outubro 15, 2010

SOBRE A CRISE DA IMPRENSA

Olho para a imprensa em Portugal com preocupação. Este ano as estimativas indicam que o valor do investimento publicitário nos jornais diários generalistas vai ser menor que o investimento publicitário em canais de televisão por subscrição (cabo e satélite), menor que o investimento em rádio e muito semelhante ao do investimento em internet e meios digitais. Isto quer dizer que a imprensa está a perder simultaneamente competitividade e capacidade de atracção dos grandes investimentos publicitários geridos por agências. Ao mesmo tempo o declínio de vendas em banca da maior parte dos jornais diários generalistas é acentuado, com excepção do «Correio da Manhã». Jornais especializados, como este «Jornal de Negócios», mantém os seus leitores e até consegue reforçá-los – sem dúvida porque fala do que interessa à sua audiência e selecciona bem os temas que desenvolve. Já muitos jornais diários parecem mais preocupados com os gostos e interesses pessoais dos seus jornalistas do que com trabalhar aquilo que pode fazer aumentar o número de leitores.


 


Aquilo que a imprensa vende não é apenas espaço de publicidade, é a capacidade de comunicação com os seus leitores – o número de contactos que permite -  e é, também, a qualidade dos seus leitores. Se o número de leitores diminui, é evidente que fazer publicidade num determinado título se torna menos apelativo.


 


Do meu ponto de vista a maioria da imprensa diária está a ser penalizada por um movimento conjugado de diminuição da qualidade dos seus conteúdos e pela falta de adequação de conteúdos aos alvos que interessam Alguma imprensa diária colocou-se a ela própria numa situação de quase marginalidade, tratando mais temas de interesse minoritário do que assuntos que estabeleçam relação com os leitores.


É assustador pensar que hoje os jornais diários generalistas são em menor número do que no dia 24 de Abril de 1974, mas sobretudo têm dezenas de milhares de leitores a menos. Algures os jornais diários divorciaram-se do público e o fenómeno é anterior às edições digitais.


 


Por via de regra a maioria dos jornais diários, sobretudo os ditos de referência, abordam poucos temas portugueses, para além da política. Uma comparação com os principais jornais de referência de outros países mostra um menor número de notícias nacionais em temas como sociedade e comportamento, uma menor cobertura de áreas como a saúde e a educação, uma muito deficiente cobertura do noticiário local e regional que garantem leitores de proximidade.


 


Os jornais anglo-saxónicos, por exemplo, frequentemente fazem reportagens sobre um grande tema de garantida proximidade com os leitores, reportagens essas que são divididas por sucessivas edições diárias, quase em género folhetim, culminando depois em dossieres especiais ou portfolios relacionados com o tema nas suas revistas de domingo. Os leitores sentem-se compelidos a seguir a história, a ver os seus vários ângulos de abordagem e, sobretudo, porque os temas são bem escolhidos e têm um enfoque local, regional ou nacional, conseguem estabelecer uma relação de utilidade com o que estão a ler.


 


Um dos jornais de referência de Lisboa publicou recentemente uma série alongada de boas reportagens sobre o ambiente que se vive em aldeias mexicanas por causa dos cartéis da droga. Bem escritas, as reportagens tinham um fio condutor. Mas o mesmo jornal não publica há meses – talvez há anos – reportagens assim estruturadas sobre situações existentes em Portugal – feitas com aqueles meios, com aquele espaço de paginação, com aquela qualidade de escrita. Se o tema tivesse uma capacidade de ligação maior a leitores portugueses e se fosse bem promovido, talvez o jornal tivesse outros resultados de venda e de receitas comerciais – e sem necessidade de fazer maiores investimentos.


 


A questão do marketing dos jornais ganha, neste contexto, particular importância. Nos últimos anos os jornais têm apostado sobretudo o seu marketing na venda de produtos associados (CD’s, DVD’s, livros, brindes diversos). Essas campanhas provocam algum aumento de receita, provocam aumento pontual da circulação ( e são muito eficazes quando coincidem com o trabalho de campo da recolha de dados dos estudos de audiência da imprensa). Mas o marketing de conteúdo, que se tem mostrado eficaz nos canais de cabo e na rádio, por exemplo, quase não é utilizado na imprensa. – no fundo porque muita imprensa tem desprezado a qualidade dos seus conteúdos e a sua adequação aos seus públicos-alvo.


 


Os media só são bons suportes publicitários quando conseguem entregar a capacidade de comunicação com as audiências. E as audiências são movidas por conteúdos que lhes interessem. Eu acho que o problema de muita da imprensa portuguesa é que se esqueceu desta questão básica.

PARA OS GRAFOLOGISTAS POTENCIAIS

A revista «Egoísta» fez um delicioso número especial, extra-série, de formato reduzido, quase um livro,  a partir de um espólio de manuscritos que inclui cartas de nomes como José Régio, Fernando Pessoa, António Botto, Amadeo de Souza Cardoso e Santa-Rita Pintor, entre outros. A análise grafológica dos manuscritos e considerações gerais sobre o tema estão a cargo de Alberto Vaz da Silva, um reputado especialista no assunto.


 


O resultado é uma edição deliciosa e de colecção que merece ser guardada. Paginação excelente, textos aliciantes (os dos manuscritos e a sua interpretação). Ou seja, a revelação do ser através do seu escrever, como bem sublinha Mário Assis Ferreira, que dirige a «Egoísta».

PARA OUVIR NO GÉNERO COUNTRY MADE IN LED ZEPPELIN

Robert Plant fez carreira nos Led Zeppelin mas as suas aventuras musicais mais recentes revelam uma inesperada frescura e uma criatividade surpreendente. «Band Of Joy» é o seu mais recente registo e vai buscar o nome a uma banda de tendência psicadélica que Plant liderou ainda antes dos Led Zeppelin.


 


O disco tem uma sonoridade claramente country, que lhe é dada pelo propdutor Buddy Miller. A selecção de temas é eclética e vai de originais de Richard Thompson a clássicos de Lightin’ Hopkins, e Jimmie Rodgers, até ao rock de Los Lobos ou de Townes Van Zandt. A voz de Patty Griffin ajuda Robert Plant, mas é indiscutivelmente a ele que se devem atribuir os louros por este belíssimo disco. (CD Decca, Amazon)


 

PROVAR O MATTOS

As lulas à Mattos são o prato forte da casa – forte e bem temperado, a exigir calma e sossego posteriores. Mas as ofertas de peixe e carne grelhada como os secretos de porco preto ou as costeletinhas de borrego também fazem parte dos ex-libris da casa, que fica bem perto da Avenida de Roma, junto ao teatro Maria Matos. Já agora cabe aqui elogiar as batatas fritas, cortadas em palitos fininhos, de boa batata e boa fritura, e que são um verdadeiro pecado.


 


A garrafeira é cuidada e actual, a freguesia gosta de cozinha portuguesa e de doces conventuais – que são a guloseima do local. De modo que não é invulgar ver no local alguns clientes com, digamos, algum excesso de peso – mas com ar feliz e bem disposto. Rua Bulhão pato 2ª, telefone 218483924, encerra aos Domingos.

ARCO DA VELHA

Segunda feira passada a RTP liderou as audiências, bateu SIC e TVI, e não transmitiu futebol. O bom resultado foi-lhe dado pelos resultados do «Prós e Contras» desse dia, dedicado à crise, segundo os três ex-Presidentes da República: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.


 


 Eanes foi o mais lúcido ao dizer : «Dá impressão que os Governos têm medo da sociedade civil e por isso escondem a verdade». Enfim, não é medo da sociedade civil, é mais medo de perderem votos. Mas no fundo foi o único com coragem para afirmar: «Devíamos ter tido só um PEC, ousado, arrojado e justo». De qualquer forma as boas audiências destas figuras mostram o velho sebastianismo português.


 

BACK TO BASICS

 


A indiferença pela coisa pública leva a que sejamos governados por má gente - Platão


 


 

outubro 14, 2010

UM JOGO DE XADREZ

A situação política portuguesa está a ficar perigosamente parecida com um jogo de xadrez em que os jogadores resolveram aplicar as regras do poker e movem as peças fazendo estranhos movimentos de “bluff”.  O PSD entra com vários jogadores, que fazem movimentos dispersos, às vezes contraditórios e algumas vezes confusos. O Governo mantém a pressão e tenta não abrir brechas. Por cima, o Presidente da República sente-se irrequieto e incomodado com as complicações surgidas em cima de termo de mandato, preocupado em saber quando, no meio desta tormenta, arranjará espaço para anunciar a recandidatura que é o tabu mais idiota do país. O outro candidato presidencial já desistiu de colocar peças no tabuleiro porque a última coisa que pretende é ser chamado a comentar as medidas do PS no Governo. E, finalmente, Paulo Portas está inusitadamente sossegado, espreitando por cima dos ombros dos jogadores, para ver se surge um momento em que ele possa pegar numa peça e fazer um movimento que o coloque na posição de poder ser ele a gritar “xeque-mate”.


Os efeitos da crise na imprensa e nos comentadores também são curiosos – um jornal anunciava este fim de semana a data de demissão do primeiro Ministro, os editoriais e comentários falam todos sobre o mesmo assunto – incluindo este. O país está obcecado pela crise e Passos Coelho está enredado no seu próprio tabu – se vota contra, ou se se abstém, deixando, neste caso, passar o Orçamento.  Aposto que no seu íntimo Sócrates gostaria que o Orçamento fosse chumbado – isso permitiria que se vitimizasse, encontraria uma forma airosa de responsabilizar outros pela situação e tentaria ainda sobreviver. A ele, agora como nos últimos anos, pouco importa a situação do País. Ele conhecia os perigos que corria com as medidas que foi tomando – mas sabia que elas lhe compravam votos e apoios. Sócrates é apenas movido pelos seus objectivos pessoais, pelo Poder e pelo seu agudo instinto de sobrevivência. Se o País fosse uma preocupação para ele, há muito que teria percebido o que tinha de ser mudado.

O ALEGRE AUSENTE

Manuel Alegre foi o único candidato já anunciado às próximas eleições presidenciais que não esteve nas comemorações oficiais do Centenário da República, na Praça do Município, em Lisboa. A versão oficial diz que ele esteve em Loures e no Barreiro, onde a República terá sido proclamada ainda antes de Lisboa. A evidência no entanto é que Manuel Alegre preferiu ir para locais onde não corresse o risco de ser confrontado com a pergunta: «que acha das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo?». Se tivesse ido à Praça do Município, Manuel Alegre teria que falar aos jornais,às estações de rádio, ás estações de televisão. Seria impossível continuar com o silêncio, algo covarde, atrás do qual se tem escondido desde que Sócrates anunciou que ía mesmo ter que fazer cortes sérios. A atitude de Manuel Alegre, a forma como se esconde, diz muito sobre a sua frontalidade, sobre a sua tranaparência e, sobretudo mostra a enorme clivagem, que se há-de acentuar ainda mais, entre as medidas que o PS toma e o que o candidato propagandeia. Manuel Alegre tenta o equilíbrio entre os seus dois apoiantes – PS e Bloco de Esquerda – mas a única coisa que consegue é esconder-se.

TOLERÂNCIA REPUBLICANA

No dia das comemorações do centenário da República um grupo de simpatizantes monárquicos, na maioria alinhados com o blogue  “31 da Armada”, estava perto da Praça do Município e os participantes colocaram máscaras de Darth Vader, personagem da ”Guerra das Estrtelas” que tem sido a imagem de marca daquele blogue. O curioso é que foram abordados por polícias à paisana, vários deles de cabelos rapados e óculos escuros, que lhes quiseram tirar as máscaras, não se sabe bem por que razão nem por qual autoridade. Noutra rua ali próxima um conhecido humorista da TV, Jel, dos Homens na Luta, fazia uma das suas habituais intervenções, proclamando que na sua opinião estamos numa república das bananas - e por esse facto foi detido e levado para identificação pela polícia. Num regime que se quer expoente da Liberdade, estes comportamentos são curiosos . Mais elucidativo ainda é o relativo e dominante silêncio dos media sobre estas atitudes - e já agora também sobre as cerimónias evocativas da Monarquia que na mesma data ocorreram em Guimarães, sem dignatários do regime nem usufrutuários dos dez milhões de euros das festividades republicanas, mas com largas centenas de pessoas, que lá se deslocaram de propósito a expensas próprias, num ambiente de festa popular em contraste com o cinzentismo da Praça do Município.

RETOCAR A MÚSICA

Nestes dias outonais nada como um bom disco de jazz, feito por um trio com uma formação intocável- piano, baixo e bateria. No piano está Jason Moran, no baixo está Tarus Mateen e na bateria está Nasheet Waits. Este trio completou dez anos de existência, já que o seu disco estreia foi “Facing Left”, de 2000. Matematicamente, este novo registo chama-se ”Ten” e reafirma como o talento de Moran está em conseguir fundiar a sua sensibilidade clássica com a intensidade da inspiração afro-americana dos músicos que o acompanham. Grande parte dos temas são da autoria do próprio Jason Moran, mas vale a pena ouvir com atenção as suas versões de “Crepuscle With nellie” de Thelonius Monk e de “Big Stuff”, de Leonard Bernstein. “Ten”, CD Blue Note, na Amazon. Chama-se a isto retocar a música. Bem retocada.


AGATHA CHRISTIE DESCOBRE A SÍRIA

Agatha Christie está no nosso imaginário como a autora de numerosos policiais de trama aliciante e desfecho inesperado. Mas confesso que conhecia muito pouco da sua vida pessoal. “Na Síria” não é bem um livro de viagens no sentido tradicional do termo - é mais o relato de experiências vividas num país, recordações de uma época, recordações assumidas com prazer. Agatha Christie, e isto eu também não sabia, casou-se com um arqueólogo britânico que conheceu nas suas experições. E antes da Guerra, durante uma década a partir de 1930, acompanhou o seu marido em sucessivas explorações e investigações na Síria. Este livrirelata essas viagens, as descobertas e facetas desconhecidas da escritora. Após as expedições á Síria, ela voltou para Londres onde viveu nos anos da II Grande Guerra. E foi só com o fim do conflito que terminou este livro, agora publicado em Portugal. É um deliciso relato de uma viagem para descobrir a Agatha Christie que desconhecemos. “Na Síria”, Edição Tinta da China, na Pó dos Livros. 285 páginas.

TRABALHO COLECTIVO

A nova proposta da Plataforma Revólver é uma exposição colectiva intitulada “Tough Love, Uma Série de Promessas”, que agrupa trabalhos de 12 artistas em diferentes fases da carreira criativa e provenientes de diversos países. O objectivo é “explorar o uso da arte em fornecer complementos exteriores para a noção de amor – uma jornada pessoal efémera composta por outras emoções mais provocatórias, incluindo o ódio, o desejo, a inveja e o destino”. Destaco os trabalhos de Cecília Costa, Agathe de Bailliencourt, Samira Abbasy, K.P. Reiji, Isabel Ribeiro , Greg LeFevre Marc Bijl e Zak Ové . A exposição estará patente até 20 de Novembro na Rua da Boavista 84-1º, Lisboa.

UMA REVISTA FANTÁSTICA - EXCESSIVAMENTE ENORME

Um bom excesso, na realidade: a coisa começa logo na capa - uma fotografia que chama a atenção e um título que diz tudo - «90 anos de excessos». É a edição especial de aniversário da Vogue francesa, que assinala os 90 anos da revista que é a bíblia da moda. São 626 páginas, a maioria de publicidade deslumbrante, muita dela feita de propósito para esta edição. Só a publicidade, de facto, é por si própria um conteúdo editorial. Para além da publicidade e da moda há artigos sobre o escritor Raimond Carver, uma bela evocação de Yul Brynner, outra da super,modelo Dorian Leigh, que foi seis vezes capa da Vogue em 1946 – veja, essas imagens fascinantes. Mas há mais: um álbum com reproduções de artigos antigos sobre Brigitte Bardot, Françoise Sagan, Romy Schneider, Jeanne Moreau, Annie Girardot, Catherine Deneuve, e  Marilyn Monroe, a descrição que Richard Burton fez há anos para a a Vogue da sua vida com Elisabeth Taylor e várias páginas de fotografias de alguns das grandes modelos que posaram para a revista nestes 90 anos. Imperdível – e pode ser comprada em Portugal ou vista em iPad ou em www.vogue.fr.

PARA ALCÁCER, EM FORÇA!

Esta semana inauguro um novo género de recomendações. Assim, aqui vai – eu ainda não fui lá, estou com vontade de ir, mas dois amigos meus, de reconhecido paladar, a Ana e o Carlos já lá foram e insistem que eu não posso deixar de descobrir o local. Chama-se Porto Santana, fica em Alcácer do Sal, do lado direito depois da ponte velha, onde Dantas era a Tasca do Gino, perto do local de onde partem as embarcações de recreio para passeios no Sado. A boa reputação da casa é feita pela sopa de cação, pelo ensopado de enguias, pela canja de amêijoas, migas à alentejana, lombo de porco preto. Pratica boa cozinha a preços moderados e tem uma boa garrafeira. Encerra ao jantar de segunda-feira e toda a terça-feira. Telefone 265 613 454

BACK TO BASICS

A administração é uma questão de habilidades, e não depende da técnica ou experiência. Mas é preciso antes de tudo saber o que se quer - Sócrates (469-399 a.C.)

ARCO DA VELHA

Nunca me tinha passado pela cabeça ouvir Mário Soares elogiar Cavaco Silva, mas foi isso mesmo que ouvi no dia da celebração do centenário da República. Ora aqui está a verdadeira união nacional. Quem deve ter ficado a ferver é Manuel Alegre.


 

outubro 06, 2010

REGIME

No exacto dia em que começaram as celebrações oficiais do Centenário da República a imprensa diária informa que o défice disparou, que as empresas do Estado têm a dívida descontrolada, que o preço dos medicamentos sobe e que o Estado continua sem cortar na despesa. O balanço do regime no seu centenário é o maior desemprego das últimas décadas, uma justiça que não funciona,  e problemas que se agravam na saúde e na educação. O endividamento externo de Portugal está a níveis nunca vistos, todos os dias há novos sinais de falta de confiança internacional no país, há uma crise política latente há meses - em boa parte culpada de toda a situação a que se chegou – um Presidente da República hesitante, um Governo autista, oposições oscilantes. Ao fim de cem anos de República os cidadãos desconfiam de políticos e de partidos, os números da abstenção em actos eleitorais continuam a crescer, o afastamento das pessoas da participação activa na política é cada vez maior. O país político é cada vez mais diferente do país real.


Vivemos há cem anos em República – os 16 primeiros anos foram de confusão e descalabro (com algumas semelhanças aos tempos actuais em matéria das finanças públicas), os 48 anos seguintes foram de ditadura e os 36 mais recentes foram ora de festa, ora de esperança, ora de desilusão – até aqui chegarmos. Se olharmos para o que se passava há cem anos atrás veremos que os principais males de que o país padecia continuam a existir. O regime mudou, mas não resolveu problemas nem melhorou, de facto, a vida política. O regime republicano em si poucas responsabilidades tem nos progressos que se verificaram - são fruto dos tempos, como aliás as monarquias do norte da Europa bem mostram. As comemorações a que agora iremos assistir são uma espécie de propaganda dos poderes instituídos, com gastos mais que discutíveis nos tempos que correm, e com uma alarvidade de expressões públicas que roça o indecoroso. Na realidade tudo se passa como se estes 100 anos fossem um mar de rosas, numa leitura acrítica e idílica do descalabro em que o país está a ser republicanamente governado. O descaramento é tanto que o Governo pretende aproveitar o 5 de Outubro para, nesse dia, inaugurar 100 escolas, depois de, ao longo dos últimos meses, ter imposto o encerramento de quase 4000 escolas. Mais do que uma celebração de um regime, as comemorações actuais são uma manobra de propaganda pura, que o actual Governo manipula em seu proveito, perante a complacência habitual do Chefe do Estado. A República não é uma ideologia, por muito que alguns pretendam. É apenas uma forma de organização do poder e por cá não tem dado grandes resultados.


 

Untitled

 BACK TO BASICS –  Deixe quem desejaria mudar o mundo mudar-se primeiro a si mesmo , Sócrates (469-399 a.C.)


 

ARCO DA VELHA

«O relatório da EFTA não pode ser pessimista até porque foi negociado com o Governo»  – afirmou Silva Lopes. «Um verdadeiro tratado de má economia» - foi assim que António Nogueira Leite classificou este relatório.  E sobre o carteiro mexicano que veio fazer belos  cenários para Teixeira dos Santos, nogueira Leite desabafou no Facebook: «O ex ministro do Partido Revolucionário Institucional do México veio dizer a barbaridade de que há pouca margem para cortar despesa. E o senhor até parafraseou Trotsky no comentário imbecil que fez sobre a injustiça dos juros que nos cobram os credores».

COMER NO CORTE

A decoração é insípida, a vista é boa, o serviço é muito bom e a comida é acima do razoável. Feitas as contas o balanço final é positivo. O Restaurante do El Corte Ingles (não confundir com a Cafetaria que é mauzota e tem fraco serviço), fica no último piso do edifício, o sétimo. Aviso à navegação – só serve almoços, mas acontece que é um local central e simpático para uma conversa tranquila – as mesas são amplas e espaçadas umas das outras, a cozinha é atenta, a garrafeira é simpática e há boas propostas de vinho a copo. Vale a pena reservar, frequentemente está com a lotação completa. Para além das propostas diárias e de algumas semanas dedicadas a tradições culinárias específicas, a casa orgulha-se de um arroz caldoso de lavagante que é sempre muito elogiado, de um lombo de porco ibérico com cogumelos e de um tamboril salteado com amêijoas e molho verde. Telefone 213711724.

Uma exposição, Um disco, Um livro

VER – «Desordem Comum» é o bom título da nova exposição de Pedro Calapez, na Galeria Miguel Nabinho, em Campo de Ourique, na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B. Até 16 de Novembro podem ser vistos trabalhos recentes e inéditos do autor. Cores luminosas, combinações de formas, por vezes a sugerir  meio caminho entre a pintura e a escultura, perspectivas invulgares, sugestões de movimento que nos prendem o olhar. Quadros animados, quase poderia dizer.


 


OUVIR – Aos 71 anos Mavis Staples conseguiu fazer um dos mais interessantes discos da sua já longa carreira, iniciada  nas célebres Staples Sisters que ganharam fama nos anos 50 e 60 com um repertório baseado em gospels. Há três anos Mavis Staples revisitou alguns dos espirituais do tempo das Staple Singers, da época das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Agora, neste novo disco, «You Are Not Alone», é acompanhada pelo líder dos Wilco, Jeff Tweedy, que produziu, fez arranjos e ainda compôs dois originais que Mavis aqui canta. Neste CD estão também dois originais do seu pai, Pops Staples , responsável por boa parte dos grandes êxitos das Staple Sisters – nomeadamente o arrebatador «Don’t Knock», que abre o disco. Vários tradicionais e temas de outros autores como Randy Newman ou John Fogerty (ouça-se a interpretação emocionante de «Wrote A Song For Everyone») completam este disco que tem na voz e interpretação de Mavis Staples um excelente contraponto para o tratamento que Jeff Tweedy deu aos arranjos – inventivos,   e obviamente com um ar de country contemporâneo. Curioso este cruzamento de talentos entre uma lenda dos espirituais, que chegou a trabalhar com nomes grandes do jazz, da soul e com Prince, com um dos expoentes das bandas rock independentes dos últimos anos, os Wilco. Para se perceber como a voz de Mavis Staples continua em excelente forma basta ouvir «Wonderful Savior», um tema tradicional cantado «a capella» de forma superior.


(CD Anti, via Amazon).


 


LER – Não sou propriamente um devorador dos chamados romances históricos, mas confesso que me entusiasmei com «The Thousand Autums Of Jacob de Zoet», a mais recente novela de David Mitchell, que conta a história de um jovem funcionário holandês, em busca de fortuna num entreposto comercial estabelecido pelo seu país no Japão, perto de Nagasaki, em 1799. A escrita de Mitchell é, tradicionalmente, um manual de como definir personagens, de como cruzar narrativas. Às vezes Mitchell, um britânico que viveu muitos anos no Japão, é de uma minúcia descritiva – de locais, pessoas, ambientes, tradições ou conversas - que pode parecer exasperante. Mas esta é a técnica que utiliza para – literalmente - nos fazer viver dentro das histórias que inventa. Esta é fantástica e cruza a ganância dos homens com as tradições milenares do Oriente, uma  paixão não consumada, a moral da época e formas pouco ortodoxas de compensar a vida monástica. Edição Sceptre, via Amazon.

setembro 29, 2010

PAGAR PARA ENTRAR EM CASA

(Publicado no jornal Metro de dia 28 de Setembro)


 


O discurso oficial de António Costa e de alguns seus estrategas é o de voltar a trazer moradores para Lisboa, promover a reabilitação em vez de construção e conseguir impedir a desertificação das zonas do centro histórico da cidade. A realidade é bem diferente - um regulamento de circulação e estacionamento nessas zonas históricas que penaliza os seus residentes. Um grupo de moradores da Costa do Castelo, indignados com que se está a passar, elaborou um documento, protestando contra as imposições da EMEL em matéria de estacionamento e da Câmara em matéria de circulação. Excertos (e declaro desde já que não resido no local nem lá costumo ir):


«A proposta de regulamento em discussão não mostra qualquer respeito pelas preocupações e interesses dos moradores, que assim se vêem cada vez mais isolados e onerados pelos custos de acesso ao bairro. De facto, esta proposta de regulamento baseia-se no princípio geral, que entendemos absurdo, de que todas as pessoas ou instituições com quem os moradores tenham relacionamento pessoal ou profissional, são obrigadas a comprar cartões de acesso temporário, e, no caso de necessitarem justificadamente de permanecer mais do que 30 minutos na Zona, estão sujeitas ao pagamento de tarifas de estacionamento extorsivas (30 euros por 2 horas de estacionamento, até 90 euros por 4h!) ou para a realização de cargas e descargas, sujeitarem-se a obrigações kafkianas para a prévia obtenção de cartão de acesso, deixando de lado todas as necessidades de apoio quotidiano esporádico que tantas vezes são necessárias. Permite-se (naturalmente) a quem tem garagens particulares que deixe estacionar veículos de visitantes nos seus lugares, quando os mesmos estejam disponíveis, mas obriga-se a que os mesmos sejam pagos e o interessado vá ao início da rua receber os visitantes com um cartão de acesso a garagem... Genericamente não faz sentido que paguemos para ter acesso às nossas casas, muito menos ainda ter que pagar um título de estacionamento para estacionar na nossa propriedade.»


Então Sr. Costa – isto é que é defender os lisboetas e combater a desertificação do centro histórico da cidade?


 

setembro 27, 2010

O CHÃO DE LISBOA

(Publicado no diário Metro de 21 de Setembro)


 


No dia 29 de Agosto de 2009, há cerca de um ano portanto, foram inauguradas as novas estações do metropolitano de São Sebastião e do Saldanha, depois de anos de obras e de corte de trânsito em quase toda a extensão da Avenida Duque de Ávila. A inauguração foi convenientemente feita para dar palco ao Dr. António Costa, associando-o à conclusão dos trabalhos, a mês e meio das eleições autárquicas.


Mas será que os trabalhos estão concluídos? A verdade, um ano depois das inaugurações e das eleições, é que  a Duque de Ávila continua em boa parte da sua extensão com circulação condicionada, com estaleiros ainda montados, com o pavimento ainda por reparar. Uma das principais artérias comerciais das Avenidas Novas está votada ao abandono pela Câmara, tornando-se num dramático emblema do que tem sido a actividade do executivo camarário desde que foi eleito a 11 de Outubro do ano passado. É uma vergonha – um ano depois da inauguração das estações subterrâneas, continua  à superfície o caos que durante anos ali se instalou.


O estado em que a Duque de Ávila está é a demonstração da incapacidade e do imobilismo do executivo de António Costa, é a prova do desrespeito pelos lisboetas, é a prova de como as actividades económicas da cidade não lhe interessam para nada – já para não falar do bem estar ou do conforto dos habitantes da cidade.


O estado de sujidade e de porcaria em que andam as ruas de Lisboa é de bradar aos céus – na semana passada bastou uma leva chuvinha para que os passeios se transformassem em perigosas pistas de patinagem – porque o efeito da chuva sobre a porcaria incrustada no chão é desagradavelmente escorregadio.


Desafio-vos a um passatempo – andem de olhos bem focados no chão que pisam nas ruas de Lisboa e verão se não se assustam com o que vêem, com as porcarias que estão por todo o lado, com a falta de limpeza, com a alteração da cor dos passeios por força da sujidade. Eu acho que Lisboa nunca esteve assim, nunca esteve tão mal, tão votada ao abandono.

(publicado no Jornal de Negócios de 17 de Setembro)

LISBOA – Esta semana a EMEL decidiu lançar uma campanha para captar a simpatia dos lisboetas que, queixa-se a empresa, a olham com antipatia. Custa-me um pouco que uma empresa, que para todos os efeitos é de inspiração municipal, invista em campanhas desta natureza. Talvez fosse mais útil perceber as razões da antipatia –  se telefonarem para o call centre da EMEL depois de terem sido bloqueados perceberão um pouco as razões desse sentimento. Com automatismos a mais e respostas a menos, o call centre é desesperante quando se tem um carro bloqueado e não se consegue perceber quando será desbloqueado. Talvez fosse também mais interessante, para combater a antipatia, que a empresa estabelecesse um prazo máximo para o desbloqueamento, depois de solicitado. Talvez também contribuísse para diminuir a antipatia que os fiscais da EMEL tivessem critérios uniformes, e se em vez de multarem quem excedeu a validade do talão de estacionamento por pouco tempo perseguissem as duplas filas. A mim um funcionário da EMEL já me disse que tendo eu sido bloqueado não tinha que refilar pela demora, insinuando que fazia parte da punição. E já nem vou falar da forma como os próprios veículos da EMEL estacionam – por vezes até em passagens de peões.


Se a EMEL tem disponibilidade para fazer investimentos como os da campanha acima referida, mais valia que o fizesse na formação dos seus funcionários, num call centre útil, na melhoria de processos, num serviço capaz aos seus clientes e no estender da acção em defesa dos moradores da cidade.


Por razões que me escapam, a EMEL não actua numa série de zonas residenciais, transformadas em parques de estacionamento de stands de automóveis usados e de visitantes da cidade, que nela não vivem.


Não iludamos a questão: Lisboa tem um problema de despovoamento e os que ainda persistem em viver na cidade são de facto prejudicados pela acção da EMEL. Quem vive em Lisboa paga aqui os seus impostos, quem tem carro registado em Lisboa paga aqui o seu Imposto de Circulação. Uma lógica de serviço aos munícipes devia fazer criar um sistema que trate de forma preferencial quem vive na cidade. E por muito que queiramos, o serviço de transportes públicos em Lisboa funciona de forma deficiente – o Presidente da Câmara, António Costa, critica ele próprio com frequência  a Carris e o Metropolitano pelas opções que tomam e que não servem aos lisboetas.


A nível automóvel o grande problema é evitar a entrada de carros de não residentes – o que a EMEL e a autarquia não têm conseguido. Por isso defendo que os residentes em Lisboa devem ter liberdade de estacionamento em toda a área municipal, mediante um sistema de controlo eficaz, e que os não residentes devem ter taxas de estacionamento fortemente dissuasoras. Essa é a única forma de defender os residentes da cidade e de evitar que os bairros residenciais sejam invadidos por viaturas de fora. Por outro lado a autarquia devia regulamentar a questão dos estacionamentos em massa – nomeadamente os relativos a stands de automóveis e estacionamentos de longa duração em bairros residenciais. Um dístico de residente, um único por contribuinte e eleitor registado no município,  seria uma solução possível. Era curioso que a EMEL fizesse um estudo sobre as situações de incumprimento – provêem mais de lisboetas ou de pessoas que vivem fora da cidade?


O que se deseja é que menos carros entrem na cidade, é que os cidadãos de Lisboa tenham direitos que são uma extensão da forma como contribuem para a cidade – e que por isso mesmo não podem ser vistos em pé de igualdade com os outros. Viver em Lisboa não pode ser um castigo.


Por isso a EMEL, nos termos em que existe, não tem razão de ser. É feita para punir cegamente, e não para proteger a cidade – o que quer dizer proteger quem a habita de facto. E ou se modifica, ou as suas campanhas para granjear simpatia serão apenas um desperdício de dinheiro, que afinal é de todos os que vivem em Lisboa.


 


ESTADO – Uma ex-esperança do PS, Francisco Assis, insurgiu-se esta semana contra o que designou por ataques do PSD ao Estado Social. Deixemos de lado o facto de o processo de revisão constitucional lançado pela actual direcção do PSD ter sido um gigantesco tiro no pé que parece um trabalho de contra-espionagem do PS. Passemos à substância da argumentação do PS sobre o Estado Social, mas tenhamos em conta dois períodos: os Governos Guterres entre 1995 e 2002 (sete anos) e os Governos Sócrates entre 2005 e a actualidade (quase seis anos). Nos Governos Guterres foi alargado de forma significativa o conjunto de apoios sociais do Estado, muito para além do que era razoável. O resultado foi um brutal aumento da despesa, que não foi compensado por cortes noutros sectores ou por mais receitas. A má gestão de Guterres, feita de boas intenções, mas cheia de deficientes cálculos, já se sabe que foi culpada em grande parte pela situação actual de desequilíbrio das contas públicas. E nos dois – três primeiros anos de Sócrates a imprudência nesta matéria continuou. Em contrapartida, como se tem visto no último ano e meio, quem está a cortar no Estado Social, e de forma abundante, é o próprio PS e não o PSD. A questão é clara: o PS atabalhoadamente instituíu medidas que desequilibraram o sistema – e agora – Bruxelas dixit - é o primeiro a fazer cortes, às vezes cegos como na educação e saúde, mas sendo incapaz de noutras áreas controlar o aumento da despesa pública. Por isso o palavreado socialista sobre o Estado Social é de uma enorme demagogia. Na realidade, pelo que fez e pelo que não fez, o PS tem sido o seu principal coveiro.


 


ARCO DA VELHA – O Secretário de Estado Laurentino Dias é acusado de ter instigado o imbróglio Queiroz; O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, disse que o assunto prejudicava a imagem do país; O Ministro Pedro Silva Pereira, que tutela Laurentino Dias, acha que a polémica não prejudica nada Portugal. Ninguém se entende numa casa destas?


 


VER – Imagens fotográficas de André Gomes e de Duarte Amaral Netto estão, a partir desta semana ,na Galeria Baginski, mostrando duas formas bem diferentes de encarar a utilização deste meio. Duarte Amaral Netto percorre memórias pessoais e André Gomes explora a forma como os espelhos reflectem imagens à sua volta, questionando a simplicidade do olhar . É um contraste curioso. Rua Capitão Leitão 51 e 53, no Beato.


 


LER – «Instruções Para o Cozinheiro Zen» é um texto de um monge japonês, Tenzo Kyôkun, escrito na primavera de 1237. Não se iludam sobre o título – na realidade é uma lição de vida, de organização de trabalho, de forma de pensar e agir, e é também uma delicada introdução ao pensamento Zen. A edição, da Assírio e Alvim, colecção Gato Maltês, é completada por um interessantíssimo texto de Yves Shoshin Crettaz, um monge suíço que é responsável pelo Dojo Zen, de Lisboa e que nos ajuda a enquadrar a obra original.


 


OUVIR – Belíssimo o novo CD do pianista de jazz belga Jef Neve, acompanhado pelo cantor norte-americano José James. Juntos  percorrem clássicos como «Autumn in New York», «Embraceable You», «Body And Soul» ou «For All We Know», entre outros. Neve é um pianista sensível e James é um cantor felizmente atrevido, nascido no hip-hop e que evoluiu para os blues e o jazz.


 


PROVAR – No Guarda Mor há duas coisas imbatíveis: a simpatia de Sofia Carvalho, a comandar o restaurante, e a arte da cozinheira Matilde Campos em clássicos como peixinhos da horta ou pataniscas de bacalhau. Mas tudo o resto é bom – do patê de pato com chutney que está no couvert, aos filetes de peixe galo com arroz de grelos. Ao longo dos anos o Guarda Mor tem sabido manter a qualidade, o que nem sempre acontece nesta Lisboa.   Rua do Guarda Mor 8, em Santos O Velho,  telefone 213 978 663.


 


BACK TO BASICS – A maneira de se conseguir boa reputação reside no esforço em se ser aquilo que se deseja parecer – Sócrates (469-399 a.C.)


 

setembro 14, 2010

UM ANO EM INTERVALO

(Publicado no diário Metro de dia 14 de Setembro)


 


Há um ano, a 27 de Setembro, José Sócrates venceu pela segunda vez as eleições legislativas. Lembram-se das promessas que então fez? Lembram-se do programa do PS? Lembram-se dos discursos de campanha dos socialistas? Lembram-se do horizonte radioso prometido para o país?


Um ano depois a realidade é sombria – aumentou o desemprego, diminuem os apoios sociais,  aumentam os impostos e continua a crescer a despesa pública – apesar da série de cortes no estado social que o PS já foi fazendo.


Tudo indica que os próximos 12 meses vão ser um período de vazio, um intervalo onde se irá fazer muito pouco,  num governo ainda recente mas já desgastado e incapaz de promover as reformas necessárias, incapaz de definir uma estratégia, um Governo que irá continuar mero seguidor das imposições orçamentais da União Europeia.


O pretexto para este dramático interlúdio de inacção é a próxima eleição do Presidente da República, que acabou por servir de tampão para a crise. Graças às normas constitucionais entrou-se naquele período em que,  por pior que o Governo governe, nada se pode fazer. Na prática durante um ano Sócrates tem um seguro de vida garantido pelos prazos constitucionais. Na apresentação do Orçamento de Estado de 2012, que se fará daqui a um ano, veremos qual o estado do país.


Estes 12 meses que aí vêm não vão ser fáceis. Quase de certeza existirá um agravamento – directo ou indirecto – de impostos, a classe média será mais uma vez penalizada, a despesa pública continuará a aumentar, e o Estado terá cada vez maior dificuldade em se financiar.


Em Setembro de2011 estaremos pior. Viveremos pior. Teremos menos perspectivas. O Governo, a continuar assim, continuará cada vez mais autista, incapaz de perceber a necessidade de fazer um pacto de regime claro e transparente, com objectivos, que garanta uma efectiva estabilidade, em vez desta paz poder que consome os nossos recursos e a nossa paciência. Não ter utilizado os mecanismos possíveis para assegurar um pacto de regime e um governo de maioria alargada, é uma herança que este Presidente deixa e que sairá caríssima.

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 10 de Setembro)

PRESIDENCIAIS- Cavaco Silva entreteve a última semana em que podia pôr o Governo na ordem com recados à oposição. Fez uma espécie de conselho político a Passos Coelho, em matéria de orçamento, e um conselho táctico ao relembrar que o desemprego é o tema que deve ser falado e combatido na acção política. Sugeriu, portanto, uma espécie de um manual de instruções ao PSD. Pelo caminho deixou cair a dúvida sobre a não redução dos valores salariais dos gabinetes do Primeiro Ministro e do Presidente da Assembleia da República, que não foram incluídos entre aqueles que iriam sofrer cortes; depressa os visados vieram aceder ao desejo Presidencial.


No entretanto vê-se de forma cada vez mais clara que a direita não tem candidato – e não me interessam nada os motivos de origem religiosa invocados por alguns. Cavaco, como os tempos, mesmo os mais recentes, têm mostrado, é o melhor Presidente da República para Sócrates, apesar das divergências pontuais e da alguma acrimónia pontual entre os dois . E Sócrates é o Primeiro Ministro que Cavaco estima, porque lhe dá oportunidade de tomar umas posições e o poupa a recomendações impopulares.


Cada vez mais se observa como Cavaco é, de facto, o candidato do regime. Por exemplo, se fosse Alegre a estar em Belém o Plano de Estabilidade e Crescimento seria mais difícil e Sócrates começaria rapidamente a arrancar cabelos. Na realidade, não havendo candidato de direita, Cavaco Silva parece ao senso comum da grande massa central do eleitorado como o menos mau – pelo menos tendo em conta o resto do folclore indígena. Manuel Alegre é um conservador com paleio social e um lunático em matéria prática, que na verdade é o candidato do Bloco de Esquerda levemente apoiado pelo PS. Fernando Nobre foi lançado às feras, não tem programa nem bases, apenas umas vagas promessas de notáveis que muito provavelmente não se cumprirão. Na realidade Fernando Nobre é o candidato soarista sem apoio do PS nem de nenhum partido e não se percebe porque não se retira enquanto é tempo. Neste cenário Cavaco Silva está perigosamente perto de ser o candidato  que Sócrates quererá suportar , mesmo que tenha o apoio do PSD e PP. Estas presidenciais vão ser um jogo de aparências e uma prova mais da falência do regime em matéria de clareza de opções. E, claro, com Cavaco eleito Sócrates espera que o eleitorado não vote nas próximas legislativas naqueles que o levaram a Belém.


 


FUTEBOL – O caso Queiroz é um mistério que dava para escrever um policial dos bons. A Selecção Nacional foi abatida na praça pública para servir os interesses e as guerrilhas de órgãos institucionais, apadrinhados pelo Governo, caso da Federação Portuguesa de Futebol. Em vez de tomarem decisões e serem frontais, escolheram o método da conspiração como forma de actuação. Quem manda no Futebol destruíu neste último mês o pouco que restava da Selecção. Tudo isto é um espectáculo triste de mentira, hipocrisia e cobardia – nada daquilo que se espera do desporto.


 


PUBLICIDADE – Neste momento existe uma elevada probabilidade de que, no final deste ano, os valores globais do investimento publicitário em meios digitais se aproximem muito dos valores do investimento na imprensa diária. As estimativas actuais apontam para que a publicidade em canais de cabo e na rádio já tenha ultrapassado o montante dos jornais diários e a internet está muito mais próxima do que na mesma altura do ano passado. O panorama geral dos estudos e estimativas actuais é este: as estações de televisão RTP, SIC e TVI captam ligeiramente acima de metade do total do investimento e não sofrem grande alteração, os canais de cabo sobem quase 30%, os meios digitais também andam num crescimento de 30% e a imprensa diária cai cerca de 15%, depois de já ter caído no ano passado cerca de 28% em relação a 2008. Vamos ver o que os números do último trimestre do ano trazem, mas tudo indica que a paisagem do investimento publicitário no final de 2010 será bastante diferente, na repartição de volume pelos vários media, que no ano passado.


 


ARCO DA VELHA – Invocando um grande apoio a boas práticas ecológicas, a EMEL colocou 12 bicicletas para alugar que, no entanto, só podem ser usadas pelos assinantes dos seus parques e mesmo assim mediante pagamento suplementar. Sá Fernandes já pode dizer que há 12 bicicletas de aluguer em Lisboa. O ridículo mata e a EMEL cada vez se assume mais como uma empresa de fretes ao executivo camarário, cuja missão é penalizar os lisboetas.


 


VER – A retrospectiva da obra do pintor  inglês Victor Willing inaugurou esta semana na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, em simultâneo com outra exposição da pintora, «Paula Rego Anos 70 – Contos Populares e outras histórias». Willing foi casado com Paula Rego e tem uma importante e curiosa obra. Morreu em 1988 e a sua pintura tem vindo a ganhar progressivo reconhecimento. Se ainda não conhecem a casa das Histórias não percam esta oportunidade – até porque ficarão surpreendidos pelo trabalho de Victor Willing – que ficará exposto até ao dia 2 de Janeiro.


 


LER – Fantástico o número de Setembro da edição americana da revista Wired (já disponível em Portugal e no site da revista). O título de capa é uma deliciosa provocação: «The Web Is Dead» - mas lá dentro explica-se em detalhe que isto quer dizer que a Internet está bem viva. Paradoxo? – nem por isso. Levanto uma ponta do véu – a vida da internet baseia-se na tendência para cada vez existirem mais aplicações e serem elas de facto que são utilizadas e geram movimento – a Web aberta está a ser trocada por serviços mais simples e direccionados que cumprem de forma eficaz o seu objectivo  e que aliciam milhões de utilizadores. Acessoriamente existe um excelente artigo sobre a evolução provável da televisão nos próximos anos – a questão não é tanto o que se pode ver, mas como os espectadores vão ver o que quiserem. E, aqui, a internet, aposta a Wired, vai ter um papel decisivo. São dois artigos imperdíveis.


 


OUVIR – Surpreendente e inesperado o novo disco de Lloyd Cole, «Broken Record», é cheio de influências norte-americanas já que é nos Estados Unidos que ele vive hoje em dia. Longe vão os tempos de «Rattlesnakes» o álbum que em 1984 colocou no mapa Lloyd Cole e os seus Commotions. Com forte inspiração da «country» americana, Broken Record assume de forma clara o lado pop que fez a fama e a fortuna de Cole. Boas canções, produção cuidada, uma voz inesperadamente fresca. Aqui está um bom momento discográfico.


 


PROVAR – No regresso à cidade um restaurante popular com uma qualidade inesperada e uma dimensão apreciável. Fica nas traseiras da Avenida de Roma, no Largo Machado de Assis, ao fundo da Conde de Sabugosa – o Dom Feijão localiza-se no pátio de uma série de prédios novos que ali foram construídos nos últimos anos. O destaque vai para a qualidade do peixe, que permite grelhados recomendáveis e algumas boas frituras. Nas carnes umas honestas iscas e um bom cabrito assado são opções recomendáveis. Ao sábado há cozido. O restaurante tem 100 lugares, o preço é comedido, a garrafeira é extensa. É bom local para juntar vários amigos numa mesa.


Dom Feijão, Largo Machado de Assis 7D, telefone 218464038, fecha aos domingos.


 


BACK TO BASICS – Aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo – Oscar Wilde

setembro 07, 2010

SENHOR COSTA EXTINGA A EMEL!

(Publicado hoje no diário Metro)


 


O semanário «Expresso» noticiava esta semana que Lisboa é a cidade europeia onde é mais caro estacionar um automóvel nos parquímetros de rua. Ou seja, é mais caro que Londres, Madrid, Milão ou Amesterdão. Os automobilistas lisboetas, que vivem na cidade, pagam os seus impostos na cidade e trabalham na cidade, são penalizados e perseguidos.


A EMEL, uma entidade que a Câmara Municipal de Lisboa devia ter a coragem de extinguir, gaba-se de ir ter lucros record, à custa dessas tarifas altas e de abusos de poder sistemáticos – que passam por ser rápida e muitas vezes abusiva a bloquear e a multar e muito lenta a desbloquear ou a responder a queixas e protestos dos utentes. A EMEL é uma empresa que maltrata os clientes, que despreza os  munícipes e que faz campanhas de publicidade absolutamente enganosas sobre os seus métodos e fins. Basta olhar para o recente devaneio de José Sá Fernandes, que queria à viva força introduzir bicicletas de aluguer em Lisboa, talvez na tentativa de ter alguém a circular nas ciclovias que construíu de forma absurda. Quem lhe satisfez o capricho? A EMEL, claro, que lançou com parangonas o existência de doze – reparem bem no astronómico número – DOZE bicicletas para os utentes dos parques de estacionamento. E que utentes são esses? Apenas os clientes dos parques com assinatura mensal. Se isto não fosse risível seria um dramático sinal de incompetência e saloice.


Na zona onde trabalho, nas Avenidas Novas, é frequente ver os esbirros da EMEL a bloquearem carros que não estão mal estacionados, apenas excederam o tempo, enquanto assobiam perante as duplas filas. E com alguma frequência os carros da EMEL estão mal estacionados em cima de passagens de peões. Uma vez enviei uma foto de uma situação destas para a própria EMEL, protestando, e explicaram-me que os infractores estavam apenas a trabalhar e tinha sido por pouco tempo. Senhor António Costa, e não se pode extinguir esta empresa parasita? Vá lá, faça alguma coisa por Lisboa, já que tão pouco tem feito.


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Setembro)

MUDAR – Uma das coisas que mais estraga a imagem de um político (e de um partido), é a sucessiva alteração de propostas, é a falta de uma linha clara. Modificações em relação ao que é inicialmente apresentado, confusão na explicação de ideias, atropelos e zigue-zagues na respectiva comunicação, são tudo factores que levam à desconfiança e, pior, ao descrédito. José Sócrates tem sido vítima disto mesmo – prometeu muito, fez pouco, todos os dias dá o dito por não dito e apregoa o contrário se necessário for. A simples análise do percurso do actual Primeiro Ministro devia levar futuros candidatos ao lugar a terem os maiores cuidados nestas questões. Como Confúcio dizia, «estudem o passado se querem saber definir o futuro» - eis um ensinamento que os aspirantes ao poder deviam ter sempre em conta.


Contrariamente às expectativas, a nova direcção do PSD tem tido, nesta matéria,  um percurso sinuoso e que tem prejudicado a sua imagem. Primeiro, na forma como acordou com o PS  o seu apoio ao plano de restrições económicas; depois, na questão da revisão constitucional – anunciando o que se pretendia fazer para depois ir recuando numa série de pontos; e agora no tema da viabilização do orçamento – entre o discurso do Pontal e os discursos da Universidade de Verão sobre esta matéria há diferenças sensíveis.


É sempre interessante fazer testes utilizando focus groups bem estruturados para avaliar a reacção a algumas propostas e, eventualmente, face aos resultados, afiná-las. Só que o jogo de utilizar a opinião pública e o eleitorado em geral para testes pode ser fatal. Ninguém gosta de indecisos e o PSD está perigosamente a repetir a indefinição, o ajuste,  a correcção.


O fundamental seria ter uma estratégia linear simples, feita de pontos fundamentais, claros e perceptíveis, com medidas claras e exequíveis, que não tivessem que ser demasiado explicadas nem alteradas conforme a situação. Assim dá ideia de que se está a disparar um bocado à toa em diversas direcções. Este não é certamente o caminho mais seguro para construir uma alternativa credível a um Governo que, desde o primeiro dia, fez da demagogia a sua forma de comunicar: O PS prometeu mais emprego e deu mais desemprego, prometeu menos impostos e aumentou a carga fiscal, prometeu reduzir a despesa pública e aumentou-a – tudo, sempre, com o argumento de se adequar à realidade e às circunstâncias. Quem quer ser Governo, como o PSD, não devia correr o risco de, em matéria de adequação às circunstâncias, se parecer com o PS na flutuação e variação de declarações e objectivos


 


REGIME – Armindo Monteiro, que tem trabalho feito no associativismo empresarial e que dirige a Compta, deu esta semana uma entrevista a este jornal onde disse uma das coisas mais importantes colocadas na praça pública desde há muitos meses: «Gostava que em Portugal não existissem empresas de regime». Por outras palavras Armindo Monteiro veio dizer que em Portugal há empresas que se vão encostando aos partidos, e depois aos Governos, para em troca de apoios e favores, terem facilidade nas adjudicações, nos contratos e nas encomendas. Todos sabemos as numerosas histórias que sobre esta matéria se têm passado em sucessivos Governos, mas com grande peso nestes últimos anos. Cada vez que o poder está em vias de mudar de mãos, como acontecerá a médio prazo, vê-se logo uma procissão de futuros apoiantes, que vão facilitando tudo na expectativa de que mais à frente possam fazer parte do círculo dos eleitos para os bons contratos. Estas são as empresa do regime de que fala Armindo Monteiro. São uma praga, favorecida pela forma como os partidos continuam a ser financiados, como as suas campanhas, estudos e actividades se desenrolam. Quando Armindo Monteiro diz que gostava que o Estado escolhesse em função da competitividade, e não dos apoios de regime, diz uma coisa mais importante que qualquer proposta de revisão constitucional. Estas são as mudanças que interessam.


 


INCÊNDIOS – Seguindo com alguma atenção o que se passou este ano em matéria de incêndios chega-se a uma conclusão quase cristalina: bombeiros, Protecção Civil e autarcas esforçaram-se em todas as circunstâncias, estiveram na primeira linha da acção e concentraram todos os meios que podiam. É justo reconhecer que o Ministro da Administração Interna se envolveu ele próprio nos casos mais complicados e desbloqueou meios e apoios. Mas também se nota como em todo este processo os Governos Civis são de uma total inutilidade, que culminou com a extraordinária reacção do Governador Civil de Vila Real aos protestos de autarcas sobre o que estava a acontecer no incêndio que esta semana consumiu a zona do Gardunho, Boticas e Ribeira da Pena. Alexandre Chaves, o Governador Civil de Vila Real, disse em declarações à rádio, que os autarcas não tinham razão porque haviam de compreender que à noite, não se conseguia fazer trabalho de coordenação – ou seja, que à noite era impossível trabalhar e cumprir a sua missão. Os Governadores Civis são hoje meros cargos honoríficos, que se limitam a cobrar umas taxas e a estar presentes em cerimónias oficiais. A sua utilidade é mais que discutível. Extingui-los, passar muitas das suas competências para as autarquias, era uma boa forma de contribuir para diminuir a despesa pública. E não me parece que seja preciso fazer uma revisão constitucional para isso – embora possa afectar a distribuição das benesses partidárias…


 


EXEMPLO – Num recente artigo Tyler Brulé, colunista do« Financial Times» e editor da revista «Monocle», disse mais ou menos isto: As empresas de energia e telecomunicações no Brasil podem ser o motor para a economia do país, mas são coisas como a música, a moda, a hotelaria e o design que fazem com que a marca Brasil seja cada vez mais apelativa e sexy, comparando com os outros países BRIC – China, Rússia e Índia. O resumo é simples: criatividade, criatividade, criatividade; ligação da indústria com os criadores; cultura contemporânea e popular – é  isto que faz a marca de um país. Brulé tem razão.  A imagem de um país hoje passa por estes pontos – a política cultural contemporânea é isto que deve estudar, é isto que deve procurar incentivar. Quem ficar nas rotinas e burocracias antigas acaba a morder o pó.


 


ARCO DA VELHA – O caso Queiroz é todo ele um bruxedo do princípio ao fim. Mas uma coisa é certa: Ricardo Araújo Pereira é quem melhor resumiu a situação, comentando que Carlos Queiroz só joga ao ataque em entrevistas e declarações a órgãos de comunicação.


 


LER – A edição de Setembro da «Monocle» tem como tema de capa o rebranding que a revista entende ser necessário fazer à Grã-Bretanha. Vale a pena ler porque muito do que lá está escrito se podia aplicar a outros locais, Portugal incluído. Só por curiosidade esta edição da revista tem artigos sobre o Brasil, Angola,  Moçambique e  Macau, mas a única referência a Portugal , meio lateral, vem do elogio ao novo disco dos Walkmen, intitulado «Lisbon».


 


OUVIR – A mais recente criação de Keith Jarrett com Charlie Haden é o CD «Jasmine», por acaso o primeiro disco de ambos que é exclusivamente para piano e baixo. O disco é também o primeiro registo de estúdio de Jarrett nos últimos 12 anos. O repertório para este duo piano/baixo é baseado em standards norte-americanos e baladas, de diferentes épocas. O entendimento entre os dois músicos, cuja ultima gravação em conjunto tinha sido há cerca de três décadas, é perfeito mas nada rotineiro – na realidade a improvisação joga um papel importante e há momentos em que se torna evidente o gôzo que os dois estavam a sentir com a música que estavam a tocar. (CD ECM, na FNAC).


 


BACK TO BASICS – O único encanto do passado é que já passou – Oscar Wilde


 

agosto 31, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Agosto)

IMPRENSA – Este jornal de papel que temos nas mãos é um bom modelo de segmentação. Não é por acaso que a imprensa económica conseguiu manter a sua circulação – é uma informação especializada, numa época em que a crise leva mais pessoas a quererem ter um conhecimento mais detalhado de todo o universos empresarial e económico. Portugal é um caso interessante deste ponto de vista, em termos de estudo dos comportamentos dos leitores. Olhamos à volta e vemos uma imprensa desportiva sólida, liderada pelo “Record”, porque trata em profundidade um tema específico que é o desporto; vemos uma imprensa económica que mantém e reforça audiências porque trata de uma area  bem segmentada; e na imprensa diária a liderança pertence a um jornal que publica informação sobre todas as áreas mas que é, curiosamente, o que mais atenção dedica a noticiário local de diversas regiões – para mim continua a ser essa a chave do sucesso do “Correio da Manhã” (nota – pertence ao mesmo grupo de media que, entre outros, edita este “Jornal de Negócios” e o “Record”). Ao mesmo tempo assistimos a um declínio dos jornais diários de referência, que não têm sido capazes de estudar e seguir o comportamento dos seus públicos-alvo, e à manutenção de um jornal semanal de referência (o “Expresso”), que tem até reforçado o seu papel institucional. Finalmente temos as duas principais revistas semanais de informação com números que há uns anos seriam considerados demasiado optimistas. Serve tudo isto para dizer que em Portugal o papel continua a ser um suporte de informação com peso e valor, mais acentuado quando a segmentação de cada produto está bem conseguida. Mas como será o futuro?


Um estudo publicado esta semana na Austrália considera que naquele país os jornais, na sua forma actual, estarão condenados na próxima década. Surgem cenários de e-readers, sucessores do actual ipad e dos tablet PC, à venda por dez euros daqui a uma dúzia de anos. Em todo o mundo, e não só na Austrália, em 2020 estarão a entrar na vida activa todos os que já nasceram num mundo digital – que sempre usaram computadores, que sempre procuraram programas de televisão for a das estações tradicionais, que procuram, usam e convivem desde sempre com a informação e os dispositivos digitais. A mudança geracional vai ter enormes consequências nos próximos dez anos e há especialistas que dizem que a partir de 2015 (quando os nascidos em 1990 tiverem 25 anos), a aceleração das alterações de padrões de consumo e comportamento sera brutal e com consequências ainda agora ignoradas. Seja como fôr é certo que a informação irá ser cada vez mais segmentada, procurando ir de encontro aos gostos individuais das pessoas, terá que ter cada vez mais um âmbito local para poder responder aos interesses práticos dos consumidores e será cada vez mais feita de forma interactiva com os leitores ou espectadores. Parece também seguro que a próprio modelo de negócio dos media reforçará nos próximos anos a importância dos conteúdos, da sua utilização em diversas plataformas e também a forma como utilizam as redes sociais. O futuro próximo na area dos media irá conhecer grandes transformações, mas a procura pela informação continuará. É uma questão de as empresas de media conseguirem alterar o seu modelo de negócio sabendo que no final da presente década o mundo terá mesmo mudado. E, por muito que isto custe, não é certo que o papel sobreviva nestes processos de mudança. A mudança de geração em idade activa e de consumo vai trazer esta mudança inevitável. Mais vale prepararmo-nos para ela.


 


PRESIDENCIAIS – Tudo indica que vamos ter uma presidenciais animadíssimas: entre quatro a seis candidatos à esquerda e um ou dois à direita. Se Cavaco fôr sózinho, à direita, pode bem acontecer que ganhe logo à primeira volta. Se houver outro candidato no seu terreno político é quase certo que teremos uma disputada segunda volta. Já aqui o escrevi uma vez – surgirem vários candidatos é natural, é positivo e é uma consequência da democracia. Da mesma forma que não gosto de um regime de partido único também não me apetece uma eleição de candidato único, seja de que lado fôr. O actual cenário politico desgasta quer Cavaco quer Alegre; Cavaco porque o seu imobilismo e a sua visão restritiva dos poderes presidenciais face à crise arrastada deixa dúvidas na sua base de apoio sobre a utilidade da sua reeleição; e Alegre porque terá pela frente uma governação do PS que em matéria orçamental e de reformas colide com as suas propostas políticas mais emblemáticas. Cavaco e Alegre estão prisioneiros da crise e dos compromissos do regime. Os outros candidatos não, e esse é um factor certo de perturbação na primeira volta  - que bem pode vir a ter efeitos na definição de quem fica apurado para a segunda volta das presidenciais.


 


ARCO DA VELHA – Primeiro surgiram as questões sobre o que devia ou não devia estar no Orçamento de Estado; depois retomou-se a polémica sobre a revisão constitucional. Pelo meio foram surgindo intrigas e, dos dois lados, o tom de voz foi subindo. A crise política existe e o único calmante que tem é o facto de o governo estar paralisado e inoperante o o PSD ainda não se sentir em condições para ir a votos. De modo que é uma crise sem resultado à vista. Ir-se-ão atacando até se acabar naquele final bem português: agarrem-me senão eu bato-lhe.


 


OUVIR – O mais recente disco do pianista Ahamad Jamal, “A Quiet Time”, é um exemplo de como a criatividade e a invenção se podem ir desenvolvendo ao longo da vida de um artista. Jamal tem agora 80 anos e a sua carreira de músico de jazz começou no início da década de 50 do século passado, há 60 anos. É impressionante ouvir este disco, maioritariamente de composições originais do próprio Ahmad Jamal, e observar a sua frescura e a intensidade com que continua a tocar piano, e sobretudo a integridade do seu estilo, sempre acompanhado por um trio. Os meus temas favoritos são “Paris After Dark”, “Poetry”, “My Inspiration”, “A Quiet Time” e a versao de “I Hear A Rapsody”, um tema popularizado por Jimmy Dorsey. CD Dreyfus Records, na FNAC


 


VER – O fotojornalista Alfredo Cunha apresenta no Arquivo Fotográfico de Lisboa uma exposição retrospectiva intitulada “Estamos no Mesmo Sítio 1970-2010”, que assinala os seus 40 anos de trabalho enquanto reporter fotográfico e a doação do seu espólio ao arquivo. Alfredo Cunha começou no Século, trabalhou em diversos jornais diários, passou pela agência noticiosa, e trabalhou para numerosos jornais e revistas, sempre acompanhando a actualidade com um olhar muito particular e próprio. As suas imagens são de um observador, não neutral, com capacidade de contar uma história numa imagem. A exposição está até 8 de Setembro e o Arquivo Fotográfico fica na Rua da Palma 246 com um horário pouco prático: de terça a sexta das 10 às 18h30 e dois sábados por mês até às 17h00


 


PETISCAR – O Xica Bia, em Setúbal, oferece petiscos de origem alentejana numa cidade onde o peixe costuma ser rei. Aqui também há peixe, mas o interesse está noutras coisas, como uma sopinha de beldruegas, uma açorda de bacalhau ou um muito simples e superiormente confeccionado cozido de grão. Ao comando das operações, há mais de uma década, está António Saião, natural de Serpa, que orienta a sala de forma atenta, procurando sempre ver se algum cliente precisa de mais alguma coisa. As entradas são muito boas, desde os enchidos fatiados até uma pasta de linguiça, passando por uma saladinha de orelha de porco. A garrafeira é sólida e a preços sensatos. A sala é confortável, espaçosa, bem recuperada para a função. Decididamente um sítio a manter em agenda. Avenida Luisa Todi 131 (junto ao Pingo Doce), telefone 265 522 559.


 


 


BACK TO BASICS – Estudem o passado se querem saber definir o futuro – Confúcio


 

agosto 23, 2010

(Publicado no Jornal de Negocios de 20 de Agosto)

O PONTAL – A política faz-se com emoção, faz-se com comunicação, faz-se com paixão e entusiasmo. Só lógica não chega. O discurso de Pedro Passos Coelho no Pontal foi um exemplo de lógica e um desastre de comunicação – à meia noite de um sábado a meio de Agosto esteve mais de dez minutos a falar do enquadramento geral das coisas e o resultado é que a parte mais importante do discurso já não foi transmitida em directo pelas televisões. Se o objectivo era colocar a posição sobre o orçamento de Estado nos jornais e nos telejornais posteriores, mais valia tê-lo feito logo no início. Falou, bem, da justiça, mas esqueceu a educação. Saltou demasiados temas.  Em termos televisivos a entrada do líder podia ser um bom momento, mas aqui, na sua ânsia de unificar o PSD e não perder apoios internos, Pedro Passos Coelho resolveu dividir a sua entrada com Mendes Bota, que para muito eleitorado próximo do PSD é um exemplo daquilo que não se deseja. Mas acima de tudo o comício esteve mal encenado e Passos Coelho tem pela frente o desafio de ser capaz dedar emoção a boas ideias. Se quer disputar eleições, o que acontecerá mais cedo ou mais tarde, mais vale começar já a pensar que precisa de sair das fronteiras do seu partido para ganhar, precisa de entusiasmar as pessoas. Não é fácil, mas sem essa capacidade de comunicação que a emoção proporciona, será muito difícil mobilizar eleitores para o seu projecto. Até agora Pedro Passos Coelho federou as facções internas, mas como adiante provavelmente se verá, é uma unidade fraca, que tem o ónus de tornar desconfiados os que não pertencem ao PSD. Há demasiada confusão dentro do caldeirão, e todos estes pequenos incidentes, desde o atabalhoamento da proposta de revisão Constitucional, à encenação escolhida para o Pontal, mostram isso mesmo. Os independentes nunca gostam do aparelho. Os líderes precisam dele. Gerir o equilíbrio de forma eficaz é o que tem faltado a este PSD e isso é preocupante e um mau sinal de como se encara a participação dos cidadãos que não querem estar nos partidos.


 


AUDIÊNCIAS TV – A TVI desencadeou uma tempestade sobre a medição de audiências. Convém recordar que a medição é feita da forma que actualmente existe porque os canais generalistas de sinal aberto assim diligenciaram há uns anos. Está em curso, desde há meses, um processo de revisão do sistema de audiometria, que tenha em conta a nova realidade do cabo, das caixas digitais que já estão num número significativo de casas, a eventualidade da proximidade e expansão da TV via internet e, claro, a atrasadíssima e já quase inútil televisão digital terrestre. A TVI veio a terreiro gritar que o rei vai nu porque ficou com o corpinho a descoberto – José Eduardo Moniz nem há um ano saíu e, nesta altura, em termos de share, a TVI já tem muitos dias em que não se pode gabar de ser líder. Mas tirando as dores de alma da TVI, o que verdadeiramente interessa é assegurar que o futuro sistema de medição de audiências tenha em conta o peso crescente dos canais por assinatura, que claramente são os mais prejudicados no sistema actual. Há quem diga que uma medição rigorosa daria aos canais comerciais em sinal aberto um share conjunto que andaria entre os 55 a 65% do número efectivo de telespectadores, contra os cerca de 75 a 80% actuais. O que se deseja é uma amostra maior, melhor, que permita segmentar e estudar de forma mais precisa quem vê TV. A televisão, em Portugal, entrou na era da segmentação de públicos e, se o próximo modelo de estudos de audiência não tomar isto em conta, toda a gente vai continuar a viver num grande engano.


 


ARRÁBIDA – Não percebo como se deixou chegar a Arrábida ao ponto em que está. Entre os fundamentalismos dos responsáveis do Parque Natural – que como este ano se tornou dolorosamente evidente têm um efeito contrário ao pretendido – e a total inoperância do Instituto de Conservação da Natureza , a Arrábida é actualmente o espelho não de uma protecção ambiental bem sucedida, mas de medidas administrativas que por acção, omissão e negligência provocaram uma situação de facto que é de abandono do património natural, histórico e cultural da região. A incompetência dos responsáveis, aliada a uma leitura messiânica da protecção baseada no afastamento de visitantes  levou à penalização e perseguição da utilização pública de espaços naturais. Na Arrábida as autoridades preocupam-se em perseguir as populações e as suas actividades tradicionais, enquanto implicitamente defendem as actividades agressoras do ambiente, como a cimenteira, dando-lhe o aval do Estado através dos contratos de co-incineração. Na Arrábida o Estado nem sequer assegura vigilância e limpeza eficazes – como este ano dolorosamente está à vista de todos. Para quando um inquérito aos responsáveis do Parque Natural da Arrábida?


 


REALIDADE - Um mês de floresta a arder, um mês de aflições, mortes, prejuízos, esforços. Um país virado para a floresta e de costas voltadas para o mar. O mar, que não arde, podia ser a nossa riqueza maior, gerava mais emprego e criava riqueza, numa zona económica exclusiva maritima extensa cuja exploração nunca mais é encarada como deve ser. Uma das más heranças para as próximas gerações é a forma como temos desprezado o mar. O nosso mar.


 


LER – Muito útil nesta encruzilhada em que estamos, “Portugal em Números”, o terceiro volume da colecção “Ensaios da Fundação” (Fundação Francisco Manuel dos Santos). Da responsabilidade de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, “Portugal em Números” faz uma compilação útil e actualizada dos principais indicadores, que nos permtem ter uma noção do que é a nossa verdadeira situação para além da demagogia dos politicos.


 


OUVIR – Decididamente o disco deste verão é “The Suburbs” dos canadianos Arcade Fire. Canções simples e eficazes, letras que são mini narrativas do quotidiano, arranjos simples e criativos, de que são bons exemplos os temas “Half Light” e “Spraw”, divididos em duas partes, cada um, numa invulgar e bem conseguida exploração de novas fornteiras formais da canção. Há canções excepcionais, desde logo “The Suburbs” ou “City With No Children”, mas na realidade este album dos Arcade Fire é uma colecção de temas que se podem ouvir, vezes a fio, sempre com um sentimento de descoberta. Claramente um dos melhores discos deste ano.


 


PETISCAR – As sardinhas, este ano, estão como os melões – andam incertas e parece que lhes falta qualquer coisa. Mas mesmo assim, esta semana comi as melhores sardinhas deste Verão num restaurante, simpático, à beira da estrada, entre Palmela e Azeitão. Chama-se “Retiro do Gama” e tem no comando das operações Carlos Gama. Eis um caso em que o dono está atento aos comensais, a ver o que pode faltar em cada mesa, a orientar o serviço dos empregados. Um exemplo para outros locais de restauração onde o serviço ao cliente é coisa ignorada. As sardinhas vinham perfeitas, pele estaladiça, a saltar, fresquíssimas, assadas no ponto. Grelhadores há muitos, bons mestres de grelha há poucos e o “Retiro do Gama” tem uma boa grelha. Ao longo do último ano tenho assistido à transformação do espaço. Carlos Gama nestes tempos de crise é um exemplo: aos poucos foi reinvestindo no espaço – melhorou e ampliou a esplanada, de tal maneira que agora quase se esquece estarmos à beira da estrada. Mas como nem só de grelha vive um restaurante ha opções como uma caldeirada à antiga, um ensopado de enguias e um arroz de lingueirão que também dá que falar. Aberto aos almoços de terça e domingo e aos jantares de quinta a domingo. Retiro do Gama , Avenida Visconde de Tojal, Cabanas,  Quinta do Anjo, telefone 937841997.


 


 


ARCO DA VELHA – Um país que fecha escolas primárias em vez de fazer uma reforma do ensino médio, técnico e superior está a brincar com o futuro à custa dos nossos impostos.


 


 


BACK TO BASICS –  A História da Humanidade é cada vez mais um confronto entre a educação e a catástrofe, H.G. Wells



 


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Agosto)

 


LISBOA -Este ano o trânsito nas entradas e saídas de Lisboa diminuíu menos do que é costume nos meses de Agosto. A cidade tem menos gente e está mais inactiva – apesar da quantidade de turistas que se vêem em todo o lado.  A programação  de actividades de entretenimento tem outra vez maior incidência em Junho e Julho – às vezes demais – e de menos em Agosto. A cidade – a sua Câmara e os organismos a ela ligados – preferem ir de ferias no mês quente e esquecem quem fica – ou visita – a cidade. O Terreiro do Paço é um deserto deplorável que nestes dias de calor parece um grelhador. Uma praça lindíssima apresenta-se como um vazio inóspito e insuportável, fruto de incompetências variadas e do eterno deixa andar desta autarquia. A programação das actividades na cidade podia ter em conta as modificaç\oes da sua população residente e visitante – mas não faz isso por puro desleixo ou, admito, por crassa incompetência. Mesmo aquilo que existe e vale a pena conhecer está mal divulgado – a actividade de comunicação e de publicidade das entidades públicas é um exemplo de como se estraga muitas vezes o bom trabalho de concepção e programação por falta de ousadia e aposta em mostrar de facto o que existe. Lisboa tem em numerosas instituições coisas a acontecer que ficam apenas para os iniciados – o desprezo pela captação de públicos é sistemático. Ninguém perceberá que assim o investimento de produção é deitado ao lixo? Que se investiu a pôr de pé iniciativas que depois não são publicitadas devidamente?


 


PARIS - Durante este ano cerca de 20 filmes estrangeiros estão a ser rodados em Paris e a isto devem ser acrescentadas algumas séries de televisão. O facto não se deve às belezas da cidade nem à elegância dos seus habitantes. A resposta é simples: incentivos fiscais. A FilmCommission local conseguiu um desconto de 20 por cento nos impostos aplicáveis – à semelhança do que existe em algumas outras cidades europeias. Paris conseguiu assim tornar-se tão competitiva que este ano decorrrerão filmagens em 330 dias, gerando uma facturação de 100 milhões de euros em técnicos e empresas especializadas locais. O objectivo dos responsáveis é conseguir atingir 200 milhões de facturação nas equipas e empresas locais por parte dos produtores estrangeiros. A isto devem acrescentar-se todas as facturações realizadas em hoteis e restaurantes, que nem sequer são contabilizadas para este efeito. Quando dentro de meses o realizador francês Luc Besson inaugurar o seu novo estúdio de grandes dimensões, Paris ficará, em termos de facilidades técnicas, em pé de igualdade com Londres ou Berlim. Para o registo é bom que fique ditto que em Portugal tem sido sempre impossível de montar uma Film Commission que tenha para oferecer incentivos fiscais porque nos últimos 25 anos todos os titulares dos Ministérios das Finanças recusaram sequer discutir esse assunto.  Já agora Portugal tem a melhor luz, o melhor clima e tinha (porque entretanto algumas se desfizeram) grandes equipas técnicas. Portugal – e Lisboa em particular – tinha tudo para poder ser um polo de atracção para produções internacionais. Só não tem visao – na Câmara e no Governo.


 


 


ESTRANHO – De tudo o que se vai lendo e sabendo a actuação de Cândida Almeida no processo Freeport merecia ser investigada. Com os dados que existem é lícito questionar se ela manipulou e condicionou as investigações, se o fez por razões políticas, se escolheu esse caminho por instruções governamentais ou por simpatias pessoais. Cândida Almeida colocou-se a ela, e pior ainda, à justiça, na posição de não ser credível e de ser suspeita de parcialidade no seu juízo.


PETISCAR – Nestes dias quentes, se estiver em Lisboa, aventire-se ao Lumiar, perto da Alameda das Linhas de Torrres, e vá experimentar o restaurante Quinta dos Frades. A sala é acolhedora e bem fresca, o serviço é absolutamente impecável e a orientação culinária é do chefe Chakall. Destaque positivo para a qualidade do serviço dos vinhos, com os tintos à temperatura perfeita para esta altura do ano.


Num destes dias ao almoço resolvi experimentar o Bife Amália, um belo pedaço de lombo, competentemente temperado e confeccionado, serviço com um ovo de codorniz a cavalo, um pouco de presunto de boa qualidade, esparregado belíssimo e umas batatas épicas. Durante o mês de Agosto há uma oferta de degustação de champagne Gosset, acompanhado por umas tapas soberbas.  No fim a conta não é pequena, mas tendo em conta a qualidade geral, é ajustada. O Quinta dos Frades fica na Rua Luis de Freitas Branco 5D, telefone 21 759 89m80, tem área para fumadores e informações complementares em www.quintadosfrades.com


 


DESCOBRIR – A edição de verão da Monocle deixou o seu formato habitual e é um belo jornal, de 64 páginas, em bom papel, dedicado ao Mediterrâneo. Tyler Brulé, o fundador e editor da Monocle, explica que tomou a decisão de fazer ium jornal para as pessoas o poderem levar para a praia ou a piscineasem medo de lhe cair água em cima. É convenientemente agrafado, tem numerosos artigos de interesse, de sugestões de visita até gastronomia (receitas incluídas) ou até memorias históricas dos vícios das civilizações mediterrânicas. Tyler Brulé diz que com esta edição se consegue fazer o que é imposssível com um iPad – lê-lo em qualquer local ao sol, dentro de água, sem medo de estragar nada. Pelo menos ele merece um elogio pela forma como nesta época digital se agarra ao papel de jornal.


 


LER – Kjell Askildsen é um escritor norueguês que se tornou conhecido pelos seus contos, curtos, minimalistas, cheios de humor e ironia. “Um Repentino Pensamento Libertador”, é uma recolha de contos de diversas épocas da sua carreira literária e é um livro absolutamente delicioso para ler nestes dias quentes. Uma dúzia de contos, cada um deles com dez a 15 páginas, todas as histórias deliciosas. Lê-se um conto entre dois mergulhos, e vai-se para o mar sorridente.


 


OUVIR – Wynton Marsalis convidou Paco de Lucia para embarcar com ele numa experiência, partilhada com a Orquestra Jazz At The Lincoln Center , baseada na exploração das possibilidades de cruzamento do jazz com música tradicional espanhola , do flamenco ao folklore basco. Claro que podemos pensar que “Sketeches of Spain”de Miles Davis teve alguma influência nesta experiência, mas a verdade é que este “Vitoria Suite” é um disco arrebatador e um exempçlo de que o jazz continua a estar aberto a fazer experio~encias. Duplo CD com um DVD suplementar – 2Vitoria Suite”, Jazz At Lincoln Center, with Wynton Marsalis, featuring Paco de Lucia” Edição Universal/ Emarcy, na FNAC.


 


ARCO DA VELHA –nPinto da Costa defende Carlos Queiroz; O PS vai expulsar uma centena de militantes por actos praticados nas ultimas eleições; Documentos sobre o Freeeport em que aparece o nome de José Sócrates não estão no processo e encontram-se no cofre da PJ de Setubal.


 


BACK TO BASICS –  A Europa foi criada pela História; a América pela filosofia – Margaret Thatcher


 


 

agosto 06, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 6 de Agosto)

BANANAS - Em pleno ano das comemorações do centenário da regime republicano devo aqui agradecer ao Procurador-Geral Pinto Monteiro o facto de ter demonstrado cabalmente que, afinal, somos uma República das Bananas. Agora, apropriadamente, pode dizer-se que vivemos sem rei nem roque. A entrevista que o Procurador-Geral deu esta semana é elucidativa da degeneração do sistema judicial – na realidade depois desta entrevista, e sem exagerar, percebe-se que estamos perigosamente em vias de deixar de ser um Estado de Direito.


Os problemas na Procuradoria vêm de longe e são anteriores a Pinto Monteiro. Tudo o que ele descreve na referida entrevista pode ser repescado ao longo dos anos – as guerras internas de poder e de protagonismo, as fugas selectivas de informação, os conflitos com a Polícia Judiciária, a politização da justiça e a judicialização da política. Na realidade a Procuradoria tem servido para tudo isto, tem sido uma espécie de viveiro de atentados ao Estado de Direito, de desrespeito pelos cidadãos. Como se pode resumir o que tem acontecido ao longo dos anos? -  investigações longuíssimas, muitas vezes espalhafatosas demais, que numa percentagem acima do que é aceitável resultam em quase nada. O efeito disto é simples: descredibiliza a justiça, faz os cidadãos ficarem mais desconfiados e torna evidente que por detrás de tudo isto há jogos de poder e manobras políticas. Arrisco-me a dizer que este caso ainda pode vir a abrir uma crise política de contornos e consequências imprevisíveis. Num momento em que todos os actores do regime tinham decidido entrar em pausa na sucessão de crisezinhas que desde as últimas eleições marcam a política portuguesa, esta caso traz para primeiro plano a absoluta falência do sistema judicial e as interferências da política na magistratura e vice-versa. O Primeiro Ministro veio-se gabar do fim do processo Freeport. Falou cedo demais, como agora se comprova.


 


CLIENTE – Ser cliente em Portugal, de empresas em regime prático de monopólio, é uma grande maçada. Nesta semana tive ocasião de sentir a atenção que a EDP dedica aos seus estimados clientes. Por volta das cinco e meia da tarde fiquei sem energia eléctrica em casa. Do número de atendimento das avarias disseram-me que existia um corte de energia naquela zona, devido a um problema num posto de transformação, onde já estava um piquete. Afirmaram que cerca das 19h00 contavam ter a avaria resolvida. Na realidade nada disso aconteceu e, a partir de cerca das 21h30, já noite portanto, tornou-se impossível contactar o número de informações sobre avarias – um número que é anunciado estar disponível 24 horas por dia. Fiz numerosas tentativas que esbarraram sempre numa gravação  do género «este número não pode de momento ser contactado». Já passava das 23h30 quando a energia eléctrica finalmente voltou. A avaria durou sensivelmente seis horas, um terço das quais sem possibilidade de obter informação, três vezes mais que o tempo inicial estimado de reparação. Tweettei diversas vezes sobre o assunto e, um dos comentários de resposta dizia isto: o grande problema é que uma boa parte dos postos de transformação já devia ter sido substituído face aos aumentos de consumo, só que o plano de renovação é tímido para não influenciar negativamente os resultados da empresa. Pois, assim a opção é prejudicar os consumidores… Cá para mim o regulador do sector também devia analisar estas questões – forma de atender os clientes, estado de conservação dos equipamentos, exigências de cumprimento de horários e dos deveres de fornecedor.


 


CONTEÚDOS – Todas as empresas de media que se queixam de quebras em publicidade deviam olhar com cuidado para os conteúdos que estão a produzir. Todas as empresas que editam imprensa deviam pensar que os seus clientes são de facto, em primeiro lugar, os leitores e assinantes e não os anunciantes. A frase não é minha, é de Charles Townsend, CEO da Condé Nast, um dos maiores editores americanos de revistas que explicava como a missão do novo presidente da empresa, Robert Sauerberg, é fazer com que a empresa dependa menos das receitas de publicidade e mais das vendas de banca, das assinaturas digitais e, em geral, da venda de conteúdos. Os leitores são a razão de ser das publicações. Parece óbvio mas às vezes não se liga muito ao assunto.


EVITAR – O restaurante do Clube de Jornalistas dispõe de um agradável jardim , protegido do vento, que é o ideal para jantares nestas noites quentes de Lisboa. Animado e bem disposto avancei rumo ao local, de que me diziam dispor agora de uma cozinha interessante. De facto a cozinha é interessante, embora não esplendorosa. Se o balanço da noite se medisse penas pelo local e pela confecção culinária o resultado seria nota 3 num máximo de 5 e a coisa teria sido simpática. O problema é que o serviço de mesa é cada vez mais parte importante de uma refeição e esse, ali deixa muito a desejar. Comecei a suspeitar que as coisas não iriam correr bem quando percebi que o vinho não era deixado na mesa, mas sim colocado a uma considerável distância – esta finura só é possível quando existem empregados muito atentos e experientes, senão mais vale deixar o vinho convenientemente colocado junto aos comensais. A culpa não será dos jovens, certamente estagiários – os copos não eram adequados ao vinho em causa, uma nova garrafa entretanto pedida era diferente da original e encontrava-se a uma temperatura impossível. Tudo isto poderia evitar-se se os responsáveis do restaurante estivessem atentos à sala e às operações e instruíssem os estagiários. De forma que aquilo que prometia ser uma agradável noite de conversa com amigos ficou estragada pelo mau serviço. Como agora tweeto quando me aborreço, logo recebi várias mensagens a confirmar que naquele local o serviço, de facto, é para esquecer. É uma pena – o cozinheiro merecia melhor sorte. Clube de Jornalistas, Ruya das Trinas 129, telef 213977138.

LER  – Por perfeito acaso descobri uma revista sobre música que é um verdadeiro achado. Chama-se «The Believer», uma publicação originária de São Francisco. Na edição de Julho/Agosto estava incluindo um CD com uma compilação de novas bandas, desde os sul africanos BLK JKS, até rappers como Spree Wilson ou exercícios em torno da soul, dos Tendaberry e até M.I.A, por estes dias no Sudoeste. O disco vale mesmo a pena e só por si justifica a compra da revista – que por cá está á venda a 17,50€. Além do disco, outros motivos de interesse: um belo artigo sobre os diários de Nina Simone com algumas revelações curiosas, uma entrevista com Robert Forster, ex-Go-Betweens, vários artigos sobre cultura urbana e uma coluna de Nick Hornby com sugestões de leitura. Podem ter uma ideia digital da coisa em www.believermag.com e entretanto já reparei que a revista apareceu à venda noutros pontos seleccionados especializados em revistas estrangeiras.

VER – Vale a pena descobrir os cruzamentos de Andy Warhol com a imagem fotoigrafada e filmada e, em particular, com a televisão – desde filmes que ele produziu e realizou, até um episódio da série «Love Boat» em que foi actor, passando por um videclip dos Cars ou a sua passagem pelo histórico programa «Saturday Night Live». A exposição está bem montada, é ao mesmo tempo divertida e informativa e, no fundo mostra como ele era um artista do seu tempo. Um grande e descomplexado artista pop. «Warhol TV», até 14 de Novembro, no Museu Berardo, CCB.


 


ARCO DA VELHA – O PSD caiu cerca de dez por cento em duas recentes sondagens. Será que os líderes do partido vão começar a fazer propostas em função dos resultados de estudos de opinião?


 


BACK TO BASICS – As sondagens são uma colecção de estatísticas que mostram como as pessoas realmente pensam – Stephen Colbert

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de Julho)

INCERTEZAS – Neste país tudo parece incerto. Nada é dado por adquirido. Os políticos dizem uma coisa num dia e negam tudo no dia seguinte. A incoerência e a incerteza andam de mãos dadas na cartilha que os políticos aprenderam e que usam no dia a dia. A mentira tornou-se parte da relação entre políticos e cidadãos – o rol é imenso desde promessas eleitorais não cumpridas a anúncios de medidas que nunca se cumprem, passando por zigue zagues permanentes. A realidade portuguesa dos últimos anos podia sintetizar-se assim: tudo é incerto, a única coisa certa é que Sócrates, para mal dos nossos pecados, lá continua a piorar as nossas incertezas.


A nossa justiça é incerta – é tão demorada que quando termina qualquer coisa fica sempre uma desconfortável sensação de incerteza, de desconfiança. O Freeport demorou cinco anos a instruir porque teve pressões e foi manobrado, ou só porque a máquina judicial é uma porcaria? O julgamento da Casa Pia tinha mesmo que demorar cinco anos, ou foi assim para diluir as coisas no tempo?


Os nossos impostos são incertos – se a inflação fosse medida com base no aumento da carga fiscal estávamos a rebentar a escala.


A nossa produção de bens essenciais é incerta e estranha – vejam os dados estatísticos do que importamos e espantem-se em como de repente importamos tudo e mais alguma coisa em termos agrícolas – até alhos.


Aos poucos estamos a deixar de ser um país e estabelecemo-nos como mero entreposto. A incerteza não podia ser maior.


 


ESPANTO – Foi com total perplexidade que assisti ao empenho do Ministro Jorge Lacão no anúncio da criação de um canal de televisão lusófono, feito em parceria com o Brasil e com outros países, envolvendo os respectivos serviços públicos. O homem saberá do que está a falar? Imaginará a camisa de onze varas em que se coloca? Terá alguma noção do caldeirão esquizofrénico que esse hipotético canal será? No primeiro semestre deste ano a RTP recebeu a títulos diversos do Estado 142 milhões de euros, já para não falar do que cobrou nas contas da EDP aos cidadãos. O Ministro acha que isto é pouco e quer colocar ainda mais dinheiro neste sorvedouro? O Ministro achará normal colocar mais comunicação na dependência do Estado? Alguém pode explicar ao Ministro que, para defender a lusofonia, em matéria audiovisual, é mais importante promover e estimular conteúdos audiovisuais interessantes, na área do documentário e da ficção, do que financiar plataformas de distribuição de duvidosa eficácia e discutível oportunidade?


 


 


VER – A exposição retrospectiva de Ana Vidigal, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, é absolutamente imperdível. Com uma montagem muito conseguida, que permite seguir a evolução do trabalho da artista ao longo do tempo, «menina Limpa, Menina Suja», assim se chama a exposição, é um bom exemplo daquilo que se deve fazer com os artistas portugueses, por forma a divulgar a sua obra. Isabel Carlos, que agora dirige o CAM, entrou com o pé direito e com um resultado de uma força invulgar. Cheia de referências pessoais, relacionadas com o contexto da história recente portuguesa, a obra de Ana Vidigal, percebe-se bem aqui, é um belo retrato das últimas quatro décadas portuguesas. NO CAM até 26 de Setembro


 


PERCORRER – Fazer uma exposição de veículos antigos pode não ter grande graça – ou pode ser um pretexto para um exercício criativo. Foi isto que a equipa do MUDE conseguiu de forma exemplar. A partir da colecção de scooters de um particular, João Seixas, que para o efeito a cedeu ao Museu, foi feita uma montagem exemplar. No primeiro andar do MUDE a exposição foi montada com base numa cenografia que evoca as estradas e o movimento. A colecção, mostra a evolução das scooters, por marca e nacionalidade, entre o fim da Segunda Guerra e os anos 70. Não pensem que isto é só Vespas: há de tudo, desde as históricas e potentes NSU e Heinkel, passando pelas Lambrettas ou pela muito portuguesa Carina. São dezenas de scooters, impecavelmente restauradas e todas em ordem de marcha. O MUDE teve o cuidado de fazer acompanhar a evolução das máquinas ao longo do tempo por uma série de manequins com roupa desses anos, proveniente da colecção de Moda do Museu. O comissariado é do coleccionador João Seixas e de Pedro Teotónio Pereira, da equipa do MUDE, e o título da exposição, que estará patente até 24 de Outubro, é, «Lá Vai Ela, Formosa e Segura». Termino com uma citação de um poema de António Gedeão, de 1961, evocado no catálogo da exposição:  «voando para a praia, na estrada preta/ vai na brasa, de lambreta».


 


LER – Neste momento em que se fala da necessidade de reformar o Estado Social é particularmente útil ler o ensaio da autoria do historiador Luciano Amaral, «Economia Portuguesa – As Últimas Décadas», publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. São cerca de cem páginas onde se faz o retrato da evolução da economia portuguesa dos anos 50 até agora e se analisa com algum detalhe o estado providência e os reflexos no mercado de trabalho e na educação da situação geral económica do país. «Nos últimos dez anos, em comparação com os países mais ricos, perdemos um terço do caminho que havíamos recuperado até ao ano 2000». O livro está escrito de forma acessível e a experiência de Luciano Amaral na investigação da história da economia proporciona enquadramentos fundamentais. Uma leitura absolutamente indispensável no contexto em que estamos.


 


OUVIR –Um dos melhores discos da carreira do saxofonista Art Pepper foi gravado numa sessão de estúdio inesperada, pouco depois de ter saído da prisão por consumo de droga, e num período muito conturbado da sua vida. A gravação decorreu em 19 de Janeiro de 1957 e Pepper foi acompanhado por Red Garland no piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria, três músicos que na época tocavam regularmente com Miles Davis e que eram uma das melhores secções rítmicas da época – daí o nome do disco: «Art Pepper meets The Rhythm Section». Destaque para uma versão arrebatadora de um tema de Cole Porter, «You’d Be So Nice To Come Home To» e para os temas «Jazz Me Blues» e «Tin Tin Deo», onde se sente a extraordinária sintonia dos músicos. A reedição do disco está incluída na série «Original Jazz Classics Remasters» da Concord- Universal Music e aqui surge uma registo até agora inédito, feito na mesma sessão, do tema «The Man I Love». CD disponível na FNAC.


 


PETISCAR – É sempre um prazer regressar ao La Moneda, um restaurante que combina um ar «trendy», com uma cozinha e ambiente despretensioso e preços acessíveis. Desta vez optei pelo prato do dia, que eram filetes com molho de amêndoa, e que estavam  fantásticos de estaladiço e de sabor. A sobremesa foi um inusitado mas muito agradável gelado de manjericão e a acompanhar o vinho branco da casa, um belo arinto Casal D’Além. Tudo junto somou 12,75€. Rua da Moeda 1C, telefone 213 908 012.


 


ARCO DA VELHA – Apesar da contenção o troço Poceirão-Caia do TGV arranca afinal em Setembro, anunciou esta semana o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça.


 


BACK TO BASICS – O mais importante é nunca deixarmos de nos interrogarmos – Albert Einstein