecto curioso – foram transgeracionais e mobilizaram pessoas de todo o espectro político.


 


ARCO DA VELHA – Se existirem eleições antecipadas, Sócrates recandidata-se sem oposição interna visível no PS. Ele próprio o garantiu. Quem diria, há meia dúzia de meses, que isto podia acontecer, que ele não seria corrido pelos seus pares?


 


LER –  Comecei a seguir a carreira de Tina Brown quando percebi o que ela tinha feito na tradicionalíssima revista britânica “Tatler” no início dos anos 80. Como prémio, foi chamada em 1984 a dirigir a “Vanity Fair” e transformou a histórica revista naquilo que ela é hoje. A seguir, em 1992, tornou a “New Yorker” mais contemporânea. E em 1999 criou a revista “Talk”, talvez um projecto à frente do seu tempo. Em Outubro de 2008 iniciou-se no mundo da internet  e criou o site “The Daily Beast”, que cedo deu que falar . No início deste ano aceitou reformular o newsmagazine “Newsweek” .


Depois de duas edições já publicadas sob a direcção de Tina Brown, percebe-se o que mudou: a fotografia voltou a ganhar importância, o grafismo foi completamente remodelado e novos nomes começaram a assinar nas páginas da Newsweek. O resultado é que a revista saiu da letargia dos últimos anos, em que estava enfadonha, desligada da actualidade e  desinteressante. A edição mais recente, desta semana, tem a melhor capa que até agora vi sobre a catástrofe no Japão e mostra o que uma boa edição fotográfica, que use imagens com espaço e respiração, permite fazer a uma revista. Na última página escreve P.J. O’Rourke, um dos meus heróis. Tina Brown mostra mais uma vez como é importante não só ter bons conteúdos, como apresentá-los de forma superior. Quem disse que não valia a pena fazer nada na imprensa?


 


VER – A edição deste ano do prémio BES Photo 2011 evidencia uma significativa mudança de critério do júri de selecção, em relação ao que tem sido a prática – pouco interessante e muito conservadora – dos últimos anos. Até agora o júri tem privilegiado o domínio da estética politicamente correcta, mas finalmente parece ter resolvido deixar preconceitos e amarras de parte. Esta é talvez a melhor selecção dos últimos anos e conta com trabalhos de Kiluanji Kia Henda (Angola), Carlos Lobo (Portugal), Mário Macilau (Moçambique), Manuela Marques (Portugal) e Mauro Restiffe (Brasil). Fiquei surpreendido pela intensidade das imagens de Mário Macilau, pelos enquadramentos de Kiluanji Kia Henda, pelo olhar de Carlos Lobo e pela interpretação de Mauro Restiffe. Todos acrescentam alguma coisa à evidência, mas todos reflectem o tempo em que vivem – o que nem sempre aconteceu nas seis edições anteriores do prémio. Esta exposição vale francamente a pena ver – tem menos exercícios de estilo, menos jogos florais e maior criatividade e formas de ver – que no fundo é a essência da fotografia. Em exposição no Museu Berardo até 13 de Junho.


 


AGENDA – Na galeria Vera Cortês (Av 24 de Julho, 54, 1º), inaugura Sábado “Forking Paths”, fotografias de Gabriela Albergaria; Na galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51-53), dois projectos em confronto – “Máquina de Chilrear” de Cecília Costa e “De tempos a tempos a terra treme”, de Joana Escoval; no Espaço Arte Tranquilidade (Rua Rodrigues Sampaio 95) está a exposição colectiva “O consolo da pintura” com obras de Ana Jotta, Carlos Correia, João Paulo Serafim, Freek Wambaco, João Pedro Vale, Miguel Ângelo Rocha e Rodrigo Oliveira.


 


OUVIR – Loreena McKennitt é uma cantora e harpista canadiana com uma carreira de já duas dezenas de anos. O seu novo disco, “The Wind That Shakes The Barley” é um claro retorno às suas origens folk, que aliás lhe deram fama e notoriedade. O resultado é o seu melhor disco dos últimos anos, integralmente baseado em sonoridades celtas e em versões de temas tradicionais, vários deles da Irlanda e Escócia. O nome do disco aliás é o mesmo de um filme de Ken Loach, sobre a Irlanda, premiado em Cannes em 2006. A voz etérea de Loreena McKennitt ajusta-se na perfeição a estas canções e continua a surpreender como em “As I Roved Out” ou “The Star Of The County Down”.


 


BACK TO BASICS – Em política lembre-se o que convém e esqueça-se o que já não interessa (anónimo)

Em defesa dos cidadãos

(Publicado no diário Metro, 15 MAR 2011)


 


Ao longo de décadas o nosso sistema político desenvolveu-se em benefício dos intervenientes e não dos cidadãos. Nos últimos anos a situação agravou-se: à medida que aumentava o divórcio entre os partidos políticos e os eleitores, os dirigentes partidários ficaram sentados a olhar para os próprios umbigos. Como consequência o sistema começou a funcionar em circuito fechado, de forma cada vez mais evidente. Os resultados de todos os mais recentes actos eleitorais mostram que a abstenção aumenta e que o número efectivo de votantes vai diminuindo.


 


As duas últimas eleições legislativas ficaram marcadas por promessas que foram negadas e contrariadas nos dias e meses seguintes à votação. Tornou-se habitual que os eleitores votem numa promessa que só lá está por táctica eleitoral e que verdadeiramente não é para ser cumprida. O resultado é o descrédito generalizado nos políticos e na classe política. Pelos erros de alguns acabam todos por pagar


 


Alguma classe política vive da impunidade de saber que as promessas não cumpridas, tornou-se inimputável. Gera desconfiança e descrédito. «A política é a única profissão no país que goza da mais completa impunidade» - escreveu, com razão, Vasco Pulido Valente na semana passada.


 


Por mais estranho que isto seja o nosso sistema político funciona sem fiscalização efectiva. A Assembleia da República deixou há muito de ter a função de vigiar o Governo – é apenas uma corrente de transmissão do executivo.


 


O Presidente da República tem teoricamente um papel de arbitragem, mas há muito deixou de exercer o papel de fiscal e zelador. O Presidente da República, sobretudo no seu primeiro mandato, não serve para defender o interesse dos eleitores, preocupado que está com a sua reeleição.


 


Mais valia que houvesse um provedor dos eleitores, alguém com poder para punir políticos incumpridores, alguém que pudesse sancionar partidos que não cumprem programas eleitorais e penalizasse a sua actividade.

março 11, 2011

A Esquina de dia 11 de Março no Jornal de Negócios

ELEIÇÕES – Estou inclinado a achar que, no início do segundo mandato, os Presidentes da República abusam de Viagra ou de alguma outra substância semelhante. No segundo mandato os presidentes, como Cavaco Silva bem mostrou no seu discurso desta semana, dizem o que antes achariam desestabilizador e passam a agir de forma diferente. Como se toda a vida tivesse pensado e dito o mesmo, Cavaco Silva apelou a que a sociedade civil se levantasse contra o estado das coisas em que o país anda  - «é altura de os portugueses despertarem da letargia em que têm vivido», avisando que «há limites aos sacrifícios» e apelando aos jovens para fazerem ouvir a sua voz.


 


É uma mudança extraordinária de quem, para além do razoável, tolerou, em silêncio, o degradar da situação económica, o degradar do funcionamento das instituições, o degradar do funcionamento do sistema político- partidário, algo que culminou com todos as anomalias eleitorais no próprio dia da sua reeleição e com a elevada abstenção que se estabeleceu no país. Agora, depois de um mês a ouvir opiniões do focus group de notáveis que chamou a Belém, vestiu um camuflado e partiu, diferente e aguerrido, com alma guerreira. Mais vale tarde que nunca? – é verdade – mas escusávamos de ter perdido tanto tempo a deixar o Governo em roda livre só para garantir a reeleição.


 


O problema, aliás, não é só de Cavaco Silva – os Presidentes anteriores fizeram sempre isto – um pouco como se durante o primeiro mandato andassem alimentados a Valiums, acalmando-se à força para garantirem a reeleição, para, depois, no segundo mandato, usarem estimulantes como carburante. É uma situação que se está a tornar ridícula e que é sintomática da forma como os Presidentes governam em função dos seus interesses políticos e pouco mais.


 


Quando olho para este fenómeno penso se não seria mais útil limitar o mandato do Presidente da República a um único, mesmo que um ano mais longo. Assim se evitariam estes tristes episódios em que assistimos à negação das evidências durante metade do seu ciclo de vida político em Belém.


 


Já que os Presidentes governam em função da obtenção do seu segundo mandato, melhor seria tornar esse segundo mandato inexistente. Podia ser que assim tomassem decisões, em vez de viverem de equilibrismos.


 


INVESTIMENTOS – Olhar para a evolução dos investimentos publicitários é sempre curioso. Os números agora conhecidos do mês de Janeiro mostram um ténue sinal de retoma, é certo que muito baseado na publicidade das grandes cadeias de distribuição. No sempre difícil mês de Janeiro o investimento cresceu um pouco mais do que 2% , saindo do ciclo de queda dos últimos meses do ano passado. O investimento publicitário nos canais de cabo continua a crescer a bom ritmo – mas o investimento nos canais de sinal aberto caiu – o mesmo sucedendo, embora de forma mais acentuada, na imprensa diária e semanal. O maior crescimento, claro, continua a ser o investimento publicitário nos meios online, que aumentou cerca de 70% em relação ao mês de Janeiro do ano passado, ultrapassando já, em valores reais, o investimento na rádio e na imprensa diária.


 


SEMANADA – Angolanos compraram mais 5% do BCP; Durão Barroso afirma que Portugal não deve pedir ajuda externa; Portugal subiu ao 5ºlugar da lista dos países que correm maior risco de bancarrota; os juros da dívida pública portuguesa atingiram valores recorde; os Homens na Luta ganharam o Festival RTP da canção; o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, horas antes do discurso de Cavaco Silva, considerou que o Governo «tem todas as condições políticas para alcançar os objectivos a que se propôs e superar a crise que o país enfrenta».


 


FRASE DA SEMANA - «Tudo depende de o PSD continuar escondido atrás da sua táctica de caça aos patos ou mostrar que não tem medo de ir a jogo» - António Nogueira Leite, no Facebook


 


ARCO DA VELHA – Dois terços dos carros da Polícia Judiciária estão inoperacionais ou com problemas de manutenção e, segundo relata a imprensa, a principal polícia de investigação portuguesa está em falência técnica. Nada de novo no universo da Justiça.


 


VER – A galeria Appleton Square é um agradável espaço na antiga zona industrial de Alvalade, por detrás da Avenida da Igreja, que se tem dedicado a arte contemporânea. Agora expõe seis novas obras de Jorge Humberto (JOH), um pintor que se tem destacado pela forma como experimenta técnicas que criam texturas complexas. O título genérico da exposição é «Tradutor», um nome bem escolhido para sublinhar a forma como JOH nos faz ver outras realidades além das evidências. O artista gosta de explorar os sentidos, provocando a imaginação. Usa a cor de uma forma particular, moldando-lhe tonalidades com texturas, às vezes quase como se quisesse criar uma terceira dimensão na sua pintura. Até 26 deMarço, Rua Acácio Paiva 27, aberto das 15 às 20, de terça a sábado.


 


AGENDA – No Teatro Municipal de Almada uma exposição-leilão, que agrupa obras de vários artistas (de Pedro Calapez a Cristina Ataíde, passando por André Gomes, Rui Chafes, Pedro Proença, Jorge Martins, Graça Sarsfield ou Egas Vieira, entre outros) – até dia 17 de Abril.


 


FOTOGRAFIA – Até 15 de Junho, no Museu Colecção Berardo, no CCB, as sempre polémicas escolhas do prémio BES Photo, este ano com trabalhos de Carlos Lobo, Kiluanji Kia Henda, Manuela Marques, Mário Macilau e Mauro Restiffe; no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, duas exposições: «2011», de André Cepeda; e «arquivo#0» de José Maçãs de Carvalho.


 


LER –  O novo livro de José Eduardo Agualusa é um divertido exercício de usurpação de estilo. O escritor vestiu a pele de 25 autores já desaparecidos e escreve, sobre temas, factos, pessoas, músicas e tendências actuais como os próprios o fariam, replicando o estilo e, aqui e ali,  os tiques de discurso literário. É um belo exercício de imaginação e bom humor, que resulta em 25 histórias curtas que traçam um bom retrato dos tempos actuais, recorrendo à inspiração de nomes como Eça de Queiroz, Nabokov, Senghor, Bertrand Russell, Bruce Chatwin, Sophia de Mello Breyner, Camilo Castelo Branco ou Nelson Rodrigues, entre outros. Delicioso. José Eduardo Agualusa, «O Lugar do Morto», Edição Tinta da China 157 péginas.


 


OUVIR – Alguns discos são tão belos e perfeitos que se torna muito difícil escrever sobre eles. Logo à primeira audição mostram-se irresistíveis. É o que acontece com o novo trabalho dos norte-americanos The Decemberists, «The King Is Dead», o seu sexto álbum. Normalmente associados a influências do folk britânico, este novo disco é no entanto aquele que mais marcadamente revive a tradição musical norte-americana, com momentos onde se notam influências de nomes como Neil Young, dos REM (Peter Buck colabora aliás no disco). Outra das colaborações vem de Gillian Welch, essa extraordinária intérprete americana que foi às raízes musicais dos Estados Unidos buscar inspiração e que aqui se destaca. Elegante, criativo, inspirado, este disco viveria mesmo que não tivesse estas duas colaborações excepcionais. The Decemberists, The King is Dead, CD Rough Trade


 


PROVAR – Nos anos 60 o restaurante Arraial era um dos locais incontornáveis na zona da Avenida de Roma. Decoração típica portuguesa à moda da época, cozinha tradicional. Com o andar dos anos foi decaindo, e no ano passado sofre uma remodelação total. A decoração ficou mais leve, o espaço mais luminoso, com zona para fumadores. Confortável, boa garrafeira, serviço atento, o Arraial voltou aos seus melhores tempos, mantendo a fidelidade à cozinha portuguesa. Por estes dias provei um bacalhau à Brás e um Choco Frito à moda de Setúbal, ambos a corresponderem às expectativas. Preços razoáveis, boa qualidade, bom serviço. Restaurante Arraial, Travessa Conde de Sabugosa 13 A e 13 C, Telefone 218 400 089.


 


BACK TO BASICS – A palavra foi dada ao homem para esconder o seu pensamento - Stendhal

março 04, 2011

Esquina 398 - Jornal de Negócios

TELEVISÃO - A contínua progressão do cabo continua a fomentar um clima de  agitação nas estações de televisão em sinal aberto. Os números da semana passada são elucidativos: a TVI obteve um share médio de 26%, a SIC ficou em segundo lugar com 23,6%, o conjunto de canais de cabo ficou na terceira posição com 23,5% e a RTP 1 só conseguiu o quarto lugar com 23%; a RTP 2, vítima da falta de estratégia alternativa, caiu para os 3,9%, o seu pior resultado desde há muito tempo. Na realidade o somatório dos canais de cabo já está, nas últimas semanas e de forma regular, na terceira posição, à frente de um dos canais de sinal aberto. 


 


Se olharmos só para os resultados dos que vêem televisão por serviços de distribuição pagos (já existem 2,77 milhões de casas com assinatura de cabo, fibra óptica ou satélite), na semana passada o quarto canal mais visto, logo a seguir aos três canais generalistas, foi a Sport TV, seguido da SIC Notícias, AXN, e só depois a RTP 2. A seguir, para completar o top ten, vêm Hollywood, Fox e Panda.


 


Mas o mais curioso de tudo é que na semana passada, nas casas com televisão por assinatura, 52,2% preferiram os canais do cabo e só 47,8 ficaram pelos canais de sinal aberto. Não é isto que costuma acontecer e certamente a transmissão de vários jogos de futebol na Sport TV justificou esta enorme alteração de padrão. Mas mesmo que nas próximas semanas o cabo volta a ser minoritário, os dados estão lançados e esta é uma realidade que não vai voltar para trás. O mundo da televisão está a mudar de forma acelerada.


 


Os espectadores assumiram o controlo do comando, como dizia a (boa) publicidade da Meo – e o que é facto é que o aumento do número de assinantes de televisão que se verificou desde que existem dois grandes operadores no sector veio contribuir para que progressivamente diminua o número de espectadores da RTP, SIC e TVI.


 


CRISE – Estamos numa situação em que o PS tem medo de cair, mas o PSD parece ter medo de ganhar Um amigo meu dizia-me, há dias, que ao PSD falta « killer instinct» - e Sócrates, é claro, aproveita-se disso. Cada dia que passa ouvem-se mais rumores de que tudo se vai acelerar a partir do próximo dia 9, quando Cavaco Silva tomar posse no segundo mandato como Presidente da República. Esta semana Belém deixou cair nos jornais que o Presidente havia criticado o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a propósito da ameaça de processo disciplinar que este fez a um Juiz que não obedeceu á destruição das gravações das escutas de Sócrates, incluídas no processo Face Oculta. Noutras ocasiões recentes Cavaco deu sinais de distanciamento em relação ao Governo e de preocupação com o evoluir da situação portuguesa. Está agendado um duelo, só que ainda não tem hora marcada – mas mais tarde ou mais cedo ele vai mesmo ocorrer.


 


SEMANADA -Teixeira dos Santos descobriu, ao fim de anos de Governo, que a economia portuguesa não pode continuar a assentar numa espiral contínua de endividamento. O Governo afirmou que prepara mais medidas de austeridade. O concurso do TGV continua a girar sem que ninguém perceba exactamente o que se passa. Sócrates terá falado do TGV na conversa com Merkel?


 


ARCO DA VELHA – Leio nos jornais que os magistrados vão ter de deixar de usar separadores de cartão, em processos judiciais, como importante medida de contenção da despesa anunciada pelo Director Geral da Administração da Justiça.


 


VER – A nova exposição do fotógrafo Paulo Nozolino, Makulatur, é criativamente avassaladora, formalmente contida, mas com uma energia contagiante. Esta intensidade é ainda mais marcante porque o tema da exposição é a vida e a morte, uma vida marcada pela expiação, às vezes apenas reduzida a um caminho para o fim. Os seis dípticos que constituem a exposição são uma evidência da transitoriedade de tudo o que nos rodeia. A própria forma como a exposição está montada, quase a evocar a ida a um sepulcro, apenas quatro pessoas dentro do espaço de cada vez, contribui para uma ideia de criatividade total, tecnicamente irrepreensível,  com a possibilidade de estimular múltiplas leituras. Por fim alguém sai do bonitinho e não hesita em provocar. Ou ser realista. Makulatur, Galeria Quadrado Azul, Largo Stephens 4, até 21 de Abril.


 


AGENDA – Pintura de Michael Biberstein em diálogo com escultura e instalações de Rui Sanches ,em diálogo no Pavilhão Branco do Museu da Cidade de Lisboa, no Campo Grande, até 10 de Abril; trabalhos recentes, sobre papel, de pedro Chorão, na Galeria João Esteves de Oliveira, Rua Ivens 38, até 18 de Março.


 


LER – A edição da revista Monocle de Março aborda um tema actualíssimo: Será que não se dorme na nação do futuro - deixa de haver horários, estamos sempre ligados?.A Monocle sugere formas de equilibrar o trabalho, o descanso e a diversão na época em que estamos sempre ligados através de um dos múltiplos aparelhos que nos rodeiam. Com humor anuncia que os OOOR são uma classe perigosa desfasada com o ritmo dos tempos. OOOR quer dizer «Out of Office Reply» e quem utiliza este mecanismo nos dias de hoje está desfasado da realidade. Por outro lado, sobretudo na Ásia, proliferam os OAH – Open All Hours. A abordagem da Monocle faz-nos poensar nos desafios que a capacidade de conectividade colocam quer ás empresas quer aos profissionais. Muito interessante.


 


OUVIR - Let England Shake, o novo e oitavo álbum de originais de P.J. Harvey, quatro anos depois do perturbante White Chalk, é um disco surpreendente – em termos das canções, do ponto de vista musical e das letras – e, como ela diz, as suas canções nascem de palavras que depois ganham forma musical. Está a tornar-se um lugar comum dizer que este disco coloca a carreira de miss Polly Harvey num novo patamar – mas de facto é verdade. Ela consegue levar a música popular contemporânea para um território há muito inexplorado, num disco em que a música pop regressa ao tema da guerra. «Todos os meus discos são políticos no sentido original do termo - falam da forma como nos relacionamso uns com os outros» - afirmou Harvey numa recente conversa publicada na revista francesa Inrockuptibles. Neste disco ela  fala da guerra através da poesia, fala de conflitos que, ora não localiza no tempo ora descreve de forma clara. Claro que no fim se percebe que ela, em todas estas canções, fala sobretudo da condição humana. Uma das canções, «England», é assim: “I have searched for your springs, but people, they stagnate with time, like water, like air…” .


 


PROVAR – Gostava de conhecer Moçambique, de ouvir lá a sua música que tanto me fascina, de provar os petiscos de que amigos meus falam. Pois fiquem os lisboetas sabendo que há um bocadinho de Moçambique perto do Cais de Sodré, no restaurante Ibo, já aqui mencionado noutra ocasião. Fica mesmo ao lado do Bar do Rio e retorno ao tema porque nestes dias em que o sol começa a querer dar sinal, apetece mesmo ir para  a pequena esplanada do Ibo e beber uma imperial com cerveja de marca «Laurentina», uma das cervejarias famosas de Maputo, comendo umas gambas à moda do que lá se faz. Há muitas outras iguarias – mas destaco o caril de caranguejo, que continua a ser uma especialidade. É pena que aquela zona da cidade esteja tão desleixada pela Cãmara, tão suja e cheia de lixo, e que tenham construído uma pista de ciclismo que obriga quem ali passeia à beira-rio a permanentes exercícios para evitar ser atropelado. Ibo – Cais do Sodré, Armazém A, Telefone 213 423 611.



BACK TO BASICS – A dúvida é o princípio da sabedoria - Aristóteles

março 02, 2011

GOLPADAS PARTIDÁRIAS

(Publicado no diário Metro de 1 de Março)


 


De repente o PS, com ajuda de parte do PSD, começou a falar da necessidade de reorganizar o território. Fala-se em diminuir o número de freguesias, talvez o número de municípios,  em iniciar o processo de regionalização e em promover o reordenamento administrativo do território. À primeira vista tudo parece perfeito.


 


Acontece que, quando ouço falar disto, apetece-me, como dizia o outro, sacar da pistola – a probabilidade de tudo isto só servir para ir ao bolso dos contribuintes ainda mais é elevadíssima, a probabilidade de isto só servir para mais uns jobs for the boys é enorme. Regra geral quando, no contexto do nossos sistema político, se fala de reordenamento administrativo, isso quer dizer fazer uma partilha equilibrada de lugares entre partidos.


 


Como de boas intenções está o inferno cheio vale a pena ver o que se passou em Lisboa, a nível do projecto de redução das freguesias, cozinhado à socapa pelos líderes das distritais do PS e PSD, dois aparelhistas com anos de experiência de negociatas destas. Guiados pelo desejo de dar um exemplo ao país, fizeram um acordo que tem por base a maximização dos resultados eleitorais de ambos os partidos (desprezando os outros), ignorando qualquer diálogo com os eleitos – nas freguesias ena vereação. Ou seja, o único objectivo foi concertar posições que salvaguarde os dirigentes partidários, passando por cima daqueles que foram escolhidos pelos eleitores.


 


PS e PSD dizem que o acordo de Lisboa é exemplar –  na realidade é um alerta para o que, se puderem, responsáveis partidários do calibre dos que fabricaram o negócio irão fazer pelo resto do país.


 


É bem verdade que uma reorganização administrativa do território é uma peça importante de modernização – mas era bom que ela fosse feita com base em estudos e decisões de técnicos e de especialistas,  e não com base nos objectivos partidários do bloco central – que passam por esvaziar a paisagem à sua volta e partilhar lugares.

fevereiro 25, 2011

Esquina 397 - Jornal de negócios

ERC – Vai por aí um grande desassossego à volta da designação dos novos membros da ERC, Entidade Reguladora da Comunicação. Eu, por mim, acho muito bem que se faça um balanço, sério, do que se passou neste primeiro mandato desse organismo. Muita coisa correu mal, a ERC agiu muitas vezes de forma desastrada, actuou quando não era necessário e esteve silenciosa quando se justificava fazer-se ouvir. É  legítimo considerar que, em diversas ocasiões, serviu de cobertura política ao Governo e esteve longe de fazer um mandato independente – e este ponto é certamente o mais grave de todos. A falta de independência e a tendência servilista em relação ao poder político derivam da forma da sua designação – por negociata parlamentar. Na altura em que a ERC foi lançada houve quem chamasse a atenção para o monstro que estava ser criado. Pode dizer-se hoje que o monstro foi amamentado a biberon parlamentar, e que está um perfeito monstrinho. Reconheço que há um trabalho de recolha de informação e sistematização de dados que é importante, e que não era feito com a mesma sistematização na anterior Alta Autoridade para a Comunicação Social - mas tenho as maiores dúvidas sobre a forma de regulamentação permitida a esta entidade e sobre a maneira como ela agiu.



Existem outros pontos quentes neste dossier – para além da forma de escolha dos seus membros – e que vão desde as suas competências e esfera de acção até ao próprio sistema de financiamento do organismo, que levantou justificados protestos dos meios. Estas questões, básicas, deviam ser analisadas e corrigidas para o futuro – mas não ouço ninguém a falar delas.


 


E, depois, existe outra questão, mais grave, que tem a ver com a forma como a ERC interferiu no normal desenvolvimento dos meios. O caso da televisão digital terrestre é o mais gritante de todos. É certo que aqui a culpa não é só da ERC, a Anacom também tem um vasto rol de culpas na forma como todo este processo se arrastou até ao ponto, que é o actual, em que a realidade tecnológica ultrapassou as regulamentações e a previsão dos legisladores – sem que até agora tenham aceite fazer as correcções necessárias.


 


Resumindo: os operadores que distribuem televisão por subscrição são hoje capazes de fornecer serviços (alta definição, 3D,  vídeo on demand, etc), para além da própria emissão digital de televisão, que superam em muito o que sobre esta matéria estava previsto no Concurso da TDT. E isto, mesmo sem que já exista fibra óptica em todo o país. Quando existir, com os programas intensivos de cablagem agora em curso, o anacronismo da solução aprovada para a TDT ainda vai ser maior.


 


Portanto temos um paradoxo: as normas da Televisão Digital Terrestre são mais arcaicas que o serviço que os operadores de cabo conseguem já hoje fornecer. Ou alguém pega nisto de forma racional ou então a factura do disparate será enorme. E a ERC que até agora existiu tem uma quota parte razoável deste disparate.


 


ARCO DA VELHA- O estado a que isto chegou: acabaram com os comboios para Beja, mas abriram lá um aeroporto onde quase só as moscas aterram. O progresso do Portugal contemporâneo é assim: quer ir a Beja? – vá de avião, que já pode aterrar.


 


SEMANADA – Francisco Louçã confessou, numa entrevista, que tem «uma paciência evangélica para Sócrates»; Francisco Louçã disse, numa entrevista, que «se o FMI entrar deve haver eleições».; Francisco Louçã considerou, numa entrevista, que «o Governo de Sócrates é o Governo do PSD»; Francisco Louçã afirmou, numa entrevista, que o Bloco de Esquerda «sairá muito reforçado» da moção de censura ao Governo; Francisco Louçã revelou, em entrevista, acreditar que nas recentes eleições presidenciais «grande parte do PS votou em Cavaco»; Francisco Louçã anunciou, em entrevista, «que o BE é hoje diferente do que era».


 


PERGUNTA – Porque é que ninguém no Governo explica como é que a despesa pública subiu 0,9% em Janeiro?


 


LER – Todos os anos a revista norte-americana «Vanity Fair» faz, no mês de Março, uma edição especial alusiva aos Oscares de Hollywood. É, digamos, uma edição clássica, de colecção, para guardar. Na deste ano, que já está à venda em Portugal, há sobejas razões para ir devorando este número. A primeira é a produção fotográfica da capa, fantástica, um tríptico desdobrável com 15 dos novos actores nomeados este ano. Depois, lá dentro uma recolha de alguns dos mais célebres romances entre actores e actrizes, acompanhado por fotografias históricas (como a de Spencer Tracy com Katherine Hepburn). Ainda em matéria fotográfica destaque para um portfolio de mulheres fatais de Hollywood, de Ava Gardner a Marilyn, passando por Kim Basinger e Elisabeth Taylor. E, para completar o ramalhete, uma fabulosa entrevista com Lauren Bacall, em que ela recorda a sua vida com Humprhey Bogart, o seu namoro com Sinatra e a sua vida no cinema. Imperdível.


 


OUVIR – Return To Forever foi um projecto marcante no jazz desenvolvido por Chick Corea e que, entre 1972 e 1977, agrupou e revelou uma série de músicos e foi uma das referências da época do jazz de fusão. Em 2008 Corea decidiu voltar a pôr de pé o conceito, desta vez sob a designação «Forever». Fez uma longa digressão mundial (agora está a começar outra) e em 2009 foi para estúdio gravar versões acústicas baseadas no trabalho desenvolvido na digressão, que incluía clássicos do jazz, um original e temas da fase Return to Forever. Ao seu lado, em estúdio, estavam o baixista Stanley Clarke e o baterista Lenny White. O resultado é surpreendente – temas conhecidos ganham aqui uma nova vida e o equilíbrio, energia e criatividade destes arranjos acústicos é uma boa surpresa. O resultado é o duplo CD «Corea, Clarke & White – FOREVER». O segundo disco é uma surpresa ainda maior e  regista a gravação de um ensaio da digressão, onde também participaram o violinista Jean Luc Ponty, a cantora Chaka Kahn e o guitarrista Bill Connors. Este disco 2 termina com o registo ao vivo do clássico «500 Miles High», no festival de Jazz de Monterey, em 2009. Uma perfeita delícia.


 


VER  – Na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, e até 12 de Junho, está patente a exposição  «My Choice», uma escolha feita pela própria Paula Rego que inclui 120 obras da colecção do British Council, nomeadamente pinturas, gravuras, fotografia e desenho. Esta colecção inclui 8500 obras dos séculos XX e XXI e esta escolha permite ver alguns significativos artistas britânicos pouco conhecidos em Portugal –  além, claro, de proporcionar a oportunidade de ver o célebre «Naked Girl With Egg» de Lucian Freund e a série de dez gravuras de David Hockney para os Contos dos Irmãos Grimm. Esta exposição é acompanhada por uma outra que mostra quadros de Paula Rego feitos à época da sua obra «Proles Wall», de 1984, considerada como um dos pontos de viragem na carreira da artista.


 


PROVAR – Às vezes há quem pense que uma pequena vivenda ao fundo da Avenida de Berna, quase a chegar à Praça de Espanha, não passa de uma casa particular. Na porta está escrito «La Gondola». Na realidade trata-se de uma referência entre os restaurantes de Lisboa, uma casa que mistura algumas incursões pela cozinha italiana com boa cozinha portuguesa. As influências italianas vêm da origem do restaurante, nos anos 30 do século passado, fundado por uma família italiana que pretendia servir a cozinha do seu país aos compatriotas radicados em Lisboa. Hoje a história é diferente e embora existam alguns pratos italianos o essencial passa-se na tradição portuguesa. Quando lá vou o meu petisco favorito é o bacalhau à Braz, que continuo a achar um dos melhores de Lisboa, levíssimo. As alheiras são reputadas e os grelos que, a pedido, podem acompanhar, são elogiados pelo seu sabor. Para os gulosos, a rematar, aconselho uma trouxa de maçã. Resta dizer, nesta semana solarenga, que o La Gondola dispõe de uma esplanada que é dos locais mais parazíveis de Lisboa. Telefone 217 970 426.


 


BACK TO BASICS – O ódio é a vingança do cobarde – Bernard Shaw

fevereiro 22, 2011

PUNIR A MENTIRA NA POLÍTICA

(Publicado no diário Metro de dia 22 de Fevereiro)


 


Todas as campanhas eleitorais são férteis em promessas. O bom senso e a lógica mandariam que algumas nem chegassem a ser feitas - mas são, e surgem voluntariamente. Os políticos habituaram-se a fazer as promessas que lhes vinham à cabeça e a viver com o seu incumprimento na maior impunidade. As promessas não cumpridas tornaram-se no dia-a-dia de partidos e candidatos e são uma das causas do descrédito da política e do afastamento dos cidadãos em relação ao voto.


 


Por isso, lanço aqui hoje uma ideia: devia ser criado um mecanismo legal que analisasse as principais promessas não cumpridas e promovesse a responsabilização efectiva daqueles que violam o que prometeram. O Presidente da República devia ter especial e constante intervenção nesta matéria, sendo o garante da verificação das principais promessas feitas.


 


Um caso:  quem ao fim de um mandato não consegue cumprir, por margem significativa, metas que prometeu, por exemplo na criação de emprego, deve ser interditado de se recandidatar a próximas eleições. O Presidente da República devia analisar o mandato e verificar quais as promessas que foram completamente desprezadas e que foram apenas engodo eleitoral. E quem mentiu para caçar votos devia ser proibido de ir a novas eleições.


 


Outro caso:  quem promete não aumentar impostos e o faz dois ou três meses a seguir às eleições devia ser destituído de imediato e o Presidente da República devia ter a obrigação de o fazer,  criando um mecanismo de substituição do Governo. Além disso o partido que caucionou estas propostas devia ser penalizado com a perca de lugares no Parlamento e outras condicionantes de actuação.


 


Estas minhas ideias podem parecer estranhas – mas é preciso encontrar uma forma de responsabilizar os responsáveis por cargos políticos pelas mentiras que utilizam com o único propósito de conseguirem ter poder.


 


Se o Presidente da República se tornasse num fiscal, que persegue e castiga a mentira, o nosso sistema político melhoraria, e muito.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 18 de Fevereiro)

LISBOA - Leio, e nem acredito: «Os deputados municipais do PS e do PSD em Lisboa recusaram terça-feira, na assembleia municipal, enviar para discussão pública propostas de reorganização das freguesias, alternativas àquela negociada por socialistas e sociais-democratas». Aquilo que podia ser uma boa coisa – a diminuição do número de freguesias e uma reordenação da cidade – tornou-se num case study de manobrismo político. Este é o retrato do pior que existe na traficância de interesses partidários, é o retrato da arrogância e soberba das lideranças dos partidos do bloco central na assembleia municipal de Lisboa. Fui eleito, como independente, mas na lista do PSD, em 2009, para a Assembleia Municipal de Lisboa e depois das primeiras reuniões deixei de participar nos trabalhos, solicitando a substituição, em cada reunião, há mais de um ano. Sobre o assunto tenho mantido silêncio, mas há muito que  discordo da actuação da liderança do PSD na Assembleia, discordo da sua relação com a equipa de vereadores social-democratas, e discordo da forma como tem sido conivente com um funcionamento perfeitamente inútil da Assembleia Municipal. A minha curtíssima experiência autárquica faz-me desconfiar da utilidade deste órgão – um mini parlamento para auto satisfação oratória de alguns funcionários políticos, que  promovem reuniões atrás de reuniões, na generalidade vazias e muitas delas inúteis, para justificar umas senhas de presença e dar uma ilusão de debate. Só que, como se vê, quando o debate público é preciso, ele é abafado. A Assembleia devia ser o garante da relação com os Munícipes, e não um obstáculo. Com esta decisão a Assembleia Municipal de Lisboa ergueu à sua volta um muro que a separa da cidade. PS e PSD foram os obreiros desta obra, um tratado de Tordesilhas da capital, negociado directa e exclusivamente entre as estruturas distritais dos dois partidos, com a benção de António Costa. Assim sendo não se percebe para que serve a Assembleia Municipal – é uma mera figura de corpo presente. Esta semana entreguei a minha renúncia ao mandato de deputado municipal. No estado em que as coisas estão, não alimento a menor esperança que mudem.


 


ARCO DA VELHA – O Tribunal Central de Instrução Criminal, que tem em mãos alguns dos mais mediáticos processos judiciais, é o retrato do país real: uma máquina muito usada de fotocópias, ausência de scanner, falta de armários para guardar os processos, um fax com 11 anos; este é o lado da moeda, inverso ao deslumbre tecnológico de Sócrates. De um lado cenário e fantasia; de outro a crua realidade. No meio, a ineficácia da justiça. Portugal no seu melhor.


 


SEMANADA – O Ministro Silva Pereira foi ao Parlamento dizer que a culpa das falhas nas eleições presidenciais foi do Ministério da Administração Interna, mas zurziu a oposição por pedir a demissão do respectivo Ministro; o Bloco de Esquerda transformou um instrumento político, a moção de censura, numa espécie de bóia salva-vidas para o Governo – que vai sair do assunto a rir-se da oposição; no fundo, Louçã teve uma ideia um bocado parva, para utilizar uma expressão muito em voga.


 


PERGUNTA – Que dirá José Sócrates de Angela Merkel? E que dirá Angela Merkel de José Sócrates?


 


LER - «Prova de Vida» é o novo livro de Filipe Pinhal, ex-presidente do BCP que há três anos foi protagonista de uma história ainda muito mal contada. Neste seu segundo livro sobre o BCP (o primeiro foi «Em Defesa do Bom Nome», de 2009), já com o recuo que o tempo proporciona, Filipe Pinhal relata o que aconteceu, em detalhe, designando pessoas e chamando as coisas pelo nome. É um relato impressionante, muito bem resumido por Miguel Cadilhe, na apresentação pública do livro: «A Caixa Geral de Depósitos financiou o assalto ao BCP, com luz verde do Governo, e apadrinhada pelo Banco de Portugal, CMVM e pelo Ministro das Finanças». Os detalhes e peripécias deste processo que «levou o BCP a mudar de mãos sem que quem o adquiriu pagasse prémio aos accionistas», provocou a governamentalização, politização e desvalorização do Banco – defende Pinhal. Este é um retrato de uma época , a da fase inicial do regime Sócrates, da tomada de posições em vários sectores, numa utilização abusiva do Estado como ainda não se tinha visto de 1974 para cá.


 


VER – A galeria Pente 10 é uma das poucas que em Lisboa se dedica à fotografia – e tem feito um bom trabalho, embora os preços apontados sejam um pouco desproporcionados . Até dia 2 de Abril exibe uma nova série de fotografias de Luisa Ferreira, agrupadas na exposição «Nós». São imagens construídas, situações onde a natureza se cruza com a encenação da presença de pessoas, familiares e amigos da autora. Em boa parte funciona como um regresso às origens, num percurso muito pessoal. Com um cuidado extremo no enquadramento e na abordagem quase gráfica da natureza ( a série dos bosques, por exemplo), «Nós» retoma  a vontade de Luisa Ferreira em mostrar que a sua fotografia vai para além da observação da realidade, preferindo construir momentos. Intervenção na paisagem, como diz Luisa Ferreira.


 


OUVIR – A pianista japonesa Mitsuko Uchida regressa pela segunda vez ao registo dos concertos para piano nº20 e nº 27 de Mozart, duas das peças mais populares do compositor. O registo original foi feito há já algumas décadas, com a English Chamber Orchestra. Aqui Uchida trabalhou com a Orquestra de Cleveland, que surge em grande forma, e com quem a pianista conseguiu estabelecer uma relação perfeita, dirigindo-a a partir do paino, como acontecia na época em que Mozart compôs. Mas o fundamental continua a ser  a precisão, a leveza do fraseado e o sentimento colocado por Uchida nestas peças.


 


AGENDA – Tesouros escondidos por detrás da aparência exterior: assim se pode descrever «BloomArt», a exposição de esculturas murais que Anamar & Telma apresentam na Cordoaria Nacional, até 17 de Março. Cada peça mistura cores com formas, palavras e frases com música e um ponto comum entre todas: no interior, guardado está um anel. E um anel, como escreve João Pinharanda sobre  a exposição, «deve ser um objecto mágico (….) teremos de ser nós a gerir o bem e o mal que ele possui». 


 


PROVAR – O Hotel Inspira Santa Marta é um bom exemplo de recuperação de um prédio antigo. Em vez de uma ruína temos agora um prédio vivido, recuperado com bom gosto e funcional. No seu piso de entrada funciona a Open Brasserie Mediterrãnica – o espaço é amplo, luminoso, infelizmente com clientela não muito abundante. E, no entanto, a cozinha é simpática e baseada em produtos como o peixe espada preto (bons filetes), um saboroso frango do campo recheado ou uma posta de boa carne barrosã, grelhada. Os acompanhamentos tem uma preocupação de agricultura biológica e o restaurante serve água da torneira filtrada. O serviço é simpático, a confecção é boa, a arquitectura é convidativa. Pena não ter mais gente, porque a merecia. Ao almoço e jantar há menus especiais mas em qualquer caso mantém-se a lista. Os vinhos disponíveis não são muitos mas são bem escolhidos e a preço razoável.  Rua de Santa Marta 48, telefone 210440900.


 


BACK TO BASICS – A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano (Voltaire)

fevereiro 18, 2011

UMA ASSEMBLEIA MUNICIPAL APODRECIDA

Apresentei hoje a renúncia ao mandato de Deputado Municipal. As razões são as que estão neste texto, publicado hoje em «A Esquina do Rio», no Jornal de Negócios. Não fazia sentido continuar com um mandato que deixei de exercer, quando, há um ano, ficou claro que a agenda da Direcção do Grupo do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa, e da respectiva Distrital, era diferente da luta por uma Lisboa melhor e com sentido, que os vereadores eleitos da lista a que pertenci se esforçavam por desenvolver.


 


Custava-me caucionar, pelo silêncio, posições que muito me desagradavam. Esta semana, com a evidência de uma negociata política entre as Distritais do PSD e PS, com o objectivo de calar posições divergentes, achei que já não fazia sentido continuar numa Assembleia que privilegia evitar o debate aberto sem rédeas partidárias, erguendo um muro à sua volta, voltando costas à cidade.



Manopras partiodárias destas, como as protagonizadas pela Direcção da bancada do PSD e respectiva Distrital, de facto contribuem para denegrir a imagem da actividade política. Mas são um espelho fiel da realidade partidária.


Aqui está o texto em que explico as minhas razões:
 
«Leio, e nem acredito: «Os deputados municipais do PS e do PSD em Lisboa recusaram terça-feira, na assembleia municipal, enviar para discussão pública propostas de reorganização das freguesias, alternativas àquela negociada por socialistas e sociais-democratas». Aquilo que podia ser uma boa coisa – a diminuição do número de freguesias e uma reordenação da cidade – tornou-se num case study de manobrismo político.


 


Este é o retrato do pior que existe na traficância de interesses partidários, é o retrato da arrogância e soberba das lideranças dos partidos do bloco central na assembleia municipal de Lisboa. Fui eleito, como independente, mas na lista do PSD, em 2009, para a Assembleia Municipal de Lisboa e depois das primeiras reuniões deixei de participar nos trabalhos, solicitando a substituição, em cada reunião, há mais de um ano.


 


Sobre o assunto tenho mantido silêncio, mas há muito que  discordo da actuação da liderança do PSD na Assembleia, discordo da sua relação com a equipa de vereadores social-democratas, e discordo da forma como tem sido conivente com um funcionamento perfeitamente inútil da Assembleia Municipal. A minha curtíssima experiência autárquica faz-me desconfiar da utilidade deste órgão – um mini parlamento para auto satisfação oratória de alguns funcionários políticos, que  promovem reuniões atrás de reuniões, na generalidade vazias e muitas delas inúteis, para justificar umas senhas de presença e dar uma ilusão de debate. Só que, como se vê, quando o debate público é preciso, ele é abafado.


 


A Assembleia devia ser o garante da relação com os Munícipes, e não um obstáculo. Com esta decisão a Assembleia Municipal de Lisboa ergueu à sua volta um muro que a separa da cidade. PS e PSD foram os obreiros desta obra, um tratado de Tordesilhas da capital, negociado directa e exclusivamente entre as estruturas distritais dos dois partidos, com a benção de António Costa. Assim sendo não se percebe para que serve a Assembleia Municipal – é uma mera figura de corpo presente. Esta semana entreguei a minha renúncia ao mandato de deputado municipal. No estado em que as coisas estão, não alimento a menor esperança que mudem.»

fevereiro 15, 2011

SOBRE A PREPOTÊNCIA

Publicado no Metro de 15 de Fevereiro)


 


Como é que as Finanças podem leiloar um andar sem terem a certeza da situação e do estado da pessoa que foi penhorada e executada? Como é possível que haja quem autorize uma penhora a uma pessoa falecida? Que perversos mecanismos foram criados que levam a estas faltas de humanidade?


 


O lamentável caso conhecido na semana passada vem chamar a atenção sobre a forma de actuar das Finanças. Percebe-se que vigora a lei do menor esforço e, sempre, a presunção de que o contribuinte é culpado. O caso do leilão do andar penhorado com o cadáver da dona lá dentro, morta há oito anos, mostra uma única coisa – a prepotência do Estado e a irracionalidade do funcionamento da máquina fiscal.


 


O caso não é único. Todos infelizmente testemunhamos que, mesmo quando após o falecimento de um familiar são tomadas todas as providências (declaração do óbito às finanças, habilitação de herdeiros, etc), durante anos o falecido continua a receber cartas, algumas contendo ameaças de penhora sem que seja explícita a razão – muito menos quando é suposto que o Fisco saiba quem são os herdeiros e não os contacta, preferindo executar quem já não pode contactar a verificar quem devia, de facto, avisar.


 


Todo este caso é uma sucessão de mau funcionamento do Estado – das polícias que não ligaram ao que vizinhos e familiares diziam, dos tribunais que descartaram as investigações, do Fisco que não cuidou em sequer tentar perceber o que se passava. E tudo culminou nesse supremo requinte de insanidade e crueldade que foi leiloar um imóvel sem sequer haver o cuidado de antes o abrir e verificar.


 


Burocrata, arrogante, insensível, descuidado, prepotente – este é o retrato do Estado, um Estado para quem , cada vez mais, os cidadãos não têm direitos e são apenas devedores, culpados,  incumpridores. A obsessão da receita fiscal mais fácil – cobrada aos mais fracos  - dá nisto. E neste caso seria muito bom que se soubesse quem foi culpado de tudo o que aconteceu, nas várias etapas do caso.

(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Fevereiro)

SPORTING – Fico a olhar para o frenesim eleitoral que vai pelo Sporting e espanto-me com o facto de os candidatos já anunciados terem enveredado por um rol de promessas e contactos (jogadores, treinadores, agentes futebolísticos), sem antes apresentarem o trabalho de casa: como resolvem a situação financeira do clube, que está praticamente falido, e como mobilizam os sportinguistas que, depois de todos os dislates recentes, estão para o seu clube como os eleitores portugueses para os políticos: descrentes e desconfiados de tanta promessa sem substância. Na situação em que o Sporting está quer-me  parecer que nenhum dos candidatos em liça neste momento (escrevo quarta ao fim do dia) mostrou até agora ideias, recursos e equipa.


O futebol português continua refém de um sistema que se habituou a viver acima das posses e com recurso demasiado frequente a expedientes. Apesar do nevoeiro dos últimos dias isto não vai lá com sebastianismos nem desejos voluntariosos: sem capacidade efectiva de mobilização de capital, sem capacidade agregadora de equipas e de competências, o Sporting só vai piorar.


O ex-jogador, e sportinguista, Carlos Xavier fez uma síntese brilhante da situação e da forma de a resolver: «O Sporting precisa de alguém que traga ovos para fazer omeletes».


 


 


RESPONSABILIDADE - Tenho alguma curiosidade em saber o que o Ministro da Administração Interna vai dizer sexta-feira no Parlamento. Já se sabe que recebeu o relatório preliminar da Universidade do Minho, sobre o qual nada adiantou. Mas logo depois de o ter recebido decidiu aceitar a demissão  do Director Geral da Administração Interna e a manter em funções o director geral da Administração Eleitoral. Presume-se pois que o problema esteve no Ministério, e, se assim foi, não se percebe porque é que o Ministro não assume também, ele próprio, as responsabilidades pelo facto de ter havido cidadãos que não puderam votar. E, já agora, porque é que o Ministro da Presidência, que tutela o cartão do cidadão, tem estado tão caladinho? Também ele tem responsabilidades no que se passou.


 


 


SEMANADA – O PSD anunciou uma espécie de Estados Gerais e mostrou-se disponível para votar uma moção de censura ao Governo; José Sócrates arrancou numa autêntica campanha eleitoral junto dos empresários – começou pelas exportações e nas próximas semanas tem a agenda carregada; o PSD olhou para os passeios e sugeriu que o executivo deixasse de andar à deriva e pediu que o Governo, governe;  e  Cavaco Silva vetou um diploma do Governo, chamou o Ministro Santos Silva a Belém e deixou correr nos jornais que lhe tinha dado um puxão de orelhas; Mário Soares, no seu artigo semanal do «Diário de Notícias» destacou os Deolinda e a canção «Parva Que Sou», citando parte da letra e mostrando assim que continua atento aos sinais de degradação do sistema político.


 


 


ARCO DA VELHA – A igreja católica dos Estados Unidos desenvolveu uma aplicação que se chama «Confession» e que mediante o custo inicial de 1,47 dolares, permitirá aos fiéis confessarem os seus pecados através do iPhone.


 


LER – Com a proliferação de edições que existe às vezes esquecemo-nos como um livro pode ser um objecto único. Recordamo-nos da importância da edição quando nos surge uma obra como «Almocreve das Palavras», uma recolha de poemas de Henrique Segurado, escritos ao longo de 20 anos, entre 1969 e 1989, acompanhados por desenhos de Rui Sanches. A poesia de Henrique Segurado, com quem tive a felicidade de trabalhar e de aprender, é como ele: sensível, criativa, sentida, emocional. São 200 poemas, muitos escritos em viagem, alguns pessoalíssimos, que falam de coisas comuns – como um cozido à portuguesa, ou das fantásticas aventuras de Emilio Salgari, mas também um belíssimo «Papel Moeda», que evoca Fernando Pessoa. Desde que tenho este livro, há quase duas semanas, volto a ele com frequência e sempre com gosto – a descobrir pormenores nas palavras, nos desenhos ou na cuidada edição (a capa, a tipografia, a entrelinha, o papel), fruto dos cuidados de Joana Morais Varela e Vasco Rosa.


 


 


VER – Na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-1’, Lisboa) está uma nova exposição colectiva, criada por Victor Pinto da Fonseca, o dinamizador de todo o edifício Transboavista. A verdade é que as inaugurações nos vários espaços de exposição deste local têm uma animação única em Lisboa nestes dias que correr. Ainda por cima as exposições mostram frequentemente obras surpreendentes – e nesta cabe destacar o desenho minucioso, quase obsessivo de Inez Teixeira, a colecção de insectos de Sofia Aguiar ou as peças de Rosa Carvalho, Sofia Leitão e Fabrizio Mato. A exposição decorre até 10 de Março e as obras são todas recentes, algumas aqui mostradas pela primeira vez. Aliciante e, nalguns casos, deliciosamente perturbador.


 


 


OUVIR – A partir dos primeiros segundos de «Rider To The Sea», a faixa de abertura do disco estreia de Anna Calvi, percebe-se que ali está qualquer coisa inovadora – diferente e excepcional. Nos últimos três anos Calvi compôs e pensou as canções deste disco e andou a apresentá-las ao vivo e a ganhar uma legião de seguidores, que inclui Brian Eno. Quem já a ouviu ao vivo diz que ela evoca Patti Smith (é a opinião de Eno) e P.J. Harvey – que por acaso trabalha com o mesmo produtor de Calvi, Rob Ellis., As similitudes não são de estranhar: a chave do impacto de Anna Calvi está na forma como conjuga a guitarra eléctrica com a voz. Diga-se que usa a guitarra de forma exemplar e que a sua sonoridade é crua, emotiva e com uma energia simples e eficaz. Brian Eno surge em duas das faixas do disco (um raro empenho, diga-se), e depois de se ouvir «The Devil», a sexta faixa, percebe-se que este é uma caso especial de talento. O disco roda há duas semanas no meu carro e não vai de lá sair tão cedo. Há poucos CDs que produzam sensações como este consegue.


 


 


AGENDA – A ideia é muito engraçada e deve ficar em agenda ao longo do ano: para assinalar o 15º aniversário da XN Brand Dynamics, a sua fundadora e responsável, Xana Nunes, vai promover uma série de iniciativas, entre as quais diversas exposições no espaço do escritório da empresa, na Rua das Chagas 20 r/c. Até 15 de Março, e de segunda a sexta entre as 10 e as 13H e as 15 e as 18H quem quiser pode ir vber as fotografias da série «Woman Nature», da autoria de Luis de Barros, Mário Princípe, Carlos Ramos, Ricardo Quaresma e Rui Aguiar.


 


 


PROVAR - Volta e meia gosto de regressar a pequenos restaurantes onde me sinto bem, mesmo que lá vá raramente. O La Moneda é um desses sítios. Bom ambiente, boa luz, obras sempre diferentes nas paredes, frequência simpática. E, claro, comida muito bem preparada – quer dizer, boa matéria prima, bom tempero, boa confecção, boa apresentação – tudo saído do chefe Leo Guzman, um chileno há vários anos residente em Lisboa e dirigindo aquele local. Se na lista tiverem o bife de atum grelhado ou a espetada mista de atum, tamboril e camarão, não hesitem. Mas têm muito mais por onde ensaiar, das entradas aos doces – e nesta última secção deixo-vos a sugestão do bolo de tâmaras. O vinho branco da casa é um arinto muito digno que acompanha bem a refeição. O preço final é sensato e o local é movimentado ao almoço e ao jantar. Eu por mim, cada vez que vou para os lados do Cais do Sodré ponho logo o La Moneda na lista de boas hipóteses. Rua da Moeda 1C, telefone 213908012.


 


 


BACK TO BASICS – Tudo quanto sei, com maior certeza, sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol – Albert Camus.

(Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Fevereiro)

PUBLICIDADE - No ano passado o investimento publicitário no mercado português desceu mais uma vez e as estimativas mais conservadoras apontam para uma queda em  valores próximos dos 2,5% por cento – isto depois de em 2009 a diminuição ter sido mais violenta, de 15%. Em dois anos desapareceram do mercado cerca de 120 milhões de euros de investimento.


Já é possível perceber que a imprensa, sobretudo a diária, foi o sector mais prejudicado e em 2010 a coisa foi de tal forma que os investimentos publicitários captados directamente pelos jornais diários já ficaram, em termos de valores líquidos, atrás da rádio, da televisão por cabo e também da internet (se contabilizarmos a estimativa de publicidade colocada em motores de busca).  Na realidade a imprensa diária teve uma queda de cerca de 15% e a não diária conseguiu suster a queda próximo dos 6%. Na média geral a imprensa desceu cerca de 9%, a maior queda do sector


 


A grande surpresa de 2010 foi o significativo aumento do investimento em canais de cabo. Enquanto os canais generalistas tiveram uma quebra ligeiramente inferior a 4%, o conjunto dos canais de cabo teve um crescimento de quase 19 por cento, o segundo maior crescimento do mercado, logo a seguir à internet, que cresceu mais de 25%. Este resultado conjunto dos canais de cabo e dos canais em sinal aberto fez com que o investimento global em televisão caísse apenas cerca de 2%, contra uma queda superior a 13% no ano anterior.


O bom desempenho do Cabo tem uma razão evidente: a segmentação dos públicos de televisão é cada vez mais evidente e os anunciantes descobriram que canais como a SIC Notícias, a SIC Mulher, o AXN, a FOX e FOX Life, a RTP N e TVI 24 e, claro, a Sport TV, já tinham conquistado audiências consideráveis e que lhes garantiam eficácia a bom preço. O crescimento do mercado de televisão por subscrição, verificado nos últimos dois anos, desde que o MEO entrou em cena, ajudou a tornar os números de audiência bem mais interessantes – e os departamentos comerciais dos vários operadores reagiram com rapidez a isto.


 


Neste contexto não é preciso ser bruxo para especular que a tendência para a dispersão do investimento publicitário em televisão  pelos canais de cabo vai continuar a crescer – quando o novo sistema de audiometria estiver a funcionar os canais de cabo serão certamente os mais beneficiados pela correcção da amostra e pela nova tecnologia utilizada. Não me admiro se durante este ano surgirem novos canais de cabo de produção local, explorando a vontade de o público ter alternativas. Na televisão vai dar-se uma fragmentação semelhante à que há uns anos aconteceu na imprensa. E inevitavelmente neste ano, na imprensa,  vamos assistir a um movimento de encerramento de títulos e de concentração, que aliás já se iniciou.


Mas o digital é o sector que se adivinha mais curioso de seguir. A proliferação dos tablet terá um efeito multiplicador em termos de audiência e frequência de utilização. As possibilidades de segmentação e do contacto tendencialmente individualizado, nas redes sociais e em outras plataformas mais tradicionais, vão constituir um chamariz de investimento. É um mercado em que o sofisticação técnica e de instrumentos de análise e controlo terá cada vez maior importância. Mas é também um mercado em que a qualidade dos conteúdos e o valor das marcas informativas ou de lazer terá peso e capacidade de atracção de utilizadores. A convergência entre a media tradicional e a media digital vai acelerar de forma inevitável e a utilização de dispositivos móveis vai ser a grande impulsionadora de mudança nos próximos anos.


 


 


ARCO DA VELHA – O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, considera que as conversas telefónicas de José Sócrates com Armando Vara sobre a eventual compra da TVI são exclusiva e estritamente pessoais e do foro das respectivas vidas privadas. O facto de as duas pessoas serem da direcção do PS e uma delas ser Primeiro-Ministro, e ambos estarem a ver como poderiam tornar a TVI menos incómoda para o Governo, é obviamente, também, uma questão pessoalíssima.


 


 


VER – A fotografia está em alta por estes dias. No museu Arpad Szenes-Vieira da Silva (Jardim das Amoreiras), sob a designação «Retratos de Mulheres», estão expostas imagens de Man Ray, Jorge Martins e Julião Sarmento. De Man Ray, o único cuja criação foi essencialmente fotográfica, está exposta a célebre série «The Fifty Faces Of Juliet», feita entre 1941 e 1955. Jorge Martins mostra uma série, «Eros Cromático», feita entre 1964 e 1973, com as imagens fotográficas coloridas a lápis de cera e algumas outras, mais recentes, com uma técnica que mistura fotografia e iulustração e que tem muitas semelhanças com a célebre aplicação «Brushes» para iPhone – é uma mostra inédita desta faceta do pintor. Finalmente Julião Sarmento apresenta 62 fotografias de 31 mulheres, realizadas ao longo de 42 anos, numa escolha de Sérgio Mah, todas elas entre o registo da intimidade e o instantâneo proporcionado pela luz ou a circunstância- e a fotografia é assídua na obra de Julião Sarmento.. O museu está aberto de segunda a domingo entre as 10h00 e as 18h00 e é uma boa ocasião para ver como a fotografia, para ser criativa, não precisa de ampliações em formatos gigantes, como infelizmente se tem tornado hábito. O tamanho não é tudo, na realidade – a esse propósito a exposição «Ópera» fotografias de Augusto Alves da Silva, no Museu da Electricidade, esconde na dimensão a sua vulgaridade.


 


 


LER – A edição de Fevereiro da revista Monocle tem por tema central uma série de reportagens sobre casos de mudança – em países e em cidades – que correram de forma especialmente positiva nestes conturbados tempos de crise.  Por coincidência um dos entrevistados desta edição é Mohammed ElBaradei, o homem que depois de ter estado 12 anos à frente da Agência Internacional da Energia Atómica e de ter ganho um Nobel da Paz (em 2005), decidiu voltar ao seu Egipto e dinamizar a democratização do país. A entrevista foi feita muito antes dos actuais protestos e é oportuníssima – até porque enla ElBaradei estabelece praticamente um plano de acção.


 


 


OUVIR – Jason Beck é um pianista, de formação clássica e prática rock, com incursões no rap e na lounge music. É conhecido sob o nome de Gonzales, Chilly Gonzales, e actua em Lisboa neste sábado à noite, em duas sessões, no Space, em Alcântara. A sua obra mais conhecida data de 2005 e é «Solo Piano», agora reeditado entre nós numa edição especial que é uma tentação. Ao disco original foi acrescentado um DVD em que Gonzales se propõe dar uma série de aulas de piano. O vídeo é mais divertido do que eficaz, mas mostra a capacidade de entertainer que o músico também tem. Para além das “lições” o DVD inclui diversas actuações e vídeos e é um bom complemento ao disco original. De qualquer foama o CD com as 16 composições de «Solo Piano» merece, só por si, ser escutado com atenção. Gonzales inspirou-se claramente nas «Gymnopédies» de Erik Satie e o resultado é uma bela surpresa.


 


 


AGENDA – «A Cena do Ódio» é um novo programa de rádio, aos domingos, na Antena Um, entre as 11 e o meio-dia. É um daqueles programas de rádio como já não havia, um programa pensado, músicas escolhidas em redor de um tema, textos cuidados, uma realização minuciosa. No comando do programa está David Ferreira, que todas as semanas propõe um tema – e esta semana é, muito adequadamente à situação geral, «a revolta».


 


 


BACK TO BASICS – A publicidade é a vida do negócio – Calvin Coolidge

(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Janeiro)

DAY AFTER – No seu discurso de vitória Cavaco Silva falou mais do passado que do futuro e, de uma forma inesperada, e em termos práticos, sugeriu estar interessado em ajustar contas com quem se lhe atravessou no percurso antes destas eleições. É um discurso virado para problemas pessoais, mais do que para a situação do país. E é um péssimo sinal sobre o que poderá ser o seu segundo mandato. De uma assentada perdeu iniciativa política e criou um ruído desnecessário.


Na noite eleitoral foi claro que Sócrates só apareceu no Altis para cumprir um ritual e dar por encerrado um assunto incómodo, que foi a desagradável candidatura de Manuel Alegre, para a qual os socialistas foram empurrados pelo Bloco de Esquerda. Como se percebeu logo de imediato a núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.


De uma forma muito clara José Sócrates aproveitou a fase passadista do reeleito Presidente para aparecer ele a marcar a agenda e a preparar o contra-ataque político. Quer legitimar-se internamente, eliminar o espaço daqueles que o contestam dentro do PS e, preferencialmente, conseguir novos aliados que o ajudem a levar até ao fim o ciclo político. Na sua cabeça está certamente posicionar-se para futuras eleições legislativas – as notícias da sua morte política são, como se vê, largamente exageradas. Sócrates vai à luta e tem a estratégia montada, que como se sabe pelas notícias vindas a público, passa por existir um grupo de media impulsionado por figuras que lhe são próximas e o têm defendido. Não é a primeira vez que isto acontece na história política portuguesa: Marcelo Rebelo de Sousa criou o «Semanário» para criar maior diversidade política na comunicação, o PS já tentou fazer isso com a Emaudio há uns anos atrás e o diagnóstico actual é que a influência dos socialistas nos media é reduzida. Vamos portanto ter pela frente um Sócrates determinado, provavelmente com legitimidade acrescida dentro do PS e a tentar ser ele a marcar a agenda política.


O trabalho da oposição não vai ser fácil. Passos Coelho sabe disso e fez um discurso prudente – e provavelmente estará a pensar que lhe vai ser mais difícil chegar ao Governo do que, a certa altura, se imaginava. Pelo seu lado Paulo Portas iniciou um movimento de reorganização do PP que lhe vai dar maior agilidade para se colocar, a ele próprio, na primeira linha da oposição – é também evidente que o grande rival de Sócrates na marcação da agenda política vai ser Paulo Portas, até porque ao PP interessa colocar-se na posição mais vantajosa para, quando for altura, negociar um acordo eleitoral com o PSD.


 


 


VOTAR – A lógica manda que votar deva ser uma operação fácil, confortável para os cidadãos e que não crie angústias, dúvidas ou perturbações. O que aconteceu no Domingo passado é exactamente o contrário disto. O Estado atribuiu novos números de eleitores a uma série de cidadãos, mas não os avisou do facto – nem mesmo quando levantaram o documento de identificação que serviu de justificação técnica para alteração do número anterior. Pior, em muitos casos, colocou os eleitores a votarem longe do local habitual, e também não tomou nenhuma medida para os avisar. A campanha de apelo à participação eleitoral foi má, não esclareceu sobre estes pontos, criou oportunidade para todas as complicações que aconteceram. Seria bom que o Governo, como acontece em muitos países,  proporcione a cada eleitor a possibilidade de escolher o local onde pretende exercer o direito ao voto. Era uma forma simples de combater a abstenção.


 


 


RESUMO DA SEMANA – Houve eleições, o resultado não teve surpresas; Cavaco ganhou, mas com a sua menor votação em candidatura presidencial e fez um mau discurso; Alegre teve uma derrota estrondosa com menos de 10% do total de recenseados; a abstenção e os votos brancos atingiram os maiores valores de sempre; Mário Soares escreveu a explicar que Alegre não devia ter sido o candidato do PS; logo a seguir à eleição os juros da dívida voltaram a subir; e o PS começou a mexer-se, agora que já está livre do Bloco de Esquerda.


 


 


ARCO DA VELHA - A operação em torno das novas declarações do célebre Bibi, a propósito do processo Casa Pia, é um acabado exemplo de como em Portugal, em matéria de Justiça, vale tudo menos a sua aplicação.


 


 


VER – Ligada à agência Kameraphoto, a K Galeria, no Bairro Alto, apresenta ainda hoje (ultimo dia) a exposição «Retratos com História», de Eduardo Gageiro, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses das décadas de 70 e 80. Estes retratos, que vão de Amália a Zeca Afonso, passando por Sophia de Mello Breyner, Spínola ou Orson Welles, permitem perceber a importância de Gageiro na fotografia portuguesa. Se puderem, não percam – Rua da Vinha 43 A, das 10 às 18h00. Podem também ter uma ideia das imagens em www.kameraphoto.com


 


 


LER –  Na edição de Fevereiro da Vanity Fair há um belíssimo artigo sobre os bastidores da tomada de posse de Kennedy, ocorrida há 50 anos. Desde os prepartivos para a cerimónia, ao grande baile inaugural , passando pelos discursos e os problemas com os convites, até ao portfolio de fotografias da época, tudo contribui para um retrato desses primeiros momentos do curto mandato de John Kennedy. Outro curioso artigo desta edição conta a história da polémica aliança entre o circunspecto diário britânico The Guardain e Julian Assange, o fundador do Wikileaks. Na capa, Justin Bieber – 17 milhões de fãs no Facebook, 100 milhões de dólares facturados no ano passado e o vídeo mais visto de sempre do YouTube.


 


 


OUVIR – O mais recente álbum de Brian Ferry, «Olympia», é polémico, inesperado, nalguns momentos surpreendente – como na versão de «Song To The Siren», de Tim Bucley, que conta com participações de nomes como Phil Manzanera, Nile Rodgers, David Gilmour e Johnny Greenwood nas guitarras e Brian Eno (que está presente também em várias outras faixas) nas teclas. A sonoridade evoca por vezes o álbum «Manifesto», dos Roxy Music (1979) e atinge o ponto alto em temas como «Me Oh My», «Reason Or Rhyme» ou «Tender Is The Night», esta talvez a melhor interpretação de Brian Ferry desde há muitos anos.


 


 


PROVAR – Há dias dei comigo num simpático restaurante, perto do convento do  Beato, em direcção a Braço de Prata. Chama-se Entra e é um bom exemplo de um local onde a cozinha é honesta, os preços recheados de bom senso e o serviço eficaz e simpático. O Entra tem duas salas, uma de entrada, com vista para a rua e a cozinha, e outra, no interior, ideal para juntar um grupo de amigos. A decoração é simples mas imaginativa – por exemplo os candeeiros são feitos de garrafas sem fundo, as mesas e as cadeiras são de boa dimensão e confortáveis.


Os menus de almoço incluem sugestões como osso bucco com linguini, filete de peixe espada sobre legumes ou arroz de polvo, e vão variando durante a semana. O vinho da casa é um generoso vinho novo da zona de Azeitão e, na mesa, existem fatias de quaijo da ilha e de queijo de ovelha da serra da Gardunha. Nas sobremesas há uma mousse de requeijão com abóbora que se revelou uma boa surpresa.


Ao jantar o serviço é à lista e, desde os ovos mexidos com farinheira nas entradas, ao lombo de porco com molho de amêijoas e coentros acompanhado de grão e grelos salteados com chouriço, ao pregado frito com espinafres salteados com puré de batata e aipo, a escolha é variada. A lista de vinhos não é ambiciosa mas tem boas propostas a bom preço. Resumindo: uma boa casa. Rua do Açucar 80, telefone 212 417 014.


 


 


BACK TO BASICS – Os vencedores adquirem, imediatamente, os vícios dos vencidos – Roger Gard 

fevereiro 08, 2011

A CRISE NA CULTURA

(Publicado no Metro de 8 de Fevereiro)


 


Bem sei que falar de investimentos em Cultura no meio da crise em que estamos é uma coisa um bocado complicada e , eventualmente, pouco popular. Mas esta é, também a altura certa para falarmos do que deve ser o papel do Estado na Cultura, e qual a estratégia a seguir.  Até porque, de facto, a Cultura está em crise – sem rumo, sem estratégia e com muitas queixas. A questão principal é estudar a forma como o Estado deve apostar neste sector, por forma a gerar um efeito reprodutor aos investimentos efectuados.


 


Esta é uma questão delicada: os agentes do sector habituaram-se a viver com subsídios, ou de subsídios do Estado. Descuraram, na maior parte dos casos, ir buscar receitas a outros lados e muitas vezes usaram argumentos distorcidos para não se submeterem às receitas de bilheteira – ou seja, ao financiamento captado a partir dos públicos.


 


O Estado também não tornou aliciante a acção mecenática. A Lei existente é desadequada para as circunstâncias actuais, a fiscalidade dos produtos culturais merecia ser repensada, existe ainda um território extenso para optimizar recursos em toda esta área. Por outro lado os passos na articulação entre o Turismo e a Cultura foram insuficientes e nesta matéria, mais uma vez, muitos investimentos foram subsídios disfarçados para satisfação de clientelas políticas diversas. Há coisas estruturantes por fazer – desde a existência de uma Film Commission, até um plano articulado entre o Governo e as autarquias para desenvolvimento e descentralização  da actividade artística.


 


Acredito que se pode fazer melhor com o dinheiro que existe. O esforço de racionalização no sector tem sido quase nulo. As despesas com estrutura e pessoal ocupam uma fatia desproporcionada em relação ao investimento em actividades – seja no património, seja na encomenda de novas obras, seja na aposta na criatividade. Nos últimos anos a estagnação e a deterioração das actividades culturais têm sido a norma. Espero que a crise não faça esquecer  aquilo que é preciso fazer em todo este sector.


 

fevereiro 01, 2011

CIDADE FANTASMA

(Publicado no Metro de 1 de Fevereiro)


 


No último fim de semana o New York Times publicou na sua secção de viagens um guia para um fim de semana em Lisboa – de sexta a domingo. É um belo roteiro rápido da cidade. O ponto principal , repetido várias vezes no texto, é que somos uma cidade baratucha e onde se consegue comer a preços razoáveis e visitar museus gratuitos (perante o espanto do autor do artigo, diga-se).


 


Todos nós que vivemos em Lisboa ficamos muito contentes quando surgem estes artigos. Mas depois, no dia a dia da cidade, ficamos mais pesarosos. Nos últimos anos assiste-se a um esvaziamento da cidade, cada vez com menos residentes, e a um envelhecimento da sua população. Já nem falo da baixa, votada praticamente ao abandono. Mas basta ir para Alvalade, da Avenida de Roma à Avenida da Igreja, para perceber como uma zona que há trinta anos estava cheia de gente, com uma população jovem considerável, com cafés e esplanadas abertos à noite, se converteu progressivamente num deserto que fecha por volta das nove da noite. Depois disso é raro encontrar alguma coisa aberta e não é frequente encontrar pessoas na rua. O contraste com cidades como Madrid é enorme .


 


Os governantes da cidade não ajudam a reverter esta situação – Lisboa é uma cidade que trata mal quem cá persiste em viver: mais taxas, maiores dificuldades logísticas, penalização dos residentes com viatura por força da extraordinária EMEL, falta de incentivos para rejuvenescimento da população residente.


 


Aqui há uns anos dizia-se que era o centro histórico da cidade que estava a ficar deserto. Agora são os bairros mais recentes que começam a sofrer do mesmo mal. Mesmo que os turistas gostem muito de nos visitar, a verdade é que cada vez menos pessoas cá gostam de viver – ou cá conseguem viver em condições. Por este andar qualquer dia Lisboa vai ser uma cidade fantasma – com muitos turistas mas poucos residentes.


 


Faz-me muita impressão assistir a este definhamento de Lisboa, faz-me uma impressão sentir que a cidade é governada para ser vista e não vivida. Este é o maior crime de quem governa a cidade.

janeiro 25, 2011

UM REGIME VAZIO

(Publicado no Metro de 25 de janeiro)


 


No momento da vitória Cavaco Silva congratulou-se com o facto de não ter usado cartazes de rua na sua campanha. Na realidade ele foi o candidato do silêncio – sem cartazes, sem respostas  às perguntas. Uma das consequências desta estratégia do silêncio foi afastar os eleitores da política e, por isso, Cavaco Silva pode gabar-se de ter sido o Presidente eleito com menos votos e com maior abstenção. É Presidente de um país que neste Domingo disse não acreditar nos políticos, ele incluído.


 


Vamos a contas: Cavaco foi eleito com o seu menor voto de sempre nas três eleições presidenciais que já disputou: 2.230.104 votos, menos meio milhão que em 2006. Os seus votos representam uns meros 23% do total de eleitores inscritos. Isto não lhe tira legitimidade, mas mostra uma evidência: só conseguiu o apoio de menos de um quarto dos portugueses.


 


Mais interessante ainda é vermos que 64% dos eleitores optaram por não votar em qualquer dos candidatos apoiados por partidos – e aqui incluo as abstenções, os votos brancos e nulos, os votos em José Manuel Coelho e Fernando Nobre – ao todo 6.200.636 eleitores. Só as abstenções, votos nulos e brancos somam 5.417.428 eleitores num total de 9629.630 – ou seja 59,56% do total. A verdade é esta – quase 2/3 do país não se revê nos candidatos do sistema político. Dá que pensar. O recado é claro: o regime está vazio.


 


Há outro número curioso – Manuel Alegre perdeu 306.338 votos de 2006 para cá, apesar do apoio expresso do Bloco de Esquerda e do PS. Mas Fernando Nobre, sem apoios partidários, teve 593.868 votos, o que quer dizer que roubou votos aos candidatos institucionais. Manuel Alegre escusa de procurar muito onde estão os votos que perdeu – a maioria deve ter ido para Fernando Nobre.


Por isso é que me apetece dizer que o grande vencedor da noite eleitoral esteve sossegado, afastado da ribalta, e cultivou, ele também o silêncio. Chama-se Mário Soares, e ontem deve ter sorrido ao ver os resultados. Há cinco anos Alegre desfez-lhe a ele, Soares, os resultados eleitorais; ontem Soares serviu-lhe a vingança. Fria, como convém.

janeiro 22, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 21 de Janeiro)

ELEIÇÕES – Não tenho memória de uma campanha eleitoral tão fraca e desinteressante. Dos discursos dos candidatos aos tempos de antena, tudo é bafiento, vazio, desinteressante. Existem mais ataques pessoais do que debate de questões importantes. Dificilmente se percebe qual a posição dos candidatos sobre o papel da Alemanha e França na crise europeia. Análises sobre as consequências da evolução tecnológica no mercado de trabalho não existem. Ligações com a realidade do mundo em que vivemos são quase nulas, para além dos habituais muros de lamentações. Manuel Alegre é um poço de contradições, Cavaco Silva deixou-se enredar num poço de negações, Fernando Nobre é incompreensível e os outros candidatos não têm existência real – um fora do aparelho que o alimentou, outro fora da fantasia que criou e o último fora do ridículo que cultiva.


Os cartazes são incipientes e, a propósito, sugiro que visitem o blogue www.imagensdecampanha.blogs.sapo.pt que fez um belo apanhado de cartazes eleitorais de presidenciais anteriores.


É muito curioso que em 2011 os tempos de antena televisivos sejam tão pobres, tecnicamente rudimentares, mal feitos até. Não é só uma questão orçamental  -certamente é também a prova de como os próprios candidatos consideram pouco úteis os tempos de antena e acabam por optar não os utilizar de facto, limitando-se a ocupar da forma mais básica o espaço que lhes foi dado. – até porque concentram esforços em criar todos os dias oportunidades de imagens para os noticiários das televisões, que é o veículo que privilegiam e verdadeiramente lhes interessa. Esta questão deve aliás fazer pensar na lógica de penalizar as estações privadas de televisão com um considerável espaço de tempo de emissão, em horário nobre, que na prática lhes retira audiência. Em muita coisa precisamos de mudar a Lei Eleitoral – para além do sistema político – e estas presidenciais estão a ser a prova disso. Muito provavelmente os resultados vão ajudar a comprovar isto mesmo, mostrando que é importante existir uma reflexão profunda sobre a forma como se faz política e como se devem dinamizar os processos eleitorais para assegurar maior participação. Tenho curiosidade em ver como vão ser as abstenções, os votos nulos e os votos brancos. Tenho curiosidade em ver como será o resultado de Alegre versus Nobre. E tenho curiosidade de ver quantos portugueses não votarão em nenhum dos candidatos, como eu – farto que estou de andar a escolher o mal menor.


 


 


ARÁBIAS – Esta semana fartei-me de pensar no livro «Os Charutos do Faraó», um dos clássicos das aventuras de Tintim. Foi nesse livro que apareceu um personagem chamado Oliveira de Figueira – e já que estamos em época de celebrar a Wikipedia é de lá que retiro este texto: «Ele é um comerciante oriundo de Lisboa, vendendo suas mercadorias em pleno desero do fictício país de Khemed. Dotado de uma grande facilidade para convencer, consegue vender a Tintim uma grande quantidade de objectos inúteis, assim como aos árabes que aparecem de todas as partes ao escutá-lo a falar. » Pois surgiu-me natural e óbvia a comparação entre Oliveira de Figueira e José Sócrates no seu périplo destes dias pelas Arábias. Sócrates apregoou tudo o que quis – das energias renováveis ao progresso tecnológico. Da venda da nossa dívida não falou em público, mas o Ministro dos Negócios Estrangeiros encarregou-se de dizer que também a dívida fazia parte do catálogo da venda ambulante. Na última semana antes das eleições Sócrates vestiu-se de personagem de banda desenhada e preferiu os ares das arábias aos jantares de carne assada do seu candidato. É uma curiosa coincidência.


 


 


ARCO DA VELHA – Se Alegre perder, o PS prepara-se para acusar o Bloco de Esquerda – lido nos jornais.


 


 


VER – «Encenações» é o título da exposição de 40 novas obras de Manuel Amado, que ficará na bela sala da Sociedade Nacional de Belas Artes até 15 de Março. O habitual traço minucioso do pintor contrasta com o universo que projecta personagens de fantasia,  criando por vezes como que  instantâneos de sonhos. Alguns dos quadros respiram num universo próximo da banda desenhada, proporcionando leituras diversas – na cor, no enquadramento, na narrativa visual. Há um lado contemplativo nesta série de novas obras, em que o autor posiciona as personagens que criou no exacto ponto em que ele próprio se colocou para visualizar (ou imaginar) as imagens pintadas. Rua Barata Salgueiro 36, das 14 às 20h00, fecha domingos e feriados.


 


 


LER – A revista «Monocle» reincidiu na edição de um jornal. É a segunda vez, a primeira foi no Verão e o jornal estreia em formato jornal da «Monocle» era dedicado ao sol e ao mediterrâneo. Esta segunda edição é dedicada à neve e à montanha. Mais uma vez surpreende a capacidade de adaptação do formato contido da «Monocle» ao tamanho de um jornal e a capacidade que a equipa da publicação tem em fabricar conteúdos temáticos de forma tão interessante. E é isso exactamente que é o mais interessante quando se folheiam estas 72 páginas , ao longo de artigos sobre os encantos da capital da Islândia, exemplos de boa arquitectura em retiros de montanha, devaneios gastronómicos adequados ao Inverno ou uma bela reportagem sobre Andorra, que por acaso é um dos destinos de neve preferidos pelos portugueses.


 


 


OUVIR – «Dig» é o nome de um álbum gravado em 1951 com Miles Davis (trompete) e Sonny Rollins (sax tenor), a liderarem um grupo que incluía também Art Blakey na bateria, Tommy Potter no baixco, Jackie McClean no sax alto (a sua primeira gravação para disco) e Walter Bishop no piano. A presente reedição, remasterizada, em CD, reproduz os sete temas do LP, quatro dos quais são originais de Miles Davis (como «dig», a faixa título» e outros três versões, entre as quais destaque para «It’s Only A Paper Moon». O que é mais curioso é que esta gravação é posterior a «birth Of The Cool», o histórico registo que projectou Miles Davis, e é bem diferente do ponto de vista da sonoridade. Miles Davis tinha 25 anos na altura e Sonny Rollins tinha acabado de fazer 21. É muito engraçado descobrir hoje como eles encaravam e faziam música na altura – há exactamente 60 anos. Disponível na FNAC.


 


 


PROVAR – Ao fundo do Campo Grande, paredes meias com o estádio universitário, depois de passada a Reitoria e seguindo em frente, fica o Hipódromo do Campo Grande. Lá dentro está um restaurante que vale a pena visitar. A sala é confortável, ampla, a misturar o clássico e o contemporâneo, com uma ampla janela sobre o relvado do hipódromo. A cozinha é claramente portuguesa, tradicional, com uma proposta variada de carnes onde se destacam de bifes e umas iscas que são de perdição, algumas tentadoras ofertas de bacalhau, peixes no carvão e uma dourada à Bulhão Pato que chamou a atenção. Boa carta de vinhos, preços ajuizados para a qualidade da matéria prima, da confecção e do serviço. E do local, também, que a sala merece elogios. Estacionamento fácil, encerra domingos ao jantar. Telefone 217 957 521.


 


 


BACK TO BASICS – Nunca se mente tanto como em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça - Bismarck